Escritos de Gustavo Corção [1]

Coletânea de ensaios, artigos, crônicas e estudos de um dos maiores escritores brasileiros.

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Table of contents :
Escritos de Gustavo Corção
Sumário
Crônicas
"Sou amigo de estrelas"
A Ariano Suassuna
A cosmovisão da lagartixa
A semana do gari
Ainda as comunicações com Brasília
Alguém mentiu
Antigamente calavam-se…
As comunicações do presidente Eisenhower
Castelo Branco
Centenário de Mozart
Detalhes da Ressurreição
Disparates e contradições do tempo
Encontros com Oswald de Andrade
G.K.Chesterton
Lembrança de Bernanos
O malogro de um jovem químico
O viúvo viu a ave
Os meninos se matam
Os ofícios alheios e o meu
Reminiscências astronômicas
Rostos, roupas e paramentos
Um amigo de verdade
Um dia após o outro
Wolfgang Amadeus Mozart
Literatura
Sobre Lições de Abismo
História
A guerra civil espanhola
Estamos no século XX
Falsificações da História
O alcázar de Toledo
O mito de Guernica
Política
A Crise da Democracia
Método de Escolha dos Chefes
Filosofia
A imortalidade
Contra o Evolucionismo dos evolucionistas
Cristianismo e humanismo
Existirá a matéria?
Implicações do Evolucionismo
Tudo é pó
Pensamento
A civilização do prazer
A esperada renovação
A pátria
A vocação da mulher
A voz dos Papas canonizados
Anarquismo e progressismo
Ano novo?
Como se inventa
De profundis
Do cientificismo às sociétés de pensée
Exegese de um lugar comum
Informação e formação
Introdução a um livro
Liberais e conservadores
Meditações sobre a ruína do mundo
Mísera sorte! Estranha condição.
Mundo, mundo...
O centenário de Freud
O homem e a natureza
O jogo esquerda-direita
O método de escolha dos chefes
O mundo perverso
O padre e a menina
O pessimismo de Freud
O progresso e Chesterton
O valor da vida
Os indiferentes
Os trinta risos do moribundo
Para não ser doido...
Suicídio e martírio
Um aspecto do freudismo
Um velho leigo interroga...
Família e moral
A casa
A volta para casa
Amor, casamento, divórcio
As virtudes militares
Concepção romântica e realista do amor
Fora da realidade
O casamento e a moral segundo Bertrand Russell
O problema do lazer
O quarto mandamento
Quem pensa não casa
Espiritualidade
A fecundidade dos santos e a esterilidade de nossas obras
A irrepreensível Providência
Comunitarismo em lugar da Comunhão dos Santos
Considerações sobre o Amor Próprio
Deus marcou encontro conosco
Natal
No Sangue
O dogma da Assunção
Outubro
Preceito e amor
Regina sine labe originali concepta
Rue du Bac
Santa Teresinha
Um estudo sobre o monaquismo
Vem e segue-Me
Virgo Singularis
Apologética
A Igreja é dona da verdade
Pode-se transigir em religião?
Teologia
A criação
A esperança
A Igreja do Céu
As duas vontades
Ciência e Fé
O medo e o santo temor de Deus
O mundo, a carne e o diabo: cruéis inimigos da Igreja e da alma
Curso de Religião
INTRODUÇÃO
1. PRIMEIRAS MOTIVAÇÕES
2. POSIÇÃO DO HOMEM
3. CIÊNCIA E SABEDORIA
4. A SAGRADA DOUTRINA
5. VANTAGENS DA CONEXÃO DOUTRINAL
CAPÍTULO I - CREIO...
1. A PALAVRA CHAVE
2. CERTEZAS E INCERTEZAS
3. A FÉ HUMANA.
4. A FÉ DIVINA
5. TUDO OU NADA
6. FÉ SOBRENATURAL
CAPÍTULO II - ... EM DEUS PAI TODO PODEROSO
1. O INSTINTO DE DEUS
2. A EXISTÊNCIA DE DEUS
3. AS CINCO VIAS
4. A FORÇA DE PERSUASÃO DAS CINCO VIAS
5. OS ARGUMENTOS MORAIS E PSICOLÓGICOS.
6. EXPERIÊNCIAS DA ALMA
7. NATUREZA E ATRIBUTOS DE DEUS
Vida dos Santos
Catarina de Sena
Estudo sobre Santa Catarina de Sena
I — O AMOR E O ODIO.
II — DIFICULDADES
III — FISIONOMIA
IV — O COLÓQUIO DAS CRUZES
V — IO VOGLIO
VI — O DESPREZO E O ZELO PELAS CRIATURAS
Liturgia
A mesa e a cruz
A primeira missa
A Semana Santa
E o mundo?
Marcos da eternidade
No limiar da Semana Santa
O descobrimento da Santa Cruz
O espantalho
O espírito de Quaresma
Páscoa
Quinta-feira Santa
Quinta-feira Santa!
Ressurreição
Ressuscitou!
Se Ele não tivesse vindo
Tempos de Páscoa
Vaticano II
A necessidade de explicar tudo
Dom Marcel Lefebvre fala
O valor do Concílio Vaticano II
Missa Nova e Reforma Litúrgica
A reforma litúrgica
Ainda reformas
Valerá a pena?
Crise da Igreja
"Novo Pentecostes"
A "igreja viva"
A Comunhão na mão
A descoberta da Outra
A revelação do homem
Dois e dois são quatro
Há ou não há demolição?
Humanitarismo de bastardos
Livrai-nos Deus de nossos inimigos
O esvaziamento católico
Padre Antonio
Pregação subliminal
Tribulações de um velho militante
Tudo é cinza
Um testemunho precioso
Polêmicas e Disputas
A desfiguração do Natal
Crítica à crítica da civilização científica
Desagravo
L'amor che muove il sole e l’altre stelle
Mauriac e seus críticos
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Escritos de Gustavo Corção [1]

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ESCRITOS DE GUSTAVO CORÇÃO

A presente obra é sem fins lucrativos. Todos os escritos foram recolhidos do site Permanência. Todos os direitos reservados. .

Editora Recordar. O. P. L.

Ao mestre Gustavo Corção.

SUMÁRIO Escritos de Gustavo Corção Sumário Crônicas "Sou amigo de estrelas" A Ariano Suassuna A cosmovisão da lagartixa A semana do gari Ainda as comunicações com Brasília Alguém mentiu Antigamente calavam-se… As comunicações do presidente Eisenhower Castelo Branco Centenário de Mozart Detalhes da Ressurreição Disparates e contradições do tempo Encontros com Oswald de Andrade G.K.Chesterton Lembrança de Bernanos O malogro de um jovem químico O viúvo viu a ave

Os meninos se matam Os ofícios alheios e o meu Reminiscências astronômicas Rostos, roupas e paramentos Um amigo de verdade Um dia após o outro Wolfgang Amadeus Mozart Literatura Sobre Lições de Abismo História A guerra civil espanhola Estamos no século XX Falsificações da História O alcázar de Toledo O mito de Guernica Política A Crise da Democracia Método de Escolha dos Chefes Filosofia A imortalidade Contra o Evolucionismo dos evolucionistas Cristianismo e humanismo Existirá a matéria? Implicações do Evolucionismo Tudo é pó Pensamento A civilização do prazer A esperada renovação A pátria A vocação da mulher A voz dos Papas canonizados Anarquismo e progressismo Ano novo? Como se inventa De profundis Do cientificismo às sociétés de pensée Exegese de um lugar comum Informação e formação Introdução a um livro Liberais e conservadores

Meditações sobre a ruína do mundo Mísera sorte! Estranha condição. Mundo, mundo... O centenário de Freud O homem e a natureza O jogo esquerda-direita O método de escolha dos chefes O mundo perverso O padre e a menina O pessimismo de Freud O progresso e Chesterton O valor da vida Os indiferentes Os trinta risos do moribundo Para não ser doido... Suicídio e martírio Um aspecto do freudismo Um velho leigo interroga... Família e moral A casa A volta para casa Amor, casamento, divórcio As virtudes militares Concepção romântica e realista do amor Fora da realidade O casamento e a moral segundo Bertrand Russell O problema do lazer O quarto mandamento Quem pensa não casa Espiritualidade A fecundidade dos santos e a esterilidade de nossas obras A irrepreensível Providência Comunitarismo em lugar da Comunhão dos Santos Considerações sobre o Amor Próprio Deus marcou encontro conosco Natal No Sangue O dogma da Assunção Outubro Preceito e amor

Regina sine labe originali concepta Rue du Bac Santa Teresinha Um estudo sobre o monaquismo Vem e segue-Me Virgo Singularis Apologética A Igreja é dona da verdade Pode-se transigir em religião? Teologia A criação A esperança A Igreja do Céu As duas vontades Ciência e Fé O medo e o santo temor de Deus O mundo, a carne e o diabo: cruéis inimigos da Igreja e da alma Curso de Religião INTRODUÇÃO 1. PRIMEIRAS MOTIVAÇÕES 2. POSIÇÃO DO HOMEM 3. CIÊNCIA E SABEDORIA 4. A SAGRADA DOUTRINA 5. VANTAGENS DA CONEXÃO DOUTRINAL CAPÍTULO I - CREIO... 1. A PALAVRA CHAVE 2. CERTEZAS E INCERTEZAS 3. A FÉ HUMANA. 4. A FÉ DIVINA 5. TUDO OU NADA 6. FÉ SOBRENATURAL CAPÍTULO II - ... EM DEUS PAI TODO PODEROSO 1. O INSTINTO DE DEUS 2. A EXISTÊNCIA DE DEUS 3. AS CINCO VIAS 4. A FORÇA DE PERSUASÃO DAS CINCO VIAS 5. OS ARGUMENTOS MORAIS E PSICOLÓGICOS. 6. EXPERIÊNCIAS DA ALMA 7. NATUREZA E ATRIBUTOS DE DEUS Vida dos Santos

Catarina de Sena Estudo sobre Santa Catarina de Sena I — O AMOR E O ODIO. II — DIFICULDADES III — FISIONOMIA IV — O COLÓQUIO DAS CRUZES V — IO VOGLIO VI — O DESPREZO E O ZELO PELAS CRIATURAS Liturgia A mesa e a cruz A primeira missa A Semana Santa E o mundo? Marcos da eternidade No limiar da Semana Santa O descobrimento da Santa Cruz O espantalho O espírito de Quaresma Páscoa Quinta-feira Santa Quinta-feira Santa! Ressurreição Ressuscitou! Se Ele não tivesse vindo Tempos de Páscoa Vaticano II A necessidade de explicar tudo Dom Marcel Lefebvre fala O valor do Concílio Vaticano II Missa Nova e Reforma Litúrgica A reforma litúrgica Ainda reformas Valerá a pena? Crise da Igreja "Novo Pentecostes" A "igreja viva" A Comunhão na mão A descoberta da Outra A revelação do homem Dois e dois são quatro

Há ou não há demolição? Humanitarismo de bastardos Livrai-nos Deus de nossos inimigos O esvaziamento católico Padre Antonio Pregação subliminal Tribulações de um velho militante Tudo é cinza Um testemunho precioso Polêmicas e Disputas A desfiguração do Natal Crítica à crítica da civilização científica Desagravo L'amor che muove il sole e l’altre stelle Mauriac e seus críticos

CRÔNICAS "Sou amigo de estrelas" Foi num pára-choque de caminhão que li ontem estas palavras líricas. Entusiasmado, respondi com meus botões: — Também eu! Também eu! E num arroubo de saudades, sentime com cinco anos de idade, num jardim da Glória, entre outros meninos. Seria noite de janeiro e o céu resplandecia. Comecei então a dizer aos outros meninos os nomes das estrelas maiores: Aldebarã, Belatrix, Rigel, Archenar... Meu saber astronômico vinha das lições do poeta Emílio Kemp, que jantava em nossa casa todas as noites que se indispunha com a mulher. Dizia que vinha respirar um pouco, e às vezes ficava conversando conosco e falando de todas as coisas. Estava eu no jardim, a transmitir meu saber, quando ouvi um riso de homem e me senti levantado pelos braços a não sei quantos metros de altura. Eram dois oficiais de Marinha, e o que me levantava, com voz zombeteira, perguntou-me: “Quantas estrelas tem o céu?”. Escarlate, não soube responder. Até hoje me volta a cena, a voz, e a pergunta divertida. Por quê? Parece-me que estava a me gabar do que sabia e do que não sabia, mas o amor pelas estrelas era puro e verdadeiro. Aos dez anos sonhei possuir uma Astronomia Popular, de Flammarion, que vira em casa de um jornalista amigo de meus pais. Ninguém sabia meu segredo. Nesse tempo eram magérrimas as vacas: meu pai adoecera gravemente; uma noite minha mãe chegou muito tarde e, vendo-me na cama acordado, ajoelhou-se junto de mim e disseme chorando: — Estamos agora sozinhos... eu com vocês... no mundo. E passamos a viver uma gloriosa pobreza que até hoje ilumina todas as lembranças de minha infância. Como realizar as núpcias astronômicas com que sonhava?

Juntava jornais de toda a vizinhança e vendia-os na venda de “seu” Cardoso. Tostão por tostão, em três anos ou mais consegui a soma fabulosa de trinta mil réis que mamãe guardava. Não havia nessa época de nossa história a inflação que roeria meus tostões e destruiria meu sonho. Mas era tempo de exame quando consegui o total, e nesses dias, lá em casa, tudo ficava suspenso: — Mamãe, onde está a tesoura de unhas? — Depois do exame. — Mamãe, onde está o “Tico-Tico”? — Depois do exame. A Astronomia Popular ficou também para depois do exame; mas então aconteceu um milagre, hoje incompreensível. Nesse meio tempo aprendera eu o francês, e a edição original de Flammarion custava a terça parte da tradução portuguesa. Por isso, depois do exame, quando cheguei em casa, num deslumbramento indescritível, vi diante de mim, em vez de um só, três grossos volumes: Astronomie Populaire, Étoiles du Ciel, Terres du Ciel. Creio que nunca senti na vida felicidade igual. Durante três ou quatro dias passei horas perdidas no fundo do quintal, sem consegui ler, sem ao menos folhear metodicamente um só dos três livros. Largava um e tomava outro. Anos depois passei a desejar ardentemente uma luneta astronômica. Já ganhava uma libra por mês, ensinando matemática a alunos vadios. Mas não consegui mais encontrar em mim aquela força da infância. Perdi-me em outras direções, troquei as estrelas do céu pelas estrelas da terra. Foi muito mais tarde, já perto dos quarenta anos, que comprei a luneta astronômica. Estava de viagem pela Europa, quando em Berlim, numa tarde, dobrando uma esquina, vejo numa vitrina uma pequena luneta astronômica plantada em seu tripé a me fitar com seu grande olho aberto para o infinito. Veio-me uma rajada de infância, e então eu me senti na obrigação de comprar aquela luneta e dá-la de presente ao bom menino que em vão sonhara com ela nos dias de sua infância. Achei que ele merecia; mas logo depois, ai de mim, em vão procurei onde estava o menino que queria sondar os abismos da noite. O leitor, que receio estar enfadado, com estas reminiscências, aqui perguntará por que diacho não estudei eu a astronomia? Estudei. Estudei, sim senhor. Não sei se o papel dará para contar essa história. Prefiro, antes disso, contar a visita que fiz ao Observatório, com meus pais e o bom poeta Emílio Kemp. Voltemos aos dez anos de idade. Estamos num terraço onde, contra a noite escura e transluminosa, avultava o perfil regular e solene da cúpula. Em certo momento minha família ficou a um canto, e na outra extremidade do terraço eu via dois astrônomos conversando. O mais velho gesticulava e falava com vivacidade. Imaginei que estivessem a comentar a beleza das nebulosas espirais ou estrelas duplas, e aproximei-me tremendo de emoção, com receio de não entender bem aquela língua dos anjos. E quando cheguei perto, sem ser percebido, ouvi o astrônomo dizer ao outro com voz ácida e cortante: — Ele me pagará o que fez. Eu não esqueço. Hei de urinar em sua sepultura!

Recuei apavorado, e sentime profundamente infeliz como se assistisse a uma inexplicável e súbita apostasia de todos os sacerdotes de uma religião fabulosa. É claro que sentia tudo isto com outras palavras. Creio que decepcionei meus pais e o bom poeta que procurava o brilho de meus olhos. Naquele momento, as estrelas do céu perderam o interesse para mim, porque eu estava não somente magoado, como também intrigado com a descoberta bizarra, fantástica que acabava de fazer. Os astrônomos eram uns pobres homens feridos, que se indispunham uns com os outros, como o bom poeta se indispunha com a mulher. Lembro-me bem. Essa idéia de que os homens se indispunham uns com os outros esteve naquela noite, e nos dias seguintes, a me perseguir como obsessão. E foi por isso que a minha felicidade astronômica ficou toldada, e não pude apreciar devidamente os anéis de Saturno. Entre mim e o singular planeta se interpunha a figura machucada de um astrônomo que prometia urinar na sepultura de outro astrônomo. Mas não foi este episódio que me afastou da astronomia. Foi antes a necessidade de não morrer de fome, como de outra vez, se Deus quiser, lhes contarei. (04/05/1968, republicado em "A Tempo e Contratempo", Editora Permanência)

A Ariano Suassuna Tivemos quarta-feira passada na PERMANÊNCIA1, numa sala repleta, que quiséramos mais ampla e mais repleta, uma conferência de Ariano Suassuna sobre o Romanceiro Popular do Nordeste. Depois de uma sábia apresentação de Gladstone Chaves de Melo que esboçou um resumo da vida já bem vivida do mais jovem membro do Conselho Federal de Cultura, e uma interpretação de seu último grande livro, “A PEDRA DO REINO’ (Ed. José Olimpio, 1971), Ariano Suassuna levantou-se, digo melhor, desengoçou-se e começou por dizer que era canhestro e gago, coisas que aliás logo se viram: mas creio que ao cabo de poucos minutos todas as pessoas presentes estavam a sonhar com um mundo em que a humanidade inteira, e principalmente os escritores, fossem canhestros e gagos como Ariano Suassuna; e creio também que no mesmo breve tempo Suassuna sentiu que já ganhara o coração de toda a PERMANÊNCIA — e que a nota principal daquela grande família que o ouvia com tanta atenção e alegria é a amizade, amizade começada na terra e desabrochada no céu —, e amizade na qual já se acha solidamente inscrito o rapsodo que nos trouxe ontem a notícia da maravilhosa poesia popular que são as flores e os cardos de nosso amado e sofrido nordeste.

Ariano Suassuna, numa introdução improvisada e desordenada, falou de si mesmo com graça e humildade, como só sabem fazer as almas dotadas e sofridas que têm o vivo sentimento do trágico e do ridículo da vida. Falou-nos de sua composição, de sua heteronomia, entre cujos elementos predominam o palhaço e o rei que todos somos. E aqui, para responder ao susto de uma boa senhora que me telefonara espantada de meu aviso no jornal, onde anunciava a conferência de “um comunista”, Ariano Suassuna explicou que era monarquista e que suspeitava que metade da sala o fosse sem saber, ou sem ousar confessar. Acrescentou seu horror ao marxismo que o bom povo do nordeste energicamente repeliu, como o repeliu também o bom povo camponês da Sibéria. E a demonstração, como se costuma dizer, estava na cara do homem menos pedante que em toda minha longa vida já encontrei. Nós sabemos que há duas espécies da mesma hedionda deformação do homem, manifestada no pedantismo: há o pseudo-científico e desidratado pedantismo dos marxistas, e o floreado pedantismo tão bem representado pelo professor Cândido Mendes de Almeida de que já tratamos na quinta-feira. Não logrando a síntese essencial do cômico e rei, esta casta de retórico só consegue realizar o hemisfério palhaço de nossa mísera condição. Suassuna está nos antípodas dessa raça de anões que em vão se esticam, ele é alto de pernas e de coração.

Por essa e outras, receio muito pela mantença do regime (refiro-me à vetusta e quase centenária República) se aparecerem por aí muitos Suassunas, por que na verdade verdadeira somos todos nós, e não só os incorrigíveis franceses que decapitaram sua história, temos nostalgia de um reinado. Lembro-me de um bom jardineiro português, talassa, ultramontano, que plantou flores no jardim de minha infância — flores que ainda perfumam meus sonhos — e que explicava desolado à minha mãe, depois do assassinato do Rei Dom Carlos de Portugal, que a República era o começo do fim do mundo. E quando nós o cercávamos para exigir dele uma explicação mais clara, o bom súdito perene

de Dom Sebastião e de Dom Carlos, com gestos largos e simples, que devem ser o dos cantores que Homero compendiou, meu bom português respondia com olhar iluminado:

— Ai! os meninos não sabem o que é a gente ver o Rei passar...

E o gesto reticente era a comitiva de um Rei que passa diante de todas as lendas do mundo.

“Ver o Rei passar”. Certo carnaval antigo, há cem ou duzentos anos dos mil que já vivi, andava em moda uma canção e lembra-me bem o impacto violento que recebi numa esquina quando vi caído no chão um papel com o nome da canção em grossas letras: “Que Rei sou eu?”. Deus nos fez Rei, Homem-Rei, de todas as coisas do mundo inanimado, do mundo de plantas odoríferas e animais que voam, correm ou se arrastam. Mas nós, ai de nós, aonde deixamos esquecida nossa coroa? Quisemos ser Rei do Rei, e aqui estamos nos carnavais da vida, metade-rei metade-palhaço, a indagarmos aflitos: “Que Rei sou eu?”.

*

Deixemos o regime em suas bases e agora vamos ao Romanceiro que Suassuna nos trouxe. Confesso que até ontem, talvez por ter nascido no Rocha, nesta metrópole que há muitos séculos, no tempo em que os animais não falavam, foi uma cidade maravilhosa, ou por alguma outra razão com que não atino, nunca dediquei em toda minha vida a devida atenção — agora friso o termo devida — a esta casta de cultura, de ascensão humana, de conquista, que se esconde, como o Romanceiro do Nordeste, sob o disfarce da pequenez à espera de um Homero que a transforme em espanto dos milênios. Não quero assustar a modéstia de Suassuna apontando-o desde já como o Homero das terras nordestinas que não são mais ásperas do que as daquela península espantosa que abrigou o Povo Eleito da Razão, como diz Maritain: direi que ele é o João batista de tal Homero, fazendo votos, entretanto, que sua cabeça não seja pedida por nenhuma Salomé.

Eu disse que o Romanceiro se esconde na pequenez. Suassuna reagirá contra quem num revés de não pretender afastar essa cultura como coisa menor, primitiva, infantil, ou simplesmente telúrica. Não há obra de arte que não venha do céu, como não há fruto ou erva da terra que não venha do céu. Será menor por estar mais perto da terra? Mas essa feição é um modo de estar mais perto do céu. Como tão bem frisou Suassuna, o que não convém às obras de engenho e arte é a meia altura.

Torno a dizer que é uma cultura pequena sob a condição de afastar o termo de todas as conotações pejorativas, e de aproximá-lo daquela pequenez que Santa Terezinha do Menino Jesus da Santa Face santificou, demonstrando assim que ela é uma das tantas formas da grandeza que neste mundo, aqui e ali, nas mais adversas condições como no prodigioso caso do Aleijadinho, nos é oferecida já que somos reis.

E aqui trago ao sábio estudioso que tão modestamente esconde sua grande cultura algumas cogitações que me acudiram ontem numa insônia feliz. Aquela estranha cultura, aquela misteriosa arte “popular” tem duas faces que sempre se encontram nas mais altas expressões do espírito humano: a espontaneidade e a elaboração. Suassuna mostrou num quadro-negro imaginário, com didática excelente, a elaborada e difícil estrutura do metro e rima da poética do Romanceiro do Nordeste. Não se trata de uma pura espontaneidade infantil ou imbecil, que só produz a gracinha de criança e as enchem hoje a meia altura do mundo. Trata-se de uma agilidade que vence as asneiras dos intelectuais que vence uma dificuldade. E aqui me vem o lema que Rilke e São João da Cruz se encontram: “Ao homem é mister ater-se sempre ao difícil”. O brio do homem (a lembrança de sua coroa) está nesse garbo de se ater ao difícil, de realizar proezas. E o Romanceiro, longe de ser uma cultura simplesmente menor, medida em côvados de progresso técnico, ou mesmo em unidades mais altas das culturas mais universais, tem essa marca sem a qual não mereceria efetivamente maior atenção. Tem em comum com os mais altos momentos da história humana esta invariante procura da Verdade e do Bem. Suassuna certamente preferiria, a tão ostensivas e pomposas categorias, os termos “genuíno” ou “autêntico” que são apelidos da Verdade; e não me contestará se eu disser que através de todas as desconcertantes refrações éticas o Romanceiro revela sempre a procura de um Valor, que é outro apelido do Bem. Creio que foi Gustave Thibon, o lúcido colaborador de Itineráires, e amigo de Simone Weil, que disse ser o homem um animal que valoriza, isto é, que se move em busca de um Valor, e de um supremo Valor. E assim sendo, o Romanceiro rompe os limites asfixiantes do Regional, do folclórico, e já anuncia uma grande, uma incomparável contribuição universal, trazida por nosso Nordeste.

Falei-lhes em espontaneidade e elaboração, e outra não é a composição da vida mística segundo os mais doutos: nos caminhos da santidade Deus dispôs nossa alma para trabalhar de dois modos: o modo elaborado das virtudes e o modo espontâneo dos dons. Assim também na poesia. E é por esta marca que, desde a lição ontem recebida de meu jovem amigo Suassuna, começo a desconfiar da real grandeza do tesouro ainda meio escondido no Romanceiro do Nordeste.

*

Agora peço ao meu amigo Suassuna que pondere o que vou lhe dizer sobre o que ele nos disse ontem do que pensa de Santo Tomás e da Teologia em geral. Não pretendo de modo algum convence-lo de que seja indispensável à sua vocação o estudo profundo de Santo Tomás, mas gostaria de conseguir em sua grande inteligência uma brecha que seria uma pequena janela aberta para todo um imenso mundo da vida da inteligência e da fé. De início, e como quem prega um susto, direi que Santo Tomás está muito mais perto do Romanceiro, pela espontaneidade dos dons e pela elaboração das virtudes, pela Verdade e pelo Bem, pela Autenticidade e pelo Valor, do que do pedantismo com que inundam hoje o mundo os teólogos da nova teologia que tanto falam em Povo de Deus sem saberem o que é Deus e o que é Povo.

Suassuna tratou Santo Tomás de racionalista certamente sem saber que esse termo se aplica aos Descartes, aos Kants mas não ao Doutor Angélico. Para não se alongar demais, porque meu dadá é o Romanceiro da Suma Teológica direi que é uma ilusão imaginar que Santo Tomás com a Suma pretendeu achatar o insondável mistério da Trindade. Pretendeu apenas oferecer às almas algum arrimo, que sempre precisam, em formular e esquemas que são apenas pobres arrimos. O autor de A PEDRA E O REINO e o paladino do Romanceiro também pediu um quadro-negro para traçar alguns esquemas úteis e instrutivos: certamente nenhum de nós na sala julgou que Suassuna quisesse explicar todo o mistério da alma do Romanceiro com tais esquemas. Assim também, eu diria que a Suma Teológica também foi o quadro-negro de que precisou Santo Tomás para indicar às almas, ao menos, o roteiro, a direção dos primeiros passos da ascensão da Fé nos mistérios de Deus três vezes santo.

*

Terminando esse longo arrazoado dum agradecimento ainda mais longo, peço a Ariano Suassuna que aceite como sua casa o acampamento de amizade religiosa que nos une na PERMANÊNCIA.

O Globo, 11 de dezembro de 1971.

A cosmovisão da lagartixa Hoje, para variar e para descansar o leitor, vamos falar da lagartixa. Antes disso, devo dizer que, nas meias horas de descanso depois das refeições receitadas pelo Dr. Stans Murad, costumo esticar-me num sofá, perdão, num sofanete, para ser mais exato, e então, sem saber como e quando começou, costumo deixar correr a lembrança dos dias idos e vividos ou das pessoas idas e mortas. Entrego a memória a seus caprichos e ponho-me de camarote a assistir às avessas, e de surpresa, às cenas desse teatro de amadores mal ensaiados que se chama vida. É o meu luxo, é o último regalo que os ferozes deveres de estado me concedem. Desta maneira, misturando à água da memória o vinho da ficção, invento a vida que não tive, viajo, vejo terras e mares que não vi, revivo amores que não vivi

Many and many years ago, In a kingdom by the sea... Nem sempre é ameno este exercício. Às vezes, como cobra escondida na moita, salta-me diante dos olhos um quadro vivíssimo que supunha morto ou dormido, ou vara-me o ouvido do coração uma palavra, um timbre, um grito, que me quebra o repouso com uma descarga elétrica de dor. Mas também muitas vezes logro repassar momentos de tão intensa doçura — ora no gosto fresco de um alvorecer, ora na suavidade silenciosa de um entardecer — que me dão esquecimento de todos os azedumes provados... Outras vezes, simplesmente cochilo até que toque um dos sete despertadores dos sete deveres de estado.

*

Ora, ontem, quando me punha no decúbito dorsal aconselhado pela sábia e amiga solicitude do Dr. Stans Murad, que é meu amigo pessoal, e declarado inimigo pessoal da morte, especialmente da morte súbita (A subitanea et improvisa morte libera nos, Domine), no momento em que me preparava para desatar as amarras da fantasia, vi no teto uma lagartixa a andar desembaraçadamente no seus afazeres de lagartixa, movendo-se ao arrepio das leis da gravitação, mas certamente ao saber de outras leis que desconheço, mas respeito.

Feliz animal! Lá no teto, com a maior naturalidade do mundo, a lagartixa vê tudo de pernas para o ar, vê pesados móveis grudados num teto sem nenhuma lei a favor de tal postura, e vê em decúbito dorsal uma grande pobre lagartixa humana, estendida no sofanete, imóvel, vivendo só pelo ardor dos olhos e pela angústia do semblante. Lacerta agilis, se tivesses nas tuas frias veias uma centelha daquilo que nos faz entender, e principalmente desentender, saberias lá no teu teto que o mundo cá embaixo anda ainda muito mais de pernas para o ar do que te parece. Tua tranqüilidade, ó Lacerta agilis, vem do fato de não seres absurda. És o que és, e moves-te em conformidade com o que és. Nós, não. Nós não sabemos exatamente o que somos, e quando o sabemos é para logo observarmos que certamente, certíssimamente, não vivemos segundo o que verdadeiramente somos.

Vou contar-te um segredo de homem, lagartixa, um segredo pesado. Um segredo triste. Muitos de nós, ó Lacerta, sem tua translúcida inocência, andam no teto deste século, nos seus ires e vires, sem se aperceberem que vivem num mundo de pernas para o ar. Sem sofrerem. Sem quererem trabalhar para viverem segundo o que principalmente são. Não desenvolvo esta parte de minhas meditações porque prometi hoje ao leitor um dia de descanso. E suponho que o leitor me permitiu que hoje só lhe falasse de lagartixa.

Feliz devorador de insetos, não invejo tua tranqüilidade nem tua dieta; mas devo dizer-te, ó animal inocentemente subversivo, que muito menos invejo os meus iguais que andam no teto do século, na cúpula da atualidade, alegres de viverem num mundo de pernas para o ar, e de se nutrirem de insetos. Aqui onde me vês, deitado por obediência, já que hoje nem a fantasia me deixaste, prefiro esta postura, esta consciência afrontada, esta dor: é o nosso quinhão, ó lagartixa.

*

O mesmo compassivo amigo que me receitou os descansos depois das refeições, por um dos muitos paradoxos da ciência, mandame andar 2 a 3 quilômetros por dia. O remédio é barato e agradável, só tendo a desvantagem humilhante de estar na moda. Como porém não me apraz andar pelas ruas duma cidade invadida por misteriosos inimigos que vieram não sei de onde, e vão não sei aonde (parece-me que a lugar nenhum) com uma incompreensível velocidade, inventei um estratagema simples que me permite andar os três quilômetros sem o inconveniente de afastar-me demais de meu pequeno mundo. La bête blessée cherche son trou. Tenho ao lado de minha casa uma nesga de terreno com trinta metros de fundo. Indo e vindo cem vezes tenho meus três quilômetros percorridos sem sair de casa. O método parecerá insípido às pessoas que gostem de ver coisas novas, ilhas, cidades, vulcões, ruínas e gostam de correr mundo. Tenho a impressão que este é o parecer de meu cão, um quarto ou dezesseis avos de sangue de perdigueiro. Escolhi a hora matinal, antes da missa, para meu exercício. E o fiel pseudoperdigueiro, quando me vê abrir a porta dos fundos às seis da manhã, com um bengala que para seus cromossomos seria uma espingarda, deve latir consigo mesmo: — Vamos à caça! E põe-se alegremente a andar a meu lado, o que atravanca às vezes os passos mas não deixa de alegrar o exercício.

O que o pobre falso perdigueiro não pode compreender é a minha insólita atitude diante do portão. Em vez de abri-lo, e ganharmos a floresta próxima, eu volto à garagem, marco um ponto, e volto ao portão, para voltar à garagem, e assim por diante até cem. o pobre animal vai e vem, com entusiasmo decrescente. Mantém a fidelidade, uma fidelidade sem alegria, sem sonhos de tiros e perdizes caídas, e já lhe surpreendi mais de um olhar triste que parece falar: — Meu amo enlouqueceu.

*

E agora, amado leitor, cumprido o descanso sob os olhos da lagartixa, e completada a marcha na companhia do cão, voltemos aos homens, às conferências episcopais, à atividade da Editora Vozes, inimiga de Deus e do homem. Voltemos aos sete deveres de estado que o bom Dr. Stans Murad não vê como um bom regime para um velho baleado.

A semana do gari Se o leitor imaginava que o assunto de hoje seria a Carta Apostólica de Paulo VI, enganou-se redondamente. Eu também me enganava, e acabaria escrevendo alguma coisa de meu catálogo de aflições de acaso a vista cansada não fora atraída para o canto da página 3 do mesmo “O Globo” onde começara a ler o documento pontifício. Lá estava, num anúncio discreto e encantador, uma carrocinha de lixeiro cheia de flores, e em cima estes dizeres líricos e proféticos: “... ALGUM DIA SÓ RECOLHEREMOS FLORES...” Fiquei inteirado: estamos na Semana do Gari. Sim, leitor amigo, na exígua semana de seu irmão varredor que você de longe vê na sua roupa de fogo desbotado a tentar uma façanha maior do que as famosas de Hércules: limpar os caminhos dos homens.

Assim sendo, disse eu com meus velhos botões, não posso faltar. O Papa espera. O gari é que só tem essa escassa oportunidade de cantar sua esperança. Não posso faltar.

Creio que, entre as recordações vez por outra aqui largadas, já disse qual foi o meu primeiro (e último) cargo público. Repito hoje com muita honra: fiscal de lixeiro.

Naquele tempo, lá em casa, as vacas andavam esqueléticas. Eu precisava arranjar um emprego, e arranjaram-me aquele. Assinava o ponto em São Cristóvão, às 4 horas de madrugada, e recebia do chefe o itinerário que devia percorrer a carrocinha puxada por um burro e conduzida à distância por um lixeiro maltrapilho que mandava o burro parar e andar com uns gritos especiais que só o animal entendia.

Devia eu acompanhá-los de longe. Nos primeiros dias pareceu-me odioso o ofício de fiscalizar um pobre tão pobre. Morreria de vergonha se ele me visse e soubesse que eu o espiava. Tentei seguir itinerários diferentes, mas então afligia-me a idéia de não estar obedecendo à ordem que me haviam dado. Afinal encontrei uma fórmula: em vez de acompanhá-lo de longe como fiscal, acompanha-lo-ia de perto como lixeiro suplente ou como amigo. E assim as quatro horas de serviço encurtaram para nós ambos porque íamos andando e conversando. Lembro-me bem de um que tinha a minha idade e deixara em Muriaé uma namorada chamada Emília. Abriu-se comigo: como se conheceram, quem era ela, o que diziam quando conversavam na praça da Matriz. Um dia perguntou-me se eu poderia pôr numa carta toda a saudade que fervia nele. Mas essa carta deveria começar assim: “Idolatrada Emília”. Verti na carta, a seu pedido, todas as clássicas comparações das partes do corpo com as demais riquezas do universo — alabastro, marfim, safira, asa de graúna etc. — e pedi-lhe que abrisse mão do “idolatrada”, mas ele ficou irredutível.

Outras vezes filosofávamos; e enquanto o burrico obediente ia arrastando devagar as sobras, os detritos e as sujeiras de uma longa rua adormecida, nós dois, irmãos pelo lixo, conversávamos sobre as coisas simples e luminosas que são os assuntos irresistíveis de todas as almas eternizadas pela

humildade e pela pobreza. Não me lembram hoje os nomes dos garis que fiscalizei ou acompanhei, mas de uma coisa estou certo: não é como intruso, nem como letrado discursador, que me intrometo na semana dos varredores; entro na festa como um velho gari aposentado que, mercê daquela prática adquirida, se obstina em querer ainda hoje despejar o lixo que afeia e entristece a Cidade de Deus.

E por falar em Cidade de Deus, junto os pés e num salto galgo vinte anos de vida mal vivida. Acho-me agora às portas daquela Cidade a procurar, como num pesadelo, o itinerário de um gari extraviado. Nessa procura encontrei um moço poeta que acabara de escrever um poema que começava assim:

Varredor que varres a rua, Tu varres o Reino de Deus...

E que terminava numa esperança parecida com o anúncio de hoje. Chamava-se Lauro Barbosa, tinha idade para ser meu filho, mas teve mão para guiar-me como um pai, como um padre.

Recordar ou coçar, é só começar. Se a coluna das quintas e sábados não tivesse seus limites, e não devesse eu, por vocação de lixeiro perpétuo, assinar ponto e obedecer, a recordação vadia se espraiaria, e todo o papel do jornal seria pouco para patentear a gratidão que carrego por tudo o que vi e ouvi e pelo que recebi de todos, a começar pelos humildes companheiros de perambulantes e fedorentas matinas. Cada um de nós traz em si encolhido, recolhido, um personagem de Dostoievsky. O meu já várias vezes me compeliu a beijar o chão por onde passam os pés, e a beijar os objetos, a cadeira, esta mesa, que mãos invisíveis continuam a aplainar para mim, eternamente.

Hoje, o meu Marmeladov me atira de joelhos, com um cachação, a me dizer severamente que não seja esquecediço e que reze pelos meus irmãos varredores que aqui, ou alhures, continuam a varrer o Reino de Deus.

Eu também, amigo e irmão gari de antigamente e de hoje, eu também vivo a acompanhar uma carrocinha, a recolher lixo e a sonhar um dia em que SÓ RECOLHEREMOS FLORES... Quem foi o poeta municipal, perdão, estadual que escreveu para nós garis estas palavras que soam como orações? Deus o acrescente. Deus lhe pague.

O Rei David, grande Profeta e cantor, nunca fez, que eu saiba, a experiência de lixeiro que nós fizemos, mas sua alma imensa adivinhou a dor comum de todos os peregrinos, e por isso pôde concluir na substância de seu Salmo esta esperança de lixeiro:

... vão andando, chorando, carregando lixo, mas um dia, ALGUM DIA, voltarão jubilosos, cantando e sobraçando palmas e ramos de flores...

Conversa em Sol Menor, Agir 1980.

Ainda as comunicações com Brasília Tentei ontem resumir uma explicação para o leigo, mostrando que há dois serviços em andamento para o mesmo fim: comunicações telefônicas entre Brasília, Rio e São Paulo. O primeiro é constituído por uma instalação de rádio de ondas curtas, como usam os amadores que conseguem falar com a Austrália, se as condições atmosféricas são favoráveis. Se não são, o amador fecha a estação e vai ao cinema. O outro serviço, de padrão, de padrão comparável ao que a Companhia Telefônica Brasileira usa entre São Paulo e Rio, é o chamado micro-ondas, e consiste numa série de estações intermediárias escalonadas entre os dois pontos. O primeiro serviço devia ser instalado nos inícios da obra para facilitar as comunicações e as ordens de serviço; não se entende que seja instalado agora com pretensões a fazer serviço público. Instalado agora é uma despesa a mais para puro efeito propagandístico, para demagogia, e nada mais. Nós estamos aqui para pagar tudo.

O serviço de micro-ondas deveria ter sido iniciado em 1956, e já estaria pronto, se na NOVACAP alguém soubesse que uma capital só pode funcionar bem se possuir um excelente serviço de comunicações, mormente quando a fantasia a colocou no lugar mais igualmente distante de todos os pontos habitados do país. Está atrasado. Não terá seus 120 canais (o mínimo necessário para uma capital) antes de um ou dois anos. O cronista do “Diário Carioca” que disse hoje, a propósito da conversa entre o sr. Israel e “O Globo”, que eu perdi minha aposta, está fazendo o que pode para ser promovido de posto no exército da nova classe. Ele deve saber que apostei na possibilidade de inaugurarem os 120 canais de micro-ondas, e que não sou tão idiota e tão alheio ao assunto para negar a possibilidade de ser instalado, em poucos dias, uma estação transmissora de rádio-telefonia de emergência. Ele sabe, mas finge que não sabe, e vai assim caminhando no seu jornalismo, progredindo em sua carreira numa linha que não invejo, para mim e para meus filhos.

Agora alguns pormenores sobre a situação em que se acha a micro-onda. Não tenho notícias do estado em que se acham as vinte e tantas estações que a NOVACAP deverá construir entre Belo Horizonte e Brasília. Tenho, entretanto, notícia de uma estação próxima, a que se situa em Juiz de Fora e que leva a enorme vantagem de não precisar de estradas de acesso. O colega que me telefonou de lá (vejam como é bom o telefone!) informou que as quatro paredes do prédio estão levantadas, sem piso, sem fundações para as máquinas, e sem vestígios de torre. No dia da semana passada em que recebi este telefonema, os 16 operários tinham abandonado a obra por falta de pagamento e o pobre do empreiteiro anda por aí, entre o Rio e Brasília, a procurar quem lhe pague o que ficou combinado. Como os tempos são de Carnaval, imagino o empreiteiro a cantar pelas ruas: “Me dá um dinheiro aí!”. Na semana passada saiu uma notícia de um decreto presidencial desapropriando um terreno em Paulo de Frontin para aí montar uma das vinte e tantas estações. Por onde se vê que as comunicações regulares e excelentes entre Brasília e Rio só ficarão prontas, se ficarem, dentro de um ou dois anos.

Diário de Notícias, 2002-1960.

Alguém mentiu Trata-se das comunicações telefônicas de Brasília. Antes de mais nada é preciso frisar que há dois serviços em andamento com o mesmo objetivo. O primeiro é formado por estações de Rádio de ondas curtas, com modulação chamada de single-side-band permitindo doze canais. Esse sistema tem a conhecida precariedade, que consiste na instabilidade do nível e na dependência das condições atmosféricas. É um serviço de emergência, medíocre na qualidade, escasso na quantidade de canais que mal darão para o Palácio da Alvorada. O segundo serviço, o único que merece o título de serviço público, e que permitirá 120 canais, é constituído pelo sistema de micro-ondas, com estações de recepção e retransmissão escalonadas ao longo da imensa distância, e com aparelhagem terminal em cada ponta. O primeiro pode ser feito em qualquer lugar do território brasileiro em poucos dias, e o que nos espanta é que não tenham começado as obras da NOVACAP por um posto de linha de ordem de tal tipo, e mais barata do que o atual sistema em vias de inauguração. O segundo leva dois ou três anos, e como começou meses atrás tudo indica que não ficará pronto em 1961. Amanhã, daremos alguns pormenores curiosos sobre o andamento das micro-ondas.

Ora, estando as coisas neste ponto sai em “O Globo” de ontem uma notícia sensacional: o sr. Israel Pinheiro tinha conversado pelo telefone com o repórter de “O Globo”. O espanto do repórter é um pouco ingênuo, porque a radiotelefonia está em funcionamento há meio século e o mundo está cheio de amadores que entretêm conversações entre o Brasil e Austrália, por exemplo. Eu mesmo, há trinta anos, tive o prazer de iniciar na Radiobrás um circuito telefônico intercontinental. Antes da conversa de “O Globo”, dois ex-alunos meus, um cá e outro lá tinham falado e me haviam dado notícia do feito sem que entre nós corresse um frêmito de emoção. Há entretanto na notícia de “O Globo” dois aspectos que merecem atenção. O primeiro é o do equívoco lançado sobre a opinião pública. Centenas de pessoas saudosas passaram o dia e a noite pedindo ligações para Brasília. A Companhia Telefônica Brasileira viu-se forçada a publicar um anúncio dizendo que ainda não existe o circuito em serviço normal. O segundo é mais grave. Em certa altura da conversação, o sr. Israel Pinheiro disse que a partir de 25 do corrente é só discar 01, pedir Brasília, teremos comunicações com a mesma facilidade com que temos para Petrópolis ou Ilha do Governador. Ora, isto que li me autoriza a dizer que alguém mentiu. Ou “O Globo”, ou o sr. Israel Pinheiro. O sistema precário, provisório, que estão montando e que terá no dia 25 oito canais em funcionamento, e canais de qualidade inferior, dará apenas para os favoritos da nova classe, e aí mesmo haverá disputas e contendas. O circuito Rio-Petrópolis tem 121 canais da mais alta qualidade, e além disso, Petrópolis tem rede urbana. Brasília terá em 25 do corrente oito canais precários e não tem rede urbana. Como pode o sr. Israel Pinheiro dizer que haverá a mesma facilidade de comunicações? Parece que o presidente da NOVACAP não tem seriedade, e foi isto que lhe disse na cara, três dias atrás, o deputado Adauto Lúcio Cardoso, quando visitou o seu reinado de Brasília. O dia 25 está próximo, e o leitor verá facilmente que alguém mentiu no que disse ontem “O Globo”. Diário de Notícias, 19-02-1960.

Antigamente calavam-se… Um amigo que se julga ateu ou não-católico telefonou-me outro dia, e logo me atirou pelos fios esta pergunta aflita: "Meu caro C. me diga uma coisa: a Igreja antigamente era ou não era uma coisa muito inteligente?" Ia responder-lhe com ênfase: "Era!" Mas enquanto vacilei alguns segundos meu amigo desenvolveu a idéia: "Olhe aqui. Eu bem sei que antigamente existiam padres simplórios, freiras tapadíssimas, leigos ainda mais simplórios e tapados. A burrice não é novidade, é antiqüíssima. Garanto-lhe que ao lado do artista genial que pintava touros nas cavernas de Espanha, anunciando há quarenta mil anos a brava raça de toureiros, havia dois ou três idiotas a acharem mal feita a pintura.

— Mas, calavam-se, disse eu.

E logo o meu amigo uivou uma exclamação que trazia na composição harmônica de suas vibrações todas as explosões da alma: a alegria, a angústia, a aflição de convencer, a tristeza de um bem perdido e até a cólera...

— Pois é! CALAAAVAM-SE!!!

Contei-lhe então uma história de antigamente. Teria eu dezoito ou dezenove anos, e meu heróis dezessete ou dezoito. Ele era o aluno repetente de uma escola qualquer, e eu seu "explicador" de matemática. Eu sentia a resistência tenaz que, dentro dele, se opunha às generalizações matemáticas. Ficava rubro, vexado e alagado de suor.

Recomeçava eu a explicar certo problema quando ele, numa decisão brusca, me deteve e suplicou:

— Explica devagar, devagarzinho, porque eu sou burro.

Na outra ponta do fio meu amigo de hoje explodiu:

— Que gênio! QUE GÊNIO!!

Era efetivamente genial aquele moço de antigamente. Não segui sua trajetória e não sei se ele hoje amadureceu e desabrochou aquele botão de sabedoria em flor, ou se virou idiota e portanto intelectual. O que pude garantir ao meu amigo não-católico é que antigamente a atitude média dos idiotas era

tímida, modesta e respeitosa. E isto que se observava nas ruas, nas aulas particulares, nos salões de bilhar e nos clubes de xadrez, observava-se também na Igreja. De repente, em certo ângulo da história, mercê de algum gás novo na atmosfera, ou de algum fator ainda não deslindado, os idiotas amanheceram novos e confiantes. Já ouvi e li muitas vezes o termo "mutação" surrupiado das prateleiras da genética e aplicado à história, à Igreja, ao dogma e aos costumes. Dois ou três bispos franceses não sabem falar dez minutos sem usar o termo "um mundo em mutação".

Se mutação houve, estou inclinado a crer que foi naquele ponto a que atrás aludimos: os idiotas que antigamente se calavam estão hoje com a palavra, possuem hoje todos os meios de comunicação. O mundo é deles. Será genético o fenômeno e por conseguinte transmissível?

— "Receio muito", gemeu a voz de meu amigo, "você não leu os jornais da semana passada?"

— O quê? — perguntei com a aflição já engatilhada.

— A descoberta do capim!

Não tinha lido tão importante notícia, e o meu amigo explicou-me: um sábio, creio que dinamarquês, chegou à conclusão de que o capim é um dos melhores alimentos do homem. Meu amigo não me explicou que se tratava do Homo Sapiens, do Everlasting Man, de Chesterton, ou do Homo postconciliarius. Seja como for, dentro de quatro ou cinco anos teremos a humanidade de quatro e espalhada nos pastos.

*

Estas reflexões amaríssimas, como diria o "agregado" de Machado de Assis, vieram-me hoje ao espírito depois da leitura de La Documentation Catholique, e principalmente depois da casual leitura de um volume encontrado entre outros livros de vinte anos atrás: O personalismo, de Emmanuel Mounier.

Nunca lera nada desse personagem que fundou a revista Esprit e que fez escola. Abri a página 42 da tradução editada pela Livraria Duas Cidades e li: "O homem é um ser natural". Detenho-me nesta proposição seguida desta outra: "Será somente um ser natural?" E depois: "Será, inteiramente, um joguete da natureza?" Ora, é fácil de ver que nenhuma dessas proposições têm sentido, e nenhuma conexão se percebe entre elas. Ou então, se o leitor quiser ser mais exato, diremos que todo aquele fraseado joga com a polivalência te termos equívocos pretendendo com essa confusão transmitir ao desavisado adepto do "personalismo" um sentimento de profundidade ou de rara acuidade. O que quer dizer "um ser natural"? Dotado de natureza própria todos os seres o são, desde o átomo de hidrogênio

até Deus. Tenho diante dos olhos o dorso de um livro de Garrigou-Lagrange: Dieu, son existance et sa nature. Logo, Deus é um ser natural. Se por natural se entende tudo o que pertence ao Universo criado, todos os seres, exceto o Incriado, serão seres naturais: a água, um gato, São Miguel Arcanjo. Se o termo natural se contrapõe a artificial, todos nós sabemos que um homem não é montado como um rádio de pilha, ou como uma máquina de costura. Logo, é um ser natural. Mas não se entende por que razão foi preciso fundar Esprit, lançar o progressismo, atirar-se nos braços do comunismo, comprometer Jacques Maritain, excitar tanta gente em torno de tão óbvia proposição.

Emmanuel Mounier já morreu coberto de glória há mais de dez anos. Podemos tranqüilamente dizer que era burro, apesar de tudo o que foi escrito em francês a seu respeito, como já podemos dizer tranqüilamente que Teilhard de Chardin era meio tantã. Dentro de cinqüenta anos ninguém mais saberá em que consistiu o "personalismo" de Mounier, ou o "phenomène humain" de Teilhard de Chardin. Essas obras foram o consolo e a volúpia de muitos leitores que, não entendendo nada do que liam, ao menos se aliviavam com este pensamento balsâmico: todos os livros são escritos para ninguém entender. E assim os idiotas do mundo tiveram um decênio ou dois de júbilo.

Passarão esses autores, mas se é verdadeira a descoberta das propriedades do capim, muitos novos autores surgirão a perguntar "se o homem é um ser natural". Já se houve o tropel... Mas — quem sabe — talvez o próprio capim, entre suas virtudes estudadas em Estocolmo ou Copenhague, entre duas Pornôs, traga uma espécie de calmante que nos devolva o genial tipo clássico do burro que se conhecia e que não fundava revistas católicas nem rasgava novos horizontes para a Igreja.

(O Globo, 22/08/70)

As comunicações do presidente Eisenhower “As comunicações diretas de Eisenhower com a Casa Branca serão feitos em Brasília, através do próprio avião presidencial, poderosamente equipado para isto: funcionários e técnicos em comunicações do governo norte-americano estiveram este fim de semana em Brasília, tratando do assunto; a nova capital passará por um trabalho de limpeza geral para receber o ilustre visitante; os americanos levarão teletipos para Brasília, os quais poderão ser utilizados pelos jornalistas brasileiros...”.

Estas notícias estão no “Diário Carioca” de ontem, na quarta página, na coluna assinada por Pedro Gomes. Isto não quer dizer, entretanto, que o “Diário Carioca” converteu-se à oposição ou desanimou de ver Brasília funcionar dentro dos próximos meses. Ao contrário, mais do que nunca o redator aparece entusiasmado com os progressos da NOVACAP em matérias de comunicações, e até se entrega ao prazer de atribuir parte do brio da NOVACAP aos meus pobres artigos. Deixo para amanhã ou depois, ou talvez para o dia do Juízo Final, esta estéril discussão. O sr. Pedro Gomes sabe que quem lê o “Diário Carioca” não me lê. Eu também sei. Cada um de nós explica-o de modo diferente,

mas o fato permanece. O leitor do “Diário Carioca” não lê meus artigos. Baseado nisto o sr. Pedro Gomes põe-se à vontade para uma discussão unilateral, e até esquece de fiscalizar o resto da própria coluna, tão seu é o seu leitor. Pode assim dizer que tudo está muito bem, em matéria de comunicações em Brasília, e no mesmo artigo dizer que, em véspera de inauguração, a futura Capital da República está menos equipada do que o avião presidencial americano. Pode também dizer que voltei atrás em minhas apostas, que continuam de pé, nos mesmíssimos termos em que as formulei. Mas deixemos, hoje, esta inútil discussão e admiremos as três notícias veiculadas pelo jornal mais governista que jamais foi impresso.

Admiremos na primeira notícia a passagem em que o cronista declara que o avião americano está “poderosamente equipado” para permitir um contato com a Casa Branca, sem admitir que seu leitor desconfie que Brasília devia estar um pouco mais equipada do que um avião. O avião presidencial vem a Brasília como se viesse ao Pólo Sul. Na segunda notícia admiremos a simplicidade com que o jornalista diz que haverá uma limpeza geral em Brasília: mas então quem receberá os americanos? Na terceira notícia admiremos comovidos a candura do jornalista que ao mesmo tempo está entusiasmado com o adiantamento de Brasília e declara que os jornalistas brasileiros só terão notícias dos festejos por intermédio dos aparelhos que os americanos gentilmente emprestarão.

Tudo isto prova que o redator tem uma robusta confiança em seus leitores, e até já adivinho que é por aí, pomposamente, que ele desdobrará sua próxima retórica...

Diário de Notícias, 10-02-1960.

Castelo Branco Inclina o ouvido, jovem leitor, às palavras de um velho amigo, e guarda este nome: Humberto Castelo Branco. Foi o maior Chefe de Estado, o mais decisivo, o mais significativo de todas as qualidades latentes em nosso povo, a mais importante figura da História do Brasil. Não exagero.

Nenhum outro jamais encontrou no País quadro igual de devastação, de destruição, de desmoralização e de anarquia. Uma greve por dia promovida pelo inimigo cruel e estúpido que já ocupava os postos, desde a Presidência da República; a desmoralização da autoridade sistematicamente promovida nas escolas, nos lugares de trabalho, nas repartições e na família; e um índice de inflação que no ano de 64 chegaria infalivelmente a 144%. O caos. E um caos perverso preparado para entregar a grande nação brasileira ao comunismo russo ou chinês. Foi em março de 64, quando à noite víamos nas janelas dos apartamentos velas acesas em sinal de que lá dentro rezavam pelo Brasil, e quando não víamos saída mas ainda guardávamos uma secreta confiança no bom gênio brasileiro, foi numa noite de março de 64 que um bom amigo nosso, coronel do Exército, nos disse misteriosamente: — Guardem este nome: Castelo Branco. Dias depois, Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, compadeceu-se de nós, intercedeu por nós, e o milagre se efetivou: as forças armadas se uniram em torno do homem que os céus escolheram. Os mais próximos

companheiros de armas e carreira certamente sabiam quem apoiavam, mas os mais distantes e até acaso algum dissidente só mais tarde compreendeu o alcance da escolha feita e apoiada por todos. Eu não conhecia nem de nome o general que fora estagiário da Escola Superior de Guerra num período em que fui designado para falar sobre o problema das comunicações. Foi o próprio Presidente que mais tarde me recordou o debate em que defendi a Light, coisa que naquele tempo tinha algum mérito ou loucura, porque todos os poderes estavam empenhados na depredação da grande empresa a quem tanto devemos, e para a qual o Professor Gudin, com igual coragem ou igual loucura, reclamara uma estátua em praça pública. Deixem-me falar afetuosamente, já que muitos desenvolverão a tese que meu querido amigo Mem de Sá ontem à noite nos propunha: tudo o que aí está hoje, sem nenhuma diminuição dos méritos de cada um e sem desconhecer a contribuição específica do câmbio flexível e dos incentivos fiscais e creditícios para exportação — do atual governo, tudo o que aí está foi semeado, plantado e regado pelo primeiro governo desta fase do novo Brasil. Deixem-me falar afetuosamente já que sobejam, por vários outros lados que me são tão caros, motivos para não calar a justa indignação que não calei nos tempos do Cabo Anselmo e de outros personagens que já voltaram aos ralos de onde tinham saído para a destruição do Brasil. Foi na saída da missa que recebi um primeiro sinal de amizade trazido pela irmã do Marechal Castelo Branco. Ele me pedia que lhe enviasse um livro de Maritain que continha um estudo sobre A Igreja do Céu. Outro talvez ficasse alarmado. Então diante dos escombros institucionais e da febre inflacionária que subia vertiginosamente, diante de todo um programa de reconstrução, nosso Presidente queria ler estudos sobre a Igreja do Céu? Fiquei deslumbrado e agradeci a Deus o milagre que dia a dia se tornava quase escandaloso. Foi uma divergência, manifestada num artigo meu sobre a Reforma Agrária que estavam querendo promover inadequadamente a meu ver, que me valeu um começo de amizade que hoje tem para mim um valor precioso. Estava tranqüilamente na minha mesa de trabalho quando o telefone tocou e, depois de uma breve interposição funcional da telefonista de Brasília, ouvi uma voz nordestina a me dizer com toda a simplicidade que perguntava por mim, e quando me identifiquei logo entabulou a conversação: — Aqui fala o Presidente Castelo Branco e eu telefonei para lhe dizer que meu empenho nesse projeto de reforma agrária não tem o menor intento de agradar facções e ideologias como o Sr. parece recear... E assim fez o Presidente Castelo Branco com o escritor Tristão de Athayde: telefonoulhe num sinal de desejo de entendimento. E em certo passo de ser governo teve a paciência de telefonar para 36 deputados que resistiam a um projeto, creio que de lei da Imprensa, e a cada um pedia — se o deputado não visse nisto algum inconveniente — uma entrevista, não para pedir seu apoio e muito menos para pressionar, mas para explicar as razões e intenções que não cabiam todas na fórmula apresentada. Lembro-me com especial emoção do dia em que me chamou para o convite de ser o representante do Brasil no encerramento do Concílio. Vendo-me embaraçado insistiu e perguntou afetuosamente: — É por que não tem casaca? Eu lhe empresto a minha... Quase aceitei, pelo gosto de levar à Cidade Eterna, em tão grande dia, a casaca talvez um pouco apertada ou um pouco curta, do homem que Nossa Senhora escolhera para salvar o Brasil. Prevaleceu no caso minha congênita indisposição para solenidades e pompas, e o Brasil teve finalmente melhor representante do que eu, que nessas grandes ocasiões corro sempre o risco de atordoar-me, de perder-me, ou de me achar numa situação chapliniana sem saber como lá fui parar.

Em outra ocasião em que também o Presidente me honrou com um convite que também não pude aceitar, a conversa prolongou-se e eu queria perguntar-lhe uma coisa e dizer-lhe outra: — Posso perguntar uma coisa ao meu Presidente? Ele olhou-me com aqueles olhos profundos de que não me esquecerei e, pousando a mão no meu braço, disseme: — Ao Sr. eu abrirei meu coração. E eu que dantes nunca entrara em palácios, que sou por vocação muito mais povo que fidalgo, embora admire a fidalguia dos que a sabem trazer, vi de repente naquele varão as duas coisas sem as quais não pode haver estadista: a pequenez da condição comum que nos irmanava, e a majestade de um verdadeiro Chefe de Estado designado por Deus. Saí do Palácio Laranjeiras indeciso nas minhas convicções republicanas. (O Globo 20/07/72; republicado em PERMANÊNCIA no. 194-195)

Centenário de Mozart A 27 de janeiro de 1756 — faz hoje duzentos anos — nascia em Salzburgo, de uma pequena e modesta família, o menino que teria na certidão de batismo o nome de Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart. Nasceu numa casa onde se vivia da música. Aos três anos de idade, como se houvesse diligência de bem aproveitar os poucos que a sorte lhe reservava, manifesta os primeiros sinais de vivo interesse pelas lições de cravo de sua irmã. E bem depressa se vê que não se enganavam os pais na apreciação desse interesse. O menino tem fome e sede de música. Aos cinco anos compõe um minueto em sol maior; aos seis, toca violino e cravo na corte de Viena, onde se encanta pela princesinha Maria Antonieta que trinta anos mais tarde marcará, com a cabeça decepada, o fim do século e do regime. Com oito anos, Wolfgang Amadeus Mozart domina com mestria o violino, o clavicórdio e o órgão; rege concertos; compõe a primeira sinfonia, em mi maior, e escreve a primeira ópera Apollo e Hyacinthus.

Tornou-se trivial falar da prodigiosa precocidade de Mozart. História sabida, mil vezes glosada, tornouse para nós um fato entre tantos, uma singularidade entre as muitas que a história do mundo registrou; e hoje precisamos fazer um esforço de imaginação, mobilizar capacidades esquecidas, esfregar dormências da alma, para conseguirmos a maravilhada admiração que tal prodígio merece. E antes de mais nada convém lembrar que a precocidade de Mozart difere essencialmente daquela que tantas outras crianças, com o mimetismo próprio da infância, revelam nos concertos públicos. A precocidade de Mozart é criadora. Nela se encontra a inconcebível conjugação da impressividade infantil com a

expressividade varonil da obra de criação. E é esse incrível conúbio, a meu ver, que explica a misteriosa e riquíssima transparência da obra de Mozart, e que ao mesmo tempo explica a combinação, a dialética interna dessa obra de continuação e de renovação. A precocidade de Mozart não foi um mero acidente de sua carreira, nem apenas uma espécie de compensação da outra que lhe viria pela tuberculose. Foi também, e sobretudo, o elemento integrante da substância de sua música. O “Réquiem” encomendado por um misterioso desconhecido, pouco antes de sua morte, a sinfonia em sol menor n° 40, e o admirável concerto para clarineta e orquestra, em lá maior, só podiam ser escritos por alguém que acordara muito cedo para a música, isto é, por alguém que tivesse feito a extraordinária experiência de uma infância criadora. A infância, quando se materializa no adulto, quando permanece como um quisto, dá na neurose; mas quando se dilui, quando se espiritualiza, dá nessa perenidade de transparências que se encontram na música de Mozart. E assim, o menino que tão depressa deixa de ser menino pela mestria, será sempre menino pela pureza.

Nascido numa família de músicos, numa casa onde se respirava melodias e onde até o canário cantava em sol maior — o tom de sua primeira composição — dir-se-á que Mozart tinha a seu favor todas as circunstâncias para se inserir, para ser músico. Tinha-as efetivamente, mas para ser um músico que continua o ofício do pai e à maneira do tempo. Em qualquer outra criança que não se chamasse Wolfgang Amadeus Mozart, essas condições favoráveis produziriam uma fixação e dariam apenas mais um ameno compositor do século XVIII. Mas nosso Petit Prince, gênio infantil, segue as lições do pai ultrapassando-as sem sentir; imita sem saber que está renovando; obedece sem perceber que está dirigindo; adapta-se sem consciência da revolução que inicia. Ninguém é mais século-dezoito do que esse menino que havemos de ver sempre, como viu Goethe, com os cabelos empoados do ancienrégime; mas ninguém, nem a própria Maria Antonieta na guilhotina, marcou mais nitidamente o limiar dos tempos modernos. Continua Bach e prenuncia Beethoven, mas não se pode dizer que seja um elo, uma transição, um intermediário, porque nenhum outro depois dele conseguirá ser mais integralmente completo, ser mais soi-même, do que Mozart foi Mozart.

A disjunção de personalidade, que o romantismo trouxe, e que faz Cocteau dizer por blague que “Victor Hugo est un fou qui se croit Victor Hugo”, não se encontra em Mozart que é sempre idêntico a si mesmo na imensa variedade de sua obra.

A composição de docilidade e de renovação, o paradoxo da infância criadora, e até direi o momento histórico que viveu, entre o regime protecionista da aristocracia e a ânsia de uma arte desatada, tudo isso marcou a vida e caracterizou a substância de sua música. Uma fórmula nova que estava em germe na obra de Haydn será a característica da composição e do desenvolvimento mozartiano. Já foi explicada essa fórmula em termos de dualismo masculino-feminino dos temas em contraste. A mim me ocorre o termo “complementariedade” para definir o caráter dialético da composição mozartiana.

A música do imenso Bach tem o caráter de exposição, de lição, de homilia. O incomparável mestre de Eisenbach ensina, propõe, expõe. Sua obra nos deixa sentir a hierarquia. Bach compõe ex-cathedra.

Em Mozart, ao contrário, aparece a música-diálogo, a música-composição, a música-colóquio. E a idéia que deixa, ainda que se expanda em grandiosidades, é a de convivência e de intimidade. Sua obra é uma ambiência, uma vida em comum, uma conversatio musical. Muitos críticos já salientaram a predominância do cantavel na obra de Mozart. Arrisco-me a introduzir um pequeno retoque nessa apreciação dizendo que é na palavra-musicalizada, na linguagem dialogada, no colóquio de idéias sutilizadas em música que reside a característica essencial da obra de Mozart. O contraste de temas ainda não é conflito, como será em Beethoven, nem incitamento à ação, como em Wagner. É diálogo. Conversação. Comunicação dotada de misteriosa pureza e desconcertante simplicidade.

Realmente desconcertante é a simplicidade do desenvolvimento mozartiano que parece repetir-se e que nunca incide no lugar-comum da falsa simplicidade, o da simplicidade que vem da pobreza. A transparência de Mozart vem da ordenação suprema que dá aos cristais o brilho translúcido. O “ramo de Salzburgo” de que se serve Sthendal para descrever a quinta fase do nascimento do amor, nunca se cristalizou tão claro e tão cintilante como na obra desse menino que há duzentos anos nasceu em Salzburgo.

E é por causa dessa substancial e riquíssima simplicidade, e por causa do essencial caráter de diálogo, apaixonado e contido, emotivo e discreto, contrastado e cordial, que a música de Mozart resiste às interpretações que vão do comedimento “triplesec” que o crítico Nathan Broder assinalou na execução de Walter Gieseking, até a imoderação temperamental que o mesmo crítico atribui a Lili Kraus. “But the ideal Mozart piano performances”, diz ainda Nathan Broder, “in this imperfect world, are still something we shall have to dream about”.

Também eu, apesar de leigo e bárbaro, continuo a sonhar com uma interpretação ideal do maravilhoso concerto para piano e orquestra, em si bemol maior (K 595), o último que Mozart compôs, doente, triste, esmagado pela miséria, guilhotinado em movimento lento pela estupidez do mundo e pela transição dos regimes.

Celebrei o segundo centenário de Wolfgang Amadeus Mozart ouvindo sozinho, com peso na alma, esse concerto que recentemente me deram em LP tocado por Ingrid Haebler. Tecnicamente mais bem gravado do que os meus velhos discos de Schanabel, Ingrid Haebler, sobretudo no larghetto, que executa quase em andante, deixou-me a sonhar, a desejar um “Less imperfect world” em que se possa ouvir, condignamente gravado e condignamente tocado, o vigésimo-sétimo concerto de Mozart. Mas assim mesmo, malgrado a deficiência do interprete, eu pude galgar dois séculos, e estive uma hora a conversar com o luminoso menino de Salzburgo.

Fevereiro, 1956.

(publicado em DEZ ANOS, Editora Agir)

Detalhes da Ressurreição Meu Caro,

Não lhe respondi há mais tempo por causa do meu olho esquerdo. Deu-lhe para arder e purgar, faz uma semana, obrigando-me a uma prolongada piscadela que tem muito menos malícia do que melancolia. Não consigo ler nem escrever. Se insisto, fechando o esquerdo, doe-me o direito pelo descostume de andar sozinho. Vencendo a repugnância pela medicina fui afinal ao oculista. Recebeu-me com a benevolente afabilidade do indivíduo que já viu muita desgraça começar num grão de cisco e que, por isso, resolveu adotar até o termo de seus dias uma bondosa indiferença diante das córneas injetadas. Sentou-me numa cadeira metálica, dentro de uma sala escura, muniu-se de microscópicas lanternas, e pôs-se a viajar na bola do meu olho, sabiamente, de polo a polo.

Ao cabo de alguns minutos deu-se por satisfeito e recomendou-me a imediata extração dos dentes suspeitos, insistindo que era urgente. Fui dali ao raio X; do raio à farmácia; da farmácia ao dentista. E cá estou eu sem os dentes, não me parecendo que o olho tenha melhorado.

Agora, mais dolorido do que nunca, fico a pensar na tirania da medicina moderna. A ela se aplica perfeitamente a palavra de um inglês, dizendo que cada dia o médico conhece "more and more about less and less". O especialista é o homem que conhece bem uma pequenina região desse todo que é tudo; mas, em compensação, investe-se de imensa autoridade sobre as vastas regiões ignotas. Para salvar um olho, o oculista manda arrancar meia dúzia de dentes. Haverá casos, suponho, em que se deva arrancar o olho para salvar os dentes. Nas situações mais complexas (continuo a supor) competirá ao doente a escolha do que prefere poupar, não se devendo pensar ingenuamente que entre o olho e o dente não haja margem para hesitações. São grandezas heterogêneas, e portanto de difícil comparação.

É verdade que o dente faz menos falta para ler, escrever, andar e ganhar o pão de cada dia. Para comer o pão faz falta; mas lá o cirurgião ficou de me arranjar uma máquina de mastigar. Com o tempo a gente se habitua, mesmo porque a mastigação é uma das operações mais mecânicas do corpo, não havendo muito o que variar no modo de triturar, em que tanto valem os autênticos como os falsos dentes. Concedo; mas quem me arranjará uma máquina de sorrir?

Alías, essa questão da escolha entre um e outro fica prejudicada porque é possível, em muitos casos, que o sujeito fique sem os dentes e sem o olho. Disseme o especialista, o do olho, que o número de cegos é hoje muito menor do que no tempo de nossos avós. Certamente. Estão aí as estatísticas. Não duvido. Mas, em compensação, os cegos de hoje, até chegarem à cegueira, já sofreram uma série de

mutilações. Em lugar do ceguinho dos tempos românticos, lépido e inteiro, subsistirá apenas um ser informe, aparado, um tronco vagamente liso e oval, que as pessoas da família carregarão com cuidado para aconchegar ao canto de um sofá. *

Estava eu neste ponto de minhas amargas divagações sobre a desintegração do corpo humano, essa espécie de lepra organizada em nome da ciência, quando me acudiu à mente uma idéia divertida. Meu caro, nós cremos na ressurreição da carne. Ora, este artigo de fé, que eu sempre tomara em grosso, e vagamente, aparece-me agora na nitidez dos detalhes.

Na verdade, meu caro, nós raramente sabemos opor à ciência dos especialistas, robusta pelos detalhes, uma Fé que também desça às minúcias d