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Portuguese Pages 157 [165] Year 2001
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
“O TRIBUNAL VERMELHO”:
EM CENA O CASO
recortes do anticomunismo
ELZA FERNANDES
brasileiro durante o Estado Novo
RAUL REBELLO
VITAL JUNIOR
Porto Alegre, novembro de 2001
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
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cite
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1
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1
Qu God
No36t
“O TRIBUNAL VERMELHO”: EM CENA O CASO ELZA FERNANDES recortes do anticomunismo brasileiro durante o Estado Novo |
RAUL REBELLO VITAL JUNIOR
Dissertação apresentada à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul como exigência para a obtenção do título de mestre em História sob orientação do Prof. Dr. René Ernaini Gertz.
Porto Alegre, novembro de 2001
ii
PUCRS/BCE
Banca examinadora:
ÍNDICE
54 ASA 6) Y (6
HI
ABSTRACT.
a
nro
ee ereeeeerereeeereeeeere cem
AGRADECIMENTOS............ecseereeereeeeereeseeeeeeeereeeertss
cetacecereererrseeraemeeesereearento IV reeeeererressaerrasaetereeereraso V
PIN S(O) D) 6 [ 67:(0
1
O MARXISMO NO PERÍODO DAS INTERNACIONAIS SOCIALISTAS: A DIFÍCIL INSTRUMENTALIZAÇÃO DA TEORIA....................n re rererererererasesecerereeaaaa 15 A CONSOLIDAÇÃO DO PCB NO CENÁRIO NACIONAL: GRAVITANDO ENTRE OS PARTICULARISMOS INTERNOS E O ALINHAMENTO COM A INTERNACIONAL COMUNISTA. issu sicenmasis atas cesacasesaiçarasesaunasaca sascseanadossebadeaiermaaninsase seco na ans es tenanccutrsasencisians 45 O REFLUXO PÓS-LEVANTE INTERNA DO PARTIDO:
E
SEUS ENTRA
REFLEXOS SOBRE EM CENA O
A
SEGURANÇA CASO ELZA
A ELUCIDAÇÃO DO CASO ELZA FERNANDES E O REFORÇO DO ANTICOMUNISMO DO ESTADO VARGUISTA.............. ir reeeeeeeeceserereeraenes 92 OS
REFLEXOS
DO
FONTES UTILIZADAS
CASO
ELZA
sessao
FERNANDES
SOBRE
=
T
A
IMPRENSA
uu
DA
155
RESUMO Este trabalho analisa as condições em que ocorreu o justiçamento de Elza Femandes por parte dos dirigentes do PCB, no ano de 1936, assim como o seu impacto no reforço do discurso anticomunista por parte do governo Vargas. Os anos aqui tratados de forma mais direta são os de 1936 e 1940, por serem respectivamente o período do assassinato e elucidação
do caso por parte do Estado
fundamentalmente na tentativa de vincular,
Varguista. o mesmo,
A
análise do
caso
foi centrada
ao reforço do anticomunismo pelo
Estado Novo, no início dos anos 40. Para tanto, foram analisados jornais da época, bem como o Processo 1381 do Tribunal de Segurança Nacional, que corresponde ao julgamento
dos envolvidos no justiçamento. Ao abordar o ano de 1936, procuro delimitá-lo a partir do impacto produzido pelo levante de 1935 para o PCB. A
análise é feita a partir da premissa,
de que a repressão política desencadeada com o levante criou uma situação de fragilidade
na segurança de importantes dirigentes do partido, levando-os a grandes erros avaliativos diante do quadro político. Um desses erros envolveu a instauração do chamado “Tribunal Vermelho”,
que condenou
Elza Fernandes
a morte por suposta
traição
ao partido.
As
suspeitas de que Elza havia sido morta por integrantes do partido já existia desde o ano de
1936. No entanto, o caso vai ser de fato elucidado somente no ano de 1940, com a prisão de um grupo de militantes envolvidos diretamente no assassinato. Até aquele momento, o único
militante
preso,
e também
envolvido
no
assassinato,que
detinha
uma
real
importância, era Luís Carlos Prestes, mas este nunca revelou nada acerca do ocorrido. A especulação feita em torno da elucidação da morte de Elza foi muito grande, gerando muita movimentação nos jornais da época, que deram ampla cobertura ao acontecimento. Com o julgamento e condenação dos envolvidos, a imagem do PCB sofreu fortes revezes diante da
opinião pública nacional, agravando ainda mais a situação de isolamento dos comunistas brasileiros no período em questão.
Abstract This work analyses the conditions in which Elza Fernandes” justice happened to be made, by PCB's leaders, in the year of 1936, as well as its impact in the reinforcement of the anticommunist discourse by the Vargas government. The years considered here in a more direct way are the ones of 1936 and 1940, for being respectively the period of the murder and elucidation of the case by the Vargas
State. The analysis of the case was centred
fundamentally in the attempt of connecting it to the reinforcement of anti-communism by the New
State, in the beginning of the forties. For that, newspapers of that time were
analysed, as well as the Process 1381 of the National Safety's Tribunal, which corresponds
to the judgement of all involved in the process of making justice. Approaching the year of 1936, I seek to restrict it starting from the impact produced by the 1935*s insurrection to the PCB. The analysis is made starting from the premise that the political repression unchained by the insurrection, created a fragility situation to the safety of some
important party”s
leaders, leading them to great evaluative mistakes considered the political scenery. One of these mistakes involved the instauration of the called “Red Tribunal”, that condemned Elza
Fernandes to death for supposed
betrayal to the party. The suspicions that Elza Fernandes
had been killed by members of the party already existed since the year of 1936. However,
the case happened to be elucidated in fact only in the year of 1940, with the prison of a group of militants directly involved in the murder. Up to that moment, the only militant arrested, and also involved in the murder,
who
had a real importance, was Luis Carlos
Prestes, but he never revealed anything. The speculation done around the elucidation of the death of Elza Fernandes was very big, creating a lot of movement in the newspapers of the period, which widely covered the event. With the judgement and condemnation of those involved, the image of PCB suffered strong ups and downs in the national public opinion, worsening even more the isolation situation of the brazilian communists in the period studicd.
AGRADECIMENTOS
O ano de 2001 certamente será um ano marcante na minha vida profissional. Encerro um ciclo iniciado há mais de dez anos atrás, mais especificamente no ano de 1988,
quando ingressei no mestrado do curso de História do Brasil da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Entendo a minha estada no curso, pelo período inicial de três anos, como uma fase de grande amadurecimento intelectual, tendo tido a oportunidade
de abrir a minha área de conhecimento para um universo historiográfico,que até então para mim era desconhecido. Devo essa abertura aos excelentes professores que tive ao longo do
curso, que através de seus exemplos de conduta reforçaram a minha convicção de que minha opção profissional realmente tinha valido a pena. Apesar de ter mantido um caminho
regular nesta minha primeira estada no curso,
não cheguei a defender a minha dissertação. Enveredei por outros caminhos profissionais, que
acabaram
acadêmico.
por
me
afastar
por
um
razoável
espaço
de tempo
Procurei inúmeras justificativas para não retornar. Não
do
aperfeiçoamento
me convenci,
mas as
premências profissionais e o envolvimento familiar mantinham distante um possível retorno ao curso. O meu reingresso não se deve a nenhum mérito pessoal, mas a forte insistência de minha
irmã,
Juçara,
que
sempre
preocupada
com
o meu
futuro,
chegou
no
limite
de
financiar o meu retorno à universidade. Tenho certeza de que sem o apoio dela, não estaria apto para fazer a minha defesa. Também devo ao afeto, fruto da excelente convivência familiar com minha mulher Margarida, e meu filho Leonardo, a força para conseguir administrar o meu tempo entre uma exaustiva jornada de trabalho, e longas horas dispensadas à dissertação. Com relação a
minha esposa, agradeço pela paciência e a boa vontade em repassar o texto inúmeras vezes comigo.
VI Ao meu orientador, Professor Dr. René Ernaini Gertz, por ter me aceito novamente
como orientando, depois de tantos anos afastado da universidade. Aos meus vizinhos, Edson e Janine, pelos incontáveis socorros prestados ao longo da produção deste trabalho. Finalmente
a minha
alegrias e meus sofrimentos.
mãe, por sempre
estar
a meu
lado, compartilhando
minhas
INTRODUÇÃO
Ao buscar a definição do tema a ser desenvolvido ao longo do meu curso de mestrado vi-me, rapidamente,
inclinado a definir
o meu espaço dentro do cenário da
história política. A busca remonta ao final dos anos 80, data inicial do meu ingresso no curso.
Na
época,
já
me
sentia
meio
descompassado
diante
das
novas
vinculadas a visões pós-modemnas que inseriam no contexto acadêmico
tendências
importantes
focos de renovação de temas e novas metodologias de abordagem. Via com simpatia, como vejo até hoje, os novos ares que, ao soprarem na academia, desfizeram um certo tradicionalismo dentro das opções temáticas e metodológicas definidas pelos mestrandos e doutorandos.
Independente de minhas simpatias, cabia-me investir numa área de pesquisa em que eu me sentisse instigado, dispondo-me a explorar uma possibilidade de abordagem
que considero longe de estar esgotada enquanto recurso de compreensão da ciência histórica.
Ao selecionar meu objeto de estudo, mais uma vez vi-me compelido a ceder às minhas preferências em termos de leitura e pesquisa. A trajetória política do PCB! apresentou-se como uma possível alternativa para a definição de tema. Percebo que tinha a necessária lucidez de saber que estava me inclinando para um campo que oferece uma vasta possibilidade de pesquisa e análise no plano acadêmico. Apesar
de ter lido muita
coisa
acerca
da história do PCB,
percebi,
e ainda
percebo, lacunas bastante significativas em trabalhos produzidos, que encontram certa dificuldade de se despirem de uma forte carga emocional em análises feitas. Dentro daquilo que foi a vida política do Brasil ao longo considero movimento
compreensível
que,
nas
abordagens
históricas
do
do século XX,
percurso
político
do
comunista brasileiro, tenhamos abordagens passionais, organizadas muitas
vezes de forma parcial, na medida em que temos uma configuração histórica que marca as tradições políticas do país, dentro de uma prática política autoritária por parte das elites dirigentes, e que se reflete sobre algumas visões analíticas acerca do tema. Não quero com isso afirmar que toda a análise historiográfica acerca da trajetória política do PCB esteja voltada para produzir o desgaste da imagem deste, reforçando o projeto da burguesia. Até mesmo porque a militância de esquerda também se ocupou em recompor a memória política do partidão. Não poderia, em nome do bom senso, reduzir
a análise
historiográfica,
feita a respeito
do objeto
que
exploro,
a uma
visão
maniqueista. No entanto, fica difícil não afirmar que essa visão está muito presente em , Utilizarei a sigla para me referir ao longo da dissertação ao Partido Comunista do Brasil. É oportuno frisar, que até o ano de 1961, a referida denominação foi utilizada. A partir desse período o partido troca o nome para Partido Comunista Brasileiro. Ao fazer referência a situação dos comunistas brasileiros, diante da política nacional, no início dos anos 60, dentro de uma perspectiva de abertura
política, Edgar Carone afirma que: “Dentro da exigência de mudança e de abertura política está a legalização do PCB. Desde 1960 que se inicia a luta por este objetivo, mas, como a Lei Eleitoral
proibe a existência de partidos extremistas, os comunistas iniciam a discussão para a mudança de seus estatutos e pretendem transformar seu histórico nome, de Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro.” (CARONE, Edgar. O PCB:.1943 a 1964 - . vol. 2. São Paulo: Difel, 1982, p. 9.)
vários trabalhos a respeito do comunismo brasileiro, seja naqueles que acreditam num projeto de esquerda ou de direita. Desideologizar a discussão talvez seja a tarefa mais dificil para quem trabalha com o tema. Apesar de ter tido cuidados, para não cair neste tipo de abordagem, acredito que não tenha conseguido cumprir na integra com este objetivo. Ao ter optado por trabalhar com a história do PCB, vi-me seduzido por centrar a análise nos anos 30, tentando compreender um período que contraria a regra geral de atuação dos comunistas brasileiros. A lógica da luta armada, que norteou a ação dos militantes no levante de 1935, representou um momento único nas opções políticas adotadas pelo partido. Mesmo tendo se constituído como um momento de exceção, a ação frustrada de
1935 foi uma oportunidade ímpar que o Estado Varguista soube aproveitar para reforçar o teor autontário de seu govemo através da exploração do perigo comunista. Porém, analisar o movimento em si significaria abarcar um campo de abordagem extremamente extenso para a presente proposta de análise. Além disso, também não faltam obras produzidas por historiadores consagrados que fazem importantes balanços acerca do levante de 1935.
Mas o fato é que o recorte que eu me dispus a fazer constitui-se como algo bem mais pontual. A abordagem feita está centrada em dois anos que, para o meu trabalho, são chaves: 1936 e 1940. O elo de ligação entre os dois anos envolve um dos maiores tabus da trajetória política do PCB: o justiçamento de Elza Fernandes, ainda no ano de 1936. Apesar de ter sido justiçada naquele ano, o caso só vem à tona no ano de 1940, quando importantes dirigentes comunistas foram presos pela polícia do Estado Novo. A conjuntura que envolveu a instauração do conhecido “Tribunal Vermelho”, no ano de 1936, e que culminou com o justiçamento de Elza Fernandes, foi, para o partido, totalmente adversa. período
pós-levante
A repressão que se desencadeou de
1935
constituiu-se
como
sobre a política brasileira no reveladora
da
frágil
estrutura
organizativa, que não oferecia possibilidade mínima para que se efetivasse uma reação
contra a repressão do Estado Varguista. Na medida em que o cerco se fechava, e importantes dirigentes ligados ao comunismo brasileiro e mundial (que vieram para o Brasil para dar o suporte ao levante de 1935) eram presos, levantavam-se suspeitas sobre uma possível
traição dentro do próprio partido, entre dirigentes que ainda permaneciam
em liberdade. As suspeitas recaíram sobre a companheira do secretário-geral do partido, Elza Fernandes, porque as prisões de dirigentes se intensificaram após a captura do casal.
Na prisão, o secretário-geral do partido foi torturado barbaramente. Contrastando com essa realidade, duas semanas após ter sido presa, Elza Fernandes” foi libertada. As regalias obtidas por ela como, por exemplo, o direito de visitar Miranda,” despertaram suspeitas
entre
os
militantes
que
ainda
estavam
soltos.
Hesitando
em
dar-lhe
hospedagem, os comunistas passaram a vigiá-la, convencidos de que a presença de Elza era uma
ameaça
constante à militância do partido. Não
foram só as regalias que
provocaram as suspeitas sobre ela, mas também, como já foi afirmado, prisões que passaram a ocorrer de militantes que tinham vínculo com
o casal, ou até mesmo
as
informações desencontradas da própria Elza sobre a sua estada na prisão. Sua situação foi discutida pelo secretariado geral do PCB, sendo decidido que ela seria mantida sob custódia. Elza foi transferida para uma casa nos arredores do Rio. Em sua nova residência, certamente, não poderia imaginar que havia se tomado uma questão de Estado para o partido. O virtual estado de guerra pelo qual passava a militância estava marcado
destacado
pela
desconfiança
e
instabilidade
de
seus
dirigentes.
Martins,*
membro
da direção do partido, advertia sistematicamente Prestes sobre o perigo
representado por ela. Existia, por parte deste, o firme propósito de desgastar a imagem política de Miranda, pois ambicionava o cargo de secretário-geral. No período em questão, Prestes, que era um dos poucos comunistas importantes que se mantinha fora Seu nome verdadeiro era Elvira Cupello Calônio. Seu nome verdadeiro era Antonio Maciel Bonfim .
L
CA CENTR?. EaDE
das prisões, escondido no bairro do Meyer, nessa época ainda não fazia parte da direção do partido. Mas o seu status de agente do Cominterm, aliado ao seu prestígio nacional, o colocava numa real situação de poder. Quando
convencidos
de
que
Elza
estava
efetivamente
a serviço
da
polícia,
foram-lhe dados questionários que tinham a função de servir como uma espécie de interrogatório. A necessidade de confirmar uma conclusão previamente concebida, era importante
para
a decisão
instaurado,
revelando,
política da direção
em
sua
decisão,
central.
a ética
que
O Tribunal regulava
Vermelho
a ação
da
estava
militância
revolucionária dentro daquele quadro político. Se por um lado podemos afirmar, como já foi feito, que a prática da luta armada contrariou a trajetória política do PCB ao longo de sua caminhada na política nacional, não
podemos
afirmar
o
mesmo
em
relação
à ética
revolucionária
que
moveu
a
instauração do “Tribunal Vermelho”, mantendo um estreito compasso com a lógica do estalinismo. O reflexo dessa prática política marcou a condução do “Tribunal Vermelho”. O referencial revolucionário da militância comunista brasileira estava calcado nas práticas que
marcavam
as relações
políticas
dentro
do
comunismo
internacional.
Além
da
influência do estalinismo, a relação autoritária nas discussões pautadas entre a militância comunista
era
reforçada
pelas
próprias
práticas
políticas
que
se
estabeleceram
historicamente no Brasil, constituídas através de um referencial paternalista e autoritário,
centradas em
falsas premissas democráticas
que
marcaram
as relações do Estado
brasileiro com a sociedade, especialmente na década de 30. Consequentemente, não podemos considerar a prática do comunismo brasileiro em termos de relação autoritária como uma exceção à tônica firmada pela política do período. A decisão estava tomada pouco tempo depois de começar o processo intemo do partido: Elza Fernandes seria justiçada, o mês escolhido foi fevereiro, e o ano 1936.
Seu nome verdadeiro era Honório de Freitas Guimarães.
Apesar das suspeitas do govemo
Vargas
acerca do assassinato
de Elza,” não
houve possibilidade de confirmação do homicídio no ano de 1936. Porém, no início dos anos 40, novas prisões trarão à tona o caso que será fortemente explorado pela imprensa, provocando um enorme desgaste na imagem do partido. A evidente debilidade política do partido, que havia sido desmantelado pela repressão pós-levante de 35, não constrangia o governo Vargas de reafirmar, através da repercussão do Caso Elza Fernandes, a ameaça que representava para a sociedade a ação dos
comunistas
envolvimento
no
Brasil.
Na
verdade,
Vargas
encontrou,
da alta cúpula partidária no justiçamento
em
na
confirmação
questão,
um
do
elemento
concreto que “comprovava” a crueldade da ação comunista. O rompimento do incômodo compromisso forma
entre constitucionalistas liberais e nacionalistas autoritários, ocorrido de
mais contundente
após
o golpe
de
1937,
abria uma
enorme
margem
para a
manipulação da opinião pública no Brasil do início da década de 40: “De 1939 até fins de 1944, as o principal suporte do regime fortalecido pela criação de Durante todo este periodo a despediu
funcionários,
forças armadas e a policia de Vargas foram (...). Ao mesmo tempo o governo federal foi agências e institutos governamentais (...). esquerda foi perseguida pelo govemo que
professores, jomalistas
e outros
vínculos com os comunistas ou pró-comunistas. marxistas
foram
encarcerados,
exilados
ou
que
mantinham
Os lideres de grupos afastados
de
qualquer
atividade”.
O esfacelamento partidário havia reduzido o PCB, nesse período, a uma grande inércia. A continuidade da defesa de uma política de frente nacional e de unificação do governo com o povo para o combate de uma ameaça integralista contrastou com a forte repressão
desencadeada
em
dezembro
de
1939,
resultando
na prisão
de diversos
militantes.
3
As suspeitas começaram a surgir de forma mais contundente a partir da prisão de Luiz
Carlos Prestes em 5 de março de 1936, quando é apreendida uma série de documentos do partido que apontam para Fernandes.
uma
discussão
interna entre os dirigentes, .
que
teria resultado
na execução
de Elza
Em novembro de 1940, Prestes foi a julgamento com outros cinco acusados do assassinato de Elza Fernandes. As condições para que isso fosse possível se deram a partir da prisão de Abóbora,” integrante do comitê central do partido.
As prisões realizadas entre março e abril de 1940 foram consideradas as mais importantes desde a captura de Prestes. As indicações de onde eram impressos os documentos do partido, extraídas sob
tortura de Abóbora, deram a pista para a prisão de mais alguns militantes importantes: Bangu; Martins, ? Sebastião Francisco, Noé Gertel e mais cingúenta outros comunistas.
As respectivas prisões foram acompanhadas da profusão de notícias sensacionalistas nos Jornais sobre o caso Elza Fernandes. “Nunca o perigo comunista foi maior no Brasil que no presente”. Estas palavras,
do relatório do diretor do DOPS, Felisberto Batista Teixeira, ao chefe de polícia Filinto Miiller, foram usadas como manchete pelo Jornal do Brasil de 14 a 16 de abril, quando aquele matutino
publicou partes dos relatórios policiais que tratavam
sobre o perigo
comunista. Foram oferecidos pormenores sobre as prisões de Martins, Bangu e outros líderes comunistas. “A
imprensa
Guimarães,
devotou descrito
considerável como
o
espaço
verdadeiro
a
Honório
chefe”
dos
de
Freitas
comunistas
brasileiros. Sugenia-se ter sido ele o responsável pelo assassinato do jovem Tobias Warchawski, um espião policial, e depois imputaram sua morte à polícia. Acresce que os jomais, publicaram a confissão de Honório de Freitas Guimarães que segundo o que foi divulgado assumiu o encargo de assassinar Elza Femandes depois de ter recebido a carta de
Prestes sobre o assunto”.'º
é
CHILCOTE, Ronald H. O Partido Comunista Brasileiro: conflito e integração, 1922-
1972. Rio de Janeiro: Graal, 1982, p. 86. Seu nome verdadeiro era Eduardo Ribeiro Xavier.
Ê
Seu verdadeiro nome era Lauro Reginaldo da Rocha
?
Com relação aos acusados do assassinato de Elza Fernandes, optei por utilizar os seus
apelidos no texto da dissertação. DULLES, John W. F. O comunismo no Brasil, cataclismo mundial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 209.
1935-1945: repressão
em
meio
BLSLIOTECA CENTRAL PUCRS
ao
As especulações a respeito do assassinato de Elza Fernandes, iniciadas em 1936, tiveram a confirmação no ano de 1940. Martins passou a ser apresentado pelos jornais como
“cruel, violento, vingativo e implacável”.
Enfim,
configurava-se o tão desejado
perfil do comunista brasileiro. “Na imprensa, cram frequentes as expressões de louvor à polícia e a preocupação com o 'virus vermelho”. O Estado de São Paulo escrevia que o major
Filinto
Miller
e o capitão
Batista
Teixeira
“moram,
hoje, no
coração dos brasileiros”. O Jornal do Brasil aludia à dívida contraída pela nação com a
polícia por defender “a nacionalidade
e a civilização cristã
fundada pelos nossos maiores” e condenavam as “atividades extremistas” pela sua “incomparável e diabólica aptidão para corromper e envenenar”. Falando dos que tinham assassinado Elza Femandes “friamente, monstruosamente”, o jornal dizia ser difícil acreditar que se tratasse de brasileiros. E acrescentava: “contraste-se a crueldade dessas cenas inquisitoriais com a generosidade das forças armadas que, em 1935, repeliram o golpe de estado comunista e ter-se-á a nítida impressão da sorte reservada ao Brasil se triunfassem esses elementos de terror e
A avidez sensacionalista da imprensa seguiu de forma bastante intensa com o transcorrer dos acontecimentos que envolviam a elucidação do caso Elza. Quando, em
Belém do Pará, foi preso Cabeção,” imediatamente foram divulgadas notícias do “carrasco do Tribunal Vermelho”. Adjetivos como “monstro cabeçudo” foram utilizados
para alardear a prisão daquele que foi responsável pela execução de Elza Fernandes. O desenvolvimento do processo instaurado contra os envolvidos no assassinato desencadeou forte reação em Prestes, que se recusou a assinar qualquer documento ou a fazer qualquer declaração. A
postura
adotada
pelo
partido,
no
decorrer
dos
anos
30,
em
relação
ao
justiçamento de Elza Fernandes, criou uma
profunda
marca entre os dirigentes. O
resultado final do processo não poderia ter sido pior. “Em 7 de novembro, o juiz Maynard Gomes proferiu sentenças impondo 30 anos de reclusão a Prestes,
Cabeção,
Ibid., p. 206-207. Seu verdadeiro nome era Francisco Natividade Lyra.
Honório de Freitas Guimarães,
Abóbora e Adelino Deicola dos Santos (in absentia). Bangu e Manuel Severiano Cavalcante, acusado de ter ajudado a estrangular a moça, receberam sentenças de 20 anos. Posteriormente Honório foi condenado a mais 30 anos de prisão pelo assassinato de Tobias Warchawski e a mais 20 anos como mandante de um atentado contra Dino Padeiro, considerado traidor do PCB. Honório foi expulso do Partido por ter dado com a língua nos dentes sobre o caso Elza Fernandes”.» 13
Prestes teve analiso
parte
um acréscimo de 30 anos a sua pena. No trabalho desenvolvido,
da trajetória
política
do
PCB,
a partir
do
caso
Elza
Fernandes,
referenciando a abordagem na ética revolucionária adotada pelos comunistas no período
em questão. Coloco em destaque seu resultado sobre a ação política do partido, bem como
os reflexos sobre a opinião pública brasileira.
utilizei-me centralmente do processo nº 1381
Para desenvolver essa reflexão,
instaurado pelo Tribunal
de Segurança
Nacional, para apurar as circunstâncias da morte de Elza Fernandes. Ao investigar a forma como foi veiculado o caso para a opinião pública a partir da imprensa, centrei a
minha abordagem em alguns jornais que fizeram ampla cobertura do caso no início dos anos 40, como o Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Estado de São Paulo, Diário de Noticias e o Correio do Povo.
Poderia ter aberto um outro flanco de análise abordando a ética revolucionária dos
comunistas
brasileiros
na
década
de
30.
Fiz algumas
incursões
muito
tímidas,
buscando suporte bibliográfico para sustentar a reflexão. Ainda assim não me senti em condições de um aprofundamento
maior. Logo, centrei meus esforços na tentativa de
demonstrar o quanto o caso Elza Fernandes foi manipulado pelo Estado brasileiro como forma de aprofundar o desgaste da imagem do partido diante da opinião pública. Mesmo tendo estreitado o meu foco de análise, não pude deixar de buscar as conexões entre o movimento comunista no Brasil e o comunismo mundial.
Como me deparava com uma realidade política dos anos 30 e início dos anos 40, não pude escapar de fazer uma análise da conjuntura do período. Não optei por uma abordagem muito ampla. Propositalmente busquei afunilar a análise feita a partir do comportamento da esquerda mundial diante da crise generalizada que tomou conta do id
DULLES, op. cit. p. 209.
10
sistema
capitalista
referências
à
no
período
trajetória
das
em
questão.
Nesse
Internacionais
afunilamento,
Comunistas,
fiz
buscando
constantes
ressaltar
sua
importância na articulação de estratégias para o desencadeamento da revolução mundial. Busquei
não
estabelecer
uma
relação
mecânica
entre
as orientações
políticas da TI
Internacional e o PCB. Acredito que tenha conseguido dosar bem no que se refere à ingerência ocorrida na política do partido por parte da IN Internacional. Porém, para manter coerência nas minhas percepções acerca dessa ligação, não me constrangi em
enfatizar o peso existente em inúmeras decisões tomadas pelo partido no período que analiso,
que em
grande
parte eram
referenciadas
em
orientações
que vinham
da
Internacional Comunista.
Com
relação a esse vínculo estabelecido, enquadro-me entre
aqueles
que
a
que
acreditam
mundialização
da revolução
geopolítica
comunista.
russa
se
Trabalhando
sobrepôs
com
aos
princípios
esse vínculo,
de
apropriei-me
dessa linha de abordagem para tecer as minhas considerações sobre a própria concepção de
frente
política
no
Brasil
criada
a partir
da
formação
da
ANL.!*
Nas
minhas
concepções sobre a conjuntura russa da época, percebo que dentro do cenário mundial o estado soviético se agigantava, e “o oportunismo palavras
de Marilena
Chauí
da “estratégia”
marcado pela oportunista tese”, nas
e da “tática”!
buscava
alianças
com
a
denominada burguesia progressista. Com o crescimento do nazifascismo, essas alianças são estimuladas em toda parte do mundo, política essa que se reflete no Brasil a partir da ANL. Essa tendência contrastava com a política do “Terceiro Período”, desenvolvido no VI
Congresso
do
Comintern,
marcando
forte hostilidade
para
com
os elementos
democráticos e reformistas. Assim como as diferentes conjunturas marcaram as práticas políticas da III Internacional, temos, em termos de comunismo
brasileiro, um
esforço
bastante grande em se afinar com orientações externas.
Outro cunho forte dentro do Partido tem a ver com o personálismo político nas relações entre membros
de instâncias decisórias. Nesse sentido, a marca indelével do
Estalinismo sobre a teoria marxista corrompeu as estruturas dos partidos comunistas da época, em detrimento de uma burocracia partidária que acelerava cada vez mais o 14
Utilizarei a sigla para designar a Aliança Nacional libertadora.
q
processo de fechamento
das instâncias decisórias.
O PCB
não fez exceção
a essa
tendência, sendo agravada pela mitificação anterior da imagem política de Prestes.
A própria visão de partido, defendida na teoria leninista, facilitou em muito esta tendência dentro do movimento
comunista internacional. Ao contrário das teses de
Trostky e Martov, que defendiam o princípio de que os operários que desenvolvem uma atividade política e o partido são a mesma coisa, predominou a idéia de que o partido estava por trás dos operários e acima deles, como força secreta que os guiava.
Se por um lado tivemos ao longo da II Internacional uma prática reformista dos partidos social-democratas, prática revolucionária. político
entre
na III Internacional
O misto
a Rússia
de sectarismo
soviética
e a III
a ortodoxia teórica ce oportunismo,
internacional,
não beneficiou
marcado
gerou
a
pelo vínculo
sucessivos
erros
de
avaliação, refletidos em ações políticas equivocadas como a ocorrida no Brasil dos anos 30.
Como parto do pressuposto de que a prática politica do PCB não se separa das orientações estabelecidas pela II Internacional, inicio o meu trabalho refletindo sobre a
ação do comunismo socialistas.
Claro
mundial
que,
na
a partir das práticas estabelecidas pelas internacionais
medida
em
que
a concepção
política
firmada
por
estas
internacionais se caracteriza como eminentemente curocentrica, minha abordagem ficou
em grande parte vinculada a esse cenário. Entretanto, busquei conexões com os países periféricos ao sistema capitalista para poder estabelecer a conexão necessária entre o PCB e o comunismo mundial. Apesar das referências feitas à I Internacional, centrei bem mais o enfoque nas
diferenças de concepções entre a política desenvolvida pela II e III Internacional. Ao explorar aspectos ligados à prática política da II Internacional, busquei mais o período de crise desta, tentando explorar os questionamentos surgidos em torno da questão da social-democracia européia, principalmente durante o período da I Grande 1
CHAUÍ, Marilena, Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1995, p. 427.
12
Guerra. As reflexões feitas por Lênin acerca do conflito, e sua teoria da revolução, bem
como suas compreensões teóricas acerca da estrutura de partido e noção de estado, considerei importantes para o meu trabalho, se bem que não me dispus a aprofundar a reflexão sobre estas. O que me interessava, fundamentalmente, era vincular esse período
de presença marcante da teoria leninista nas duas primeiras décadas do século XX com o espaço
ocupado
pela hegemonia
estalinista
no
estado
soviético
e no
comunismo
mundial. Dados ligados à supremacia dos russos dentro da III Internacional considerados por mim como relevantes para o entendimento do comunismo
foram mundial
entre os anos 20 e 30.
Ao
trabalhar
o estalinismo,
tentei
mostrar
como
a pragmatização
da
teoria
marxista comprometeu as práticas políticas dos partidos comunistas, em especial no caso brasileiro. Para tanto, me referenciei muito na tese de doutorado do professor Leandro Konder, que analisa as condições de chegada das idéias marxistas à América do Sul c ao
Brasil.!é O trabalho acima citado serviu também como suporte para que no capitulo 2 fosse possível estabelecer relações entre a orientação do partido e as resoluções da Internacional Comunista. Não que a obra de Leandro Konder trate diretamente disso, mas oferece muitos elementos para uma reflexão mais aprofundada nesse sentido. A abordagem
realizada
sobre
o vínculo
entre as práticas
políticas do
PCB
e a IN
Internacional, criou a necessidade de que fosse feito um estudo preliminar da trajetória política dos comunistas brasileiros nos anos vinte, para referenciar melhor o vínculo estabelecido
em
termos
de
organicidade
política
entre
o PCB
e
o
comunismo
internacional nos anos 30.
Se me ocupei nos dois primeiros capítulos de questões mais gerais, acerca do comunismo mundial ou brasileiro, optei no capítulo seguinte pelo afunilamento do tema.
O
KONDER, Leandro. 4 derrota da dialética. Rio de Janeiro: Campus, 1988.
13
Aqui entra o caso propriamente dito, isto é, as condições em que se encontravam os dirigentes do partido, como
foram
o momento político, as suspeitas em relação à Elza, a maneira
conduzidas
essas
suspeitas,
o peso
de
tomada
de
decisões
entre os
dirigentes, a postura da direção nacional enquanto representantes do partido e de Prestes, enquanto agente do Comintem. Surgiria também uma grande polêmica entre aqueles que decidiram o destino de Elza Fernandes no que diz respeito à questão da manutenção do status
do
partido
diante
da
opinião
pública
Procurei
analisar,
mesmo
que
superficialmente, as posições assumidas pelos envolvidos na decisão sobre o destino de Elza.
No
capítulo
4,
abandono
o
cenário
político
de
1936,
fazendo
algumas
considerações sobre a posição do inquérito instaurado para apurar o crime ao longo dos anos de 1937, 38 e 39. Porém, meu ponto de real interesse está nos anos 40, quando uma série de prisões feitas pelo govemo Vargas acaba criando as condições necessárias para a reabertura do processo. Retenho a minha abordagem na estruturação do processo e, acima de tudo, tento apreender a lógica argumentativa da acusação sobre os envolvidos no assassinato de Elza Fernandes. Busco, através desse viés, os elementos que revelem o
forte
discurso
anticomunista
Segurança Nacional.
presente
A compreensão
neste
processo
vinculado
ao
Tribunal
de
daqueles que na época eram representantes do
sistema judiciário brasileiro, e corporificavam a ideologia do estado varguista, no que se
refere ao comunismo enquanto alternativa política, também se tornou possível na análise feita.
Mas o peculiar nesse processo é que ele oferece, concretamente, ao Tribunal de Segurança Nacional, a possibilidade de encaixar o discurso anticomunista num caso que
serviu como amostra da “periculosidade” do comunismo enquanto possibilidade política segundo a ótica dos setores que detinham o controle do estado brasileiro na época. Como o processo oferecia a possibilidade de materializar o perigo comunista, O govemo
Vargas tratou de publicitá-lo à exaustão.
A cobertura, feita pela imprensa,
ganhou a preferência de ávidos leitores, sedentos por informações que tratassem sobre os
“horrores” que marcaram o assassinato da companheira do secretário-geral do partido no
período posterior ao levante de 35. No capítulo final, analiso o impacto do caso a partir de alguns jornais de grande circulação, tentando perceber o nível de desgaste sofrido por importantes dirigentes partidários diante da opinião pública brasileira. Sei
que
o processo
oferece
outras
possibilidades
de
análise,
no
entanto,
selecionei alguns pontos por mim considerados relevantes: em que medida o vinculo do partido com a Internacional Comunista foi responsável pelas determinações política do partido nos anos 30? Como a elucidação do caso por parte da polícia, e o julgamento dos envolvidos serviu para reforçar o discurso anticomunista e, finalmente, de que forma o
assassinato impactou a imagem política da alta cúpula partidária diante da sociedade brasileira?
O MARXISMO
NO PERÍODO DAS INTERNACIONAIS
SOCIALISTAS: A DIFÍCIL INSTRUMENTALIZAÇÃO
DA
TEORIA.
No transcurso do desenvolvimento da sociedade capitalista da segunda metade do século XIX, a filosofia marxista marcou enquanto princípio diferenciador. Na medida em
que
buscava
a união
com
a práxis,
inaugurou
a perspectiva
da
transformação
revolucionária. O capitalismo em sua fase de consolidação e expansão, se deparava com o seu
contraponto
corporficado
na organização
do
movimento
operário
europeu,
em
grande parte hegemonizado pelo ideal do socialismo. A teoria de Marx, ao conclamar os operários para a ação revolucionária, elemento de transformação
assinalou a importância
do curso da história. O marxismo,
do
homem
enquanto
ao enfatizar a idéia de
transformação revolucionária, conjugou por princípio a teoria e a práxis. A efervescência política
do
final
do
século
XIX,
e início
do
século
XX,
trouxe
a perspectiva
de
operacionalização da teoria enquanto instrumento político capaz de estabelecer rupturas com
o sistema
capitalista.
Aqui
encontramos
um
dos grandes
nós
dos
processos
revolucionários do século XX, que foram responsáveis pela construção e consolidação do chamado socialismo real. O ideal de liberdade, o debate amplo, em suma, os princípios
I6
que
num
primeiro
plano
seriam
norteadores
do
avanço
do
socialismo,
viram-se
engessados pela urgência da prática política. Dentro
da própria Rússia da década
de 20, observa-se o quanto tornou-se
complicada a relação daqueles que deveriam ser os protagonistas do Estado soviético. O proletariado russo ressentiu -se profundamente da ausência de espaços reivindicatórios. Na relação operário-Estado pelo viés sindical, Arthur Rosemberg faz uma interessante observação: “Quanto mais agravavam-se as condições de vida dos operários russos, pior se tomava o Estado de espírito dentro dos sindicatos, (...). Assim chegara-se a questão fundamental da Rússia dos sovietes. Como já afirmamos, na Rússia dominava a ditadura do proletariado: O Estado era o Estado dos operários (...). Assim no final de 1920, as reclamações dos sindicatos levaram a uma interrogação: na realidade, o que era o Estado dos sovietes e qual a sua relação com os operários?”
Os questionamentos feitos por Rosemberg permaneceram
contemporâneos
ao longo dos anos 20 certamente
para as décadas posteriores da história do comunismo
TUSSO.
Por outro lado, se nós extrapolarmos
o caso específico russo, e centrarmos
a
nossa atenção no próprio trato dado à teoria marxista, encontraremos sérios problemas na própria utilização da dialética, ao observarmos que esta
num primeiro momento,
tornou-se mais em: “(...) uma suscitadora de problemas do que uma eficiente fornecedora de respostas às perguntas que os marxistas tinham de se fazer, no plano filosófico. Isso não ficou suficientemente evidenciado porque os marxistas, face às premências de seus combates, obrigaram a dialética de Marx a vestir a camisa-de-força de um sistema acabado, encerrando-a em um conjunto de fórmulas nitidamente articuladas uma às outras e paradoxalmente “estabilizadas””. ?
À
ROSEMBERG,
Arthur. História do Bolchevismo. Belo Horizonte: Oficina dos Livros,
1989, p. 190. 2 KONDER, op. cil., p. 11-12.
17
A articulação de fórmulas, evidenciada por Konder, juntamente com o paradoxo da estabilização,
nos
remete
à realidade
das
Internacionais
Socialistas,
originadas
na
Europa a partir da segunda metade do século XIX. Quando Marx e Engels somaram esforços para fundar a I Internacional Socialista no ano de 1864, o fizeram ainda sobre o refluxo das derrotas de 1848. O reavivamento do ímpeto revolucionário passou a ocorrer a partir da experiência da Comuna de Paris. Apesar da Comuna ter representado um marco no sentido de ter definido os rumos da Internacional, ainda assim notou-se, na organização,
sérias dificuldades em buscar, num
política comum,
quadro
interno divergente, uma
que viabilizasse a ação dos integrantes da entidade.
Não
ação
podemos
considerar a 1 Internacional Socialista, ao longo de sua trajetória, como uma entidade de estrita
orentação
marxista.
No
entanto,
as
dificuldades
em
potencializar
a
ação
revolucionária esbarraram em uma inércia parcial. Os conflitos entre Bakunin e Marx, por exemplo, denotaram divergências em termos de encaminhamento
de diferentes compreensões teóricas, que em parte foram
responsáveis pelas restrições à operacionalização da ação política. No ano de 1871, na Conferência
de
Londres,
Marx
conseguiu,
através
da
Associação
Internacional
dos
Trabalhadores, em manifestação oficial, firmar princípio a favor da constituição da classe operária num partido político, bem como posteriormente especificar que a conquista do poder político era o grande dever do proletariado. Essas posições tiveram forte oposição de Bakunin. As divergências se estenderam até o ano de 1872, quando Bakunin foi expulso da Internacional sob a acusação de tentar organizar, dentro da entidade, uma
sociedade
secreta.
A própria
conquista
de poderes
por parte
do
Conselho
Geral,
defendida por Marx e Engels na I Internacional, permitiu que a expulsão fosse levada a cabo. O centralismo político e a busca da hegemonia do grupo adepto de Marx, ao longo da I Internacional Socialista, já representavam uma relações políticas ao longo das internacionais seguintes.
amostra de como
se dariam as
18
Conjugar o debate político com a prática, tornar-se-ia, ainda, uma tarefa mais árdua. Em Partidos
1876, dissolveu-se a I Internacional. nacionais
de trabalhadores.
Em
1889,
Em
anos posteriores,
emergiu
no
cresceram os
cenário
europeu
a II
Internacional Socialista. A orientação política da Social-democracia européia, no interior da II Internacional, conduziu os rumos do movimento operário no tempo de duração desta. As múltiplas interpretações acerca da teoria marxista, que conduziram os debates ao
longo
movimento.
desse
período,
assinalavam
No
entanto,
os
marxistas,
o caráter
divergente
posteriores
a Marx,
entre
a militância
com
o
objetivo
do de
consolidarem seus princípios, colocando-se como legítimos herdeiros da teoria original, não abriam espaço para a diversidade. Faz-se necessário considerar que a lógica do marxismo naquele momento estimulava o princípio de hegemonia de um determinado grupo
sobre o restante do movimento.
No
caso da II Internacional,
encontramos,
constantemente, a busca pela consolidação de espaços políticos e referenciais em termos de ação teórica dentro de um perfil homogêneo, por parte de grupos que a integravam. Apesar de ter uma orientação centrada numa vocação de massa, de buscar reforçar o caráter internacionalista do proletariado, (ao menos até a eclosão da I Guerra Mundial), a H Internacional foi marcada por uma orientação nitidamente reformista. Rompeu com os princípios revolucionários marxistas, dando uma guinada à direita em um processo que vinha se desenvolvendo desde a segunda metade do século XIX, e que caracterizou sua
ação pela submissão das direções dos partidos social-democratas às suas respectivas burguesias nacionais. As posturas reformistas assumidas representaram uma quebra de unidade
do
proletariado
europeu,
colocando-o
em
contraposição
aos
aspectos
revolucionários, defendidos nos escritos de Marx. Encontramos na prática política, bem como no fato de seus militantes de cúpula terem-se envolvido em erros avaliativos acerca
da eclosão da I Grande Guerra, razões que nos levam a concluir que os grandes equívocos cometidos pelos teóricos da II Internacional vinculados à social-democracia alemã, criaram uma situação de imobilismo dentro dos aspectos ligados à busca de rupturas mais profundas do sistema capitalista pela via revolucionária. Guesde, Kautsky e
19
Plekhanov, ao legitimarem o conflito, enquadravam as razões geradoras da I Grande Guerra dentro do perfil revolucionário de outros movimentos políticos que envolveram a burguesia
européia
no
final
do
século
XVIII
e ao
longo
do
século
XIX.
O
internacionalismo proletário rompeu-se. Difícil ficava, para a reflexão teórica, ingressar numa lógica de ruptura: “(...) o marxismo se transformou. Antes era uma teoria revolucionária com a qual mentes mais radicais da inteligentsia burguesa queriam fazer avançar as massas operárias. Agora seria uma ideologia classista, com a ajuda da qual os operários melhorariam sua posição dentro da sociedade burguesa. Essa transformação do marxismo, de 1848 à II Internacional, foi um grande passo à frente para a autonomia e a consciência que a classe operária tinha que ter de seu próprio valor. Mas, constituiu também, decididamente, um retrocesso no caminho da revolução”.*
Avançar rumo à ocupação de espaços institucionais serviu como tônica para as diretrizes politicas da II Internacional. A marcada concepção gradualista, que norteava a
compreensão
de teóricos relevantes do período, estava impregnada de um misto de
tentativas de compatibilização do marxismo clássico com teorias cientificistas. Ficava bastante dificil para o marxismo do século XIX fugir de referenciais tão fortes nesse período. No
entanto,
as influências
cientificistas
criavam
modelos
de
avaliação
que
dificultavam a ação revolucionária: “Nos últimos vinte anos do século XIX, o marxismo se encontra, pois, com as exigências práticas do movimento operário: todos os aromas fatalistas, mecanicistas, deterministas, são aspirados e espremidos pela “filosofia da práxis” dos partidos socialistas, dos publicistas da imprensa do partido, dos propagandistas. Nasce a “triade” do marxismo: a concepção materialista da história, a teoria do valor, a luta de classes. Nos mesmos anos, aromas de
conteúdo similar-e com um centro de gravidade um pouco anterior -
id
ROSEMBERS, op. cit., p. 218-219.
20
hauriam ;
forças na filosofia monista, nas sínteses de obras de Haeckel, 4
Darwin e Spencer”.
Teóricos produção,
uma
da
II
Internacional,
evidente influência
como
Karl
Kautsky,
de uma perigosa
manifestavam,
aproximação
em
sua
entre as ciências
naturais e as interpretações acerca das sociedades humanas. Na medida em que Kautsky ocupou um lugar central, durante muito tempo, no seio da II Internacional, tivemos grande influência de suas concepções teóricas nas ações politicas do período. O próprio Lênin, que travou um duro embate contra as concepções kautskianas, teve, em boa medida, sua formação teórica com os escritos de Kautsky. Podemos perceber claramente a influência cientificista de Kautsky
na passagem
a seguir, onde
faz uma
série de
considerações a respeito da divisão das ciências: “As ciências se encontram
repartidas em dois grandes
ciências naturais, que procuram definir
domínios:
o das
as leis dos movimentos dos corpos
inanimados, e o espirito das ciências psicológicas ou ciências do espirito, assim impropriamente chamadas. Porque, na medida em que o espirito surge como manifestação de um corpo particular, ele é do domínio das ciências naturais. À psicologia, quer dizer, a ciência da alma, utiliza os métodos das ciências naturais (...). As ciências naturais têm um direito incontestado nesse domínio”.*
Ao considerar as ciências psicológicas como parte integrante das ciências naturais, Kautsky tentou romper
com
princípios metafísicos existentes nas chamadas
ciências
psicológicas. No entanto, sua abordagem não se limitou a isso: “Aquilo a que se chama as ciências psicológicas são, na realidade, as ciências sociais - que tratam das relações do homem com o seu semelhante. Só as atividades e as manifestações psicológicas do homem que ai entram em consideração são objetos próprio das ciências psicológicas. Entre estas, podem de novo distinguir-se dois grupos. As que estudam a sociedade humana como tal e baseando-se em observações numéricas: deste grupo faz parte a economia política ou, por outras palavras, a ciência das leis da sociedade econômica sob o regime de produção material. O outro grupo 4
ANDREUCCI, Franco. “A difusão e a vulgarização do marxismo”. In: Hobsbawn, Eric
etal. Ilistória do Marxismo II: o marxismo na época da II Internacional (primeira parte), Rio de Janeiro: Paz c Terra, 1982, p. 32.
E
KAUTSKY, Karl. As três fontes do marxismo. São Paulo: Global, p. 12.
21
das ciências psicológicas compreende aquelas que até o presente se ocupam sobretudo do indivíduo e que tratam do seu lugar e de sua atividade na
sociedade: a História, o direito, a ética ou moral” é As leis naturais aproximavam-se, segundo essa perspectiva, das ciências humanas. Tomavam uma conformação de leis universais, que anulavam a ação do sujeito histórico.
Essa forma de abordagem teórica criou um esvaziamento do papel do sujeito histórico, enquanto elemento de transformação. Criou-se a dimensão da continuidade, que reforçou a perspectiva da prática institucional de maneira bastante perigosa, inclinada à aceitação da permanência do status vigente: “O crescimento exagerado da dimensão da continuidade evolutiva, nessa abordagem, acarretava uma subestimação da descontinuidade, um desprezo pela ruptura, e levava a negligenciar as contradições, cuja superação depende — efetivamente - da intervenção ativa e das opções dos homens”. 1
A confusa situação do período de início do século XX, favorecia esse cenário de
imobilismo. A essência da articulação revolucionária foi engolida pelo genérico discurso das burguesias nacionais agarradas à bandeira do nacionalismo. Na primeira década do século
XX,
o nacionalismo já havia se transformado
em
elemento
de manutenção
do
conservadorismo burguês numa Europa que não havia conseguido dirimir seus conflitos no âmbito
da disputa imperialista. A definição da relação entre a ação
marxista e os
Estados Nacionais se tomou um enorme problema para o movimento comunista, não conseguindo reunir uma postura de consenso entre a cúpula diretiva da II Internacional. Se voltarmos a um cenário anterior, no período da nascente social-democracia alemã, teremos
um
discurso
de
negação
da
questão
nacional,
vista
como
uma
questão
meramente burguesa. Porém as mudanças políticas da Europa de 1869 ao período de hegemonia
da
social-democracia
alemã
junto
à
II
Internacional,
alteraram
consideravelmente a visão do movimento sobre o nacionalismo. O próprio conceito de Estado nacional serviu como base para a formação da II Internacional. No caso do É É
Ibid. KONDER, op. cit., p. 27.
Partido social-democrata alemão, esta questão se fez presente no cenário que envolveu a I Grande
Guerra.
Segundo
a ótica da Social-democracia alemã, defender o Estado
naquele momento
significava a busca pela preservação do crescimento do movimento
social-democrata.
Buscar a sua preservação significaria assegurar a sorte da própria
revolução. Neste caso, não se tratava de buscar a revolução proletária dentro de um quadro ampliado de uma crise profunda do sistema capitalista. Mas, ao contrário, os sociais-democratas
alemães,
que dominavam
em grande parte a ação
política da II
Internacional, buscaram legitimar a sua força política dentro da nação já estabelecida. A preservação
de suas instituições significaria a manutenção
de espaços
obtidos
pelo
movimento operário em suas conquistas institucionais. A aposta no fortalecimento dos Estados Nacionais se apresentava como a possibilidade de ver, nestes, a intensificação da luta de classes e da conquista de instâncias de poder. No auge dos conflitos, deveria ocorrer a substituição de um
uma
outra
dinâmica
de
Estado,
entendimento
do “sentimento
independente,
conduzia
momento
de pré-guerra
modelo de Estado capitalista, visto como
voltada
para
nacional” como
a social-democracia para o continente
os
uma
interesses
do
proletariado.
O
força motriz que age de forma
por caminhos europeu.
fracassado, por
tortuosos,
dentro
O internacionalismo
de um
proletário,
contido no Manifesto Comunista, tomava nova feição: “O intemacionalismo proletário não é mais sem fronteiras, como no Manifesto: passa pela “nacionalização” também dos proletários. Kautsky põe o dedo na nova contradição do movimento operário e do marxismo (...) A conclusão que Kautsky se esforça, pois, por conjugar um intemacionalismo proletário, que tende a mais sacrossanta utopia, c a solidariedade das nações que se dirigem ao socialismo (...)”. *
O
reconhecimento
do
proletariado
como
classe integrante
do
Estado-nação
redimensionava as relações de enfrentamento entre o proletariado e o Estado burguês.
8
GALISSOT, René. “Nação e nacionalidade no debate do movimento operário”. In:
Hobsbawn, Eric et al., op. cit., p. 200.
23
Se
levarmos
em
conta
as observações
de Marx,
contidas
no
manifesto,
a
percepção que teremos da condição proletária acerca de sua situação diante do Estado burguês, dá-se de forma bastante diferenciada: “Os operários não tem pátria. Não lhes podem tomar aquilo que não têm. Como porém o proletariado deve, em primeiro lugar, conquistar a dominação política (die politische Herrschaft), elevar-se à classe nacional, constituir-se ele mesmo em nação, ele é ainda nacional, embora de forma alguma no sentido que a burguesia atribui ao termo” ?
Não se pode considerar que os princípios revolucionários do marxismo compatíveis
com
a visão
de
nação.
No
entanto,
as
questões
nacionais,
em
sejam muitas
experiências do chamado socialismo real, suplantaram os princípios do internacionalismo proletário. Dentro de uma análise mais ampliada, se considerarmos as experiências do socialismo real, não encontraremos consumados os princípios apregoados pelo marxismo,
na medida em que o dito universalismo proletário se viu suplantado pelas diferenças nacionais, que ocuparam grande parte da tônica das discussões políticas do século XX.
No entanto, cabe reafirmar que a forma como o nacionalismo foi percebido por teóricos relevantes da II Internacional, como Kautsky, levou o movimento comunista do período
para alianças políticas incompatíveis com a prática revolucionária. A
pelos
corrente
bolcheviques
internacionalista
russos,
por
e revolucionária
Rosa
Luxemburgo,
da II Internacional,
Franz
Mehring
representada
e Liebknecht,
dirigentes da ala revolucionária da social-democracia alemã e por setores minoritánios nos demais
partidos comunistas
europeus,
colocava-se
numa
situação
de enfrentamento
diante da hegemonia reformista. O direcionamento do combate ao setor hegemônico da II Internacional não se fez apenas no plano político imediato. O combate também se fez no
2
ENGELS,
1988, p. 84.
Friederich
e MARX,
Karl. Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro: Vozes,
24
plano teórico, onde os esforços de recuperação do vigor da subjetividade revolucionária encontraram eco nos escritos de Rosa Luxemburgo (1871-1919) e Lênin (1870-1914). Rosa Luxemburgo sc insurgiu contra as concepções mecanicistas, que segundo a lógica dos setores reformistas da II Internacional, levariam a sociedade inevitavelmente ao socialismo.
Defendeu
a tese de que a sociedade tanto poderia avançar rumo
ao
socialismo quanto retroceder para a barbárie. Lênin, por sua vez, através da demonstração da teoria do partido revolucionário, buscou a intervenção concreta na história, no sentido da práxis revolucionária. Condenou duramente aqueles que foram classificados na II Internacional como social-chauvinistas. Travou-se um duro debate teórico entre aqueles que defendiam a participação operária na I Grande Guerra e o grupo que compreendia que o conflito em questão era resultante das contradições do sistema capitalista. Consequentemente, não era justificado o sacrifício da classe operária nos campos de batalha. Essa postura levou Lênin a condenar duramente a posição
formal
burgueses
acerca
envolvidos
da relação no conflito.
da cúpula Aqui
da II Internacional
se percebe um
com
interessante
os -governos
debate
sobre o
Imperialismo, onde Lênin afirmou, categoricamente, que devaneios teóricos não podiam paralisar a luta revolucionária: “A questão do caráter imperialista, espoliador e antiproletário da guerra atual ultrapassou, desde há muito, o estágio de um problema puramente teórico. Não é apenas sob o ângulo teórico que o imperialismo, nos seus traços principais, é, daqui por diante, considerado como a luta da burguesia periclitante, caduca, podre, pela divisão do mundo e pela sujeição das pequenas nações, (...). Deve-se, também, particularmente,
recusar, de pronto, como sofismas, todos os argumentos segundo os quais a distinção entre a tática nacional e a tática intemacional não foi suficientemente estudada (...). E um sofisma, porque o estudo cientifico
detalhado do imperialismo é uma coisa; esse estudo apenas começou e é sem
fim
(...). Os
partidos
socialistas não
são
clubes
de debate,
organizações do proletariado em luta (...)”.*º
gu
LÊNIN, V.L, 4 falência da Il Internacional. São Paulo: Kairós, 1979, p. 23.
mas
25
No calor do debate, devemos atentar para as últimas palavras de Lênin ao atacar aqueles que ele considerava como inimigos da revolução. Certamente que os partidos não poderiam ser considerados clubes de debates, mas a reflexão teórica não poderia cessar. A própnia produção intelectual de Lênin se constituiu como prova clara disso. Ligar o princípio da ação política revolucionária com a reflexão e o debate era sem dúvida,
naquele momento, um grande desafio. Seria possível manter a discussão aberta? Até que ponto a urgência da ação política não dissociou teoria e prática? A própria amplitude da II Internacional dificultava essa associação. Tornava-se dificil conjugar interesses dentro de bases políticas com interpretações tão diversas. Não podemos desconsiderar que, sob
o domínio da Social-democracia alemã, os partidos que lhes eram filiados haviam conseguido ou estavam em vias de conseguir uma base de massas. Princípios unitaristas não predominaram
no marxismo
da II Internacional.
importância que vai marcar a discussão teórica vai criar um abismo
A
entre correntes.
Difícil se tornava encontrar o caminho político que conduziria a ação da esquerda. A Alemanha,
enquanto centro irradiador da prática marxista, amadurecia em termos de
predominância,
servindo a social-democracia como
forte referência para os demais
partidos de orientação marxista. Percebe-se
uma
tendência,
nesse
momento,
de esquemas
simplificadores
do
marxismo: ““Os clássicos” passaram a ser lidos com um olho atento para a utilização
prática deles as partes históricas do Capital, mais fáceis de serem simplificadas, começaram a ter uma vida própnia, as sinteses e os manuais alcançaram uma receptividade extraordinária (...)”."!
Os
esquemas
simplificados
buscavam,
através
da
popularização
teórica,
referenciais que servissem para a ampliação da base política do movimento. O marxismo não poderia por princípio ser um movimento de debates teóricos restritos ao plano da
ANDREUCCI, op. cit., p. 31.
26
intelectual. Mais uma vez se incorria sobre a extrema dificuldade da conciliação entre a teoria e a práxis. No sentido de superar essa contradição, eram criadas outras perigosas armadilhas, contidas em equivocadas avaliações teóricas. Não cabe aqui o sentido de dogmatizar
os escritos
de Marx,
como
foi
feito
ao
longo
da
III Internacional,
nas
acusações contra os revisionistas da II Internacional. Porém, faz sentido chamar atenção
que o recorte teórico, produzido pelo marxismo na última década do século XIX e nos primeiros anos do século XX, causou uma incompatibilidade difícil de ser gerenciada. Ao condenar a prática revolucionária a um segundo plano, indubitavelmente abriu-se caminho para a aceitação das regras políticas instituídas pela sociedade burguesa. Começava
a busca
de um
novo
campo
de
possibilidades
que,
para
um
tensionado
momento político de início de século XX, criava armadilhas para o movimento operário europeu. Os limites da expressão política, marcados pela atuação institucional, ao mesmo tempo em que abriam possibilidades, engessavam a prática de ruptura revolucionária. A reação entre os quadros dirigentes do marxismo do período que discordavam de tal prática, não tardou. Configurava-se um divórcio entre correntes num momento politicamente confuso. A própria concepção de revolução criava um abismo entre a militância política. Princípios defendidos por Lênin afastavam-se diametralmente das concepções segmentos
mais reformistas.
O encaminhamento
defendidas
pelos
da luta revolucionária assumia um
contorno profissionalizado, de quadros que se afastaram da concepção dos partidos de massa.
Seria
ingenuidade
acreditarmos
no
potencial
democrático
do
socialismo
revolucionário. Indiscutivelmente, a democracia, enquanto princípio político sacralizado, nem sempre de forma coerente nas sociedades burguesas do século XX, contrastava com o viés autoritário, predominante no movimento comunista internacional. O revisionismo instaurado no interior da II Internacional Socialista confrontou-se
com
as
perspectivas
revolucionárias.
Nesse
momento,
encontramos
a
própria
compreensão acerca do que era ser revisionista como algo extremamente pejorativo:
27
“Não obstante, (...) o revisionismo raramente é entendido dessa maneira tão ampla e positiva. Em lugar disso, quando os marxistas posteriores a Marx procuram legitimar suas inovações, negando-as como tal e, em lugar disso, procurando estabelecer uma linha direta de descendência entre elas e as obras do próprio Marx, o marxismo tomou-se canonizado, e o revisionismo adquiriu uma conotação mais estreita, negativa e dúbia (...) o revisionismo tomou-se sinônimo dos “autores e figuras políticas que, embora partindo de premissas marxistas, chegaram paulatinamente a colocar em questão vários elementos da doutrina, particularmente as previsões de Marx quanto ao desenvolvimento do capitalismo e a inevitabilidade as da revolução socialista”.
Os
debates
travados
entre
o
reformismo
institucional
e
a
perspectiva
revolucionária apontavam para uma tendência de ruptura com a primeira das tendências citadas.
É certo que durante boa parte do período de vida da II Internacional
existiu
pouca possibilidade de ser questionado o peso político dos reformistas. Fazer oposição às tendências reformistas nas duas primeiras décadas do século XX significava romper com concepções políticas nos meios de esquerda que estavam impregnados de uma visão evolucionista,
que
secundarizava
a
iniciativa
do
indivíduo
enquanto
agente
de
transformação da realidade existente. A partir dessa visão, reforçou-se a contraposição inevitável
entre
sujeito
e
objeto,
produzindo-se
dessa
forma
um
imobilismo
revolucionário. As correntes
de esquerda,
no
interior da social-democracia,
ao se insurgirem
contra essas práticas políticas, buscavam o resgate do sujeito enquanto agente dinâmico,
respeitando
as
condições
objetivas
que
assinalavam
ou
não
as
possibilidades
revolucionárias, mas não concordando com interpretações mecanicistas e imobilistas. O entendimento da revolução como uma possibilidade histórica, na concepção de Lênin e Rosa Luxemburgo,
afastava-se da visão do inexorável, do determinismo,
que tanto
marcou o materialismo vulgar, para entrar no campo das possibilidades, entendendo que o fazer histórico comportava alternativas.
iz Kolakowski, 1978: II, 98. In: BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Zahar, 1988, p. 323.
28
A polêmica que marcou as divergências entre os membros da II Internacional e os marxistas soviéticos de forma acentuada, durante a I Guerra Mundial, prolongou-se ao longo dos primeiros anos da década de 20. Stálin, em
1924, evidenciava o oportunismo
da II Internacional, classificando-o
como dogmático. Por mais incoerente que possa parecer, Stálin também fez severa crítica à ausência do elemento subjetivo: à chamada teoria das forças produtivas de Kautsky. Torna-se interessante observar que do lado dos teóricos da II Internacional, as acusações contra os marxistas soviéticos eram enfáticas no sentido de denunciar sua ortodoxia: “Discutindo sobre o livro de Bukhânn a respeito do matenalismo histórico, um dos maiores representantes da Segunda Internacional, Emile Vandervelde, expressava a opinião de que, enquanto o marxismo de Kautsky era um marxismo “avançado”, o de Bukhárin era “um marxismo em retrocesso simplificado ao extremo, reduzido a um esquema”. Citando uma passagem de Bukhárin a propósito das perspectivas da revolução (não podemos prever, por enquanto, a data em que esse acontecimento ocorrerá (...) ignoramos a velocidade dos processos sociais, mas podemos
já indicar a direção deles”), Vandervelde comentava ironicamente: “Quando os trabalhos da Universidade Sverdlov estiverem mais adiantados, poderão traduzir as leis em cifras e, como para os eclipses da lua, poderão anunciar a data em que se venficará um evento””.” As
críticas
confrontavam
acerca
da
construção
de
uma
posturas opostas que se acusavam
práticas políticas centralizadoras,
evidenciadas
nova
ortodoxia
mutuamente,
por um
marxista-leninista
mesmo
profundo
apresentando
autoritarismo,
não
encontrando superação nas possibilidades históricas oferecidas à esquerda, nas primeiras décadas do século XX.
Mais uma vez, a urpência, no sentido de dar respostas políticas, colocava as vertentes do marxismo europeu em armadilhas pragmáticas que irão marcar a prática
ta
ANDREUCCI, op. cit., p. 20.
29
politica, inclusive dos marxistas russos, com a ascensão de Stálin ao poder do Estado Soviético.
Com a fundação da III Internacional, no ano de 1919, o comunismo mundial se colocou
de forma
direta, sob forte influência da mesma.
Associado
ao impacto
da
Revolução Russa, inicia-se, com a bem sucedida experiência, um considerável poder de atração, passando a referenciar a ação de partidos comunistas em várias partes do mundo. Com o poder dos soviets, inaugurou-se um forte exemplo a ser seguido. Ao
contrário
de todas
as rupturas
que
encontramos
ao
longo
da
Ie
IT
Internacional Socialistas, vamos ter a experiência política da III Internacional centrada em uma escala ascendente em termos de homogeneização
de práticas políticas. As próprias
teses
organizado
apresentadas
a partir
do
terceiro
congresso,
em
julho
de
1920,
demonstram essa tendência: “Não existe uma forma de organização imutável e absolutamente conveniente para todos os partidos comunistas. As condições de luta proletária se transformam incessantemente e, conforme essas transformações, as organizações de vanguarda do proletariado devem buscar, também incessantemente, novas formas mais adequadas de
organização. Por sua vez, as particularidades históricas de cada país determinam formas especiais de organização para os diferentes partidos.
Mas
essas diferenciações têm um
certo limite.
Apesar
de todas
as
particularidades existentes, as semelhanças das condições de luta proletária nos diferentes paises, nas distintas fases da luta proletária, constituem um fato de importância essencial para o movimento comunista. Esta semelhança é que proporciona a base comum para a organização dos partidos comunistas de todos os países”. !*
A
busca
do
enquadramento,
preocupação constante nesse período.
em Uma
termos
de
padrão
base comum
de
partido,
seria
uma
deveria ser a referência de
organização dos partidos comunistas. Não se abriram espaços para qualquer possibilidade
es
“Teses sobre a estrutura, os métodos e ação dos partidos comunistas - 3º Congresso da
Internacional Comunista - Junho de 1921- Generalidades”. In: 4 organização do partido e a HI Internacional: teses dos quatro primeiros Congressos Mundiais da Internacional Comunista - 1919 — 1923. 8. 1.: Proposta editorial, p. 11-12. |
30
de algum modelo “destoante”. Ficaria acentuado, nos primeiros anos da III Internacional, o compromisso em termos de princípio político no sentido de combater a burguesia. Ocorreu no 1º Congresso, realizado em março de 1919, um processo formal de fundação
da III Internacional.
organização,
sendo
que
Várias dificuldades
somente
no
segundo,
foram
realizado
enfrentadas
em
em julho-agosto
termos de
de
1920,
percebeu-se uma atuação mais representativa por parte de delegados vindos de vários países. É a partir deste momento que encontraremos um discurso mais radicalizado por parte do movimento comunista internacional. Reforçou-se o discurso da luta de classes. A conquista pelo poder tornou-se principio fundamental para a ação política dos movimentos comunistas. Certamente que ocorreram períodos variados na aplicabilidade desses princípios vinculados à III Internacional. A própnia política soviética sofreu oscilações no período em questão, muitas vezes contrastando com as orientações da Internacional Comunista. O Estado Soviético, muitas vezes, viu-se obrigado a fazer concessões contraditórias com
a prática revolucionária. Pode-se ilustrar essa afirmação com o exemplo da NEP,” que não se enquadrava dentro da política ofensiva proposta pelo movimento comunista do período.
Reconhecer
o
descompasso
não
significa
no
entanto,
concordar
com
as
afirmações de Arthur Rosemberg acerca da independência política da III Internacional diante da política soviética. Não podemos esquecer que políticos de suma importância para
o movimento
comunista
da época,
que
coordenaram
os trabalhos
políticos
dos
congressos da III Internacional, como foi o caso de Lênin, Zinoviev ou Bukhárin, tinham
estreita identificação com o Estado Soviético. Entendo que os descompassos existentes, principalmente, durante a fase em que Lênin esteve à frente da União Soviética, era muito mais em
função
de circunstâncias
conjunturais que
impeliram
seu govemo
a fazer
concessões, do que por uma questão de princípio. As práticas políticas estabelecidas a 14 Vou usar essa sigla para designar a Nova Política Econômica adotada pelo estado soviético nos anos 20.
31
partir
dos
congressos
da
III
Internacional
constituíram-se
centradas
numa
nítida
inspiração do modelo revolucionário russo. Os princípios bolcheviques se firmaram como a referência de militância dentro do movimento comunista internacional, durante os anos 20 e 30. Uma
vez firmados
Internacional,
tornava-se
os princípios um
desafio
revolucionários formalizá-los
e
a serem
aplicados pela HI
operacionalizá-los.
A
ação
revolucionária variou de intensidade na longa fase estalinista. No entanto, nos primeiros anos, quando Lênin ainda se encontrava no comando
político de uma Rússia recém-
vitoriosa com os bolcheviques no poder, tivemos uma intensa reafirmação de princípios revolucionários que buscavam, através da ação de ruptura, o resgate de práticas que efetivamente confirmassem a ação política fora dos quadros referenciais das instituições burguesas. A definição dos estatutos da III Internacional Comunista, nos primeiros anos
da década de 20, ia no sentido de romper com as práticas reformistas tão presentes durante o período de hegemonia política da social-democracia alemã ao longo da II Internacional. O entendimento da importância de uma eficiente direção revolucionária tornou-se estratégico
na
concepção
de
partido
que
se
construíia.
A
forma
da
militância
profissionalizada tomou corpo a partir das concepções de partido defendidas por Lênin ao longo do processo revolucionário russo, e tornou-se referência dentro das práticas políticas dos partidos comunistas orgânicos à III Internacional. Nesse sentido, o papel da direção partidária se tomou indispensável no encaminhamento da luta política de acordo com as principais teses elaboradas ao longo do terceiro congresso da III Internacional Comunista: “É necessário recomendar, que em primeiro lugar, os dirigentes do partido elaborem, após uma consulta profunda entre os organizadores assíduos, as primeiras linhas diretrizes desta transformação. Os organizadores, por sua vez, devem ser comunistas absolutamente convictos e abnegados, e devem
estar informados da situação do movimento nos diferentes centros do país. Depois disto, os organizadores ou os comitês de organização, que
receberam as instruções necessárias, devem dedicar-se a preparar regularmente o trabalho no local, devem eleger e designar as direções de grupo e adotar as primeiras medidas imediatas com relação a esta transformação. Depois, devem propor tarefas totalmente definidas e concretas para as organizações, os grupos de operários, as células e os diferentes membros; e estas propostas devem ser formuladas de tal modo que estas tarefas se mostrem úteis, desejáveis e práticas. Se for necessário, pode-se mostrar como realizá-las, com exemplos práticos, ressaltando >» 16 também, cuidadosamente, quais são os erros que têm que ser evitados”.
Ao analisarmos a definição sobre o papel dos grupos
dirigentes dentro
dos
quadros comunistas à época da III Internacional, evidencia-se, além do perfil autoritário, um sentimento “messiânico” que marcou a militância da época. O perfil do condutor das massas, que de forma absolutamente abnegada colocava a sua vida
a serviço da causa
comunista, marcou várias gerações de militantes de esquerda, refletindo de forma direta sobre o comportamento político daqueles mais diretamente ligados à luta pela derrubada do capitalismo. No entanto, o princípio do partido de quadros, longe de menosprezar a ação das
massas, reforçou a necessidade de uma estreita vinculação entre o comitê dirigente e os segmentos potencialmente revolucionários dentro da sociedade capitalista. Para definir essas relações orgânicas, foi estabelecido, na organização dos partidos comunistas, o princípio da centralização democrática, que passou a ser concebida como uma verdadeira síntese, uma fusão da centralização e da democracia proletária. A percepção dessa fusão passou pela idéia de uma atividade de luta permanente e comum do conjunto do partido. Fica facilmente evidenciada a busca determinada pela ação política de “consenso”. A construção desse princípio hegemônico, no início dos anos 20, abriu o espaço necessário para que na década de 30 e nos períodos subsegiientes, Stálin conseguisse engessar a reflexão teórica dentro da prática política do marxismo. Apesar da afirmação do princípio do centralismo político, encontramos uma significativa preocupação, no período inicial da IN Internacional, com possíveis distorções acerca do papel do centralismo democrático,
6
“Teses (...)”, op. cit. p. 17.
33
que não deveria ser visto unicamente como um instrumento de poder a serviço de uma casta burocrática. Porém, nesse ponto, retornamos a uma discussão anterior, que já foi evidenciada sobre
o empobrecimento
do
debate
teórico
dentro
dos
meios
comunistas.
A
teoria
marxista, engessada pela urgência da prática política, pela disputa pela hegemonia dentro das estruturas partidárias, impulsionou o movimento
comunista internacional à forte
tendência da ação política uniforme. Em termos práticos, a opção é compreensível, na medida em que
uma ação de
tomada de poder encontrava forte resistência no aparato repressivo burguês. No entanto, mesmo
após a tomada do poder e a posterior constituição de Estados socialistas, essa
tendência
não
se desfez.
Ao
contrário,
tornou-se
prática
corrente
entre
os grupos
dirigentes dos partidos comunistas que hegemonizavam o poder nos países do chamado socialismo real. As diretrizes políticas da III Internacional apontaram,
desde os seus primeiros
momentos, para caminhos que não oportunizaram o livre pensamento. Essa tendência já se manifestava nos primeiros anos de existência da III Internacional. Porém, ainda no II
Congresso encontramos uma estrutura organizativa bastante débil, o que oportunizou aos partidos comunistas, que haviam aderido à entidade, uma relativa autonomia. No entanto, essa situação transitória não descaracterizou a forte tendência centralista existente.
Esse centralismo se encontrava expresso no próprio modelo de Estado gerado pela experiência russa de 1917. No entanto, o rígido controle exercido pelo Estado, não foi suficiente para pôr fim as inerentes contradições latentes nas sociedades socialistas
surgidas sob a égide da Revolução Russa. A busca pela hegemonia política encontrou fortes percalços. O próprio distanciamento entre Estado e sociedade na Rússia do início dos
anos
20,
acentuava
essas
dificuldades.
Essa
situação
concepções defendidas pelos delegados da III Internacional:
refletia-se
nas
próprias
34
“O duplo poder da revolução, o govemo soviético e a internacional tinham sede nos palácio da autocracia. (...). A única cidade que os delegados estrangeiros não conheceram- e sua falta de curiosidade a respeito me desconcertava - foi a Moscou viva, com suas rações de fome, suas detenções, suas sujas histórias de prisões, seus bastidores de especulações (...) passeando de museus a creches-modelo, os delegados do socialismo mundial tinham o ar de se sentirem em férias ou fazerem turismo em nossa república sitiada, exangue, em came viva. Descobri uma forma a mais de inconsciência, a inconsciência marxista”. .
“a
.
.
A
.
-
17
Serge não apreendeu as várias nuanças do processo revolucionário russo, mas ao chamar atenção para o distanciamento
dos quadros
dirigentes da realidade de uma
sociedade que se encontrava sob a égide do socialismo, colocou em cena um problema que não vai se fazer presente só nos primeiros tempos da revolução, e nem tampouco só fez parte da sociedade soviética. A relação do socialismo com o poder gerou fortes deformações
nas estruturas de Estado.
O
socialismo
real produziu
modelos
sociais
deformados, estereotipados, provocando universos segmentados. A inexistência de um vínculo orgânico entre as vanguardas revolucionárias e o Estado soviético, por exemplo, marcou claramente esta tendência.
Por sua vez, um grande diferencial que se evidenciou na prática política da IN Internacional,
se comparado
com
a sua antecessora,
perspectivas políticas do movimento
comunista.
foi em
Ocorreu
relação
o resgate
ao trato com
do
conceito
as
de
revolução, até mesmo porque, principalmente a partir do 2º congresso, percebeu-se clara
preocupação por parte do movimento comunista, com um quadro de crise dentro do movimento revolucionário. Já não se apostava na inevitabilidade da crise do sistema, mas sim na necessidade da mobilização política das forças do proletariado, com a perspectiva de tomar de assalto o poder.
”
SERGE, Victor. “Memórias de um revolucionário”. São Paulo: Companhia das Letras,
1987. Apud. GOLIN, Tau. “A crise revolucionária que não houve”. In 4 III Internacional Comunista Teses e resoluções do II Congresso. São Paulo: Brasil Debates, 1989, v. III, p.11.
35
O resgate do conceito de revolução, no entanto, não significou o distanciamento
de questões reivindicatórias de caráter imediato ao trabalhador. A participação do cotidiano politico era considerada fundamental para a conquista da confiança do meio operário, ao menos na fase de tomada do poder. Nesse sentido, era visto como legítima a disputa de espaços participativos em várias instâncias, que poderiam ser tanto de caráter político, como lúdico. O fundamental era fugir à tendência de, ao reafirmar princípios de ruptura, cair num imobilismo político. Tinha-se que buscar a aproximação necessária com o movimento operário, deslegitimando a ação dos sindicatos reformistas, denunciando a nefasta vinculação entre seus dirigentes e o grande capital. A grande questão era a de buscar o equilíbrio entre as condições concretas que moviam a ação operária com todas as suas contradições, e o objetivo maior de construção de uma nova ordem. Não se negava
em
nenhum
momento
o
enfrentamento.
A
correlação
de
forças
para
o
enfrentamento político com as forças capitalistas, num período em que: “(...) o avanço das tropas brancas e a guerra com a Polônia faziam com que Zinoviev afirmasse seguidamente que a salvação da revolução está na Intemacional”.*
A busca pelo enfrentamento direto com as instituições burguesas constituiu a tônica
política
do
reivindicatório
período,
sendo
que
a participação
de
movimentos
de
caráter
representava o caminho para a revolução. Se, por um lado, no momento
da convocação do II Congresso, o clima era de apreensão, as vitórias sobre o exército branco
ou os avanços positivos do exército vermelho sobre os poloneses davam novo
alento
para
os
delegados
que
participavam.
Esta
situação
reforçava
o
ímpeto
revolucionário. A intenção não era a de ficar no “meio do caminho”. A simples conquista dos espaços institucionais que se constituiu como tônica política pela militância da II Internacional já não bastava. No entanto, a prática parlamentar não era negada na sua totalidade
em
termos
de instância de luta.
Se não
fosse possível a destruição
das
instâncias burguesas de participação política, ao menos se deveria buscar ocupar os seus
E
GOLIN, op. cit., p. 8.
espaços,
fazendo
valer propostas
significativas no plano
de ação
revolucionária.
A
instância última a ser atingida, indiscutivelmente, era o poder. A formação de um novo modelo de sociedade era a tônica da prática política.
O caminho deveria conduzir para a
conquista do poder, para a ruptura com a ordem capitalista, de acordo com o artigo 1º da II Internacional Comunista: “A Nova
Associação Internacional dos Trabalhadores é fundada com o
objetivo de organizar uma ação conjunta do proletariado dos diversos paises,
tendendo
estabelecimento
a
da
um
só
fim;
ditadura
do
a
liquidação
proletariado
e
do
capitalismo,
de
uma
o
república
intemacional dos soviets que permitirão abolir totalmente as classes e realizar o socialismo, primeiro grau da sociedade comunista”. O
modelo
revolucionário,
construído
nos
quadros
organizacionais
da
HI
Internacional, trouxe muito da concepção de partido contida em Lênin. A idéia de uma direção
central,
liderando
as
massas,
tornou-se
uma
constante
na
afirmação
dos
referenciais de luta. No entanto, a valorização dos quadros dirigentes não significava o distanciamento com os setores potencialmente revolucionários na fase preparatória da luta pela chegada ao poder. Permanecia o proletariado como elemento indispensável para a luta revolucionária. Não desprezavam, também, outros segmentos sociais, considerados pelos
comunistas
como
referencial de sociedade, vínculo
orgânico
entre
semiproletários,
que,
seriam importantes direção
e massas
ao
ingressarem
na
luta
aliados no combate
se constituiu
como
por
um
outro
ao capitalismo. fundamental
para
O o
andamento de uma trajetória politica de ruptura. O vínculo pretendido tomou-se um princípio que se colocava como diferenciador
da
prática
política
defendida
pela
militância
da
elemento
III Internacional,
se
comparada com a da internacional anterior: “Nas organizações do antigo movimento operário não revolucionário, desenvolveu - se um dualismo de natureza idêntica ao da organização do Estado burguês. Nos referimos ao dualismo entre a burocracia e o “povo”. 12
“Estatuto da Internacional Comunista — 2º Congresso da Internacional Comunista —
julho de 1920.” In: op. cit., p. 62-63.
37
Sob a influência desastrosa da atmosfera burguesa, de certo modo as funções se isolaram, a comunidade de trabalho foi substituída por uma democracia puramente formal, e a própria organização dividiu-se em funcionários ativos e uma massa passiva. Inevitavelmente, até certo ponto, o movimento operário revolucionário herda, do ambiente burguês, esta tendência ao formalismo e ao dualismo. O Partido Comunista deve superar radicalmente esses antagonismos (..)”
Outro aspecto importante a ser ressaltado é a relação entre o proletariado e a agitação antimilitarista. Na medida em que a via insurrecional era a alternativa buscada,
tentava -se o distanciamento do operariado de tal tipo de movimento: “A agitação antimilitarista, em um certo sentido pacifista, é muito prejudicial, pois só conseguirá alentar a burguesia em seu desejo de desarmar o proletariado. O proletariado recusa por princípio, e combate da forma mais enérgica possível, todas as instituições militaristas do Estado burguês e da classe burguesa em geral. Por outro lado, o proletariado aproveita essas instituições (exércitos, sociedades de preparação militar, milícia pela defesa dos cidadãos, etc.) para exercitar militarmente os operários, com vistas às lutas revolucionárias. A agitação intensiva não deve, portanto, estar dingida contra a formação militar da juventude e dos operários, mas contra a ordem militarista e contra a arbitrariedade dos oficiais. O proletariado deve utilizar da forma mais enérgica possível toda a possibilidade de apropriar-se de armas”*
A mobilização operária, bem como a consequente busca pela hegemonia política, levava as organizações comunistas a buscarem um referencial padrão de articulação de diretrizes. Nesse aspecto, o caráter coordenador, em termos políticos da III Internacional,
diante dos partidos comunistas, se constituía como um ponto básico para determinar a linha de ação dos mesmos.
As teses defendidas apontavam
para uma linha fortemente
centralizadora:
“Art. 9- O Comitê Executivo da Internacional Comunista dirige, durante o intervalo que separa as sessões do Congresso, todos os trabalhos da Intemacional Comunista; publica, em pelo .menos quatro idiomas, um
órgão central (a revista A Internacional Comunista) publica os manifestos que julgar indispensáveis em nome da Internacional Comunista e dá a todos os partidos e organizações filiadas instruções que tem força de lei O a
a
“Teses (...)”, op. cit., p. 13-14,
Ibid., p. 28.
38
Comitê exccutivo da Intemacional Comunista têm o direito de exigir dos partidos filiados que sejam excluidos grupos ou indivíduos que tenham abandonado a disciplina proletária pode exigir a exclusão dos partidos que
tenham violado as decisões do Congresso mundial. Esses partidos têm o direito de apelar ao Congresso mundial. Em caso de necessidade, o Comitê executivo organiza, em diferentes paises, bureaux auxiliares técnicos e ar e : »2 outros que lhe são inteiramente subordinados”.
Apesar da tese citada, ter predominado na linha de ação política do comunismo internacional, autores como
Arthur Rosemberg,
que trazem consigo um
histórico de
militância política do período abordado (anos 20, 30), discordam que concretamente essa tendência
tenha
se manifestado
de
forma
intensa
nas
relações
entre
os
partidos
comunistas e a III Internacional a partir de 1921. Segundo ele, não existiiam vantagens para
a Rússia,
com
o
refluxo
da
revolução
intemacional,
em
manter
de
pé
a
HI
Internacional: “Os adversários dos bolcheviques frequentemente afirmam que a Rússia soviética usa a III Internacional em favor de sua politica extema, ou que a Intemacional Comunista é um instrumento para submeter os operários estrangeiros à Rússia. Ambas as interpretações, diante de um exame objetivo dos fatos, são falsas. Seria muito útil para a política extema russa que um partido comunista dependente da Rússia dominasse um importante pais europeu, mas desde 1921 os comunistas não conseguiram conquistar o
poder em nenhum país fora da Rússia”2 Ao contrário das críticas feitas acerca do atrelamento, o autor tenta reforçar o paincípio autonomista dos partidos do período: “A política extema russa, se quer ser vitoriosa, deve se entender com os govemantes, os partidos e os govemos existentes. E as relações da Rússia com Mussolini, Kemal Paxá, com a República alemã e com a Inglaterra não são facilitadas pela existência dos respectivos partidos comunistas, ao contrário, são dificultadas. A diplomacia russa trabalharia melhor e com
mais eficiência se não estivesse comprometida
pela existência da II
Intemacional. A organização da diplomacia russa, como também comércio exterior, é inteiramente independente da organização da intemacional”*
"a a
2 =
“Estatuto (...)”, op. cit., p. 64. ROSEMBERS, op. cit., p. 218-219.
Ibid., p. 219.
do III
39
Não é possivel negar que a aura mítica, que envolveu a Revolução Russa após a chegada dos bolcheviques ao poder tenha criado um
profundo
desconforto
entre as
nações capitalistas. A organização e a atuação dos partidos comunistas, bem como a
própria tendência de internacionalização do movimento operário através de uma política ofensiva entre 1919 e 1921, com a busca da revolução mundial, criou dificuldades para a política externa soviética. Porém, a própria revolução se alimentava desse mito. Mesmo nas fases de maior refluxo em termos de ofensiva internacional, o mito da revolução permanecia, apesar de não existir uma prática política condizente. O que se observa, principalmente a partir das posturas assumidas por Lênin diante do II Congresso da Internacional Comunista,
é uma perspectiva à bolchevização do
movimento comunista internacional, que inevitavelmente o conduziu a um vínculo muito estreito com os interesses russos no cenário internacional.
O bolchevismo passou a significar internacionalismo revolucionário. A Revolução Russa tornou-se o padrão em termos de referencial. Os caminhos estavam apontados. Cabia aos partidos comunistas, vinculados ao Comintern, viabilizar a busca para chegar à revolução, dentro de uma férrea disciplina. Esse processo de bolchevização vai marcar profundamente as estruturas que irão se montar nos anos subsequentes à década de 20, principalmente durante a fase estalinista, onde o modelo pronto de revolução imperou nas várias instâncias organizativas do movimento comunista internacional. As 21 condições impostas para a aceitação da adesão de partidos comunistas, pela NI Internacional, tornaram-se emblemática para caracterizar a ortodoxia que regeu o comunismo
engessado possibilidade
internacional
pelas em
na
época
em
questão.
condições
rigidamente
impostas,
termos
extensão
alianças
de
de
O
modelo
de
restringia políticas
militância
política,
significativamente por
parte
dos
a
grupos
comunistas que aderiram ao Comintemn. Afirmava-se o princípio centralizador. Rompia-se
com a diversidade em nome da necessidade da “disciplina revolucionária”. A prática política colocava a teoria marxista numa camisa de força.
40
Se, por um lado, o 2º congresso da III Internacional buscou o resgate da luta revolucionária, perdido segundo a avaliação de seus delegados ao longo da Internacional anterior, por outro, esse ímpeto revolucionário não teve grande fôlego. Houve um momento de tentativa de ofensiva revolucionária no início da década de 20, onde a porta de entrada em termos de Europa foi a Alemanha. Sob a influência direta de importantes dirigentes do Comintem, como Zinoviev e Bela Kun, em 1921 é deflagrada a insurreição alemã. A insurreição entra em enfrentamento direto com
a
“legalidade democrática” de caráter burguês da República de Weimar. O banho de sangue decorrente de frustrada tentativa colocou o movimento
comunista alemão na defensiva,
refletindo sobre estratégias posteriores adotadas pela III Internacional. Aliando-se a essa situação, a própria necessidade
da União
Soviética em viabilizar a busca por uma
coexistência pacífica com o capitalismo internacional, fez com que esta reformulasse a postura ofensiva do II congresso, que foi substituída ao longo do HI e IV congressos, por uma busca conciliatória de formação de frentes únicas, defendidas por Lênin. Percebe-se um gradativo rompimento com a tese de exportação da revolução russa. À própria orientação econômica da União Soviética com a inauguração da Nova Política Econômica, com inúmeros acordos comerciais fechados com países capitalistas, fizeram vigorar em termos de orientação política da III Internacional a busca por espaços conciliatónios.
Após
a morte de Lênin,
retomou-se
a ofensividade
política.
No
entanto,
o
movimento comunista mais uma vez não apresentou o fôlego necessário. A convicção do colapso do capitalismo sucumbiu diante da constituição no plano internacional das frentes populares e democráticas que irão predominar ao longo da década de 30, dentro de um contexto de pré-guerra, onde a partir da ascensão dos movimentos totalitários de direita, percebemos um forte arrefecimento do ímpeto revolucionário. Causas mais prementes passaram a ocupar a ordem do dia. A preocupação deslocou-se da área de enfrentamento diante das democracias burguesas, para o novo pólo político de caráter autoritário, que
41
emergiu como tábua de salvação para os países mais duramente atingidos pela crises econômicas que marcaram as década de 20 e 30 numa Europa que não conseguira definir espaços consistentes de equilibrio político. Além das questões emergentes no cenário político internacional, no plano interno os conflitos políticos russos
refletiram-se de forma
direta no
trato político
da II
Internacional. A Rússia dos sovietes não havia conseguido dirimir os conflitos em termos de participação do poder e democratização das relações econômicas. A própria aplicação da política da NEP
havia produzido distorções que reforçavam o distanciamento do
proletariado russo das esferas de poder. A lógica do Capitalismo de Estado produzida por Lênin minorara os problemas na esfera da produção e abastecimento da economia soviética, mas criou uma casta privilegiada no plano econômico, distanciar os propósitos de socialização contidos
que terminava por
no Estado. A política, andando no
sentido da burocracia estatal, criava fortes mecanismos de exclusão do setor operário. A democracia operária, não sendo aplicada nas instâncias produtivas, criava as condições
devidas para o caminho trilhado posteriormente por Stálin. A profunda divisão que iria se estabelecer entre o Estado
Bolchevique e as massas populares se constituiria como
emblemática nas relações políticas no plano interno do Estado soviético. Marcava presença o contorno autoritário das relações políticas. Afinal, a serviço
de quem estaria efetivamente o Estado Proletário? Como as relações de poder dentro da Rússia na fase leninista marcaram
o caminho
para as distorções produzidas
com
a
consolidação do estalinismo? A partir da morte de Lênin começamos
a encontrar a intensificação de conflitos
que nos oferecem as devidas respostas para os questionamentos acima. A discrepância
produzida
entre o Capitalismo
de Estado
e a mitologia
da
revolução proletária, produzida a partir da vitória bolchevique de 1917, perseguiria as contradições
políticas
da
União
Soviética
que,
ao
abrir mão
das
perspectivas
da
42
revolução mundial, passava a apostar na fórmula estalinista do socialismo num só país. O
princípio da internacionalização da revolução, defendido por Trotsky, perdeu-se com a consolidação do poder de Stálin. A tendência para o esfriamento do ímpeto da revolução mundial já se fazia sentir junto a III Internacional desde 1923. O afastamento de Trotsky das principais instâncias decisórias, a partir da morte de Lênin,
reforçou
o esmorecimento
da perspectiva da internacionalização
do processo
revolucionário. Com a subida ao poder do triunvirato formado por Zinoviev, Kamenev e Stálin, entre os anos de 1922 e 1925, tivemos a predominância política dos “velhos bolcheviques”. Mantinham-se salvaguardada as velhas concepções de mando sacralizadas pela
revolução
de
1917.
A
manutenção
do
viés
autoritário,
nas
relações
políticas
soviéticas, perduraram, abrindo caminho para a hegemonia política de Stálin. O quadro oposição
configurado
aos mandatários
levou
Trotsky,
do poder político
a partir de soviético.
1923,
a desfraldar
Denunciava
aberta
a burocratização
existente, o reforço da ditadura interna. Ao se contrapor ao poder constituído e reforçar a defesa da internacionalização revolucionária, vai de encontro aos “novos” princípios políticos que passam a fazer parte do discurso oficial do Estado Soviético.
O reforço do autoritarismo, justificado pela necessidade de afastar os inimigos da revolução, bem como o princípio firmado de que a possibilidade de se concretizar uma sociedade inteiramente socialista num só país, orientou o caminho seguido pelo poder
firmado após a morte de Lênin, numa posição diametralmente oposta a toda e qualquer possibilidade de abertura das relações políticas dentro dos possíveis caminhos a serem seguidos pelo socialismo vinculado à União Soviética. Isto significava condenar como um todo a autonomia política da III Internacional. Não que ela tivesse ocorrido ao longo de sua existência. Não podemos, aqui, nos permitir cair numa análise maniqueiísta, onde a
43
história do movimento
comunista internacional teria se comprometido
em termos de
ausência de liberdade política apenas a partir da ascensão de Stálin ao poder. Se tivemos, soviética,
isto
só
no Estado foi
estalinista, o ápice do reforço
conseguido
graças
às
diretrizes
autoritário na política
políticas
que
orentaram
o
movimento comunista após a Revolução Russa, que, ao se fazer vitoriosa, transformouse em âmbito internacional num princípio mítico para a militância comunista. As práticas políticas
de orientação
leninista acabaram
por reforçar
o perfil
bolchevizado dos partidos comunistas vinculados à HI Internacional Socialista.
O pouco
espaço aberto, em termos de autonomia política para esses partidos, os conduziu por caminhos já editados pelo bolchevismo soviético. O simples transplante de uma fórmula bem sucedida para realidades diversas, não se constituiu como suficiente para garantir o efetivo sucesso da revolução mundial. Em
nome da unidade desrespeitava-se a diversidade.
Em
nome
de um “bem
articulado projeto” de derrubada do socialismo criava-se um “consenso” centrado na exclusão política. Congelar ou excluir quadros políticos divergentes passou a se constituir como prática política comum. O
“consenso”
político
e a ausência
de
autonomia,
criaram
uma
prática
hegemônica nociva para a elaboração de estratégias específicas que contemplassem as particularidades das áreas de atuação
dos partidos
determinadas pelos congressos da II Internacional autonomia,
excluíam
grupos
dissidentes,
tinham
comunistas. Comunista,
As políticas gerais, feriam
princípios de
rígidas regras para
a aceitação
esquerda,
por
de
partidos comunistas e militantes. A
convivência
política
nos
meios
de
pautada
princípios
hegemônicos e autoritários, produziu um tipo de militante político que norteou sua ética política pela rígida centralização partidária. As cartilhas políticas do marxismo, que tanto empobreceu a reflexão teórica, e que foi tão comum na era estalinista, criou um perfil de
revolucionário limitado. Mais uma vez, retornamos a um problema que se tomou de dificil
solução
para
o
marxismo,
principalmente
no
período
hegemonizado
pelo
estalinismo: o de conjugar a reflexão teórica e a diversidade de pensamento, com as demandas politicas geradas pelo enfrentamento com o capitalismo. O pragmatismo, tomando conta das ações politicas do comunismo internacional, acabou por criar muitas vezes estratégias oportunistas que feriam frontalmente princípios éticos da ação política. Não
se trata aqui de estabelecer um perfil analítico de caráter
dogmático, mas sim de chamar atenção para as incessantes mudanças de orientação política
que,
num
curto
espaço
de
tempo,
jogaram
os
destinos
do
comunismo
internacional a práticas contraditórias. As mudanças mudança
da política interna russa, em grande parte, determinavam
de orientação
por intermédio da II Internacional Comunista.
Os russos,
essa ao
centralizarem boa parte dos congressos, faziam valer os interesses internos soviéticos.
Esse perfil de atuação acabou gerando, tanto na estrutura de poder do Estado Soviético, como nas estruturas dos partidos comunistas no mundo, um aparelho estatal e partidos
de
caráter
coercitivos,
hiperburocráticos.
Este
criou
um
sentimento
de
passividade na militância política, provocando mitos que, ao mesmo tempo, alimentavam os sonhos revolucionários, criavam um distanciamento enorme das esferas dirigentes e da militância política. Esse quadro político analisado, ligado principalmente ao comunismo europeu, gerou um forte impacto sobre a militância comunista da América do Sul, em especial no Brasil.'
Ao
analisarmos as relações entre a III Internacional
e o PCB,
no capítulo
seguinte, perceberemos nitidamente a interdependência gerada na prática política do comunismo no Brasil, bem como parte do comportamento que orientou a ética política da esquerda brasileira, principalmente ao longo dos anos 30.
A CONSOLIDAÇÃO GRAVITANDO
DO PCB NO CENÁRIO NACIONAL:
ENTRE OS PARTICULARISMOS
ALINHAMENTO
COM A INTERNACIONAL
Abordar as origens e a
INTERNOS E O COMUNISTA
trajetória política do PCB ao longo das décadas de 20 e
30, significa cruzar sua história com a da III Internacional Comunista. O PCB nasceu no ano de 1922, sob o impacto da Revolução Russa, trazendo alterações profundas no quadro político e envolvendo o movimento operário brasileiro. A bem sucedida experiência de formação do primeiro estado operário no mundo criava um novo norte para os operários brasileiros, que passaram a ver no recém-criado partido uma possível alternativa de organização política no combate ao capitalismo. Ao preencherem os espaços
antes ocupados
no meio
sindical, predominantemente,
pelo
movimento
anarquista, os comunistas impuseram um novo ritmo às lutas operárias no Brasil. Ganhando espaços gradativos dentro do meio operário, ao longo dos anos 20, o PCB
conquistou
um
terreno
significativo dentro do
meio sindical. Esse avanço
foi
truncado pelo processo de hegemonização do Estado brasileiro no meio sindical a partir
46
da Revolução de 30, Não pretendo, com isso, afirmar que o cerco, sobre os comunistas brasileiros, tenha como marco o movimento que colocou Vargas no poder, até mesmo porque, durante a República Velha, o aparato repressivo sobre o partido empreendeu forte mobilização
para conter a organização
deste.
Os comunistas,
ao conseguirem
superar as dificuldades iniciais no plano organizativo, puderam, ao longo da primeira metade dos anos 30, apesar de todas as condições de adversidade, empreender uma ação ofensiva contra o projeto político do governo Vargas. Mesmo que os comunistas brasileiros, nos anos 30, tenham tido forte disposição para enfrentar o cerco hegemônico de Vargas sobre o operariado brasileiro, o partido sucumbiu
repressivos,
ao
forte aparato
criados
pelo
repressivo
Estado
que
se articulou
brasileiro
na
Era
no
período.
Vargas,
Os
mecanismos
sobrepuseram-se
às
possibilidades de reação dos comunistas no período correspondente.
Equivocos
avaliativos
por
parte
dos
comunistas,
em
termos
de conjuntura
nacional, abriram possibilidade para que as bem montadas estruturas de hegemonização social pudessem fortalecer seus vínculos com os meios operários, minando dessa forma as bases de sustentação operária.
O
desenvolvimento
político
do
partido,
nas
duas
décadas
iniciais
de
sua
existência, precisou enfrentar profundas contradições dentro do quadro nacional. Em uma sociedade predominantemente agrária como a brasileira, o partido comunista necessitou estruturar-se sem uma consistente base operária. Fez-se necessário buscar alternativas em termos de composição política. Era indispensável ajustar um projeto de uma sociedade comunista à realidade nacional.
Compor
uma
sustentação
partidária,
dentro
de um
modelo social sem uma tradição politicamente orgânica por parte dos setores populares, significava para os comunistas brasileiros ter que começar um trabalho praticamente da estaca zero. Neste ponto, a atuação anarquista nos meios operários criou obstáculos de difícil transposição para a compreensão organizativa dos comunistas da época. Isso não significa que as debilidades do partido, em termos de vínculo orgânico com a classe
47
operária,
devam
ser
atribuídos
exclusivamente
à
forma
como
os
anarquistas
compreendiam a atuação política no meio sindical. Outros fatores, bastante significativos, ligados a uma dinâmica firmada no histórico das relações políticas no Brasil, pautada em uma
percepção
concêntrica
de poder,
seguramente
reforçaram
as dificuldades
para
abertura de espaços de atuação do comunismo no Brasil. Os ajustes a serem feitos, em termos de adaptação da prática comunista, eram muitos. No entanto, essa tentativa não se deu de forma eficiente, na medida em que os referenciais teóricos do partido eram bastante pobres. A busca desse ajuste se deu através de caminhos tortuosos, onde nem sempre as leituras e ações do partido a respeito do cenário nacional produziram
efeitos minimamente
significativos.
Os erros avaliativos,
decorrentes da ânsia de enquadramento da realidade brasileira à prática revolucionária, levaram os comunistas a construírem, a partir de referenciais marxistas, planos de ação política muitas vezes descolados da possibilidade da realidade. Apesar dos esforços, os comunistas não conseguiram promover a passagem de um partido de quadros para um de massa.
O tão esperado povo, que deveria estar presente nos anos 30 em explosões
revolucionárias como o levante de 35, não marcou presença. A ngor, as reflexões de caráter teórico não eram insuficientes apenas da parte dos comunistas brasileiros. Junto à direção da III Internacional comunista, encontramos uma realidade muito próxima em termos de desconhecimento acerca de realidades políticas como
a brasileira. O Brasil fazia parte de um
realidade
marcada
por
Internacional Comunista.
um
perfil
colonial
As nações com
ou
grupo
de países integrantes de uma
semicolonial,
segundo
a visão
esse nível de classificação, passaram
da
a ser
objetos de debate apenas a partir do II Congresso. No entanto, o debate estabelecido sobre o tema, esteve longe de ocupar uma posição de destaque, constituindo-se como uma questão periférica, apesar da participação de figuras proeminentes como o próprio Lênin. A expectativa, nutrida pelos teóricos do período vinculados a II Internacional, esteve
centrada
na
possibilidade
de
uma
Europa
expectativas frustradas ainda no final dos anos
em
revolução.
Mesmo
com
as
10 com o fracasso da revolução na
48
Alemanha, era de entendimento destes que o cenário onde as pendengas entre capitalismo e comunismo se resolveriam seria o continente europeu. A percepção eurocêntrica de revolução, contida em Marx, permaneceu de forma bastante viva nos postulados teóricos da IH Internacional Comunista.
No II congresso, ficaram estabelecidos os princípios da questão colonial, com a definição
de
internacional.
orientação
para
os
países
atrasados
dominados
pelo
Apesar de terem ocorrido essas definições, percebe-se
capitalismo
uma
acentuada
divisão ao longo dos debates: “(..)
mesmo
que
somente
duas
tendências
se
expressassem
manifestamente, três estavam representadas na discussão, onde poucos delegados intervieram. A primeira, um eurocentrismo, na linha da interpretação corrente do legado de Marx. A outra posição, que poderia ser classificada de “oriental” ou “asiocêntrica” (...) foi representada por M. N. Roy, para quem (...) o destino da revolução européia dependia inteiramente da revolução na Ásia (...). Prevaleceu a posição intermediaria, representada por Lênin e pelos delegados russos, que ressaltava a importância da revolução nas colônias, sem atribuir a estas, entretanto, o papel-chave na
revolução mundial (...)”.»
As posições
pautadas
majoritárias do congresso questão,
seria mexer
com
mundial.
Representaria
por M.
em
N.
questão.
toda uma
correr um
Roy Romper
não com
encontraram
a percepção
estrutura organizativa do
risco
muito
alto
eco
para
um
nas lideranças eurocêntrica
movimento
projeto
em
que,
em
âmbito
naquele
momento, pretendia corromper a ordem internacional. No III Congresso, realizado no início dos anos 20, com o rompimento da lógica do “partido mundial”, foi secundarizado ainda mais a possibilidade de revolução nos países pobres dominados pelo capitalismo internacional. A forma como se rompeu com à idéia de “partido comunismo
mundial”,
mundial
apontava para uma
que aproximava
reorientação
das ações políticas do
ainda mais a política da III Internacional
dos
interesses da política soviética. Prevaleceram os interesses da política externa soviética ! PINHEIRO, Paulo Sérgio. Estratégias da ilusão: A revolução 1922-1935. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 38-40.
mundial e o Brasil, '
49
que se sobrepuseram à própria política da III Internacional. Essa prática de sobreposição estará
bastante
Comunista,
presente
criando
ao
longo
enormes
do
período
dificuldades
de
existência
de adaptação
da
III
dos partidos
Internacional filiados em
se
adaptar às diretrizes estabelecidas por esta. O desrespeito pelas especificidades nacionais era uma constante nas práticas politicas desenvolvidas pelos comunistas. A necessidade de seguir a cartilha ditada pela III Internacional, conduzia muitas vezes a ação política dos partidos comunistas a grandes erros avaliativos, o que retardava consideravelmente as possibilidades de uma inserção maior em seus meios políticos. Se por um lado não temos como
reduzir as ações políticas dos comunistas
brasileiros às orientações vindas de fora, por outro não podemos esquecer que estas tiveram
forte
peso.
A
Internacional, foi uma
busca
do
preocupação
reconhecimento
político
do
PCB,
junto
à HI
dos comunistas brasileiros desde a fundação do
partido. Ficava dificil aceitar a idéia de uma ação revolucionária consequente em um pais como o Brasil, se esta não estivesse orquestrada com a luta mundial pela derrubada do capitalismo. Essa concepção
sentido
de cumprir
Internacional
levou o PCB
as exigências
Comunista.
A
a fazer todas as concessões necessárias, no
para o reconhecimento
aceitação
incondicional
por
brasileira das 21 condições para o seu reconhecimento
de partido parte
como
da
integrante
militância
da
política
filiado a Internacional
Comunista nos anos 20, ou ainda a constituição de uma ampla frente antifascista nos anos 30 consolidada a partir da ANL, servem como uma amostra da férrea subordinação que marcava
a relação
do
comunismo
brasileiro
com
os integrantes
responsáveis
pela
organização do comunismo mundial. Além das dificuldades de interpretação da realidade brasileira,
o PCB enfrentou
sérios problemas de legitimação no cenário nacional, na década de sua fundação. Não podemos
desconsiderar que a fundação
do partido não produziu,
de imediato, um
resultado grandemente positivo. O caráter efêmero das organizações proletárias, bem como a ausência de uma tradição marxista na política operária, constituiu-se como sério obstáculo para a solidificação
política do partido.
Se por um
lado o marxismo
se
50
constituia como
uma
realidade brasileira,
importante teoria para uma interpretação mais aprofundada da por outro,
o despreparo
teórico
dos
fundadores
do
partido
o
conduzia para um terreno de difícil leitura. Ao fazermos referência aos fundadores do partido, não podemos esquecer que vários
eram
oriundos
do
anarco-sindicalismo.
Além
disso,
o ecletismo
constituiu como uma constante nas primeiras décadas do século XX,
teórico
se
no tocante ao
movimento comunista brasileiro. Apesar da gradativa sedução que o marxismo passou a exercer sobre a esquerda brasileira, o distanciamento entre o comunismo mundial e a realidade nacional era muito grande.
O próprio trato dispensado pela III Internacional diante de países com
uma
realidade colonial ou semicolonial, como o caso do Brasil, demonstrava claramente que não
existia uma
prioridade
maior
por parte
do
comunismo
mundial
ao
tratar de
revoluções em regiões como a América do Sul. O centro da revolução mundial, segundo as lideranças mais significativas do comunismo
mundial, se encontrava no continente
europeu. Foram grandes as dificuldades para que se pudesse se processar uma depuração
teórica que conduzisse o partido a princípios minimamente coerentes com o marxismo. Mesmo
quando esses principios se ajustavam a um programa de ação política
operacionalizável em termos nacionais, ainda assim cometiam-se grandes equivocos em termos de condução da análise da realidade nacional.
Os equívocos teóricos não se
constituíam como único problema a ser resolvido na década de 20. Associado a esse fator, pode-se agregar o lento crescimento dos quadros partidários: “(...) os 73 membros iniciais, em março de 1922, passam a 250 no fim deste mesmo ano, sendo 123 residentes no Rio e em Niterói; em maio de
1923 existem 300; em 1928, 500 (...)”.? 2
CARONE, Edgar. O PCB: 1922-1943 — vol. 1. São Paulo: DIFEL, 1982, p. 3.
51
Além das dificuldades já citadas, não podemos esquecer que o ano de fundação
do PCB coincidiu com o início dos levantes tenentistas durante o governo de Artur Bernardes. A conturbada situação política do cenário nacional fez com que o partido, desde a sua origem, se visse obrigado a conviver em um Estado de exceção, o que acentuava,
de forma
significativa, as dificuldades de ação política e a consequente
inserção no escasso meio operário. Não podemos desconsiderar, também, que o impacto do movimento tenentista sobre a militância do partido foi muito forte. A militarização e o prestismo começaram a fazer parte de maneira mais incisiva da realidade política do partido, principalmente, a partir dos anos 30. O personalismo mítico do “Cavaleiro da Esperança” marcado
veio
ao encontro
das tendências
personalistas
do
comunismo
mundial,
fortemente pela ascensão do estalinismo. A militarização, representada pela
participação dos tenentes nas estruturas partidárias e pela forte influência do partido na caserna, incentivou os comunistas brasileiros a superdimensionarem as suas possibilidades revolucionárias, levando-os a crer que despertar o sentimento de rebeldia das massas era bem mais fácil do que se pensava. Ao trocar o árduo trabalho junto às massas pela intensa agitação nos quartéis, o partido se fragilizou, produzindo a malfadada experiência do levante de 35 e provocando um impacto repressivo de dificil reversão sobre a sociedade brasileira, ao longo dos anos 30 e 40. Apesar de a crise de 1929 ter provocado um aumento bastante significativo entre os membros do partido, a década de 20 marcou a história do PCB de forma bastante limitada no âmbito da participação da vida política nacional, se considerarmos a ambição do comitê central de ter nas mãos um partido de massas. No entanto, os avanços no meio sindical
foram
significativos.
Negando
a pluralidade,
até
então
predominante
no
sindicalismo brasileiro, os comunistas buscaram firmar seu caráter hegemônico através de uma política de ação comum. Porém, esbarraram nos limitados recursos de divulgação da teoria marxista no meio operário, o que criava sérias dificuldades para consolidar, no
meio sindical, uma identidade política marcada pelo marxismo.
52
O
grande
desafio
se
constituiria
em
extrapolar
o
limite
dos
sindicatos,
transformando a atuação política do PCB em uma ação ampliada, onde o partido deveria avançar rumo ao controle do aparelho do Estado, num primeiro plano, através da disputa dos espaços institucionais, buscando
as alianças políticas necessárias para isso. Num
futuro esperado, a partir da maturidade oferecida pela economia nacional, quando as estruturas agrárias estivessem rompidas
e o proletariado politicamente pronto,
seria
possível buscar a via revolucionária. Algumas experiências foram feitas pelo partido no intuito de ampliar a sua participação política no final dos anos 20. A mais destacada dessas experiências se constituiu na ampliação comunistas ao integrarem o Bloco Operário
das alianças políticas por parte dos
e Camponês. O fato de conseguirem eleger,
a partir de um programa popular, candidatos próprios (Azevedo Lima e João da Costa Pimenta, Otávio Brandão e Minervino de Oliveira), trouxe aos comunistas e seus aliados
a perspectiva de ruptura com o viciado modelo eleitoral vigente na República Velha. A oscilação
política do
partido,
em
grande
parte decorrente
das variações
políticas do Comintem, fez com que a direção central, num curto espaço de tempo, viesse
a perceber a participação dos comunistas no processo eleitoral como oportunismo, como desvio. A mudança de orientação política seguia segundo a ótica da cúpula dirigente, uma real necessidade de realinhar a ação partidária dentro de uma perspectiva revolucionária. Essa mudança
de orientação
está diretamente
Conferência Comunista Latino-Americana,
unidade do movimento
comunista
vinculada com
as deliberações
realizada no final dos anos 20.
latino-americano
contagiava
a direção
da I
A idéia de
central do
partido. A tentativa de fortalecimento do secretariado sul-americano vinculava-se com o fato de que as atenções do Comintern, com relação à América Latina, começavam a se intensificar. Com começaram
a retomada do discurso radicalizado por parte da III Internacional,
as definições
acerca
da maior
necessidade
de “firmeza
ideológica”.
A
“autocrítica”, em relação à atuação política, feita pela via institucional, revelava a franca
mi
disposição de buscar outras alternativas:
53
“Comprovou-se que na atividade parlamentar nosso partido nem sempre havia
assumido
atitudes
enérgicas,
verdadeiramente
revolucionárias,
procurando desmascarar ante as massas a verdadeira função do parlamento burguês, ligando de modo mais eficaz a luta no terreno parlamentar com a que se desenvolve fora do parlamento. Estabeleceu-se que nossos parlamentares haviam incorrido em desvios oportunistas como o de submeter-se às disposições regulamentares da Câmara Municipal para obter a “aprovação” de projetos que continham as “reivindicações” imediatas dos trabalhadores. Além disso, quando se apresentavam projetos de indole revolucionária, não se combinavam com uma ampla agitação entre as massas que lhes servissem para demonstrar a verdadeira causa de sua recusa pelo conselho, ou seja, o papel que desempenham os organismos parlamentares da burguesia: órgãos de ditadura de classes”. 3
Seguindo
essa linha de raciocínio, o partido se dispôs a retomar o caminho
político direcionado
à ruptura institucional, sem, no entanto, abrir mão
do caráter
reivindicatório do movimento sindical. A própria questão sindical, que se constituía como elemento central da política partidária na década de 20, foi motivo de cisão dentro do partido no final do período. Podemos usar, como exemplo, o líder sindicalista Joaquim Barbosa, que questionava, desde 1925, a ausência de coerência partidária. O PCB, ao buscar fóruns de discussão institucionalizados, como no Conselho Nacional do Trabalho, para discutir a lei de férias, perdeu-se na perspectiva de pressionar externamente essa
instância. As divergências, acerca da questão sindical, que se arrastavam desde 1925, somaram-se, no ano de 1928, a outras críticas feitas à falta do centralismo democrático. Estas diferenças resultaram na saída de um grande número de membros,
representando
uma das várias quebras que o partido sofreria nos anos vinte e nas décadas subsequentes. A responsabilidade de tal fato coube, em grande parte, à inabilidade de sua militância em conduzir práticas orientadas para o grande debate. Por outro lado, torna-se pertinente ponderarmos sobre a efetiva possibilidade conjuntural, em termos políticos nacionais, de se levar à frente uma política aberta pelo partido comunista brasileiro. Na prática, tornava-se bastante difícil compatibilizar um projeto político que trazia consigo, em -última
instância,
uma
perspectiva
de
ruptura
institucional,
com
uma
prática:
a “O III Pleno do C. C. (outubro de 1929)”. In: CARONE, Edgar. O PCB: 1922-1943 - v.1. São Paulo: Difel, 1982, p. 30.
54
democrática parâmetros
nos
moldes
de debate
apregoados
político
pelos
interno,
partidos
associado
burgueses.
Construir
a práticas revolucionárias,
desafio que, se tentou superar, nos meios comunistas,
novos foi um
com o centralismo democrático.
Não deu os resultados esperados, ao menos em termos de tentativa de aplicação política por parte dos comunistas brasileiros. Se, por um lado, as questões ligadas à política nacional preocupavam os quadros dirigentes, por outro, a legitimação diante do movimento comunista internacional era outro sério problema a ser resolvido. O marxismo,
homens
centrado em princípios internacionalistas, fazia de seus militantes,
a serviço da revolução mundial.
O Comintermn, ao abrigar diversos partidos
comunistas em todo mundo, cumpria esse papel. Ao elaborar diretrizes gerais para a militância comunista, buscava articular
o movimento revolucionário nas várias partes do
mundo, onde era possível constituir núcleos partidários. Essa ação se constituiu como
fortemente centralizadora, e isso já havia sido
percebido no congresso constituinte do PCB, realizado no Rio de Janeiro, em março de 1922. Ao ser estabelecido, no congresso, como ordem do dia, o exame das vinte e uma
condições de admissão à Terceira Internacional, iniciava-se a busca pela aproximação com o movimento comunista internacional dentro da lógica da esquerda revolucionária do período.
A partir do momento
em
que foram
aceitas, por todos
os delegados
presentes, outras ações foram iniciadas para criar um perfil de identidade entre o PCB e o movimento comunista internacional. Um projeto de estatuto criado e aprovado de forma provisória, baseado nos estatutos do partido comunista
argentino, mostrava uma forte
disposição para esse caminho. Além destas questões, foi aprovada, nesse congresso, a ação
pró-flagelados
do Volga,
bem
como
saudações
à Internacional
Comunista,
à
Revolução Russa, entre vários outros pontos. Na linha do internacionalismo proletário, a
militância partidária lançou-se na busca pela integração com o movimento mundial.
comunista
55
Tornava-se entretanto indispensável que houvesse o reconhecimento internacional do partido por parte do Comintern. A primeira tentativa foi frustrada, mas tornou-se reveladora no sentido de evidenciar a forte disposição da militância comunista brasileira de seguir as determinações necessárias para serem aceitos junto à III Internacional. A própria decisão de apressar a realização do congresso constituinte do partido no ano de 1922 passava pela urgência da militância em enviar uma delegação para o IV Congresso da Internacional
Comunista visando a admissão do PCB.
O partido enviou, para o
respectivo congresso, um delegado que deveria abrir caminho para seu reconhecimento. No Canellas,
entanto, a atuação virou
motivo
do delegado brasileiro, enviado ao congresso, Bernardo
de chacota,
tendo
sido
o PCB
avaliado
como
politicamente
imaturo para ser admitido à Internacional Comunista. Apesar da posição consensual, entre os dirigentes comunistas brasileiros da época, acerca da desastrada participação de seu
delegado,
encontramos,
em
Michel
Zaidan,
uma
outra
leitura
a respeito
da
participação do delegado brasileiro: “As idéias do delegado brasileiro que teriam inspirado tais conclusões foram precisamente as tentativas de Canellas em participar de todas as discussões organizadas sobre a pauta do congresso e, em particular, a sua
posição sobre a chamada “questão francesa”. Estas tentativas esbarrariam justamente na burocratização dessas discussões. Segundo Canellas, quase tudo era decidido previamente nas comissões de trabalho, só podendo intervir sobre os temas em plenário as “grandes figuras” do movimento comunista internacional, cuja inscrição era pré-estabelecida. Desta forma, afirma Canellas, era praticamente impossível manifestar qualquer divergência em relação ao ponto de vista apresentado por aquelas figuras a respeito das várias questões em jogo. Restava aos discordantes o recurso apenas da votação em contrário, sendo vedada até mesmo as declarações »4 de voto”.
-As frustradas tentativas de inserção de Canellas levaram-no este a agir dentro de uma lógica que não era corrente dentro da participação dos delegados nos congressos da
E ZAIDAN FILHO, Michel. O PCB e a Internacional Paulo: Vértice, Editora Revista dos Tribunais, 1988, p. 20.
Comunista:
1922-1929.
São
56
Internacional Comunista. Sua participação resultou no não reconhecimento do PCB como membro efetivo da Internacional Comunista.
Tendo imperado o dogmatismo teórico nas decisões da Internacional, tivemos, nesse resultado, profundos reflexos sobre as decisões da direção central do partido. O
repúdio às posições assumidas por Canellas, com a sua posterior expulsão dos quadros do partido, o monitoramento feito por Rodolfo Ghioldi, do Partido Comunista argentino e representante da Internacional Comunista, para criar as condições necessárias para admissão do PCB junto à III Internacional, o reconhecimento efetivo do partido no ano de 1924, são elementos concretos que nos mostram a disposição efetiva de inserção de acordo
com
as normas
pré-estabelecidas
para
a efetiva
integração
ao
movimento
comunista mundial.
O interesse da Internacional Comunista pela América Latina só se faria de forma mais direta, a partir de 1928, no VI Congresso, quando a atuação do imperialismo norteamericano já era uma questão incontestável. No entanto, em anos anteriores, já se notavam
esforços
por parte dos delegados
latino-americanos,
no sentido
de criar um
referencial político forte para o comunismo no continente.
Porém, a ignorância da Internacional sobre a realidade da América Latina ainda era muito grande.
A linha de ação política da Internacional
se caracterizava como
eminentemente européia. Certamente que os congressos contemplavam discussões acerca da
questão
colonial,
desencadeamento
mas
não
da revolução
era
considerada
mundial.
Durante
um
elemento
o VI Congresso
central
para
o
da Internacional
Comunista, predominaram enunciados gerais, com formas totalizantes, sobre a questão colonial. Se por um lado à adequação teórica à práxis política já se constituía uma grande dificuldade para a militância política, na América Latina, ainda assim existia a perspectiva da orientação vinda de fora, como se esta tivesse o poder de iluminar os caminhos a serem seguidos pelos comunistas. brasileiros enviados
ao VI
Ao
Congresso
menos, do
essa era a expectativa dos delegados
Comintem.
Em
suas memórias,
Leôncio
57
Basbaum manifestou, de forma clara, as dúvidas dos comunistas brasileiros diante da realidade
nacional,
assim
como
é enfático
ao fazer referência
à grande
ignorância
existente por parte da Internacional Comunista acerca da sociedade brasileira: “Eu ia deixar o Brasil em uma época de grande atividade e preocupação para nós. Estávamos planejando o III Congresso do Partido (...)”. “Mas esse não era o problema maior. Era necessário que tomássemos uma decisão a respeito do que pensávamos sobre a revolução no Brasil (...).
Falávamos em soviets, em ditadura do proletariado e nos indagávamos se essas seriam as soluções para o Brasil ou se estávamos imitando os russos”.
simplesmente
“Todas essas coisas nos confundiam e não sabíamos que caminho tomar. Acreditávamos que, estando presentes no congresso da IC, muito poderiamos aprender. Não sabíamos, entretanto que os marxistas europeus, conhecendo
muito
bem
o marxismo,
nada
sabiam
da
América
Latina.
Menos ainda do que nós próprios conhecíamos a nossa realidade. Para eles, tudo era semicolonial e os problemas asiáticos eram transportados para a América Latina como se fossem tudo a mesma coisa. Mas isso somente saberíamos muito depois, e muito tarde”. Apesar
do
reconhecimento
ignorância
do comunismo
delegados
brasileiros
do
posterior,
Comintem
ao retornarem
em
por
parte
relação
de
Leôncio
à realidade
às suas práticas
Basbaum,
latino-americana,
políticas-partidárias
da os
trouxeram
consigo, mais acentuado do que nunca, o ranço da ortodoxia do período. O caso de Otávio Brandão
caracteriza muito bem
esse quadro.
Antigo
dirigente do PCB,
e seu
primeiro teórico, seu pensamento político passou ao longo dos anos vinte pela defesa da necessidade de uma aproximação mais estreita do partido com o movimento tenentista, no
sentido
de consolidar
alianças entre
o proletariado
e a pequena
burguesia.
O
pensamento de Otávio Brandão apontava para uma revolução democrático burguesa. Predominou, em seu quadro de análise sobre a realidade nacional, o princípio de oposição entre o agrarismo e o industrialismo. Necessário era, segundo sua ótica, romper com as amarras feudais que imobilizavam a sociedade nacional. Essa foi à política adotada pelo partido durante parte dos anos vinte. Ao buscar a passagem da revolução burguesa em 5 1976, p. 53.
BASBAUM, Leôncio. Uma vida em seis tempos: Memórias. São Paulo: Alfa-Ômega, É
too
Ao
58
revolução proletária, tentava montar um quadro analítico da sociedade brasileira da época
inspirada em princípios leninistas. Foi acusado, no final dos anos 20, ao longo do HI Congresso do PCB, de fazer uma política legislativa favorável à pequena burguesia, apesar do reconhecimento inicial por parte do partido diante de sua produção teórica, e de sua participação legislativa na qualidade de vereador representante dos comunistas brasileiros.
Além
disso, teve que retratar-se diante de suas teses sobre a revolução
democrático-burguesa,
quando
foi
convocado
para
participar
de
uma
reunião
do
secretariado sul-americano da Internacional Comunista, tendo sua perspectiva de análise acusada de simplista e de dar ênfase, em demasia, à importância política da burguesia. Foi relegado a um forte processo de secundarização no plano partidário. A sua disciplina partidária o levou
a uma
militância do período,
forçada
autocrítica,
caracterizava-se
como
sendo uma
que esta, tão comum
entre a
forma nada sutil de evidenciar a
impossibilidade de um debate aberto entre os quadros comunistas da época. No entanto, não foram todas as delegações latino-americanas que se submeteram às
avaliações
generalizantes
feitas
no
congresso.
Os
equatorianos,
por
exemplo,
questionaram o pouco aprofundamento acerca da América Latina. No entanto, isso não impediu que as teses defendidas na linha de fórmulas políticas comuns fossem aprovadas. No
caso
do PCB,
a submissão
foi bastante
grande
às deliberações
do
VI
Congresso, como se pode observar na posição assumida pela delegação brasileira na I Conferência Comunista da América Latina: “Nesta conferência, que reuniu pela primeira vez na América Latina, representantes de todos os partidos comunistas americanos, Jules Humbert-
Droz voltou a expor a sua análise sobre as perspectivas revolucionárias dos países
latino-americanos,
bem
como
as criticas feitas à ação dos
próprios PCs do continente, inclusive o do Brasil, a propósito do qual formulou
sérias restrições
à teoria da revolução
democrático-pequeno-
burguesa, taxando-a de “'menchevista”, “reformista”, 'pequeno-burguesa”. Da
mesma
forma,
enquanto
as outras
delegações,
em
especial
a do
Equador, criticavam a omissão teórico-política da IC e do próprio bureau sul-americano na vida dos PCs latino-americanos e nos problemas relativos ao caráter da revolução em seus paises, a delegação brasileira ratificou
59
docilmente todas as críticas apresentadas por Droz, bem estratégia revolucionária geral para a América Latina”. é
A busca pela submissão política dos partidos comunistas
como
a sua
latino-americanos se
manifestou de forma direta, principalmente a partir do VI Congresso da Internacional Comunista. Se por um lado havia um distanciamento circunstancial entre a Internacional e a realidade latino-americana, produzindo uma autonomia parcial para o PCB, por outro, não podemos subestimar essa autonomia. O bureau da Internacional na América Latina já se encontrava
articulado na década de 20, tentando
somar
esforços no
sentido
de
promover uma política conjugada entre os partidos comunistas do continente. A qualificação teórica da militância comunista dos partidos da América do Sul era de preocupação por parte da III Internacional, através do bureau latino-americano. Para isso,
buscou-se
investir
na
formação
de
“verdadeiros
bolcheviques”,
que
pudessem
intervir nas realidades políticas de seus países. A Internacional Comunista propunha, para a América Latina, um caminho próximo ao seguido pelos partidos comunistas curopeus que,
por
sua
vez,
buscavam
se
referenciar
no
modelo
russo,
hegemônico
em,
praticamente, toda a existência da III Internacional. Concretamente,
a autonomia relativa do PCB
se dava bem
mais em
função da
distância e ignorância da realidade política brasileira por parte dos integrantes do núcleo central da Internacional Comunista. Esse quadro de autonomia relativa se fez possível de forma mais explícita até a constituição do Bureau
Sul-Americano.
Segundo
observa
Michel Zaidan, ao analisar os rumos tomados pelo II Congresso do PCB, “(...) o grande princípio heurístico das teses do II Congresso do PCB é mesmo a conjuntura brasileira: as revoltas do 5 de julho, a despeito da fraseologia dedicada à revolução democrático-burguesa ou à revolução permanente. É preciso esclarecer também que, neste período, não havia ainda sido formado o Bureau Sul-Americano da IC. A revolução Chinesa, por sua vez, não havia sido derrotada, e o imperialismo americano também
não aparecia ainda como o mais forte. Assim, neste contexto de relativa ZAIDAN FILHO, Michel. Op. cit., p. 37.
60
autonomia, pode o PCB, voluntariamente ou não, produzir uma elaboração teórico-política mais específica, mais colada à sociedade brasileira”?
No entanto, essa autonomia relativa não isentou o partido de ser contaminado pelo dogmatismo reinante na década de 20 e 30. Muito antes pelo contrário, como forma de se firmar politicamente, o PCB buscou ao longo de sua trajetória política, no periodo em questão, a concordância com as deliberações do Comintem. Já no início da década de 30, o partido se viu fortemente contaminado por mais um
dos inúmeros desvios que iriam se fazer tão comuns na trajetória política dos
comunistas
brasileiros,
nos
anos que
irão se seguir.
Em
função
da
tendência
do
comunismo internacional, chegou ao Brasil a onda de proletarização do partido. A prática obreirista tornou-se uma constante junto à direção partidária, provocando o afastamento dos quadros intelectualizados da direção central. Mais uma vez, buscou-se, através de
processos artificiais, criar um “contorno comunista” para o PCB. A orientação obreirista do período significou, antes de qualquer coisa, o rompimento com os princípios de frente única. Adotou-se como norma política o enfrentamento de classe contra classe. A partir de então, ficavam para trás políticas vivenciadas, como o Bloco Operário e Camponês e as tentativas de aproximação
mesmo
com
o movimento
tenentista. Prestes e a coluna
passam a ser duramente criticados: “Prestes no transcurso de um ano, mudou três vezes de posição, primeiro foi chefe da atual coluna Távora, que constituiu a força decisiva no último movimento dos latifundiários e capitalistas brasileiros ligados ao imperialismo ianque; utilizando seu passado revolucionário, sustentou a Aliança Liberal durante as eleições de março do ano passado”. “Não demora, separando-se da Coluna (já diretamente ligado aos feudais e imperialistas) funda um partido denominado “Liga de Ação Revolucionária”, sustentando que esta organização será apenas um apoio técnico de defesa das lutas do proletariado (...) No final, a Liga de Ação
Revolucionária se transformou no partido policial de Josias e Plínio (em São Paulo), e que pretende arrastar as massas trabalhadoras
bandeira da Aliança Liberal”. *
atrás da
:
Ibid. p. 58.
8
“Revista Comunista”, ano 1, nº 2 e 3, jan-fev, 1931. In: CARONE, Edgar. O PCB
(1922-1943) — v.1, São Paulo, Difel, 1982, p.124.
61
Sentiam-se os reflexos das deliberações do VI Congresso da Internacional Comunista.
Na impossibilidade de se “libertar” das influências do Comintern, cada vez mais a política partidária buscava enquadrar o curso dos acontecimentos políticos nos trilhos da revolução eminente, o que cegava em parte sua militância, diante da fragilidade dos comunistas
brasileiros
no
quadro
político
nacional.
Mal
sucedido
ao
tentar
uma
aproximação política com os tenentes no final da década de 20, surpreendido pelo curso da revolução de 30, contaminado pelo prestismo, o partido cindia-se, entrando nos anos 30 com sérios problemas de orientação política, que afetariam de forma bastante séria a atuação partidária
no seu enfrentamento com o governo Vargas. A própria leitura feita
pelo partido acerca da Revolução
de 30 o colocou
à margem
dos acontecimentos
políticos que envolveram este processo. Vista como resultado da ação imperialista no Brasil, a análise feita sobre os acontecimentos revelava uma interpretação de caráter mecanicista, onde os americanos apoiavam Getúlio Vargas e os ingleses Washington Luis.
Não faço defesa de que o partido invariavelmente devesse ter assumido posição ativa no curso dos acontecimentos.
Uma posição desse tipo o colocaria em uma
ação
contraditória com as próprias concepções de revolução defendidas pelo marxismo. O que nos revela a postura analítica mecanicista, acerca da revolução de 30, é uma prática que vai se incorporar em maior ou menor grau como realidade nacional, provocando
regra em termos de leitura sobre a
em vários momentos
desacertos políticos por parte do
PCB. Apesar dos inúmeros equívocos de ordem analítica que tomou conta da direção central do PCB, os comunistas brasileiros conseguiram ao longo dos anos 30 desenvolver
uma política mais vasta, extrapolando os limites do movimento sindical. A marcha da fome,
as manifestações
contra
o desemprego,
as comemorações
do
1º de
maio,
caracterizaram o clima de enfrentamento que começava a se configurar já nos primeiros anos da década de 30.
62
Com a 1º Conferência Nacional do partido, firmavam-se deliberações acerca de uma prática política radicalizada, lançando-se os comunistas brasileiros numa “cruzada” contra o imperialismo. O retorno à política de frente única começou ascensão
do
nazismo
na Alemanha,
novamente
e a consequente
ameaça
a se delinear com a de guerra
que
isso
representava. A fundação da ANL, o enfrentamento com a AIB,” o combate ao governo Vargas,
aumentava
de
maneira
significativa
brasileiros. O crescimento político da ANL
à expressão
política
dos
comunistas
foi respondido com forte truculência por
parte do governo Vargas que, ao colocar a entidade numa situação de ilegalidade, iniciou o desmonte da oposição política ao seu governo. As incontáveis prisões de ordem política, que passaram a fazer parte do cotidiano político nacional no ano de 1935, deixaram a ANL restrita quase que exclusivamente à ação dos comunistas que, mesmo
acuados, iriam insistir numa prática ofensiva diante do
governo Vargas. Mesmo dentro de uma condição de refluxo político, integrantes da alta cúpula partidária passaram a defender, dentro de uma relação extremamente controversa com a tendência do comunismo internacional, a possibilidade de uma ruptura com o govemo Vargas pela via revolucionária. O levante, programado para o ano de 1935, pareceu para o Comintem uma oportunidade impar de desencadear uma ação política consistente que, seguramente, referenciaria de forma bastante consistente o comunismo na América do Sul. Vários agentes do comunismo internacional foram mandados para o Brasil para acompanharem de perto o desenrolar dos acontecimentos. A chegada de indivíduos como Arthur Emest Ewert, Rodolfo Ghioldi, Leon Jules Valle, Marcos Yugman, Victor Allan Barron e do próprio Luís Carlos Prestes, mostrava de forma clara a importância que o Brasil assumira para
o Comintemn naquele momento.
O desencadeamento desencontrado
dos levantes ocorridos em Natal, Recife e no Rio de Janeiro, foi facilmente sufocado Uso a sigla para designar a Ação Integralista Brasileira.
63
pelas forças repressivas do Estado brasileiro. Os levantes ocorridos nos quartéis, tendo sido habilmente aproveitados pelo governo Vargas, desencadearam uma forte repressão aos comunistas e liberais. Intervenção total nos sindicatos, jornais fechados, as prisões arbitrárias e a reformulação da Lei de Segurança Nacional, marcaram o momento político do periodo pós-levante. Os comunistas, com o mal planejado levante, abriram caminho para que Vargas pudesse acelerar a verticalização do pacto social, centrado em princípios de homogeneização do modelo social brasileiro. O refluxo pós-levante foi reforçado imprensa
momento.
acerca das atrocidades
Entre
muitas
e perigos
manifestações
de
pela intensa propaganda que os comunistas
apoio
ao
divulgada
representavam
presidente
Vargas
pela
naquele
e notícias
alarmistas, iniciava-se uma intensa campanha de desgaste da imagem pública do PCB": cur (...) os jornais falavam de novos planos o que foi descoberto em dezembro de 1935 e que autoridades e populares numa igreja em Cuntiba”. José Augusto de Medeiros, capitão da reserva do
ANL,
foi encontrado
na Vista
Chinesa,
comunistas”, tais como previa “o massacre de Quando o cadáver de exército e membro da
entre os bairros da Gávea
e da
Tijuca, no Rio, com 23 buracos de bala, a polícia anunciou que ele fora, provavelmente, morto pelos seus próprios companheiros extremistas. Antes de ser posto em liberdade, segundo revelou a polícia, o capitão fomecera as informações que permitiram a prisão do capitão do Exército Nemo Canabarro Lucas e de outros”. .!! Associar a ação política do partido, bem como
seus propósitos políticos a uma
postura de barbárie representavam a perspectiva de amplo apoio popular para ações repressivas por parte do Estado. Certamente Vargas não perdeu a chance oferecida.
o
Entendo que o levante ocorrido em 1935 forneceu preciosos elementos para reforçar o
discurso anticomunista do governo Vargas. Neste ponto de abordagem, me utilizo de alguns autores que eu considero central como Elizabeth Cancelli e John Foster Dulles como referencia para reforçar os meus
argumentos quanto ao impacto produzido pelo já citado levante. Não faz parte dos objetivos do meu trabalho entrar na polêmica firmada por Carla Luciana Silva, quando a mesma relativiza o impacto de 35 sobre o discurso anticomunista no Brasil, firmando posição sobre a forte presença do discurso anticomunista em fase anterior ao levante. (SILVA, Carla Luciana. Perigo vermelho e ilusão comunista: configurações do anticomunismo — da Aliança Liberal à Aliança Nacional Libertadora. Porto Alegre: 1998, 339 p. Dissertação de Mestrado em História. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul)
M
DULLES, op. cit., p. 15-16.
64
Manipulava habilmente as informações a seu favor. Reforçava os expedientes coercitivos no plano político. Varria do cenário político de uma forma significativamente rápida, a incômoda oposição. Em nome do “referencial patriótico”, Vargas contrapunha o perigoso
projeto
revolucionário aliancista, moldando sua marca política com um viésjá bastante explorado pelas elites nacionais, o autoritarismo. O comunismo tornava-se de uma vez por todas O grande mal a ser combatido. Nessa grande cruzada nacional contra o grande inimigo da pátria,
os espaços
da oposição
estreitavam-se.
O pouco
que restava
da militância
envolvida no levante de 1935, ou estava presa, ou tentando fugir da prisão. A realidade que se apresentava para os dirigentes comunistas
não era nada
alentadora. A forte onda de refluxo pós-levante desmontara a organização comunista. As torturas a presos políticos se sucediam. Criava-se um ciclo repressivo que acentuava o estreitamento
de possibilidades por parte daqueles que estavam
ligados ao staff do
partido e ainda estavam em liberdade. Apesar do desmonte do aparelho partidário, as forças repressivas do Estado se deleitavam com as fortes especulações promovidas pela imprensa acerca do fato de que o perigo comunista ainda não havia sido debelado. A forte repressão, que recaiu sobre o partido no período pós-levante, despertou a atenção
para um
sério problema
que se apresentava:
a forma
como
era tratada a
segurança de militantes chaves, sejam ligados à direção central ou ao Comintern. A relativa facilidade com a qual as forças repressivas desmantelaram o PCB revelara com clareza a falta de estrutura do partido para uma empreitada do porte daquilo que foi o levante. Torturadores e delatores passaram a integrar o cotidiano da vida
política dos comunistas de forma mais enfática, após o malfadado movimento. Não que a perseguição policial fosse uma grande novidade para os comunistas. Na condição de partido
ilegal,
sofreram
duramente
as
perseguições
políticas
desencadeadas
pela
repressão oligárquica da República Velha. No entanto, o clima de polarização ideológica que tomou conta do cenário político do país na década de 30, se, por um lado, criou a
65
perspectiva de uma significativa ampliação da atuação política do comunismo brasileiro, por outro, colocou a estrutura partidária diante de sua fragilidade. O centralismo político, a estrutura organizativa centrada em células, as instâncias decisórias restntas, não
foram
suficientes para preservar a integridade
da estrutura
partidária. A militância cotidiana revelava um perfil bem mais árduo do que se poderia querer.
Temos
exemplos
bastante significativos de abnegação
pessoal
por parte de
dirigentes do PCB, que dedicaram sua vida à militância política. Alguns militantes, ao definirem a atuação política como projeto de vida, defrontavam-se com determinados referenciais de conduta política que, inevitavelmente, refletia na ação. Ao tratarmos, no capítulo seguinte, do fechamento do cerco do governo Vargas sobre os dirigentes envolvidos no levante, veremos como se manifestou essa conduta no plano ético. A abordagem feita será centralmente referenciada no caso do justiçamento Elza
Fernandes,
suspeita
de
repressivas do governo Vargas.
entregar
elementos
graduados
do
partido
às
forças
O REFLUXO
PÓS-LEVANTE E SEUS REFLEXOS
SOBRE A
SEGURANÇA INTERNA DO PARTIDO: ENTRA EM CENA O CASO ELZA FERNANDES
Centrar análise no impacto
do levante de 35 sobre o PCB,
remete-nos
a um
universo político da década de 30, onde foi intensificada de forma contundente, por segmentos formadores de opinião na sociedade brasileira, a campanha anticomunista. O
perigo vermelho havia tomado forma. Eram necessárias medidas urgentes no sentido de conter o avanço de forças políticas que ameaçavam a ordem estabelecida: “A rebelião vermelha provocou uma explosão de hostilidade para com os comunistas e gerou um clamor universal por um programa de punição e prevenção. (...) a campanha desenvolvida nesse sentido (...) gozou, inicialmente, de amplo apoio da opinião pública. Essa campanha, entretanto, adquiriu rapidamente uma dimensão de ferocidade assustadora para muitos”.! O desdobramento imediato do levante de 35, relatado por Stanley Hilton, nos dá uma
pequena
amostra
acerca
da força repressiva que
se abateu
sobre
os militantes
HILTON, Stanley. Rebelião Vermelha. Rio de Janeiro: Record, 1986, p. 93.
67
comunistas no período imediatamente posterior ao frustrado movimento
armado. A
polícia se colocava no encalço dos revoltosos. Naquele momento, a prisão dos dirigentes do partido se constituía como uma questão de Estado. Jornais renomados
da época,
como
os cariocas Correio
da Manhã,
Diário
Carioca e Jornal do Brasil, intensificaram seus ataques, exigindo enérgicas providências governamentais.
O
espetáculo
estava
armado.
A
opinião
pública
foi
fortemente
influenciada pelas vigorosas campanhas desencadeadas pelos mais importantes jornais contra o perigo vermelho. A estrutura partidária encontrava-se aos pedaços, tendo à frente uma cúpula comunista formada pelos militantes do Comintem
que ainda não
haviam sido presos, e pela direção central que amargava com o seu infortúnio político. O próprio Prestes, anos depois, admitiria o equivoco político: “A intentona de novembro de 1935 baseava-se em uma visão distorcida da realidade brasileira, como o próprio Prestes seria forçado a confessar, devido à total indiferença da classe operaria, do povo e da maioria esmagadora das classes militares em relação ao malfadado empreendimento. Prestes qulparia o secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB) pela falta singular de realismo que o levante representava, mas ele mesmo, junto com outros lideres do Comintern, aceitaria as premissas errôneas que provocaram a decisão de desencadear essa ação revolucionária abortiva, nada fazendo para impedi-la, e até contribuindo ativamente para prepará-la”. ?
Se
uma
avaliação
posterior
de
Prestes
o
conduziu
a
essas
conclusões,
seguramente que, no calor dos acontecimentos, a percepção cra bem outra. A idéia de vitória contrastava momento
com
a ausência de possibilidades
era extremamente
oferecer respostas rápidas
delicado,
maiores
colocando a militância
para uma
na eminência
reação.
O
de ter de
à situação. Enquanto o imobilismo tomava conta dos que
ainda conseguiam escapar ao cerco policial,
o governo aumentava a pressão sobre os
envolvidos no levante com forte aparato de agentes internacionais: “Foi Johann Graaf (“Franz Gruber”), o agente duplo britânico que transmitiu informações ao Itamarati sobre o paradeiro de “Harry Berger” (Arthur Ewert), em cuja casa, à rua Paul Redfern, em Ipanema, ele teria
2
Ibid.. p.13.
68
montado no cofre um mecanismo que deveria explodir se alguém tentasse arrombá-lo. O capitão Miranda Correia, chefe do DOPS, secundado pelos delegados Serafim Braga e Emílio Romano, e comandando um pequeno contingente de policiais, mandou cercar a casa em 26 de dezembro. Com seus homens posicionados, Miranda Correia entrou em ação (..) prendendo o casal Ewert (...). Por pouco, Prestes que morava perto (...)
deixou de cair na rede também.” * Ainda no mês do levante, as forças policiais já haviam se colocado a postos para dar continuidade ao processo responsável pelo desmonte da estrutura de funcionamento do PCB. As prisões, feitas em série, desencadearam interrogatórios e inquéritos que, ao serem
avaliados pelo Tribunal
de Segurança
Nacional,
evidenciavam
o caráter de
exceção no qual se encontrava o Estado brasileiro. O PCB se via obrigado a pagar um alto preço por um tipo de política que era um traço característico da época: o da lógica stalinista que
impunha
uma
forte centralização
política com
Moscou.
O
desgaste
político, provocado pelo mal-sucedido levante armado, ajudava a livre ação repressiva. As medidas repressivas repercutiam de forma favorável para a imagem pública do presidente. O país, unido na cruzada contra o comunismo,
cadenciava o ritmo das
poucas possibilidades para um trabalho de reconstrução da estrutura do PCB
pelos
dirigentes, que canalizavam a maior parte de seus esforços para se manterem afastados das prisões. Apesar das tentativas
de escapar
da prisão,
importantes
quadros
dirigentes
caíram de forma bastante rápida nas mãos das forças repressivas do governo Vargas. Os abusos, cometidos pelas forças da polícia política do governo, eram amainados por uma bem articulada propaganda de desgaste da imagem política do PCB diante da opinião publica. O anúncio, por parte da polícia do Rio, do cadáver encontrado de José Augusto de Medeiros, capitão da reserva do exército brasileiro, crivado com 23 tiros, na Vista Chinesa, levantava sérias suspeitas sobre o fato de os responsáveis da execução serem companheiros da vitima, integrantes do PCB. Montava-se o palco onde o extremismo de esquerda se constituía como o grande vilão. Munição para o ataque não faltava. Estado 2
Ibid., p. 100.
69
de Sitio, que poderia se transformar a qualquer momento
em Estado de Guerra, carta
branca do poder legislativo para que o executivo pudesse agir livremente, apoio da grande imprensa. Criavam-se as condições necessárias para que o sistema jurídico se
transformasse numa grande casa de espetáculos, onde era oferecido a uma sociedade ensandecida pela busca de responsáveis por crises estruturais, geradas pelo deformado
modelo brasileiro, o seu bode expiatório. A eficiência policial passava a se configurar a partir da prisão de proeminentes militantes do comunismo internacional As prisões de Arthur Ewert e sua mulher Auguste Elise Ewert deram início a uma série de prisões de destacadas figuras políticas envolvidas no levante de 35. Sem dúvida, o principal alvo da
polícia de Getúlio
ainda
não
havia sido
atingido.
Prestes mantinha-se
até aquele
momento a salvo. No entanto, o cerco se fechava. A facilidade com que a polícia teve acesso a documentos confidenciais do partido, a partir da descoberta dos esconderijos da cúpula dirigente e dos agentes do Comintern, anunciava à polícia que o trabalho de rastreamento dos militantes, que ainda estavam à solta, poderia ser executado pelos fortes indicativos fornecidos pelo ineficiente sistema de segurança do PCB. Aliando à descoberta de importantes documentos
e métodos
requintados
de tortura, a polícia
carioca começava a fechar o cerco definitivo sobre Prestes. Durante a prisão do casal Berger, a chegada até Prestes não se fez por um detalhe: “A mulher de Prestes, Olga Benário, estava na praia de Ipanema quando a polícia “estourou” o palacete da rua Paul Redefern. Voltando da praia, viu quando os Berger foram levados e contou ao marido. O “Cavaleiro da
Esperança” e Olga abandonaram, então, sua casa da Barão da Torre, também
no
empregada
bairro
de
Ipanema.
Fizeram-no
bem
a
tempo,
pois
dos Berger contou à polícia onde o casal morava.
a
Tão
apressada foi a mudança de residência de Prestes, (...) que seus papéis ficaram para trás, num cofre de parede (...)”*
Outra importante prisão ocorrida no período foi a de Miranda, secretário-geral do
PCB, e de sua companheira Elvira Cupello Calônio, também conhecida como Elza Fernandes. A partir da prisão do casal, passamos a ter pontuado de forma emblemática as relações de poder na cúpula partidária, bem como nos aparece de forma reveladora a influência marcante de Prestes nas deliberações políticas do momento.
O tratamento
70
dispensado pela polícia política ao secretário-geral do PCB esteve longe de se aproximar de um clima de sensatez jurídica. Barbaramente torturado, procuravam extrair do mesmo toda ordem de informações que pudessem conduzir ao paradeiro de Prestes. O procedimento da polícia em relação a sua companheira, no entanto, foi bem outro. Elza Fernandes não sofreu maus tratos, sendo posta em liberdade com relativa facilidade. A libertação de Elza, bem como as benesses usufruídas por esta, como por exemplo facilidades para visitar o seu companheiro Miranda de tempos em tempos, regalia não muito usual para prisioneiros políticos do periodo em questão, chamou a atenção dos membros da direção central do partido. As circunstâncias geradas em decorrência da prisão de Miranda e Elza Fernandes começaram a levantar suspeitas sobre os dois por parte da cúpula partidária. Preso no ano de 1940, Martins, figura proeminente na condução do caso Elza Fernandes,
ao prestar depoimento
no Cartório da Delegacia Especial
de Segurança
Política e Social, afirmava que: “(...) verificou que após a prisão de Miranda (Antonio Maciel Bomfim) as prisões e diligências efetuadas pela policia, contra membros do partido, vinham se sucedendo com grande êxito, notando que eram sempre visadas as casas e residências conhecidas de Miranda (Antonio Maciel Bomfim) e Elza (Elvira Cupelo Caloni), motivo pelo qual concluiu que alguma coisa 5 de anormal se passava, (...)”.
A percepção de Martins acerca das relações entre os detidos e a polícia política de Vargas deu início a uma série de suspeitas sobre o comportamento político de ambos, até mesmo porque, segundo as afirmações de Honório, ele “(...) soube por meio de um bilhete de Ivo Meirelles que Elza (Elvira Cupelo Caloni) tinha sido posta em liberdade e encaminhada para a residência do irmão deste, Francisco Meirelles, em Campo Grande, numa casa que hoje sabe ser a de número quarenta, na rua Belchior de tal, (...)
á
DULLES, op. cit. p. 21.
a
Tribunal de Segurança
Nacional,
processo
1381
vol.
1 “Depoimento
de Honório de
Freitas Guimarães”, p. 43. A partir de agora este processo será referido como TSN., Pr. 1381 seguido do volume e da página. .
PRM Sesi o O ai
n
que ainda nessa ocasião soube que Elza (Elvira Cupelo Caloni) tinha procurado diversos simpatizantes do PCB, entre eles o Doutor Barbosa de Mello, exibindo a todos um bilhete assinado por Miranda (Antonio Maciel Bomfim) (que o declarante supunha fosse falsificado), tudo com o objetivo de pedir, das pessoas que procurava, auxilio para a solução do seu caso e amparo da sua situação (...) em tais ocasiões sempre dizia às pessoas aludidas, que Harry Berger, na prisão, tinha fraquejado, dando nome
e endereços
de companheiros;
que, ao mesmo
tempo,
por outras
notícias, soube que Berger (Harry Berger) não tinha comprometido o partido, motivo pelo qual logo concluiu, que Elza (Elvira Cupelo Caloni). estava fazendo um”. “trabalho de desagregação”; que, como encarregado da organização e membro do Secretariado Nacional, tomou parte de uma reunião (...) em que debateram a necessidade de tomar medidas de
segurança para o partido contra o trabalho de Elza. (PS No
período
em
que
as suspeitas
se levantavam
contra
Elza
Fernandes,
o
Secretariado Nacional do PCB era constituído por Lauro Reginaldo da Rocha (Bangu), Honório de Freitas Guimarães (Martins), Adelino Deicola dos Santos (Tampinha) e José
Lago Morales (Brito). A decisão do grupo foi de que Elza deveria ser mantida sob custódia, em função das suspeitas que pairavam sobre ela. A tarefa de conduzir Elza Fernandes a uma casa, nos arredores do Rio, coube a Eduardo Ribeiro Xavier, na época
com 36 anos, natural de Portugal, provincia do Douro, cidade do Porto. No dia 12 de abril de 1940, após ter sido detido e indiciado no inquérito sobre a morte de Elza Fernandes, em seu depoimento afirmou que: “Em dia de fevereiro de 1936, que não se recorda precisamente foi procurado, em sua residência, (...) por Martins (...) e deste recebeu a missão de ir à residência de Francisco Meireles (...) e de lá trazer Elza (Elvira Cupelo Caloni) para entregar a Tampinha (Adelino Deycola dos Santos) e Lyra Cabeção (Francisco Natividade Lyra) a fim de que estes a conduzissem para a casa do primeiro, tudo com o objetivo de resguardar os interesses do Partido Comunista, pois Elza (Elvira Cupelo Caloni) ao que estava informado, depois que saíra da prisão, vinha servindo de instrumento da polícia, dando pistas que redundavam em prisões de membros do Partido”.?
Os cuidados
que passaram
a cercar Elza Fernandes,
por parte de membros
a
Ibid., p. 43-44.
a
centrais envolvidos nos acontecimentos políticos do período, traziam em si uma posição
TSN., Pr. 1381/1 “Depoimento Eduardo Ribeiro Xavier”, p. 34.
72
pré-cstabelecida por estes quanto à relação dela com as forças repressivas que atuavam de forma intensa no período pós-levante. A relação estabelecida era bastante simples: Elza havia sido presa, libertada em circunstâncias nada convencionais.
Ao procurar
integrantes do partido, estes acabavam sendo presos pela polícia varguista. Segundo o raciocinio estabelecido por alguns integrantes da direção central do partido, nada mais
lógico do que concluir que Elza estava servindo como informante da polícia. Nessas circunstâncias, se fazia urgente determinar o destino da suposta informante, na medida em
que
a segurança
de importantes
dirigentes
estava
diretamente
ameaçada.
Um
elemento central, no curso dos acontecimentos, foi Martins, que advertia Prestes de que
a moça era um perigo para o partido. Seguramente, as boas relações entre Martins e Prestes serviram para reforçar as opiniões do primeiro acerca do caso. Após o levante, Martins serviu como uma espécie de elo entre os membros do
Secretariado Nacional e Prestes. As correspondências trocadas entre eles giravam em torno de assuntos como a reorganização partidária, perspectivas políticas e questões de ordem
mais
pontual,
correspondência
como
encaminhada
as razões
que ocasionaram
a queda
para Prestes, em 26 de janeiro de
ponderava sobre as circunstâncias que envolveram
de Miranda.
Em
1936, Martins já
a prisão do Secretário Geral do
partido: “A opinião sobre a queda de Mir. ainda não pode estar completamente formada, faltam dados e sobretudo falta a opinião dele mesmo. Porém soubemos que no mesmo apartamento morava Jorge Amado, onde reunia constantemente elementos intelectuais da esquerda (desenhistas,
escritores, etc.), todos conhecidos da polícia. Mir. sabia disso e consta que foi instado a mudar por Pedro Luiz por essa razão, negando-se sobre a base de que era por poucos dias e que estariam atrás daquela turma e não dele. Um dos frequentadores do apartamento de J. A. informou-nos que já tinha notado estar a casa vigiada e que teve uma surpresa enorme com a prisão de Mir. lá. Soubemos finalmente hoje que a cana deu lá às 10 horas da manhã de segunda feira dia 13, e que antes de bater no apartamento, o chefe dos tiras dirigiu-se ao porteiro perguntando “se tinha chegado mais alguém"; também informa o próprio J. A. que no domingo, dia 12 a tarde um desconhecido foi bater perguntando por sr. Adalberto, o que não sabemos é se a garota estava em casa ou se o apartamento estava vazio;
(...) mas há, sem dúvida alguma, imprudência. Tenho muita curiosidade
73
de apurar se tinha gente no apartamento do Mir. quando individuo (...)”* A
lá foi o tal
prisão do Secretário-Geral do Partido criou um forte abalo, na medida em que
a função política deste era de significativa relevância. Até aquele momento, a conduta
ética de Antonio Maciel Bonfim (Miranda) era inabalável, gozando o mesmo de grande prestígio entre os dirigentes do PCB. Juntou-se ao partido no ano de 1932, quando em novembro deste ano,
“foi realizada uma reunião do partido para reconstruir o então dizimado Comitê Central (...). Havia atuado na LAR ? e (...) chegaria a secretáriogeral do partido na 1º Conferência Nacional, em 1934, garantindo assim a predominância do Prestismo sobre a antiga liderança”. 16
A prisão de Miranda despertou uma apreensão muito grande entre os dirigentes partidários. Questões ligadas à reorganização da ação política e segurança de membros politicamente importantes eram consideradas, naquele momento, “questões de Estado”. Começaram marcaram
a surgir discordâncias dentro da própria direção central. os
posteriores
encaminhamentos
feitos
colocaram
Conflitos que
Martins
e
Rodolfo
Ghioldi!!. em lados opostos. Na
questão
da
reorganização
partidária,
Martins
defendia
a aplicação
de
resoluções que já haviam sido tomadas juntamente com Miranda, como por exemplo à manutenção do Secretariado Nacional coletivo de três membros!?. Diante dessa situação de impasse, percebe-se claramente a força política de Prestes sobre a direção central do partido:
8
TSN., Pr. 1381/2. “Carta de Honório de Freitas Guimarães a Luís Carlos Prestes”, p.
266.
? A Liga de Ação Revolucionária foi fundada no ano de 1930 por Luís Carlos Prestes. Tinha por objetivo o desencadeamento de uma revolução democrática-burguesa. Servia como contraponto a aquilo que representava os princípios defendidos pela Aliança Liberal CHILCOTE, op. Cit, p. 75. o!
Membro suplente do Comitê Executivo do Comintern, Americano da III Internacional e dirigente do PC argentino
secretário
do Birô Latino-
2 Antes da prisão de Miranda existia a perspectiva de seu afastamento temporário para efeito de viagem. As razões de tal viagem não se encontram especificadas em correspondência enviada por Honório de Freitas Guimarães a Luís Carlos Prestes, datada de 26 de janeiro de 1936.
ENO Da VoTRT
xy
74
“O INº, propôs que v. fosse ouvido e então lá vai a questão para ti. Propus também que, em vista de tua carta anterior levantar a questão de encontro com um do S. N., que fosse escolhido o T'*. para que pudesses formar uma opinião a respeito dele. Com isso IN. não esteve de acordo e mesmo não pareceu-me estar de acordo com encontro nenhum direto com vos
Não pretendo trabalhar com a idéia de que o prestismo tenha Estado presente no PCB só a partir do levante de 35. A influência deste já se apresenta desde a segunda metade da década de 20!$. No entanto, o vínculo próximo das instâncias decisórias por parte de Prestes se fará sentir de forma significativa durante e após o referido levante. A
importância
das questões
ligadas
à segurança
de figuras
destacadas
do
movimento também causou discordâncias entre Martins e Rodolfo Ghioldi. O primeiro entende o momento
delicado, mas acha que, tomando
os devidos cuidados, é possível
manter os membros do partido e do Comintern no Rio de Janeiro. Neste caso, se estaria apostando na perspectiva da recomposição
imediata do trabalho político interrompido
com a repressão. Ghioldi passou a defender a saída da direção nacional para São Paulo, não sendo aceita tal solicitação por parte do Secretariado Nacional. O
decorrer
dos
acontecimentos
apontou
as duas
alternativas como
falhas.
O
trabalho não foi recomposto no Rio. Não houve reversão do quadro de refluxo político sofrido pelo PCB. No caso de Rodolfo Ghioldi, apesar de ter ido para São Paulo com sua mulher,
foi preso
e reconduzido
para o Rio de Janeiro.
Na prisão, foi barbaramente
torturado, vendo-se obrigado a cooperar com a policia.
o
Referência a Rodolfo Ghioldi. Referência a Adelino Deycola dos Santos. TSN., Pr. 1381/2. “Carta de Honório de Freitas Guimarães a Luís Carlos Prestes”, p.
265. Wemeck Sodré afima que a decisão de fazer contato com os tenentes, esteve vinculada a
necessidade de ampliação de alianças políticas por parte dos comunistas. A constituição do Bloco Operário ce Camponês já traduzia essa tendência a partir de 1928. Em dezembro de 1927, o secretário-geral do partido já contatava na Bolívia Luís Carlos Prestes: O encontro durou dois dias, sendo que Astrojildo Pereira afirmou que buscou “coordenar as nossas forças, tendo em vista os objetivos comuns”. (Cf.
SODRÉ, Nelson Werneck. Contribuição à história do PCB. São Paulo: Global, 1984, p. 68-69.)
75
As
preocupações
com
o destino
da
militância
se
intensificavam
com
as
constantes prisões que vinham ocorrendo. A atenção foi redobrada, sendo que a soltura de Elza Fernandes desencadeou, dentro do partido, um processo que corporificou a perda
de
referenciais
mínimos
acerca
de
alternativas
para
conter
futuras
ações
repressivas por parte do Estado. Foi instaurado o que ficou conhecido pela imprensa do periodo como o “Tribunal Vermelho”.”” Na condução do processo interno, a discussão
central deu-se sobre o destino da provável informante da polícia Elza Fernandes. Neste momento,
a presença de Prestes mais uma vez tornou-se bastante marcante nos rumos
dos acontecimentos.
As desconfianças a respeito de Elza Fernandes começaram
logo após a sua
soltura. Os militantes comunistas hesitaram em dar-lhe abrigo. Porém sua permanência deveria ser na casa de Francisco Meirelles.
Seu irmão, Ilvo Meirelles, desconfiava da
estranha movimentação de Elza Fernandes e de suas estranhas liberdades entre a casa de
detenção e a rua. A estranheza aumentava de uma forma mais generalizada, na medida em
que
os movimentos
de Elza
eram
sucedidos
de
várias
prisões
de militantes
procurados. No dia 3 de fevereiro de 1936, o cerco sobre Elza Fernandes parecia estar se fechando.
Em correspondência a Luís Carlos Prestes, Honório de Freitas Guimarães
manda os seguintes informes: “Consultei com Ban. e Prax. a respeito, pois não havia tempo para ouvir a
opinião dos demais e o assunto era urgente demais. Já está resolvido o caso e pela forma melhor. Não relutou nada em obedecer às ordens que mandamos, está em lugar seguro e sob a guarda de nosso elemento mais firme e um outro também duro e a ordem é que as medidas extremas sejam aplicadas logo que necessário se tome. Há coisas interessantes que
id
Reynaldo Pompeu de Campos, em sua obra produzida acerca do Tribunal de Segurança
Nacional, se ocupa do Caso Elza Fernandes, citando-o como (...) “um dos mais interessantes processos
julgados após a fase verde”. Ao abordar a trajetória do TSN, o autor divide a atuação do Tribunal em fase vermelha, na fase pós-levante de 35, a fase verde instaurada período pós levante integralista, e o retorno à fase vermelha onde enfatiza a importância do processo aqui analisado.(cf. CAMPOS, Reynaldo Pompeu de. Repressão judicial no Estado Novo: direita e esquerda no banco dos réus. Rio de Janeiro: Achiamé,
1982, p.99-108.)
76
mais adiante conversaremos, depois que um po. 1 detalhadamente, o que já foi feito ontem”. !*
de
nós
a possa
ouvir
Após Elza ter encaminhado uma nota de Miranda a João Barbosa de Melo, pedindo que a recolhesse, este foi preso. Posteriormente, apesar de ter conseguido asilo na casa de Francisco Meireles, o fato de a prisão de Barbosa ter ocorrido em tais circunstâncias, agravou a desconfiança por parte do partido, que resolveu mantê-la sob custódia. As afirmações de Elza,
sobre a prisão de Rodolfo
Ghioldi,
aos militantes do
partido, agravavam mais a sua situação: “No sábado (...) Miranda Corrêa se estava jactando de ter pegado outro, um intelectual argentino e que tinha agora a certeza que estava quase pegando Prestes, etc. Ontem a Garota confirmou isso dizendo ter sabido na última visita que fez ao Miranda na sexta-feira, que ele tinha sido preso em $. Paulo ao desembarcar junto com a mulher depois de ter viajado seguido por 4 tiras, (..). A Garota também informou que está hospitalizado o casal de Sá Fer. (...). Isso tudo é muita coincidência e muito trabalho esperto juntos. Mas como dizes, é preciso apurar fatos primeiro, antes de levantar hipóteses”. "”
Além das “revelações comprometedoras”, a veracidade das cartas que ela trazia de
Miranda
aos
companheiros
em
liberdade,
passaram
a ser
questionadas
pelos
dirigentes do partido. Elza sustentou, veementemente, que essas cartas eram de fato dele, dizendo ter ele escrito na sua frente. Na verdade, essa situação passou a dividir o grupo, quando Francisco Meireles disse reconhecer a letra como a do Secretário Geral.
A polêmica carta recomendava que Martins e Praxedes se metessem até numa cova, se fosse possível, pelo fato de estarem sendo procurados de forma incessante pela policia.
E TSN., Pr. 1381/2. “Carta de Honório de Freitas Guimarães a Luís Carlos Prestes”, 3/2/1936, Pp 272.
!
Ibid.
7
Miranda afirmava, em suas cartas, que, até o presente momento (30-1-36), nem ele nem Elza haviam delatado quem quer que fosse. As informações que chegavam eram de que Miranda se encontrava no hospital da polícia especial quase morto. De qualquer forma, prosseguiu, entre os dirigentes comunistas, o interrogatório de Elza Fernandes. Nos dias 3 e 4 de fevereiro, saíram informes sobre os resultados das “sindicâncias em torno da garota”. Os envolvidos na sindicância entendiam que a partir do resultado desta, poderiam formar um melhor critério sobre o caso.
As perguntas giravam em torno das pessoas que ela conhecia, das ligações que ela e Miranda tiveram nas vésperas da prisão, da batida policial no apartamento de ambos,
dos interrogatórios e da soltura dela. Ao fazer relato sobre a batida policial, Elza afirmou que: “A batida no apartamento foi entre 9 e 10 horas da manhã. Bateram à porta. A garota abriu a portinhola e viu um tipo alto de pince-nez (tem. Américo) que disse “quero falar com seu pai”. À garota perguntou quem era ele, ao que ele disse: “abra que é a polícia”(...). Miranda estava de pijama e disse que era impossível fugir. Pegou parte do material de trabalho e jogou na latrina. À essa altura disse a garota que tipão metera o braço pela portinhola e invadira o apartamento com mais cinco. Começaram a busca, enquanto o tipão perguntava a Miranda quem
era ele
e a sua profissão, ao que Miranda disse ser marceneiro e chamar-se (...)”.
Ainda em seu depoimento Elza afirmava que: “Foram levados logo a seguir, para a Polícia Central (...). Ali, identificados, os interrogatórios começaram (...). A garota fala de seu
depoimento: “que era de S. Paulo, abandonada pelos pais aos 4 anos, que ultimamente viera para o Rio a pé, que se empregou em Copacabana, não sabe nem da casa (...), que aí conhecera, um dia na praia, Miranda, com quem foi viver no edifício onde fora presa (...). Que ameaçaram para
cantar senão ia na baratinha azul para a Vista Chinesa ou para o Cristo Redentor, que começaram as porradas encabeçadas pelo Romano (...)””
O
transcurso
das
respostas
de
Elza
Fernandes
no
período
da
sindicância
instaurada pelo partido, não apresentou nada de significativo que pudesse incriminá-la
[EFELTOR=Er
E!
dfcado,
78
como traidora. As respostas dadas por cla se inclinavam muito mais para a perspectiva de ingenuidade, do que para a idéia de estar mancomunada com as forças policiais. No entanto, a insistência, por parte dos responsáveis pela interpretação do inquérito de lhe
atnbuir alguma culpa, era enorme: “Que à noite (...) o secretário de Miranda Corrêa foi acordá-la e disse-lhe que ela contando o que sabia estava salva (...) e estendeu-lhe na cama um quadro de umas dez fotografias, onde ela reconheceu Tamp. Nico, Prax., Negro e Indio,(...). Que mais tarde recebeu um bilhete, que o tira dizia ser do Miranda (...) onde este escrevia o seguinte: garota, tenha calma (...).
Quando sair, vá à casa da Marianna e arrume minhas coisas (...). Que ela pediu para ver a letra, que a reconheceu e então contou o endereço da Marianna. (neste parênteses previno:mais adiante a garota atribuirá o que cantou as declarações de Miranda, Isto é jogara por tabela)”.? Na casa de detenção, no alojamento
feminino, Elza Fernandes havia tomado
contato com várias militantes importantes como Rosa Meireles, Maria Werneck, entre
outras. Nos relatos feitos por Elza tinha-se a impressão de que esta estava muito bem informada sobre a ação policial. No alojamento feminino da casa de detenção, disse ter ouvido notícias de espancamentos de militantes do partido, e daqueles que revelavam
algo sobre o paradeiro de outros companheiros. Em seu relato sobre o encontro com
e Praxedes”.
Miranda, enfatizava as advertências deste para Tampinha,? Nico”
Deveriam estes se salvar a todo o custo, pois se fossem agarrados seguramente seriam
mortos.
Os
conhecimento
relatos
feitos
da polícia,
acerca
de
certamente
militantes causavam
e de esconderijos insegurança
que
eram
do
entre os militantes
do
partido, pois expunha toda a fragilidade do sistema de segurança montado. Assim, O sentimento de insegurança tomava outros contornos, direcionando as conclusões, sobre os depoimentos de Elza Fernandes, à forte suspeita de colaboração por parte dela com a
polícia.
ad TSN., Pr. 1381/2. Fernandes”, 3 e 4/2/36, p. 275.
“Informes
sobre
o resultado
das
a
Ibid. Adelino Deycola dos Santos
a z
Não obtive identificação de quem usava o codinome. Antonio Xavier,
sindicâncias
em
tomo
de Elza
79
Elza não apresentava a situação de Miranda como a das mais alentadoras. Dizia que este apanhara, durante quatro dias, de sete policiais da polícia especial, ficando este
periodo sem dormir e sem comer e que estava muito abatido, de olheiras fundas e com todo o corpo cheio de manchas escuras das pancadas. No entanto, quando Elza passou a relatar o seu tratamento na polícia especial, o contraste tornou-se visível, se tomarmos como parâmetro o dispensado para Miranda. Ela soube antecipadamente dentro da polícia. Um
de sua soltura. Passava a impressão
de ser apadrinhada
dos policiais envolvidos no caso, Serafim, dizia ter muita pena
dela. A chave do apartamento, onde foram presos, foi dada a Elza por Miranda Corrêa, para que ela pudesse persuadir Miranda
retirar suas coisas. Falou
a contar o que sabia.
ainda das tentativas da polícia em
A proposta era simples:
após
ele contar,
soltariam Elza, e o partido suspeitaria da mesma. A ingenuidade do depoimento dado por Elza, ao partido, não indicava o perfil de alguém
que pudesse fazer um papel duplo. Nem
mesmo
ao falar do que passou na
prisão, essa perspectiva se acusa: “Diz a garota que as porradas que levou se resumem a um puxão de cabelos pelo Romano (que os agarrou dizendo parecer pintados), a 2 bordoadas de borracha nas costa, e 2 na planta de cada pé, e uns 6 cachações. Fora dai disse que não houve mais nada, nem puxão de seios, nem o negócio (...), o tal pau metido na vagina e que ela disse não se ter passado. O que houve depois das porradas, foram as ameaças de passeio à vista Chinesa, de pelúcia de couro com esponja e líquida no nariz, de caneta que Serafim ameaçava enterrar nas coxas dela e de meia hora para cantar para não ser fuzilada. Há contradições ao que parece sobre os 3
dias de tortura de que fala o Mattoso e que ela nega” ” Uma
situação se apresentou como
clara: as forças policiais conduziram Elza
Fernandes de tal forma que conseguiram lançar fortes suspeitas sobre ela. A intenção anunciada apareceu nos próprios depoimentos dela. No entanto, aqueles que conduziram seu inguérito viam no seu gesto mais uma jogada de esperteza do que um gesto de
TSN., Pr. 1381/2. ao Fernandes”, 3-4 /2/36, p. 278.
“Informes
sobre
o resultado
das
sindicâncias
em
tomo
de Elza
80
ingenuidade. Durante boa parte das avaliações, feitas por parte dos que a inquiriam, percebia-se que achavam que Elza tinha o claro propósito de incriminar Miranda. No Fernandes, esclarecidos
final dos informes os
militantes
para poderem
de 6 de fevereiro
envolvidos
no
acerca
inquérito
avaliar a conduta
já
de Elza.
dos se
depoimentos diziam
Passaram,
de Elza
suficientemente
então,
a avaliar o
destino que iriam dar a ela. Achavam-se na obrigação de tomarem “medidas definitivas” para impedir que ela continuasse a atribuir responsabilidades de um comportamento politicamente duvidoso a Miranda. Prestes recebia todos os informes acerca do
desenrolar dos acontecimentos
políticos. Naquele momento, o PCB não expressava mais a resistência que antes já havia existido quanto à aproximação
política de Prestes com
o partido. Muito antes pelo
contrário. Naquele período de extrema dificuldade, os conselhos do “Cavaleiro
da
Esperança” gozavam de profundo respeito, de caráter quase reverencial. Reproduzia-se nas relações políticas do PCB a estrutura personalista que tanto marcou as relações de poder dos Partidos comunistas ao longo da fase estalinista.
Em carta enviada por Prestes a Martins, as impressões e expectativas acerca do caso Elza Fernandes apareciam de forma contundente: “Já expliquei em carta anterior nossa opinião (L. e G.) a respeito da garota. Muito bom pelas medidas praticadas e tomadas. Continua ela a fazer visitas a seu marido? Foi completamente isolada? É necessário muito cuidado e grande energia nas medidas a tomar. Tudo indica que está a serviço da pol. E esta vai aperfeiçoando seus métodos de trabalho. A esta carta juntarei algumas conclusões a que chegamos com os materiais enviados por ti e pelo ]l. A respeito da garota e da situação de Miranda. A questão mais grave é a da carta do B. de M. e, como não podemos nem devemos acreditar no que diz o Francisco M., é indispensável fazer todos os esforços para obter tal carta, caso ela realmente exista. Tu pedes a minha opinião sobre as cartas com recados de Miranda. Esta opinião vai em separado. Mas espero também a opinião de vocês e muito especialmente quais são os “boatos” que podem se espalhar provenientes de tais recados, como dizes em tua carta. Quem são os autores das cartas com recados de Miranda? Não os conheço. As cartas parecem escritas, ou pelo menos ditadas, pela polícia. De qualquer maneira, precisamos ao mesmo tempo que fazemos a campanha próMiranda e que lutamos contra todas as provocações policiais, reunir todos
Re —
81
os elementos que nos vão caindo nas mãos, fazendo esforços para buscar
outros, etc. com o objetivo essencial de conhecer os novos métodos de trabalho do adversário, verificar a firmeza de nossos companheiros e ensinar a todo o Partido quais as consegiiências desastrosas de franquezas, . am 26 que se ainda possam cometer na prisão”.
Nas avaliações, começamos a notar que a imagem política de Miranda já não estava tão preservada. O até então intocado Secretário-Geral do PCB poderia ter escrito
cartas com o seu conteúdo ditado pela polícia. Mas essa possibilidade não isentava
a
culpa de Elza. Se por um lado, a ação de Miranda abria a possibilidade da coação, no caso de sua companheira essa possibilidade não era aventada. Outro ponto que merece destaque é que a idéia da punição
exemplar
para
militantes que de uma forma ou de outra traíssem o movimento aparece explicitada. Mais uma vez podemos nos utilizar de um componente político bastante presente na ética da revolução do período: a necessidade de absoluta abnegação daqueles que se lançavam no caminho da revolução. O compromisso com um projeto maior no plano político não comportava alguma eventual fraqueza que viesse a comprometer o curso dos acontecimentos. Ceder diante de tais pressões, significava trair aqueles que ainda estavam
na luta. Mesmo
sob os mais
duros castigos
físicos.
Uma
pergunta
seria
perfeitamente pertinente para os militantes do período. Se o casal Berger sofreu a toda ordem de humilhações e castigos físicos, por que outros não poderiam seguir o seu exemplo? Comparativamente, nas organizações de esquerda do final dos anos 60, no Brasil,
apesar de todos os equívocos decorrentes da luta armada, a tolerância com aqueles que eram torturados era maior.
Orientava-se o militante para que resistisse durante um
determinado
que
período,
para
as
informações
dadas
à polícia
não
viessem
a
comprometer os demais.
26
6/2/36, p. 279.
TSN., Pr. 1381/1. “Carta de Luís Carlos Prestes a Honório de Freitas Guimarães”. 5-
82
Outro dado que pode ser acrescido à própria lógica da revolução do período é o caráter militarista que tomou conta do levante de 35. Pelo fato de o movimento ter tido como protagonista os quartéis, e pelo PCB ter, naquele momento, como figura mais importante o capitão Luis Carlos Prestes, com forte influência de sua formação militar, e guardando
enormes
deficiências teóricas, passamos
a ter nas relações políticas em
instâncias decisórias um misto de estalinismo com militarismo, se é que dentro de uma lógica revolucionária estes elementos podem ser dissociados. Apesar
de ser dificil explicitar de que forma,
as suspeitas
por parte dos
integrantes do PCB com relação à Miranda e Elza Fernandes chegaram ao conhecimento do secretário geral do partido. Em um comunicado a Francisco Meirelles, Miranda pede, encarecidamente, a este que Elza receba o bilhete enviado por ele e vá vê-lo com o máximo de urgência. Além do mais, salienta que Francisco Meirelles fale com o seu irmão para destruir “boatos infames do inimigo”. O bilhete escrito por Miranda a Elza Fernandes era um misto de sentimentalismo e preocupação acerca dos boatos que corriam a respeito dos dois: “porque é que não vens me ver? Eu te esperei no dia que marcaste (...). Vivo aflito sem saber notícias, e não tenho tranquilidade. Os inimigos espalham boatos infames a meu respeito. Eu te preveni- contra isto, e mandei que prevenisses nossos amigos. Além dos suplícios físicos, me dão suplícios moraes. Se alguém te disser infâmias a meu respeito, repele. O inimigo procura nos destruir e desagregar; é preciso muito cuidado com os boatos, não dar crédito. Estou doente, preciso de dinheiro, roupa e remédios (...). Minha consciência esta tranquila, estou firme, certo de que me portei como um valente,” e na altura da confiança de que os amigos sempre me depositaram. Que eles tomem cuidado c/ os boatos que todos = . a : são serviços do inimigo (...)”?
O bilhete acima foi submetido a uma espécie de “exame grafológico”, com que se chegou à conclusão de que tanto o bilhete endereçado a Francisco Meirelles quanto a Elza Fernandes apresentavam traços característicos da caligrafia de Miranda: os P, G,M,
F, N, A e B maiúsculos; os pingos nos ii (que são mais traços do que pingos) os r, d, os, ol
Itálico feito por mim em substituição ao sublinhado do documento.
2
TSN., Pr. 1381/2 . “Bilhete de Miranda a Elza Fernandes.” 17/2/36, p. 280.
83
s, a palavra “todos” na parte inferior da terceira parte do bilhete.” O indicativo de veracidade do bilhete de Miranda,
poderia ter servido como
um
atenuante para as
suspeitas que recaíam sobre Elza Fernandes. No entanto, não foi esse o rumo que tomou a condução
das
investigações
sobre
a possível
colaboração
dela
com
as
forças
repressivas do Estado varguista. Neste momento, estava completamente isolada, sem a possibilidade de visitar o Miranda.
As ordens dadas por Martins, com o assentimento do Secretariado Nacional,
eram o de tomar medidas extremas na primeira ocasião necessária. No entanto, ainda existiam pontos, no questionário a que Elza respondia,
que não eram considerados
suficientemente claros e retardavam a solução final. Apesar das questões pendentes no interrogatório, os membros do Secretariado Nacional estavam convencidos de que Elza
havia contado muita coisa à polícia. Achavam que o trabalho desenvolvido pela polícia estava muito bem articulado, crescendo em muito a importância da assessoria dada por Prestes ao partido.
A opinião de Prestes sobre Elza Fernandes já se encontrava formada mesmo antes do final do “inquérito” instaurado pelo partido. Na sua avaliação, o que ela dizia era aquilo que a polícia havia lhe ensinado. Mesmo assim, em correspondência enviada a Martins, ele se posicionava favoravelmente à continuação dos interrogatórios. Apesar de já ter chegado a um parecer conclusivo sobre o caso, considerava importante que ela dissesse como a “polícia a preparou”, como a “instruiu”, que “métodos” empregou, com que “recursos foi comprada”. Em suma, apesar de todas as “certezas”, Prestes ansiava que os inquiridores de Elza extraíssem dela uma confissão formal, o que legitimaria futuras
ações
com
relação
ao
seu
destino.
Falava
sobre
a necessidade
de
muita
habilidade e paciência na condução dos interrogatórios e que estes deveriam ser feitos por alguém de “pulso firme e que saiba onde quer chegar”. Sugeriu também uma série de perguntas adicionais que deveriam
ser feitas a Elza. O fato é que o caso Elza
Fernandes tomou-se uma “questão de estado” para a alta cúpula partidária naquele
84
momento.
Enquanto
as forças repressivas avançavam
sobre o partido, seus dirigentes
perdiam-se num emaranhado, que envolvia o inquérito da suposta responsável por todos os males
da segurança
dos dirigentes do PCB.
A
solução
para a lógica de ação
estabelecida pelos dirigentes comunistas parecia um tanto quanto acertada segundo seus critérios. Havia prisões, sendo alguém identificada como responsável por isso. Resolviase esse problema, e seria possível a tão almejada reorganização do trabalho político. Claro que os dirigentes não achavam que todo o aparato repressivo agia única e exclusivamente a partir das informações dadas por Elza Fernandes. No entanto, o peso dado
à possibilidade
esforços
dela ser informante
de figuras proeminentes
que
da polícia
poderiam
foi desmesurado
estar centrando
e mobilizou
suas atenções
em
questões mais significativas, como, por exemplo, uma avaliação do impacto do levante sobre o trabalho político do partido e as perspectivas de reconstrução do mesmo. Na verdade,
“avaliações”
desconcertante,
o que
cram
feitas,
mas
dentro
revelava a falta de espaço
de
um
discurso
para uma
reflexão
de
consenso
politica
mais
apurada. Para aqueles que se encontravam em cargos diretivos, a luta estava dificil, mas o caminho
traçado
era o que deveria
ainda ser perseguido.
Aqueles
que ponderavam
sobre possibilidades alternativas não tinham a sua opinião considerada e, de uma forma geral, perdiam o respeito político de seus companheiros.
Não podemos esquecer que a
autocrítica que tanto acompanhou a militância do PCB ao longo da década de 20, ainda era
uma
prática
aparentemente
comum
na
militância
da
década
salutar, onde o militante através de um
de
30.
Uma
prática
política
exame de seus atos reconhecia
seus equívocos, tomando-se instrumento de poder sobre o grupo que hegemonizava as linhas de ação partidária. Logo, qualquer tentativa de aprofundar uma discussão poderia
ser interpretado
como
um “desvio de caráter burguês”, sendo o “responsável”
pelo
desvio obrigado a se retratar sob pena de sofrer sanções maiores que poderiam resultar inclusive em sua expulsão do partido. Tomando como referência essa realidade, fica fácil compreender que o espaço para a discussão interna era estreito, ficando ao encargo
as
de um seleto grupo as decisões consideradas relevantes para o destino do partido.
4 > ) ê h
E
85
À responsabilidade da aplicação dos questionários a Elza Fernandes, bem como as divulgações de seus resultados, ficavam em grande parte ao encargo de Tampinha ”
membro
do Secretariado Nacional
do partido.
No
entanto, as interpretações
deste
ficavam bastante restritas. As opiniões de Martins e Prestes, principalmente, terminavam por cristalizar as discussões sobre os rumos a serem tomados em relação à Elza. A
derradeira
tentativa
de
extrair
uma
confissão
também
foi
frustrada.
Os
dirigentes encarregados da condução do interrogatório tentaram blefar com Elza: “Conforme haviamos resolvido, mandamos ontem um companheiro dar um aperto diferente na Garota. Lã chegou anunciando e tinhamos afinal recebido uma carta de Miranda em que este dizia, além de relatar a prisão mais ou menos como nós já sabemos que se deu, que nós tivéssemos aqui fora paciência com a garota porque ela cra muito criança e além disso marinheiro de primeira viagem e que por isso é que tinha fraquejado. Nessa suposta carta, Mir. nos informava que ela tinha cantado o endereço de Marianna (ela confirmou “E verdade”), o endereço de 5 A, sabendo que não estava mais ninguém lá (ela confessou também ), segui-se com o 151,
que ela então negou. Disse-lhe que Mir. atribuia a clas a entrega do 64 (casa do Tamp) o que cla negou redondamente. Sobre a carta do B. ao M., ela insiste novamente nas afirmações anteriores c com muita firmeza (há porém contradições flagrantes entre diversos outros depoimentos). Que a polícia a instou a falar tudo que sabia para assim poder conseguir livrar o Mir”. No dia 14 de fevereiro de 1936, foi feita uma reunião do Secretariado Nacional,
na qual mais uma vez o caso de Elza estava entre os assuntos centrais. Nessa reunião, foi referendada a postura de que Elza estava a serviço da polícia, tendo ainda o firme propósito de desmoralizar Miranda. A posição dos participantes da reunião sobre o caso
foi de que se deveria adotar mediadas extremas. No entanto, ponderavam sobre algumas questões consideradas significativas: o alarde de sua soltura, a declaração de Miranda Corrêa ao Diário Carioca de que ela já havia contado tudo que sabia à polícia, e a afirmação do diretor da Casa de Detenção que Elza seria mais útil fora do que dentro. Essas ponderações levavam os integrantes do Secretariado Nacional a concluírem que
So 3
14/2/36., p. 291.
Seu verdadeiro nome era Adelino Deycola dos Santos. TSN., Pr. 1381/2. “Informe de Honório de Freitas Guimarães a Luís Carlos Prestes.”
86
para a polícia uma
solução
extrema
com
relação
à Elza Fernandes
também
seria
interessante, na medida em que poderia ser explorado como um enorme escândalo. Poderia ser provado pela polícia que Elza havia sido solta, havia sido vista em determinados locais com militantes do partido e morava na casa de Francisco Meirelles, havia sido levada para lá por um membro do PCB. A conclusão a que chegaram era a de que tal escândalo com citações de sexo, idade, qualidade de companheira do secretário-geral, poderia concorrer muito seriamente para separar o partido das massas durante algum tempo e causar sérios prejuizos. Durante a citada reunião, os participantes encaminharam
uma proposta a ser
discutida com Prestes, na qual deveriam colocar provas visíveis, diante da opinião pública, de que Elza estava viva, para depois de desmoralizar qualquer tentativa de especular sobre a sua morte, tomar a tão apregoada medida extrema.
O que se pode observar é que existia clareza sobre o forte desgaste do partido diante da opinião pública, caso alguma coisa saisse errado na execução de Elza. Na medida em que existiam sérias duvidas de como encaminhar a situação dali para frente, a opinião de Prestes seria determinante no encaminhamento da solução. Prestes, a essa altura, fechava com
as avaliações do Secretariado Nacional,
chamando a atenção para que fossem tomados os cuidados devidos. No entanto, não se deveria protelar por muito tempo o justiçamento de Elza. No
dia 17 de fevereiro de 1936, em correspondência
endereçada
a Prestes,
Martins informava que souberam, por um militante solto, de dois novos recados de Miranda: “Um deles mandado pelo piloto Gayo que está preso desde os acontecimentos (...) juntamente com uma carta de Mir. para a garota acompanhado de um bilhete explicando onde se encontra para ser procurada (...). O outro recado venho pelo Tte. Trojal (...). Ambos estiveram com ele na sala de detidos, ambos recados são do mesmo teor
87
sobre
necessidade
de
Martins
e Praxedes
sumirem-se
(...) o Trojal
conheço muito bem (...) É um companheiro limpo (...)”. *? Baseado
na correspondência
de Martins,
pode-se
perceber evidências
sobre
tentativas de contatos de Miranda com o partido que independiam da figura de Elza. No entanto, essa situação não foi suficiente para demover os responsáveis pelo inquérito do propósito de executá-la. Porém, a imagem de Miranda, junto ao partido, ficou definitivamente abalada, como aparece no relato a seguir: “Achamos que a letra é mesmo dele. Achamos que o conteúdo demonstra um Estado de espinto de desespero, que não se justifica num dirigente de sua responsabilidade. Além do mais, manifesta preocupações que não se compreende, sobre o destino dela, e sobre boatos dos quais até não tivemos notícia em nenhum setor. Também achamos inexplicável sua situação de facilidade de comunicação com outros presos e de visitas da menina, quando outros menos importantes continuam incomunicáveis. Estranhamos que ele aceite esse estado de coisas, não perceba o perigo que ela representa, e insista pelas visitas. Também estranhamos que ele mande recados para o irmão de Chico. Apesar de ficar a impressão de que tenha tido fraquezas o nosso companheiro Mir., resolvemos intensificar a campanha de massas pela s/ libertação e já foi requerido habeas corpus — Ao mesmo tempo repelir qualquer boato que surja fomentado pelo
inimigo de classe. Ficou, porém, com referência à menina manter o status que existente, até ver mais clara a situação e ouvir tua opinião. Achamos que devido à complicação que o caso toma, a manutenção do “status quo” é aconselhável, porém não lhe pediremos carta, nada lhe informaremos da carta, reforçaremos a vigilância em tomo dela, à espera de opinião de vv. Que deve ser definitiva.”
Apesar
de terem
aparecido
indicativos
da desconfiança
de Prestes sobre a
conduta política de Miranda, nas suas correspondências de 5 e 6 de fevereiro, este tentava manter uma posição cautelosa sobre a imagem pública daquele que já havia sido Secretário Geral do partido. Mesmo com a dura avaliação do informe de Martins, datado de 18 de fevereiro de 1936, Prestes buscava centrar responsabilidades em Elza. Ao confirmar o recebimento dos bilhetes, passou imediatamente a ponderar se eram ou não de Miranda. Dizia ser fundamental empenhar esforços para saber como os emissários EE A
Ibid,, 17/2/36, p. 294. Ibid, 18/2/36, p. 295.
88
haviam
recebido tais bilhetes.
Entendia
os mesmos
como
elementos
de um
plano
provocador que estava sendo posto em execução. Reafirmou mais uma vez que a polícia estava empregando novos métodos contra o partido, e para isso dispunha de especialistas
que queriam aproveitar a prisão de Miranda para desencadear um clima confuso entre os dirigentes
comunistas.
Prestes
desconfiava
que
as forças de segurança
do Estado
varguista manipulavam para despolitizar a discussão, dando munição aos opositores do partido para que entendessem as diferenças entre o PCB e Miranda como algo de caráter pessoal. Os opositores eram classificados como “renegados”, cristalizando mais uma vez o perfil centralista nas deliberações políticas feitas. O espaço para o debate naquele momento era asfixiado. Existiam questões mais prementes. Conter o avanço das “forças burguesas” era o fundamental.
Fazia-se necessário, segundo
a lógica dos dirigentes
comunistas, promover uma espécie de “purificação” daquilo que era divulgado entre as fileiras do partido. Também
era importante organizar uma circular para os filiados
objetivando referendar posições acerca da postura de Miranda na polícia. Na prática, Prestes se encontrava preocupado em manter a imagem pública de Miranda, por entender que uma traição confirmada representaria um desgaste muito forte diante da opinião pública nacional. Ao mesmo tempo, ao tratar com as estruturas partidárias, o discurso era outro. Mesmo com todas as evidências sobre a postura de Miranda, não se apresentavam indicativos sobre uma possível mudança de orientação sobre o destino a ser dado a Elza Fernandes.
Em correspondência endereçada ao Secretariado Nacional, no dia 19 de fevereiro de 1936, Prestes dá um ultimato. Afirma estar surpreso com a falta de resolução e vacilo.
Suas palavras são bem incisivas quanto àquilo que ele pretendia em termos de postura por parte de “dirigentes” da classe operária: “Comps. Assim não se pode dingir o partido do proletariado, da classe revolucionária consequente. Mesmo sem conhecer os originais dos supostos bilhetes de Mir., (...) formulei minha opinião a respeito do que
precisamos fazer. Mas supondo que os bilhetes são realmente do punho de Mir... Por que modificar a decisão a respeito da garota? Que tem a ver uma cousa com a outra? Há ou não há traição por parte dela? E ou não é
ela perigosíssima ao partido, como elemento inteiramente a serviço do
89
adversário, conhecedor de muita coisa e testemunha única contra um grande número de companheiros e simpatizantes? Por outro lado, se vocês julgam que os bilhetes são verdadeiros, como podem qualificar isto de “fraqueza” do “nosso companheiro Mir.”? Traição é traição e tanto maior quanto mais responsável for o traidor... Com plena consciência de minha responsabilidade, desde os primeiros instantes tenho dado a vv. minha opinião sobre o que fazer com ela (...) nem creio que os últimos bilhetes atribuídos ao Mir. possam modificar uma tal decisão. Por isso não entendo a vacilação de vv. (...). Uma tal linguagem não é digna dos chefes de nosso partido, porque é a linguagem dos medrosos, incapazes de uma decisão, temerosos ante a responsabilidade.
Ou bem
vv. concordam com
as medidas extremas, e neste caso já as deviam ter posto em prática, ou então discordam e deveriam, portanto, defender corajosamente a opinião própria, não se deixando influenciar por ninguém. Não é possível dirigir sem assumir responsabilidades. Por outro lado, uma direção não tem direito de vacilar em questões que dizem respeito à defesa da própria organização. Vocês compreenderão a dureza, a veemência destas linhas, porque elas traduzem com a franqueza necessária entre nós toda a minha tristeza frente às vacilações da direção em cujas mãos está o futuro da revolução no Brasil”. *
O conteúdo incisivo da carta de Prestes ao Secretariado Nacional, tentava passar uma firmeza na condução das ações diante da situação de Elza, que não era encontrado entre os membros
do partido encarregados de tratar do caso.
As dúvidas ainda eram
muitas sobre o que fazer, no entanto, a lógica estabelecida por Prestes, era outra. Sabia
dos riscos que corriam diante da opinião pública e apesar de não admitir abertamente, tinha clareza da possibilidade de Miranda ter a sua carga de responsabilidade nas ações de Elza. No entanto, não fazia distinção entre um militante, bem preparado e ciente dos riscos
de seu
papel,
e uma
menina
de dezesseis
anos,
sem
uma
formação
política
consistente. Naquele instante, a avaliação que predominava era a de que tudo era risco, inclusive a traição ou a perigosa ingenuidade de Elza. Chamar os companheiros à razão significava lembrá-los de suas responsabilidades diante da revolução brasileira. Da necessidade de eles terem força suficiente para ações enérgicas. De não sucumbirem diante da “pressão
do inimigo”,
de buscarem
de todas
as maneiras
a segurança
partidária. As questões individuais apareciam de forma bastante clara sobrepostas às
EM
TSN., Pr. 1381/2. “Correspondência de Luís Carlos Prestes ao Secretariado Nacional”.
90
necessidades
coletivas.
encaminhamentos
No
pessoais,
entanto, que
essas
mesmas
coletivizavam
as
necessidades
esbarravam
responsabilidades,
mas
não
em as
decisões. A lógica do centralismo democrático, neste momento, se confundia com ações personalistas, que marcavam, nos encaminhamentos políticos do PCB, a reprodução das viciadas instâncias decisórias vinculadas às elites tradicionais do país. Fugir da cultura política fortemente arraigada no Brasil era um desafio não superado pelos comunistas. Fundiam-se os elementos autoritários, marcados por uma época de hegemonia por parte do estalinismo, com o ranço do mandonismo político nacional. Prestes, unindo o seu viés militarista, em “comando
à tropa”, com atitudes caudilhescas, em nome da
revolução, condenava o partido a ter que responder diante da opinião pública sobre uma ação centrada na perda de parâmetros sobre as possibilidades de reversão do quadro repressivo do período pós-levante. Os comunistas desviavam a necessidade de uma autocrítica, a respeito do levante e das próprias condições pós-levante das estruturas partidárias, para a busca de responsáveis pela impossibilidade da recomposição
do
trabalho político. A partir da correspondência de Prestes, o destino de Elza estaria selado. Era fundamental operacionalizar, da maneira mais ágil possivel, a sua execução. Com
um teor ressentido, a direção do partido, ao responder a Prestes, tentava
transparecer um discurso afinado com as expectativas nutridas pelo grande líder: “Acabo de receber suas cartas sobre o caso da garota. Se não pusemos logo em execução as medidas que você propôs, foi devido às razões que nos pareciam justas de que poderia resultar num desligamento do partido com à massa e por estar a G. segura, podendo, portanto a coisa ser resolvida com calma e segurança. O fato de combinarmos mais uma vez com vocês e pedirmos a solução definitiva não significa que, se vocês não estivessem aqui nós não tomariamos uma resolução enérgica. Mas, aproveitando toda a experiência que vocês têm, queremos resolver as coisas bem pesadas e medidas, uma vez que há tempo para isto. Agora, não tenha cuidado que a coisa será feita direitinho, pois a questão sentimentalismo não existe por aqui. Acima de tudo, colocamos o interesse do partido. Continue a escrever e a nos ajudar. Mas desfaça essa
19/2/36, p. 297.
91
impressão má que você teve da direção atual, pois esta é a direção que tem agúentado todos os. “repuxos” de vários anos de formação e
desenvolvimento do Partido e que está disposta a levar avante sua tarefa por cima de todos os obstáculos”.*
O fato é que as expectativas não foram frustradas. Se a definição do que era ser firme, naquele momento passava pelo assassinato de Elza, os dirigentes foram firmes. Apesar das suspeitas da polícia, esta nada pôde provar sobre o assassinato em questão no ano em que ele ocorreu. Mas, em
1940, com a prisão de destacados dirigentes do
partido, o caso veio à tona, causando um enorme desgaste da imagem dos comunistas brasileiros diante da opinião pública.
3 TSN., Pr. 1381/2. “Correspondência de Lauro Reginaldo da Rocha a Luís Carlos Prestes”, 20/2/36, p. 299.
A,
A ELUCIDAÇÃO DO CASO ELZA FERNANDES DO ANTICOMUNISMO
E O REFORÇO
DO ESTADO VARGUISTA.
As suspeitas do assassinato de Elza Fernandes começaram a surgir a partir da prisão de Prestes, em 5 de março de 1936. Sua prisão causou forte impacto
na imprensa da época.
Entre os dirigentes
comunistas, sempre rendeu bons dividendos aos jornais. A sua trajetória política, desde os anos 20, exercia um forte fascínio sobre o imaginário de boa parte da sociedade brasileira. Quando
preso em
1936, no período pós-levante, a cobertura feita de sua
prisão colocava em destaque os esforços da polícia na prisão do dirigente comunista, bem como o tom emocional do reencontro de Prestes e antigos companheiros de coluna: “Foi um momento de forte emoção o encontro de Luis Carlos Prestes com o major Octavio Cordeiro de Faria e o capitão Riograndino Kruel, inspetor geral da policia, seus antigos companheiros na revolução de 1924. Ao defrontarem-se com o ex-chefeda “Coluna Invicta”, esses oficiais não puderam esconder a profunda emoção de que se achavam possuídos. O capitão Riograndino Kruel cumprimentou-o: - Como está você, Prestes? O ex-oficial fitou-o demoradamente e apenas respondeu: - Muito bem.
93
Notava-se que Prestes esforçava-se para aparentar serenidade, mas estava emocionado. Ao major Cordeiro de Faria, que o cumprimentou afetuosamente pousando-lhe a mão no ombro e interessando-se pela sua saúde. o chefe revolucionário não disse cousa alguma. Fitou-o apenas. O seu silencio foi significativo. Todos os presentes procuravam disfarçar a comoção. Um profundo silêncio pesava no ambiente” !
O caráter mítico que pairava sobre Prestes, se por um liderança
sobre
os
comunistas
brasileiros,
por
outro
lado legitimava sua
aumentava
o
peso
da
responsabilidade a ele atribuída nos acontecimentos de 35, e em especial na execução de Elza Fernandes. No relato feito pelo jornal Correio do Povo, vemos o ex-capitão e seus companheiros em um “emocionado” reencontro. O destaque dado para a preocupação de ex-companheiros de farda com o estado de saúde de Prestes e a comoção disfarçada do ex-capitão assinalavam o tom adotado pela imprensa. Era de se perguntar, segundo a lógica dos interlocutores das noticias veiculadas pelos principais jornais do país, como um
oficial tão promissor se deixou seduzir por um credo tão alheio ao perfil do povo
brasileiro?
O tom emocional relatado no encontro entre Prestes c seus antigos companheiros causou um certo mal-estar, que tentou ser desfeito: “O capitão Riograndino Krmuel, o primeiro oficial que visitou Luis Carlos Prestes, entrevistado pelos 'Diánios Associados”, declarou que tudo o que se tinha a dizerjá se disse. “Não devemos cooperar — continuou — para que se amplie a auréola de lenda criada em tomo de Prestes. Declarou que não chorou quando se defrontou com Carlos Prestes, apenas ficou comovido. Via na prisão de Prestes um motivo de tranquilidade para o pais e não deixaria que um sentimento particular de natureza pessoal sobrepujasse outro de ordem
patriótica”? Mas
mesmo
tentando
desfazer
“aura
mítica”
que
pairava
sobre
Prestes,
Riograndino Kruel, em suas declarações, enfatizava uma forte importância política ao líder comunista. O tempo que separava a prisão de Prestes do levante de 35 não era 1 Correio do Povo, vermelho no Brasil”, p. 1.
7/3/36, “A prisão do
Cavaleiro
da Esperança,
epílogo do drama .
94
grande.
A memória
do levante ainda estava
muito viva para a sociedade brasileira.
Mesmo
liderando um partido esfacelado pelas forças policiais, a figura política do
“Cavaleiro da Esperança” se agigantava diante de seus inimigos, que consideravam sua prisão
o que
de melhor
poderia
acontecer
para
a segurança
do
país.
O
perfil
determinado, quase obsessivo, do maior “agitador” comunista do país se configurou de
forma enfática na imprensa. Ainda nas declarações de Riograndino Kruel, encontramos bastante ênfase a esses aspectos: “(..) caso Prestes fosse ditador do pais, os capitães Felinto Miller e Miranda Corrêa, ele e outros companheiros, seriam fuzilados e trucidados. Não perdoaria ninguém que não compartilhasse de suas idéias (...). Disse que nenhum movimento se revestiu dos requintes de barbaridade como o de novembro último, fato que vem demonstrar o que seria a ditadura de Prestes. Mostra que Prestes cra o homem necessário ao movimento extremista ua 3 militar”.
Apesar
no
de todo o frisson
Brasil
porque
provocado
só
pela
ele
poderia
cobertura
chefiar
da
prisão
um
de
movimento
Prestes,
a
expectativa nutrida diante da postura a ser assumida pela mais importante liderança do comunismo nacional foi frustrada: “A figura de Luis Carlos Prestes nada ganhou com os aspectos de sua inesperada e rumorosa prisão O representante do Komintern apareceu aos olhos do público, na Delegacia de Ordem Politica e Social, sem à bravura c o destemor, que deveriam ser esperados do antigo comandante da Coluna Invicta. Surgiu, antes, tímido c melancólico, pálido, com o rosto azulado c a barba por fazer. Mal vestido. Prestes dava a impressão de ser apenas um secundário agitador, que tivesse aderido à arrogância de um Hami Berger. Entretanto é ele o chefe supremo do comunismo nacional. Não se pode negar que a multidão de curiosos ficou decepcionada. Esperava uma cena palpitante de vibração e tivera um ato morno e desinteressante. Prestes decepcionou o público”. *
Na cobertura feita pela imprensa, além do caráter determinado de Prestes, foram enfatizados detalhes da infância, da família, e de hábitos pessoais. Em Porto Alegre, o Jornal Correio do Povo manifestou um forte interesse em reavivar na memória local os vínculos de Prestes com a cidade. Na edição de 8 de março de 1936, chamava a atenção para os inúmeros parentes que, apesar de morarem na capital gaúcha, tinham um estreito =
ess.
3
Diário de Notícias, 8/3/36, “Um retrato moral de Luiz Carlos Prestes”, p. 24. . Tbid.
95
vínculo afetivo com Prestes. Na mesma edição, foi feita uma matéria com a avó do ex-
capitão que destacava detalhes sobre o local de seu nascimento e de sua vida na infância. Interessante notar que na matéria produzida, revelava-se uma criança sensível, bom filho
e estudante dotado de boa capacidade intelectual. Os relatos iniciais feitos vão contrastar com as matérias produzidas acerca das suspeitas que passam a ser levantadas ainda no ano de 36 sobre o paradeiro de Elza Fernandes, ou no ano de 1940, quando a morte de Elza já era um fato confirmado. No entanto, apesar do peso atribuido a Prestes como mentor intelectual da morte de Elza, ainda assim o tom de facinora ficou reservado, por parte da imprensa, aos demais envolvidos no caso. O desaparecimento de Elza já havia causado estranheza, mas a prisão de Prestes seria reveladora no sentido de ter sido apreendida, durante a sua captura, uma série de
documentos que traziam à tona o processo interno desencadeado pelo partido contra cla. Já no
mês
de abril
de
1936,
a imprensa
começava
a especular
sobre
seu
paradeiro: “A
policia
desconfia
que
Elvira,
suspeita
de
traição,
foi
executada
sumariamente pelos comunistas, seus irmãos de tideal”. Ha, nesse sentido,
uma carta de Luis Carlos Prestes aos seus companheiros, censurando-os por sua liberalidade para com a “traidora”. Se ficará provado que ela os traíra na Polícia, devia morrer, conforme era de praxe no seio dos adeptos do credo. Nada de contemplação. Já, também em carta, Leon Vallet, outro
“líder”, afirma que o caso “está liquidado”. Tudo dúvida,
Elvira
foi assassinada.
De
outro
lado,
isso indica que, sem
Meirelles
confessou
na
polícia que há tempos, um grupo de extremistas fora à sua residência e levara a jovem, que lhe estava entregue. Até o momento é o que há de positivo sobre o caso”. Qual o mistério que envolve o caso”?”
O inquérito, para a apuração do ocorrido, foi formalmente instaurado no dia 27 de abril de 1936. Para apurar os fatos sobre o desaparecimento, foram estreitados os laços entre a 1º Delegacia Auxiliar e a Delegacia Especial de Segurança Política e Social. A dificuldade, encontrada nos documentos, dava-se por conta dos pseudônimos que eram utilizados. Em correspondência datada de 30 de abril de 1936, assinada por á
Ibid, 8 /3/36, “Prestes decepcionou o público”, p. 24.
3
Correio do Povo,
8 /4/36, “Elza Fernandes teria sido executada?” p. 1
96
Demócrito de Almeida, Delegado Auxiliar da 1º Delegacia Auxiliar, a Eurico Bellens Porto, Delegado Auxiliar da Chefatura de Polícia, foi solicitada a identificação dos seguintes codinomes:
Praxedes,
Tampinha,
Sá Ferreira, Índio, Cl, Marianna,
Rosa,
Eneida, e outros mais. A partir da identificação feita, a compreensão sobre os envolvidos no chamado “Tribunal Vermelho” ficou mais clara. Os depoimentos tomados de Francisco Meirelles, Iracy Meirelles, Ilvo Meirelles,
ainda no ano de 1936, davam início à tentativa, por parte da polícia do Rio de Janeiro, para recompor os passos de Elza após a sua soltura. O problema maior se deu na intimação de Honório de Freitas Guimarães, Lauro Reginaldo da Rocha e Adelino Deycola dos Santos, pelo fato de estarem foragidos. No final do ano de 1936, o inquérito permanecia praticamente parado, pois a maior parte dos envolvidos não haviam sido capturados. Quanto a Prestes, preso desde março de 1936, negou-se a falar sobre o assunto tanto no periodo inicial do inquérito quanto após o seu desarquivamento: “(...) o acusado Luis Carlos Prestes se negou a falar aos termos do presente processo, a responder a qualquer pergunta, a assinar quaisquer
documentos, justificando essa sua atitude com o propósito de não quebrar a linha de conduta, de que hã muito vem observando, e por preferir reservar para juizo competente a sua defesa”. O
impediu
silêncio de Prestes permaneceria durante todo o processo. No entanto, isso não
que, durante o julgamento,
ele fosse considerado
o mentor
intelectual do
assassinato de Elza Fernandes.
Ao
ser inquirido
pela polícia,
Antonio
Maciel
Bomfim
afirmou
que
tinha
conhecimento sobre as suspeitas do partido sobre Elza. Depois da prisão de Prestes, o capitão Miranda Corrêa o chamou para lhe mostrar alguns documentos que haviam sido apreendidos e faziam referências a Elza. Sua posição quanto às suspeitas de assassinato que consta em seu depoimento, foi de que:
s,
TSN, Pr. 1381/2. “O inquérito policial”, relatório da DESP, 11/9/40, p. 423
97
“(..) tinha escrúpulos em afirmar que seus antigos companheiros houvessem praticado essa monstruosidade, pois durante o tempo em que o declarante pertencia à direção do partido comunista nunca se cogitou da
eliminação de nenhum dos companheiros que houvessem cometido faltas por mais graves que elas fossem, e se porventura alguma disso cogitassem, o declarante se oporia por todos os meios a medidas tão
violentas”. Antonio Maciel Bomfim, no início do ano de 1937, mantinha poucos vínculos com o partido. No entanto, causava-lhe estranheza o fato de que Elza não o houvesse mais procurado. Se por um lado não acreditava no seu assassinato, por outro imaginava que o partido a houvesse levado para outro lugar. Os depoimentos de José Copello Calonio e Mario Copello Calonio, irmãos de Elza, tiveram pouca importância para o esclarecimento do crime. No caso dos irmãos, o depoimento dado por ambos foi no mesmo sentido. Informaram que souberam da prisão e desaparecimento da mesma pelos jornais, não a tendo visto após a sua soltura. O ano de 1938 não apresentou grandes possibilidades na solução do caso, que era
considerado de dificil resolução pelos órgãos policiais. Com quase dois anos passados, sem ter sido elucidado, na época, o suposto assassinato, o inquérito foi remetido ao juiz
de direito: “(...) da vara criminal, a que for o mesmo distribuido, a fim de que o Dr. Promotor Público requeira o que achar útil ao esclarecimento do fato em apreço”.*
Ao longo do período posterior à instauração do Estado Novo, a elucidação do caso Elza Fernandes parecia ter -se tornado uma questão de honra. No momento político em que o país se encontrava, a ação policial mais do que nunca era fundamental para a manutenção do status vigente. Cada vez mais a polícia se imbuía da missão de vigilância política, como forma de ser um dos sustentáculos na
TSN, Pr. 1381/2. “Depoimento de Antonio Maciel Bomfim”, 13/1/37, p. 353-354.
ê 369.
TSN, Pr. 1381/2. “Relatório de Demócrito de Almeida”, 1º delegado auxiliar, 1/7/38, p.
98
consolidação do projeto político instaurado após a revolução de 1930. Dentro de um cenário de estrito controle social, a eficiência da polícia era fundamental para assegurar a sua credibilidade diante da sociedade brasileira. Numa época em que os comunistas passaram, de forma mais intensa, a representar a causa de todos os males, alargava-se a perspectiva do aumento da ação repressiva por parte da polícia. Negando o direito de livre expressão, utilizando-se largamente do viés autoritário que historicamente marcou
N e 3
as relações entre Estado e sociedade no Brasil, a ação policial, mais do que nunca nos anos 30, buscava caminhos para suprir as demandas de ações repressivas, desencadeadas por um poder executivo hipertrofiado. Num
período em que o poder constituído reforçou o discurso anticomunista,
houve uma intensificação no imaginário social, com os próprios mecanismos de controle das instituições por parte da sociedade se perdendo. O clima politicamente autoritário, intensificado após o golpe de 1937, deu o suporte necessário
para que fosse dado
continuidade ao terrorismo de Estado. Os poderes de exceção largamente utilizados por Vargas após o golpe do Estado Novo, não se constituíam enquanto novidade. A busca pelo aumento da autonomia do poder exccutivo diante das normas constitucionais foi uma constante na construção do projeto político de Vargas. A oportunidade oferecida pelo abortado levante de 35 não foi desperdiçada. O contundente apelo feito por Vargas não foi negado
pelas representações
politicas de maior expressão
do país.
O tom
alarmista consolidado no início dos anos 40 já se constituía como moeda corrente nas solicitações feitas por Vargas à sociedade brasileira no periodo pós-levante: “A intervenção da justiça começa, agora, a exercer-se, para a punição dos responsáveis. Essa tarefa saneadora ficará, porém, enormemente prejudicada se, no momento de estabelecer rigorosa gradação nas
responsabilidades, faltarem aos poderes públicos meios prontos e eficazes para prevenir e coartar as atividades dos elementos subversivos”. ? A
expressão
saneadora,
presente
no
fragmento
do
discurso
citado
acima,
representa de forma emblemática o trato com as questões políticas no Brasil no período
id
“Necessidade e dever de repressão ao comunismo”. In: VARGAS, Getúlio. 4 nova
política do Brasil — v.4. Rio de Janeiro, José Olympio, 1938, p. 153.
,
99
compreendido
como
era
Vargas.
Tratava-se
acima
de
tudo
de
isolar,
segregar
os
chamados focos contaminadores. Diante da ação demolidora do comunismo russo dentro da
sociedade
sociedade.
brasileira,
era de vital
importância
que
o Estado
salvaguardasse
a
Reprimir enquanto forma debeladora da ação em curso dos comunistas
brasileiros pelo tomada do poder, significava antes de tudo romper com leis ordinárias que limitavam a eficiência necessária para que pudessem ser oferecidas respostas rápidas a questões de caráter emergencial. Nesse sentido, a ordem social é caracterizada como
um corpo imutável, ao menos não âàquelas que pudessem trazer algum prejuizo para o interesse dos que controlavam
os meandros
do poder do país. A “morbidez”
dos
objetivos daqueles que tentavam “corromper” a “harmoniosa” sociedade brasileira foi outro ponto habilmente explorado pelo discurso dominante na política brasileira do período: “A
par dos atentados
materiais, que
vão do homicídio
premeditado
ao
no
morticínio em massa, os agentes do credo russo utilizam toda espécie de ardis c
cavilações, para impressionar os incautos c aliciar os desprevenidos,
incitando
paixões c cobiças, usando das grandes palavras e dos rótulos ideológicos vistosos;
simulam atitudes nacionalistas, levam a cizânia aos próprios lares; apelam para os sentimentos altruísticos c nobres, enquanto corrompem pelo ouro as consciências venais; compram
cumplicidades c auxílios pelo terror das denuncias c delações,
do mesmo modo que exercem a vindita, com requintes de selvagem crucldade”*º
A crueldade, tão apregoada como
forma de ação cornqueira dos comunistas,
encontrou forte eco no caso de Elza Fernandes. execução
foram
era provado,
Requintes de crueldade
utilizados na
largamente apregoados junto à sociedade brasileira. “concretamente”
pelo
poder
constituido,
a necessidade
da ação
repressiva,
sem
limites
institucionais, como fundamental para extirpar da sociedade aqueles que representavam o credo de Moscou.
O clamor pela união dos brasileiros em tomo da defesa da pátria reascendia de forma intensa. Preservar os lares, resguardar o patrimônio, assegurar o próprio futuro do Brasil enquanto nação, passava pela altivez de como seria tratada, pela conjugação dos esforços entre Estado e sociedade a repressão ao comunismo.
10
Tbid, p. 154.
100
O interesse de um crescimento “pacífico” e “ordeiro”, dentro de uma sociedade “cordata”
como
a brasileira,
ressentia-se
pela
desarmonia
gerada
por
doutrinas
“exógenas” que ameaçavam o que até então havia sido construído. Para fundamentais.
o
impedimento
do
avanço
Alargar o quadro repressivo,
da
“subversão”,
investimentos
eram
estabelecer esquemas de cooperação
com
outros países, significava acertar o passo do Brasil dentro do contexto mundial. Era fundamental
manter,
naquele
momento,
o país em
sintonia
com
a cruzada
mundial
contra o comunismo. Embora as fissuras começassem a aparecer de forma explícita no início dos anos 40. Mesmo que o cenário de guerra apresentasse posturas inconciliáveis entre aqueles que se toleraram em nome do inimigo maior: o comunismo. A ruptura entre liberais e fascistas consumada
no início dos anos 40, não
arrefeceu os ânimos daqueles que, no Brasil, se empenharam de forma determinada para varrer da história política brasileira toda e qualquer influência do comunismo. O discurso nacionalista enquanto
elemento
de aglutinação
ressoava
de forma
positiva para o governo Vargas. Toda e qualquer possibilidade fora do discurso oficial soava a demagogia. Os comunistas não foram os únicos atingidos pelo cerco ideológico promovido pelo governo Vargas, mas foram os inimigos identificados do sistema. A busca da reação, o enfrentamento com um estado que procurava a sua marca pela homogeneidade, fizeram dos comunistas brasileiros os defensores de um projeto social alternativo que acabou se transformando na causa de todos os males do período. O a sua
reforço da repressão política encontrava algumas facilidades que aumentavam
eficiência.
A
centralização
da
repressão
através
da
DESPS
criava
melhores
condições inclusive para a captação de verbas. Na medida em que a eficiência da polícia política era parte determinante para o equilíbrio do poder do Estado varguista, o órgão, que tinha como função essencial combater os inimigos do regime, tinha disponível uma generosa dotação orçamentária para que as ações policiais pudessem sair a contendo.
101
Na
busca
determinação
da
manutenção
do Procurador
da eficiência
do
controle
Geral do Distrito Federal, houve
político
e social,
por
o requerimento
do
desarquivamento dos autos do inquérito policial. Esse fato vai ocorrer em 29 de abril de 1940. Ao que tudo indica, o desarquivamento do processo esteve vinculado ao fato de se constituir
enquanto
crime
político.
A
rigor,
o Estado
Novo
buscava,
através
do
desarquivamento do processo, reforçar a sua prática anticomunista. Os apelos, feitos à sociedade brasileira pelo govemo
Vargas, para que houvesse apoio incondicional
à
repressão aos “traidores”, responsáveis pelo levante de 35, havia dado bons resultados. Em discurso proferido em 10 de maio de 1936,!! Vargas centrava seus esforços na busca do convencimento acerca da necessidade e dever de repressão ao comunismo. =”
ameaçada, o perigo de destruição da “família cristã”, instituições, foram elementos
A nação
a necessidade de salvaguardar as
habilmente explorados pelo presidente, para criar a seu
favor a necessidade de carta branca para a repressão. Se por um lado o golpe de 37 seguiu este rastro, a repressão continuada aos comunistas nos anos 40 não rompeu com
essa lógica estabelecida. No início dos anos 40, o processo de Elza Fernandes, que até então tramitava em boa parte como “crime ordinário”,» 12* passou a ter o status de crime politico. As próprias reformulações feitas ao longo da era Vargas acerca das concepções do direito abriam brecha para que isso fosse possível. Num período em que o descrédito pela
democracia,
Elizabeth
Cancelli
ou
ainda
pelo
classifica como
modelo estado
liberal,
era
dual, onde
grande,
vamos
a convivência
ter aquilo entre um
que
estado
normativo e um estado de prerrogativas!” transformou-se numa prática cotidiana.
u 12
Tbid. p. 151-156. Até O seu arquivamento, o caso Elza Femandes se encontrava aos cuidados da 1º
delegacia :auxiliar. Após o À autora e a ordem legal, como administrativas. O estado
seu desarquivamento, passará à responsabilidade da DESPS. classifica como estado normativo aquele que “estava de acordo com as normas se expressavam os estatutos, as decisões das cortes e as várias agências de prerrogativas era representado pelo círculo do poder e pela polícia, em uma
esfera inatingível pela lei”. (CANCELLI, Elisabeth O mundo da violência: a polícia da era Vargas. Brasília: Universidade de Brasília, 1994, p. 27).
ina ca A
id a =
102
Na prática, o Estado dual se configurava como uma forma de manutenção de um
status legalista, até mesmo porque a convivência entre os dois estados por si só se caracteriza como contraditório. A rigor, o poder estabelecido no Brasil durante a era Vargas, se legitimou as custas de um estado de prerrogativas sobreposto ao normativo. A justificativa para legitimar a ação dentro do Estado de prerrogativas encontrava-se em grande parte no discurso voltado para o anticomunismo. Antes de ser uma salvaguarda aos cidadãos integrantes da sociedade brasileira, aquilo que ficou estabelecido como legislação criminal passou a ser um
apanhado
de
regras flexíveis que se colocavam abaixo das necessidades repressivas do estado. Para confirmar a hipótese da necessidade do reforço do mito do anticomunismo, torna-se interessante observar
a correspondência
a seguir, endereçada
ao Procurador
Geral do Distrito Federal: “II — (...) o desaparecimento da referida menor já foi objeto de anterior inquérito policial procedido na Primeira Delegacia Auxiliar e remetido, por distribuição, ao Juizo da 4º Vara Criminal, onde foi arquivado por falta de provas”.
HI - Tratando-se, porém, de crime comum como
o é a atividade
ilegal do Partido
concxo com crime político
Comunista
do Brasil, já que
o
assassínio foi praticado no interesse da sobrevivência dessa instituição criminosa,
segundo
alegam
os
autores
e
consta
de
documentos,
prevalecendo, no conflito de jurisdição, a especial sobre a ordinária, como também porque naquele processo-crime arquivado no juizo da 4º Vara criminal, existem provas documentais que não poderão ser desprezadas no inquérito policial que corre no cartório desta Delegacia especial, hei por bem requerer a V. Excia que se digne ordenar: a) — Que o Ilustre representante do Ministério Público junto ao juizo da 4º Vara Criminal haja por bem, em face do exposto, requerer o desarquivamento do processo e a conseguente remessa dos autos ao Delegado do Cartório da Delegacia Especial de Segurança Política e Social; b) — Que seja dada baixa na distribuição do referido processo visto como os respectivos autos não poderão ser devolvidos à mesma instância em face da competência especial do TSN para julgar o feito na espécie”. O fortalecimento do autoritarismo do estado brasileiro durante a era Vargas, ao
encontrar legitimidade na necessidade de repressão de doutrinas consideradas nocivas à 1a TSN., Pr. 1381/2. “Correspondência endereçada ao Procurador Geral do Distrito Federal por Hugo Auler, delegado do cartório da DESP”, 23/4/40, p. 374-375. ,
103
sociedade
brasileira
como
o comunismo,
fazia uma
interessante
aproximação
de
doutrinas políticas não compatíveis. Pelo governo Vargas, o reforço da ação comunista no Brasil só foi possível graças ao caráter permissivo estabelecido pelo estado liberal. Logo,
se tomava
fundamental,
para preservar as instituições da sociedade
brasileira,
rever o perfil das relações entre Estado e sociedade. Importante era a prevenção dos “males sociais”. A ação preventiva era o fator central para o ordenamento social dentro de uma perspectiva “harmoniosa” e totalizante. Contra a desagregação social promovida pelo “credo de Moscou”, o Estado se colocava numa firme posição de protetor da sociedade.
O fato de o Brasil estar regido por uma lei de segurança nacional, certamente avalizou o desarquivamento do processo sem que existisse um elemento novo que o justificasse até aquele momento. A importância dada ao fato de sc constituir como um crime político, ou como crime comum conexo com crime político, como aparece em algumas
passagens
do
processo,
levava
as forças
repressivas
do Estado
varguista
a
fazerem um investimento em cima do assassinato de Elza, afim de explorar este fato mais uma vez.
A própria decadência da Escola Clássica de Direito, e sua “suplementação pela Escola Positivista, ou antropologia criminal, ou ainda Escola de Criminologia, veio a contribuir como mais um ponto de sustentação dos atos policiais e do Estado”. Com fechava-se
essa passagem buscava-se a eliminação do “fator subjetivo” do direito, espaço
para
toda
e qualquer
tentativa
indivíduos envolvidos por um processo-crime. através
do
sistema judiciário
brasileiro,
de
reflexão
teórica
quanto
aos
A rigor, o estado varguista reforçou,
princípios
deterministas
na
condução
de
processos da época. Certamente que as práticas, descritas acima, foram largamente utilizadas nos chamados “crimes políticos”. No caso do processo de Elza Fernandes, a incessante o
In: CANCELLI, op. cit, p. 27.
104
busca da representação dos envolvidos como indivíduos de comportamento desviante, marcados por um credo estranho à sociedade brasileira, assinala de forma emblemática a forma como cra percebido o poder judiciário no Brasil durante a era Vargas.
Esta tendência de análise se fez também
presente na cobertura dada pela
imprensa ao caso. Quando Francisco Natividade Lyra foi preso em Belém do Pará, em abril de 1940, o “carrasco” de Elza Fernandes, vulgo “Cabeção”, foi caracterizado como uma
verdadeira
deformação
humana.
Ressaltar
o despreparo
político
do
mesmo,
caracterizá-lo como uma verdadeira “besta humana”, representava antes de tudo a busca pelo reforço de um grupo atípico e desqualificado de pessoas que se colocavam a serviço dos
“agentes
de Moscou”.
O
comunismo,
doutrina
política
exógena
à sociedade
brasileira, produzia tipos que se caracterizam como: “Cabeção (...) é um tipo vulgar de criminoso, no qual ressaltam apenas os característicos negativos da absoluta ignorância e da rudeza mental bem próxima da imbecilidade. Um inconsciente, que não tem a menor noção intelectual de ideologia em que diz ter baseado o brutal assassínio de Elza. Um verdadeiro bruto, de que o Partido Comunista Brasileiro se servia como máquina de matar. Percebe-se que o seu curto raciocínio foi
habilmente trabalhado pelos doutrinadores vermelhos, cuja missão de sangue precisava, naturalmente, de um instrumento para as ações mais infames. De comunismo ele só conhece a parte material, assim mesmo dentro de um ponto de vista singular da distribuição da riqueza. Para ele o comunismo transformaria os miseráveis em milionários. E, como é pobre,
ficaria rico no regime que lhe ensinaram a adorar como um fanático e a servir como um escravo animalizado. Esta foi a maior decepção que o carrasco fomeceu. Não gosta que lhe chamem “Cabeção”. Tem, realmente, uma cabeça grande, com acentuada proeminência do frontal. Mulato, com a fronte inteiramente descoberta pela calva, cabelos duros e grisalhos, olhos pardos, cavados, pouco distantes um do outro, pálpebras avermelhadas. Olhar frio e inexpressivo, “Cabeção” é um homem que, não obstante os seus 58 anos, denota grande força muscular. Mãos grossas,
dedos curtos e rombudos, tem vários sinais que a antropologia aponta como indícios de tara criminosa. O que mais surpreende e atesta o nível baixo dos próceres do comunismo no Brasil é o papel destacado que esse tipo lombrosiano desempenhava no
PCB”.
16
Correio da Manhã, 27 [4/40,
“Cabeção confessa tudo”, p. 3.
105
O
destaque
dado
ao
biótipo
de
criminoso,
de
acordo
com
os
padrões
das
caracterizações de caráter cnminológico utilizados pelo direito brasileiro no processo de Elza Fernandes, em detrimento da conotação de crime político, levou a opinião pública ao senso comum
quando se colocou ao lado das medidas repressivas tomadas pelo
Estado varguista. Os próprios dirigentes do partido, ao ponderarem sobre a execução de Elza Fernandes no ano de 1936, já trabalhavam com a possibilidade de um forte desgaste do partido diante da opinião pública se o caso viesse à tona. Logo, a repercussão do caso não surpreendeu, ou ao menos não deveria, aqueles que foram a julgamento nos anos 40, pela morte de Elza. Após o exame dos autos do inquérito policial, a Delegacia Especial de Segurança Política e Social produziu um relatório sobre o assassinato de Elza. Uma das primeiras preocupações, no relatório produzido, era o de precisar juridicamente o conceito de criminalidade politica no campo do direito. Ao tratar do respectivo conceito,
o mesmo
foi classificado como um fenômeno social renovável. A renovação se encontra na razão
direta da evolução das formas de Estado, contra os quais se manifesta de forma violenta e negativa. Segundo a afirmação utilizada, essas manifestações se constituíam como fruto
de
ideologias
políticas
e novas
doutrinas
sociais
impostas
aos
povos.
A
argumentação, utilizada no relatório produzido, chama atenção para o perfil coercitivo
das novas doutrinas políticas e sociais que se colocam em oposição ao poder constituído. A rigor, a doutrina pode ser classificada como uma expressão “elegante” usada de início.
O termo empregado posteriormente aborda as mesmas como “delinquência política e social”. Interessante observar como é entendida: “(...) toda a manifestação humana violenta, contraria a lei constitucional, que atenta contra a existência política, a ordem jurídicao regime econômico, a norma de conduta social, de uma nação”.
O
governo varguista tentava, através da condução do p processo, dar continuidade ç
àquilo que já havia se tornado uma prática comum nas ações jurídica da época. Buscavase, antes de qualquer coisa, uma espécie de profilaxia social junto a uma sociedade que,
o
TSN, Pr. 1381/2. “Relatório da DESP”, 11/9/40, p. 387.
106
na sua essência, apresentava-se como “saudável”. Logo, não deveria haver, por parte do Estado, nenhuma brecha para uma possível contaminação. A reabertura do processo pela DESPS ocorreu em função do assassinato de Elza Fernandes ter sido classificado como crime político. A partir da reabertura do processo,
a incumbência investigatória, antes na alçada da 1º Delegacia Auxiliar, passa na íntegra para a responsabilidade da Delegacia Especial de Segurança Pública e Social, que, entre outras incumbências, tinha como uma das suas responsabilidades centrais a repressão política.
A centralização da repressão política na DESPS, e a mudança na estrutura de
outras delegacias criadas a seu molde e cumprindo uma função de parceria, aumentaram em muito a eficiência da repressão política da polícia varguista. No entanto, na montagem do relatório sobre o inquérito, nota-se uma resistência
acentuada
para tratar do caso exclusivamente
classificação
fosse apenas de cunho
dessa
forma.
Na
medida
em
que a
político, o teor de crueldade dos executores
do
crime se perderia na finalidade deste: “No modemo sistema e apuração de. responsabilidades jurídica e da imputabilidade bio-psico-social do agente (...) não podemos admitir o velho princípio de política penal que manda conceituar o ato pela sua finalidade. Admiti-lo seria julgar a injuricidade da ação sem apreciar a periculosidade do autor. No processo de individualização da pena, no qual não podem ser dispensados o elemento subjetivo do delito, os fatores psíquicos de sua execução, a intenção do autor e o móvel do crime paralelamente à constituição morfológica do agente em relação ao dano efetivo qu potencial, o fim criminoso não pode justificar qualquer meio ilegal”.
A argumentação, utilizada na instrução do processo de Elza Fernandes, mais uma vez,
nos remete
a características de compreensão jurídica alinhada com
a escola
positivista: “a) o interesse se orienta para o ator, ou para o indivíduo do crime e seu comportamento,
ao mesmo
tempo
que tenta explicar as causas
deste
comportamento;
b) criminosos e não-criminosos se diferenciam fundamentalmente. diferença consiste nas condições biológico-antropológicas;
18
Ibid,, p. 388.
Esta
107
c) estes fatores biológico-antropológicos determinam o comportamento individual. Segundo o enfoque teórico, esta determinação pode ser total ou parcial e minima; d) por recursos aos métodos das ciências naturais, o exame dos indivíduos
está orientado empírica e positivamente, enquanto a Escola Clássica está orientada filosoficamente”."º
Sem o desconforto da orientação filosófica da Escola Clássica, o sistema jurídico brasileiro se utilizou, largamente, ao longo do processo de Elza Fernandes, de imagens estereotipadas para caracterizar a natureza do delito. Na medida em que a definição de assassinato exclusivamente pelo viés político pudesse vir a causar complicações para O TSN, a opção pela classificação “híbrida” da natureza do crime, que resultou na morte
de Elza, confundiu deliberadamente a natureza jurídica na qual se classificaria a morte dela. Ficaria complicado para o estado de exceção imposto pelo Estado Novo
lidar
com uma execução exclusivamente pelo viés político. Significaria abrir mão de toda uma série de especulações acerca dos elementos pérfidos, marcados por uma conduta psicológica desviante, que assinalavam o comportamento dos integrantes da alta cúpula do PCB. Politizar o caso não era a melhor alternativa para a promoção do desgaste da imagem política dos comunistas. Predominou a visão estereotipada do caso. Os requintes de crueldade usados fundamental
reforçar
na execução o
caráter
tomaram doentio
das
conta das informações ações
promovidas
divulgadas. pelos
Era
comunistas
brasileiros.
A rigor, avaliar na esfera de crime político o assassinato de Elza Fernandes, segundo a compreensão daqueles que conduziram a montagem do processo, significaria aceitar como legitima a diretriz que conduziu ao assassinato. Em toda a linha argumentativa produzida no relatório acerca do crime, observase a tendência a transformar o crime em desvios de conduta de caráter condenável:
9 cit., p. 28.
Sumário retirado de Siegfried Lamnek Teorias de la criminalidad In CANCELLL, op. ,
108
“A tradição viva do materialismo histórico das civilizações reproduz em suas páginas imemoriais uma legião de delingúentes que se aproveitam astuciosamente da conceituação da criminalidade evolutiva para usar da aparente finalidade dos atentados contra o govemo e os seus órgãos a fim de dar expansão à sua somato-psicose criminal”?
O discurso determinista, utilizado na construção da argumentação presente no relatório, enfatizava os chamados “residuos de instintos criminosos”. No plano político, a referência estava centrada nas “imposições violentas de ideais sectários”. Dentro da argumentação construída, foi reforçada a dificuldade de se separar o delito comum
do crime político, mas reduzindo,
em última instância, a delinguência
como causa determinante da criminalidade: “A concepção filosófica e histórica dos atentados que enodoam de sangue
e de barbárie as páginas retrospectivas da história política das civilizações tem o condão de revelar a intimidade psicossomática da criminalidade atávica de que se revestiram inúmeras manifestações de delinquência humana aferidas erroneamente pelo prisma de uma nobre natureza política e social. Há exemplos eloquentes de crimes políticos que mais não foram do que delitos comuns gerados por sentimento inferior de vingança, nascidos do afã de sensacionalismo, produzidos por psicoses mentais”?!
O esvaziamento do teor político com relação aoassassinato de Elza Fernandes aparece logo a seguir: “Como
inferimos
gerados
de
sensacionalismo, material
de
evidentemente
paixões
de
instintos
desta
sintese
ignóbeis,
de
psicoses
homicidas,
atavicamente
vinganças
expositiva inúteis,
revelando
criminosos,
têm
,os crimes
de
pruridos
a
manifestação
sido,
no
de
entanto,
considerados erroneamente de natureza político-social”.?
Esse esvaziamento é reforçado pela defesa da idéia de que em crimes políticos coexistem as duas espécies criminosas. Toda a construção argumentativa no sentido de igualar os crimes políticos aos crimes comuns tinha como objetivo afirmar que os criminosos políticos não deveriam ser tratados de forma diferenciada pela justiça, bem como não deveria ser feita distinção entre autoria e cumplicidade. Neste sentido, a lógica
»
a a
TSN, Pr. 1381/2,. “Relatório da DESP.” 11/9/1940, p. 389.
Ibid., p. 391. Ibid,, p. 392.
109
era a de igualar criminalmente todos os envolvidos no assassinato de Elza Fernandes. No entanto, se produzia uma contradição crucial que colocava em xeque a própria função do TSN.
Primeiro, se considerarmos aquilo que no caso Elza Fernandes
estava sendo
tratado como crime político. Toda a linha argumentativa, desenvolvida para incriminar os envolvidos no assassinato, remetia o crime político à idéia de eliminação fisica. Em nenhum momento se vêem exploradas outras possíveis conotações para a compreensão do conceito. A urgência de transformar o assassinato em um caso impactante, fez com que a montagem do processo tivesse deslizes desse nível. Independente das especulações feitas, não foram abertos maiores espaços para a defesa explorar a legitimidade do referido tribunal. Não que Sobral Pinto não tivesse tentado fazer, como veremos mais adiante, mas toda a tentativa de se construir uma lógica argumentativa contra a linha construída pela acusação, com relação ao processo, era rapidamente refutada pelos juizes do TSN.
Igualar os crimes não era uma mera questão de argumentação jurídica. O Estado varguista argumentava no sentido de esvaziar o mito político, ou, ainda, a identificação de setores da sociedade com gestos, ações e propósitos do partido. A rigor, buscava-se reduzir
a proposta
política
do
PCB
à ação
de
um
grupo
dirigente,
que
beirava
a
insanidade de um coletivo constituído por mentes criminosas, que buscavam através da
máquina partidária, montar um referencial alternativo de sociedade, centrado em desvios de caráter comportamental.
Constituía-se como dever fundamental do Estado conter manifestações que poderiam agir sobre o “subconsciente da coletividade humana”,
que, ao se revoltar de
forma patológica contra a ordem política e social, estaria incidindo sobre a apologia da destruição do status legal por meios não permitidos pela lei. O estigma psicológico, centrado no binômio normal-anormal, passou a versar toda a argumentação construída acerca dos crimes políticos. Os projetos alternativos à ordem
: . ]
;U
y
constituída
passam
a ser enquadrados
em
categorias
como
“desequilíbrio
no
intelectual”, “projetos paranóides”, “sentimentalismo mórbido” ou ainda "inadaptação social”.
A identificação do comunismo como uma ideologia de perfil sectário, levava à
conclusão de se constituir, enquanto princípios de indivíduos com “traços unitivos de uma psicologia dos degenerados”. A identificação do tipo de crime tratado, segundo a visão estabelecida, aproximava-se de um “arquivo de psiquiatria e medicina legal”.
O furor das massas, influenciadas pelo comunismo, “manifestações
doentias
do
comunismo
nas
massas”, sendo
foi classificado como interessante
notar
a
referência utilizada para reforçar a classificação: “Por sua vez, a literatura realista é fértil na apresentação destes fenômenos
de endemia criminosa, reproduzindo casos reais. Quem nos demonstra com tintas vivas e arrebatadoras é Emile Zola (Germinal, 5º parte, cap. VI) que, romanceando a descrição que Bataille fizera da greve de Décazeville, descreveu o contágio psíquico do furor coletivo que invade o subconsciente das massas criminosas. O perfil de Etienne é a do condutor que se anula na exaltação das massas que foram além de suas perspectivas... A figura de Brulê, embora feminino, é o tipo do delingiiente nato impulsionando a multidão para cometer os crimes mais repugnantes... As silhuetas de Lavacque e de Muquette são representações humanas de frágil poder frenador moral... Mas naquela criminalidade coletiva, lavrada pelo genial romancista gaulês..., estas mulheres..., sedentas de vingança e tintas de sangue, dilacerando o cadáver do superintendente Maigret, submetendo-o a uma castração rudimentar, erguendo-lhe os órgãos genitais como se fossem troféus de guerra, constituem a trágica simbolização do espirito rebelde e criminoso das massas que, na impossibilidade de tomar legitimos os seus ideais no
processo natural de evolução social, tentam impô-los no precipitado artificial dos crimes de sangue para melhor dar expansão às suas paixões egoistas e aos seus instintos bestiais”.?
A questão social, antes reduzida a um “caso de polícia”, tomou conotação
durante
o Estado
varguista:
passou
a se constituir
enquanto
uma
outra
patologia.
Manifestações que viessem a abalar a ordem estabelecida passaram a ser identificadas
dentro de um grau de anomalia inaceitável por parte de um modelo social que se dispunha a harmonizar os interesses de classe. Neste sentido, a compreensão de um perfil social diverso, marcado por conflitos, diversidade de interesses, não fazia o menor
O o E
RSS aa
ni
sentido.
Predominava,
no discurso, um
perfil marcadamente
uniformizante,
onde as
características autoritárias, que marcaram a era Vargas, como um todo, e o Estado Novo, em especial, apareciam no setor jurídico de uma maneira transparente. Os “criminosos políticos” eram identificados como indivíduos que buscavam em
causas idealistas a cobertura para seus crimes. As causas idealistas por sua vez são vistas como “exóticas ideologias” e as soluções apresentadas como artificiais, tanto no plano econômico como no social.
Diante de uma carga política ideológica como
o comunismo,
vista da forma
apresentada, até mesmo argumentos de natureza histórica, ou de ordem psicológica, se tornavam estéreis, pelo fato de o comunismo ser identificado como um sistema no qual o poder não é limitado por nenhuma
lei, por nenhuma
“regra absoluta”, mas se apóia
diretamente sobre a violência: “E eis a razão por que não só o poder público mas também a simples arregimentação, a mera propaganda, a menor apologia soviética se caracteriza por métodos violentos, por sistemas inquisitoriais de violência e de barbárie transplantados extemporaneamente para a civilização contemporânea” * A
lógica
da
barbárie,
para
o
caso
do
assassinato
de
Elza
Fernandes,
foi
amplamente usada para enquadrar a ação de justiçamento do partido “(...) focalizando o covarde assassinato de uma pobre menor para o bem de uma doutrina ilegal, não há como negar que, para atender a uma finalidade revolucionária, os próceres do Partido Comunista do Brasil não vacilaram em fazer justiça pelas próprias mãos, muito embora a consciência lhes dissesse que o crime as tingiria de sangue” 2
Ao buscar o reforço argumentativo acerca das diferenças de compreensão
de
justiça entre o Estado brasileiro e os comunistas, o relatório fará referência à justiça soviética, afirmando que os integrantes da direção do partido, ao assassinarem Elza
= o
E
Tbid., p. 491. Ibid., p. 401.
Ibid
5ISPi LIOTECA Dreene ELAS, Nie?
CENTRA!
112
Fernandes, nada mais fizeram do que “aplicar o direito penal bolchevista para a solução de seus casos de ordem interna, para o qual todos os meios justificam os fins”. O fato de Elza Fernandes ser menor serviu para reforçar a crueldade do crime cometido.
Segundo
o argumento
utilizado,
o fato dela ser menor,
ou
não,
pouco
importava para seus executores que, ao atentarem permanentemente contra o poder do Estado constituído, não reconheciam Elza sob a tutela do mesmo. Sendo os integrantes
do partido adeptos do comunismo inimputabilidade
dos
menores,
soviético, não teriam o porquê de reconhecer a
na medida
em
que
o direito
russo
não
tinha
esse
reconhecimento.
A lógica, estabelecida pela base argumentativa do relatório, foi direcionada no sentido de transformar os comunistas brasileiros, não só em criminosos sanguinários, mas também em um corpo estranho à sociedade brasileira. A dispensado
lapidação ao caso.
“juridicamente criminosas,
do Ao
puro”,
ficaram
conceito
de crime
ser identificado
mas
político
foi essencial
o criminoso
político consigo
como
alguém
que carrega
os
espaços
para
abertos
que
as
para não
como
várias
acusações
o tratamento um
tipo
conformações
dispensadas
aos
envolvidos no assassinato, fossem bem maiores. Na sentença proferida pelo TSN, foi afirmado categoricamente que não existia a menor possibilidade de negar que se tratava de um crime de natureza político-social. A
partir da afirmação feita, foi negada a possibilidade de se admitir a incompetência do TSN para tratar do caso. Diante da confissão do crime por parte dos acusados, à exceção de Luís Carlos
Prestes, proferir a sentença condenatória não foi uma tarefa árdua por parte do Tribunal. Os únicos acusados que o Tribunal não achou provas suficientes quanto a coautoria do crime foram Manoel Severiano Cavalcanti e Lauro Reginaldo da Rocha. Mas isso não impediu que fossem
sentenciados no momento
em que foram considerados
cúmplices do assassinato esta idéia de cumplicidade vai se transformar ao longo do processo pois a acusação irá buscar dados incriminadores para vinculá-los de uma forma mais direta à execução de Elza. A participação mais direta vai no sentido de reforçar os elementos necessários para uma punição exemplar daqueles que estiveram envolvidos no caso em questão.
O reforço do envolvimento de Manoel Severiano Cavalcanti vai encontrar aval no termo de declaração prestado por Eduardo Ribeiro Xavier: “(..) foi por um motivo de humanidade que nas suas primitivas declarações omitiu o nome do acusado Manoel Severiano Cavalcanti, vulgo Gaguinho,que também tomou parte no assassinato de Elvira Cupelo Calonio (Elza Femandes)”..*
O termo de declaração de Honório de Freitas Guimarães vai também no sentido de afirmar Fernandes.
a participação
de Manoel
Severiano
Cavalcanti
na execução
de Elza
27
No caso de Lauro Reginaldo da Rocha, o temos identificado pelo TSN como o autor moral do crime.
O advogado responsável pela defesa de Luís Carlos Prestes foi Heráclito da Fontoura Sobral Pinto. Em petição enviada ao coronel Augusto Maynard Gomes, juiz do TSN, o advogado de defesa de Prestes começou questionando a própria competência do tribunal para julgar o caso que envolvia o assassinato de Elza Fernandes.
Para tanto
evocou a competência geral do TSN: “(...) nos termos do artigo 4º do decreto nº 88, de 20 de dezembro de 1937, está assim fixada: compete privativamente ao Tribunal processar e julgar os crimes: a) contra a existência, a segurança e a integridade do Estado; b) contra a estrutura das instituições; c) contra a economia popular, a sua guarda e o seu emprego”.*
Ed
TSN., Pr. 1381/1 “Termo de declaração de Eduardo Ribeiro Xavier”, 11/5/1940, p. 75.
$i
Ibid., p. 79.
El
TSN,, Pr. 1381/3. “Petição do advogado de defesa de Luís Carlos Prestes, Heráclito da
Fontoura Sobral Pinto, ao juiz do Tribunal de Segurança Nacional”, 5/11/40, p. 460.
114
A partir da explicitação das competências, o argumento utilizado é de que o assassinato ou suposto assassinato de Elza Fernandes, uma jovem desconhecida que vivia
com
um
membro
do
Partido
Comunista
do
Brasil,
não
constitui,
sequer
longinquamente, crime contra a existência, a segurança e a integridade do Estado, ou contra a estrutura das instituições, ou contra a economia popular. A petição de Sobral Pinto foi negada, tendo sido sustentado, pelo TSN, os argumentos já utilizados pela acusação.
Manter um nível de eficiência por parte da defesa dos acusados da morte de Elza Fernandes era uma tarefa das mais difíceis para os advogados envolvidos. A própria estrutura do tribunal criava toda a ordem de dificuldades como relata Elizabeth Cancelli: “Depois de receber o inquérito sobre o crime, o presidente da corte devia remetê-lo ao procurador e designar um juiz para o julgamento. Imediatamente, era ordenada a presença do prisioneiro, que deveria se apresentar em 12 horas. Caso o indiciado não estivesse sob custódia, uma nota pregada na sede do tribunal tratava de comunicar a necessidade da presença do réu. Em 24 horas eram apresentadas as acusações formais ao
acusado. O julgamento não ultrapassava 24 horas depois de feitas estas
acusações”.2 Não é de se estranhar que, principalmente após o ano de 1935, a demanda de julgamentos políticos fosse muito grande. O fracassado levante organizado pela ANL reforçou para os comunistas brasileiros a condição de inimigos objetivos do Estado. Nessa
situação,
missão”
o TSN,
antes de tudo, cumpria
de servir ao poder executivo
como
um
papel
formal.
Sua “dignificante
a “espada da lei” colocou o sistema
judiciário brasileiro no limiar do pragmatismo.
Em um terreno argumentativo tão
exíguo, Sobral Pinto buscava desmantelar a legitimidade do tribunal, que, por sua vez, contava com quase tudo a seu favor. Com
uma
acusação
e uma
defesa,
em
um julgamento,
dentro
de um
tempo
estipulado de 15 minutos cada, podendo o acusado inclusive ser dispensado de assistir ao seu próprio julgamento, a condenação se tornava uma certeza.
id
CANCELLI, op. cit., p. 103.
115
Devemos entender a repercussão do julgamento do assassinato de Elza Fernandes como o reacender de uma chama necessária para a manutenção do aparato repressivo do govemo
Vargas.
Fruto em grande parte de prisões decorrentes dos envolvidos no
assassinato no início dos anos 40, o seu desarquivamento e o julgamento levado a cabo reafirmavam a função central do TSN, encarregado de manter sob controle, dentro de uma perspectiva uniforme, a sociedade brasileira. Certo era que o momento
de ouro do TSN
esteve fixado nos julgamentos
dos
envolvidos no levante de 35. No entanto, nos anos 40, não houve esforços poupados por
parte da polícia de Vargas para desacomodar os “inimigos comunistas”. A argumentação,
utilizada por Sobral Pinto
na petição
encaminhada,
foi o
elemento central na defesa de Prestes quando este foi julgado pelo assassinato de Elza
Fernandes. Além da alegada inconstitucionalidade por parte do TSN, para julgar o caso, foram refutadas pela defesa as cartas que incriminavam Prestes como
sendo de sua
autoria. A defesa, ao considerar hipoteticamente as cartas como pertencentes a Prestes, trabalhava com a lógica de que não era possível identificar os termos vagos e imprecisos de sua redação. Isto resultava na dúvida sobre a procedência do que é ali indicado, eram as acusações que lhe emprestavam, isto é, uma ordem de execução a Elza Fernandes: “Somente a certeza absoluta, que, de nenhum
modo, esta carta oferece, é
que permitiria a condenação de Luís Carlos Prestes como responsável por semelhante ato de execução (...) que se tal assassinato foi praticado, ele obedeceu a um impulso de paixão política, tão comum, sobretudo nos dias que correm; (...) comum
é na vida moderna assistirem-se assassinatos de
natureza política, a fim de que possam fortalecer no poder certas personalidades (...) tanto pelos seus respectivos povos quanto pelos que aderem às formas de govemo preconizadas por tais personalidades (...) que todas essas considerações servem para mostrar como é indispensável uma grande dose de compreensão humana para julgar acontecimentos como esses que estão sendo objeto do presente julgamento”.
Interessante observar, na defesa feita por Sobral Pinto, sua estratégia de banalizar o crime cometido como algo de caráter absolutamente comum para os padrões da época. 3
TSN., Pr. 1381/3,. “Resumo da defesa produzida pelo advogado de defesa de Luís
Carlos Prestes, Heráclito da Fontoura Sobral Pinto”, 7/11/40, p. 460.
Í
116
Se por
um
lado
a acusação
se esmerou
em
carregar
nas cores,
dando
ênfase
à
monstruosidade dos executores de Elza Fernandes, por outro, a defesa procurou seguir o
caminho oposto, como forma de diminuir o impacto que a especulação acerca do crime pudesse ter sobre a pena dos acusados. Apesar do cuidado de não assumir legalmente o envolvimento de Luís Carlos Prestes no assassinato de Elza Fernandes, a situação passou a se complicar para a defesa, principalmente
a partir da
prisão
dos
demais
prestada por Eduardo Ribeiro Xavier, em
como
Elza
Fernandes
foi
assassinada
envolvidos.
No
termo
de
declaração
12 de abril de 1940, o relato sobre a forma
apareceu
de
forma
explícita,
evidenciando
claramente o envolvimento dos acusados. À rigor, os mecanismos utilizados para a montagem
do inquérito, bem como
a
forma como se portava a justiça da época, facilitavam consideravelmente a incriminação dos acusados. Além do arbítrio do poder, marcado, dos
acusados
constituírem
sua
defesa,
profissionalismo maior marcado por uma
entre outros elementos, pelas deficiências
torna-se
possível
perceber,
nos
autos,
um
polícia que, ao aperfeiçoar o seu aparato
técnico, através da constituição de um Instituto Médico-Legal e do gabinete de pesquisas
cientificas, conseguia constituir provas mais convincentes acerca da necessidade de condenação de indivíduos considerados nocivos à sociedade brasileira.”
A força policial do estado varguista, à época do julgamento dos envolvidos no assassinato de Elza, contrastava com a fragilidade política em que se encontrava o Partido Comunista do Brasil. Da
instauração
desmantelamento
do
Estado
Novo
ao
início
do partido que vinha se processando
dos
anos
40,
o
trabalho
de
ao longo dos anos 30, estava
a Sobre o aperfeiçoamento técnico da polícia durante a era Vargas, Elisabeth Cancelli faz uma nota de pé de página onde faz interessante referência ao caso Elza Femandes: “O reconhecimento do corpo de Elza (...) foi feito através de exame pericial odontológico de comparação com a formação do maxilar de Elza e suas fotografias”. (CANCELLI, op. cit., p. 27.) '
117
praticamente consolidado. Das organizações comunistas do país, a melhor estruturada era a da Bahia, única à contar com o reconhecimento da Internacional Comunista. Além
dos problemas de estrutura, existiam dificuldades de coordenação
das
ações políticas. Os comunistas não conseguiam consenso entre as organizações do país. Enquanto a Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP), sediada no Distrito Federal, o grupo baiano, e o grupo de São Paulo, como o Comitê de Ação, disputavam espaços por um minguado controle político de uma estrutura partidária debilitada, o governo Vargas reforçava ainda mais a sua ação de repressão e desgaste do comunismo brasileiro.*? A própria repressão dificultava esse contato, na medida em que o grupo baiano era orientado pela Internacional Comunista a evitar contato com comunistas do Rio e
São Paulo, pois as organizações poderiam ter agentes do governo infiltrados. O único dos interrogados que manteve silêncio sobre o ocorrido no ano de 1936 foi Prestes.
Negou a autoria das cartas e, quando perguntado se teria alguma coisa a
alegar
sua
em
defesa,
respondeu
que
a
sua
situação
de
incomunicabilidade,
impossibilitava-lhe qualquer defesa, até mesmo porque desconhecia o processo.” Evandro Lins e Silva, o advogado de Cabeção e Gaguinho,** secundou a defesa feita por Sobral Pinto quanto à incompetência do juízo: “Quanto ao mérito da causa, fez um estudo do crime político, em face da doutrina, sustentando que não havia razão para a classificação feita, de vez que o crime era estritamente comum (...)"
32
A CNOP c o grupo baiano tinham consenso quanto à aceitação da liderança de Luís Carlos Prestes, no entanto divergiam quanto ao posicionamento a ser assumido diante do governo Vargas. No entanto, o Comitê de Ação de São Paulo, que não reconhecia o CNOP, e colocava a luta contra à ditadura em primeiro lugar, entendeu ser mais importante combater o fascismo dentro do Brasil A rigor, O Comitê de Ação levantava suspeitas sobre o apoio incondicional prestado a Vargas pelo CNOP, objetivando a união em tomo do esforço de guerra. (Ver PACHECO, Eliezer. O Partido Comunista Brasileiro. São Paulo: Alfa-Omega, 1984, p. 180-181). TSN, Pr. 1381/3, Ver auto de qualificação de Luiz Carlos Prestes., p. 468.
3
Seu nome era Manoel Severiano Cavalcanti.
Ee)
TSN,
Pr. 1381/3,. “Resumo da defesa produzida pelo advogado Francisco Natividade
Lira e Manoel Severiano Cavalcanti, Evandro Lins e Silva”, 7/11/40, p. 473.
118
Apesar de alguns pontos convergentes na defesa montada pelos advogados dos acusados, certas situações geravam desencontros entre os mesmos. O advogado Jorge Severiana, defensor do acusado Martins, em suas explanações, centrou os seus esforços tentando demonstrar que não existiam razões para atribuir o “perfil de monstruosidade” aos acusados, uma vez que o crime se constituía como político. Desta forma, tentava negar as agravantes pedidas na mesma classificação. A rigor, trabalhava com o princípio de que não havia tido premeditação, pedindo desta forma que os envolvidos fossem julgados com humanidade. Sobre
o próprio
fato de se admitir
assassinato de Elza Fernandes,
ou
não
a culpa
dos
acusados
diante
não houve consenso entre os advogados de defesa.
do O
único a refutar de forma absoluta o envolvimento do réu que estava defendendo foi Sobral Pinto.
A desistência de fazer a defesa de Bangu por parte de seu advogado, fez com que o juiz nomeasse o defensor de Cabeção
para representar Bangu.
O resultado final da
audiência foi à condenação de Prestes, Cabeção, Tampinha, Martins e Abóboraa penas de 30 anos, sendo que Gaguinho Prestes,
o total de sua pena
e Bangu
chegou
foram condenados a 20 anos. No
a 47 anos
e meio,
sendo
30 anos
caso de
relativo
ao
o fato de ser mandante
do
assassinato de Elza Fernandes.
Apesar
da condenação,
Prestes nunca
admitiu
assassinato de Elza Fernandes. Em um dos raros depoimentos que deu a respeito do assassinato afirmou: “ Eu não mandei matar Elza. Que ocorreu foi que a polícia ligou a morte dela
com
uma
carta
minha,
escrita
antes
de
ser
preso,
em
que
eu
recomendava punição para os traidores. Quem mandou matar Elza foi o partido. Aliás, eu não sabia nem da existência desse processo, porque Sobral Pinto não me comunicou. Eu lembro bem: antes do julgamento, Sobral Pinto me segredou no ouvido que eu seria absolvido. Eu indaguei: “E os demais?” Estes serão condenados, ele respondeu. Não aceitei isso. Estávamos em 7 de novembro de 1940 (...) e a situação não era animadora: o Comitê Central do Partido, Bangu, Honório Xavier, toda a
direção, (...) tinha caído. Quando entrei para ser julgado (...) eu denunciei as condições em que vivia Berger (...) e disse: *é um orgulho estar diante
|
iriam * A ATO
119
deste Tribunal reacionário no dia do aniversário (...) da Revolução Russa (...)'. Foi ai que Raquel Gectcel, que assistia ao julgamento, gritou: “viva Prestes” A polícia invadiu o recinto, ela foi presa. Eu acabei sendo condenado
a 30 anos, embora
estivesse absolvido.
percebe claramente que o juiz transformou, absolvição em condenação” *
no
Quem
lê a sentença,
último
momento,
a
Apesar de ter lido a sentença, confesso que não percebi a mudança anunciada no depoimento de Prestes. O fato é que Prestes nunca admitiu a sua condição de mandante do assassinato. Independente de se colocar ou não na condição de mandante, toda a divulgação feita pela imprensa da época, bem
como
a forma como
foi estruturada a
acusação, colocava o ex-capitão do exército brasileiro como pivô do caso. A apelação, feita pela defesa, deparou-se com essa realidade, não tendo bons resultados na tentativa de reverter à sentença. A apelação foi negada na medida em que era de compreensão dos juízes do TSN
que as evidências diante do assassinato eram
incontestáveis. No entanto, torna-se interessante observar como foi tratada a natureza do crime na sentença proferida diante da apelação: “A rejeição é feita tendo-se em vista que as provas dos autos evidenciam, de maneira inconteste, ter sido o crime, embora de natureza comum, E . AR 7 cometido por motivos e com escopo exclusivamente políticos (...)”.
Ao
ser feita a exumação
do cadáver,
ainda no ano
de
1940,
com
base
nos
depoimentos dos envolvidos no assassinato de Elza, houve uma forte especulação em
torno do caso. A presença de populares, policiais e, principalmente, da imprensa deram o “tom trágico” que resultaria em forte sensacionalismo sobre o ocorrido. O ano de 1940 ficou marcado
na história da repressão ao comunismo
pela
intensificação das prisões daqueles que eram considerados, pelas forças repressivas do governo
Vargas, como remanescentes do movimento
de 35. Sendo
necessário para o
sistema a manutenção do perigo vermelho, tornava-se de grande importância o eco produzido pela repressão na sociedade brasileira. As prisões ocorridas neste ano não cod
1982, p. 88.
MORAES,
Denis e VIANA,
Francisco. Prestes: lutas e autocriticas. Petrópolis: Vozes,
120
fugiram à regra quando divulgadas pela imprensa. Mantiveram o mesmo tom alarmista que marcou o anticomunismo ao longo da era Vargas. No resumo do relatório, apresentado pelo capitão Baptista Teixeira, delegado da Ordem Política e Social, ao chefe de Policia sobre diligências feitas pela polícia com o objetivo
de
“conter
a
reorganização
do
partido”,
percebe-se
que
o
discurso
anticomunista reforçado pelas elites dirigentes nos anos 30, mantinha-se com grande força no início da década de 40: “Faz mais de um ano que a polícia teve alerta sua atenção para os novos manejos comunistas. E de então até hoje vem trabalhando sem desfalecimento, dia e noite. Muitas, inúmeras diligências foram realizadas, efetuaram-se detenções, investigações sem conta, em absoluto sigilo, mas agora, quase a encerrar-se a gigantesca tarefa, já se pode classificar de amplamente recompensado todo o esforço despendido, com a captura dos principais chefes do Partido Comunista Brasileiro. Todos foram apanhados em flagrante na trama subversiva e pelos documentos com eles encontrados avalia-se facilmente o trágico futuro que julgavam poder reservar ao pais. Não era apenas no Rio que se concentravam. Haviam estabelecido postos de propaganda em vários Estados, no Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Bahia, estado do Rio, Minas, Mato Grosso, Goiás, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul”. A marca da grande
aliado,
fazia
do
discurso
conspiração,
veiculado
ao encontrar na grande
pelas
fontes
oficiais do
imprensa
governo
importante
Vargas
um
importante instrumento para justificar a manutenção da ditadura. Convencer a opinião pública
da legitimidade
essencial. assassinato
Neste
das ações do governo
sentido, o aparato montado
de Elza
Fernandes,
para
que
os
se configurava
a partir da prisão holofotes
recaissem
como dos
uma
questão
envolvidos
sobre
tão
no
“cruéis
criminosos”, fez-se de forma extremamente habilidosa. Uma das pessoas presentes no reconhecimento do cadáver de Elza Fernandes foi Luís Cupelo Calonio. Nesse período se encontrava preso. Fazia parte das organizações ”
TSN., Pr. 1381/3,. “Resultado da apelação nº 639, em que são apelantes o Ministério
Público, Luís Carlos Prestes c outros, c apelados Lauro Público”, 26/11/40, p. 500.
ali
Reginaldo da Rocha
c outros ce o Ministério
Correio da Manhã, 14 /4/40, “As atividades comunistas no Brasil”, p. 20.
121
de base do PCB, antes de ser preso atuava numa célula comunista do sindicato dos metalúrgicos do Rio de Janciro.
Até a divulgação oficial do assassinato de Elza, seu irmão, achava que a mesma estivesse na Rússia. Afirmou que sequer sabia das desconfianças por parte de integrantes da
direção
do
partido
em
relação
a
sua
irmã.
O
tratamento
dispensado
a
Luís
demonstrava o quanto naquele momento ele se tornava peça importante para agigantar o caso.
O depoimento
do irmão de Elza, após ter assistido à exumação
do cadáver, foi
bastante emocional: “(..) ciente do bárbaro crime (...) que praticaram na pessoa de sua irmã (...) o declarante sente nojo por essa instituição ideológica e a maior repulsa às figuras de proa do Partido Comunista do Brasil (...) renegando o seu passado revolucionário e encerrando suas atividades comunistas; que aproveitando esta oportunidade, o declarante solicita da autoridade que preside este ato a permissão para escrever e dirigir uma carta ao sentenciado
Antonio
Maciel
Bomfim
(...) comunicando-lhe
sua
decisão
naquele sentido”* A solicitação
do irmão
de Elza foi atendida,
até mesmo
porque
o solicitante
do comunismo
por parte de
requereu que seu pedido se fizesse público. Passou
a ser reforçado, na imprensa,
o abandono
militantes conhecidos
pelo grande público.
A razão era evidente:
o crime
“bárbaro”
cometido
menina
anos de idade, Elza Fernandes.
No jornal
contra uma
de dezesseis
Correio da Manhã, de 23 de abril de 1940, apareceu uma matéria sobre o abandono do comunismo
por Oswaldo
Costa, ex-chefe de imprensa do partido,
que já se dizia
decepcionado com o comunismo brasileiro desde o ano de 1938. Somado ao nome de Luís Cupelo Caloni e Miranda, se formava um quadro sintomático para os padrões da imprensa, de quão grande havia sido a decepção de setores do partido com relação à atitude tomada por seus dirigentes no caso de Elza.
Certamente a carta enviada por Luís Cupelo a Miranda foi juntada aos autos do processo referente ao assassinato de Elza Fernandes.
se
TSN,, Pr. 1381/1, “Depoimento de Luís Cupelo Calonio”, 17/4/40, p.11.
122
O teor da carta de Luís Cupelo vem ao encontro das expectativas da polícia de Vargas. Uma carta carregada de emoção, reforçava o perfil do comunista sanguinário, sem o menor referencial humano, merecedor do mais absoluto desprezo por parte da sociedade brasileira. Apesar de curta, abordava o necessário. O fato de o irmão de Elza
renegar
o seu passado
de militante comunista
avalizava, guardando
as devidas
proporções, a ação repressiva do Estado varguista. Um estado imbuído da constante busca dos valores cordatos da sociedade brasileira, eliminando para isso todo e qualquer corpo estranho que viesse a suscitar a luta de classes. O depoimento de Miranda, datado de 19 de abril de 1940, teve um teor bem menos emocional do que o do irmão de Elza.No entanto, a defesa da memória dela aparece como ponto central. É reafirmado, constantemente, pelo ex-secretário-geral do PCB,
a inocência
de Elza,
na medida
que
a menina
possuía
apenas
“tendências
comunistas”, decorrentes do ambiente em que vivia (seus irmãos eram comunistas). Miranda atestou, também, em seu depoimento, que a confissão dos envolvidos, obtida pela polícia, no assassinato de Elza, foi conseguida sem tortura. O que lhe dava certeza disso era o fato de que os acusados passavam com fregiência diante de sua cela, não apresentando qualquer sinal de violência física. Esta afirmação aparece novamente
na carta enviada por Antonio Maciel Bomfim a Luís Cupelo: “Quando assassinos confissão este fim, di sto”
aqui cheguei, no dia 6 deste mês, já encontrei presos os de Elvira; não esperava encontrá-los presos, nem tampouco a fria e cínica do crime sem que a polícia os tenha torturado para e todos que estão presos aqui na policia, são testemunhas
so
O teor da carta de Miranda vai no sentido de tentar mostrar que suas atividades de militância comunista ficaram para trás a partir de sua prisão: “No depoimento que deste à polícia tu pediste para dirigires a mim como “Secretário efetivo do PCB”. Não aceito tua carta como tal, e sim,como tu te diriges a mim, isto é, como teu amigo e cunhado. Efetivamente, na
prisão nunca realizei o papel de secretário do partido, procurei me afastar, e por isto penso que não sou secretário do Partido Comunista, desde que
ad
TSN., Pr. 1381/1,. “Carta de Antonio Maciel Bomfim a Luís Cupelo”, 19/4/40, p. 22.7
123
fui preso, e, na cadeia, neguei-me a me pôr à frente da organização, e, um mês antes de partir para Femando de Noronha me desliguei do partido”.
Segundo Miranda, o fato de não ter se tornado público o seu afastamento tem a ver com a tentativa do partido em manter as aparências para o exterior. Ao fazer referência ao assassinato de Elza, ressalta o perfil centralista presente no partido: “Bem sabes os métodos e conheces. Aqueles que não os mesmos métodos não últimos anos as minhas processos de solução dos » 42 povo”.
Miranda,
em
sua
os crimes tinham as podem ser convicções problemas
correspondência
a
Luís
dos assassinos de mesmas intenções identificados com se modificaram fundamentais do
Cupelo,
não
Elvira, e bem os e não utilizavam eles (...) nestes e com elas os Brasil e de seu
vinculou
o
seu
desligamento do partido ao assassinato de Elza. Segundo o que afirmou, já havia pedido demissão do cargo, ainda no ano de 1935, por duas vezes, por discordar da orientação
política adotada, e voltou a solicitá-la depois do movimento armado de 1935. A
elucidação
do assassinato
de Elza
só vem
a aprofundar
o divórcio
que,
segundo Miranda, já vinha acontecendo há muito tempo. Miranda finalizou sua carta, inocentando Elza, afirmando que nunca a envolveu em atividades partidárias devido a sua pouca idade. Ao mesmo tempo, tenta se eximir de qualquer responsabilidade acerca da delação de integrantes do partido: “Há
muitas
lendas
e mentiras
sobre
as atitudes
de
Elvira,
e, algumas
destas mentiras visam justificar o crime praticado com ela ou diminuir a culpabilidade dos assassinos perante a opinião pública. Nem ela nem eu fomos os delatores do argentino Antonio Ghioldi, como informaram certos jornais”. ”
Os riscos da execução de Elza Fernandes eram conhecidos pelos dirigentes do partido
à época de seu julgamento.
Havia
clareza de que se o caso viesse à tona o
4
TSN., Pr. 1381/1,. “Depoimento de Luís Cupelo Calonio”, 17/4/40, p. 11.
“
Ibid.
id
Ibid.
desgaste diante da opinião pública seria muito grande. No entanto, a avaliação feita era de que a ameaça representada por aquela que havia aceitado o papel de “agente dupla”
era bem maior. As avaliações políticas descoladas da dificil situação do PCB no periodo pós-levante levavam importantes dirigentes, como Prestes, a acreditar na possibilidade de reversão do quadro político por parte da ANL.
Logo, a existência de “inimigos”
infiltrados nas “fileiras do proletariado”, como era o caso de Elza Fernandes, passava a se constituir como uma questão de estado para os comunistas. Apesar da incógnita que representou para o governo Vargas o desaparecimento de Elza durante
alguns anos,
o desarquivamento
do caso no
início
dos anos 40,
representou um forte alento para reforçar a posição dominante de que cada vez mais se
fazia necessário tratar os comunistas com toda a rigidez exigida, até mesmo porque se tratavam
de
indivíduos
que
integravam
uma
organização
“hediondo crime” para preservar os seus interesses políticos.
capaz
de
cometer
tão
OS REFLEXOS DO CASO ELZA FERNANDES SOBRE A IMPRENSA DA ÉPOCA
As prisões de dirigentes comunistas, efetuadas na primeira quinzena de abril do ano
de
1940,
reascenderam
a possibilidade
de retomar
as investigações
sobre
o
assassinato de Elza Fernandes. A repressão governamental vinha tendo sucesso em suas investidas contra a direção do partido, desde o ano de 1939. Quando ainda no mês de março
de 1939, a polícia conseguiu
desmantelar a direção em
São Paulo, o impacto
sobre o comitê central foi forte, na medida em que ficaram isolados os dirigentes do Rio de Janeiro. A repressão que seguiu, ao longo deste ano, se manteve em 1940, resultando
em importantes vitórias para a polícia política. Prisões de membros proeminentes da direção
partidária
como
Abóbora,
abriram
caminho
para
que
outros
importantes
dirigentes caíssem nas mãos das forças repressivas do Estado varguista. Segundo John W.F. Dulles, depois da captura de Prestes no ano de 1936, as prisões efetuadas nos primeiros meses de 1940 foram as mais significativas desde o levante de 35.!
É
DULLES, op.cit., p. 202.
126
A
polícia
investiu
esforços
durante
vários
meses
na busca
dos
dirigentes
comunistas. Existiam informações de que Martins e Bangu, estariam retornando ao Rio. Pouco tempo depois, informantes da polícia diziam ter avistado Bangu no Rio. À informação chave que levou a prisão deles, além da de Eduardo Xavier, foi a de que, Lauro Reginaldo da Rocha estaria mantendo
Ribeiro
no Rio contato com
uma mulher proveniente do Rio Grande do Norte: “(...) a polícia continuou nas suas buscas, até que um dia pôde levantar uma pista que a levaria ao sucesso. Soube-se por um elemento do partido que “Bangu” estava em contato com uma antiga condenada vinda do Rio Grande do Norte. Não foi fácil identificar essa mulher. Não se sabia o nome, paradeiro, nem ligações. Mas, pesquisando melhor, os investigadores constataram que no presumido periodo da vinda desta condenada para esta capital, só duas mulheres haviam desembarcado aqui. Procuradas ambas, a primeira encontrada foi exatamente a indicada como mantendo ligações com “Bangu”. Não adiantaria, entretanto, sua imediata
prisão que seria susceptível de alarmar os chefes comunistas em liberdade e revelar-lhes os trabalhos policiais”?
Dois meses de observação da referida mulher, foi o tempo necessário para que a polícia chegasse onde pretendia, porém, a simples observação da suspeita por parte de agentes policiais não levou a nada. A mulher vigiada não apresentava nenhum indício suspeito de envolvimento
com Bangu. No
entanto, ao ser observada a sua rotina, foi
constatado que ela visitava com regularidade três casas, sendo que em uma delas poderia residir o militante que tanto interessava à polícia. No entanto, o risco de invadir as casas era muito grande, e depois de um tempo bastante significativo de investigações, os agentes policiais sequer cogitavam colocar tudo a perder. O sucesso foi obtido a partir do momento que um policial disfarçado de pintor foi mandado na casa que residia a suspeita. Disse que também era do Rio Grande do Norte e, trazia uma carta para Bangu. Queria que lhe fosse indicado o seu endereço ou que ela lhe entregasse pessoalmente. A armadilha deu certo. Ela se prontificou a fazer a entrega. O policial disse que por questões de segurança não havia trazido a carta num primeiro encontro, mas a traria no dia seguinte. O que aconteceu foi que, ao invés do
policial
trazer a carta
no prazo
estabelecido,
a suspeita
foi presa
e encaminhada
à
chefatura de polícia. A detida se chamava Rita. Não negou a sua ligação com o comunismo
em seu
estado natal, o Rio Grande do Norte. No entanto, assumiu apenas que mantinha relações sociais com os militantes comunistas. O seu envolvimento com o partido vinha desde o levante de 35, quando ANL,
após o fracasso da tentativa de tomada de poder por parte da
alguns de seus conhecidos
em fuga haviam
deixado
em
sua casa pertences e
dinheiro. Por essa razão, teria sido presa naquele período. Após a sua saída da prisão, sua casa no Rio de Janeiro, tornou-se uma espécie de referência para muitos comunistas
que
tinham
o endereço
de
Rita
como
indicação
do
partido.Bangu
era
assíduo
frequentador. Na busca à casa de Rita pela polícia, Bangu não foi encontrado. Apesar disso, a polícia afirmou ter apreendido “material subversivo”, sendo o marido da suspeita preso. O duro interrogatório que Rita foi submetida não fez com
que ela fomecesse
qualquer informação. No entanto, ficou formalmente comprometida a partir do momento em que foi achado, em sua bolsa, um bilhete que indicava a marcação de um encontro entre
ela e Abóbora.
encontro.
Ficou
Desta forma,
resolvido
ao investigar
pela polícia, o paradeiro
que Rita deveria comparecer de Bangu,
a polícia terminou
ao por
prender outra figura importante do partido. Os interrogatórios continuaram. Agora eram dois
que
se
tomavam
potenciais
informantes.
Aproximava-se
concretamente
a
possibilidade de a polícia aumentar o número de prisões de membros proeminentes do partido.O endereço da casa de Abóbora acabou sendo fornecido por Rita. Novas prisões
ocorreram e mais material do partido foi aprendido.A partir dessa diligência a polícia pôde organizar uma incursão para a sede da imprensa do partido.
Quanto a Bangu, as pistas continuavam escassas.No entanto, sabiam que este ia diariamente à sede da imprensa. A polícia armou uma tocaia que acabou dando certo. Na 2
O Estado de São Paulo, 16/4/40 . “Atividades de elementos comunistas no território
128
prisão, Bangu tentou criar o maior grau de dificuldade possível à polícia, mesmo sob tortura:
“Um mês depois, a polícia se queixava de que ele não abrira a boca sequer »3 para confessar que seu nome era Lauro Reginaldo da Rocha”.
Após
outras prisões efetuadas,
faltava Martins.
O cerco estreitava-se
sobre
dirigentes ainda em liberdade. A prisão daquele que era considerado, o mais destacado líder comunista em liberdade, foi coberta pela imprensa de forma sensacionalista, não
escapando inclusive detalhes sobre a resistência armada do dirigente: “Honório deu pela presença dos policiais antes que estes atingissem sua casa. Correu ao interior da habitação e de lá voltou armado. Vendo-se descobertos os investigadores dividiram-se, um surgiu à frente, outros mais atrás, enquanto o terceiro procurava alcançar os fundos da residência. Ao receber voz de prisão. Honório atirou no policial, mas este, rápido, atracou-se com ele e procurou desarmá-lo. Disposto no entanto, a livrar-se de qualquer maneira, o chefe comunista deu tremendo soco no investigador, jogando-o no chão e deitou a correr. O 2º policial ameaçou a atirar. Honório não fez caso e continuou a correr. Dois tiros partiram na sua direção, aparentemente sem resultados, mas quando o policial gritava: “Para se não atiro para matar", o chefe extremista tombou ao chão. Duas balas haviam-no atingido, uma na coxa, e outra na região glútea”.*
A captura de Martins causou mais uma importante baixa para o partido, até mesmo porque, junto com sua prisão, mais uma série de documentos foram parar nas mãos da polícia. As informações fornecidas por Abóbora foram fundamentais para que a prisão de Honório fosse levada a cabo. Apesar
de ferido
e, consequentemente,
necessitando
de cuidados
médicos,
a
passagem de Honório pelo hospital foi bastante rápida. A polícia estava com bastante pressa para iniciar os seus interrogatórios. A cobertura feita pela imprensa dos dirigentes presos, enfatizou o “alto grau de periculosidade” dos mesmos. O heroísmo policial no resguardo da sociedade brasileira, associado aos requintes de crueldade e métodos
políticos escusos utilizados pelos
nacional”, p. 2. * Dulless, op. cit., p. 203 40 Estado de São Paulo, 16/4/40, “Atividades de elementos comunistas no território nacional”,. p.2.
129
comunistas, constituiu-se como ponto alto nas matérias sobre a captura de militantes como Martins, Bangu, Abóbora, e outros integrantes do partido, vitimados pelo vasto empreendimento repressivo da polícia política de Vargas. Apesar de ser numericamente significativa a lista de prisões apresentadas pelos órgãos de repressão aos jornais do país, a matéria resultante da cobertura feita pelos jornalistas da época, reservou grande espaço
para aqueles que ainda neste ano iriam responder pelo assassinato de Elza Fernandes. A maneira como foram feitas as abordagens tornam-se reveladoras de o quanto o governo Vargas ainda capitalizaria em torno da ameaça comunista ao Brasil. O
pouco que havia sobrado
da organização
partidária
tentava
rebater com
veemência as acusações feitas contra os dirigentes presos.Em manifesto lançado pelo partido, no mês de abril de 1940, o acentuado discurso antiimperialista contrastava com a lógica “nacionalista” do Estado Novo.* Os dirigentes ainda em liberdade, formalizaram no manifesto em questão, acusações contra empresas
estrangeiras que gozavam
de
amplas liberdades para dilapidar a s riquezas nacionais. Além das denúncias com relação à ação do imperialismo, as acusações feitas contra o governo Vargas iam no sentido de denunciar que, a política adotada por parte do govemo,
diante do cenário mundial,
arrastava o Brasil para a guerra, o que, segundo a avaliação feita no periodo, agravaria ainda mais o nosso grau de dependência diante do grande capital internacional. O projeto governamental, da forma como era vista pelos comunistas, levava aqueles que estavam à frente do controle do Estado brasileiro, a utilizarem “práticas fascistas” para consumarem os seus objetivos finais. Sendo assim, era de compreensão do partido que a forte onda repressiva, que vitimou boa parte dos dirigentes ligados ao comitê central, estava diretamente vinculada aos esforços de varrer toda e qualquer forma de oposição ao projeto oficial das elites dirigentes brasileiras: “Que faz o govemo para conseguir realizar seus crimes antinacionais? (...) assassina lideres nacional-libertadores e comunistas sob o falso pretexto de estarem preparando um golpe armado, tentando alarmar a opinião pública com uma publicidade escandalosa exigida da imprensa sob coação $
segundo Dulles, o referido boletim foi um dos últimos,
“porque as prisões efetuadas
entre março e maio de 1940 destruíram a liderança nacional do Partido e o restante dos mecanismos de
apoio no Rio.” (Cf. DULLES, op. cit., p. 202).
,
ri
policial (...) expediente desmoralizado porque o povo ja sabe que cada nova ofonsiva dos trustes em empresas estrangeiras contra a economia popular c nacional, cada novo sacrifício que se exige do povo (...) é precedido por prisões, por torpes calúnias contra o partido comunista e seus dirigentes (...) nesse sentido (...) é que foram forjadas as infames calúnias contra os dirigentes comunistas ultimamente presos e contra a figura incorruptível e heróica do Cavaleiro da esperança (...)”. é
Tentando resistir à campanha empreendida pelo poder constituído que reafirmava sua busca de desgaste moral a dirigentes proeminentes do partido, o documento revela a tentativa de se buscar o enfrentamento através do embate político. Toda e qualquer especulação
por parte do governo,
que extrapolasse esse campo,
era encarado
como
recurso rebaixado para encobrir questões políticas de alta relevância, que tentavam ser
executadas mesmo que contrariassem a “vontade popular”. Apesar da tentativa de se buscar o embate numa atitude de contra-ofensiva, o partido, no ano de 1940, encontrava dificuldades que precediam toda e qualquer possibilidade de enfrentamento. O reduzido número de dirigentes, problemas de ordem financeira, a dificil articulação nacional, a questão da segurança para seus militantes, são algumas das dificuldades que podemos listar. A ngor, tinhamos um continuamente,
enfrentava
partido desarticulado, com pouca inserção sérios
problemas
decorrentes
da
repressão
social e que, policial.
(0)
discurso do manifesto pode ser considerado mais retórica do que qualquer possibilidade concreta
de politizar
a discussão
com
o govemo
Vargas.
Mais
uma
vez,
o PCB
descolava
o seu discurso da efetiva possibilidade de ação política diante do cenário
nacional.
O partido,
desde a instauração
do Estado Novo, já manifestava
grande
dificuldade de gerenciar a sua estratégia política. O golpe, dado em 1937, agravara uma situação repressiva que vinha se desenvolvendo desde o malfadado levante de 1935, e
que assolava as bases partidárias numa proporção que estava muito acima de qualquer capacidade de rearticulação dos comunistas brasileiros. Ainda no ano do golpe, o partido alertava que o golpe “fascista era um perigo para a paz e a democracia mundiais”.
Ê “Ao povo brasileiro. Comitê Regional do Partido Comunista Brasileiro”, 04/1940. In: CARONE, Edgar. O PCB (1922-1943). São Paulo, DIFEL, 1982, Vol. 1, p. 225-226
131
Além
da busca do enfrentamento político, no documento também aparece de
forma bastante contundente, a percepção dos dirigentes comunistas diante da imagem política de Prestes. A aura mítica que envolveu a imagem política de Prestes durante o tempo que esteve ligado ao partido, fez-se intensa no período aqui tratado. Na verdade, a figura política de Prestes, enquanto mito, não se constituiu como
algo que tenha sido
criado no interior do PCB. Percebe-se claramente ao se analisar a imagem de Prestes diante
do
movimento
tenentista,
perpassava a compreensão Esperança”.
Claro
que
desde
a época
da
coluna,
essa
imagem
já
política da sociedade brasileira diante do “Cavaleiro da
que, o mito, já construído,
vem
ao
encontro
de um
forte perfil
personalista que existiu no comunismo mundial, sob a égide stalinista. Osvaldo Peralva, ao tecer considerações sobre o que representou Prestes para o partido, conduz sua análise nesse sentido: “(...) Porque Luis Carlos Prestes não era um dirigente qualquer, (...). Ele representava para a quase totalidade dos comunistas e mesmo para ponderáveis setores de nossa população o espelho e a encamação das melhores qualidades que se atribuiam ao partido: combatividade, honra, inteligência e espírito de sacnficio (...)”. 7
Não que Peralva concordasse que Prestes fosse um militante acima de qualquer suspeita, com a percepção descrita acima. A rigor o seu desencanto diante do partido, o levou de militante combativo a crítico mordaz do comunismo brasileiro. Nesta condição,
via com
muitas reservas a liderança de Prestes e outros dirigentes da alta cúpula
partidária. Quanto
ao “Cavaleiro da Esperança”,
não poupa críticas ao relatar a forma
verticalizada como entrou no partido: “Assim,
ingressou cle no movimento
comunista, não como
os demais
membros, através das respectivas seções nacionais, e sim por cima, levado -"
-
“
pela mão de seu descobridor, Manuilsky”.
$
Ainda com relação ao mito que foi construído diante da imagem
política de
Prestes, Raymundo Faoro prefaciando a biografia feita por Denis de Moraes e Francisco
PERALVA, Osvaldo. O retrato. Porto Alegre: Globo. 1962. p. 188
E
Ibid,, p. 189.
132
Viana, chama atenção para o quanto à construção mítica em torno do “Cavaleiro da Esperança”
perturba
as
possíveis
análises
“acerca
de
seu
papel
na
história
contemporânea”? Logo a seguir afirma: “O carisma
fixou um
mito, que se tomaria
indestrutível, não dilacerado
pelos terríveis erros políticos a que sucumbiu e pela tenaz resistência às suas idéias mais tarde adotadas.O homem desapareceu, nas suas =
proporções
2
reais
J
10
Torna-se relevante chamar atenção de o quanto foi complicada a relação de Prestes diante de sua ruptura com o movimento tenentista. Ao formalizar sua adesão ao comunismo,
no início dos anos 30, desagradou tanto ao PCB
quanto aos seus antigos
companheiros de coluna. Ao retornar da União Soviética, ainda na primeira metade dos
anos 30, teve sua entrada no partido feito de forma verticalizada.
Seduziu-se,
por
avaliações equivocadas, sobre a possibilidade de tomada do poder. Mas, apesar dos reconhecidos equívocos, o seu carisma político permaneceu bastante forte durante a era Vargas. Era contra este carisma, que se confundia, com a própria trajetória do partido na década em questão, que o govemno do periodo centrou suas energias no sentido de desgastá-lo profundamente. Certamente que o desmonte moral que se tentava fazer, não havia se constituído como fato político apenas a partir da clucidação do assassinato de Elza Fernandes. O levante de 35, e todos os problemas gerados pelo mesmo, para a orientação política do PCB, em sua fase posterior, já haviam fomecido muita munição para que fosse feita uma ampla campanha nacional, centrado em uma cruzada contra o comunismo. No entanto, a elucidação do crime, com a confissão formal da maior parte
dos
acusados,
trouxe
à tona concretas
possibilidades
para que
a sociedade
fosse
“alertada” para a “ausência de limites morais” por parte daqueles que dirigiam a cúpula partidária. Os acusados da morte de Elza foram identificados como “elementos graduados” do partido, indivíduos chaves na “enorme” estrutura partidária que representava o PCB naquele período. ú to
Cf. MORAES, Denis e VIANA, Francisco. op.cit,, p. 11. Ibid, p. 13.
133
O alarmismo diante da ameaça representada pelo PCB promovida pelo governo Vargas, contrastava com o que restava do partido, depois das inúmeras prisões ocorridas ao longo dos anos 30. Ao analisar o teor do discurso jornalístico, diante do movimento político do partido entre a segunda metade da década de 30 e o ano de 1940, essas evidências aparecem de forma bastante clara. Ao “informar” a opinião pública, jornais como o Correio da Manhã chamavam atenção, de forma incisiva, para a complexa organização, que só não havia tomado o poder, no Brasil, graças à incansável vigilância da polícia. Neste sentido, a manutenção
da integridade política do país estava diretamente vinculada ao combate contínuo das ações subversivas do partido e outros que com estes se aliassem. Apesar de seguir as mesmas
inclinações acerca da cobertura das prisões dos
comunistas dos anos 40, a riqueza de detalhes que encontramos no jomal o Lstado de São Paulo é bem maior. O jornal não foge do forte sentimento anticomunista da época, até mesmo porque com o estreito controle exercido pela censura, isso seria praticamente impossível. No entanto, ao relatar o encontro do capitão Felisberto Baptista Teixeira
com os diretores do jornal para falar acerca das prisões, reproduz um trecho do encontro, que revela uma visão um pouco mais sóbria sobre a situação do PCB no cenário político nacional:
meo,
"Embora contrariando a opinião geral, as autoridades jamais acreditaram na extinção do partido comunista após o insucesso da arremetida de 1935. E isso porque muitos de seus membros haviam sido presos, muitos outros, lograram escapar e mais cedo ou mais tarde voltariam a tramar contra a ordem. Daí a constante vigilância que mantiveram, sem qualquer solução de continuidade. De que essa atitude era a recomendável, breve sc teve a prova. Desnorteados no primeiro instante com seus chefes, Prestes, Berger, Ghioldi, e outros, recolhidos a sombra dos cárceres, os adeptos de Moscou se dispersaram nos primeiros tempos da cruzada de repressão. Mas, pouco depois, os seus elementos se foram substituindo e reorganizando, e quando as diligências policiais se renovaram, muitas células estavam em plena ação. E verdade que esse período de recomposição, pouco perigo ofereceu. O partido sem chefes capazes de
134
conduzilos,
ainda
não
readquira
toda
a
sua
antiga
coesão
e
temibilidade”." Prestes, que durante o Estado Novo teve uma representação emblemática de tudo aquilo que significava o comunismo para o poder constituído,ganhou destaque especial na imprensa como mentor intelectual da morte de Elza Fernandes. O jornal O Estado de São Paulo,
reproduziu
uma
correspondência
enviada por Prestes aos membros
do
partido envolvidos no julgamento de Elza Fernandes, datada de 19 de fevereiro de 1936, que, estava anexada ao processo: “(...) Fui dolorosamente surpreendido para a falta de resolução e vacilação de vocês (...) já ontem formulei minha opinião a respeito do que precisamos fazer (...). Com plena consciência de minha responsabilidade, desde os primeiros instantes tenho dado a vocês minha opinião sobre o que fazer com ela (rr
Em
matéria
de
14
de
abril,
com
referências
a
Prestes,
já
eram
indicadas
novidades sobre o envolvimento deste e de outros importantes elementos em crimes hediondos: “É de (...) ressaltar também, que apesar de preso, Luís Carlos continua a ser o mentor espiritual dos comunistas com os quais arranjou um meio de comunicar-se.Sua palavra para eles é uma Sua figura continua 'sagrada” como em 1935 foi recomendada ao todos do PC Americanos pelo Comintem.
que essa figura e a sangue de muitos agora fazer a mais depois “-conclui o
Prestes sempre ordem. PCB e a
Devo anunciar-lhes, entretanto,
dos principais dirigentes do PCB está manchada com o crimes sobre os quais a Delegacia Especial conseguiu completa luz. Mas isso é outro capitulo. Deixemos para delegado de Ordem Política e Social"”."
O superdimensionamento das possibilidades de rearticulação do PCB,
passava,
segundo a lógica do estado varguista, pelo seu membro mais proeminente: Prestes, preso desde 1936. Fazia-se um forte investimento na tentativa de aproximar a imagem política de importantes dirigentes do partido ao perfil do comunista
perigoso, capaz dos mais
inusitados crimes em nome de uma causa política a serviço de elementos perniciosos à sociedade brasileira.
H nacional”, p. 2.
13
comunistas”, p.2.
bi
O Estado de São Paulo, 16/4/40, “Atividades de elementos comunistas no território O Estado de São Paulo,
.
18/4/40, “Descoberta de crime praticado por elementos .
.
Correio da Manhã, 14/4/40, “As atividades comunistas no Brasil”, p. 20.
135
Quatro dias antes de ser noticiada a prisão de importantes dirigentes, no dia 18 de
abril de 1940, aparecia de forma destacada uma manchete que confirmava que Elza Fernandes havia mesmo Bangu
e Abóbora
sido assassinada pelos comunistas. À confissão de Martins,
davam
os elementos
necessários
para que
se tornasse palpável
a
imagem do comunista sanguinário. Segundo John Foster Dulles, o assassinato de Elza Fernandes passou a ser esclarecido de fato a partir da confissão de Abóbora: “(..) Abóbora e a mulher estavam dispostos a resistir às torturas, mas quando a polícia começou a torturar a filhinha deles, Abóbora falou. Isso levou, finalmente, a solução do caso Elza Fenandes”.!* No levante de 35, batizado como “intentona” pelo poder constituído, a figura do
comunista assassino sanguinário já se fazia presente de forma bastante marcante na maneira forças
como
foram descritos os enfrentamentos
legalistas.
No
entanto,
o
assassinato
entre os integrantes de
Elza
oferecia
da ANL e
elementos
as
mais
“dramáticos” para serem explorados pela grande imprensa, fortemente controlada pela censura da época. Afinal, tratava-se de uma menina de apenas dezesseis anos vitimada pela fúria assassina de indivíduos calculistas dispostos a inimagináveis atrocidades para chegar
aos
seus
propósitos
políticos.
As
expressões
usadas
revelam
uma
busca
deliberada para despertar no leitor uma avaliação eminentemente emocional sobre o ocorrndo: “As autoridades policiais conseguiram envolvia
o
desaparecimento
de
Elvira
(...) esclarecer (...) o mistério que Copello
caloni,
(...)
ou
ainda
simplesmente “Garota”, codinome que a desditosa mocinha tomara entre os membros da verdadeira quadrilha de assassinos formada a sombra do fanatismo comunista que pretendia estabelecer no Brasil o regime do terror vermelho. Havia a suspeita que ela tivesse sido morta pelos companheiros de credo. Havia mesmo a convicção disso (...) porém, ficou tudo deslindado. Honório de Freitas Guimarães, Lauro Reginaldo da Rocha (...) e Eduardo Ribeiro Xavier (...) confessaram o crime (...). Dois deles (...) tomaram parte ativa no trucidamento da moça. O outro, “Bangu”, (...) agiu ativamente nas preliminares do crime, mas foi afastado
M
o
Dulles, op. cit., p.203.
BISLIOTECA
—. RUERS
CENTRAL; '
das reuniões finais por não ter se mostrado a altura da perversidade dos companheiros (...)”.º
Quando Bangu foi preso, foi anunciado pelos jornais como um dos elementos chave da organização. No entanto, o maior frisson, seria provocado quando a polícia conseguiu chegar aquele que era considerado o carrasco de Elza Fernandes: Cabeção, preso no Pará. As atenções do país se voltavam para aquele que seria adjetivado pela imprensa como um indivíduo frio e calculista. Imbecilizado, manipulado por dirigentes de caráter duvidoso, mas inegavelmente alguém que merecia toda a reprovação por aquilo que representava enquanto elemento nocivo para a sociedade brasileira. O papel atribuído a Cabeção contrastava com a perversidade intelectual de Prestes e Martins, segundo a forma como eram divulgadas as notícias acerca da prisão dos dirigentes comunistas. Preso nas oficinas da Porto of Pará, onde trabalhava como
desde
o início dos interrogatórios, “Cabeção”,
como
carpinteiro naval,
ficou conhecido
pelo grande
público o executor de Elza Fernandes, negou o seu envolvimento no assassinato. Embarcado
para o Rio de Janeiro num
avião da Panair,
o “carrasco” de Elza
Fernandes tornou-se uma figura notória na capital federal. Diante da tranquilidade de negar seu envolvimento no crime, a acareação que iria ser feita no Rio de Janeiro entre Cabeção
e Martins
tornou-se
sequência
a instrução
imprensa.
Quando
do
ouvido
bastante
inquérito.
Era
pela primeira
importante
aguardada vez
para
as
com
pela agência
forças
grande
policiais
expectativa
nacional
de
darem
pela
imprensa,
Cabeção, a partir dos relatos inicias feitos, teve sua imagem reforçada enquanto frio assassino: "A chegada de Francisco Natividade Lyra, vindo da capital paraense de avião, despertou grande curiosidade popular. O aeroporto Santos Dumont, de onde ele desembarcou mais ou menos às 4:30 da tarde, estava cercado de uma verdadeira multidão. Toda a gente queria ver o homem que servia de carrasco do Partido Comunista, o estrangulador de Elza Femandes. O Correio da Manhã, 18/4/40, “Elza Fernandes foi mesmo assassinada pelos comunistas”, p.3.
ni
137
seu bárbaro crime, praticado em circunstâncias quase incríveis, deu-lhe uma celebridade sombria, cercando-o de uma auréola de pavor e repulsa. As fotografias estampadas nos jomais destacavam certos detalhes impressionantes na sua estranha máscara fisionômica. Por outro lado, a policia contribuiu para a propaganda do monstro, cercando de cuidados especiais a sua viagem para esta capital”.'é
Pouco tempo depois de chegar ao Rio de Janeiro, Cabeção confessou o seu envolvimento
no
assassinato.
A
acareação
que
parecia
tão
importante
para
o
esclarecimento do assassinato, perdeu peso no quadro geral do processo. As especulações continuaram em torno de Cabeção. Foi tentado, por parte da
grande imprensa, integrar a “deformada mente” do carrasco de Elza a um tipo físico que caracterizasse O perfil assassino de Cabeção. As expectativas foram frustradas com o desembarque do acusado no Rio: “o povo esperava ver um indivíduo de olhar duro, a faiscar ódio, uma fera humana de andar pesado, cabeça baixa, testa sulcada de rugas verticais, um desses tipos que até de longe ameaçam a vida da gente.E as
autoridades estavam certas de que iriam enfrentar um assassino inflexível, teimoso, geral.”
difícil
de
confessar
o delito.
Entretanto,
foi
uma
decepção
No entanto, após a confissão do assassinato, -as “deformações psicológicas” vieram à tona. Foi caracterizado como um indivíduo sem remorsos, zombeteiro, sem o menor arrependimento. Ali se encontrava o inimigo público da sociedade brasileira. Foi cogitada inclusive a possibilidade de pena de morte para o “carrasco” de Elza, o que não foi
levado
adiante.
Apesar
disso,
ressaltava-se
na
mesma
matéria
já
citada,
a
despreocupação do acusado com o seu próprio destino: “A preocupação essencial do assassino é acentuar que não tem remorso, não tem arrependimento, não sente o menor constrangimento em narrar o crime nem tem o mais leve temor do que lhe possa acontecer. - V. sabe que existe pena de morte no Brasil para caso como o seu? “Cabeção” fez um gesto de enfado e, meio irntado: - Que me importa lá a pena de morte (...). Se quiserem fuzilar-me agora
mesmo, estou pronto. Vinte ou trinta anos de cadeia, não estou ligando a :
coisa nenhuma”.
18
o
Correio da Manhã, 27/4/40, “Cabeção confessa tudo”. p.3.
”
Ibid.
1x
Ibid
138
A adjctivação de ignorante e inconsciente dado a Cabeção, completava o quadro do comunista capaz de cometer qualquer crime hediondo em nome de uma causa.O tom emocional na matéria já citada do jornal Correio da Manhã também serviu para reforçar a campanha de desgaste do assassino de Elza: “E todo o Brasil, ainda horrorizado pelas descobertas recentes da polícia, lembra-se
de
uma
cabecinha
garota
de
cabelos
negros
num
gracioso
tumulto de mocidade, olhos de jabuticaba e um sorriso vivo de quem, ainda às portas da vida, muito esperava da vida”."”
A incessante adjetivação, utilizada pelos jornais para classificar o assassino de Elza
Fernandes,
era
reconhecida
inclusive
por
eles
próprios.
No
entanto,
essa
constatação não fazia com que os jornais recuassem na busca por novas matérias que tentassem classificar o perfil de psicopata atribuído a Francisco Natividade Lyra.Uma
crônica
produzida
por um
colaborador
do jornal
Correio
da Manhã
revela
esta
tendência: "Os adjetivos postos ao serviço da imprensa para qualificar crimes estão a tal ponto gastos pela reportagem policial que perderam quase todo o seu vigor expressivo. E, francamente não encontro palavra com que possa, por amor ao estilo, adjetivar o estrangulamento da “Garota” pelo “Cabeção”.2» Feroz,
truculento,
bárbaro perverso, frio,
cruel,
tenebroso,
horripilante,
tudo isso ele o foi: mas foi, principalmente, estúpido”.” Ao fazer referência às pretensões revolucionárias dos algozes de Elza, o referido
autor que classifica o crime como “crime de estupidez”! faz referência ao chamado tribunal revolucionário como “uma espécie de “Comitê de Salut Publique” em edição de favela”.2
As duras críticas feitas por Bastos Tigre aos dirigentes comunistas, por mais comprometidas
que fossem
com
o sentimento
anticomunista
da época,
apontavam
contradições evidentes na forma como foi compreendido por parte daqueles que estavam no comando do PCB, o papel de Elza Fernandes no momento político pós-levante:
ud
Ibid.
= u
Correio da Manhã, 28/4/40, “O crime da estupidez”, Bastos Tigre, p. 4 : Ibid.
Ee
Ibid.
139
“A fúria desse Gepeu da cretinice exerce-se, violenta e sem mercê, contra quem? Contra uma frágil menina analfabeta, incapaz de raciocinar sobre
problemas que vão além do sabão de lavar roupa e do sal a pôr nas panelas. Que entenderia a garota de ideologia, organização social, ideais marxistas, reivindicações proletárias? Que sabia ela de tais tapeações com que algumas centenas de malandros e espertalhões russos arrastaram a inculta massa do povo a trocar o despotismo autocrático pela tirania vermelha de "operários da foice e martelo" gravados no papel? Se, de fato, a menina havia cometido a falta que lhe era imputada e se os severos juizes desse tribunal macabramente camavalesco faziam questão de puni-la, qualquer leve castigo corporal seria bastante para que ela se atemorizasse; em ultimo caso não lhes seria difícil deportá-la para o interior do país, fora do alcance da polícia que, de resto, pouco teria a colher de tão insignificante figura "revolucionaria"?
Ao tratar da morte de Elza, o autor da crônica em questão, aproximou a lógica do comunismo à mesma dos cangaceiros de Lampião, ou aos antigos bandidos da Córsega ou mesmo aos gângsteres de Chicago,onde a violência é um meio e não um fim Isto é, mede-se os passos de onde quer se chegar a partir de uma execução como a que foi de Elza Fernandes.Os comunistas envolvidos no assassinato passaram a ser considerados
pelo
autor
sanguinária
como
indivíduos
“fanatizados
por
uma
causa
nos processos »24 A partir das considerações
utópica
na
essência
e
que foram feitas afirma que
“não serviam a rigor a nenhuma doutrina (...) serviam (.:.) a mais crassa estupidez” >.
A compreensão do efeito da contrapropaganda para os comunistas em função do caso
Elza,
também
se manifestou
nos
escritos
de Bastos
Tigre,
que
afirma
que
o
assassinato estava se revelando como uma eficiente contrapropaganda, estando viva a luz da publicidade. Durante o período em que a direção do partido estava discutindo o destino de Elza, já era ponderado pelos que participavam do “Tribunal Vermelho”, sobre o nível de repercussão social que teria a descoberta do assassinato. O risco foi corrido. Ao ser provado o envolvimento
dos dirigentes
no assassinato,
o previsto aconteceu.
Nas
140
palavras
de
Bastos
Tigre,
a
revelação
do
assassinato
se tornou
uma
“eficiente
contrapropaganda”é Interessante observar que o autor, ao fechar sua crônica, se colocou contra a pena de morte para Cabeção, ineficiente:
sendo
categórico
ao afirmar que
“para tais indivíduos moralmente
cc
“a pena de Talião” seria
teratológicos o maior castigo ainda é
deixá-los viver”.?' Outro integrante do partido envolvido na morte de Elza Fernandes, que teve grande destaque na imprensa, foi Martins. Se no caso de Cabeção, tinhamos uma ênfase muito
grande
dada
ao perfil
“embrutecido”,
de caráter “Iombrosiano”,
no caso
de
Martins, o estereótipo explorado foi a do homem que, mal sucedido em sua vida, por sua mais absoluta incompetência, procurou no comunismo o seu refúgio. No jornal o Estado de São Paulo, datado de 17 de abril de 1940, ao longo de uma extensa
matéria
sobre
os últimos
acontecimentos
relativos
ao
caso
Elza
Fernandes,
Martins teve um destaque significativo. No início da matéria, aparece um relato sobre uma
prática comum
dentro do partido, quando do ingresso de seus militantes, que
preenchem um questionário. A própria prática já serve para dar partida a toda uma especulação a respeito do ingresso de Martins nas fileiras do partido. Este, ao invés de seguir o que
era de praxe, isto é, o preenchimento
do
questionário
padrão,
resolveu
encaminhar para o partido sua autobiografia, onde segundo o jornal nem “ridículos o
pormenores foram esquecidos”.
2
i
Os “pequenos detalhes” foram largamente explorados pelo jornal, para mostrar o que a trajetória de vida, descrita na autobiografia, apresentava de revelador nas opções
z 2
Ibid. Ibid.
id
A imprensa
em alguns
momentos
para relatar o “perfil assassino”
de Francisco
Natividade Lyra. se utilizou um tipo de abordagem que foi amplamente utilizada no processo.que caracterizava o tipo físico e psíquico de alguns protagonistas com sinais de evidente predisposição para o
crime.(cf£ TSN, Pr. 1381/2, p.440-442).
»
nacional”. p. 2.
O Estado de São Paulo, 17/4/40, “Atividades de elementos comunistas no território A
141
feitas por tão proeminente
comunista.
Ao
ser dado
destaque
a sua
origem
abastada,
revela detalhes de sua cara formação educacional que, apesar de ter se constituído de um processo altamente qualificado, não conseguiu reverter a “ausência de capacidade” dele. Além de evidenciar a falta de capacidade, o relato do transcurso de sua vida serviu para “comprovar” a sua falta de “caráter”. Temos diante de nós, segundo a ótica da imprensa,
um indivíduo marcado pela falta de “competência e caráter”: “Foi mandado em companhia de um de seus irmãos para o colégio de Eton, frequentado por membros da aristocracia Inglesa (...). Ao sair estava habilitado a ingressar na Universidade de Oxford ou na de Cambridge,
mas trazia, acentuado recalque “anti-imperialista”, que não conseguia fazer camaradagem na escola, o que revela o seu mau caráter desde a adolescência. Retomando a familia ao Brasil, Honório tentou entrar na Escola Politécnica, sendo reprovado nos exames porque era fraco em matemática, o que lhe produziu novo recalque contra os “métodos de ensino” na sua pátria (...). E confessa que nesta época sua leitura predileta, matéria que Julgava forte, era a de novelas policias e gênero “Far West”. Queixa-se também das “injustiças” que lhe faziam no lar, onde os irmãos recebiam "melhor tratamento e mais valiosos presentes”.*”
Limitado intelectualmente, recalcado, mal resolvido com a família, indivíduo de sentimentos pouco nobres, assim começava a se desenhar para o grande público, o perfil de uma das figuras mais proeminentes do comunismo nacional. Segundo o Estado de São Paulo, Honório tomou contato com o comunismo a partir de sua esposa, e sua opção política esteve diretamente vinculada ao seu convencimento
de que “não dava para
ganhar dinheiro nas condições existentes em regime capitalista CM! Além da autobiografia, foram revelados na integra os depoimentos de Martins e de Tampinha
no jornal
o Estado
de
São
Paulo.
O
desgaste
moral
dos
militantes
envolvidos no assassinato seguiu nas coberturas seguintes. Os
pormenores
dos
acontecimentos
ligados
ao
assassinato
ocuparam
papel
relevante na imprensa durante um periodo significativo. O relato dos detalhes passava pela confissão, exumação
30 8]
Ibid. Ibid.
do cadáver,
comunistas
arrependidos negando
seu credo,
142
novos casos de justiçamento aparecendo. Em suma, tínhamos no Brasil os “precursores”
daquilo que mais tarde seria conhecido nos Estados Unidos como macartismo, guardado as devidas proporções. Dentro do quadro apresentado, a fragilidade da segurança partidária vinha à tona
pela imprensa do início dos anos 40, com as delações
feitas por militantes que eram
presos com relação aos que ainda se encontravam em liberdade.A preocupação já era antiga por parte do partido. Em função da insegurança gerada pelas inúmeras prisões no período pós-levante de 1935, é que tivemos instaurado o “Tribunal Vermelho”. Quando
o jornalista
Oswaldo
Costa
abandonou
suas atividades
comunistas,
afirmou: “(...) que, não fora à denúncia por parte de seus companheiros, a polícia não conseguiria detê-lo. E acentua que ninguém a não ser os seus companheiros do “bureau” político, sabia que “Tamandaré” era ele, Oswaldo. As autoridades sabiam da existência do comunista “Tamandaré”, mas não ligava esse nome ao seu. Dessa forma, declarou, poderia continuar na capital sem ser molestado. Afirma que durante quatro anos aqui viveu e continuaria em liberdade se não fosse a traição : 32 . dos companheiros”.
E conclui Oswaldo Costa: “Tendo sido denunciado pelos próprios companheiros, elementos de responsabilidades, nos quais de boa fé depositava a máxima confiança como me considero completamente desligado do Partido Comunista do Brasil, renunciando portanto a qualquer participação nas atividades do mesmo, declaração esta que faço de minha livre e espontânea vontade, por questão de foro intimo e de minha própria dignidade pessoal”.*
Sabe-se que para aqueles que eram prisioneiros políticos na era Vargas, resistir aos processos de tortura era algo bastante difícil.O próprio caso de Harry Berger torna-se revelador. Ao que tudo indica não delatou seus companheiros no período pós-levante, em
1935. No entanto após o termino do Estado Novo, ao retornar para a Alemanha,suas
condições mentais eram extremamente precárias.
da comunistas”, p. 2.
”
O Estado de São Paulo,
Ibid.
18/4/40.
“Descoberta
de crime praticado
por elementos
143
Se tivemos por um lado, um militante como Harry Berger que resistiu às torturas, temos vários outros que ao que tudo indica, delataram seus companheiros como é o caso, por exemplo de Miranda, Rodolfo Ghioldi, que estavam longe de serem figuras de pouca expressão na época. Dentro da ética estalinista, que no Brasil se associava ao forte peso que os tenentes exerciam sobre o partido, ficava bastante difícil conviver com esse tipo de realidade. Mais dificil ainda ficava, no início dos anos 40, conviver com aquilo que se revelava com a prisão dos executores de Elza. A exceção de Prestes, todos os demais ao serem presos, confessaram o crime, que até então se configurava para eles como uma questão de estado. Além disso apareciam militantes dizendo-se arrependidos de seu passado como Oswaldo Costa que apontava indivíduos proeminentes do partido como seus delatores.
Além de todos os problemas gerados pelo desgaste decorrente do assassinato de Elza
Fernandes,
apresentavam-se
também
dirigentes
que
“matavam
traidores”
e ao
mesmo tempo “tratam seus camaradas”, segundo o enfoque dado pela imprensa. Um outro caso, citado pela imprensa para a construção do “perfil assassino” dos
executores de Elza Fernandes, foi noticiado no jornal o Estado de São Paulo de 8 de maio
de 1940. A matéria trata das diligências feitas pela polícia para descobrir o
paradeiro de Bernardino Pinto, comunista que segundo a imprensa paulista havia “sido escalado por
Martins
para ser sacrificado por se ter tomado
suspeito perante os
“Camaradas” encarregados da propaganda”** Segundo a matéria, Bernardino Pinto ou ainda Dino Padeiro como era conhecido no meio
comunista,
chegou
a cair nas mãos
dos “carrascos
do Tribunal
Vermelho”,
sendo que o fato de ter escapado se constituiu como um golpe de sorte.No caso em questão, aparece destacado além do nome de Martins, também o de Miranda e o de Luiz Cupelo Caloni, irmão de Elza.
E
O Estado de São Paulo, 8/5/40, “Ecos da intentona comunista no Rio de Janeiro”, p. 2.
144
O relato da tentativa de assassinato de Dino Padeiro aparece na matéria da seguinte forma: “O “Padeiro” declarou que em agosto de 1936, (...), foi procurado por Manucl Bomfim e Luiz Copello Caloni, os quais disseram que Honorio o intimava a comparecer a uma importante reunião, (...) “Dino Padeiro” que (...) vinha sendo acusado de pusilânime e traidor pelos principais membros do partido quis (...) se negar a acompanhar Bomfim e Copello. Estes insistiram, dizendo que Honório queria (...) que ele prestasse informações sobre o comício da Fabrica Botafogo, por ele dirigido e que foi dissolvido pelas autoridades policiais com a prisão de numerosos comunistas. Dino resolveu acompanhar os dois e quando se aproximavam da ponte de Amonim, Copello sacando um revolver, virou-lhe violenta coronhada na cabeça, pondo-o sem sentido ao solo. Em seguida acionado o gatilho da arma, desfechou-se 2 tiros, onde a carga falhou, Bomfim entregou-lhe a pistola e Copello, por 2 vezes o alvejou novamente deixando ao solo banhado em sangue e fugiram em seguida. “Dino Padeiro” relatou ainda que”, gravemente ferido, chegou no Hospital (...), declarando que fora vitima de ladrões”.*
O ocorrido o levou a se afastar das atividades comunistas. Ao ouvir relatado pela imprensa sobre o assassinato de Elza Fernandes, comentou com alguns frequentadores da padaria onde trabalhava o que lhe havia ocorrido há alguns anos atrás. O fato foi levado ao conhecimento da polícia, que o “convidou” para prestar depoimento sobre a “tentativa de assassinato”.
Ao
comparecer
à
delegacia
foi
acareado
com
Miranda
e
Cupelo,
que
reconheceram e confirmaram toda a sua narrativa.
Mais uma vez era evidenciado no universo da ação política do comunismo brasileiro, os seus “escusos métodos
Fernandes
representavam
de ação”.
naquele momento
Oswaldo
Costa, Dino
as “vítimas” de uma
Padeiro
e Elza
doutrina política
“utópica”, que servia para abrigar indivíduos que tinham todo tipo de “deformidade”, da “social à psíquica”. A única forma de “resguardo” da sociedade brasileira estava na ação enérgica do Estado. O levante de 1935 e seus desdobramentos era compreendido como resultado da 3
Ibid
145
inoperância do Estado liberal, que ao fazer defesa das liberdades individuais, deixava
brechas para que doutrinas nocivas ao bem estar social pudessem se expandir de forma indiscriminada pelo Brasil e pelo mundo. Essa postura adotada pelo governo Vargas aparece de forma bastante clara em matéria evidenciada pela imprensa no início dos anos 40: “Reflexo da agitação doutrinaria (...) pelo mundo, o comunismo, com seus postulados utópicos, conseguiu seduzir um grupo de ideólogos, completamente alheios á nossa realidade. A esse grupo (...) juntaram-se os demagogos (...). As classes trabalhadoras constituíram campo para a sua ação dissolvente e antinacional. A 3º Intemacional, no seu sonho de denominação universal, viu no Brasil uma presa fácil. Transformou a
nossa pátria em quartel general das suas atividades criminosas na América do Sul. Enviou-nos o comintem um grupo de agitadores, (...). Houve brasileiros degenerados que se mancomunaram com os inimigos do nosso pais e, (...), procuraram transformar-nos numa sucursal de Moscou. Acobertados
favorecidas
por
disfarces
por uma
(...),
legislação
acenando
fraca
com
apegada
bandeiras
ao tabu
da
sedutoras,
liberdade
individual, os comunistas encontram meios (...) de levar avante a sua obra
de demolição social e política. O Brasil, porém, pelas suas forças vivas,
(...). tradicionalmente cristão, soube repelir (...) esses inimigos” .*. A matéria acima citada, ao falar do empenho do país em repelir os comunistas, colocava em destaque a figura do então major Filinto Muller do capitão Batista Teixeira e de todos os funcionários da polícia, enquanto indivíduos dinâmicos e inteligentes, que, ao empenharem-se na liderança da repressão aos comunistas, desempenharam de forma
brilhante as suas funções.
Sua tarefa era “dificílima”, pois tinham
que agir contra
“agitadores profissionais?” como Prestes, Berger, e outros. A “hidra vermelha” apesar de ter sido vencida no período pós-levante, ainda apresentava, segundo a ótica do
O Estado de São Paulo, a possibilidade de articulação. A prova de que o “perigo existia”, deu-se com as inúmeras prisões realizadas nesse período. O país deveria ter uma enorme dívida de gratidão com cidadãos abnegados que: “Graças a esse esforço (...), o Brasil pode continuar sua vida de paz e de progresso. O vírus do comunismo não conseguirá penetrar o organismo 36 O Estado de São Paulo, 9 /5/40, “Completamente desarticuladas as Atividades Comunistas”, p. 2.
% it
Ibid. Ibid,
146
nacional.A imprensa, que interpreta o pensamento do povo, não pode silenciar esta ação inteligente e continua da Policia Civil do Distrito Federal articulada com as suas congêneres de todos os Estados. Os aplausos dos jomnaes significam os aplausos de todas as classes sociais do país. Por este motivo, o major Filinto Miller e o capitão Baptista Teixeira moram, hoje, no coração dos brasileiros. Todos lhe são gratos, pois ao seu patriotismo devemos o ambiente de paz, tranquilidade e trabalho em que se encontra o Brasil. E todos, unânimes, fazem votos para que esses chefes denotados que, em ocasiões dificeis se revelaram á altura da situação, continuem, por muito tempo, á emprestar á nossa pátria o seu esforço eficiente e a sua , =] 2.77 39 capacidade, no espinhoso sector da manutenção da ordem social”.
Não existia o menor constrangimento por parte da imprensa da época como o jornal o Estado de São Paulo, brasileira.
E, em
diante
um
de
tal condição,
“perigo”,
era
de se auto-intitular como emitir opiniões
necessário
para
o porta-voz da sociedade
“coletivas” acerca da ação que
continuasse
a existir
da polícia um
aparato
repressivo do estado brasileiro durante o periodo do Estado Novo. Dentro do sensacionalismo que fez parte da cobertura do caso Elza Fernandes, frequentemente,
retornava
aos jornais
notícias
de Prestes como
a do Estado
de São
Paulo de 15 de maio de 1940, em matéria sobre as declarações de Prestes às autoridades cariocas. A acareação entre Prestes e Martins, de Bangu e “Cabeção”,
como
intensa
e recoberto
de
dramaticidade.
Prestes
não
revelou
foi classificada
nada
em
seu
depoimento, sendo o único envolvido no caso a guardar silêncio. Ainda no dia 31 de maio, foi anunciado pelo mesmo jornal, a prisão de dezenas de suspeitos acusados de envolvimento com o PCB. Os
detidos,
segundo
fontes
policiais
tentaram
no
dia
1º de maio,
dar
uma
demonstração de força, em função das prisões de Martins e outros. A repressão só não foi maior devido aos desacertos da polícia carioca. Alimentando a imprensa nacional e reforçando a ação repressiva do Estado Novo no ano de 1940, o assassinato de Elza Fernandes se manteve em destaque nos grandes Jornais até o final do ano em questão. A sentença condenatória dos envolvidos no crime
147
foi anunciada em 7 de novembro de 1940. No dia 8 de novembro
cobertura
do julgamento
mobilizava
as
atenções
dos
do mesmo
grandes
jornais
mês, a
do
país.O
julgamento dos envolvidos, efetuado pelo TSN, foi classificado pelo jornal Correio aa Manhã como espetacular.
No relato do julgamento não poderia faltar destaque para Prestes, único dos acusados que esteve presente no tribunal, mais uma vez frustrando a possibilidade de aumentar o sensacionalismo sobre o caso, na medida em que este permaneceu ainda a negar a autoria das cartas que o incriminavam. Outros jornais, como o Estado de São Paulo, também deram forte cobertura à sentença condenatória do Tribunal de Segurança Nacional. O Estado de São Paulo já vinha, nos meses anteriores,
fornecendo
inúmeros
detalhes sobre a morte de Elza. Torna-se interessante observar que em matéria divulgada pelo jornal, ainda no mês de abril de 1940, Elza era isentada de toda a culpa de traição,
passando a culpa para o secretário-geral do partido à época do levante: “Miranda que amava bastante a rapariga fez tudo o que lhe era possivel para inocenta-la e para que ela conseguisse a liberdade, forneceu a pista
que permitiu fosse efetuada a prisão de Ghioldi, o secretario do Partido Comunista
Argentino,
que
se
agitadores vermelhos. Os extremistas, ainda
encontrava
em
liberdade
nesta
atribuíram
Capital,
ce de
informações
outros
dadas
à
policia, a Elza, por não acreditarem ser “Miranda” capaz de apontá-los à
policia. Estudada a conduta de Elza, por um tribunal vermelho, do qual faziam parte Honório de Freitas Guimarães. Adelino Deycola dos Santos e José Lago de Morais ficou resolvido que escrevessem a Luiz Carlos Prestes pedindo sua opinião pelo caso, Respondeu, então, o chefe vermelho que dessem à moça o castigo que mereciam os delatores: a morte”.”
Quando a sentença é anunciada pela imprensa em novembro de 1940, estava se falando de um processo envolvendo
o assassinato de uma menor por “agentes do
comunismo”, que além de ter sido “barbaramente trucidada”, era inocente. Ficava dificil
39
. Ibid.
%
Jornal do Brasil. 18/4/40, “Porque os vermelhos condenaram Elza á morte - Ordem de
Luís Carlos Prestes”, p. 10.
:
148
acreditar
numa
possibilidade
por menor
que
esta fosse
de um
resgate
moral
dos
dirigentes envolvidos no assassinato. A imprensa foi meticulosa ao pormenorizar dados sobre os requintes de crueldade que envolveu anticomunista
assassinato
reforçada
de Elza,
pelo governo
dava
Vargas
o alento
sua morte.
A junção
a partir do levante
necessário
para
que
da propaganda
de
1935,
a sociedade
com
o
brasileira
“transigisse” no sentido de manter o poder das forças repressivas, que ao agirem em nome
da segurança
da nação,
contribuíram
em grande parte para a manutenção
do
Estado Novo até o ano de 1945.
Não se trata aqui de superdimensionar a importância do caso, nem tampouco considerá-lo como determinante para a continuidade da ação repressiva do estado até 45. Agora, sem dúvida que a revelação do caso, da forma como foi feita, contribui e muito para reforçar o discurso do perigo vermelho. Era fundamental, para justificar o aparato repressivo, dizer que os comunistas
poderiam voltar a “ameaçar a nação”. Repressão,
sem o eminente perigo vermelho,
ficava difícil de ser sustentada.
A “legitimidade”
política da ditadura varguista, tinha como elemento central para o fortalecimento de suas posições,
o fato de o país estar “constantemente
ameaçado
pelos
comunistas,
que
regularmente reavivavam as suas conspirações, apesar dos esforços policiais”. Os comunistas através da política desenvolvida por seu partido ao longo dos anos 30, ao invés de sensibilizar a opinião pública sobre os riscos eminentes representados pelas
ações
repressivas
do
Estado
varguista,
conseguiram
fornecer
os
elementos
necessários para que o frágil modelo republicano sucumbisse a fórmulas autoritárias que marcaram o quadro político nacional ao longo do período correspondente a Era Vargas. A
perspectiva
revolucionária
do
PCB
na década
de
1930,
perdeu-se
num
emaranhado de problemas que trouxeram a tona à fragilidade partidária, diante de um quadro de militantes que ao tentar aplicar o modelo de revolução à realidade política nacional,
esbarrou
no
despreparo
teórico
para
uma
leitura
mais
realista
sobre
as
possibilidades de desenvolver uma ação de tomada de poder no país durante os anos 30.
149
Ao entrar em evidência, nos anos 40, o caso Elza, conflitos, deformações teóricas e uma confusa ética revolucionária vieram à tona, dentro de uma conjuntura política que ao se apresentar como desfavorável, marcou profundamente a imagem dos comunistas brasileiros diante da opinião pública nacional.
CONCLUSÃO
O enfrentamento político do PCB com o governo Vargas entre os anos de 1930 e 1945, foi marcado por uma série de ações
frustradas que revelaram uma desproporção
de forças que beneficiou amplamente a repressão instituída por aqueles que governaram o estado brasileiro neste período. Além
da
fragilidade
política
do
PCB,
outros
aspectos
importantes
foram
revelados a partir das frustradas ações políticas do partido no periodo pós-levante de 1935. No
caso especifico do assassinato de Elza Fernandes,
nos deparamos
com
a
condução de um processo interno movido por importantes dirigentes partidários que, ao julgarem um
suposto caso de traição, passaram
a revelar as limitações concretas em
termos de avaliação política de dirigentes que, naquele momento, tinham em suas mãos os destinos do PCB. A ética revolucionária foi revelada pela caracterização daquilo que representava Elza
Fernandes,
em
um
momento
de
grande
tensionamento,
para
indivíduos
que
jogavam com possibilidades muitos estreitas de reversão do forte quadro repressivo que marcava
a política brasileira.
O
que
fazer com
uma
militante que segundo
a ótica
daqueles que a avaliavam colaborava com a polícia entregando seus camaradas? Esta
151
pergunta
permeou
sistematicamente
os debates
que
envolveram
os comunistas
que
comandavam o PCB na época. A voz dos que defendiam a possibilidade de manter Elza viva se apresentou como voto vencido. A força coercitiva, daqueles que entendiam que a mesma
não apresentava uma postura condizente com
a sua posição, predominou
nos
encaminhamentos feitos. A “dura realidade” criava um sentido de urgência para decisões
vitais para a sobrevivência política do projeto do PCB. Segundo a lógica daqueles que defendiam a execução de Elza, não era concebível que intermináveis debates em torno da questão
segurança
viessem
a imobilizar
encaminhamentos
daqueles que ainda apresentavam
alguma
centrais
para
a manutenção
da
possibilidade de retomarem
a
ofensiva do partido diante do governo Vargas. Afinal, um comunista comprometido com a causa da revolução deveria devotar a sua vida para transformar o modelo de sociedade. A
abnegação
constituía
elemento
indispensável
para
aqueles
que
compreendiam
a
missão de mudança de que estavam imbuídos. Certamente que essa lógica, estabelecida enquanto padrão ético de comportamento, manifestava o perfil politicamente correto do comunista da época. Elza Fernandes seguramente não foi o único caso que levantou suspeitas por
parte do partido de estar colaborando com o inimigo. Mas no momento em que as suspeitas foram levantadas com relação a ela, constituiu-se uma situação que extrapolou
num crescendo a sua real importância, fugindo do controle de qualquer decisão que primasse pelo bom senso. Não se trata aqui de julgar o mérito se ela de fato foi ou não responsável pelas prisões que ocorreram no seu entorno. Para os objetivos desse trabalho, esta questão se revela como
pouco
significativa. Porém
não é insignificante a forma como
foram
encaminhadas as discussões sobre o destino da mesma. A revelação do peso político nas instâncias
decisórias
do
partido,
por
parte
de
Prestes
e Martins,
assinalaram
o
personalismo vigente nas relações entre os seus dirigentes e revelaram a fragilidade do centralismo democrático.Se este de fato funcionasse como deveria, não abriria brecha para esse tipo de distorção que ao bem dizer acompanhou a trajetória política do partido ao longo de sua existência. Na prática, a forma como foram encaminhadas as decisões
la Tni YATECA CF:
152
de o que fazer no caso de Elza Fernandes,
representou o ônus pago por uma estrutura
partidária que não conseguiu superar a sua condição de partido de
quadros para uma
estrutura de massas.
Creio que a própria compreensão leninista de partido e revolução, apropriada num momento posterior à morte de Lênin por Stálin, serviu muito para acentuar essa tendência.
Por sua vez, as formas autoritárias de encaminhamento
político feitas pelo
partido no período não destoou da tônica política predominante na época. As complicações que envolveram
a tomada de decisão sobre o que fazer com
Elza Fernandes não ficaram restritas só no que se refere ao debate interno. Existia um forte receio por alguns setores envolvidos na decisão de executá-la, sobre o profundo
desgaste que o partido sofreria diante da opinião pública caso o assassinato viesse à tona. Mesmo assim, a avaliação feita era a de que o risco oferecido por Elza era bem mais concreto
do que um
possível
impacto
posterior a ser sofrido
pelo partido.
Elza
foi
executada. O caso permaneceu envolto em mistério até a captura de seus executores no
início dos anos 40. O tratamento dispensado ao caso por parte do governo Vargas, representou um verdadeiro desastre político para um partido que dentro de um forte aparato repressivo no início dos anos 40 lutava por sua sobrevivência. Foi oferecido para aqueles que construíram em grande parte a justificativa para seu autoritarismo, em cima do discurso anticomunista, os elementos concretos para serem apresentados à sociedade da época. No caso encontrava-se boa parte dos estereótipos das caracterizações feitas sobre o comunismo no Brasil. A imagem do comunista frio, calculista, capaz de tudo por uma
“causa absurda”, aparecia corporificada
imprensa
vendeu
o
caso
para
a
em
sociedade
elementos graduados
alimentando
de
do partido.
forma
A
intensa
o
sensacionalismo do caso.
Mesmo com o impacto negativo do caso, o partido nunca reviu oficialmente a sua posição diante do fato. O mesmo se tornou uma espécie de tabu entre os comunistas.
Nos vários anos em que esteve à frente do partido, Prestes muito pouco se posicionou
153
acerca do assassinato. Manteve o mesmo
silêncio que assumiu ao longo do processo
instaurado
que
pelo
TSN.
As
poucas
vezes
se manifestou,
foi para
reafirmar
sua
inocência. Mas, independente de culpas, o caso em si não serviu para que os dirigentes fizessem uma reflexão mais aprofundada sobre as relações de poder dentro do próprio
partido bem como a questões ligadas a segurança de seus militantes. A marca do estalinismo sobre os comunistas ligados ao PCB falou mais forte. Expurgos e decisões tomadas por um grupo restrito dentro da estrutura partidária, se tornaram uma prática aceita não só em momentos de exceção, como o cenário de 1930, onde o autoritarismo se fez constante nas relações políticas brasileiras, pressão política sobre os comunistas, se
mas também em momentos de menor
bem que esses momentos não se constituíram
como regra ao longo da trajetória do partido na política brasileira. Mesmo a fase posterior a desestalinização ocorrida
nos anos 50, não ofereceu
condições para a retomada de um diálogo com a sociedade. A bem da verdade, acredito que a ação desencadeada por Kruschev
no XX
congresso
do PCUS,
apesar de ter
impactado os comunistas brasileiros, não serviu para democratizar as relações políticas dentro do partido.
R
A combinação da ausência de liberdade vista através da concepção de um partido de quadros, ao se fundir com o viés autoritário que marcou a trajetória das relações políticas no Brasil, causou um divórcio grande entre o PCB e a sociedade. Isolado, o partido não conseguiu estabelecer sua identidade política, concebendo suas ações muito mais
ao
sabor
das
conjunturas,
do
que
de
um
projeto
mais
sistematicamente
articulado.Claro que não desconsidero que em várias greves ocorridas no Brasil na fase populista o partido teve um peso considerável. No entanto, esse peso no meio sindical, não serviu para aparelhar de forma mais eficiente a ação do partido para o enfrentamento com
as proposições
políticas
veiculadas
pela
burguesia
brasileira.
Não
se firmar
enquanto alternativa política nos anos 30, sair da Era Vargas com imagens distorcidas sobre um possível modelo de sociedade alternativa ao capitalismo,
conduziu o partido
ao quase ostracismo político nos anos subsequentes. Compreendo que contra essa linha de abordagem, podem ser apresentados os resultados obtidos pelo partido no processo
154
eleitoral desencadeado após a deposição de Vargas." No entanto, o percentual obtido pelo candidato comunista nas eleições presidenciais que finalizaram com a eleição de Dutra, o fato de Prestes ter sido o senador mais votado, e de outros tantos parlamentares terem sido eleitos, não impediu que a sociedade silenciasse diante da arbritária cassação feita pelo dito governo democrático aos representantes do partido legalmente eleitos. Não pretendo afirmar em minha conclusão que a trajetória política do partido tenha sido uma sucessão de erros, até mesmo
por que não teria como
sustentar tão
disparatada afirmação. Também não é minha intenção superdimensionar o caso Elza Fernandes, a ponto de considerá-lo determinante no desgaste sofrido pelo partido ao longo de períodos subsegiientes. Se por um lado não me atreveria a isso, acredito que não me arriscaria tanto em afirmar que a forma de percepção da teoria marxista, aplicada de
maneira
confusa
nos
encaminhamentos
políticos
do partido
diante
do
cenário
nacional, levou a grandes equívocos, como o assassinato de Elza, que se integra a um contexto mais amplo
marcado pelo levante de 1935. Estes equívocos
reafirmar dentro do discurso
serviram para
conservador das elites brasileiras, uma imagem irreal de
um projeto marxista que no Brasil não conseguiu atingir a sua maturidade a partir do PCB,
em grande parte em decorrência da falta de capacidade de compreensão
das
possibilidades oferecidas pelo marxismo para a transformação da realidade nacional.
!
“O partido recebeu quase
9%
do total de votos e elegeu quatorze
deputados
e um
senador. Além disso, com o sistema eleitoral de representação proporcional, o PCB elegeu 109 suplentes de deputados. Prestes concorreu ao cargo em muitos estados e foi eleito senador pelo Distrito Federal e deputado em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Distrito Federal: optou pelo
posto de senador. Dutra recebeu 55% dos votos para a presidência, Gomes recebeu 35% e Fiúza 10% (...),
mas o PCB recebeu a maioria dos votos partidários nas cidades industriais e capitais dos estados (...)” (In: CHILCOTE, op. cit, p. 97).
155
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Diário de Notícias, Porto Alegre, março de 1936. O Estado de São Paulo, abril e maio de 1940. Jornal do Brasil, abnil de 1940. * Os jornais foram pesquisados no museu de Comunicação Social Hipólito José da
Costa de Porto Alegre.
3) OUTROS Tribunal de Segurança Nacional, processo 1381 v. 1-2-3
* O processo foi pesquisado no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.