Arte e Sociedade

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ROGER

BASTIDE

ARTE·, E . SOCIEDADE ,

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Tradução

GILDA DE MELLO E SOUZA

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Arte e sociedade /

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S8D-FFLCH-USP LIVRARIA

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Rua- 15 de Novembro, J

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195 -- São Paulo

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A SÉRGIO MILLIET. sociólogo e crítico de arte, êste pequeno livro de estética sociológica.

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Este livro é o resumo muito sintético dum curso realizado na Facilidade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em 1939 e 1940. Cum,pre-me agradecer aqui a colaboração de Gilda de Mello e Souza, que o traduziu para o português .

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INTRODUÇÃO O PROBLEMA DOS VALORES, A ESTÉTICA E A SOCIOLOGIA

\ ", para ass'egurar a objetivitlade da sociologia, tudo cor(12) Comparar "Jugements de valeur et de réalité" com "Les formes élémentaires de Ia vie religieuse", Conclusão lII _ pg. 616-627 c ., Livro II, capo VII -- pg , 307-320. (13) O caráter filosófico da t,eoria durkheimeana dos valores, tida como científica, é pôsto em evidência por G. Richard: "L'atheisme dogmatique en sociologie religlieuse", Strasburgo, 1929 ~ G. Gurvitch: "Morale theorique et science des moeurs", pans, 1937. pg. 100-3.

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re bem. Mas quando é formulada como um fato real c explicativo, então caímos no domínio da disputa e, realmente, tanto na França como no estrangeiro, êsse ponto foi objeto de controvérsias incessantes. Não queremos penetrar nessas controvérsias pois não queremos tratar de filosofia. Basta-nos saber que as sociedades são fatos, que êsses fatos podem ser analisados, descritos e classifieados. Pouco nos importa que as sociedades sejam sínteses ou adições de unidades; isso não nos fará avançar nenhum passo na axiologia, pelo menos si quisermos uma axiologia científica e não uma axiologia filosófica. Nossa posição pode definir-se da seguinte maneira: partimos dêsses dois princípios sõbre os quais estão todos de acôrdo: existem valores - existem sociedades. Sem elaborar 'nenhuma hipótese sôbre a origem OU a natureza dos valores, sôbre a orígem ou a natureza do laço social, que nos poderia conduzir a controvérsias inúteis para o nosso assunto, devemos examinar somente a incidência dêsses dois fatos um sôbre o outro. A axiologia clássica, aliás, nos leva a isso pois reconhece ao lado dos fins primários individuais, fins secundários sociais. Não interdita nossa tentativa da axiologia sociológica. O consumo da riqueza, por exemplo, é individual; mas o indivíduo vive em famílias, essas famílias estão agrupadas em classes sociais e em nações. E todos êsses grupos influem na maneira pela qual consumimos nossas riquezas. Nossas menores necessidades como a necessidade de dormir, o sono, supõem tôda uma educação social que varia com os climas, as culturas, as camadas sociais. Só a sociologia poderá fazer-nos compreender a evolução histórica dos valores, suas metamorfoses e suas colaborações. portanto, acreditamos possível uma axiologia sociológica. Esta deve aceitar as três leis de Urban, as quais, no entanto, transportadas da psicologia afetiva para a sociologia geral, vão assumir um novo aspecto. A lei do limiar é válida tanto para as coletividades como para os indivíduos. Assim como há na natureza Iôrças úteis, cuja existência não suspeitamos, também tôda a Idade Média viveu à margem do Mediterrâneo em contacto com os monumenlos greco-roma-

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ramente sociológicas - ela depende da estrutura das sociedades. Sempre que as sociedades são homogêneas, que o regime é comunitário, as formas de arte subsistem tradicionalmente e, por conseguinte, a saciedade parece não existir. Por outro lado, sempre que há uma estratif'icação social acompanhada de circulação das elites, de mobilidade vertical, surge então a saciedade, a necessidade de renovar os valores, tanto econômicos como estéticos. A estratificação somente não basta; ela pode explicar a co-existência numa mesma nação de estéticas diferentes, mas estas, como acontece ]).0 regime das castas fechadas, 'entre as quais não há comunicações ou possíveis passagens para assegurar uma melhora de classificação social (15), podem subsistir tradicionalmente sem que surja o problema da saciedade. À estratificacão deve acrescentar-se a mobilidade. Num dado momento as elites se aborrecem das formas de arte que as novas classes copiam para se classificar socialmente e, afim de se diferenciarem, de se distinguirem, inventam novas formas inéditas e originais. A saciedade social é uma das formas da luta de classes (16). A terceira lei, a da complementaridade, nos reterá por mais tempo pois nos conduz ao problema dos conflitos e da hierarquia dos valores. Trata-se, primeiramente, de saber quais são as relações existentes entra os valores econômicos e os valores estéticos. A êste problema a sociologia norte-americana de Gidding, dá uma resposta interessante (17). Os fatos de cultura e 'os fatos de economia 'estão (15) Existe ainda um processo místico de mudança de casta. E' a prática da virtude, o dharma, que está ligado ao sansara, ou doutrina da transmigração das almas: depois da morte, aquêJe que seguiu o bom caminho sobe na escala das castas e renasce numa casta superior (v. Max Weber : "Gesanmelte Aufsãtze zur ReJigionssozioJogi'e", Tomo TI). Mas, enquanto vivo, o indivíduo está como que aprisionado em sua casta, que tem uma forma comunitária. Eis porque no mundo dos vivos existe tradicionaJismo na arte e, portanto, ausência de. saciedade estética. (16) E. Gohlot : "La harr'iêre et le niveau", Paris, 1930 - Encontrar-se-á mais longe, à pg. 111, a análise detalhada do fenômeno e sua importância na sociologia estética. (17) Giddings : "Studies in the theory of human society". New York, 1922, pg. 27 e segs.

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inextricàvelmente misturados. Nossas escolas, nossas academias artísticas, vivem do produto dos impostos, que provêm, sobretudo, dos benefícios realizados pelas fábricas ou pelas minas. Mas essa união não impede a distinção entre a economia, que visa fins utilitários e a cultura, que visa o prazer social. 'Uma satisfaz nossas necessidades fisiológicas, outra nossas tendências intelectuais ou sentimentais. Então como conceber suas relações? A resposta a essa pergunta é que a "'evolução da cultura é a evolução duma economia do consumo". S'egundo Giddings, é um êrro dos economistas colocar o estudo do consumo depois do da produção. Todo indivíduo faz o que faziam os reis de França, isto é, regula suas receitas sôbre suas despesas, e não suas despesas sôbre suas receitas. Temos n'ecessidade de ter galerias de quadros, teatros, igrejas, algum luxo de mobiliário, um certo gênero de vida, e' é para realizá-Io que nossa produção 'está organizada: "O tipo de vida não é a quantia ou a substância que uma população possue num determinado momento, é o que a palavra significa literalmente: o tipo, o ideal de confôrto e de luxo que uma classe ou um povo se esforça para realizar .. , Assim compreendido, o tipo de vida é, sem dúvida nenhuma, a causa e não o efeito da produção". E o qu~ é verdadeiro hoje assim o foi sempre. Pois no princípio o homem tirou seus alimentos da natureza antes de qualquer trabalho de produção; mas nossos desejos se multiplicaram e se diversificaram através das diferentes civilizações, místicas ou guerreiras: são essas culturas, essas maneiras de conceber as coisas e a existência que explicam a diversidade das necessidades segundo os povos, e é para satisfazê-Ias que a produção se organiza diferentemente. Bem se vê que essa solução é precisamente o contrário do materialismo histórico. Não é o regime da produção, a tnrra-estrutura econômica que explica as ideologias estéticas, mas, ao contrário, é a concepção estética das coisas que regula e dirige a vida econômica (18). (18) Sôbre o materialismo histórico e sua contribuIção para a estética sociológica, ver mais longe pgs. 43, 44, 45 e 46. Não voltaremos à critica que aqui fizemos e que vai ser completada nas páginas seguintes, afim di não a repetirmol. Pro-

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Encontramos uma tese análoga em G. Richard, o qual também procurou estabelecer as relações entre os valores de cultura e os valores econômicos, chegando a conclusões aproximadas. A lei da saciedade explica menos a criação de valores que a sua destruição. Conseqüentemente, uma aparição de novos valores só pode provir da subordinação da economia, (onde a saciedade age abertamente), a motivos ideais superiores. Em primeiro lugar motivos morais: o crédito público, par exemplo, que é a mais complexa forma da troca, só é possível pela confiança do cidadão na ordem social de seu país, confiança que supõe não somente a estabilidade dos valores econômicos, mas ainda "uma confiança de natureza moral na probidade corrente, na disposição dos homens a cumprir suas promessas verbais e, sobretudo, no respeito do Estado pelos seus comyromissos". São' ainda motivos morais os que encontramos na origem da produção, pois esta repousa sôbre o trabalho, da mesma forma que sôbre a matéria prima e o capital. Ora, o trabalho é ínseparável do esfôrço e da vontade e supõe a razão disciplinando constantemente as tendências inferiores. O consumo está submetido igualmente à disciplina das necessidades; é verdade qUe assistimos freqüentemente à tentação de justificar a sensualidade indo até a depravação, o jôgo, a cupidez, o espírito plutocrático, apresentando-os como verdadeiros móveis do consumo.