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Portuguese Pages 284
![Apostila Poliedro - Português [Volume 3]](https://ebin.pub/img/200x200/apostila-poliedro-portugues-volume-3.jpg)
Museus Reais de Belas Artes da Bélgica, Bruxelas
La calanque, de Paul Signac, 1906.
FRENTE 1
CAPÍTULO
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Pontuação: emprego e efeitos de sentido A obra La calanque é formada por uma série de pontos, técnica conhecida como “pontilhismo”. Nela, cada pontinho se relaciona com os demais, compondo um todo, uma unidade de sentido. Assim como na imagem, ao produzirmos um texto, os sinais de pontuação têm um papel importante para a construção de sentidos e contribuem para evidenciar o que queremos transmitir ao nosso interlocutor. Do mesmo modo, identificar cada um desses sinais na leitura é fundamental para a compreensão das ideias centrais do texto. Assim, na leitura ou na escrita, devemos observar atentamente o emprego dos sinais de pontuação, que exercem uma função estilística essencial na construção do texto.
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A pontuação em textos Leia a notícia a seguir, sobre um projeto denominado Cartas de Amor nas Ruas.
Vamos escrever uma carta de amor? Descubra por quê Projeto leva aos alunos do ensino médio e moradores de três regiões administrativas um espaço para pensar sobre as cidades e suas relações sociais Com fomento do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), o projeto Cartas de Amor nas Ruas leva aos alunos do ensino médio do DF, moradores das regiões administrativas de Ceilândia, São Sebastião e Recanto das Emas, um espaço de protagonismo para pensar sobre as cidades e suas relações sociais. Os estudantes participam da produção das cartas juntamente com os idealizadores do projeto, que recebeu aporte de R$ 100 mil e gerou 27 empregos diretos e 48 indiretos. O projeto é da atriz Nadja Dulci. [...] JARDON, Carolina (ed.). Agência Brasília, 16 abr. 2021. Disponível em: www.agenciabrasilia.df.gov.br/2021/04/16/vamos-escrever-uma-carta-de-amordescubra-por-que/. Acesso em: 27 set. 2023.
Richardson Freitas
Quando falamos, a maneira como dizemos um enunciado permite levar nosso interlocutor a compreender os sentidos que pretendemos transmitir. Na escrita, a entonação acaba se perdendo, e a pontuação cumpre esse papel, favorecendo a compreensão das intenções dos sujeitos envolvidos na situação comunicativa. Observe que no título da notícia há um sinal de pontuação – uma interrogação – que sinaliza ao leitor uma pergunta-convite: “Vamos escrever uma carta de amor?”. Se esse sinal não fosse usado, o leitor poderia entender que a manchete apresenta apenas um fato, uma informação, o que prejudicaria o objetivo comunicacional de quem produziu o texto. Já no corpo da notícia, podemos perceber que o ponto-final em cada período indica que a ideia transmitida foi encerrada, o que fica evidente pelo uso desse sinal de pontuação. Na fala, muitas vezes, o silêncio de uma das partes envolvidas no processo comunicativo seria suficiente para indicar o fechamento de uma ideia. Em tirinhas e histórias em quadrinhos, a pontuação também é muito usada para produzir efeitos de sentido. Observe os usos da palavra “novidade” no texto a seguir.
No segundo e no terceiro quadros da tirinha, o uso do ponto de exclamação ao final do termo “novidade”, na fala da mulher, evidencia seu sentimento em relação ao que diz o gerente do banco: ora tristeza, ora desespero. No quarto quadro, no entanto, essa palavra vem seguida de reticências, o que indica que o gerente provavelmente estaria acostumado com o tipo de pedido feito pela mulher, mostrando seu desânimo diante do ocorrido. As reticências, então, deixam no ar uma ideia de que o gerente não tem mais esperanças de que aquela situação – descontrole financeiro e consequente solicitação de empréstimo – mude. Além de demarcar a entonação, os sinais de pontuação têm outra função importante: separar os elementos que se intercalam ao núcleo informacional da frase. Assim, como não se separam o sujeito do predicado e o verbo de seus complementos, o uso da vírgula permite a inserção de outros termos sintáticos que contribuem para a construção de sentidos do texto. Imagine, por exemplo, que o gerente tivesse dito: Você extrapolou, mesmo depois de muitos avisos, o limite do seu cheque especial! A informação destacada precisa ser colocada entre vírgulas porque houve quebra da organização sintática básica da língua: sujeito, verbo e complemento. Os diversos sinais de pontuação têm funções específicas no texto, por isso é fundamental conhecer cada um deles.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 11
Pontuação: emprego e efeitos de sentido
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Usos da vírgula I A vírgula pode ter várias funções em um enunciado. Veja algumas delas: a) Separar elementos de mesma função sintática, enumerados em uma sentença Leia um novo trecho da notícia que trata do projeto Cartas de Amor nas Ruas. [...] Cartas de Amor nas Ruas alcançou mais de 194 mil pes soas, com forte engajamento também nas redes sociais, graças ao formato virtual, chegando a muitas cidades do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Juiz de Fora, São João Del Rey, Ouro Preto, Fortaleza, Santos Dumont e Viçosa. [...] JARDON, Carolina (ed.). Agência Brasília, 16 abr. 2021. Disponível em: www.agenciabrasilia.df.gov.br/2021/04/16/vamos-escrever-uma-cartade-amor-descubra-por-que/. Acesso em: 27 set. 2023.
Nesse parágrafo, é possível perceber que há uma enumeração das várias cidades atendidas pelo projeto. Ao citar cada uma delas, a vírgula é obrigatória, pois “São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Juiz de Fora, São João Del Rey, Ouro Preto, Fortaleza, Santos Dumont e Viçosa” são palavras que demarcam os lugares onde o projeto foi realizado. Sintaticamente, todas funcionam como adjunto adverbial de lugar. A mesma enumeração pode ser observada no anúncio a seguir, já que a expressão “de afeto, de amor, de proximidade” indica o tipo de carência a que as pessoas estão sujeitas, especificando o sentido do predicativo “carentes”.
Podemos observar que a repetição da palavra “planta” tem um objetivo discursivo: reforçar a necessidade do trabalho árduo para que se alcance o resultado esperado. Esse é um caso de repetição textual não viciosa e que contribui para reforçar, enfatizar uma ideia. O mesmo pode ser observado no excerto de notícia a seguir, que traz uma transcrição de um vídeo postado em uma rede social.
Climão! Mãe de Flay causa em aeroporto durante viagem de família O climão de festa de ano novo já está garantido para Flay. A cantora viajou com a família para o Réveillon e o passeio já começou daquele jeito. Ainda no aeroporto, duas situações constrangeram a cantora. A primeira envolvendo sua mãe, mais descontraída. A segunda já é um pouco mais séria, sobre o desaparecimento de um objeto da paraibana dentro do avião. Ainda antes de decolar, ela apareceu sentada em uma das mesas do aeroporto, com toda a família e brincando sobre uma cena que a mãe teria causado. E ela só fingindo costume. No vídeo, ela dá um conselho aos mais de 7 milhões de seguidores do Instagram, pedindo para que eles pensem duas vezes antes de marcar uma viagem com toda a família, como ela fez. “Fica a dica: pense bem antes de viajar com a família toda. Mãe já causou tanto aqui, gente. Tanto, tanto, tanto, tanto. Pelo amor de Deus!”, “Olha ela, faz a egípcia. Menino, o que essa mulher já fez dentro desse aeroporto hoje, cê pensa! Agora que eu vim dar uma relaxada!”, explicou a ex-BBB20. [...]
atibody/Shutterstock.com; Kwannokprom/Shutterstock.com
PESSOA, Vinicius. O fuxico, 29 dez. 2021. Disponível em: www.ofuxico. com.br/viagens/mae-de-flay-causa-em-aeroporto-durante-viagem-defamilia/. Acesso em: 27 set. 2023.
A cantora Flay, ao comentar as ações de sua mãe durante a viagem em família, reforça para seus seguidores que a matriarca havia causado muita confusão: “Mãe já causou tanto aqui, gente. Tanto, tanto, tanto, tanto. Pelo amor de Deus!”. A repetição da palavra “tanto” é uma estratégia argumentativa para destacar a intensidade das travessuras da mãe da artista, que não foram poucas. Mais uma vez, é uma repetição que tem uma função importante para o sentido do texto. Em relação à pontuação, os dois textos lidos evidenciam mais uma função da vírgula: separar termos repetidos. c) Demarcar um termo deslocado em frases na ordem indireta
Quando mencionamos uma relação de elementos enumerados, com a mesma função sintática, eles devem vir separados por vírgula no texto escrito. b) Isolar termos repetidos Leia um trecho da declaração de um integrante da família Bauducco sobre a empresa fundada há mais de 70 anos e os esforços feitos para que ela pudesse prosperar. A gente planta, planta e uma hora a coisa vai. [...] DESIDÉRIO, Mariana; ARANHA, Carla. Exame, 26 mar. 2020. Disponível em: https://exame.com/revista-exame/a-familia-a-frente/. Acesso em: 27 set. 2023.
A organização padrão da língua prevê que uma frase tenha a seguinte ordem: sujeito, verbo e complemento (SVC). Se isso ocorre, dizemos que ela está na ordem direta. No entanto, para dar maior destaque a uma informação, podemos fazer adaptações no enunciado de acordo com a intencionalidade; nesse caso, quando não seguimos a regra SVC, dizemos que a frase está na ordem indireta. A jornalistas, político se desculpa por declaração preconceituosa Nessa oração, o sujeito (“político”) realiza uma ação marcada pelo verbo “desculpar-se”. No entanto, um dos complementos verbais (“a jornalistas”) não aparece após o verbo – como dita o padrão SVC –, mas, sim, antes dele.
FRENTE 1
De Olho no Mercado, 2020. Disponível em: https://www.deolhonomercado. com.br/deolhonomercado/economia/2020-06-12-dia-dos-namorados-ascampanhas-preferidas-dos-publicitarios. Acesso em: 27 set. 2023.
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Por esse motivo, é necessário colocar a vírgula logo após o termo deslocado. Ordem indireta (vírgula obrigatória) A jornalistas, político se desculpa por declaração preconceituosa termo deslocado
Quando vier no fim da sentença, no entanto, a vírgula não deve ser utilizada, já que a frase está na ordem direta. Posição do adjunto adverbial – frase na ordem direta Voluntários plantam milhões de árvores na Índia em apenas um dia.
Considerando a intencionalidade da comunicação, há diferenças de sentido entre as duas frases: na primeira, o destaque é “a quem se pediu desculpas”; na segunda, o foco está em “quem pediu desculpas”. A forma como escolhemos apresentar uma informação revela nosso posicionamento sobre dado assunto e é um recurso bastante usual em textos jornalísticos e literários. d) Isolar um adjunto adverbial anteposto ou intercalado Observe a manchete a seguir sobre uma quantidade de árvores plantadas durante uma ação em prol do meio ambiente.
Em apenas um dia, voluntários plantam 250 milhões de árvores na Índia CARVALHO, Monique de. Só Notícia Boa, 21 jul. 2021. Disponível em: www.sonoticiaboa.com.br/2021/07/21/apenas-dia-voluntarios-plantam250-milhoes-arvores-india. Acesso em: 27 set. 2023.
O termo que inicia a sentença traz uma informação de tempo, evidenciando a duração da ação. Sintaticamente, ele funciona como adjunto adverbial, que pode ser colocado no início (antes do sujeito), no meio (intercalado entre o sujeito e o verbo, por exemplo) ou no fim da sentença (após o complemento).
Atenção Adjunto adverbial é o termo da oração que modifica o verbo, o adjetivo, o próprio advérbio ou, ainda, toda a sentença, acrescentando uma circunstância que pode indicar lugar, tempo, modo etc.
Nas frases em que o adjunto adverbial vier no início (anteposto) ou no meio (intercalado), é obrigatório o uso da vírgula, pois o termo na sentença ficou invertido (em comparação à ordem SVC). Posição do adjunto adverbial – frase na ordem indireta
Em apenas um dia, voluntários plantam milhões de árvores na Índia. adj. adverbial intercalado Voluntários, em apenas um dia, plantam milhões de árvores na Índia.
LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 11
Nunca plantei árvores.
Aqui não é a Índia.
Ontem fiz trabalho voluntário.
Contudo, se o interlocutor desejar dar um destaque maior à ideia indicada pelo advérbio, a vírgula pode ser utilizada. Assim, para realçar um sentido, a vírgula tem um papel fundamental. Hoje, não quero mais falar sobre isso.
Hoje não quero mais falar sobre isso.
No primeiro caso, a frase ressalta o tempo (“hoje”) em que não se quer conversar, dando a entender que, em outro dia, será possível o diálogo. A vírgula, então, é usada para evidenciar essa ideia. A segunda frase, no entanto, sem o uso de vírgula após “hoje”, pode ser lida como um todo de sentido em que a ideia “não quero mais falar” é mais importante, sem preocupação com o tempo. A vírgula pode ainda ser utilizada quando o adjunto adverbial empregado (mesmo que seja formado só por um advérbio) modifica toda a oração. Nesse caso, ele aparece no início ou no final da sentença. Provavelmente, eu vou ser aprovado.
Eu vou ser aprovado, provavelmente.
Observe que o uso da vírgula, nesse caso, também dá um destaque à informação expressa na oração sobre a qual recai o sentido do adjunto adverbial. e) Isolar o vocativo Leia a tirinha a seguir.
Uso da pontuação
adj. adverbial anteposto
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Quando o adjunto adverbial é formado por uma palavra apenas (um advérbio, e não uma locução adverbial, por exemplo), a vírgula não precisa ser utilizada.
Armandinho, de Alexandre Beck
termo não deslocado
Vírgula não necessária
adj. adverbial posposto
Ordem direta (sem vírgula) Político se desculpa por declaração polêmica a jornalistas.
Uso da pontuação
Vírgula obrigatória após o adjunto adverbial
Vírgula obrigatória antes e após o adjunto adverbial
Nas duas primeiras falas da personagem Armadinho, observamos que os termos “mãe” e “pai” estão isolados do restante da sentença por uma vírgula, exercendo a função sintática de vocativo. Isso ocorre porque o garoto, ao realizar uma pergunta para a mãe e outra para o pai, faz uso dessas expressões para chamar seus interlocutores a quem dirige as perguntas. Portanto, sempre devemos usar vírgula depois do vocativo.
Pontuação: emprego e efeitos de sentido
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Vocativo é o termo da oração que destaca o interlocutor a quem se dirige o enunciado.
f) Isolar o aposto explicativo O trecho de notícia a seguir fala de uma garota que tinha o sonho de ter uma cama nova, tendo seu desejo realizado por uma equipe de policiais. Leia-o. Micaely Aparecida Dias Santos, de 9 anos, comoveu os policiais militares de São João do Pacuí, cidade a 490 km de Belo Horizonte, em Minas Gerais. A menina, que mora com a família em uma área rural a 12 km da cidade, desejava ter uma cama nova e realizou o sonho após escrever uma cartinha e entregá-la na sede da Polícia Militar da região. [...] MENINA de 9 anos realiza sonho de ter cama depois de enviar carta para a PM. UOL, 16 jun. 2021. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ cotidiano/ultimas-noticias/2021/06/16/menina-de-9-anos-realiza-sonho-deter-cama-depois-de-fazer-pedido-para-pm.htm. Acesso em: 27 set. 2023.
Na notícia, os termos destacados cumprem uma importante função: servem para acrescentar uma explicação em relação ao que foi dito anteriormente no texto. A vírgula, então, deve ser colocada sempre antes e após um elemento explicativo – que, sintaticamente, é um aposto –, isolando-o do núcleo informacional central. Assim, “de 9 anos” é uma informação relevante sobre o sujeito da sentença (“Micaely Aparecida Dias dos Santos”), trazendo a idade da criança. Já o termo “cidade a 490 km de Belo Horizonte” explica onde fica São João do Pacuí, para que o leitor tenha alguma referência de localização, pois se trata de um município pouco conhecido.
Atenção Aposto é o elemento sintático que pode evidenciar uma explicação ou resume um termo apresentado anteriormente na oração.
Se o aposto vier ao final da frase, a vírgula é inserida antes dele, e o período se encerra com um ponto-final. Observe: Micaely recebeu ajuda de policiais militares, os “padrinhos” do sonho da jovem. aposto em fim de frase
vírgula que antecede o aposto
Vale destacar que, além de estar separado na sentença por uma ou duas vírgulas, o aposto também pode estar marcado por outros sinais de pontuação, como dois-pontos e travessão. Micaely recebeu ajuda de policiais militares: os “padrinhos” do sono da jovem. Micaely recebeu ajuda de policiais militares – os “padrinhos” do sono da jovem.
Os sinais de pontuação, portanto – em especial a vírgula, os dois-pontos e o travessão –, são fundamentais nas sentenças em que um aposto precisa ser usado. g) Separar local em datas e números em endereços Na sequência, leia um trecho de uma carta aberta escrita pela Frente Nacional de Prefeitos (FNP), divulgada à imprensa em 2021. O objetivo do documento é chamar a atenção de gestores e órgãos públicos para os problemas enfrentados pela população brasileira, os quais, segundo o órgão, foram agravados durante a pandemia de covid-19.
Carta aberta ao Brasil [...] O país precisa de um plano de retomada econômica, sem ignorar o patamar recorde de quase 15 milhões de pessoas desempregadas; a diminuição da capacidade produtiva da economia e a volta da inflação – um cenário preocupante, que exige medidas emergenciais e a responsabilidade dos governantes, em todas as esferas. O meio ambiente também padece, com queimadas históricas e a destruição de importantes biomas, do Pantanal à Amazônia, dos Pinheirais e searas do Paraná ao Juquery, na grande São Paulo. Com tamanha gama de desafios a serem enfrentados pelo nosso país, não há tempo e nem espaço para desvios e desagregações. Nossas armas devem ser as boas ideias – alicerces da paz social. Defendemos, portanto, a construção de pontes para o efetivo diálogo federativo para a pactuação e coordenação das políticas públicas. Clamamos por respeito à democracia, às instituições e à população brasileira. Brasília, 30 de agosto de 2021. Frente Nacional de Prefeitos PREFEITOS defendem diálogo federativo em Carta aberta ao Brasil. Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos, 30 ago. 2021. Disponível em: https://fnp.org.br/noticias/item/2653-prefeitos-defendem-dialogofederativo-em-carta-aberta-aobrasil. Acesso em: 15 dez. 2023.
Observe que, ao final do texto, a vírgula é usada para separar o local e a data – informações indispensáveis ao gênero textual carta e essenciais para que os dados divulgados em uma carta aberta tenham maior credibilidade e validade. Imagine, por exemplo, que alguém encontre esta carta daqui a 10 anos, ao realizar uma pesquisa para entender como a pandemia afetou os municípios e os cidadãos brasileiros. Essas informações seriam suficientes para que ele situe no tempo o texto produzido, o que o ajudará, de certo modo, em sua análise e interpretação. Vale destacar ainda que se essa carta fosse enviada aos órgãos de imprensa por correio, no envelope também seria fundamental o uso da vírgula para separar as informações do endereço. Além disso, em textos literários, quando se representa uma carta ficcional ou um diário, as datas também devem ser empregadas com o uso da vírgula. h) Separar termos ligados por conjunções coordenadas repetidas Em textos poéticos, conjunções repetidas são utilizadas como um recurso expressivo. Leia o trecho do poema a seguir. [...] Oxalá a minha vida seja sempre isto: O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
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Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo [...] Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir, Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito, E lá fora um grande silêncio, como um deus que dorme. PESSOA, Fernando. O Guardador de Rebanhos, XLIX. In: Poemas de Alberto Caieiro: obra poética II. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 89-90. (fragmento). Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/ download/texto/pe000001.pdf Acesso em: 28 set. 2023.
Nesse fragmento do poema de Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa, podemos observar que, ao descrever como gostaria que fosse sua vida, o eu lírico utiliza a repetição da conjunção “ou” ligando termos da oração: O dia cheio de sol, ou suave de chuva, ou tempestuoso como se acabasse o Mundo
E da conjunção “nem”, que liga duas orações: Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir
A vírgula, nesses casos, é utilizada sempre antes de cada conjunção, separando tanto os termos de uma oração quanto várias orações de um mesmo período.
Saiba mais Na literatura, é recorrente o uso de figuras de linguagem para expressar diferentes intenções. Quando deseja evidenciar uma noção de “acréscimo” ou “sucessão”, o autor pode fazer uso do polissíndeto, figura em que se observa a repetição de conjunções coordenativas (como “e”, “nem”, “mas” e “ou”), as quais podem separar palavras ou orações.
Apesar de ser mais recorrente em textos literários, a repetição de conjunções coordenativas pode ocorrer em outros tipos de textos. Ela está presente, por exemplo, no provérbio “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, sabedoria popular utilizada para expressar equilíbrio em determinada situação, evitando-se extremos.
Usos da vírgula II Além dos períodos simples, as vírgulas são igualmente necessárias em períodos compostos para separar as orações. Vamos conhecer alguns desses usos. a) Separar orações coordenadas assindéticas ( justapostas, sem conjunções) Edifício pegando fogo, funcionários saindo correndo. — É incêndio? — Não, é uma pegadinha do Faustão!!! AVIZ, Luiz. As melhores piadas para crianças. Rio de Janeiro: Pegue & Leve, 2013. p. 110.
A piada constrói-se a partir da falta de compreensão do interlocutor em perceber que a pergunta “É incêndio?” tem função meramente interacional, uma estratégia para puxar conversa. Não se espera, nesses casos, uma resposta objetiva em relação a isso, apenas o início de um diálogo.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 11
No caso da piada, como um dos interlocutores não compreendeu a intencionalidade da pergunta feita, a resposta final foi dada com tom de deboche e ironia. A frase que inicia a piada apresenta duas orações com sentidos completos. Edifício pegando fogo, funcionários saindo correndo.
Oração 1
Oração 2
vírgula separando orações Observe que as orações não estão ligadas por conjunção; então, para separá-las, a vírgula é obrigatória. Seria possível, se o autor quisesse, usar a conjunção “e”: Edifício pegando fogo e funcionários saindo correndo. Contudo, a omissão da conjunção traz maior expressividade ao enunciado, dando maior destaque à descrição. Assim, a escolha por usar a vírgula, em vez da conjunção, contribui para a construção da cena apresentada. b) Separar orações coordenadas sindéticas que estabelecem relação de explicação, oposição, conclusão ou alternância Leia um trecho do livro Torto arado, de Itamar Vieira Junior, que, por meio das histórias de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, retrata o cotidiano da Fazenda Água Negra, no interior da Bahia, marcado não só pelos costumes e crenças do seu povo, mas também pelo passado escravista. No excerto a seguir, Bibiana narra um momento de festividade religiosa, em que inclusive o prefeito da cidade esteve presente, sendo cobrado por uma promessa que havia feito aos moradores. [...] Nessa noite, em particular, estava presente o prefeito. Havia cinco anos, meu pai tinha atendido um de seus filhos. Vieram buscá-lo de carro, um Gordini vermelho, coisa nunca vista em Água Negra. Até então só conhecíamos a Ford Rural da fazenda e os carros que vimos na estrada quando fomos para o hospital por causa do acidente. Desde então, o prefeito aparecia na festa de santa Bárbara. Da primeira vez, meu pai não aceitou seu pagamento, mas pediu que trouxesse um professor da prefeitura para que desse aula às crianças da fazenda. Contava que viu um tanto de constrangimento no rosto de Ernesto [prefeito], que, sem escapatória, fez a promessa. A gratidão por meu pai e pela encantada [entidade religiosa] era grande, por isso teve que cumprir o que prometeu. Havia também o medo de que o encantamento que curou o filho se desfizesse. Então, meses mais tarde, viria uma professora no carro da prefeitura, três dias na semana, para dar três horas de aula na casa de dona Firmina. Firmina vivia sozinha e dispunha de um pequeno galpão com tábuas, que, apoiadas em duas latas cheias de barro, se tornavam um banco para sete ou oito crianças. Para reforçar o que aprendíamos com a professora Marlene, tínhamos o apoio de minha mãe. Dizia que só não poderia ensinar matemática, porque não sabia; “tenho a letra, mas não tenho o número”. Inclusive, no princípio, o prefeito sugeriu uma solução menos trabalhosa e, sabendo que minha mãe era alfabetizada, quis fazê-la professora. Minha mãe, consciente de suas limitações, recusou. Reforçou em sua fala a expressão “tenho a letra, mas não tenho o número”, e que queria muito que seus filhos de sangue e de pegação tivessem estudo e pudessem ter
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uma vida melhor do que a que tinha. Essa era a razão de todo o esforço que meu pai fez para que tivéssemos um professor e, percebendo que não era o suficiente, uma escola. Meu pai não era alfabetizado, assinava com o dedo de cortes e calos de colher frutos e espinhos da mata. Escondia as mãos com a tinta escura quando precisava deixar suas digitais em algum documento. De tudo que vi meu pai bem-querer na vida, talvez fosse a escrita e a leitura dos filhos o que perseguiu com mais afinco. Quem acompanhasse sua vida de lida na terra ou a seriedade com que guardava as crenças do jarê, acharia que eram os bens maiores de sua existência. Mas pessoas como nós, quando viam o orgulho que sentia dos filhos aprendendo a ler e do valor que davam ao ensino, saberiam que esse era o bem que mais queria poder nos legar. [...] VIEIRA JUNIOR, Itamar. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2019. p. 65-66.
Quando escrevemos, fazemos uso de um grande número de orações no interior de cada período. Aquelas que têm sentido completo e estão ligadas por uma conjunção requerem, em alguns casos, o uso da vírgula. No texto lido, percebemos que algumas orações estabelecem entre si, por exemplo, relações de explicação, conclusão ou oposição. RELAÇÃO DE EXPLICAÇÃO
RELAÇÃO DE CONCLUSÃO A gratidão por meu pai e pela encantada [...] era grande, por isso teve que cumprir o que prometeu.
conjunção conclusiva precedida de vírgula A primeira vírgula utilizada no período separa a oração 1 (“A gratidão por meu pai e pela encantada [...] era grande”) da oração 2 (“por isso teve que cumprir o que prometeu”). Note que a oração 2 traz uma conclusão, reforçando que a promessa de construção da escola no povoado de Água Negra foi cumprida pelo fato de o prefeito ser grato aos benefícios que recebeu. Portanto, antes de conjunções que evidenciam uma relação conclusiva, como “por isso”, a vírgula é fundamental. Algumas conjunções conclusivas que exigem a vírgula são: portanto, logo, assim, pois (depois do verbo). Além das orações que apresentam uma relação de explicação, oposição e conclusão, a vírgula também deve ser utilizada antes de conjunções alternativas. Veja. RELAÇÃO DE ALTERNÂNCIA
Dizia que só não poderia ensinar matemática, porque
Ou ele cumpria a promessa, ou o milagre seria desfeito.
não sabia.
conjunção explicativa precedida de vírgula conjunção alternativa precedida de vírgula
RELAÇÃO DE OPOSIÇÃO [...] “tenho a letra, mas não tenho o número” [...].
conjunção adversativa precedida de vírgula No período, que está entre aspas para demarcar a fala da mãe, as orações 1 (“tenho a letra,”) e 2 (“mas não tenho o número”) mantêm entre si uma relação de oposição. Ao fazer essa afirmação, Salustiana reforça a ideia de que só poderia ajudar com as aulas de português, já que não possuía conhecimento matemático para poder compartilhar com os alunos, ficando esta disciplina a cargo apenas da professora Marlene. Observe que a conjunção adversativa “mas”, que estabelece essa relação opositiva, é precedida de vírgula. Outras conjunções adversativas que exigem a vírgula são: porém, todavia, contudo, entretanto.
O uso da conjunção “ou” deixa claro que as orações que compõem o período são excludentes, pois indica que ou o prefeito cumpre o que prometeu a Zeca Chapéu Grande, ou pode ter o milagre que recebeu desfeito. A repetição da conjunção alternativa é bastante comum em enunciados desse tipo, mas a vírgula somente precede a segunda conjunção apresentada. Outras conjunções alternativas que, quando repetidas, exigem a vírgula são: ora... ora, quer... quer, já... já. c) Separar termos explicativos entre orações Leia o excerto de um artigo que esclarece a diferença entre astros luminosos e astros iluminados, destacando a razão de as estrelas terem luz própria, diferentemente da Lua. [...] Quando admiramos as estrelas “estampando” o céu noturno como pequenos pontos brilhantes em meio à escuridão, estamos vendo o resultado prático de processos físicos que produzem a luz vista aqui na Terra. Isso porque estrelas são astros luminosos, ou seja, que geram a própria luz. Já a nossa Lua é um astro iluminado, pois ela não gera a própria luz; ela apenas reflete a luz solar em nossa direção. O mesmo acontece com outros planetas que às vezes ficam visíveis a olho nu no céu noturno, como Vênus, Marte, Júpiter e Saturno – o que vemos é a luz solar refletida nesses mundos, que não geram a própria luz como as estrelas. [...] CASSITA, Danielle. O que são astros luminosos e astros iluminados? Canaltech, 31 jan. 2021. Disponível em: https://canaltech.com.br/ espaco/o-que-sao-astros-luminosos/. Acesso em: 28 set. 2023.
FRENTE 1
Nesse fragmento, vemos que a oração 2 (“porque não sabia”) traz uma explicação para o que é apresentado na oração 1 (“Dizia que só não poderia ensinar matemática”). Isto é, o fato de que Salustiana, mãe das protagonistas, poderia contribuir com a educação dos estudantes de Água Negra apenas no que se referia ao ensino das letras. A oração 2 é introduzida pela conjunção explicativa “porque” e, antes dela, deve-se usar a vírgula. Outras conjunções explicativas que exigem a vírgula são: que, porquanto, pois (antes do verbo).
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Observe o seguinte fragmento: Oração 1
Oração 2
[...] estrelas são astros luminosos, ou seja, que geram a própria luz.
termo explicativo entre vírgulas O termo “ou seja” evidencia uma ideia de explicação entre as orações 1 (“estrelas são astros luminosos”) e 2 (“ou seja, que geram a própria luz”) e ao ser usado na frase indica o que o leitor deve entender por “astros luminosos”. Antes e depois de termos desse tipo, devemos sempre utilizar vírgulas. Outros termos na língua que cumprem essa mesma função são: isto é, por exemplo, a saber, aliás, ou melhor, entre outros. d) Separar orações coordenadas sindéticas unidas pela conjunção “e” De forma geral, em orações unidas por “e” não utilizamos vírgula antes dessa conjunção. No entanto, em alguns casos, esse uso é necessário. Veja as situações em que isso ocorre. • Quando o “e” não tem valor aditivo. Leia um trecho do relato de Sônia Guimarães, a primeira mulher negra brasileira a se tornar PhD em Física. Desde pequena sempre fui muito curiosa. Minha avó me chamava de xereta, e não era um elogio. A verdade é que todo mundo ficava sem paciência com as perguntas que eu fazia e ninguém sabia responder. [...] GUIMARÃES, Sônia. Contra todas as expectativas Ciência Hoje, abr. 2021. Disponível em: https://cienciahoje.org.br/artigo/ contra-todas-as-expectativas/. Acesso em: 28 set. 2023.
Uma característica importante da infância da pesquisadora – sua curiosidade – foi fundamental para estimulá-la em sua carreira. Na frase a seguir, Sônia apresenta a visão de sua avó em relação a ela. Minha avó me chamava de xereta, e não era um elogio.
valor adversativo A conjunção “e”, em geral, tem valor aditivo, isto é, introduz ideias que se somam, como em: “Ela gosta de estudar e de trabalhar”. No exemplo destacado, porém, o “e” tem valor adversativo, já que pode ser substituído facilmente pela conjunção “mas”, também adversativa: “Minha avó me chamava de xereta, mas não era um elogio.”. A expressão “ser xereta” também pode ser considerada algo bom, quando a associamos, por exemplo, ao desejo de querer aprender cada vez mais. Nesse sentido, poderia ser um elogio. No entanto, a pesquisadora afirma que sua avó pensava justamente o contrário: “não era um elogio”. Assim, a conjunção “e”, nesse enunciado, tem claramente valor adversativo, marcando oposição de ideias. Além de ser utilizada com valor adversativo, a conjunção “e” – em geral com valor aditivo – pode ser utilizada com valor consecutivo, ou seja, ligando ideias que indicam uma consequência.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 11
Estudou tanto, e conseguiu ser PhD.
“e” com valor consecutivo (“tanto que”)
Dedicou-se muito, e não conseguiu a vaga.
“e” com valor adversativo (“no entanto”)
Portanto, nos casos em que o “e” não tem valor aditivo, a vírgula deve ser utilizada antes dessa conjunção.
•
Quando o “e” conecta orações de sujeitos diferentes.
Quando duas orações, unidas pela conjunção “e”, tiverem sujeitos diferentes, a vírgula antes do “e” deve ser usada. A seguir, veja como isso ocorre no fragmento de uma notícia sobre as guerras existentes no mundo atual.
Guerra civil na Síria A guerra civil na Síria começou em 2011, depois que o governo do presidente Bashar al Assad (filho do ex-presidente Hafez al Assad, que governou o país por 30 anos) reprimiu violentamente uma série de manifestações no país, e vários grupos de oposição tomaram as armas. [...] Até agora, a guerra civil causou pelo menos 350 mil mortes, segundo estimativas da ONU, além de 6,6 milhões de deslocados, dos quais 5,6 milhões são refugiados em países vizinhos. ALÉM de Rússia e Ucrânia: Saiba quais são as outras guerras ativas no mundo. CNN Brasil, 21 mar. 2022. Disponível em: https://www. cnnbrasil.com.br/internacional/alem-de-russia-e-ucrania-saiba-quaissao-as-outras-guerras-ativas-no-mundo/. Acesso em: 28 set. 2023.
Note que o primeiro período do fragmento possui três orações, sendo que as duas últimas estabelecem uma relação de adição, com sujeitos diferentes: o termo “o governo do presidente Bashar al Assad” é o sujeito da penúltima oração, enquanto “vários grupos de oposição” é o sujeito da última. Considerando, portanto, que esse trecho é formado por duas orações sequenciais com sujeitos distintos, devemos inserir a vírgula antes da conjunção “e”, que liga as duas orações.
•
Quando o “e” aparece repetido.
Leia o fragmento de outro poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa: Olá, guardador de rebanhos, Aí à beira da estrada, Que te diz o vento que passa? “Que é vento, e que passa, E que já passou antes, E que passará depois. E a ti o que te diz?" [...] PESSOA, Fernando. O Guardador de Rebanhos, X. Poemas de Alberto Caieiro: obra poética II. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 52. (fragmento). Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ pe000001.pdf. Acesso em: 28 set. 2023.
De forma seca, o guardador de rebanhos apresenta sua visão objetiva para o eu lírico, apresentando informações que esclarecem o que diz o vento. Nos versos em que ocorre essa resposta, a vírgula é utilizada antes do “e”, separando as orações e evidenciando uma soma de ideias: Que é vento, e que passa, E que já passou antes, E que passará depois.
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e) Separar orações subordinadas adverbiais quando vêm antes da oração principal ou quando estão intercaladas Leia o trecho de um artigo de opinião que trata sobre saúde mental e liderança. [...] Se você é líder, [...] reveja seu (pré)conceito. A saúde emocional deve ser encarada com naturalidade, a exemplo das campanhas de prevenção de diabetes ou câncer de mama. Parte do nosso desconforto vem da ideia equivocada de que uma pessoa com depressão ou crise de pânico é fraca. É preciso superar essa barreira. [...] Quando alguém começar a chorar na sua frente, ofereça água, lenço de papel e escute. Se você não souber o que dizer, diga que vai pensar e procurar a melhor saída. Não caia na armadilha do líder: achar que tem que ter resposta para tudo. [...] NOGUEIRA, Francisco. Gestor, aceitar a vulnerabilidade é essencial para cuidar de si e do outro. Veja Saúde, 19 jul. 2021. Disponível em: https:// saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/gestor-aceitar-a-vulnerabilidade-eessencial-para-cuidar-de-si-e-do-outro/. Acesso em: 28 set. 2023.
Ao tratar sobre a postura de um líder, o autor do texto poderia escrever a frase inicial de duas formas: usando a ordem direta, iniciada pela oração principal, ou a ordem indireta, começando pela oração subordinada. Ordem direta
Reveja seu (pré)conceito se você é um líder. oração subordinada depois da oração principal (sem vírgula) Ordem indireta
Se você é líder, reveja seu (pré)conceito. oração subordinada antes da oração principal (com vírgula)
A forma de organização do período é uma questão de escolha pessoal, mas é importante estar atento à pontuação, pois sempre que a oração subordinada adverbial iniciar a sentença, o uso da vírgula é obrigatório. Isso também vale se a oração adverbial vier intercalada na sentença, ou seja, se estiver no meio da oração principal. Para que a subordinada fique isolada na sentença, é obrigatório que ela esteja entre vírgulas. Uso de vírgula na oração subordinada adverbial Subordinada após a principal (sem vírgula)
Diga que vai pensar se você não souber o que dizer.
Subordinada antes da principal (com vírgula separando as orações)
Se você não souber o que dizer, diga que vai pensar.
Subordinada no meio da principal (entre vírgulas, isolando a subordinada da principal)
Diga, se você não souber o que dizer, que vai pensar.
Como usuários da língua, essas escolhas revelam também nosso posicionamento diante daquilo que falamos. Veja que, ao dizer “Quando alguém começar a chorar na sua frente, ofereça água, lenço de papel e escute”, iniciando o discurso pela oração subordinada, o interlocutor deu maior
destaque à ideia de tempo expressa pela oração adverbial. Com isso, ressalta-se em que momento deve-se oferecer água, lenço de papel e escuta atenta. Se colocada na ordem direta (“Ofereça água, lenço de papel e escute quando alguém começar a chorar na sua frente”), há um destaque maior às ações que devem ser realizadas pelo líder. Observando as escolhas linguísticas na organização de um texto, podemos compreender os valores e intencionalidades do autor. f) Separar orações subordinadas adjetivas explicativas Leia um trecho de uma reportagem sobre os cuidados com a rotina de banhos para cães.
Qual o benefício do banho seco? Em alguns cachorros, o cheiro bom do banho não dura mais do que quatro ou cinco dias. Por conta disso, os tutores acabam levando o pet para o chuveiro na semana seguinte. Além de trabalhoso, um banho exige cuidados durante e depois, e nem sempre temos esse tempo todo para dar atenção à pelagem do mascote. Uma boa alternativa é o famoso “banho seco”, que consiste em colocar talco no seu mascote seguido de uma boa escovação. Atenção: não vale mergulhar o animal dentro do talco. O produto ajuda a remover algumas impurezas e proporciona um cheiro mais agradável, mas se usado em excesso pode causar espirros e mal-estar no mascote. Use mais no lombo e nas patas traseiras e não esqueça de escovar até remover a cor branca típica do talco. Evite deixar restos do produto no pelo, pois a maioria dos animais se incomoda com isso mesmo que não tenha perfume. VIVIAN, Daisy. Cachorro precisa tomar banho toda semana? E no inverno? Saiba qual é a frequência ideal. Gaúcha Zero Hora, 11 set. 2021. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/donna/mundo-pet/noticia/ 2021/07/cachorro-precisa-tomar-banho-toda-semana-e-no-inverno-saibaqual-e-a-frequencia-ideal-ckr54379u00570193689wa04q.html. Acesso em: 28 set. 2023.
A reportagem alerta sobre a importância de cuidados com os pets. No entanto, existe a possibilidade de o leitor não saber o que é “banho seco”. Por esse motivo, essa expressão é explicada no texto. vírgula obrigatória Uma boa alternativa é o famoso “banho seco”, que consiste em colocar talco no seu mascote seguido de uma boa escovação.
oração que explica o termo anterior As orações que explicam o termo anterior são chamadas de subordinadas adjetivas explicativas. Antes delas, sempre deve haver uma vírgula. Ou, se ela vier no meio da oração principal, deve ser isolada entre vírgulas no período. Veja. O famoso “banho seco”, que consiste em colocar talco no seu mascote seguido de uma boa escovação, é uma boa alternativa. oração explicativa intercalada (entre vírgulas)
FRENTE 1
Quando houver repetição do “e” em um período, deve-se utilizar também a vírgula antes dessa conjunção.
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A oração adjetiva explicativa, intercalada na oração principal, poderia ser suprimida do período, caso o autor do texto entendesse que os leitores já sabem o que é um “banho seco”. Nesse caso, a vírgula também não ocorreria: “O famoso ‘banho seco’ é uma boa alternativa.”. g) Marcar supressão de uma ou mais palavras Leia o início de um texto sobre o uso de batatas para o desenvolvimento do raciocínio matemático. Dois problemas envolvendo batatas estimulam o raciocínio matemático [...]. Um deles envolve desenhar curvas em batatas, e o outro, uma situação desconcertante em relação ao peso delas. [...]
declarativas, pois apresentam uma declaração, uma afirmação sobre algo. Em “Pobre cão!”, observamos uma entonação que expressa um sentimento em relação ao ocorrido. É o ponto de exclamação que cumpre o papel de evidenciar o estado emocional de um interlocutor: tristeza, alegria, dó, surpresa etc. Os enunciados em que o ponto de exclamação é utilizado são chamados de frases exclamativas. Veja como esse ponto é utilizado na charge a seguir: ao se referir às pessoas com quem fala, a personagem usa o vocativo “Mineiros”, finalizado com uma exclamação, evidenciando que se trata de um chamamento com bastante empolgação. Richardson Freitas
MARICONI, Marco. Ao vencedor, as batatas! Revista Ciência Hoje, abr. 2021. Disponível em: https://cienciahoje.org.br/artigo/ao-vencedor-as-batatas/. Acesso em: 28 set. 2023.
Ao descrever como são os problemas matemáticos envolvendo o tubérculo, o autor do texto faz uma declaração em que se pode observar que foi utilizada uma vírgula no local onde deveria haver o verbo “envolver”. Veja. Um deles envolve desenhar curvas em batatas, e o outro [envolve] uma situação desconcertante [...].
A repetição da palavra (“envolve”) deixaria o texto repetitivo, e omiti-la é um recurso estilístico para evitar essa repetição. Em construções como esta, a vírgula é usada para mostrar que há a supressão de uma ou mais palavras. Assim, sempre que um termo – palavra ou expressão mais longa – for omitido, em seu lugar devemos utilizar uma vírgula.
Outros sinais de pontuação Ponto-final, ponto de exclamação e ponto de interrogação O cão e a raposa Um cão de caça viu um leão e se lançou no seu encalço. Mas o leão se voltou e pôs-se a rugir. Assustado, o cão deu uma meia-volta e foi embora. Uma raposa, vendo-o fazer aquilo, disse-lhe: — Pobre cão! Perseguias um leão e te assustas com um simples rugido? O presunçoso que quer ir além de suas forças treme logo diante de alguém que lhe resista. ESOPO. 200 fábulas de Esopo. Tradução de Antônio Carlos Vianna. Porto Alegre: L&PM, 2017. p. 20.
Para apresentar a cena da fábula, o narrador faz várias afirmações que permitem ao leitor compreender o que está acontecendo. Por meio delas, sabemos que: • um cão viu e perseguiu um leão; • o leão rugiu para o cão; • o cão ficou assustado e fugiu; • a raposa observava a cena e tirou suas conclusões; • há uma moral possível para a história. Na fábula, esses enunciados foram finalizados com um ponto-final, evidenciando que as ideias ditas estão completas. Essas frases são chamadas de frases
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Capítulo 11
A resposta da multidão também vem carregada de expressividade, pois, ao responder ao questionamento feito, todos respondem “Queijo!”, de forma que o ponto de exclamação indica intensidade na entonação. Nesse caso, o uso da exclamação é fundamental para que o leitor saiba como deve ser a entonação no momento da leitura do texto. A charge apresenta, ainda, uma pergunta: “Qual é a sua refeição?”. O ponto de interrogação ao final do enunciado deixa claro que foi feito um questionamento direto, exigindo-se, portanto, uma resposta direta. Em frases interrogativas, o ponto de interrogação pode: a) marcar uma pergunta direta (espera-se obrigatoriamente uma resposta). Quando você vai viajar? b) marcar uma pergunta retórica (não se espera, de fato, uma resposta). — Pobre cão! Perseguias um leão e te assustas com um simples rugido?
No primeiro exemplo, sabemos que, se a pergunta (“Quando você vai viajar?”) fosse realizada em uma dada situação de comunicação, em que uma pessoa faz uma
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indagação direta à outra, exigiria uma resposta efetiva. Já a pergunta da fábula (“Perseguias um leão e te assustas com um simples rugido?”) também pode ser entendida como uma pergunta retórica, ou seja, ela serve para estimular uma reflexão. Em contextos reais de comunicação, é preciso analisar a situação para saber se, de fato, as frases interrogativas demandam ou não uma resposta direta. É por isso que, por exemplo, ao dizer “Você viu como está quente hoje?” em uma sala com janelas fechadas, a pergunta pode ser apenas um pedido para que elas sejam abertas. A mesma frase dentro de um elevador, por outro lado, pode ser um recurso para iniciar uma conversa com uma pessoa com quem não temos tanta intimidade. Qualquer um que responda diretamente à pergunta com um “sim” ou “não” estaria demonstrando falta de compreensão do que esse enunciado significa dentro do contexto comunicativo em que se insere. Os pontos de interrogação e de exclamação também podem ser utilizados de forma isolada em tirinhas e histórias em quadrinhos. Observe.
dar conta de que escapou de ser atingido pelo vaso (sem ainda se dar conta de que corre um risco maior).
Dois-pontos e travessão Os dois-pontos são utilizados com bastante frequência em textos literários para introduzir a fala de personagens, enquanto o travessão marca o diálogo entre elas. É o que ocorre no trecho da fábula que você leu anteriormente. Uma raposa, vendo-o fazer aquilo, disse-lhe: — Pobre cão!
introduz uma fala
marca um diálogo
O travessão também pode ser usado para separar a fala da personagem da fala do narrador. — Pobre cão! — disse a raposa vendo-o fazer aquilo. fala da personagem
fala do narrador
Há, no entanto, outros usos que esses sinais de pontuação podem ter em textos literários e não literários. Leia um trecho de uma reportagem sobre políticas de regulamentação da inteligência artificial.
Na tira apresentada, é possível reconhecer o uso de pontos de exclamação e de interrogação. No segundo quadrinho, esses pontos são um recurso importante na construção de sentido porque indicam, sem o uso de palavras, a emoção do personagem, no caso a sensação de surpresa. Além disso, o ponto de exclamação marca a intensidade do barulho feito pelo vaso se quebrando e, no último quadrinho, expressa o entusiasmo do personagem ao se
[...] No Brasil, apesar de existirem algumas iniciativas empresariais e governamentais, ainda não há, contudo, uma política pública que estabeleça as diretrizes para regular a IA no país, apontaram pesquisadores participantes do primeiro evento on-line do Ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação de 2023, realizado na segunda-feira (27/03). “Há algumas iniciativas setoriais voltadas a regulamentar a inteligência artificial no Brasil, mas que não se configuram como uma estratégia ou política pública. E temos que ter”, avaliou Dora Kaufman, professora do programa de tecnologia da inteligência e design digital da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pesquisadora dos impactos sociais e éticos da IA. [...] Razões para regulamentar Na avaliação da pesquisadora, uma das principais razões pelas quais é preciso regulamentar a IA mundialmente é que se trata de uma tecnologia de propósito geral, que reconfigura a lógica e o funcionamento das sociedades. “Se considerarmos os últimos séculos, tivemos três tecnologias de propósito geral anteriores à IA: o carvão, que deu início à Revolução Industrial, a eletricidade e a mutação genética”, enumerou. [...] Algumas das dificuldades para regulamentar a IA são a necessidade de contemplar no processo dois agentes distintos – os desenvolvedores e os usuários – e uma lacuna
FRENTE 1
Vinasz Ilustrador-DG. Disponível em: https://www.behance.net/ vinasz_ilustrador/. Instagram: @vinasz.arte
Brasil precisa de política pública para regulamentar a inteligência artificial, alertam pesquisadores
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de conhecimento dos reguladores em relação a essa nova tecnologia, que é complexa e cujo desenvolvimento é acelerado. [...] ALISSON, Elton. Agência Fapesp, 31 mar. 2023. Disponível em: https:// agencia.fapesp.br/brasil-precisa-de-politica-publica-para-regulamentar-ainteligencia-artificial-alertam-pesquisadores/41026. Acesso em: 9 out. 2023.
No primeiro trecho destacado, em vez de introduzir uma fala, os dois-pontos foram usados para apresentar uma enumeração. Ou seja, logo após os dois-pontos, a pesquisadora apresenta quais são as três tecnologias de propósito geral anteriores à IA às quais se referiu anteriormente. Já os travessões evidenciam a explicação destacada dentro da frase: [...] dois agentes distintos – os desenvolvedores e os usuários – [...] explicação sobre o termo anterior (entre travessões)
Nesse exemplo, em vez de travessão, a autora do texto também poderia ter utilizado vírgulas. Visualmente, porém, o uso do travessão deixa a explicação com maior destaque para o leitor. Em síntese, os dois-pontos podem também introduzir palavras, expressões ou orações que evidenciam explicações ou enumerações. Já os travessões destacam para o leitor um esclarecimento sobre o termo antecedente.
Aspas As aspas podem ter diferentes funções em um texto. a) Demarcar diálogo ou fala Em textos literários, as aspas podem marcar a fala de personagens, indicando que há um diálogo. Veja como isso ocorre em um trecho do texto “Slime na airfyer”, do escritor e roteirista Antonio Prata. [...] Eis o caso. Meu filho de oito pega o iPad e começa a trabalhar em seu castelo subaquático, no Minecraft. Minha filha de dez surge na sala e diz “eu também quero o iPad!”. Meu filho argumenta que ela usou o iPad a noite passada inteira. Hoje é a vez dele. Parece sensato. A promotoria, no entanto, apresenta seu caso de forma mais específica: “eu usei a noite inteira porque ele não me pediu pra usar. Se ele tivesse pedido, eu teria proposto meia hora cada um”. Segundo o argumento, que me parece lógico, como hoje ela está pedindo, ele deve aceitar meia hora cada um. [...] PRATA, Antonio. Slime na airfyer. Folha de S.Paulo, 22 jul. 2023. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/ 2023/07/slime-na-airfryer.shtml. Acesso em: 8 out. 2023.
Os trechos em destaque evidenciam as falas da filha do narrador. O autor poderia marcar cada uma dessas falas utilizando dois-pontos e travessão, mas optou pelo uso das aspas. b) Destacar um termo ou expressão Em outro texto, Antonio Prata faz o seguinte uso das aspas. [...] Os engenheiros que trabalham no ChatGPT, no Bing (da Microsoft) ou no Bard (da Google) nem sequer conhecem
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todos os detalhes de como a coisa funciona. São milhões, às vezes bilhões de “ações” que o robô executa entre uma pergunta sua e uma resposta dele. Impossível seguir o passo a passo, disse uma especialista em informática no podcast The Daily, do NYT. [...] PRATA, Antonio. Burrice natural, inteligência artificial. Folha de S.Paulo, 25 mar. 2023. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ antonioprata/2023/03/burrice-natural-inteligencia-artificial.shtml. Acesso em: 8 out. 2023.
Nesse trecho, as aspas evidenciam o uso de um termo recorrente quando o tema em questão é abordado. Pode-se entender que o autor quis destacar o caráter genérico do termo “ações”, uma vez que, no texto, é mencionado grande desconhecimento quanto ao funcionamento de aplicativos e sistemas de inteligência artificial. Agora observe o uso das aspas no fragmento de reportagem a seguir, que fala do processo de produção de uma conhecida marca de panetone.
“Berçário” A massa do panetone leva basicamente farinha, ovos, manteiga, açúcar, água e fermento natural. Segundo a Bauducco, é o fermento (chamado de massa madre) o segredo do seu produto. Trata-se de uma massa viva, alimentada constantemente e manualmente com farinha e água. Sua base é a mesma há 65 anos e foi trazida de navio de Turim, na Itália, pelo Sr. Bauducco. Esse fermento precisa ser armazenado a uma temperatura fresca específica (que a Bauducco não revela). Por demandar tanto cuidado, ela é chamada de “bebê” pela empresa, e a sala onde fica armazenada, de “berçário”. [...] MELO, Luísa. Do fermento à caixinha, veja como é feito o panetone na maior fábrica do país. G1, 11 dez. 2017. Disponível em: https://g1.globo. com/economia/noticia/do-fermento-a-caixinha-veja-como-e-feito-opanetone-na-maior-fabrica-do-pais.ghtml. Acesso em: 28 set. 2023.
Em geral, o vocábulo “bebê” diz respeito ao ser humano – ou a outro animal – em seus primeiros anos de vida. Nesse texto, porém, ele faz referência a uma massa que é a base para a produção de um panetone, ou seja, foi utilizado em seu sentido metafórico, já que a massa exige tanto cuidado quanto um bebê. A palavra “berçário”, da mesma forma, foi ressignificada: não é o lugar onde os bebês dormem, mas onde essa massa de panetone fica. Assim, as aspas também são usadas para destacar termos que foram utilizados em sentidos diferentes do original. c) Indicar citação direta Em textos jornalísticos, a inserção da voz do outro é demarcada com aspas, e isso confere ao texto maior veracidade, pois o fato é evidenciado a partir do discurso dos próprios sujeitos envolvidos e/ou de especialistas no assunto. Leia o excerto de notícia.
Estrelas da Ópera se apresentam para crianças doentes em Paris [...] Um momento raro é testemunhado na sala de reanimação de um hospital infantil em Paris: um menino entubado observa com grande atenção dois dançarinos da Ópera que, em trajes brilhantes, começam a traçar alguns passos de dança à sua frente.
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“Agora vamos fazer o ‘arabesco’...”, explica o bailarino Hugo Marchand [...]. “Viemos cumprimentá-lo e lhe dar um beijo”, diz ao menino, que responde com um aceno tímido. Em outro quarto do hospital, está um bebê que observa, de olhos arregalados, o vestido de Gilbert flutuar no ritmo de uma pirueta. Por trás desta iniciativa, existe uma associação [...] que, desde sua criação em 2018, tem trabalhado para introduzir o balé e a dança nas vidas de crianças, especialmente aquelas que sofrem com a pobreza, o exílio e doenças. [...] G1 apud France Presse, 16 jul. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/olha-que-legal/noticia/2021/07/16/estrelas-da-opera-se-apresentam-para-criancasdoentes-em-paris.ghtml. Acesso em: 22 dez. 2023.
Nesse excerto, encontramos dois momentos em que são citadas diretamente as falas do bailarino: 1. “Agora vamos fazer o ‘arabesco’...” 2. “Viemos cumprimentá-lo e lhe dar um beijo” Em citações, o mais frequente é o uso de aspas duplas. No entanto, se dentro do trecho citado for necessário dar algum destaque a uma palavra, isso é feito com aspas simples. No exemplo 1, as aspas duplas marcam a fala do bailarino, e as aspas simples – que estão dentro da citação já iniciada por aspas – colocam em evidência a palavra “arabesco”, que é uma posição de balé. Também são usadas aspas simples quando há citação de uma fala dentro de um trecho citado, que já está entre aspas duplas. Ou seja, a regra geral para uso das aspas simples é a de que, se for preciso abrir aspas quando isso já foi feito antes, essas segundas aspas devem ser simples. O mesmo recurso de citação é válido em produções teóricas e acadêmicas, em que se usa a citação de outras obras com frequência para dar maior valor científico ao texto. Veja o exemplo a seguir. Marcuschi (2010, p. 28), ao se referir à perspectiva dicotômica, que tem como foco a fala em oposição à escrita, afirma que “o inconveniente [dessa visão] é considerar a fala como o lugar do erro e do caos gramatical, tomando a escrita como lugar da norma e do bom uso da língua”. ALENCAR, Andréa Gomes de. O gênero debate nos livros didáticos de Português do ensino médio: vozes em diálogo. 2017. 263 f. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo. p. 27.
A tirinha ao lado trata do uso das aspas para marcar ironia. No primeiro quadrinho, o uso da palavra “amigos” aparece duas vezes. Em uma delas, as aspas foram utilizadas. Esse uso evidencia que a palavra foi usada em sentido contrário ao original, ou seja, a fala do pai de Armandinho indica que podemos ter amigos e aqueles que pensamos serem nossos amigos, mas, de fato, não são. A ironia é justamente esse uso de um termo para dizer algo oposto em um determinado contexto. Na fala, a ironia poderia ser demarcada pela entonação ou mesmo por gestos e expressões faciais; já em textos escritos, as aspas geralmente são usadas para que essa figura de linguagem seja reconhecida.
Armandinho, de Alexandre Beck
d) Indicar ironia
e) Sinalizar título de obra
Avós que inspiram: conheça o livro infantil “O menino que descobriu as cores”, do autor mirim Tiago Vilariño FERRAZ, Alex. Celebs, 19 jul. 2021. Disponível em: http://celebs.com.br/4859/avos-que-inspiram-conheca-o-livro-infantil-o-menino-que-descobriu-as-coresdo-autor-mirim-tiago-vilarino/. Acesso em: 28 set. 2023.
Para destacar o título de um texto, um livro, uma obra de arte, um filme, uma canção etc., podem ser utilizados alguns recursos, como o uso das aspas, do itálico ou do negrito. Na manchete, a expressão “O menino que descobriu as cores” é o nome de uma obra de literatura infantil; por esse motivo, foi colocado entre aspas. f) Demarcar gírias, neologismos, palavras estrangeiras ou desvios da norma-padrão da língua Leia uma frase de para-choque de caminhão. Na subida “cê” me aperta, na descida “nóis” acerta.
O enunciado apresenta duas palavras registradas conforme seu uso oral informal: “cê” e “nóis”. As aspas, nesses casos, sinalizam para o leitor que o autor do texto conhece o uso formal dessas palavras, mas optou por um registro mais popular, provavelmente por considerar o espaço de circulação do enunciado: as estradas em que o caminhão circula.
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SABEDORIA popular. In: CORTELLA, Mario Sergio; SOUSA, Mauricio de. Vamos pensar um pouco?: lições ilustradas com a Turma da Mônica. São Paulo: Cortez: Mauricio de Sousa Editora, 2017. p. 28.
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Além de marcas de oralidade e gírias, as aspas também podem destacar palavras novas ou estrangeiras, como se pode observar nesta manchete.
De “teen” a “saia justa”, Folha inventou e popularizou expressões FRANCO, Marcella, Folha de S.Paulo, 27 fev. 2021. Disponível em: www1.folha.uol.com.br/folha-100-anos/2021/02/de-teen-a-saia-justafolha-inventou-e-popularizou-expressoes.shtml. Acesso em: 28 set. 2023.
O termo “teen” é uma palavra estrangeira que significa “adolescente”, e a expressão “saia justa” é um neologismo que faz referência a uma situação complicada. Tanto em neologismos quanto em palavras estrangeiras, o uso das aspas é recomendado. Em textos digitados, essa pontuação pode ser substituída por um destaque específico, por exemplo, aplicar itálico na palavra, o que é bastante comum no caso de palavras estrangeiras.
Ponto e vírgula O ponto e vírgula é utilizado para separar elementos de um enunciado, sendo um sinal intermediário entre a vírgula e o ponto-final. a) Separar orações Leia a linha-fina colocada logo após o título do artigo de divulgação científica.
Do que é feito o pensamento? A ciência por trás da voz na sua cabeça Algumas pessoas falam com si mesmas o dia todo; outras têm mentes silenciosas. Algumas formam imagens mentais vívidas; em outras, o olho da mente é cego. Faz poucas décadas que os psicólogos criaram ferramentas para investigar nosso fluxo de consciência. Até que ponto podemos acessar – e explicar – o interior de nossas próprias cabeças? VAIANO, Bruno. Superinteressante, 16 jul. 2021. Disponível em: https:// super.abril.com.br/ciencia/do-que-e-feito-o-pensamento-a-ciencia-portras-da-voz-na-sua-cabeca/. Acesso em: 28 set. 2023.
O ponto e vírgula representa no texto o fechamento parcial de uma ideia. Se com a vírgula apresentamos pequenas “pausas” de sentido e com o ponto-final encerramos de fato uma ideia, o ponto e vírgula é o meio do caminho. Na leitura, ele indica uma pausa melódica maior que uma vírgula e menor que um ponto-final. Observe que no enunciado a seguir as orações que compõem o período estão claramente relacionadas. São orações que tratam de um assunto em comum, separadas por ponto e vírgula. Algumas pessoas falam com si mesmas o dia todo; outras têm mentes silenciosas.
O ponto e vírgula também pode ser utilizado no enunciado quando em uma das orações já é feito o uso de vírgula. É o que acontece nesta passagem do artigo lido anteriormente. Algumas formam imagens mentais vívidas; em outras, o olho da mente é cego. vírgula na segunda oração (uso do ponto e vírgula ao final da primeira oração)
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Observe que, na segunda oração, há a omissão de uma informação: “em outras [pessoas] o olho da mente é cego.”. Assim, percebemos que o uso de vírgula se justifica pelo fato de haver um termo oculto na sentença, e foi utilizado o ponto e vírgula para separar as orações, de modo a organizar melhor as informações do período. b) Separar itens enumerados O ponto e vírgula costuma ser utilizado ao final de itens enumerados em um texto, geralmente quando esses itens estão organizados em tópicos, como ocorre, por exemplo, em documentos oficiais.
Capítulo V Da Educação Ambiental Art. 38 – Compete ao Poder Público promover a educação ambiental em todos os níveis de sua atuação e a conscientização da sociedade para a preservação, conservação e recuperação do meio ambiente considerando: I – a educação ambiental sob o ponto de vista interdisciplinar; II – o fomento, junto a todos os segmentos da sociedade, da conscientização ambiental; III – a necessidade das instituições governamentais estaduais e municipais de realizarem ações conjuntas para o planejamento e execução de projetos de educação ambiental, respeitando as peculiaridades locais e regionais; IV – capacitação dos recursos humanos para a operacionalização da educação ambiental, com vistas ao pleno exercício da cidadania. RIO GRANDE DO SUL (estado). Projeto de Lei nº 154/2009. Dispõe sobre o Código Estadual do Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul e dá outras providências. Diário Oficial da Assembleia Legislativa. Porto Alegre, 3 ago. 2009. p. 14. Disponível em: http://proweb.procergs. com.br/Diario/DA20090807-01-100000/EX20090807-01-100000PL-154-2009.pdf. Acesso em: 28 set. 2023.
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Em síntese, podemos dizer que o ponto e vírgula separa: orações que tratam de um assunto comum dentro de um mesmo período; orações, quando a segunda apresenta conjunção adversativa deslocada; orações, quando em uma delas é feito o uso de vírgula; diversos itens de um enunciado enumerativo.
Reticências Observe os usos das reticências na reportagem de divulgação científica a seguir.
7 mitos e meio sobre o cérebro derrubados [...] 3. Suas emoções estão em seu coração Quando a emoção o invade, “quando você sente o batimento cardíaco, não o sente no peito, mas na cabeça”. “É difícil de entender, mas você não sente nada em seu corpo, tudo o que você sente está em seu cérebro.” A dor, a alegria... tudo, porque o cérebro é quem escreve a história, ele é o narrador. E abriga as paixões nas profundezas de sua parte mais antiga... 4. Você tem uma “besta interior” Bem... não é assim. [...]
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As reticências podem ser utilizadas de diversas formas no texto. Elas podem, por exemplo, indicar: a) a continuidade de uma ideia No trecho “A dor, a alegria... tudo”, as reticências marcam que outras sensações (além de “dor” e “alegria”) poderiam ser mencionadas para mostrar tudo o que está em nosso cérebro. b) o destaque de uma ideia No trecho “seus pulmões, seu coração, seu sistema imunológico, seu metabolismo... seu corpo físico inteiro”, observamos que, em vez de nomear uma lista que poderia ser bastante extensa, o jornalista prefere usar as reticências, mostrando que haveria uma continuidade da lista. No entanto, o fato de o trecho “seu corpo físico inteiro” vir após esse sinal também faz com que seja dado maior destaque a essa informação; assim, se o leitor não se lembrar de todos os elementos enumerados, basta ele reconhecer a ideia que foi evidenciada após as reticências. c) a hesitação comum na fala Em “Bem... não é assim”, as reticências foram usadas para mostrar uma hesitação, uma pausa bastante ligada ao contexto oral de comunicação. O uso dessa pontuação nesse texto aproxima os interlocutores – autor e leitor – por dar a impressão de estar havendo uma conversa entre eles. d) a necessidade de completar uma informação O argumento principal do terceiro mito do texto é que as sensações são produzidas pelo nosso cérebro, e não por nosso coração. No entanto, há um conhecido ditado popular que reforça esse mito: “O que os olhos não veem...”. Observe que o ditado popular não foi escrito na íntegra. Em vez disso, colocamos as reticências no final da frase. Elas servem, nesse caso, para fazer com que o próprio leitor complete a parte que falta. e) a interrupção de pensamento Esse sinal de pontuação é bastante utilizado também quando o autor quer evidenciar que alguém foi interrompido em sua fala. Imagine, por exemplo, o diálogo a seguir: — Eu acho que você deveria... — Nem quero saber. Não perguntei sua opinião. As reticências evidenciam que o primeiro interlocutor não conseguiu completar sua ideia, pois foi interrompido pelo segundo.
Em alguns gêneros como as tirinhas, as reticências também são usadas para marcar uma quebra na fala e indicar a continuidade do enunciado no quadro seguinte. Veja que, no primeiro quadro da tirinha, as reticências indicam que há uma pausa na fala do pai de Armandinho; no segundo, esse sinal de pontuação é empregado no início da fala para marcar a continuidade do que estava sendo dito. Já ao final das falas do pai no segundo e no terceiro quadros, as reticências sugerem um prolongamento da ideia apresentada. Em síntese, a finalidade das reticências pode variar; por isso, é preciso, ao escrever, ter clareza do que se deseja transmitir e, na leitura, analisar o contexto para compreender qual é a intencionalidade do autor com o uso dessa pontuação. g) a supressão de partes de um texto Quando citamos um texto, nem sempre o fazemos na íntegra. Às vezes, apenas parte da fonte original foi reproduzida. Nesses casos, o “corte” deve ser sinalizado. Isso é feito com as reticências dentro de colchetes (ou mesmo entre parênteses): [...] ou (...). A reportagem de divulgação científica lida, por exemplo, trata de sete mitos, mas você leu apenas dois. Para que o leitor compreenda que uma parte foi suprimida, foram indicados os cortes com as reticências dentro dos colchetes. No fragmento apresentado, esse recurso foi utilizado quatro vezes. Então é possível concluir que foram feitos quatro cortes de informação. Se o leitor consultar o texto original, terá acesso a outras ideias.
Parênteses Os parênteses são utilizados, em geral, para acrescentar ao texto alguma informação importante que esclarece, ao leitor, algo que foi apresentado anteriormente. Leia o primeiro parágrafo da reportagem sobre os mitos do cérebro, apresentada anteriormente. No século 4 a.C., Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) considerava o cérebro um órgão secundário que servia para resfriar o sangue que o coração usava para funções mentais. Mas era também um lugar onde o espírito circulava livremente e onde estava, em sua visão, o sensus communis (ou “senso comum”). VENTURA, Dalia. 7 mitos e meio sobre o cérebro derrubados. BBC News, 18 jul. 2021. Disponível em: www.bbc.com/portuguese/ geral-57880463. Acesso em: 28 set. 2023.
O primeiro trecho entre parênteses traz informações sobre Aristóteles: anos de nascimento e morte. acréscimo de informação Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) considerava o cérebro um órgão secundário.
FRENTE 1
VENTURA, Dalia. BBC News, 18 jul. 2021. Disponível em: www.bbc. com/portuguese/geral-57880463. Acesso em: 28 set. 2023.
f) a continuidade da frase Armandinho, de Alexandre Beck
“[...] as regiões do cérebro que foram marcadas como sua besta interior são, na verdade, aquelas que controlam seu corpo – seus pulmões, seu coração, seu sistema imunológico, seu metabolismo... seu corpo físico inteiro. E alguns de eles (sic) estão no centro da memória, tomada de decisão, racionalidade e percepção”. “Essas regiões estão praticamente envolvidas em tudo que seu cérebro faz.” [...]
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Já o segundo acrescenta uma definição, trazendo uma explicação para o leitor, caso ele não saiba o que significa a expressão latina “sensus communis”. [...] era onde estava, em sua visão, o sensus communis (ou “senso comum”).
o fragmento traga essa informação, a fim de explicitar ao leitor que o parágrafo faz referência à Declaração Universal dos Direitos Humanos. Este é um contexto em que o uso do colchete se faz necessário: trazer uma informação, em trechos transcritos, de forma a esclarecer a que se refere uma palavra ou trecho citado.
esclarecimento
Além de evidenciar uma explicação, os parênteses podem ser usados para destacar uma expressão. É o que ocorre com o advérbio latino “sic”, que quer dizer “assim, deste modo” e, sempre que aparece no texto, está entre parênteses (ou colchetes). Essa expressão é usada para sinalizar que o texto original contém um equívoco ou desvio de registro formal, que foi mantido na citação do trecho, mas foi percebido por quem o transcreveu. Ou seja, evidencia que a citação é literal, sem alteração alguma, por isso o desvio gramatical (problemas de digitação, concordância, grafia, regência etc.) foi mantido. Na reportagem de divulgação científica lida anteriormente, há um desvio gramatical e, caso o trecho fosse citado conforme o original, seria necessário fazer essa indicação. Observe: [...] E alguns de eles (sic) estão no centro da memória, tomada de decisão, racionalidade e percepção.
Em vez de registrar “deles”, o jornalista enganou-se e escreveu “de eles”. A expressão “sic”, colocada entre parênteses logo após o equívoco, sinaliza que o problema foi percebido por quem fez a transcrição, mas optou-se pela não correção.
Colchetes Compare os trechos a seguir. Texto original
Texto modificado
Há muitos anos esta declaração foi aprovada, mas ainda existem países que não obedecem a este documento. Para que isto aconteça, é preciso que todos aprendam, nas escolas de todo o mundo, o conteúdo desta declaração. ROCHA, Ruth. Declaração universal dos direitos humanos. Adaptação de Ruth Rocha e [ilustrações] Otavio Roth. 11. ed. São Paulo: Salamandra, 2014. p. 45.
Há muitos anos esta declaração [Declaração Universal dos Direitos Humanos] foi aprovada, mas ainda existem países que não obedecem a este documento. Para que isto aconteça, é preciso que todos aprendam, nas escolas de todo o mundo, o conteúdo desta declaração.
O fragmento original encerra um livro que procura apresentar, de forma simples, a Declaração Universal dos Direitos Humanos para crianças. Tem, portanto, o objetivo de divulgar entre esse grupo de leitores alguns aspectos importantes da vida social. Ao ler o trecho “Há muitos anos esta declaração foi aprovada”, não é possível saber a qual declaração o autor faz referência quando retiramos esse parágrafo de seu contexto original. Assim, é fundamental que, se for transcrito,
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Capítulo 11
Há muitos anos esta declaração [Declaração Universal dos Direitos Humanos] foi aprovada. colchetes marcam que o trecho inserido não está no texto original
Em depoimentos que são inseridos em textos jornalísticos, o uso do colchete é bastante comum. O texto a seguir é um relato de um ator mirim que explica o motivo de não ter mais voltado a atuar na TV. “Foi bem grave. Estava um amigo do meu pai, era uma Saveiro, então não tem banco de trás. Minha mãe no passageiro [banco] e eu no colo dela. Estávamos todos sem cinto. E ele [motorista] completamente imprudente, foi fazer uma ultrapassagem na curva… Acabou batendo de frente com um carro bem maior”, relatou o jovem, hoje com 18 anos [...]. BRANDÃO, Felipe. Acidente interrompeu carreira de ator infantil de A vida da gente: “Fui forçado”. Observatório da TV, 15 jul. 2021. Disponível em: https://observatoriodatv.uol.com.br/noticias/acidenteinterrompeu-carreira-de-ator-infantil-de-a-vida-da-gente-fui-forcado. Acesso em: 28 set. 2023.
O jornalista fez uso de aspas para indicar que a fala era do próprio ator, mas precisou fazer algumas modificações no texto, inserindo esclarecimentos para que o leitor compreendesse a informação na íntegra. Por esse motivo, foram acrescentadas duas informações entre colchetes. A primeira – “[banco]” – evita uma possível ambiguidade, já que é preciso deixar claro que, ao dizer “minha mãe no passageiro”, o ator se referia ao local onde sua mãe estava na hora do acidente: no banco do passageiro. A segunda informação – “[motorista]” – esclarece a quem o pronome “ele” se refere no trecho “E ele, completamente imprudente [...]”. Os colchetes demarcam que aquelas palavras foram inseridas pelo jornalista, mas não foram ditas pelo autor. Como o fragmento está entre aspas, qualquer modificação no texto precisa ser sinalizada com os colchetes, que indicam os acréscimos. Em alguns textos, essa função dos colchetes é também demarcada com o uso de parênteses. Na sequência, veja em outro trecho do texto “7 mitos e meio sobre o cérebro derrubados” como a jornalista responsável pela matéria demarca sua voz com esse sinal de pontuação, diferenciando-o da voz de Lisa Feldman Barrett, pesquisadora sobre o funcionamento do cérebro. Os pássaros são animais muito interessantes porque há partes do cérebro deles, nas quais os neurônios se regeneram a cada ano para aprender novas canções para atrair parceiros. Na verdade, foi assim que a plasticidade (do cérebro) foi descoberta. VENTURA, Dalia. 7 mitos e meio sobre o cérebro derrubados. BBC News, 18 jul. 2021. Disponível em: www.bbc.com/portuguese/ geral-57880463. Acesso em: 28 set. 2023.
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Texto original
Texto modificado
Há muitos anos esta declaração foi aprovada, mas ainda existem países que não obedecem a este documento. Para que isto aconteça, é preciso que todos aprendam, nas escolas de todo o mundo, o conteúdo desta declaração.
Há muitos anos esta declaração foi aprovada, mas ainda [...] é preciso que todos aprendam [...] o conteúdo desta declaração.
ROCHA, Ruth. Declaração universal dos direitos humanos. Adaptação de Ruth Rocha e [ilustrações] Otavio Roth. 11. ed. São Paulo: Salamandra, 2014. p. 45.
É importante que a supressão indicada pelos sinais de pontuação destacados no texto modificado garanta ainda a unidade de sentido do texto. Ou seja, quando há supressão de partes do texto, o “corte” não pode prejudicar a compreensão textual.
Estabelecendo relações Em Matemática, é comum o uso de parênteses e colchetes para demarcar as operações. Assim, ao se deparar com uma equação como [4 ? (2 1 3)] 2 2, deve-se lembrar que a primeira conta a ser feita é a que está entre parênteses e depois a que está entre colchetes. Nesse exemplo, ainda é possível observar outro uso para o ponto: na área de Exatas, ele geralmente representa o sinal da multiplicação. Percebe-se, então, que parênteses, colchetes e ponto têm funções diferentes quando usados em textos verbais ou em expressões matemáticas.
Pontuação expressiva O uso dos sinais de pontuação, além de contribuir para a organização sintática da sentença e favorecer a coesão, pode ser um recurso de expressividade. O excerto de crônica a seguir, de Lima Barreto, narra, por meio de diálogos, a conversa entre duas personagens sobre um encontro que tiveram anteriormente em um local onde havia barraquinhas que distribuíam prêmios (mafuá), o que resultou na prisão de um deles. Observe, no trecho, como a presença de diversos pontos de exclamação contribuem para evidenciar ao leitor os sentimentos das personagens durante o diálogo descrito.
Coisas de “mafuá” — Mas, onde esteve você, Jaime? — Onde estive? — Sim; onde você esteve? — Estive no xadrez. — Como? — Por causa de você. — Por minha causa? Explique-se, vá! — Desde que você se meteu como barraqueiro do imponente Bento, consultor técnico do “mafuá” do padre A, que o azar me persegue. — Então eu havia de deixar de ganhar uns “cobres”? — Não sei; a verdade, porém, é que essas relações entre você, Bento e “mafuá” trouxeram-me urucubaca. Não se lembra você da questão do pau? — Isto foi há tanto tempo!... Demais o Capitão Bento nada tinha a ver com o caso. Ele só pagou para derrubar a árvore; mas você... — Vendi o pau, para lenha, é verdade. Uma coisa à toa de que você fez um “lelé” medonho e, por causa, quase nós brigamos. — Mas o capitão não tinha nada com o caso. — À vista de todos, não; mas foi o azar dele que envenenou a questão. — Qual, azar! qual nada! O capitão tem os seus “quandos” e não há negócios que se meta, que não lhe renda bastante. — Isto é para ele; mas, para os outros que se metem com ele, sempre a roda desanda. — Comigo não se tem dado isso. — Como, não? — Sim. Tenho ganho “algum” — como posso me queixar? — Grande coisa! O dinheiro que ele te dá, não serve pra nada. Mal vem, logo vai. [...] BARRETO, Lima. Domínio público.
Além disso, as interrogações ao final de algumas falas marcam a indicação de perguntas diretas para que o diálogo ocorra. As reticências, por sua vez, mostram que uma das personagens estava confusa, sem saber o que pensar diante do que foi questionado, podendo sugerir, ainda, por exemplo, no trecho “mas você...”, que algo seria dito na sequência, o que não foi feito. Releia o trecho a seguir e observe os efeitos de sentido que esses sinais de pontuação atribuem ao texto. — Não sei; a verdade, porém, é que essas relações entre você, Bento e “mafuá” trouxeram-me urucubaca. Não se lembra você da questão do pau? — Isto foi há tanto tempo!... Demais o Capitão Bento nada tinha a ver com o caso. Ele só pagou para derrubar a arvore; mas você...
Na crônica, portanto, os diferentes usos de pontuação (exclamação, interrogação e reticências) reforçam a expressividade do discurso, contribuindo para que o leitor possa atribuir sentidos ao texto.
FRENTE 1
O trecho “(do cérebro)”, colocado entre parênteses, é uma inserção que não foi dita pela pesquisadora à repórter, mas esta, pensando em conferir maior clareza ao texto, optou por acrescentar a informação. Nesse caso, portanto, os parênteses têm a mesma função dos colchetes: introdução de uma informação nova e demarcação de autoria. Por fim, os colchetes (ou os parênteses) também podem ser usados para marcar a supressão de um trecho do texto. Nesse caso, esses sinais são usados com três pontos. Veja como esse recurso foi utilizado ao final do texto para indicar que havia ainda mais coisas a serem lidas. Compare os mesmos trechos apresentados anteriormente:
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Uso ou não da vírgula A escolha pelo uso ou não da vírgula também é fundamental para a construção de sentidos em um texto. Note as diferenças de sentido que os dois enunciados a seguir podem apresentar. Não deixe que Cláudia descubra.
Não, deixe que Cláudia descubra.
Sem a vírgula, o enunciado tem o sentido de esconder algo.
Com a vírgula após o advérbio de negação, a intenção do enunciado é de não esconder nada.
José James Teixeira
O uso ou não da vírgula também implica diferenças de sentido em frases em que um vocativo é confundido com o sujeito da oração. Na tirinha a seguir, veja como a falta de compreensão de um dos alunos sobre o que deve ser escrito está relacionada a esse problema sintático.
Observe como cada personagem entendeu a frase “Mãe só tem uma” e como deve ser a pontuação de acordo com cada uma dessas interpretações. Professora e Lívia A professora solicitou aos alunos que refletissem sobre o papel da mãe e sua relevância na vida deles. Ou seja, “mãe” é sobre quem eles deveriam falar.
Sentido da frase
Mãe só tem uma!
Aluno João João colocou a mãe como a pessoa com quem dialoga. Ele a chama para dar uma informação. Ou seja, entendeu “mãe” como a pessoa a quem deveria se referir. Mãe, só tem uma!
Função sintática de “mãe” objeto direto
vocativo
No enunciado, o verbo “ter” está sendo usado em um contexto informal, apresentando o sentido de “haver”, que é impessoal, ou seja, não possui sujeito. No primeiro exemplo, temos, portanto, uma oração formada apenas por predicado e objeto direto (“Só há uma mãe.”). No segundo, porém, o termo “mãe”, isolado do restante da sentença por vírgula, é um vocativo – sempre que uma palavra indica chamamento, ela deve ser separada do restante da oração por meio de vírgula. Na tirinha há outros enunciados que apresentam termos com função de vocativo não isolados por vírgula, como nas falas da professora, cuja pontuação correta seria: “Lívia, leia sua frase para nós!” e “Parabéns, Lívia! Sua vez, João”. Na tirinha, a decepção da professora (“Eu mereço!”) está justamente no fato de o menino não ter compreendido o sentido que ela pretendia. Considerando que esse texto remete ao lúdico, sabemos que o “engano” do aluno foi proposital para gerar o humor, mas foi também bastante útil para nos ajudar a perceber como é importante estar atento ao fato de que, às vezes, o uso ou não de uma pontuação pode mudar totalmente o sentido da informação. Pense, por exemplo, como seria diferente se, em um relatório médico, em vez de escrever “O paciente está doente”, o profissional da saúde se confundisse e redigisse “O paciente está doente?”. No primeiro caso, há uma constatação, uma certeza; no segundo, uma dúvida, uma incerteza.
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Capítulo 11
Pontuação: emprego e efeitos de sentido
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Repetição dos sinais de pontuação A repetição de uma mesma pontuação, de forma consecutiva, também pode indicar múltiplos sentidos. Veja como isso acontece na piada a seguir. No caixa do banco, o sujeito vai descontar um cheque. — Vai levar em dinheiro??? — Não, me dá em clipes e borrachinhas!!! AVIZ, Luiz. As melhores piadas para crianças. Rio de Janeiro: Pegue & Leve, 2013. p. 110.
Os três sinais de interrogação evidenciam que o funcionário não fez uma simples pergunta, mas que há certo estranhamento ou ênfase no questionamento. Ele, provavelmente, ficou surpreso com o valor alto a ser sacado e estranhou que o sujeito optasse por levar a quantia em dinheiro (em vez de fazer uma transferência, por exemplo). Já os três sinais de exclamação deixam claro que o sujeito ficou indignado com a pergunta feita, já que, para ele, era óbvio que, se ele veio descontar o cheque, levaria o dinheiro consigo. A construção de humor se faz em relação a como cada uma das personagens interpreta a cena que vivencia, mas são os sinais de pontuação triplicados que dão pistas ao leitor sobre a surpresa do funcionário e a indignação do sujeito, orientando, assim, como deve ser a entonação durante a leitura. Por fim, vale destacar a importância da pontuação na organização do discurso de acordo com o que desejamos evidenciar em nossos textos. Em geral, com os sinais de pontuação podemos indicar:
Interação entre os sujeitos ponto de interrogação; ponto de exclamação; reticências; dois-pontos (antes de fala). evidenciam diálogo.
Presença de ideias de outros
Discursos intercalados
aspas (de diálogo); aspas (de ironia); travessão (de fala.)
parênteses; colchetes; travessão (duplo); vírgulas (separando explicações); dois-pontos (destacando ideias).
marcam o discurso alheio.
organizam o texto.
Ao estudar a pontuação, portanto, mais que conhecer regras, é fundamental compreender sua função e utilidade de acordo com os objetivos e as intencionalidades em uma situação comunicativa concreta.
Saiba mais Os primeiros emoticons foram escritos a partir de sinais de pontuação ou a combinação desses com números e letras. Mesmo após a chegada dos emojis – as “carinhas” e outros desenhos que usamos em aplicativos de comunicação –, ainda é possível encontrar textos que fazem uso de emoticons em contextos digitais. De forma geral, a pontuação usada representa uma imagem que remete a um sentimento ou um símbolo. Veja alguns emoticons e o que eles significam. :)
Alegria
:(
Tristeza
:-O
Espanto
=)
Felicidade
>:(
Irritação
Mas era melhor demorar oito ou dez horas de carro a ir de avião… b) “Você não precisa esmagar a outra parte para sair ganhando.” (l. 30) => Você não precisa de esmagar a outra parte para sair ganhando. c) “Levar vantagem em tudo não significa que os outros tem que levar desvantagem.” (l. 25 e 26) => Levar vantagem em tudo não significa que os outros têm de levar desvantagem. d) “Só que o consumidor preferia ficar passando calor a ser visto dirigindo um carro com um buraco no teto...” (l. 21) => Só que o consumidor preferia ficar passando calor do que ser visto dirigindo um carro com um buraco no teto…
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Capítulo 12
Regências verbal e nominal
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BNCC em foco 002447_por_f1_c12_q0041objetiva
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1. UEM-PR 2015
Excesso de regras João Ubaldo Ribeiro ironiza normas legais em sua última coluna
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O correto uso do papel higiênico O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê. Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo. Agora me contam que, não sei se em algum Estado ou no País todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar à obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o Estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar. Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma – chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote –, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles. Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir
FRENTE 1
O escritor João Ubaldo Ribeiro, que morreu na última sexta-feira (18/7) aos 73 anos, ironizou em seu último texto a quantidade de novas regras que vêm sendo fixadas na sociedade. “Imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3,28 por cento”, afirma o imortal da Academia Brasileira de Letras na coluna que havia preparado 5 para a edição do próximo domingo (20/7) do jornal O Globo. Leia a íntegra do texto:
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até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e 55 como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se. Fonte: Revista Consultor Jurídico, 19 de julho de 2014, 12h30. Disponível em: www.conjur.com.br/2014-jul-19/ joao-ubaldo-ribeiro-ironiza-normas-legais-ultima-coluna. Acesso em 05/11/2015.
Assinale o que for correto quanto aos elementos linguísticos do texto. 01 Em “denunciado à polícia” (linha 36), o emprego do sinal indicativo de crase justifica-se pela regência nominal da forma de particípio passado “denunciado”, que exige a preposição a. 02 Nos trechos: “fotos coloridas de gente passando mal” (linhas 32-33) e “comidas excessivamente calóricas” (linha 33), os vocábulos em negrito desempenham função de adjetivo, qualificando termos que os acompanham. 04 A expressão “Por enquanto” (linha 56) estabelece no texto uma relação de oposição entre um suposto controle das atividades sexuais vivenciadas pelas pessoas e o cuidado que elas devem ter quanto ao que andam aprontando. 08 Construções sintáticas utilizadas no texto, tais como “Temos que ser protegidos” (linha 53) e “é prudente verificar” (linha 57), indicam manifestações de ironia na medida em que o sentido que se deve entender é o contrário do que está sendo dito. 16 Em “O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares.” (linha 30), a forma verbal em negrito expressa uma circunstância de condição ligada à hipotética aprovação do chamado Cardápio Único Nacional. Soma:
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2. Udesc “Eu me chamo Marina”. Então desprendi os cabelos e, em chinelos como estava, saí pela porta da frente para nunca mais voltar. Gosto de campinas abertas, amo a folha que flutua no ar, desgarrada da árvore. Ah, essa insensatez de todas as pessoas condicionadas por palavras e símbolos que não são amor nem liberdade! Aos 23 anos, tive um sonho: eu era eu mesma, porém mais esguia, o rosto mais magro e maduro. Podia ver a beleza em 5 minha pele, mas a vida de meus olhos se mesclava a um verde mais profundo, como um acorde nostálgico ou melancólico em meio a uma canção agreste. Ou como as palavras de um poema que, um dia, uma voz amiga me declamara: Eu não dei por esta mudança tão simples, tão certa, tão fácil: Em que espelho ficou perdida 10 a minha face? “Não!”, eu gritava, “Isto não poderá acontecer!” E com um gesto brusco destruí o sonho, que se partiu em círculos a minha volta. SOUZA, Silveira de. Um nome: Marina. In: Ecos no porão. Florianópolis: Ed. UFSC, 2012, p. 28.
Assinale a alternativa incorreta em relação ao conto Um nome: Marina, Silveira de Souza, e ao texto: a) O conto Um nome: Marina é entrecortado por um poema, a este recurso estilístico denomina-se intertextualidade. b) Na estrutura linguística “Ah, essa insensatez de todas as pessoas condicionadas por palavras” (linhas 3-4) no que se refere à concordância e regência nominais há um desvio às normas exigidas pela gramática normativa. c) O conto Um nome: Marina apresenta os fatos sequencialmente, o que é retratado pela progressão cronológica da personagem principal – Marina. d) Se a palavra “acorde” (linha 6) for substituída por som ainda assim o sentido e a coerência textual são mantidos. e) Da leitura do conto Um nome: Marina infere-se um ar de sensualidade, reforçado pela repetição do nome Marina.
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3. FGV-SP O artista Juan Diego Miguel apresenta a exposição “Arte e Sensibilidade”, no Museu Brasileiro da Escultura (MUBE) de suas obras que acabam de chegar no país. Seu sentido de inovação tanto em temas como em materiais que elege é sempre de uma sensação extraordinária para o espectador. Juan Diego sensibiliza-se com os materiais que nos rodeam e lhes da vida com uma naturalidade impressionante, encontrando liberdade para buscar elementos no fauvismo de Henri Matisse, no cubismo de Pablo Picasso e do contemporâneo de Juan Gris. Uma arte que está reservada para poucos. Exposição: de 03 de agosto à 02 de setembro, das 10 às 19h.
O primeiro período do texto deve ser reescrito, para apresentar maior clareza. Além disso, a regência do verbo chegar contraria a norma culta. Reescreva o parágrafo, com o objetivo de torná-lo mais claro e adequar a regência do verbo referido.
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Capítulo 12
Regências verbal e nominal
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© Salvador Dalí, Fundación Gala-Salvador Dalí/AUTVIS, Brasil, 2020
Salvador Dalí. A persistência da memória, 1931. Óleo sobre tela, 24,1 cm 3 33 cm. Museu de Arte Moderna, Nova York.
FRENTE 1
13 CAPÍTULO
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Crase Uma das intepretações possíveis para a obra A persistência da memória está ligada à rejeição da ideia de tempo como algo determinante e definitivo. A tela evidencia vários relógios que parecem estar se derretendo e, ao mesmo tempo, se fundindo a outros elementos da imagem. Ao final, não vemos nem a imagem original dos relógios nem a forma dos elementos que os compõem: será uma terceira forma. Na língua portuguesa, o fenômeno da crase também tem relação com a fusão de dois elementos que, ao se juntarem, formam algo novo, diferente daqueles que lhe deram origem. Neste capítulo, compreenderemos o que é a crase e quais são as situações em que ela se faz necessária.
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Crase: conceito, sentido e aplicação Leia a manchete a seguir.
Banhistas descumprem decreto no feriado e vão à praia em Florianópolis e Balneário Camboriú BITTENCOURT, Brenda. Hora de Santa Catarina, 2 abr. 2021. Disponível em: www.nsctotal.com.br/noticias/banhistas-descumprem-decreto-no-feriado-vao-a-praiaem-florianopolisbalneario-camboriu. Acesso em: 20 out. 2023
Na manchete, podemos observar que, após a forma verbal “vão”, há uma palavra com um acento grave. Toda vez que esse acento for usado sobre a vogal “a”, significa que ocorreu o que conhecemos como crase, fenômeno linguístico em que há, na fala, a fusão de dois sons idênticos. Isso pode ser percebido, por exemplo, quando a preposição “a” e o artigo feminino “a” se encontram em uma sentença. Banhistas vão à praia.
a a o verbo “ir” exige a preposição “a”.
o substantivo “praia” exige o artigo feminino “a”.
Rata
Na escrita, em vez de registrarmos um “a” ao lado do outro, convencionou-se indicar apenas um “a” e marcar essa fusão com um sinal indicativo de crase: o acento grave. Agora, leia a tirinha. Na tirinha, a analogia da preposição e do artigo como gêmeos favorece a percepção de que, embora semelhantes, eles não são iguais, pois cada um desempenha uma função sintática na frase. Além disso, a tirinha brinca com o termo acento grave, que nomeia o sinal usado, na escrita, para evidenciar essa fusão.
Atenção Enquanto os artigos têm a função de especificar os substantivos a que estão relacionados, a preposição cumpre o papel de conectar partes do texto, sendo, por isso, um importante recurso para a coesão textual. Veja os exemplos.
• Eu vi a menina hoje. (“a” exerce a função de artigo, pois especifica o substantivo “menina”) • Saí a caminhar ontem. (“a” tem função de preposição, pois liga dois verbos) Além da junção com o artigo feminino definido, a preposição “a” também pode se contrair com a vogal “a” inicial de pronomes demonstrativos (aquela, aquele, aquilo) ou relativos (a qual). Observe:
Fez homenagem àquela que ama! (a + aquela) Preposição
Pronome demonstrativo
Esta é a história à qual me referi. (a + a qual) Preposição
Pronome relativo
No primeiro caso, o substantivo “homenagem” exige a preposição “a”; assim, diante do pronome “aquela”, ocorrem dois fonemas semelhantes: aaquela. Como na escrita esse registro não é admissível, o uso do acento grave é o que indica o fenômeno da crase (àquela). No segundo exemplo, o verbo “referir” exige a preposição “a”. Portanto, o acento grave, indicativo de crase, é fundamental para marcar a fusão da preposição com o pronome relativo em questão.
Uso obrigatório Há contextos de uso em que sempre ocorre crase. Nesses casos, o acento grave é obrigatório. 1a regra: ocorre crase antes de palavras femininas quando houver um vocábulo na sentença que exija a preposição “a”.
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Capítulo 13
Crase
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Vai pra Itália? Veja o que visitar perto de Milão
Veja a manchete a seguir:
O primeiro homem a pisar na Lua foi o astronauta norte-americano Neil Armstrong em 1969, durante a missão Apolo 11. ELERBROCK, Rafael. Brasil Escola, [s.d.]. Disponível em: https:// brasilescola.uol.com.br/curiosidades/mitos-verdades-sobre-chegadahomem-na-lua.htm. Acesso em: 20 out. 2023.
No enunciado, “Lua” é um substantivo feminino e admite, portanto, o emprego do artigo “a”; já o verbo “chegar” exige como complemento a preposição “a” (chegar a algum lugar). Então, ocorre a fusão de dois “a”: o artigo “a” e a preposição “a”. Justifica-se, assim, o emprego do sinal indicativo de crase em “à Lua”. Uma estratégia para verificar se há ou não crase é substituir a palavra feminina por outra masculina: “Mitos e verdades sobre a chegada do homem ao centro da Terra”. Se, na frente de uma palavra masculina, o uso de “ao” (preposição “a” + artigo “o”) for pertinente, então significa que deve haver crase no caso de uma palavra feminina. Outra estratégia para ter certeza de que ocorre crase em uma sentença é trocar o “a” por “na” ou “para a”. Se o sentido for mantido, então o fenômeno da crase ocorre na frase. Exemplos: Quero ir à praia logo pela manhã. (Quero ir para a praia logo pela manhã.) Cheguei à casa de Angélica. (Cheguei na casa de Angélica.)
Conheça os 6 lugares mais interessantes perto de Milão e saiba quantas horas você gasta para visitar cada cidade. Milão e Roma são as portas de entrada para os brasileiros que viajam à Itália. Tanto Milão quanto Roma estão localizadas em zonas estratégicas que permitem fazer muitos bate e volta. Em Milão é interessante ficar no mínimo três dias: no primeiro se faz um tour rápido, no segundo um tour mais tranquilo e no terceiro um tour nas partes menos centrais. [...] Design.com, 12 nov. 2019. Disponível em: https://revistadesign.com/ portal/vai-pra-italia-veja-o-que-visitar-perto-de-milao/. Acesso em: 20 out. 2023.
No trecho destacado, o verbo “viajar” rege a preposição “a”, e o substantivo “Itália” admite o uso do artigo “a”. Por esse motivo, no fragmento “brasileiros que viajam à Itália” ocorre crase. Em caso de dúvida se há ou não acento grave antes do nome de um lugar, basta fazer um teste simples: formar frases com a preposição “de” + o nome do lugar e verificar se ele admite ou não o artigo feminino. Veja: Viajei da Itália para cá.
de + a
há artigo feminino
Se o nome “Itália” admite artigo, então a crase ocorre em Viajei à Itália. Viajei de Roma para cá.
Saiba mais O verbo “chegar”, no sentido de “alcançar um lugar”, rege, segundo a norma-padrão, a preposição “a”. No entanto, o uso da preposição “em” junto a esse verbo tem se tornado cada vez mais comum na fala e na escrita de brasileiros. Assim, a frase “Cheguei na casa de Angélica”, embora não seja contemplada pela gramática normativa, pode ser utilizada em contextos informais, sem que haja prejuízo para a comunicação.
Também será obrigatório o uso do acento indicador de crase com os pronomes demonstrativos iniciados pela vogal “a” (aquele, aquela, aquilo) ou com o pronome relativo “a qual”, quando o termo regente (nome ou verbo) exigir a preposição “a”. Nos exemplos a seguir, os verbos “ir” e “obedecer” regem a preposição “a”. A crase ocorre porque há fusão dessa preposição com a primeira vogal dos pronomes “aquela” e “a qual”. Fui àquela cidade do interior. Esta é a mãe à qual a criança obedece. 2a regra: ocorre crase na frente de nome de lugar, desde que este admita o uso do artigo feminino “a”. Vamos refletir agora sobre o uso da crase no texto a seguir.
preposição de
não há artigo feminino
Se o nome “Roma” não admite artigo, então a crase não ocorre em Viajei a Roma. Essa regra também é válida para os verbos “ir” e “voltar”. Uma dica muito difundida em aulas e materiais didáticos sintetiza a ideia: “Se eu vou a e volto da, crase há. Se eu vou a e volto de, crase pra quê?” Então: Eu volto da Bahia. (da = de + a)
Eu vou à Bahia.
Há presença do artigo na primeira frase, então ocorre crase na segunda. Eu volto de Campinas.
Eu vou a Campinas.
Não há presença do artigo na primeira frase, então não ocorre crase na segunda.
FRENTE 1
Mitos e verdades sobre a chegada do homem à Lua
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O verbo “ir” exige a preposição “a”, mas nem sempre o nome do lugar exige o artigo “a”, por isso, é bastante útil fazer essa troca pelo verbo “voltar” em determinadas sentenças. No título do artigo de opinião a seguir, observamos outro uso em que ocorre crase.
Às vezes a gente só quer um abraço que diga que vai ficar tudo bem SIMÕES, Fabíola. A soma de todos os afetos, 15 jun. 2017. Disponível em: www.asomadetodosafetos.com/2017/06/as-vezes-a-gente-so-querum-abraco-que-diga-que-vai-ficar-tudo-bem.html. Acesso em: 11 jan. 2024.
Nesse caso, “às vezes” é uma locução adverbial que indica tempo, por isso, o uso do acento grave é necessário para indicar a crase. A crase pode ocorrer: a) em locução adverbial feminina de modo, tempo ou lugar: às vezes, às pressas, à noite, à direita, à esquerda, às escondidas. Ela saiu às pressas. (A locução indica o modo como ela saiu.) Ele corre à noite, porque o tempo está mais fresco. (A locução indica o tempo quando ele corre.) A padaria fica à esquerda da loja de sapatos. (A locução indica o lugar onde o estabelecimento se localiza.)
Saiba mais
Em relação à locução adverbial de tempo, a indicação de horas merece uma atenção especial. Ocorre crase na maioria dos casos, exceto quando houver o uso das preposições “após”, “até”, “desde”, “entre” ou “para” em vez da preposição “a”. Na indicação de hora exata Crase obrigatória
Eles chegaram às 10h no novo emprego. Marca uma hora específica Partiremos às oito horas em ponto.
Indica um horário definido Dica: presença da preposição “a”.
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Crase proibida
Trabalhei até as 22h ontem.
Indica um período (o trabalho começou antes e continuou)
Os alunos retornaram após as onze horas.
Indica um tempo não específico (pode ser 11h01, 11h02...)
Dica: presença da preposição “após”, “até”, “desde”, “entre” ou “para”. b) em locução prepositiva formada com palavra feminina: à beira de, à custa de, à sombra de, à moda de, à força de. À custa de muito esforço, conseguiu alcançar seus objetivos. Aquele restaurante serve comida à moda da casa. No caso de locuções prepositivas ocultas, a crase se mantém. Veja: Escreveu um conto à Machado de Assis. Escreveu um conto à (moda de) Machado de Assis.
A expressão “as vezes” pode ser usada sem o acento grave quando for sinônimo de “as ocasiões” ou “os momentos”. Se, no entanto, significar “de vez em quando”, a expressão indica tempo, portanto deve receber o acento indicador de crase: “às vezes”. A diferença de sentido pode ser observada nos exemplos a seguir. Às vezes, quero comer tudo o que vejo pela frente. (de vez em quando) Todas as vezes em que te vejo, meu coração acelera. (ocasiões/momentos)
Na indicação de hora aproximada
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Capítulo 13
c) em locução conjuntiva: à medida que, à proporção que. À medida que as horas passavam, eu ficava mais nervoso.
Atenção A locução ocorre sempre que usamos duas ou mais palavras para indicar uma só ideia. Juntas, elas pertencem a apenas uma classe gramatical. As locuções adverbiais indicam uma circunstância (de tempo, modo, lugar etc.), as prepositivas são introduzidas por uma preposição e, por fim, as conjuntivas desempenham a mesma função de uma conjunção.
Uso proibido O acento grave não deve ser utilizado quando não ocorrer o fenômeno da crase. 1a regra: não ocorre crase antes de palavras masculinas. Observe que, no título de receita culinária a seguir, está destacado o nome de um típico prato da culinária brasileira.
Aprenda a fazer um perfeito bife a cavalo para o almoço e jantar Gshow, 22 jun. 2020. Disponível em: https://gshow.globo.com/RPC/ Estudio-C/cozinha-paranaense/receitas/perfeito-para-o-almoco-aprendaa-fazer-bife-a-cavalo.ghtml. Acesso em: 20 out. 2023.
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2a regra: não ocorre crase em expressões com palavras repetidas. Agora, observe o texto a seguir.
exemplo há outro elemento que impossibilita a presença da crase: o fato de o substantivo “restaurantes” estar no plural. Na frente de palavras que estejam no plural, a crase só ocorre quando o substantivo feminino estiver especificado pelo artigo “a”. Nesse caso, deve haver a concordância do artigo com o substantivo. Eu me referi a comidas diversas.
“A máscara já não faz parte do meu dia a dia” Brasileira descreve sua rotina em Xangai, onde a vida voltou quase ao normal, enquanto a pandemia avança por outras partes do mundo e da própria China. SUNG, Fernanda. Piauí, 14 jan. 2021. Disponível em: https://piaui.folha. uol.com.br/mascara-ja-nao-faz-parte-do-meu-dia-dia/. Acesso em: 11 jan. 2024.
Em expressões com palavras repetidas, como “dia a dia”, também não deve ser utilizado o sinal indicativo de crase. Além disso, no exemplo, há uma palavra masculina (“dia”). Contudo, a dica de não usar crase entre palavras repetidas é válida mesmo se houver uma palavra feminina, como ocorre em “gota a gota” ou “face a face”.
sentido genérico (qualquer comida)
Eu me referi às comidas caseiras do Brasil.
sentido específico (comidas caseiras do Brasil) 4a regra: não ocorre crase antes de verbo.
• “a gente começa a comer” Na língua portuguesa, de forma geral, não ocorre artigo antes de verbo. Portanto, nesses casos, não tem como ocorrer fusão de preposição e artigo feminino, ou seja, não há crase.
3a regra: não ocorre crase antes de palavras no plural que não são definidas por um artigo feminino.
5a regra: não ocorre crase antes de palavras de sentido indefinido (artigos e pronomes indefinidos).
Agora, imagine que o autor de um blog postou em sua página o seguinte depoimento:
• “ontem fui a um desses lugares” / “fiquei perguntando
Gosto de ir a restaurantes populares. Lá, o cheirinho de comida caseira é tão bom que a gente começa a comer e não quer parar. Se eu pudesse, iria todos os dias, de segunda a domingo e, de preferência, de janeiro a dezembro. Ontem fui a um desses lugares (acho que cheguei após as 20h). Quando a atendente chegou, pedi a ela dois pratos típicos que eu adoro: frango a passarinho e bife à milanesa. Ela perguntou meu nome, porque queria saber a quem deveria chamar quando o prato ficasse pronto. Eu achei estranho, porque não estava acostumado a isso. Mas, enfim, se essa era a regra... kkkkk. Eu estava tão faminto que fiquei perguntando a toda hora se iria demorar, mas só levou de 15 a 20 minutos para me chamarem. Bom, nem preciso dizer ao senhor e à senhora (ou a vossa senhoria, se assim preferir) que eu devorei tudinho! Nunca comi tanto na minha vida! Mas quem resiste a essa maravilhosa culinária do nosso país, né? Eu, definitivamente, não!!!! Texto elaborado pelos autores para fins didáticos.
O texto apresenta diversas passagens em que o uso do acento grave, indicador de crase, não deve ser utilizado.
a toda hora” No primeiro trecho está evidente a presença da preposição “a” e do artigo indefinido “um”. No segundo, a preposição aparece antes do pronome indefinido “toda”. Nesses contextos da língua, não se admite o uso do artigo feminino “a”, logo, o fenômeno da crase não acontece. 6a regra: não ocorre crase quando a indicação de hora vier precedida das preposições “após”, “até”, “desde”, “entre” e “para”.
• “cheguei após as 20h” Já vimos que, em expressões que marcam as horas, quase sempre ocorre crase. Essa regra só não será válida quando as preposições “após”, “até”, “desde”, “entre” e “para” antecederem o numeral ou algarismo que indica a hora. No texto, é dito que o rapaz chegou “após as 20h”. Como não há presença da preposição “a”, então não pode haver crase. 7a regra: não ocorre crase antes de pronomes pessoais.
• “Gosto de ir a restaurantes” A palavra “restaurante” é masculina e, seguindo apenas a regra de que só ocorre crase antes de palavras femininas, concluímos que não há crase nesse caso. Além disso, no
• “pedi a ela dois pratos típicos” O verbo “pedir” exige preposição “a”, mas não utilizamos artigo “a” antes de pronomes pessoais. Sendo assim,
FRENTE 1
O substantivo “cavalo” é masculino, portanto não admite o artigo feminino “a”. E, sem a presença de artigo feminino, não pode ocorrer crase. (Lembre-se de que uma das regras fundamentais da crase é a fusão entre dois sons iguais, como ocorre com a preposição “a” e o artigo feminino “a”).
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o fenômeno da crase não se justifica quando utilizamos esses pronomes. 8a regra: não ocorre crase antes de pratos culinários em que não se subentende a expressão “à moda de”.
Em expressões que envolvam números indicando um período, não há crase se o “a” que fica entre eles significar “até”. É fundamental observar também se antes do primeiro algarismo (ou numeral) a preposição “de” se faz presente, ainda que na junção com o artigo “a”. Veja: Estaremos fechados de 1 a 5 de janeiro.
• “adoro frango a passarinho” Muitos pratos culinários levam sinal indicador de crase, como ocorre em “bife à milanesa”. Isso porque se subentende a expressão “à moda de”: bife à moda milanesa. Ou seja, à moda de Milão. O mesmo ocorre em “macarrão à bolonhesa” (à moda de Bolonha) ou “arroz à grega” (à moda da Grécia). A expressão “à moda de” significa “segundo os costumes” ou “conforme as maneiras”, portanto está ligada a um estilo. Um país pode ter um estilo ou costume, assim como uma pessoa (“molho à Juliana”), mas não um pássaro, por isso, no exemplo, o uso da crase não se justifica. A expressão “frango a passarinho” quer dizer “cortado como se fosse passarinho”. Além disso, “passarinho” é um substantivo masculino, o que torna proibido o emprego do acento grave. 9a regra: não ocorre crase antes de pronomes interrogativos.
• “queria saber a quem deveria chamar” Quando utilizamos um pronome interrogativo, ele não é antecedido por um artigo. Assim, não há como ocorrer o fenômeno da crase antes dele. 10a regra: não ocorre crase antes de pronomes demonstrativos de primeira e segunda pessoas.
• “não estava acostumado a isso” / “quem resiste a essa maravilhosa culinária” Os pronomes demonstrativos não admitem artigo feminino. Isso explica por que o acento grave não pode ser utilizado antes de “isso” e “essa”. Vale lembrar que a crase que ocorre nos demonstrativos “aquela”/”aquele”, em alguns contextos, não se dá pela presença de um artigo, mas pela vogal “a” que inicia esse pronome. Assim, em “Não resisti àquela comida” há crase, mesmo que “aquela” seja pronome demonstrativo, pois o verbo “resistir” exige a preposição “a”, e o pronome começa com a vogal “a”. 11a regra: não ocorre crase entre números quando a preposição “a” puder ser substituída por “até” e se antes do primeiro número não houver o artigo feminino “a”.
• “levou de 15 a 20 minutos” / “iria de segunda a domingo” / “iria de janeiro a dezembro”
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 13
preposição “de” (sem artigo)
desnecessário o acento grave
O teste será aplicado da sala 2 à 5.
preposição “de” + artigo “a”
necessário o acento grave
Como na expressão “de 15 a 20 minutos” não há artigo antes do primeiro número, então não ocorre crase entre os algarismos 15 e 20. 12a regra: não ocorre crase entre dias da semana ou meses do ano, em expressões que indicam um período. Isso também se aplica quando nos referirmos aos meses do ano ou aos dias da semana. Como, em geral, ao indicar esses períodos, o uso do artigo “a” não é necessário, então não ocorre crase. Por isso, as passagens “de segunda a domingo” e de “janeiro a dezembro” presentes no texto não apresentam o acento grave. 13a regra: antes de pronomes de tratamento não há crase, com exceção de “senhora”, “senhorita”, “madame” e “dona”.
• “dizer a vossa senhoria” Os pronomes de tratamento. geralmente. não são antecedidos por artigo feminino, assim, não há como ocorrer o fenômeno da crase. É o que acontece no texto com o uso de “a vossa senhoria”. Veja outros exemplos: Vou pedir a você que saia. Ele queria contar o segredo a Vossa Majestade, mas foi impedido. Para essa regra, no entanto, há algumas exceções: antes de “senhora”, “senhorita”, “dona” e “madame”, o uso do acento grave é necessário. Nem preciso dizer ao senhor e à senhora que eu devorei tudinho! O verbo “dizer”, nesse contexto, exige a preposição “a” (dizemos algo a alguém). Por esse motivo, observe que, antes de “senhor”, foi usado “ao” (a + o = ao) e, antes de “senhora”, foi usado o “à” com acento grave (a + a = à).
Uso facultativo Observe o título dos livros a seguir. A obra é a mesma, mas cada exemplar foi publicado por uma editora diferente.
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Reprodução
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Claudia Raia faz elogio tosco a Fernanda Souza: “Amo mais que pele de frango” CASTRO, Daniel. Notícias da TV, São Paulo, 18 jun. 2019. Disponível em: https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/celebridades/claudiaraia-faz-elogio-tosco-fernanda-souza-amo-mais-que-pele-de-frango27589?cpid=txt. Acesso em: 11 jan. 2024.
Na manchete, a falta do acento grave no trecho destacado justifica-se porque o contexto da publicação da notícia pede um tratamento mais formal, pois entende-se que existe uma relação distante entre o jornal e as pessoas envolvidas. 3a regra: a crase é facultativa depois da locução prepositiva “até a”.
O acento indicativo de crase é opcional em alguns contextos específicos, como ocorre nos títulos da obra acima. Uma editora optou por registrar a crase antes do pronome possessivo “minha”, enquanto a outra preferiu não o fazer. Carta à minha filha
Carta a minha filha
Como o uso de artigo definido antes de pronome possessivo não é obrigatório, a crase também não é.
Atenção Os principais pronomes possessivos femininos são: “minha”, “tua”, “nossa”, “sua”. Eles servem para evidenciar a relação de posse estabelecida com a palavra a que fazem referência.
2a regra: a crase é opcional antes de nomes próprios femininos, mas, quando a pessoa citada é famosa ou desconhecida, então o acento grave não deve ser usado. Observe agora estas frases: Alessandra dedica-se a Áurea desde que a filha nasceu. Alessandra dedica-se à Áurea desde que a filha nasceu. Antes de nomes próprios femininos, o fenômeno da crase pode ou não ser marcado com o acento grave. Isso ocorre, pois se entende que, quando se trata de uma pessoa com a qual temos um relacionamento próximo, podemos ou não utilizar o artigo definido (eu posso dizer, por exemplo, “Eu conheço Áurea” ou “Eu conheço a Áurea”). No exemplo anterior, o verbo “dedicar” exige a preposição “a”, então percebemos que a crase é possível. Existe apenas uma exceção para essa regra: quando a pessoa citada não é próxima, seja porque é uma celebridade, seja porque é uma desconhecida, o acento grave não ocorre. Veja:
Por fim, em frases como “Moisés foi até a [à] escola”, o uso da crase também será facultativo.
Estabelecendo relações Em Química, a fusão é um processo de transformação de uma substância em estado sólido para o líquido. É o que ocorre com o gelo, quando colocado fora da geladeira. No estudo da crase, pudemos perceber que também ocorre uma fusão, mas, no caso, de dois sons vocálicos semelhantes: /aa/. Para identificar essa fusão é possível fazer, como na Matemática, uma “prova real”, ou seja, olhar para seus elementos de outra forma e checar se realmente “o resultado” está correto. Ao desmembrar os elementos que se fundiram, conseguimos evidenciar tanto a preposição quanto o artigo, isto é, os termos semelhantes. Raquel vai aa praia. prep. art.
Raquel vai à praia. fusão da prep. com o art.
Outras ocorrências Algumas vezes a presença ou não do acento grave deve ser analisada considerando o contexto de uso de uma palavra, seu sentido na frase ou mesmo se o vocábulo vem ou não acompanhado de um modificador.
Atenção O modificador é um termo que acrescenta uma informação à palavra (em geral, um substantivo) a que está ligado. Em geral, os adjetivos e locuções adjetivas têm essa função. Em “vestido azul”, a palavra “azul” modifica o sentido do substantivo “vestido”.
Palavra “casa” Compare as duas manchetes a seguir. A primeira faz referência à atriz Carla Diaz, que participou do reality show Big Brother Brasil (BBB), em 2021. A segunda utiliza um conhecido ditado popular para dizer que Gabriel Barbosa, o Gabigol, retorna ao Santos, clube em que iniciou sua carreira, após passar uma temporada jogando em um time europeu.
FRENTE 1
1a regra: a crase é opcional antes de pronomes possessivos femininos.
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Carla volta à casa do “BBB21” vestida de dummy, após paredão falso “Sister” reuniu participantes na área externa da casa e, só então, revelou pegadinha. No retorno, ela beijou Arthur e fez alerta a Juliette. G1, 11 mar. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/ pop-arte/noticia/2021/03/11/ carla-diaz volta-a-casa-do-bbb21-vestida-de-dummy-apos-paredao-falso.ghtml. Acesso em: 11 jan. 2024.
O bom filho a casa torna: Santos contrata Gabigol Em baixa na Europa, atacante volta ao clube que o revelou com contrato de empréstimo de um ano Globo Esporte, 25 jan. 2018. Disponível em: https:// ge.globo.com/sp/santos-e-regiao/futebol/ times/santos/noticia/o-bom-filho-acasa-torna-santos-contrata-gabigol.ghtml. Acesso em: 11 jan. 2024.
Apesar de a palavra “casa” ser utilizada nas duas manchetes, observamos que, na primeira, ela vem precedida de um “a” com acento grave (“à”) e, na segunda, não. Isso ocorre por causa de uma regra da norma-padrão que orienta que a palavra “casa” deve receber acento grave se ela vier modificada (apresentar um termo qualitativo), mas não deve receber o acento indicativo de crase quando indicar “lar”, sem nenhum termo que especifique a palavra. Em “Carla volta à casa do ‘BBB21’ [...]”, é possível perceber que a atriz está voltando para uma casa em especial, a “do ‘BBB21’”; o acento indicador de crase, então, deve ser usado. Já em “o bom filho a casa torna”, não está determinada qual é a casa, então podemos concluir que Gabigol volta para seu lar. Sempre que a palavra “casa” puder ser substituída por “lar”, não haverá crase.
Palavra “terra” Com a palavra “terra” acontece algo semelhante. Se esse substantivo vier modificado, também deve ser usado o acento indicativo de crase, mas, se não houver nenhum qualificador, a crase não ocorrerá. Com crase
Sem crase
Os passageiros chegaram à terra do Tio Sam.
Os passageiros chegaram a terra ontem.
com modificador
sem modificador
Em relação ao sentido, quando a palavra “terra” for usada em oposição a “bordo”, com a ideia de “chão”, “terra firme”, não ocorre crase. Já quando o uso estiver ligado ao nome do planeta em que vivemos, então o acento grave deve ser utilizado. Com crase
Sem crase
O respeito à Terra é fundamental para nossa sobrevivência.
Após meses no mar, os navegantes retornaram a terra.
planeta
“terra firme”, oposto de a bordo
Palavra “distância” Quando utilizamos a palavra “distância”, é preciso observar se ela está ou não determinada numericamente, ou seja, se há uma informação que modifica o seu sentido. Se a distância estiver delimitada, há crase. Caso contrário, não. Com crase
Sem crase
Sem lentes, não enxergo à distância de um metro.
Sem lentes, não enxergo a distância.
distância determinada
distância indeterminada
Considerando essa regra, a expressão “ensino a distância” (ou similares, como “Faça cursos a distância”, presente na propaganda a seguir) não deve ter acento indicativo de crase.
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Capítulo 13
Crase
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Acervo do Instituto Federal do Rio Grande do Sul
Nessas locuções [à parte, à queima-roupa, à risca, por exemplo], o “a” recebe o acento grave, sem que haja, a rigor, crase. CUNHA, Celso; PEREIRA, Cilene da Cunha (org.). Gramática do português contemporâneo: edição de bolso. Rio de Janeiro: Lexikon; Porto Alegre, RS: L&PM, 2013. p. 330.
Vendeu a ou à vista? Se alguém “vendeu a vista”, deve ter vendido “o olho” (a vista = objeto direto). O desespero era tanto que um vendeu o carro, o outro vendeu o rim e esse vendeu a vista. Se não era nada disso que você queria dizer, então a resposta é outra: “vendeu à vista”, e não a prazo (à vista = adjunto adverbial de modo). Observe que nesse caso não se aplica o “macete” da substituição do feminino pelo masculino (à vista > a prazo). Por causa disso, há muita polêmica e algumas divergências entre escritores, jornalistas, gramáticos e professores. Acentuamos o “a” que inicia locuções (adverbiais, prepositivas, conjuntivas) com palavra FEMININA: à beça; à beira de; à cata de; à custa de; à deriva; à direita; à distância; à espreita; à esquerda; à exceção de; à feição de; à força; à francesa; à frente (de); à luz (“dar à luz um filho”); à mão; à maneira de; à medida que; à mercê de; à míngua; à minuta; à moda (de); à noite; à paisana; à parte; à pressa; à primeira vista; à procura de; à proporção que; à queima-roupa; à revelia; à risca; à semelhança de; à tarde; à toa; à toda; à última hora; à uma (= conjuntamente); à unha; à vista; à vontade; às avessas; às cegas; às claras; às escondidas; às moscas; às ocultas; às ordens; às vezes (= algumas vezes, de vez em quando)... [...] NOGUEIRA, Sérgio. Vendeu ‘a vista’ ou ‘à vista’? Veja se a crase está correta nesse caso. G1, Rio de Janeiro, 16 jan. 2013. Disponível em: http://g1.globo.com/educacao/blog/dicas-de-portugues/post/vendeu-avista-ou-a-vista-veja-se-a-crase-esta-correta-nesse-caso.html. Acesso em: 11 jan. 2024.
Como o estudioso evidencia em seu texto, alguns teó ricos argumentam que “à vista” não deveria ter o acento grave, já que, se a palavra “vista” (subst. feminino) fosse substituída por uma masculina (como “prazo”), o artigo não seria utilizado, logo, não pode ocorrer crase. Dizemos “a prazo”, e não “ao prazo”. Ele, no entanto, assim como outros estudiosos da linguagem, discorda dessa primeira visão e argumenta que o uso do acento grave é necessário com base no fato de que “à vista” é uma locução adverbial de modo formada por um substantivo feminino. Tal tese tem respaldo em algumas gramáticas contemporâneas:
Mas não é só no sentido de “ação imediata” que o acento grave pode ser usado. Quando a forma “à vista” estiver sendo usada como “na presença” ou “diante dos olhos”, a locução adverbial de modo também receberá acento: A agressão foi feita à vista de todos. (= A agressão foi feita diante de todos.) Vale lembrar que é sempre importante observar o contexto de uso para verificar se o acento grave deve ou não ser utilizado. Isso porque a forma “a vista” (sem acento) também pode ser encontrada em alguns enunciados, como em “A vista ficou muito embaçada depois do exame”. Nesse caso, não há preposição, apenas a presença do artigo feminino “a” seguido pelo substantivo feminino “vista”. O termo destacado não é, portanto, uma locução adverbial de modo.
Expressões com ambiguidade A discussão sobre o uso ou não do acento grave também acontece com algumas locuções adverbais de instrumento em que, na troca por palavra masculina, não se observa a presença do artigo. É o que ocorre nas frases “O material foi cortado a faca” / “O material foi cortado a canivete”. Como a forma “ao canivete” não é gramatical, então não ocorre crase na primeira frase, justificando-se, assim, a ausência do acento.
FRENTE 1
Algumas locuções adverbiais – como “à vista” – costumam causar controvérsia quanto ao uso do acento grave.
Acervo da Prefeitura Municipal de Vilhena
Locução adverbial de modo “à vista”
Com essa ressalva, talvez a polêmica gerada fique esclarecida: o acento grave pode ser utilizado em locuções sem que o fenômeno da crase aconteça, ou seja, sem que haja fusão da preposição e do artigo feminino. É, portanto, uma convenção de acentuação, sem relação específica com o fenômeno da crase. Com base nisso, o anúncio a seguir estaria dentro da norma-padrão: “Pague à vista”. Note que a locução significa “no ato do vencimento”, no caso do anúncio (ou “no ato da compra”, em situações comerciais).
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instagram.com/gramaticaemquadrinhos
Seguindo esse raciocínio, o acento indicativo de crase não poderia ser usado em locuções como “a mão”, “a máquina”, “a tinta”: “Fez a mão”, “Escreveu a máquina” ou “Coloriu a tinta”. Note que “a tinta”, por exemplo, poderia ser substituída por “a lápis” (Podemos fazer uma prova a lápis e não ao lápis). No entanto, esse uso poderia gerar ambiguidade, e, para evitar essa situação, o acento grave tem sido utilizado em algumas locuções adverbiais, visando dar maior clareza àquilo que se enuncia. Veja:
Em cada uma das cenas da tirinha, a expressão “a mão” exerce uma função diferente na sentença: Fez a mão. / Lavou a mão. / Pintou a mão. Fez à mão. / Lavou à mão. / Pintou à mão.
Objeto direto (complementa o sentido do verbo: “o que a pessoa fez, lavou, pintou?”)
Adjunto adverbial (indica o instrumento utilizado para fazer, lavar, pintar)
O acento grave, portanto, pode ser utilizado em locuções adverbiais de instrumento ou de modo quando o objetivo for evitar ambiguidade, ou seja, quando não ocorre crase obrigatoriamente, mas o acento grave é empregado em função da clareza. Veja outros exemplos em que o uso ou não desse sinal de acentuação pode gerar diferentes sentidos: Artigo “a”
Artigo “a” + preposição
Artigo “a”
Artigo “a” + preposição
Cortei a faca.
Cortei à faca.
Paguei a prestação.
Paguei à prestação.
= cortar com a faca
= pagar uma parcela
= pagar em parcelas
Cheira a flor.
Cheira à flor.
= sente o perfume da flor
= tem o perfume da flor
= cortar a própria faca Botei a venda.
Botei à venda.
= colocar uma faixa nos olhos
= colocar algo para vender
Guardou a chave.
Guardou à chave.
= guardar a própria chave
= guardar algo com chave
Chega a noite. = anoitecer
Matei a fome.
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Fica a vontade.
Fica à vontade.
= permanecer o desejo
= sentir-se confortável
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Capítulo 13
= acabar com uma necessidade fisiológica (matar a fome em si)
Chega à noite. = chegar no período noturno Matei à fome. = levar uma pessoa à morte por falta de alimentos (matar pela fome)
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1. PUC-PR 2023 O texto a seguir é referência para a questão. O tempo é o segundo vilão que nos convida à irresponsabilidade com o que dizemos o que foi dito naquela hora, naquela circunstância, naquele afeto, que pode não ser toda a verdade no momento seguinte. O “Te amo para sempre” pode não resistir à ressaca do próximo dia. Como suportar então que não somos nós mesmos, que as palavras têm a ver com aquele tempo, e que o tempo muda e logo depois nos tornamos outros? DUNKER, C. THEBAS, C. O palhaço e o psicanalista: como escutar os outros pode transformar vidas. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019, p. 112.
O acento indicativo de crase pode ser motivado por diversas combinações em língua portuguesa. Nos dois casos destacados no texto, observa-se a soma de a) preposição exigida pela regência nominal e artigo antecedendo o substantivo feminino. b) preposição exigida pela regência verbal e artigo antecedendo o substantivo feminino. c) artigo feminino singular exigido pela concordância verbal e nominal do período. d) pronome demonstrativo em substituição à forma “aquela” e artigo feminino singular. e) preposição exigida pela regência verbal e preposição antecedendo o substantivo feminino.
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2. FEI-SP Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas das seguintes orações: I. II. III. IV.
Precisa falar ___ cerca de três mil operários. Daqui ___ alguns anos tudo estará mudado. ___ dias está desaparecido. Vindos de locais distantes, todos chegaram ___ tempo ___ reunião.
a) a – a – há – a – à. b) à – a – a – há – a. c) a – à – a – a – há.
d) há – a – à – a – a. e) a – há – a – à – a.
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3. IFSP Assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, a frase a seguir. Os interessados em adotar crianças têm de recorrer ___ orientações do Juizado de Menores e se sujeitar ___ uma espera muitas vezes longa, o que, apesar de tudo, não desanima ___ maioria. d) as – a – à a) às – a – a e) as – à – à b) às – à – a c) às – à – à
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4. Unicentro-PR 2018 Assinale a única alternativa em que o acento indicativo de crase deve ser obrigatório. Atenção: os acentos foram omitidos propositadamente. a) Todos eles receberam cartas escritas a mão. b) Eles visitaram a casa dos pais no feriado. c) Sempre retorno a casa depois de uma boa pedalada. d) Joaquim foi a uma festa com uma fantasia a Elvis Presley. e) Vilão e herói ficaram cara a cara para o duelo.
5. UEPG-PR 2023
Em nome dos mares “Precisamos mudar o mundo.” É assim, sem temer o clichê, que Maria Westerbos festeja a recente inauguração de um pequeno mercado em Amsterdã. Aberto no fim de março, o Ekoplaza LAB inova por materializar uma ideia disseminada há tempos pelos defensores do meio ambiente: lá, todos os produtos são livres de embalagens plásticas. “Sabe para onde vai uma parte significativa do plástico que consumimos? Para os oceanos. Por isso, temos de evitar cada vez mais o plástico de uso unitário”, explica a holandesa de 56 anos, enquanto toma café da manhã numa padaria. Para botar de pé a nova loja, a ativista trabalhou lado a lado com Erik Does, CEO da rede de supermercados Ekoplaza, que só comercializa orgânicos. A parceria se concretizou graças à Plastic Soup Foundation. Criada por Westerbos em 2011 e também baseada na capital da Holanda, a ONG luta para que os mares “não se transformem numa imensa sopa de dejetos plásticos”. Quinze militantes atuam na instituição cujo orçamento beirou os 745 mil euros em 2016. O dinheiro se originou de diferentes fontes, em especial doações de pessoas físicas e jurídicas. Com apenas 60 metros quadrados, o Ekoplaza LAB ocupa o térreo de um prédio residencial em Oud-West, bairro de classe média que passa por acelerado processo de gentrificação. As gôndolas do mercadinho abrigam 682 itens – cada um devidamente etiquetado com um selo em que se lê Plastic Free [livre de plástico]. O leite e o iogurte vêm em garrafas de vidro. As verduras, meio sujas de terra, como que recém-chegadas da horta, estão em sacos de juta. E os grãos de café, em recipientes de papel (“Um modo perfeito de armazenar produtos secos”, propagandeia o aviso na prateleira). Todos esses invólucros, diga-se, são recicláveis. Já legumes, carnes e pães aguardam os consumidores em embalagens de plástico biodegradável. O material lembra o polímero sintético tradicional, tanto pela consistência quanto por ser transparente. A diferença é que o plástico comum leva cerca de 500 anos para se decompor enquanto o bioplástico se degrada em doze semanas, caso esteja em contato com o solo. Na água, a decomposição exige um pouco mais de tempo. [...] Para fundar a Plastic Soup, Westerbos abandonou uma carreira de 25 anos na televisão, onde produzia documentários, programas de entretenimento e shows para crianças. Em pouco tempo, conseguiu que sua ONG alcançasse reconhecimento internacional. De acordo com a militante, em 2016, Erik Does andava interessado em diminuir as emissões de carbono na rede Ekoplaza. Seria o próximo passo ecologicamente correto de uma cadeia de 75 lojas espalhadas pela Holanda que se tornou sinônimo de vida saudável. Poucos meses antes da Olimpíada do Rio de Janeiro, o executivo tomou conhecimento das ações de Westerbos, quando leu na imprensa que a Plastic Soup tentava desenvolver um
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plano de despoluição na Baía da Guanabara. À época, o renomado velejador holandês Dorian van Rijsselberghe era embaixador da ONG e garoto propaganda da Ekoplaza. Estava feita a conexão entre as partes. [...] Até o final do ano, a Ekoplaza promete implantar uma seção sem embalagens plásticas em cada um de seus supermercados. “Estamos de saco cheio do plástico, e nossos consumidores também!”, proclama o site da empresa. Adaptado de: PERASSOLO, J. Em nome dos mares. Disponível em: https: //piaui.folha.uol.com.br/materia/ em-nome-dos-mares/. Acesso em: 22/08/2022
No fragmento do texto “A parceria se concretizou graças à Plastic Soup Foundation”, ocorreu uma crase, ou seja, houve uma contração do artigo a + preposição a. Identifique a(s) sentença(s) correta(s) quanto ao emprego da crase e assinale o que for correto. 01 Apesar da variedade de itens à venda, não encontrei tudo o que precisava. 02 Maria Westerbos nasceu em Wonji, na Etiópia, pequena cidade próxima à capital do país, Adis Abeba. 04 O bioplástico é confeccionado à partir de celulose, grama, algas, cogumelos e polpa de madeira. 08 Há uma parcela do plástico que é descartada à beira dos rios ou na praia e termina nos oceanos. Soma: 002447_por_f1_c13_q0006objetiva
6. EEAR-SP 2023 Em qual alternativa o emprego da crase está incorreto? a) O ataque à igreja ortodoxa foi inadmissível. b) Ele se sente melancólico às vésperas do Natal. c) Logo após à promulgação do decreto, houve protestos em várias cidades. d) Durante o período de reclusão, muitas pessoas ficaram à beira de um ataque de nervos.
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7. AFA-SP 2024 A seguir, você lerá um trecho do livro Viagens de Gulliver, um clássico da literatura universal, escrito por Jonathan Swift, publicado em 1726. O trecho foi extraído da Parte III do Capítulo 5 do livro.
Fizemos um passeio para a outra parte da academia, onde, como já disse, moravam os cientistas de estudos especulativos. O primeiro professor que encontrei estava numa sala 5 muito grande, com quarenta alunos em torno dele. Depois das saudações, tendo observado que eu olhava com curiosidade para um painel, /.../, disse ele, que “talvez eu pudesse gostar de vê-lo utilizando um projeto para a melhoria do conhecimento especulativo, por meio das 10 operações práticas e mecânicas.” [...] Todos sabiam como era trabalhoso o método atual para a conquista das artes e das ciências, ao passo que, graças às suas ideias, a pessoa mais ignorante, a um custo acessível, e com pouco esforço físico, poderia escrever 15 livros de filosofia, poesia, política, direito, matemática e teologia, sem necessidade de recorrer ao auxílio de um gênio ou através de estudo. LÍNGUA PORTUGUESA
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Ele então me conduziu até o painel, [...]. As superfícies eram compostas por vários pedaços de madeira, aproximadamente do tamanho de um dado, porém alguns eram maiores que os outros. Todos eles eram ligados juntos por meio de finos arames. Esses pedaços de madeira eram cobertos, em cada quadrado, com papéis colados a eles, e sobre estes papéis estavam escritas todas as palavras do idioma deles, em seus mais diversos modos, tempos e declinações, porém sem nenhuma ordem. O professor então quis que eu “observasse, porque ele iria colocar seu mecanismo em funcionamento.” Os alunos, sob sua direção, seguravam cada um deles uma alça de ferro, das quais havia quarenta fixadas em torno das extremidades do painel, e, dando-lhes uma volta súbita, toda a disposição das palavras se modificava totalmente. Pediu então para que trinta e seis dos garotos lessem vagarosamente as diversas linhas, à medida que elas apareciam no painel, e, quando eles encontravam três ou quatro palavras juntas que pudessem fazer parte de uma sentença, eles ditavam para os quatro garotos restantes, que eram os escreventes. [...] Esta operação foi repetida três ou quatro vezes, e em cada volta, o mecanismo era tão bem planejado, que as palavras se moviam para novos lugares, à medida que os pedaços de madeira quadrados se movimentavam de cima para baixo. Seis horas por dia eram empregadas pelos estudantes para a realização desta tarefa, e o professor me mostrou vários volumes em grande formato, já colecionados, de frases incompletas, as quais ele pretendia montar, e além dessa riqueza de material, com a finalidade de oferecer ao mundo uma obra completa de todas as artes e ciências, as quais, todavia, poderiam ainda serem melhoradas, e em muito aceleradas, se o público criasse um fundo para construção e utilização de quinhentos painéis como aquele em Lagado, e obrigasse os diretores a contribuírem conjuntamente com suas inúmeras coleções. Ele me garantiu que naquela invenção havia utilizado toda a inteligência da sua juventude, que ele havia esgotado todo o vocabulário com o seu painel, e havia feito um cálculo rigoroso da proporção geral que havia nos livros entre os números de partículas, substantivos e verbos, e outros componentes de uma oração. Ilustração do mecanismo de criação de sentenças descrito no texto:
(Disponível em: https:// upload.wikimedia.org/ commons/c/c0/Viagens_ deGulliver_050.jpeg. Acesso em: 20/03/2023)
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Leia o trecho a seguir, extraído do texto. “Pediu então para que trinta e seis dos garotos lessem vagarosamente as diversas linhas, à medida que elas apareciam no painel...” (l. 33-35). O uso do acento indicativo de crase destacado no fragmento é a) obrigatório, por se tratar de uma locução conjuntiva. b) obrigatório, por se tratar de uma locução adverbial. c) facultativo, pois a palavra à direita do a destacado no fragmento é um pronome possessivo. d) proibido, pois a palavra à direita do a destacado no fragmento não admite o artigo feminino.
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8. FPS-PE 2015 A correta observação das regras ortográficas da língua, em situações da escrita formal, também pode indicar apuro e competência no exercício da comunicação. Analise, nos seguintes enunciados, a adequação do uso do sinal indicativo da crase. 1. Avanços da tecnologia da informação podem estar à serviço de clínicas e hospitais.
2. Os exames ficam disponíveis no prontuário eletrônico do paciente e permitem o acesso à resultados recentes e antigos. 3. Desde as últimas décadas, a evolução tecnológica impactou a assistência da medicina no que se refere à análise dos sintomas e a queixas dos pacientes. 4. À adoção dos avanços tecnológicos para a área da saúde tem-se dado a maior importância das mais diversas formas. 5. A tecnologia pode também contribuir para à precisão dos resultados graças à softwares e aplicativos que dinamizam e humanizam o atendimento dos pacientes. Estão adequados os sinais indicativos da crase em: a) 1 e 2 apenas. b) 1 e 3 apenas. c) 3 e 4 apenas. d) 1, 4 e 5 apenas. e) 1, 2, 3, 4 e 5.
1. EEAR-SP 2022 Quanto ao uso ou não do acento grave indicador de crase, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas do texto. “Minha mãe, pessoa mais intransigente da casa, um dia acordou aberta _____ novas experiências. Deixou de lado seu ponto de vista contrário _____ aquisição de animais domésticos e achou que valeria _____ pena adotar um cão. Porém, quanto _____ passarinhos, jamais; queria-os livres para voarem rumo ______ liberdade”. a) a – a – à – a – a c) à – à – a – à – a b) à – a – à – à – à d) a – à – a – a – à
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2. Efomm-RJ 2023
As caridades odiosas
Clarice Lispector
Foi uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pensamentos, como às vezes acontece. Foi quando meu vestido me reteve: alguma coisa se enganchara na minha saia. Voltei-me e vi que se tratava de uma mão pequena e escura. Pertencia a um menino a que a sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele. O menino estava de pé no degrau da grande confeitaria Seus olhos, mais do que suas palavras meio engolidas, informavam-me de sua paciente aflição. Paciente demais. Percebi vagamente um pedido, antes de compreender o seu sentido concreto. Um pouco aturdida eu o olhava, ainda em dúvida se fora a mão da criança o que me ceifara os pensamentos. — Um doce, moça, compre um doce para mim. Acordei finalmente. O que estivera eu pensando antes de encontrar o menino? O fato é que o pedido deste pareceu cumular uma lacuna, dar urna resposta que podia servir para qualquer pergunta, assim como uma grande chuva pode matar a sede de quem queria uns goles de água.
Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente algum conhecido tomava sorvete, entrei, fui ao balcão e disse com uma dureza que só Deus sabe explicar: um doce para o menino. De que tinha eu medo? Eu não olhava a criança, queria que a cena, humilhante para mim, terminasse logo. Perguntei-lhe: que doce você ... Antes de terminar, o menino disse apontando depressa com o dedo: aquelezinho ali, com chocolate por cima. Por um instante perplexa, eu me recompus logo e ordenei, com aspereza, à caixeira que o servisse. — Que outro doce você quer? perguntei ao menino escuro. Este, que mexendo as mãos e a boca ainda esperava com ansiedade pelo primeiro, interrompeu-se, olhou-me um instante e disse com delicadeza insuportável, mostrando os dentes: não precisa de outro não. Ele poupava a minha bondade. — Precisa sim, cortei eu ofegante, empurrando-o para a frente. O menino hesitou e disse: aquele amarelo de ovo. Recebeu um doce em cada mão, levantando as duas acima da cabeça, com medo talvez de apertá-los. Mesmo os doces estavam tão acima do menino escuro. E foi sem olhar para mim que ele, mais do que foi embora, fugiu. A caixeirinha olhava tudo: — Afinal uma alma caridosa apareceu. Esse menino estava nesta porta há mais de uma hora, puxando todas as pessoas que passavam, mas ninguém quis dar. Fui embora, com o rosto corado de vergonha. De vergonha mesmo? Era inútil querer voltar aos pensamentos anteriores. Eu estava cheia de um sentimento de amor, gratidão, revolta e vergonha Mas, como se costuma dizer, o Sol parecia brilhar com mais força Eu tivera a oportunidade de ... E para isso fora necessário um menino magro e escuro ... E para isso fora necessário que outros não lhe tivessem dado um doce.
FRENTE 1
Exercícios propostos 002447_por_f1_c13_q0009objetiva
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E as pessoas que tomavam sorvete? Agora, o que eu queria saber com autocrueldade era o seguinte: temera que os outros me vissem ou que os outros não me vissem? O fato é que, quando atravessei a rua, o que teria sido piedade já se estrangulara sob outros sentimentos. E, agora sozinha, meus pensamentos voltaram lentamente a ser os anteriores, só que inúteis. Em vez de tomar um táxi, tomei um ônibus. Sentei-me. — Os embrulhos estão incomodando? Era uma mulher com uma criança no colo e, aos pés, vários embrulhos de jornal. Ah não, disse-lhes eu. “Dá-dá-dá”, disse a menina no colo estendendo a mão e agarrando a manga de meu vestido. “Ela gostou da senhora”, disse a mulher rindo. Eu também sorri. — Estou desde manhã na rua, informou a mulher. Fui procurar umas amizades que não estavam em casa. Uma tinha ido almoçar fora, a outra foi com a família para fora. — E a menina? — É menino, corrigiu ela, está com roupa dada de menina, mas é menino. O menino comeu por aí mesmo. Eu é que não almocei até agora. — É seu neto? Filho, é filho, tenho mais três. Olhe só como ele está gostando da senhora ... Brinca com a moça, meu filho! Imagine a senhora que moramos numa passagem de corredor e pagamos uma fortuna por mês. O aluguel passado não pagamos ainda. E este mês está vencendo. Ele quer despejar. Mas se Deus quiser, ainda arranjarei os dois mil cruzeiros que faltam. Já tenho o resto. Mas ele não quer aceitar. Ele pensa que se receber uma parte eu fico descansada dizendo: alguma coisa já paguei e não penso em pagar o resto. Como a mulher velha estava ciente dos caminhos da desconfiança. Sabia de tudo, só que tinha de agir como se não soubesse – raciocínio de grande banqueiro. Raciocinava como raciocinaria um senhorio desconfiado, e não se irritava. Mas de repente fiquei fria: tinha entendido. A mulher continuava a falar. Então tirei da bolsa os dois mil cruzeiros e com horror de mim passei-os à mulher. Esta não hesitou um segundo, pegou-os, meteu-os num bolso invisível entre o que me pareceram inúmeras saias, quase derrubando na sua rapidez o menino-menina. — Deus nosso Senhor lhe favoreça, disse de repente com o automatismo de uma mendiga. Vermelha, continuei sentada de braços cruzados. A mulher também continuava ao lado. Só que não nos falávamos mais. Ela era mais digna do que eu havia pensado: conseguido o dinheiro, nada mais quis me contar. E nem eu pude mais fazer festas ao menino vestido de menina. Pois qualquer agrado seria agora de meu direito: eu o havia pago de antemão. Um laço de mal-estar estabelecera-se agora entre nós duas, entre a mulher e eu, quero dizer. — Deixe a moça em paz, Zezinho, disse a mulher. Evitávamos encostar os cotovelos. Nada mais havia a dizer, e a viagem era longa. Perturbada, olhei-a de través: velha e suja, como se dizem das coisas. E a mulher sabia que eu a olhara. Então uma ponta de raiva nasceu entre nós duas. Só o pequeno ser híbrido, radiante, enchia a tarde com o seu suave martelar: “dá dá dá”. Lispector, Clarice. Clarice na cabeceira: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 13
Analise os fragmentos abaixo: I. “Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pensamentos, como às vezes acontece.” II. “Por um instante perplexa, eu me recompus logo e ordenei, com aspereza, à caixeira que o servisse.” III. “[ ... ] um menino a que a sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele.” Assinale a opção correta em relação ao emprego do acento grave indicativo de crase. a) Em I, o acento é colocado por uma situação de regência verbal; em II e III, o emprego é facultativo. b) Em I, ele é colocado por estar em uma expressão adverbial feminina; em II, é facultativo; em III, é inadequado. c) Em I e II, o acento é colocado por uma situação de regência nominal; em lll, é facultativo. d) Em I, ele é colocado por uma situação de regência nominal; em II e III, por uma situação de regência verbal. e) Em I, ele é colocado por estar em uma expressão adverbial feminina; em Il, por uma situação de regência verbal; em III, o emprego é inadequado.
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3. IFTM-MG
Disponível em: http://colmeia.eng.br/zumzum/preservacaodosolo/. Acesso em abril de 2011.
Assinale a alternativa correta. a) Na frase do texto “... os poluentes de volta à terra.”, a crase foi empregada incorretamente devido ao significado de terra no contexto. b) Em “Prepare-o”, o pronome oblíquo possui a função sintática de objeto indireto. c) Chorume significa líquido não poluente que com a ação da chuva, ajuda a lixiviar composto orgânico para o solo. d) No contexto sobre a emissão de poluentes, ocorre uma colocação em desacordo com a norma culta, relativo à concordância nominal. e) A linguagem conotativa permeia todo o texto, pois tenta induzir o leitor a rever os seus conceitos quanto ao meio ambiente.
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I. Ela cheirava à flor de romã. II. Ela cheirava a flor de romã. Considerando o uso da crase, é correto afirmar: 01 As duas frases estão escritas adequadamente, dependendo de um contexto. 02 As duas frases são ambíguas em qualquer contexto. 04 A primeira frase significa que alguém exalava o perfume da flor de romã. 08 A segunda frase significa que alguém tem o perfume da flor de romã. 16 O “a” da segunda frase deveria conter o acento indicativo da crase. Soma: 002447_por_f1_c13_q0013objetiva
5. UENP-PR 2019
Entalhando a felicidade “Madeira é um elemento que tem que ser respeitado. Eu nasci numa casa de madeira, me criei numa casa de madeira. Ela era feita com árvores retiradas dali, da região”, conta José Belaque, 63. O artesão expõe suas peças no Calçadão de Londrina, esquina com Hugo Cabral, de segunda a sexta. Após uma vida dedicada ao trabalho contínuo e sistemático, Belaque parece ter encontrado, na madeira, a felicidade. As peças são criadas para discursar. Os móveis para bonecas obedecem à arte vitoriana, período que estudou em um trabalho como guia turístico. Formas, desenhos, cores, tudo leva ao passado. “A minimização, ou seja, a cozinha do adulto que tinha nas fazendas, agora é feita para as bonecas. A criança vai aprendendo, por meio do brinquedo, a história”, afirma. História na expressão e na própria madeira. “Isso tudo é um resgate. Foi uma árvore que deu frutos, sombra, conforto e de repente ela se torna um elemento positivo”, defende. “Quando eu era criança, não tinha indústria de brinquedos e a gente queria brincar. Então, os avós e pais construíam os brinquedos de uma forma artesanal. Eu quis voltar num tempo em que se construíam os brinquedos, elementos decorativos e móveis dentro de casa”, afirma. Há quatro anos, tomou a decisão de viver da arte após a constatação de ter realizado bons trabalhos em sua carreira, já satisfeito com o ponto aonde tinha chegado. A oficina funciona no fundo da casa de Belaque. “Eu estou fazendo uma coisa que amo fazer, na hora em que tenho interesse, então eu digo que estou no período fetal. Eu almoço quando tenho fome, levanto quando o corpo pede, trabalho e me estendo até de madrugada quando estou empolgado”, sorri. E vai criando conforme suas crenças e constatações expressas na madeira. Recicladas e não recicladas, afirma usar mais o pínus por questão de respeito e custo. As madeiras de primeira linha que possui são controladas e faz questão de afirmar: “Eu só trabalho com aquelas que têm o selo de controle, se não tiver eu não aceito, não compro. Não dou força para criar-se esse comércio”, argumenta. No fim, o resultado é a felicidade baseada no respeito pela natureza, pela arte e pela sua história. “Dinheiro é maravilhoso, mas chega um período em que ele não é mais tão importante,
porque a felicidade não é o dinheiro que traz. É você realizar aquilo que gosta de fazer. Isso é felicidade”, acredita. Adaptado de: GONÇALVES, É. Entalhando a felicidade. Londrina: Folha de Londrina, Folha Mais, 26 e 27 de maio de 2018, p. 1.
Em relação aos recursos linguístico-semânticos presentes no texto, considere as afirmativas a seguir. I.
Na oração “Os móveis para bonecas obedecem à arte vitoriana”, a presença da preposição “a” deve-se à exigência feita pelo verbo. II. Em “O artesão expõe suas peças no Calçadão de Londrina, esquina com Hugo Cabral, de segunda a sexta”, não se emprega a crase porque o “a” é uma mera preposição. III. Em “Dinheiro é maravilhoso, mas chega um período em que ele não é mais tão importante”, o conectivo “mas” estabelece uma relação de oposição com a ideia expressa anteriormente. IV. Em “Então, os avós e pais construíam os brinquedos de forma artesanal” a partícula “então” estabelece uma relação de alternância. Assinale a alternativa correta. a) Somente as afirmativas I e II são corretas. b) Somente as afirmativas I e IV são corretas. c) Somente as afirmativas III e IV são corretas. d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas. e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.
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6. ITA-SP Analisando as sentenças: I. II. III. IV.
A vista disso, devemos tomar sérias medidas. Não fale tal coisa as outras. Dia a dia a empresa foi crescendo. Não ligo aquilo que me disse.
Podemos deduzir que: a) Apenas a sentença III não tem crase. b) As sentenças III e IV não têm crase. c) Todas as sentenças têm crase. d) Nenhuma sentença tem crase. e) Apenas a sentença IV não tem crase.
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7. Unesp A questão toma por base uma passagem da crônica O pai, hoje e amanhã, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). A civilização industrial, entidade abstrata, nem por isso menos poderosa, encomendou à ciência aplicada a execução de um projeto extremamente concreto: a fabricação do ser humano sem pais. A ciência aplicada faz o possível para aviar a encomenda a médio prazo. Já venceu a primeira etapa, com a inseminação artificial, que, de um lado, acelera a produtividade dos rebanhos (resultado econômico) e, de outro, anestesia o sentimento filial (resultado moral). O ser humano concebido por esse processo tanto pode considerar-se filho de dois pais como de nenhum. Em fase mais evoluída, o chamado bebê de proveta dispensará a incubação em ventre materno, desenvolvendo-se sob condições artificiais plenamente satisfatórias. Nenhum vínculo de memória, gratidão, amor, interesse, costume – direi mesmo: de ressentimento ou ódio – o ligará a qualquer pessoa
FRENTE 1
4. UFMS Avalie as duas frases que seguem:
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responsável por seu aparecimento. O sêmen, anônimo, obtido por masturbação profissional e recolhido ao banco especializado, por sua vez cederá lugar ao gerador sintético, extraído de recursos da natureza vegetal e mineral. Estará abolida, assim, qualquer participação consciente do homem e da mulher no preparo e formação de uma unidade humana. Esta será produzida sob critérios políticos e econômicos tecnicamente estabelecidos, que excluem a inútil e mesmo perturbadora intromissão do casal. Pai? Mito do passado. Aparentemente, tal projeto parece coincidir com a tendência, acentuada nos últimos anos, de se contestar a figura tradicional do pai. Eliminando-se a presença incômoda, ter-se-ia realizado o ideal de inúmeros jovens que se revoltam contra ela – o pai de família e o pai social, o governo, a lei – e aspiram à vida isenta de compromissos com valores do passado. Julgo ilusória esta interpretação. O projeto tecnológico de eliminação do pai vai longe demais no caminho da quebra de padrões. A meu ver, a insubmissão dos filhos aos pais é fenômeno que envolve novo conceito de relações, e não ruptura de relações. De notícias e não notícias faz-se a crônica, 1975.
Cena 2
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[...] e aspiram à vida isenta de compromissos com valores do passado.
Na frase apresentada, a colocação do acento grave sobre o “a” informa que a) o “a” deve ser pronunciado com alongamento, já que se trata de dois vocábulos, um pronome átono e uma preposição, representados por uma só letra. b) o “a”, por ser pronome átono, deve ser sempre colocado após o verbo, em ênclise, e pronunciado como um monossílabo tônico. c) o verbo “aspirar”, na regência em que é empregado, solicita a preposição “a”, que se funde com o artigo feminino “a”, caracterizando uma ocorrência de crase. d) o “a”, como artigo definido, é um monossílabo átono, e o acento grave tem a finalidade de sinalizar ao leitor essa atonicidade. e) o termo “de compromissos com valores do passado” exerce a função de adjunto adverbial de “isenta”.
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8. UFRGS 2019
Cena 1 Em uma madrugada chuvosa, um trabalhador residente em São Paulo acorda, ao amanhecer, às cinco horas, toma rapidamente o café da manhã, dirige-se até o carro, acessa a rua, e, como de costume, faz o mesmo trajeto 5 até o trabalho. Mas, em um desses inúmeros dias, ouve pelo rádio que uma das avenidas de sua habitual rota está totalmente congestionada. A partir dessa informação e enquanto dirige, o trabalhador inicia um processo mental analítico para escolher uma rota alternativa que o faça 10 chegar ______ empresa no horário de sempre. Para decidir sobre essa nova rota, ele deverá considerar: a nova distância a ser percorrida, o tempo gasto no deslocamento, a quantidade de cruzamentos existentes em cada rota, em qual das rotas encontrará chuva e em quais 15 rotas passará por áreas sujeitas a alagamento.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 13
60
Mais tarde no mesmo dia, um casal residente na mesma cidade obtém financiamento imobiliário e decide pela compra de um apartamento. São inúmeras opções de imóveis à venda. Para a escolha adequada do local de sua morada em São Paulo, o casal deverá levar em conta, além do valor do apartamento, também outros critérios: variação do preço dos imóveis por bairro, distância do apartamento até a escola dos filhos pequenos, tempo gasto entre o apartamento e o local de emprego do casal, preferência por um bairro tranquilo e existência de linha de ônibus integrada ao metrô nas proximidades do imóvel – entre outros critérios. Essas duas cenas urbanas descrevem situações comuns _____ passam diariamente muitos dos cidadãos residentes em grandes cidades. As protagonistas têm em comum a angústia de tomar uma decisão complexa, escolhida dentre várias possibilidades oferecidas pelo espaço geográfico. Além de mostrar que a geografia é vivida no cotidiano, as duas cenas mostram também que, para tomar a decisão que ______ seja mais conveniente realizar nossas protagonistas deverão realizar, primeiramente, uma análise geoespacial da cidade. Em ambas as cenas, essa análise se desencadeia a partir de um sistema cerebral composto de informações geográficas representadas internamente na forma de mapas mentais que induzirão as três protagonistas a tomar suas decisões. Em cada cena podemos visualizar uma pergunta espacial. Na primeira, o trabalhador pergunta: “qual a melhor rota a seguir, desde este ponto onde estou até o local de meu trabalho, neste horário de segunda-feira?” Na segunda, o questionamento seria: “qual é o lugar da cidade que reúne todos os critérios geográficos adequados à nossa moradia?” A cena 1 é um exemplo clássico de análise de redes, enquanto a cena 2 é um exemplo clássico de alocação espacial – duas das técnicas mais importantes da análise geoespacial. A análise geoespacial reúne um conjunto de métodos e técnicas quantitativos dedicados à solução dessas e de outras perguntas similares, em computador, ______ respostas dependem da organização espacial de informações geográficas em um determinado tempo. Dada a complexidade dos modelos, muitas técnicas de análise geoespacial foram transformadas em linguagem computacional e reunidas, posteriormente, em um sistema de informação geográfica. Esse fato geotecnológico contribuiu para a popularização da análise geoespacial realizada em computadores, que atualmente é simplificada pelo termo geoprocessamento. Adaptado de: FERREIRA, Marcos César. Iniciação à análise geoespacial: teoria, técnicas e exemplos para geoprocessamento. São Paulo: Editora UNESP, 2014. p. 33-34.
Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas das linhas 10, 29, 35 e 55, nessa ordem. a) a – as quais – lhe – em que as b) à – com as quais – lhes – das quais as c) à – que – os – cuja d) a – por que – lhe – de que as e) à – pelas quais – lhes – cujas
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lia a vovozinha, três porquinhos que se dedicavam _____ especulação imobiliária e uma estilista chamada Gretel que trabalhava de garçonete em Berlim. Não deveria nos surpreender que os contos tradicionais se adaptem aos tempos. Eles foram submetidos _____ alterações no processo de transmissão, oral ou escrita, ao longo dos séculos para adaptá-los aos gostos de cada momento. Vejamos, por exemplo, Chapeuzinho Vermelho. Em 1697 – quando a história foi colocada no papel –, Charles Perrault acrescentou _____ ela uma moral, com o objetivo de alertar as meninas quanto _____ intenções perversas dos desconhecidos. Pouco mais de um século depois, os irmãos Grimm abrandaram o enredo do conto e o coroaram com um final feliz. Se a Chapeuzinho Vermelho do século XVII era devorada pelo lobo, não seria de surpreender que a atual repreendesse a fera por sua atitude sexista quando a abordasse no bosque. A força do conto, no entanto, está no fato de que ele fala por meio de uma linguagem simbólica e nos convida a explorar a escuridão do mundo, a cartografia dos medos, tanto ancestrais como íntimos. Por isso ele desafia todos nós, incluindo os adultos. [...] A poetisa Wislawa Szymborska falou sobre um amigo escritor que propôs a algumas editoras uma peça infantil protagonizada por uma bruxa. As editoras rejeitaram a ideia. Motivo? É proibido assustar as crianças. A ganhadora do prêmio Nobel, admiradora de Andersen – cuja coragem se destacava por ter criado finais tristes –, ressalta a importância de se assustar, porque as crianças sentem uma necessidade natural de viver grandes emoções: “A figura que aparece [em seus contos] com mais frequência é a morte, um personagem implacável que penetra no âmago da felicidade e arranca o melhor, o mais amado. Andersen tratava as crianças com seriedade. Não lhes falava apenas da alegre aventura que é a vida, mas também dos infortúnios, das tristezas e de suas nem sempre merecidas calamidades”. C. S. Lewis dizia que fazer as crianças acreditar que vivem em um mundo sem violência, morte ou covardia só daria asas ao escapismo, no sentido negativo da palavra. Depois de passar dois anos mergulhado em relatos compilados durante dois séculos, Italo Calvino selecionou e editou os 200 melhores contos da tradição popular italiana. Após essa investigação literária, sentenciou: “Le fiabe sono vere [os contos de fadas são verdadeiros]”. O autor de O Barão nas Árvores tinha confirmado sua intuição de que os contos, em sua “infinita variedade e infinita repetição”, não só encapsulam os mitos duradouros de uma cultura, como também “contêm uma explicação geral do mundo, onde cabe todo o mal e todo o bem, e onde sempre se encontra o caminho para romper os mais terríveis feitiços”. Com sua extrema concisão, os contos de fadas nos falam do medo, da pobreza, da desigualdade, da inveja, da crueldade, da avareza... Por isso são verdadeiros. Os animais falantes e as fadas madrinhas não procuram confortar as crianças, e sim dotá-las de ferramentas para viver, em vez de incutir rígidos patrões de conduta, e estimular seu raciocínio moral. Se eliminarmos as partes escuras e incômodas, os contos de fadas deixarão de ser essas surpreendentes árvores sonoras que crescem na memória humana, como definiu o poeta Robert Bly. Marta Rebón. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/18/ eps/1537265048_460929.html.
Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas do primeiro parágrafo, na ordem em que aparecem no texto: a) a – a – à – às. d) a – à – à – as. b) à – à – a – as. e) à – à – à – as. c) à – a – a – às.
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10. ITA-SP Dadas as afirmações: 1. Tudo correu as mil maravilhas. 2. Caminhamos rente a parede. 3. Ele jamais foi a festas. Verificamos que o uso do acento indicador da crase no “a” é obrigatório: a) apenas na sentença n. 1. b) apenas na sentença n. 2. c) apenas nas sentenças n. 1 e 2. d) em todas as sentenças.
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11. PUC-PR 2022 Associado por mais de 50 anos àquela sensação de ‘queimação’ no músculo durante o exercício e às dores do dia seguinte, esse composto orgânico não age como inimigo, mas como protetor. E é muito importante para nosso organismo. Disponível em: . Acesso em: 2/3/22.
As duas ocorrências de crase do texto, indicadas por acento grave, são justificadas adequadamente por a) regência verbal. b) regência nominal. c) regência verbal e nominal, respectivamente. d) concordância nominal. e) regência nominal e verbal, respectivamente.
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12. Efomm-RJ 2022
Direito e avesso Rachel de Queiroz
Conheci uma moça que escondia como um crime certa feia cicatriz de queimadura que tinha no corpo. De pequena a mãe lhe ensinara a ocultar aquela marca de fogo e nem sei que impulso de desabafo levou-a me falar nela; e creio que logo se arrependeu, pois me obrigou a jurar que jamais repetiria a alguém o seu segredo. Se agora o conto é porque a moça é morta e a sua cicatriz já estará em nada, levada com o resto pelas águas de março, que levam tudo. Lembrou-me isso ao escutar outra moça, também vaidosa e bonita, que discorria perante várias pessoas a respeito de uma deformação congênita que ela, moça, tem no coração. Falava daquilo com mal disfarçado orgulho, como se ter coração defeituoso fosse uma distinção aristocrática que se ganha de nascença e não está ao alcance de qualquer um. E aí saí pensando em como as pessoas são estranhas. Qualquer deformação, por mais mínima, sendo em parte visível do nosso corpo, a gente a combate, a disfarça, oculta como um vício feio. Este senhor, por exemplo, que nos explica, abundantemente, ser vítima de divertículos (excrescências em forma de apêndice que apareceram no seu duodeno), teria o mesmo gosto em gabar-se da
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9. UFPR 2019 Era uma vez um lobo vegano que não engo-
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anomalia se em lugar dos divertículos tivesse lobinhos pendurados no nariz? Nunca vi ninguém expor com orgulho a sua mão de seis dedos, a sua orelha malformada; mas a má formação interna é marca de originalidade, que se descreve aos outros com evidente orgulho. Doença interna só se esconde por medo da morte – isto é, por medo de que, a notícia se espalhando, chegue a morte mais depressa. Não sendo por isso, quem tem um sopro no coração se gaba dele como de falar japonês. Parece que o principal impedimento é o estético. Pois se todos gostam de se distinguir da multidão, nem que seja por uma anomalia, fazem ao mesmo tempo questão de que essa anomalia não seja visivelmente deformante. Ter o coração do lado direito é uma glória, mas um braço menor que o outro é uma tragédia. Alguém com os dois olhos límpidos pode gostar de épater uma roda de conversa, explicando que não enxerga coisíssima nenhuma por um daqueles límpidos olhos, e permitirá mesmo que os circunstantes curiosos lhe examinem o olho cego e constatem de perto que realmente não se nota diferença nenhuma com o olho são. Mas tivesse aquela pessoa o olho que não enxerga coalhado pela gota-serena, jamais se referiria ao defeito em público; e, caso o fizesse, por excentricidade de temperamento sarcástico ou masoquista, os circunstantes bem-educados se sentiriam na obrigação de desviar a vista e mudar de assunto. Mulheres discutem com prazer seus casos ginecológicos; uma diz abertamente que já não tem um ovário, outra, que o médico lhe diagnosticou um útero infantil. Mas, se ela tivesse um pé infantil, ou seios senis, será que os declararia com a mesma complacência? Antigamente havia as doenças secretas, que só se nomeavam em segredo ou sob pseudônimo. De um tísico, por exemplo, se dizia que estava “fraco do peito”; e talvez tal reserva nascesse do medo do contágio que todo mundo tinha. Mas dos malucos também se dizia que “estavam nervosos” e do câncer ainda hoje se faz mistério – e nem câncer e nem doidice pegam. Não somos todos mesmo muito estranhos? Gostamos de ser diferentes – contanto que a diferença não se veja. O bastante para chamar atenção, mas não tanto que pareça feio. Fonte: O melhor da crônica brasileira, 1/Ferreira Gullar… [et ali.]. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.
épater: impressionar. […] os circunstantes bem-educados se sentiriam na obrigação de desviar a vista e mudar de assunto.
Tendo em vista outros empregos da expressão sublinhada, deve ocorrer o uso do acento grave somente em: a) Era maravilhosa a vista da janela daquele quarto. b) Usar computador constantemente pode prejudicar a vista. c) Quando será realizada a vista de prova? d) Dói-me a vista esquerda. e) A gasolina está no fim e não há um posto de combustível a vista.
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Capítulo 13
13. UFABC-SP A alternativa em que o acento indicativo de crase não procede é: a) Tais informações são iguais às que recebi ontem. b) Perdi uma caneta semelhante à sua. c) A construção da casa obedece às especificações da prefeitura. d) O remédio devia ser ingerido gota à gota, e não de uma só vez. e) Não assistiu a essa operação, mas à de seu irmão.
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14. UFRGS 2018 — Temos sorte de viver no Brasil — dizia
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meu pai, depois da guerra. — Na Europa mataram milhões de judeus. Contava as experiências que os médicos nazistas faziam com os prisioneiros. Decepavam-lhes as cabeças, faziam-nas encolher – à maneira, li depois, dos índios Jivaros. Amputavam pernas e braços. Realizavam estranhos transplantes: uniam a metade superior de um homem ______ metade inferior de uma mulher, ou aos quartos traseiros de um bode. Felizmente morriam essas atrozes quimeras; expiravam como seres humanos, não eram obrigadas a viver como aberrações. (_______ essa altura eu tinha os olhos cheios de lágrimas. Meu pai pensava que a descrição das maldades nazistas me deixava comovido.) Em 1948 foi proclamado o Estado de Israel. Meu pai abriu uma garrafa de vinho – o melhor vinho do armazém –, brindamos ao acontecimento. E não saíamos de perto do rádio, acompanhando _______notícias da guerra no Oriente Médio. Meu pai estava entusiasmado com o novo Estado: em Israel, explicava, vivem judeus de todo o mundo, judeus brancos da Europa, judeus pretos da África, judeus da Índia, isto sem falar nos beduínos com seus camelos: tipos muito esquisitos, Guedali. Tipos esquisitos – aquilo me dava ideias. Por que não ir para Israel? Num país de gente tão estranha – e, ainda por cima, em guerra – eu certamente não chamaria a atenção. Ainda menos como combatente, entre a poeira e a fumaça dos incêndios. Eu me via correndo pelas ruelas de uma aldeia, empunhando um revólver trinta e oito, atirando sem cessar; eu me via caindo, varado de balas. Aquela, sim, era a morte que eu almejava, morte heroica, esplêndida justificativa para uma vida miserável, de monstro encurralado. E, caso não morresse, poderia viver depois num kibutz. Eu, que conhecia tão bem a vida numa fazenda, teria muito a fazer ali. Trabalhador dedicado, os membros do kibutz terminariam por me aceitar; numa nova sociedade há lugar para todos, mesmo os de patas de cavalo. Adaptado de: SCLIAR, M. O centauro no jardim. 9. ed. Porto Alegre: L&PM, 2001.
Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas das linhas 9, 12 e 18, nessa ordem. a) à – À – às b) a – A – às c) à – A – às d) a – À – as e) à – A – as
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15. UFRGS 2018 [...] ________ me perguntam: quantas palavras uma pessoa sabe? Essa é uma pergunta importante, principalmente para quem ensina línguas estrangeiras.
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Seria muito útil para quem planeja um curso de francês ou japonês ter uma estimativa de quantas palavras um nativo conhece; e quantas os alunos precisam aprender para usar a língua com certa facilidade. Essas informações seriam preciosas para quem está preparando um manual que inclua, entre outras coisas, um planejamento cuidadoso da introdução gradual de vocabulário. À parte isso, a pergunta tem seu interesse próprio. Uma língua não é apenas composta de palavras: ela inclui também regras gramaticais e um mundo de outros elementos que também precisam ser dominados. Mas as palavras são particularmente numerosas, e é notável como qualquer pessoa, instruída ou não, _______ acesso a esse acervo imenso de informação com facilidade e rapidez. Assim, perguntar quantas palavras uma pessoa sabe é parte do problema geral de o que é que uma pessoa tem em sua mente e que ______ permite usar a língua, falando e entendendo. Antes de mais nada, porém, o que é uma palavra? Ora, alguém vai dizer, “todo mundo sabe o que é uma palavra”. Mas não é bem assim. Considere a palavra olho. É muito claro que isso aí é uma palavra – mas será que olhos é a mesma palavra (só que no plural)? Ou será outra palavra? Bom, há razões para responder das duas maneiras: é a mesma palavra, porque significa a mesma coisa (mas com a ideia de plural); e é outra palavra, porque se pronuncia diferentemente (olhos tem um “s” final que olho não tem, além da diferença de timbre das vogais tônicas). Entretanto, a razão principal por que julgamos que olho e olhos sejam a mesma palavra é que a relação entre elas é extremamente regular; ou seja, vale não apenas para esse par, mas para milhares de outros pares de elementos da língua: olho/olhos, orelha/orelhas, gato/gatos, etc. E, semanticamente, a relação é a mesma em todos os pares: a forma sem “s” denota um objeto só, a forma com “s” denota mais de um objeto. Daí se tira uma consequência importante: não é preciso aprender e guardar permanentemente na memória cada caso individual; aprendemos uma regra geral (“faz-se o plural acrescentando um “s” ao singular”), e estamos prontos. Adaptado de: PERINI, Mário A. Semântica lexical. ReVEL, v. 11, n. 20, 2013.
Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas, na ordem. a) Às vezes – têm – lhe b) Às vezes – tem – lhe c) As vezes – têm – o d) Às vezes – tem – o e) As vezes – têm – lhe
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16. UFPR Em qual alternativa o vocábulo “a” deve receber acento grave? a) Pintou o quadro a óleo. b) Fomos a uma aldeia. c) Dirigiram-se a Vossa Excelência. d) Voltou a casa paterna. e) Começou a chover.
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17. Urca-CE 2017 Às vezes, nas ruas, há passeios em certas partes e outras não.
No termo em destaque temos um caso da utilização do acento grave. A alternativa em que o indicativo de crase não procede é: a) O amor deve ser saboreado gota à gota, e não de uma só vez. b) Tais informações são iguais às que recebi ontem. c) Perdi uma caneta semelhante à sua. d) A construção da casa obedece às especificações da prefeitura. e) Não assistiu a essa apresentação, mas à de seu irmão.
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18. Unifor-CE Marque a alternativa em que o sinal de crase está empregado em todos os casos que é necessário. a) A família ficou à mercê do frio, a despeito do fogo que estava a arder. b) O vento entrava à vontade restando a família a expectativa de que acontecesse logo. c) Falavam à beça, mas talvez não se entendessem à contento. d) A cachorra ficou à porta, à olhar as brasas. e) A falta de melhor expressão recorriam à discursos energéticos.
Texto complementar Há muito tempo atrás “um tal de” acento diferencial, que muita gente nem sabe que já existiu, foi extinto. Ele servia para diferençar palavras com a mesma grafia, mas com som diferente. O acento diferencial só não acabou completamente por ter sido mantida a exceção em que ele permanece para distinguir “pode” de “pôde”. A confusão possível entre pode e pode, se não fosse mantido tal tipo de acento, me faz lembrar de uma embrulhada em um registro de nascimento: onde o escrivão devia escrever o nome da criança, Diogo, escreveu, Digo, e quando foi escrever “digo”, para corrigir “Diogo”, escreveu “diogo”; então, para desfazer a confusão, a certidão ficou assim: “... Digo, diogo, digo digo, onde digo diogo digo digo e onde digo Digo digo Diogo”! Pois, voltando ao começo, fui um dos que reagiram mal, de início, à proposta de extinção do acento diferencial. (um parêntese: ao contrário do que se costuma dizer na televisão, nos jornais e nas conversas fiadas, eu fui um dos que reagiram e não um dos que reagiu, porque dos que reagiram eu fui um – seria impensável inverter a frase e dizer “dos que reagiu eu fui um”, não é mesmo?). Como dizia, eu não podia aceitar viver sem o acento diferencial. Acreditava que os meus textos iriam ficar sem pé nem cabeça se as palavras não tivessem o seu sentido próprio perfeitamente estabelecido.
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Resultado: os anos se passaram, o acento diferencial acabou e não faz tanta falta. Já foi tarde. Menos uma dificuldade neste nosso idioma. Mas, como nem tudo é perfeito, dessa extinção às vezes decorrem certas dificuldades de compreensão de textos, como é caso de alguns poemas modernos e de alguns títulos, em que nem sempre a evidência resultante da aplicação da lógica em face da estrutura do texto se revela induvidosamente. Só por isso, não seria estranhável repensar o assunto para tornar facultativo o acento diferencial. Essa linha de raciocínio conduz a uma questão parecida, que é a da crase. Hoje, a coisa mais irritante na língua é o uso completamente atabalhoado da crase. Ela só é colocada onde não devia e só não aparece onde tinha de estar. Viajar pelas estradas do Brasil é uma tortura, por causa da crase. De minuto a minuto encontram-se as placas de sinalização com as crases que não deviam existir: “retorno à 500 metros”, “restaurante à 2 quilômetros”, “obras à 100 metros”; e sem a crase que deveriam ter sido colocadas: “retorno a direita” e “posto a frente”. Nunca acertam. Entre Belo Horizonte e Sete Lagoas, fizeram uma bela e útil sinalização, com imensas e numerosas placas indicativas de retorno, só que estão todas craseadas de forma errada, o que cito como exemplo, mas que não é privilégio dos mineiros: é crase para todos os lados; na dúvida, craseia-se; se não houver dúvida, craseia-se ainda mais. Como parece que ninguém tem dúvida, haja crase espalhada, dando nos nervos dos motoristas que conhecem as regras do seu uso, comprometendo, por isso, a segurança nas estradas. Na televisão, especialmente nos comerciais, é um espanto: oferecem-se mercadoria “à prazo”, mas a farmácia fica aberta “a noite”. Nas cidades, em cartazes, folhetos, placas, avisos, para onde você olhar, lá estarão as crases, exatamente onde não deveriam estar. A Internet é outra tortura, todos craseiam “à todos” (abraços à todos!), afastando-se da regra básica, de que não cabe crase na concordância do masculino. Não me lembro se é do Sérgio Porto ou do Stanislaw Ponte Preta a frase “a crase não foi feita para humilhar ninguém”. Ele enganou-se. Para que ninguém fosse humilhado pela crase, seria necessário, ou dar uma educação sofisticada a toda a população, ou liberar a crase para cada um usar como quiser: Que tal, “vamos ào cinema?”. Experimente pronunciar. Elegante, não? Se “à todos” pode ter crase, qualquer coisa passa a ser permitida! A verdade, a meu ver, é que a crase, a exemplo do acento diferencial, poderia ser “quase” extinta, sem grandes danos à estrutura da língua. Não deveria ser abolida totalmente, mas tornada em geral facultativa, ficando obrigatória apenas nos casos em que sua ausência comprometesse o sentido, como no caso do título desta crônica – “À CRASE” – que sem a crase seria “A CRASE” e exprimiria coisa completamente diferente do que se pretendia dizer. Se vocês pensam que o acento diferencial e a crase são as únicas incongruências da Língua Portuguesa, posso adiantar: enganam-se! Outras bandeiras de luta podem ser levantadas quanto à adaptação da língua à realidade. Por isso, deixo mais uma palavra de ordem, um grito de guerra para novas batalhas que virão, mais cedo ou mais tarde: — Trema, tremei! HORTA, Goiano Braga. Blocos On-line. , 30 abr. 2021. Disponível em: https://blocosonline.com.br/literatura/prosa/cron/cb/2008/080129.php. Acesso em: 20 out. 2023.
Veja os principais assuntos e conceitos trabalhados neste capítulo acessando a seção Resumindo no livro digital, na Plataforma Poliedro.
Quer saber mais? Livro Crase não é um bicho-de-sete-cabeças, de Sérgio Simka. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2009. De forma divertida e com muito bom-humor, o autor propõe um jeito fácil de estudar a crase, contribuindo para a compreensão desse fenômeno linguístico.
Site Uso da crase: verdadeiro ou falso. Disponível em: https:// sujeitosimples.com.br/. Acesso em: 20 out. 2023. Site da banda Sujeito Simples, que tematiza diversos aspectos da língua portuguesa ao som do rock, a exemplo das canções Crase 1 e Crase 2, que estão disponíveis em plataformas de música. Além disso, no site é possível participar de jogos educativos que envolvem esse e outros conteúdos da língua.
Exercícios complementares 002447_por_f1_c13_q0027objetiva
1. PUC-PR 2022 Em breve, quando for possível olhar para a pandemia do coronavírus e enxergar algum aprendizado promovido pela reviravolta na ordem mundial, um ramo relativamente novo da medicina estará contabilizado na lista de progressos: os cuidados paliativos. A área pode ser definida como um tratamento multiprofissional, que visa à melhoria da qualidade de vida de pessoas com doenças graves que necessitam de conforto físico, psicológico, espiritual e social. Disponível em: . Acesso em: 24/2/22.
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2. Udesc 2023 Aquilo soou como uma novidade. Foi lendo.
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“Na pequena cidade de Port Moresby, que fica no Golfo Papua, no Pacífico, a filha do líder de emancipação feminina, tendo tido a oferta altíssima com fins de casamento de cem bois, duzentas sacas de café e cinquenta cabras, além de mais trezentos quilos de sal, foi vendida em matrimônio para um jovem herdeiro que desmoralizou com sua oferta os pendores político-sociais do pai da noiva, uma bela papua de dezenove anos.” Dorothy sentiu grande avidez pela notícia. Talvez lá por dentro do Boletim houvesse um retrato da bela papua vendida em Port Moresby. Nada encontrou a não ser as repetidas notas sobre melhoria de maquinismos rurais, aos quais se ligava o marido por força de seus negócios. Pensava sempre que Jorge, por não ter filhos, votava às máquinas agrícolas uma espécie de amor. Talvez ele as vendesse como o pai da bela papua de dezenove anos, entre a glória de oferecer tão bela mercadoria e a pena da separação. Havia alguns anos que Jorge lidava com estas máquinas. Frequentemente, fazia ofertas ao telefone ou negociava em sua própria casa com fregueses mais importantes. Fazia, então, louvores às máquinas beneficiadoras de café, de descaroçar algodão ou de aparelhos que se adaptavam a seres humanos, transformando-os também em máquinas, a distribuir sementes a todos os ventos, permeadas de umidade. Fonte: O conto da mulher brasileira, Edla van Steen (organizadora, 3. Ed. São Paulo: Global, 2007. Port Moresby, p. 34.
Analise as proposições em relação ao conto Port Moresby, Dinah Silveira de Queiroz, e assinale (V) para verdadeira e (F) para falsa. Percebe-se, pela leitura do conto, que as mulheres eram todas parecidas, vestiam-se de modo semelhante, tinham uma vida fútil e, praticamente, agiam da mesma forma. Em “Fazia, então, louvores às máquinas” (linhas 21 e 22) e “votava às máquinas agrícolas uma espécie de amor” (linhas 15 e 16) o acento indicativo de crase é obrigatório porque as palavras destacadas, nas duas situações, são, sintaticamente, objeto indireto. A leitura do segmento “Pensava sempre que Jorge, por não ter filhos, votava às máquinas agrícolas uma espécie de amor” (linhas 14 a 16) sugere ser Dorothy uma esposa frustrada e fútil, uma mulher que sente ciúmes da vida profissional do marido. No segmento “que se adaptavam a seres humanos” (linha 23) o pronome átono, quanto à colocação pronominal, está proclítico porque o pronome relativo “que” atrai o pronome átono.
A notícia lida por Dorothy, no Boletim Agrícola despertou, na personagem, o desejo de realizar uma campanha em favor das mulheres papuas, que eram trocadas por mercadorias. Assinale a alternativa que indica a sequência correta. a) V – V – F – F – V d) V – V – V – F – V b) F – F – V – V – V e) V – F – F – V – V c) F – V – F – V – F
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3. PUC-PR 2016 Leia as sentenças e assinale o que se pede a seguir: I.
II.
III. IV.
V.
Em 2014, os brasileiros, confiantes e crédulos, saíram a consumir, como se consumo fosse investimento. E o Estado agora nos convoca à pagar também suas dívidas, que não são nossas. (Veja. São Paulo: Abril, p. 23, 10 jun. 2015. Adaptado). Pode-se dizer que as gerações da Idade Média falam às gerações atuais por meio das grandes obras de arquitetura que exprimem a devoção e o espírito da época. (WHITNEY, W. A vida da linguagem. Petrópolis: Vozes, 2010. p.17). À linguagem é uma expressão destinada a transmissão do pensamento. O atendimento a gestantes foi suspenso ontem à tarde e a Prefeitura pouco pode fazer a curto prazo para amenizar a situação. Transmita a cada um dos pacientes às instruções necessárias à continuidade do tratamento.
O sinal indicativo de crase está adequadamente empregado na(s) alternativa(s): a) IV somente. c) II, III e IV. e) II e IV. b) I, III e V. d) I e IV.
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4. PUC-PR 2017 Leia o texto a seguir.
A crise e a crase Ônibus de turismo já costumavam parar em frente à mansão de Chiquinho Scarpa, em São Paulo, para que os passageiros tirassem fotos. Há um mês, o movimento aumentou. É que o playboy de 64 anos estendeu uma faixa no jardim, com seu rosto estampado. Diz ele que os motoristas que passam por ali aprovam a mensagem, gritando: “É isso aí, Chiquinho”. O slogan: “Juntos pelo Brasil! Não a (sic) luta de classes!”. Veja, 20/04/2016, p. 89.
O emprego ou a omissão do acento grave indicativo de crase pode mudar o sentido de uma afirmação. A análise adequada do slogan referido no texto, considerando-se o emprego ou não do acento grave, encontra-se em: a) Sem o acento grave, a afirmação fica sem sentido e por isso vem acompanhada do vocábulo sic, para mostrar que não foi feita uma alteração gramatical necessária. b) O vocábulo sic, empregado na reprodução do slogan, indica que houve a manutenção do estilo de elaboração do texto, o que não fere a norma-padrão.
FRENTE 1
O uso de acento grave, indicativo de crase, pode oferecer, entre outras informações, a de que as palavras envolvidas em uma construção sintática têm um sentido bastante específico. A forma verbal “visa”, destacada no texto, por estar associada a um complemento introduzido por uma crase, tem o sentido de a) ordenar. d) gerar. b) impactar. e) objetivar. c) acarretar.
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em todo o mundo. “A ideia é a de que as pessoas nunca se esqueçam da importância da preservação dos direitos humanos”, disse. Ele lembrou que os Direitos Humanos assumiram, nos últimos meses, no Brasil, um merecido e inédito protagonismo. “Tal destaque decerto decorreu, além do empenho de seus servidores, do recente status ministerial, a proporcionar visibilidade e o necessário suporte financeiro ______ políticas da pasta”. História – Foi ao final da Segunda Guerra Mundial, em 10 dezembro de 1948, quando a humanidade inteira resolveu promover ______ dignidade humana em todos os lugares e para sempre. Foi nesse espírito que as Nações Unidas adotaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos como um padrão comum de conquistas para todos os povos e todas as nações. E é guiado por este documento, que completa agora 70 anos, que o Ministério de Direitos Humanos (MDH) tem atuado nas suas inúmeras demandas. [...]
c) A opção pela omissão do acento grave revela que o autor do slogan se refere a uma luta geral, sem que haja recorte de envolvidos. d) Caso optasse pelo emprego do acento grave, o autor do slogan geraria ambiguidade no enunciado, pois não seria possível identificar que luta estaria em questão. e) As pessoas que passam pelo local em que se encontra o slogan compreendem a mensagem de duas maneiras, por isso fazem elogios ao autor.
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5. FGV-SP 2016 De acordo com a norma-padrão, assinale a alternativa correta quanto à regência e ao uso ou não do acento indicativo da crase. a) Coube à moeda alemã à garantia que o euro chegasse com segurança a países europeus. b) Coube a moeda alemã à garantia de que o euro chegasse com segurança nos países europeus. c) Coube à moeda alemã a garantia de que o euro chegasse com segurança aos países europeus. d) Coube à moeda alemã a garantia que o euro chegasse com segurança à países europeus. e) Coube a moeda alemã a garantia que o euro chegasse com segurança nos países europeus.
BRASIL. Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. MDH, 30 out. 2018. Disponível em: www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/ noticias/2018/outubro/declaracao-dos-direitos-humanos-chega-aos-70anos-em-meio-a-desafios-crescentes. Acesso em: 11 jan. 2024.
Os vocábulos que completam correta e respectivamente as lacunas do texto estão indicados na alternativa: a) à – à – às – a d) à – a – às – a b) a – a – às – a e) à – a – as – à c) à – à – as – à
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6. Acafe-SC 2021 Considerando a regência da língua escrita padrão, preencha as lacunas nas frases a seguir com a alternativa correta. A fala do representante dos trabalhadores das indústrias de pescados, __________ camisa havia uma inscrição de adesão ________ normas constitucionais, destoava do discurso ativista dos grevistas. Disse, inclusive, que as propostas _________ ele não estivesse de acordo sequer seriam submetidas _____ assembleia do sindicato. a) de cuja – contra as – com que – a b) com cuja – as – para as quais – à c) em cuja – às – com as quais – à d) sobre cuja – sobre as – sobre a quais – a
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8. Apesar de o acento grave ser utilizado apenas na primeira frase a seguir, as duas sentenças estão corretas. Explique essa afirmação. I. Vou à França nas férias. II. Vou a Paris nas férias.
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9. Cederj 2015
Ele e suas ideias Lima Barreto
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7. Leia o texto a seguir.
Declaração dos Direitos Humanos chega aos 70 anos em meio a desafios crescentes A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) completa 70 anos neste final de ano, em tempos de desafios crescentes, quando ______ discriminação e ______ violência ainda permanecem vivos, quando centenas de milhões de mulheres e homens são destituídos e privados de condições básicas de subsistência e de oportunidades. A DUDH foi adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em Paris, em 10 de dezembro de 1948 e propunha ser uma norma comum a ser perseguida por todos os povos e nações como alicerce para o progresso com paz social. Para o ministro dos Direitos Humanos, Gustavo Rocha, a Declaração Universal dos Direitos Humanos representa um marco na história dos direitos humanos. Para o ministro, é importante marcar a data de aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, num momento de tantas atrocidades contra os direitos das pessoas
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Conheci-o no tempo em que trabalhava no Fon-Fon. Era um homem pequeno, magro, com um reduzido cavaignac, bem tratado; mas a sua tragédia íntima e interior só a vim conhecer perfeitamente mais tarde. Não foram precisos muitos dias, mas foram precisos alguns. Andávamos por esse tempo na febre dos melhoramentos, das construções; e, a todo momento, ele lembrava a este ou àquele jornal uma ideia. Um dia, era uma avenida; outro dia, era uma ponte, um jardim; e, de tal modo, a mania de ter ideias o tomou, que não se limitava a deixá-las pelos jornais. Ia além. Procurava ministros, fazia requerimentos aos corpos legislativos, propondo tais e tais medidas. Era um pingar de ideias diário, constante e teimoso. [...] O prefeito e seu gabinete já conheciam o extraordinário e fecundo homem; e, logo que ele se fazia anunciar, o chefe da cidade dizia para o secretário: “Esse diabo! Lá temos o homem das ideias!” [...] Este homem singular, este homem que, no seu gênero, era um Edison ou um Marconi, nunca foi apreciado. Os poderes públicos não tomaram na devida consideração
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os seus projetos; os jornais não o apontavam à admiração do público, e ele vive hoje – triste, abandonado, desolado, 25 em uma pequena cidade do interior.
Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas das linhas 02, 29 e 37, nessa ordem. a) tem – haverá – as. b) têm – houveram – as. c) tem – haverão – as. d) tem – haverá – às. e) têm – houveram – às.
LIMA BARRETO. Ele e suas ideias. In: Para gostar de ler, volume 8, contos. São Paulo: Ática, p. 51-54.
O acento grave de “àquele” em “... ele lembrava a este ou àquele jornal uma ideia...” (linhas 7-8) a) evidencia o complemento preposicionado do verbo. b) mostra que a palavra é proparoxítona. c) representa uma inovação ortográfica. d) é indicativo da locução adverbial.
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11. UnB-DF Já o leitor compreendeu que era a Razão que
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10. UFRGS 2022 Esse delírio que por aí vai pelo futebol
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_______ seus fundamentos na própria natureza humana. O espetáculo da luta sempre foi o maior encanto do homem; e o prazer da vitória, pessoal ou do partido, foi, é e será a ambrosia dos deuses manipulada na Terra. Admiramos hoje os grandes filósofos gregos, Platão, Sócrates, Aristóteles; seus coevos, porém, admiravam muito mais os atletas que venciam no estádio. Milon de Crotona, campeão na arte de torcer pescoços de touros, só para nós tem menos importância que seu mestre Pitágoras. Para os gregos, para a massa popular grega, seria inconcebível a ideia de que o filósofo pudesse no futuro ofuscar a glória do lutador. Na França, o homem hoje mais popular é George Carpentier, mestre em socos de primeira classe; e, se derem nas massas um balanço sincero, verão que ele sobrepuja em prestígio aos próprios chefes supremos vencedores da guerra. Nos Estados Unidos, há sempre um campeão de boxe tão entranhado na idolatria do povo que está em suas mãos subverter o regime político. E os delírios coletivos provocados pelo combate de dois campeões em campo? Impossível assistir-se a espetáculo mais revelador da alma humana que os jogos de futebol. Não é mais esporte, é guerra. Não se batem duas equipes, mas dois povos, duas nações. Durante o tempo da luta, de quarenta a cinquenta mil pessoas deliram em transe, estáticas, na ponta dos pés, coração aos pulos e nervos tensos como cordas de viola. Conforme corre o jogo, ________ pausas de silêncio absoluto na multidão suspensa, ou deflagrações violentíssimas de entusiasmo, que só a palavra delírio classifica. E gente pacífica, bondosa, incapaz de sentimentos exaltados, sai fora de si, torna-se capaz de cometer os mais horrorosos desatinos. A luta de vinte e duas feras no campo transforma em feras os cinquenta mil espectadores, possibilitando um enfraquecimento mútuo, num conflito horrendo, caso um incidente qualquer funda em corisco, ________ eletricidades psíquicas acumuladas em cada indivíduo. O jogo de futebol teve a honra de despertar o nosso povo do marasmo de nervos em que vivia. Adaptado de LOBATO, Monteiro. A onda verde. São Paulo: Globo, 2008. p. 119-120.
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voltava à casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo: — La maison est à moi, c’est à vous d’en sortir. Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha farão despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha. Agora, se advertirmos no imenso número de casas que ocupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. No nosso caso, houve quase um distúrbio à porta do meu cérebro, porque a adventícia não queria entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sótão. — Não, senhora, replicou a Razão, estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar, daí à de visitas e ao resto. — Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério... — Que mistério? — De dois, emendou a Sandice: o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos. A Razão pôs-se a rir — Hás de ser sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa. E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas súplicas, grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a língua de fora, em ar de surriada, e foi andando... Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê, 2001, p.84-5.
Tendo como base o texto anterior, de Machado de Assis, julgue o item a seguir. Em “voltava à casa” (l. 2) e em “criar amor às casas alheias” (l. 5-6), o acento indicativo da crase é facultativo, por se tratar de estruturas em que o substantivo “casa” tem relação com o “possuidor”, que está expresso sintaticamente.
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12. Univap-SP 2017 Em relação ao emprego da crase, as lacunas que constam na frase “Dirigiu-se ______ escola e, na biblioteca, começou ______ estudar _____ páginas da lição do dia em que teve de faltar ______ aulas.” são, corretamente, preenchidas por a) à / a / as / às b) a / a / à / às c) a / à / às / às d) à / à / às / as e) à / à / a / as
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Fon-Fon: revista humorística surgida em 1927, dedicada, principalmente, à caricatura. (N.E.) cavaignac: cavanhaque. Edson e Marconi: Edison foi o inventor do telégrafo, e Marconi, das ondas de rádio.
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13. Inatel-MG 2019 Um __um, todos os alunos responderão __ diretora sobre os distúrbios que aconteceram __ pouco. O correto preenchimento das lacunas está em: d) a, a e há; a) a, à e há; e) à, à e há b) à, a e a; c) à, à e a;
geram renda no campo e nas cidades, promovem segurança alimentar e hídrica e dinamizam os territórios. Contribuem, também, para que um número maior de agricultores familiares, assentados da reforma agrária, extrativistas e suas organizações se interessem por conhecer e participar desse ciclo virtuoso de desenvolvimento sustentável, proporcionando uma alimentação mais saudável aos brasileiros e ao mundo.
14. Unicentro-PR 2017 Acabar com a fome, alcançar a
Folha de S.Paulo, ASCLEPIUS RAMATIZ é presidente da Fundação Banco do Brasil. Graduado em direito, possui MBA em negócios internacionais, 12 set. 2017, com adaptações.
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segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável. O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas traz um grande desafio aos países. Os programas realizados nos últimos anos permitiram avanços significativos, contudo a situação global ainda é alarmante: 1 em cada 9 pessoas é subnutrida. Especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas preveem que as variações nos próximos anos impactarão a agricultura e a produção de alimentos em todo o mundo, agravando substancialmente o problema. Com uma perspectiva tão complexa e restrita, como garantir a sobrevivência das futuras gerações? A chamada agropecuária tradicional tem dado passos importantes para se adaptar a essa nova realidade, mas não há dúvida de que a escolha pela produção agroecológica de alimentos pode trazer a resposta mais adequada a esse cenário. A agroecologia integra conhecimentos científicos e saberes tradicionais na construção de sistemas agrícolas de baixo impacto ambiental e alta capacidade de resiliência. Essa abordagem propõe uma dinâmica de produção de acordo com as características dos ecossistemas, com o uso e a conservação dos recursos naturais. As estratégias de cultivo são fundamentadas a partir do equilíbrio dos componentes do solo, com a recuperação da fertilidade e sem a necessidade de agrotóxicos. É importante destacar que a produção agroecológica não se restringe à área rural e também influencia hábitos na cidade. A crescente demanda por uma vida saudável nos centros urbanos estimula, por exemplo, a criação de hortas comunitárias com produção de verduras e hortaliças sem uso de agrotóxicos. No Brasil, as grandes proporções territoriais e a diversidade de biomas tornam-se uma oportunidade e um desafio para a implantação de políticas orientadas à produção agroecológica. Existem no país diversas redes que aderiram a práticas sustentáveis e integradas na produção e comercialização de alimentos. Para o fortalecimento e ampliação dessas redes, a sociedade civil organizada requisitou a elaboração de um programa que aumentasse a escala de produção e a oferta de alimentos saudáveis. Em 2013, atendendo a esse desejo, foi criado o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo). Também nesse sentido, surgiu o Programa de Fortalecimento e Ampliação das Redes de Agroecologia, Extrativismo e Produção Orgânica (Ecoforte), com o qual se buscou integrar o investimento social privado às políticas públicas com foco territorial, associando ações de pesquisa, extensão, produção, comercialização, consumo e certificação orgânica. Ações articuladas da sociedade civil, somadas ao incentivo de políticas públicas por meio de programas e linhas de crédito, fortalecem às organizações agroecológicas,
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Capítulo 13
Assinale a alternativa na qual o emprego da crase no termo em destaque está incorreto. a) É importante destacar que a produção agroecológica não se restringe à área rural e também influencia hábitos na cidade. b) No Brasil, as grandes proporções territoriais e a diversidade de biomas tornam-se uma oportunidade e um desafio para a implantação de políticas orientadas à produção agroecológica. c) Também nesse sentido, surgiu o Programa de Fortalecimento e Ampliação das Redes de Agroecologia, Extrativismo e Produção Orgânica (Ecoforte), com o qual se buscou integrar o investimento social privado às políticas públicas com foco territorial, associando ações de pesquisa, extensão, produção, comercialização, consumo e certificação orgânica. d) Ações articuladas da sociedade civil, somadas ao incentivo de políticas públicas por meio de programas e linhas de crédito, fortalecem às organizações agroecológicas, geram renda no campo e nas cidades, promovem segurança alimentar e hídrica e dinamizam os territórios.
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15. Unicentro-PR 2017 A cultura dominante, hoje mundia-
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lizada, se estrutura ao redor da vontade de poder, que se traduz por vontade de dominação da natureza, do outro, dos povos e dos mercados. Essa é a lógica dos dinossauros que criou a cultura do medo e da guerra. Praticamente em todos os países, as festas nacionais e seus heróis são ligados a feitos de guerra e de violência. Os meios de comunicação levam ao paroxismo, à magnificação de todo tipo de violência, bem simbolizado nos filmes de Schwazenegger, como o “Exterminador do Futuro”. Nessa cultura, o militar, o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. E sempre de novo faz suscitar a pergunta que, de forma dramática, Einstein colocou a Freud nos idos de 1932: é possível superar ou controlar a violência? Freud, realisticamente, responde: “É impossível aos homens controlar totalmente o instinto de morte... Esfaimados, pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderíamos morrer de fome antes de receber a farinha”. Sem detalhar a questão, diríamos que, por detrás da violência, funcionam poderosas estruturas. A primeira delas é o caos sempre presente no processo cosmogênico. Viemos de uma imensa explosão, o big bang. E a evolução comporta violência em todas as suas fases. A expansão do universo possui também o significado de ordenar o caos. Possivelmente a própria inteligência nos foi dada para pormos limites à violência e conferir-lhe um sentido construtivo.
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Em segundo lugar, somos herdeiros da cultura patriarcal que instaurou a dominação do homem sobre a mulher e criou as instituições do patriarcado assentadas sobre mecanismos de violência, como o Estado, as classes, o projeto da tecnociência, os processos de produção como objetivação da natureza e sua sistemática depredação. Em terceiro, essa cultura patriarcal gestou a guerra como forma de resolução dos conflitos. Sobre essa vasta base, se formou a cultura do capital, hoje globalizada; sua lógica é a competição e não a cooperação, por isso, gera guerras econômicas e políticas e, com isso, desigualdades, injustiças e violências. Todas essas forças se articulam estruturalmente para consolidar a cultura da violência que nos desumaniza. A essa cultura da violência há que se opor à cultura da paz. Hoje ela é imperativa, porque as forças de destruição estão ameaçando, por todas as partes, o pacto social mínimo sem o qual regredimos a níveis de barbárie. É imperativa porque o potencial destrutivo já montado pode ameaçar toda a biosfera e impossibilitar a continuidade do projeto humano. Ou limitamos a violência e fazemos prevalecer o projeto da paz ou conheceremos, no limite, o destino dos dinossauros. O ser humano é o único ser que pode intervir nos processos da natureza e copilotar a marcha da evolução. Ele foi criado criador. Dispõe de recursos de reengenharia da violência mediante processos civilizatórios de contenção e uso de racionalidade. A competitividade continua a valer, mas no sentido do melhor e não de destruição do outro. Assim todos ganham e não apenas um. Onde buscar as inspirações para cultura da paz? Mais que imperativos voluntarísticos, é o próprio processo antroprogênico a nos fornecer indicações objetivas e seguras. Ao lado de estruturas de agressividade, temos capacidades de afetividade, compaixão, solidariedade e amorização. Hoje é urgente que desentranhemos tais forças para conferir rumo mais benfazejo à história. Toda protelação é insensata. BOFF, Leonardo. Cultura da paz. Disponível em: www.leonardoboff. com/site/vista/2001-2002/culturapaz.htm. Acesso em: 12 jul. 2016. Adaptado.
No que diz respeito aos recursos linguísticos presentes no texto, está correto o que se afirma em
I.
II.
III.
IV.
V.
O termo preposicionado “da natureza” (l. 3) exerce a mesma função sintática que “de comunicação” (l. 8), ambos tendo valor passivo, pois completam o sentido de um nome. O vocábulo “países” (l. 6) é acentuado, porque o -i- do hiato não aparece antecedido de ditongo, forma sílaba sozinho, e não vem seguido de -nh, enquanto a acentuação do ditongo aberto -oi- de “heróis” (l. 7) e de “mói” (l. 18) deve-se, respectivamente, ao fato de se tratar de palavra oxítona e de um monossílabo tônico. A presença do sinal de crase em “à magnificação” (l. 8 e 9) revela a fusão de duas vogais idênticas, embora pertencentes a classes gramaticais diferentes, sendo uma decorrente de regência verbal, e outra determinante de um nome feminino. Os verbos em negrito no fragmento “superar ou controlar a violência” (l.15) classificam-se como transitivos, fazem parte da mesma conjugação e compõem orações subjetivas que se alternam entre si. As palavras “desigualdades” (l. 37) e “injustiças” (l. 38) são derivadas pelo mesmo processo, não obstante os prefixos que as formam expressarem diferentes ideias.
A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a a) I e II. c) I, III e V. e) III, IV e V. b) II e V. d) II, III e IV.
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16. FGV-SP 2015 Capitão Vitorino apareceu na casa do mestre José Amaro para falar-lhe do ataque ____ cidade do Pilar. Disse ao compadre que D. Inês ficou cara ____ cara com Quinca Napoleão, que queria saquear-lhe o cofre, mas ela não deu a chave _____ ele. O homem era uma ameaça _____ população. As lacunas do trecho devem ser preenchidas, correta e respectivamente, com: a) à – a – a – à d) a – à – a – a b) a – à – a – à e) à – à – à – à c) à – à – a – a
BNCC em foco EM13LP06
1. IFPE 2018
A Copa do Mundo na Rússia pode ser a última tentativa de união nacional Mais do que a principal competição do maior esporte no planeta, a Copa do Mundo deve ser considerada um evento político. Futebol é política, e vice-versa. Como instituição, é parte estrutural da formação de diversos povos e sua cultura, contribuindo para a formatação de seus costumes, de suas marcas, hábitos, vocabulário. Quem ignora o papel do futebol, na formação histórica de algumas nações, pouco
entende da antropologia social e cultural delas – e nisso estamos inclusos. As seleções nacionais são representantes de seus países muito mais importantes e reconhecidas do que o melhor dos embaixadores. E a Copa, o único espaço pelo qual países frágeis na economia e geopolítica mundial podem derrotar países muito à frente nesses aspectos. Como Diego Maradona sempre gosta de lembrar, a seleção argentina, na Copa de 1986, entrou em campo contra a Inglaterra, pelas quartas de finais, para jogar pelos mortos na Guerra das Malvinas, e não simplesmente para ganhar um jogo. Isso não era restrito apenas aos jogadores: era o sentimento nacional de todos os argentinos.
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PROIETE, Gabriel. A Copa do Mundo na Rússia pode ser a última tentativa de união nacional. Disponível em: https://medium.com/ @gabriel_proiete/a-copa-do-mundo-da-r%C3%BAssia-pode-ser-a%C3%BAltima-tentativa-de-uni% C3%A3o-nacional-8aa3a939ed53. Acesso em: 7 maio 2018 (adaptado).
Com relação a aspectos semânticos e sintáticos do texto, analise o que se afirma nas assertivas a seguir. I. As expressões “bater a carteira” (2o parágrafo) e “sair da bolha” (4o parágrafo) têm o mesmo sentido que “roubar” e “expressar-se”, respectivamente. II. A recorrência da estrutura “a gente pinta”, “a gente compra” e “a gente abraça” (4o parágrafo) torna o texto cansativo e prejudica sua progressão e continuidade. III. Na oração “Quem ignora o papel do futebol, na formação histórica de algumas nações, [...]” (1o parágrafo), há um sujeito simples “quem”, mas, semanticamente, seu agente se mantém ignorado, pois é representado por um pronome indefinido. IV. As palavras “televisãozinha” e “inteirinho” (4o parágrafo) estão no diminutivo para indicar, respectivamente, tamanho e pejoro. V. Em “países frágeis [...] podem derrotar países muito à frente nesses aspectos” (1o parágrafo), a expressão recebe o acento grave indicativo de crase porque é uma locução adverbial feminina. Estão corretas, apenas, as afirmações a) I e V. d) III e V. b) II e III. e) II e IV. c) IV e V.
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Capítulo 13
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2. Observe o cartaz a seguir. LineTale/Shutterstock.com
E, quando questionado sobre o gol de mão que abriu o placar na partida, El Pibe não teve dúvidas sobre a sensação: “Foi como bater a carteira de um inglês”. Na França, a vitória na Copa de 1998 ajudou a amenizar o conflito racial que pairava na nação – entre brancos, negros e árabes – e a derrota nas duas Copas seguintes o acirrou novamente. A Copa do Mundo também foi capaz de colocar no mesmo espaço de disputa o que um dos muros mais implacáveis da história separava: em 1974, Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental se enfrentaram pela primeira fase, com vitória da ala soviética (que muitos afirmam ter sido entregue pela parte capitalista para evitar adversário mais forte na fase seguinte). Momento épico. Copa traz integração. A última vez que a Champs-Élysées tinha enchido tanto quanto na final da Copa de 98 foi na Queda da Bastilha. Na Copa de 2014, o esboço que vimos disso não aconteceu nos estádios, elitizados, mas sim nas fan-fests, que, como o próprio nome diz, foram espaços de festa, miscelânea, diversidade. Mas é muito maior do que isso: Copa traz a união comunitária. A gente não trabalha, a gente pinta a rua de casa, a gente compra camisa do Neymar ou do Ronaldinho ou do Ronaldo ou do Romário. Na hora do gol ou da vitória, a gente abraça até quem não conhece. Muitas vezes, uma televisãozinha é o suficiente para que toda a vizinhança se amontoe e torça pela sua representante internacional naquele momento. O país se volta, inteirinho, para um momento em que 11 homens são capazes de mudar, a qualquer instante, todo o seu sistema nervoso. E quem sequer reconhece isso tem que revisar seu próprio elitismo e sair da bolha.
Em “Ajude um brinquedo a encontrar um novo lar”, encontramos um desvio da norma-padrão, pois o “a” deveria ter acento grave. Explique se essa afirmativa é verdadeira ou falsa.
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3. Udesc
Capítulo 48 Conclusão feliz [...] Passado o tempo indispensável do luto, o Leonardo, em uniforme de Sargento de Milícias, recebeu-se na Sé com Luisinha, assistindo à cerimônia a família em peso. Daqui em diante aparece o reverso da medalha. Seguiu-se a morte de Dona Maria, a do Leonardo-Pataca, e uma enfiada de acontecimentos tristes que pouparemos aos leitores, fazendo aqui o ponto final. ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um Sargento de Milícias. Rio de Janeiro: Ediouro, p. 121.
Analise as alterações da oração “assistindo à cerimônia a família” (linha 4), no tocante à presença (ou ausência) do acento indicativo de crase: I. II. III. IV.
assistindo à casamento a família assistindo às cerimônias a família assistindo a missas a família assistindo à elas a família
Assinale a alternativa que apresenta a(s) proposição(ões) redigida(s) de acordo com as orientações da língua formal. a) Somente as afirmativas I e IV são verdadeiras. b) Somente a afirmativa IV é verdadeira. c) Somente as afirmativas II e III são verdadeiras. d) Somente as afirmativas I, II e III são verdadeiras. e) Todas as afirmativas são verdadeiras.
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NASA, ESA, H. E. Bond (STScI)
Ecos de luz da estrela V838 Mon. Imagem capturada pelo telescópio Hubble, em 2004.
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14 CAPÍTULO
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Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas Na imagem, vê-se uma grande nuvem de poeira cósmica e gases causada pelo movimento das estrelas. Em 2006, cientistas buscaram uma relação entre a ação de fenômenos naturais demonstrados pelo Hubble e as criações de Van Gogh, especialmente Noite estrelada (1889), e concluíram que o pintor capturou as ações estelares na natureza de modo expressivo e artístico. Relacionando esse fenômeno com a língua portuguesa, é a classe gramatical do verbo que tem a função de configurar as ações e os movimentos dos seres e os estados em que se encontram. Neste capítulo, estudaremos as propriedades dessa classe de palavras.
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Conceito e princípios gerais O verbo é a classe gramatical mais complexa da língua portuguesa. Ele tem a morfologia mais rica entre as classes de palavras e desempenha um papel fundamental na organização da sentença e do texto. A seguir, estudaremos a estrutura morfológica, a classificação e os valores semânticos dos verbos.
Estrutura e conjugação dos verbos Estudamos no Livro 1 a estrutura das palavras e verificamos que existem morfemas verbais, isto é, sufixos que se agregam ao radical na formação dos verbos. Veja a manchete abaixo:
Buscas por navio escravista do século 19 avançam em Angra dos Reis
1a conjugação: vogal temática “a” – amar, cantar, chorar etc.
•
2a conjugação: vogal temática “e” – correr, sofrer, ver etc.
•
3a conjugação: vogal temática “i” – partir, sair, pedir etc.
Para cada conjugação, existe um modelo de flexão, isto é, um paradigma verbal que orienta a conjugação da maioria dos verbos. Vejamos o exemplo a seguir com os verbos “correr” e “sofrer”: Presente do indicativo Eu
corro
sofro
Tu
corres
sofres
Ele, ela, você
corre
sofre
Projeto envolve pesquisadores brasileiros e estrangeiros.
Nós
corremos
sofremos
CARDOSO, Rafael. Agência Brasil, 7 jul. 2023. Disponível em: https:// agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-07/buscas-por-navioescravista-do-seculo-19-avancam-em-angra-dos-reis. Acesso em: 28 out. 2023.
Vós
correis
sofreis
Ele, ela, vocês
correm
sofrem
No título da notícia, identificamos o verbo “avançam”, que possui como radical “avanc-” e como morfema sufixal “-am”. Os sufixos que aportam informações ao radical sobre o modo e o tempo verbal são as desinências modo-temporais, e aqueles que trazem uma informação sobre a pessoa que enuncia e o número (singular ou plural) são as desinências número-pessoais. Observe o exemplo a seguir: Fal
á
va
mos
radical
vogal temática
desinência modo-temporal
desinência número-pessoal
Em “falávamos”, o sufixo “-va” indica o tempo pretérito imperfeito do modo indicativo; já o sufixo “-mos” é indicador da primeira pessoa do plural.
Atenção O radical é um morfema (unidade mínima de significado) que contém a parte invariável da palavra, e a ele se junta uma vogal, cuja função é facilitar o acréscimo de alguns morfemas. As vogais “a”, “e” e “i” com essa função recebem o nome de vogal temática. Exemplos: “andar” (radical “and-” + vogal temática “a”) e “partir” (radical “part-” + vogal temática “i”). O radical mais a vogal temática formam o tema.
Sendo o radical a parte invariável das palavras, sua presença é obrigatória no verbo, porém os sufixos verbais não o são. Para exemplificar, examinemos as formas verbais “estudo” e “estudei”, nas quais encontramos o mesmo radical “estud-” e desinências verbais diferentes. Ao trocar as desinências no radical, estamos conjugando o verbo, ou seja, flexionando-o em modo, tempo, pessoa, número, voz e aspecto. Em língua portuguesa, há três tipos de conjugação que são definidas pela vogal temática de cada verbo. Observe:
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•
LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
Podemos observar que o radical se mantém invariável, mas as desinências variam conforme a pessoa. Portanto, a maioria dos verbos segue uma regularidade de conjugação. Do ponto de vista morfológico, devido à regularidade ou não das flexões verbais, os verbos recebem uma primeira classificação: regular, irregular, anômalo ou defectivo. Observe a seguir um quadro com a conjugação de quatro verbos, que têm o “e” como vogal temática, no presente do indicativo. Entender
Caber
Ser
Reaver
entendo
caibo
sou
---
entendes
cabes
és
---
entende
cabe
é
---
entendemos
cabemos
somos
reavemos
entendeis
cabeis
sois
reaveis
entendem
cabem
são
---
O verbo “entender” é classificado como regular, porque segue o paradigma da segunda conjugação. Por sua vez, o verbo “caber” é irregular, pois apresenta uma flexão que não segue o paradigma de sua conjugação. Já o verbo “ser” apresenta irregularidades em relação ao paradigma em todas as formas verbais do presente do indicativo, por isso é classificado como anômalo. Enfim, o verbo “reaver” só é conjugado na primeira e segunda pessoa do plural, não apresentando formas para as outras pessoas e, por isso, é classificado como defectivo.
Saiba mais É possível pesquisar a conjugação de verbos nos “conjugadores” on-line, que permitem verificar tanto as desinências número-pessoais e modo-temporais de verbos regulares quanto as irregularidades de outras formas verbais. Disponível em: https://www.flip.pt/flip-on-line/conjugador. Acesso em: 8 jan. 2024.
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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Particípio regular
irregular
aceitado
aceito
entregado
entregue
gastado
gasto
matado
morto
elegido
eleito
exprimido
expresso
imprimido
impresso
inserido
inserto
De acordo com as convenções da norma-padrão, recomenda-se que o particípio regular seja empregado com os verbos “ter” e “haver” como auxiliares.
• •
Exemplos: O funcionário havia entregado seus relatórios. Ela teria aceitado o novo emprego.
O particípio irregular será empregado com os verbos “ser”, “estar” e “ficar” como auxiliares.
• •
Exemplos: Os panfletos estavam impressos para distribuição. Um novo governador será eleito em breve. Alguns verbos só apresentam particípio irregular.
• • • • • • • •
Exemplos: abrir – aberto cobrir – coberto dizer – dito escrever – escrito fazer – feito pôr – posto ver – visto vir – vindo
Classificação semântica e formas nominais do verbo No primeiro capítulo do Livro 1, vimos que o verbo é a categoria gramatical que configura os processos da realidade objetiva sob a influência do tempo. Leia os provérbios a seguir. • A união faz a força.
• • •
É na necessidade que se conhece o amigo. O bom filho à casa torna. Uma mulher prevenida vale por duas.
• • • •
À noite todos os gatos são pardos. A ignorância é a mãe de todas as doenças. As aparências enganam. Quem cala consente.
Provérbios, conhecidos também por ditados populares, são orações que transmitem ensinamentos de geração em geração. Muitos desses provérbios têm origem em séculos passados, além de serem mensagens de sabedoria de muitos povos. É bem comum ouvirmos provérbios no nosso dia a dia, pois são frases utilizadas em situações específicas e com sentido conhecido popularmente. Observemos os verbos das orações. Por exemplo, os provérbios “A união faz a força” e “O bom filho à casa torna” evidenciam processos que implicam o ato de “executar” algo, isto é, um sujeito que executa a ação de “fazer” algo, e “tornar” (voltar) a algum lugar. Porém, casos como “À noite todos os gatos são pardos” e “A ignorância é a mãe de todas as doenças” mostram o estado ou a qualidade de algo. Desse modo, os verbos podem implicar sentidos distintos, por isso são agrupados em:
•
Verbos de ação: têm como ponto de partida um “agente” e implicam um “fazer”. Também compreendem verbos que indicam fenômenos da natureza. Exemplos: acordar, comer, comprar, jogar, chover e trovejar.
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Verbos de estado: mostram a permanência ou mudança de um estado ou condição. Exemplos: ser, estar, permanecer, continuar, ficar e parecer.
Do ponto de vista das propriedades semânticas, os verbos de ação são também chamados de verbos significativos, isto é, que por si só expressam um conteúdo semântico, uma noção, um significado (acordar, amar, ventar, ganhar etc.); já os verbos não significativos (ou de estado) são aqueles que expressam uma condição de algo ou alguém (ser, estar, permanecer, ficar, tornar-se, parecer, continuar etc.). No ordenamento sintático, os verbos significativos são classificados como transitivos ou intransitivos, enquanto os verbos de estado são denominados verbos de ligação. Para exemplificar, observemos os provérbios: A união faz a força. verbo transitivo direto O verbo “faz” não tem sentido completo, por isso precisa de um complemento direto, que é um objeto direto (“a força”); a ideia é que o sujeito (“A união”) realiza a ação de “fazer” algo. Em “É na necessidade que se conhece o amigo”, o verbo “conhece” é um verbo transitivo direto e “o amigo” é o complemento verbal direto. O bom filho à casa torna. verbo transitivo indireto O verbo “torna” não tem sentido completo e, aqui, possui um complemento iniciado por preposição, o qual é, portanto, um objeto indireto (“à casa”); compreende-se que o sentido é o de voltar a algum lugar. Note que houve uma inversão da ordem natural do verbo e do objeto. Em
FRENTE 1
Há alguns verbos que podem ser classificados como abundantes. Trata-se daqueles que possuem duas formas para o particípio: uma regular, acrescentando-se o sufixo “-do”, e outra irregular. Veja o quadro com alguns deles:
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“Uma mulher prevenida vale por duas”, o verbo “vale”, nesse contexto, é transitivo indireto e “por duas” é o complemento verbal indireto. As aparências enganam. verbo intransitivo O verbo “enganam”, nessa frase, traz sentido completo; logo, é um verbo significativo que atua na ordem sintática como verbo intransitivo, pois não necessita de complemento. Em “Quem cala consente”, os verbos “cala” e “consente” também não precisam de complementos; logo, trata-se de verbos intransitivos. À noite todos os gatos são pardos. verbo de ligação O verbo “são” é de estado, pois, sozinho, não traz uma ideia de “executar algo”; ele atua na sentença como elemento de ligação entre o sujeito (“Todos os gatos”) e suas características (“pardos”). Em “A ignorância é a mãe de todas as doenças”, o verbo “é” apresenta um estado do sujeito (“A ignorância”), pois liga-o a uma característica (“a mãe de todas as doenças”). Nas orações anteriores, verificamos que o verbo assume uma importante função de organização. A partir da posição na qual o verbo se encontra, podemos localizar o sujeito da ação, bem como identificar os complementos verbais (diretos ou indiretos) ou as características do sujeito, no caso dos verbos de ligação. Além disso, o verbo sofre a influência da temporalidade, o que nos permite deslocar as ações para o passado e para o futuro. Na maioria dos provérbios anteriores, o tempo verbal predominante é o presente do indicativo, e essa escolha é fundamental para expressar um sentido permanente, sem tempo determinado. Algumas formas verbais podem não designar uma ação ou estado em si, porém expressam a ideia do que o verbo representa e podem ter valor de substantivo ou adjetivo; são as formas nominais do verbo. Vejamos alguns exemplos no poema a seguir.
Não estou O fluxo e o refluxo da vida... Não estou pensando em nada. E como se me tivesse encostado mal. Uma dor nas costas, ou num lado das costas, Há um amargo de boca na minha alma: É que, no fim de contas, Não estou pensando em nada, Mas realmente em nada, Em nada...
Não estou pensando em nada E essa coisa central, que é coisa nenhuma, É-me agradável como o ar da noite, Fresco em contraste com o verão quente do dia, Não estou pensando em nada, e que bom! Pensar em nada É ter a alma própria e inteira. Pensar em nada É viver intimamente
PESSOA, Fernando. Poemas de Álvaro de Campos. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/jp000011.pdf. Acesso em: 28 out. 2023.
Os versos destacados do poema de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, apresentam uma definição sobre o ato de “pensar em nada” (“Pensar em nada/É ter a alma própria e inteira/Pensar em nada/É viver intensamente”). Nas ações expressas pelos verbos “pensar”, “ter” e “viver”, não sabemos quem as realizou (os sujeitos) nem se estão no presente, no passado ou no futuro. Logo, trata-se de formas verbais atemporais e sem sujeito, sendo chamadas por isso de formas nominais do verbo. Os verbos mencionados estão no infinitivo, que é uma forma nominal usada para mostrar a ação em si, em seu estado genérico. As três formas nominais são: Forma nominal
Função
Sufixo verbal
Exemplos
Infinitivo
Expressa a ação em si e pode ter valor de substantivo.
-r
Amar Sofrer Sorrir
Gerúndio
Expressa a ação em andamento e pode ter valor de adjetivo e advérbio.
-ndo
Amando Sofrendo Sorrindo
Particípio
Expressa a ação concluída e pode ter valor de adjetivo.
-do
Amado Sofrido Sorrido
Flexões verbais e perífrase verbal Indicamos anteriormente que os verbos podem variar em número, pessoa, modo, tempo, voz e aspecto. Leia a tirinha a seguir.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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Clara Gomes/Bichinhos de Jardim
Os sonhos podem ser uma fonte de autoconhecimento muito potente. Na primeira sentença, o sujeito “o pensamento” representa a terceira pessoa do singular (ele). A forma verbal “é” apresenta flexão que estabelece concordância com essa expressão. Na segunda sentença, o sujeito “os sonhos” representa a terceira pessoa do plural (eles). Por isso, a flexão verbal (“podem ser”) se apresenta também no plural. As desinências número-pessoais, assim, marcam as flexões de número e pessoa nas formas verbais.
Tempo e modo
Estabelecendo relações Em um mundo que muda velozmente, muitas vezes não encontramos possibilidades de pensar a longo prazo, administrando nossos pensamentos e desejos. Segundo a psicologia, as ações de “desejar” e “pensar” positivamente não mudam o mundo, pois não há ação direta dessas práticas sobre os acontecimentos. No entanto, de acordo com o psicólogo Christian Dunker, professor de Psicologia Clínica da USP, o pensamento positivo pode ser uma mediação para reencontrarmos o que “desejamos” que aconteça e, se agirmos em conformidade com isso, podemos mudar a realidade ao nosso redor e a nós mesmos. Informações relacionadas podem ser acessadas em: https://sites.usp. br/psicousp/pensamento-positivo-e-benefico-quandousado-da-forma-certa-entenda/. Acesso em: 8 jan.2024.
Vamos analisar a seguir cada uma das possibilidades de flexão verbal.
Número e pessoa As formas verbais podem se apresentar no singular ou no plural, conforme o sujeito com o qual se relacionam – sujeito que, por sua vez, sempre representa uma pessoa do discurso. O pensamento positivo é importante segundo a Psicologia.
Talvez você tenha uma boa ideia. presente do subjuntivo Você tem uma boa ideia. presente do indicativo Tenha uma boa ideia. presente do imperativo afirmativo No primeiro exemplo, vemos a forma “tenha”, demarcando que o verbo está no presente do modo subjuntivo, pois se imprime uma dúvida na sentença, indicada também pela presença do advérbio “talvez”. No caso da forma “tem”, não há uma situação duvidosa, mas de certeza, pois a forma verbal está no presente do modo indicativo; no terceiro exemplo, há uma ordem ou conselho, uma vez que a forma verbal está no imperativo afirmativo.
Voz A voz verbal é uma categoria gramatical que se refere à perspectiva assumida para apresentar se o acontecimento verbal tem o sujeito como agente ou paciente. Há três formas de orientar tal perspectiva, constituindo, assim, três vozes verbais. 1.
Voz ativa: o acontecimento verbal ocorre a partir do agente, sua nomeação é obrigatória e ocorre como sujeito da oração. • A editora publicou um novo livro. • O livro recebeu vários prêmios.
2. Voz passiva: o acontecimento verbal ocorre a partir do paciente (objeto direto), e o agente pode ser facultativo. • O livro foi publicado [pela editora]. • Vários prêmios foram recebidos.
FRENTE 1
Na tirinha da artista Clara Gomes, há uma variação entre os modos verbais indicativo e subjuntivo. Nos trechos que correspondem ao narrador, na parte superior de cada quadrinho, identificamos verbos no presente do subjuntivo (“tenha”, “copie” e “faça”) e, nas falas das personagens, predomina o presente do indicativo (“molha”, “tenho”, “tô” e “sei”). Essa variação é importante para o objetivo da tirinha, isto é, levar o leitor à reflexão sobre as diferentes possibilidades de ação e escolhas na vida por meio de uma representação, com efeitos de humor, da execução (ou não) delas.
O tempo verbal é uma categoria exclusivamente do verbo cuja função é marcar a posição que os fatos enunciados ocupam na temporalidade (passado, presente e futuro), tendo como base o momento no qual os fatos foram enunciados. Denominam-se modos verbais as diferentes maneiras que o verbo assume para indicar a atitude de certeza (indicativo), de dúvida (subjuntivo) ou de ordem (imperativo) do sujeito que fala em relação ao que enuncia. Retomamos, a seguir, uma sentença da tirinha de Clara Gomes, com as formas do verbo “ter” no tempo presente em diferentes modos:
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•
A voz passiva pode ser de duas formas. Veja a seguir:
Manchete 2
Analítica: verbo ser + particípio do verbo principal
Cavaleiro da Lua e Blade podem se enfrentar nas HQs; entenda o motivo
O livro sujeito paciente
•
foi publicado
pela editora
verbo ser + particípio
agente da passiva
Sintética: verbo + pronome apassivador Alugam-se
casas
verbo + partícula (pronome apassivador)
sujeito paciente
3. Voz reflexiva: o sujeito sintático é, ao mesmo tempo, agente e paciente. • Eu me esforcei para conquistar essa vaga. A voz reflexiva também pode expressar sentido de reciprocidade, quando uma ação verbal é compartilhada entre dois ou mais agentes. Veja os exemplos: • Os amigos se abraçaram fortemente.
PADRÃO, Márcio; YUGE, Claudio (ed.). Canaltech, 24 set. 2021.
Na manchete 1, o verbo “falar” aparece sozinho e organiza a oração, ou seja, é um verbo pleno. Na manchete 2, o verbo que organiza a oração é “enfrentar” e está acompanhado de um verbo no presente do indicativo, “podem”. Nessa construção, o verbo “poder” é auxiliar, e o verbo “enfrentar” é pleno. A junção de um verbo auxiliar e um verbo pleno na mesma oração recebe o nome de perífrase verbal.
Formação dos tempos e modos verbais Como já indicamos anteriormente, as ações e os estados expressos pelos verbos e marcados pela temporalidade podem ser enunciados de modo a transmitir certeza, dúvida ou ordem. Estes são os três modos verbais da língua portuguesa:
Indicativo
Modo pelo qual o falante imprime certeza ao que diz, quer em referência ao presente, quer em relação ao passado, ou ao futuro. Ex.: Eu consigo um emprego. presente do indicativo
Subjuntivo
Modo pelo qual o falante expressa o fato como algo incerto, duvidoso ou irreal, quer em referência ao presente, quer em relação ao passado ou ao futuro. Ex.: Talvez eu consiga um emprego. Presente do subjuntivo
Imperativo
Modo pelo qual o falante incita seu interlocutor a praticar ou não a ação. Ex.: Consiga um emprego! presente do imperativo afirmativo
• Eles se perdoaram pelos erros passados. No capítulo 15 do livro 4, aprofundaremos o estudo das vozes verbais analisando seus efeitos de sentido nos textos.
Aspecto O aspecto refere-se à relação entre o processo (ou estado, ou fenômeno) expresso pelo verbo e à ideia de duração ou desenvolvimento. A apresentação de uma situa ção dentro de uma noção aspectual depende de como o falante pretende referir-se à duração da situação (ou mesmo não se referir a ela). As variações de aspecto não são marcadas por sufixos verbais. Observe: 1.
Aspecto durativo: demarca ação que tem duração prolongada no tempo. • A equipe está trabalhando em home office há 1 ano.
2. Aspecto conclusivo ou terminativo: demarca término da ação verbal. • Acabo de ouvir ótimas notícias. 3. Aspecto habitual ou permansivo: demarca continuidade da ação. • Costumam acordar tarde.
Os tempos verbais são fundamentais para informar que as ações, os fenômenos ou os estados expressos pelos verbos ocorrem no passado, no presente ou no futuro. A noção de “tempo” é objeto de estudo não só da Linguística, mas de outras disciplinas, como a Filosofia e a Astrofísica. Nos estudos linguísticos, o tempo é analisado tendo em vista duas noções: a coincidência ou não entre o momento do acontecimento (da ação) e o momento de referência de quem enuncia. Observe a seguir.
4. Aspecto incoativo: demarcar início da ação verbal. • Ela começou a estudar para o vestibular. Embora os verbos possam aparecer sozinhos, percebemos, nos exemplos anteriores, que eles também podem vir acompanhados de outros. Quanto a essa característica, podem ser classificados como plenos ou auxiliares. Observe as duas manchetes a seguir:
Laerte fala de charges, de seu maior projeto e da mudança nas suas HQs CIRNE, Pedro. TV Cultura - UOL, 18 out. 2021.
LÍNGUA PORTUGUESA
Presente
Futuro
Viajei muito naquele ano
Viajo sozinho hoje
Viajarei com meu amigo no inverno
Sobre a sentença Viajo sozinho hoje, podemos dizer que: expressa um fato que se desenvolve no momento em que o falante se situa; II. apresenta um acontecimento que é atual ao momento em que se enuncia; III. está marcada no tempo presente do indicativo. I.
Manchete 1
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Passado
Capítulo 14
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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Em Viajei muito naquele ano, a ação de viajar se desloca para antes do momento em que o falante está situado temporalmente. Já em Viajarei com meu amigo no inverno, inferimos que a forma verbal expressa um fato que ocorrerá no futuro; o foco da ação situa-se posteriormente ao momento em que se localiza o falante. Disso, podemos afirmar que o tempo de referência das três frases é o presente (o momento da fala), sendo o passado e o futuro organizados a partir do momento e do ponto de vista do falante. Porém, o falante pode se expressar tendo como ponto de referência o passado ou o futuro. Vejamos a seguir: a) Em 15 de novembro de 1889, o Brasil se tornou uma república. b) Em 15 de novembro de 1889, o Brasil se tornava uma república. Nessas duas frases, o ponto de referência é o passado, marcado pela data “15 de novembro de 1889”. O momento em que o acontecimento ocorre também está no passado, concomitante ao momento de referência. A diferença entre as duas frases não está na localização da ação em relação à referência do falante, mas na sua duração, pois em b a duração da ação é mais longa, prolongou-se durante o dia 15 de novembro de 1889. Verbos com esse aspecto de duração são chamados de imperfeitos. Concluindo, os tempos verbais são definidos pelo momento de referência do falante, momento e duração do acontecimento. A seguir, vamos conhecer os empregos dos tempos verbais do português e seus sufixos ou desinências verbais: Modo
Tempo
Emprego
Desinência
Presente
Indica uma ação simultânea ao momento da fala.
[eu] canto
Indica ação concluída no passado.
[eu] cantei
Indica uma ação que se estende até o presente.
[eu] tenho cantado
Indica uma ação passada não concluída completamente.
[eu] cantava
INDICATIVO
perfeito Pretérito
simples composto
imperfeito mais-que-perfeito
simples composto
[eu] cantarei
composto
Indica uma ação futura anterior a outra futura.
[eu] terei cantado
simples
Indica uma ação posterior a outra passada.
[eu] cantaria
composto
Indica posterioridade de uma ação incerta em relação a um ato anterior.
[eu] teria cantado
Indica simultaneidade associada à noção de incerteza ou desejo.
que [eu] cante
perfeito
Indica anterioridade de uma ação incerta concluída antes de outra.
que [eu] tenha cantado
imperfeito
Indica anterioridade associada à noção de incerteza ou desejo.
se [eu] cantasse
mais-que-perfeito
Indica anterioridade remota, associada à noção de incerteza ou desejo.
se [eu] tivesse cantado
do pretérito
SUBJUNTIVO
Presente
IMPERATIVO
[eu] tinha cantado
Indica uma ação futura sem estabelecer relação com outro fato.
Futuro
simples Futuro
[eu] cantara
simples
do presente
Pretérito
Indica uma ação passada anterior a outra ação passada.
composto
Indica posterioridade associada à noção de incerteza, possibilidade, em orações subordinadas.
quando [eu] cantar quando [eu] tiver cantado
Afirmativo
Indica uma ordem.
Canta [tu]
Negativo
Indica uma ordem negativa.
Não cantes [tu]
Valores semânticos e correlação verbal Leia a reportagem a seguir. São Paulo – Dez anos depois de implementar a Lei 2.107/02, que ficou conhecida como Lei de Fechamento de Bares, a cidade de Diadema, na Grande São Paulo, registrou uma redução na taxa de homicídios de 90,74%. Apontada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das dez melhores políticas públicas de combate ao consumo de álcool, a lei, junto com outras políticas públicas, foi determinante para a diminuição no número de homicídios em Diadema. A cidade, em 1999, tinha a maior taxa de assassinatos do estado de São Paulo – 102,8 mortes para cada 100 mil habitantes – e, em 2011, reduziu esse índice para 9,52 para cada 100 mil habitantes.
FRENTE 1
Dez anos depois de implementar lei de fechamento de bares, Diadema reduz homicídios em 90%
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[...] Regina [secretária Nacional de Segurança Pública] explica que a legislação foi precedida de um amplo diagnóstico das causas dos homicídios na cidade e que a replicação da lei em outras cidades pode não produzir os mesmos resultados. [...] Segundo a prefeitura, a maioria dos assassinatos na cidade, antes da aplicação da lei, ocorriam a partir de brigas, acertos de contas e por débito no tráfico de drogas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município tem 386 mil habitantes. [...] Carolina [coordenadora de Gestão da Segurança Pública do Instituto Sou da Paz] diz que a lei não teria produzido sozinha resultados positivos. Ela destaca a implementação de outras políticas públicas que, em conjunto com a nova legislação, fez reduzir a taxa de homicídios. [...] Entre as diversas políticas públicas de segurança implantadas na cidade estão a criação do Centro Integrado de Videomonitoramento, o Serviço de Mediação de Conflitos e três planos Municipais de Segurança, o último lançado em novembro de 2011, que tem como meta, para os próximos cinco anos, estabilizar a taxa de homicídios em um dígito por grupo de 100 mil habitantes. A polícia utiliza de seis a 15 agentes e de três a oito fiscais da prefeitura para monitorar a aplicação da lei na cidade, que tem cerca de 30 quilômetros quadrados. Desde 2002, foram fechados 32 estabelecimentos que descumpriam a legislação e notificados cerca de 3 mil. BOCCHINI, Bruno; ALBUQUERQUE, Flávia; MASSALI, Fábio (ed.). Agência Brasil, 15 jun. 2012. Disponível em: http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/ agenciabrasil/noticia/2012-06-15/dez-anos-depois-de-implementar-lei-de-fechamento-de-bares-diadema-reduz-homicidios-em-90. Acesso em: 28 out. 2023.
Nas seções anteriores, estudamos as classificações morfológicas e semânticas dos verbos. Também é importante discutir os valores semânticos dos verbos em uma dada situação de comunicação, pois o tempo em que os verbos estão conjugados não exprime apenas a noção temporal, mas também caracteriza a situação de comunicação. A reportagem apresenta, no parágrafo inicial, fatos anteriores ao momento em que o texto é produzido, por isso os tempos verbais utilizados estão no passado. Esses tempos verbais criam uma situação de narração. Textos de diferentes gêneros podem conter momentos de narração, mas há aqueles em que esse tipo textual é predominante, como romances, fábulas, contos, entre outros. A partir do segundo parágrafo, os enunciadores iniciam a exposição do assunto da reportagem, citando autoridades que corroboram as informações apresentadas e dados estatísticos relacionados ao assunto. O tempo verbal que predomina então é o presente do indicativo. Os verbos dessa categoria criam uma situação de comentário. De acordo com os valores de narração ou comentário, os tempos verbais podem ser correlacionados em dois grupos: Grupo 1 (Narração) Grupo 2 (Comentário)
Indicativo: pretérito perfeito simples; pretérito imperfeito; pretérito mais-que-perfeito; futuro do pretérito; e locuções formadas com esses tempos. Indicativo: presente; pretérito perfeito composto (tenho cantado); futuro do presente; futuro do presente composto (terei cantado); e locuções verbais formadas com esses tempos.
Portanto, em uma situação de narração, os tempos verbais do grupo 1 devem ser correlacionados. Já no comentário, essa correlação acontece entre os tempos verbais do grupo 2. Como o próprio nome expressa, correlação verbal se caracteriza pela harmonia entre as formas verbais expressas num período. Na língua portuguesa, há outras correlações verbais convencionadas. Vejamos: Presente do modo indicativo + pretérito perfeito composto do modo subjuntivo • Creio que ele tenha estudado para a prova. Presente do modo indicativo + presente do modo subjuntivo • Espero que você estude para a prova. Pretérito perfeito do indicativo + pretérito imperfeito do modo subjuntivo • Pedi a ele que estudasse para a prova. Pretérito imperfeito do modo indicativo + pretérito mais-que-perfeito composto do modo subjuntivo • Queria que ela tivesse estudado para a prova. Futuro do pretérito do modo indicativo + pretérito mais-que-perfeito composto do modo subjuntivo • Gostaria que ele tivesse estudado para a prova. Pretérito imperfeito do subjuntivo + futuro do pretérito do indicativo • Se você estudasse para a prova, eu ficaria orgulhoso. Pretérito mais-que-perfeito composto do subjuntivo + futuro do pretérito composto do indicativo • Se você tivesse estudado para a prova, eu teria visto. Futuro do subjuntivo + futuro do presente do modo indicativo • Se você estudar para a prova eu ficarei contente. Futuro do subjuntivo + futuro do presente composto do indicativo • Quando você vier em minha casa, já terei estudado. Futuro do subjuntivo + futuro do presente do modo indicativo • Quando você estudar para a prova, ficarei muito orgulhoso.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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Revisando 002447_por_f1_c14_q0001discursiva
1. Fuvest-SP 2022
Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo — a paisagem é a mesma de cada lado, beirando a estrada da vida. Eu tinha onze anos. (O Ateneu, 2013.)
Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regímen do amor doméstico (2o parágrafo).
Nesse trecho, o termo destacado é um verbo a) transitivo indireto. d) intransitivo. b) de ligação. e) transitivo direto. c) bitransitivo. Leia o trecho inicial do conto “O cobrador”, de Rubem Fonseca, para responder às questões 3 e 4.
Disponível em: //deposito-de-tirinhas.tumblr.com/post/ 46675766891/por-laerte.
a) Como as formas verbais ‘’gostaria’’ e ‘’acho’’ contribuem para a construção de sentido dos quadros 1 e 2? b) Considerando o contexto da tirinha, como o enunciador se vê no último quadro?
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2. Univag-MT 2017 Leia o trecho do romance O Ateneu, de Raul Pompeia, para responder à questão. “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regímen do amor doméstico; diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora, e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam. Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma.
Na porta da rua uma dentadura grande, embaixo escrito Dr. Carvalho, Dentista. Na sala de espera vazia uma placa, Espere o Doutor, ele está atendendo um cliente. Esperei meia hora, o dente doendo, a porta abriu e surgiu uma mulher acompanhada de um sujeito grande, uns quarenta anos, de jaleco branco. Entrei no gabinete, sentei na cadeira, o dentista botou um guardanapo de papel no meu pescoço. Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muito. Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado. Só rindo. Esses caras são engraçados. Vou ter que arrancar, ele disse, o senhor já tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder todos os outros, inclusive estes aqui – e deu uma pancada estridente nos meus dentes da frente. Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê?, disse com pouco caso. São quatrocentos cruzeiros. Só rindo. Não tem não, meu chapa, eu disse. Não tem não o quê? Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta. Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande […]. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogados, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito. Abri o blusão, tirei o 38 [...]. Ele ficou branco, recuou. Apontando o revólver para o peito dele comecei a aliviar o meu coração: tirei as gavetas dos armários, joguei tudo no chão, chutei os vidrinhos todos como se fossem balas, eles pipocavam e explodiam na parede. Arrebentar os cuspidores e motores foi mais difícil, cheguei a machucar as mãos e os pés. O dentista me olhava, várias vezes deve ter pensado em pular em cima de mim, eu queria muito que ele fizesse isso para dar um tiro naquela barriga grande […]. Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro! (O melhor de Rubem Fonseca, 2015.)
FRENTE 1
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3. FICSAE-SP 2020 Ele [...] perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado. (2o parágrafo) Ao se transpor o trecho para o discurso direto, o termo sublinhado assume a seguinte forma: a) deixaria. d) deixava. b) deixa. e) deixara. c) deixou.
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4. FICSAE-SP 2020 O primeiro verbo atribui ideia de futuro ao segundo na locução verbal sublinhada em: a) “Fui andando em direção à porta” (8o parágrafo). b) “Apontando o revólver para o peito dele comecei a aliviar o meu coração (9o parágrafo). c) “Todos eles estão me devendo muito” (9o parágrafo). d) “Na sala de espera vazia uma placa, Espere o Doutor, ele está atendendo um cliente” (1o parágrafo). e) “o senhor já tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder todos os outros” (4o parágrafo). Leia o excerto a seguir, extraído do livro “Cem dias entre céu e mar”, de autoria de Amyr Klink, antes de responder às questões de 5 e 6, elaboradas a partir dele. 002447_por_f1_c14_t0002
QUERER Rosa era seu nome e – como a mulher dos meus sonhos, aquela de quem nunca saberei todos os segredos e para quem sempre terei uma história nova – era misteriosa, elegante, cheia de enigmas. Suas linhas perfeitas escondiam-lhe muito bem a idade. Muito se contava a seu respeito. Grandes aventuras, viagens perigosas. Todos na ilha a conheciam. Não resisti, e fui ter com ela. E, desde a hora em que deitei os olhos em suas doces curvas, não descansei mais até que fosse minha. Pertencia a um velho pescador, e não foi fácil fazê-lo entender essa súbita paixão. Rosa IX, linda e encantadora canoa de nobre madeira, o caubi, nove metros talhados de uma única tora, linhas perfeitas, traço fino, estilo apurado, um verdadeiro caso de amor. Foi no Natal de 1977, na ilha de Santo Amaro, e, fechado o negócio, eu nem pensara em como levá-la até Paraty. Fomos juntos, por mar, e vivi então a minha primeira travessia, a sós, por dois dias e uma noite. Não mudei o seu nome quando fui registrá-la porque creio que todo barco adquire uma certa personalidade com o nome de batismo, especialmente uma canoa. [...] Fonte: KLINK, Amyr. Cem dias entre céu e mar. Companhia de Bolso, 2005.
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5. Ufam/PSC 2023 Quanto aos aspectos linguísticos morfossintáticos, é INCORRETO afirmar que: a) as formas verbais “era” (no primeiro parágrafo), “fosse” (no segundo parágrafo), “fomos” (no terceiro parágrafo) e “fui” (no quarto parágrafo) dizem respeito a dois diferentes verbos anômalos. b) o “e” em “Não resisti e fui ter com ela”, e em “Rosa IX, linda e encantadora canoa de nobre madeira” é uma conjunção aditiva, coordenando, respectivamente, duas orações e dois adjuntos adnominais.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
c) “Suas linhas perfeitas escondiam-lhe muito bem a idade” representa um período simples, cujo núcleo do sujeito é acompanhado de um pronome possessivo e de um adjetivo, ambos concordando em gênero e número; além disso, o predicado contém um adjunto adverbial. d) a oração “Muito se contava a seu respeito” está na voz passiva sintética; se fosse transformada em voz passiva analítica, passaria a ser “Muito era contado a seu respeito”. e) o “a” em “a seu respeito”, “a conheciam”, “a um velho pescador” e “a sós” corresponde, respectivamente, a uma preposição acidental, a um pronome pessoal oblíquo, a uma preposição essencial e a um pronome pessoal oblíquo.
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6. Ufam/PSC 2023 O autor, no terceiro parágrafo, emprega a forma de tempo verbal simples “pensara”, que, no Brasil, mesmo na modalidade escrita, costuma ser substituída pela forma de tempo verbal composta. Indique a opção que, CORRETAMENTE, respeita a relação entre tempo verbal simples e tempo verbal composto (mantidos o número, a pessoa e o modo dos verbos empregados no texto): a) pensara – tivesse pensado; saberei – terei sabido; vivi – tenha vivido; terei – terei tido. b) pensara – tinha pensado; saberei – terei sabido; vivi – tenho vivido; terei – terei tido. c) pensara – tinha pensado; saberei – teria sabido; vivi – tenho vivido; terei – teria tido. d) pensara – tivesse pensado; saberei – teria sabido; vivi – tenho vivido; terei – teria tido. e) pensara – tinha pensado; saberei – terei sabido; vivi – tenha vivido; terei – teria tido.
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7. EEAR-SP 2023 Leia: Todas as manhãs, antes de a aurora anunciar o dia, o galo-da-campina punha-se a cantar emitindo notas maviosas, ritmadas. (Adalberon C. Lins)
O verbo da segunda conjugação, na frase acima, encontra-se no a) presente do indicativo. b) pretérito perfeito do indicativo. c) pretérito imperfeito do indicativo. d) pretérito imperfeito do subjuntivo.
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8. UEPG-PR 2022
Por que as novas tecnologias não estão nos tornando mais produtivos? Durante anos, tem sido uma crença no ambiente corporativo americano que a computação em nuvem e a inteligência artificial irão fomentar um aumento na produtividade que gera riqueza. Essa convicção inspirou uma enxurrada de financiamentos de risco e despesas de empresas. E a recompensa, insistem seus defensores, não se limitará a um pequeno grupo de gigantes da tecnologia, mas se espalhará por toda a economia.
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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Isso ainda não aconteceu. A produtividade, que é definida como o valor das mercadorias produzidas e serviços realizados por hora de trabalho, caiu consideravelmente no primeiro trimestre deste ano, informou o governo americano este mês. Os números do trimestre costumam ser voláteis, mas o relatório parecia acabar com as esperanças anteriores de que um renascimento da produtividade finalmente estava acontecendo, ajudado pelo investimento acelerado em tecnologias digitais durante a pandemia. O crescimento da produtividade desde o início da pandemia atualmente permanece em cerca de 1% ao ano, em sintonia com a taxa precária desde 2010 – e muito abaixo do último período de melhoria robusta, de 1996 a 2004, quando a produtividade cresceu mais de 3% ao ano. O atual quebra-cabeça da produtividade é objeto de acalorado debate entre os economistas. Robert Gordon, economista da Universidade Northwestern, é o líder dos céticos. Segundo ele, a inteligência artificial de hoje é essencialmente uma tecnologia de reconhecimento de padrões, lendo de forma atenta vastos tesouros de palavras, imagens e números. Suas façanhas, de acordo com Gordon, são “impressionantes, mas não transformadoras”
do modo como foram a eletricidade e o motor de combustão interna. Adaptado de: LOHR, Steve. Por que as novas tecnologias não estão nos tornando mais produtivos? Disponível em: https://www.msn.com/ptbr/ dinheiro/other/por-que-as-novas-tecnologias-n%C3%A3o-est%C3%A3onos-tornando-mais-produtivos/ar-AAXT2C3?ocid=msedgntp&cvid=ce4f9 7021cbd4e5dbd3b1a6951e30633. Acesso em: 30/05/22.
Em relação ao texto jornalístico anteriormente reproduzido, assinale o que for correto. 01 A forma verbal “insistem” se refere a um fato cuja ocorrência está localizada em um futuro incerto ou duvidoso em relação ao momento da enunciação do discurso. 02 A forma verbal “limitará” se refere a um fato que vai acontecer em um tempo posterior ao discurso. 04 A forma verbal “inspirou” faz referência a um fato que teve seu início e seu fim em um momento passado anterior ao discurso. 08 A forma verbal “parecia” está se referindo a um fato que aconteceu muito tempo antes da enunciação do discurso. 16 A forma verbal “lendo” traz uma desinência que expressa a ideia de um fato que pode ter ocorrido ou não. Soma:
Exercícios propostos
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TREM [...] Tem um erro de gramática que me dá arrepios. Quando eu ouço as pessoas dizendo: “Ele pediu pra mim ir lá...”; ou: “Quero silêncio pra mim dormir”, eu penso que o Tarzã se intrometeu demais no português, porque era o Tarzã que não falava “eu”: “Mim ama Jane, mim vai pescar...” Claro, esse era o Tarzã antigo, da roça. Os Tarzãs modernos estudaram em Oxford, falam português escorreito, castiço, clássico. Mas não tem jeito, e já me conformei. Onde já se viu “mim” fazer coisas? “Mim” não faz nada. Errado. “Mim” faz coisas. O povo decretou. É o jeito do povo falar que faz a língua. Eu mesmo me revolto contra o Aurélio. Escrevi: “os anús fazendo seus ruídos característicos...” A revisora me informou que a grafia certa da ave negra é anus, sem acento. Pode ser. Mas não quero que meu leitor se confunda. Por via das dúvidas e a bem da clareza, eu continuo a escrever anús, para que ninguém confunda o passarinho com o orifício terminal dos intestinos. [...] Fonte: Rubem ALVES: Se eu pudesse viver minha vida novamente [recurso eletrônico]. Campinas, SP: Verus Editora, 2016, p. 64-66. [Edição eletrônica do Kindle].
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1. Ufam/PSC 2023 Em relação ao período “Tem um erro de gramática que me dá arrepios”, é CORRETO afirmar que: a) o “que” é uma conjunção subordinativa integrante. b) o verbo “dar” é bitransitivo, selecionando, no caso, dois objetos diretos (“me” e “arrepios”).
c)
representa um período composto por subordinação, cuja subordinada é uma oração adjetiva restritiva. d) se a palavra “erro” estivesse no plural, obrigatoriamente o mesmo deveria acontecer com a palavra “um”, mas não com a palavra “dá”. e) se o verbo “ter” fosse substituído pelo verbo “haver”, teríamos, nesse contexto, um verbo impessoal e, por conseguinte, o sujeito dele seria inexistente; o mesmo se daria se o verbo substituto fosse “existir”.
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2. Ufam/PSC 2023 Em relação aos períodos “Mim” não faz nada e “Mim” faz coisas, é CORRETO afirmar que: a) ambos são períodos simples e têm como sujeito a palavra “Mim”. b) o “i” de “Mim” representa uma vogal oral, enquanto o de “coisas” representa uma semivogal. c) o verbo “fazer” é regular e está conjugado no presente do modo indicativo. d) tanto a palavra “não” quanto a palavra “nada” expressam negação, e ambas pertencem à classe dos advérbios. e) o verbo “fazer” é defectivo e está conjugado no presente do modo indicativo.
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3. ESA-RJ 2022 São exemplos de verbos irregulares, exceto: a) Restrinjo a passagem de alunos por aqui a partir de hoje. b) Quando tinha três anos, já media um metro. c) Todos os anos, ela me dava um presente. d) Minha mãe faz bolos deliciosos. e) Nós pedimos uma pizza.
FRENTE 1
Considere o excerto do texto a seguir, da autoria de Rubem Alves, para responder às questões de 1 e 2:
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4. Unesp 2018 Leia o trecho do conto “Pai contra mãe”, de Machado de Assis (1839-1908), para responder à questão. A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha de flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras. O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também, à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado. Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando. Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: “gratificar-se-á generosamente” – ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoitasse. Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.
Na oração em que está inserido, o termo destacado é um verbo que pede a) apenas objeto direto, representado pelo vocábulo “lho”. b) objeto direto e objeto indireto, ambos representados pelo vocábulo “lho”. c) objeto direto, representado pelo vocábulo “dinheiro”, e objeto indireto, representado pelo vocábulo “lho”. d) apenas objeto indireto, representado pelo vocábulo “quem”. e) objeto direto, representado pelo vocábulo “dinheiro”, e objeto indireto, representado pelo vocábulo “quem”.
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5. ITA-SP 2017
A mídia realmente tem o poder de manipular as pessoas?
Por Francisco Fernandes Ladeira
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(Contos: uma antologia, 1998.)
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. (4o parágrafo)
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
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À primeira vista, a resposta para a pergunta que intitula este artigo parece simples e óbvia: sim, a mídia é um poderoso instrumento de manipulação. A ideia de que o frágil cidadão comum é impotente frente aos gigantescos e poderosos conglomerados da comunicação é bastante atrativa intelectualmente. Influentes nomes, como Adorno e Horkheimer, os primeiros pensadores a realizar análises mais sistemáticas sobre o tema, concluíram que os meios de comunicação em larga escala moldavam e direcionavam as opiniões de seus receptores. Segundo eles, o rádio torna todos os ouvintes iguais ao sujeitá-los, autoritariamente, aos idênticos programas das várias estações. No livro Televisão e Consciência de Classe, Sarah Chucid Da Viá afirma que o vídeo apresenta um conjunto de imagens trabalhadas, cuja apreensão é momentânea, de forma a persuadir rápida e transitoriamente o grande público. Por sua vez, o psicólogo social Gustav Le Bon considerava que, nas massas, o indivíduo deixava de ser ele próprio para ser um autômato sem vontade e os juízos aceitos pelas multidões seriam sempre impostos e nunca discutidos. Assim, fomentou-se a concepção de que a mídia seria capaz de manipular incondicionalmente uma audiência submissa, passiva e acrítica. Todavia, como bons cidadãos céticos, devemos duvidar (ou ao menos manter certa ressalva) de proposições imediatistas e aparentemente fáceis. As relações entre mídia e público são demasiadamente complexas, vão muito além de uma simples análise behaviorista de estímulo/ resposta. As mensagens transmitidas pelos grandes veículos de comunicação não são recebidas automaticamente e da mesma maneira por todos os indivíduos. Na maioria das vezes, o discurso midiático perde seu significado original na controversa relação emissor/receptor. Cada indivíduo está envolto em uma “bolha ideológica”, apanágio de seu próprio processo de individuação, que condiciona sua maneira de interpretar e agir sobre o mundo. Todos nós, ao entrarmos em contato com o mundo exterior, construímos representações sobre a realidade. Cada um de nós forma juízos de valor a respeito dos vários âmbitos do real, seus personagens, acontecimentos e fenômenos e, consequentemente, acreditamos que esses juízos correspondem à “verdade”. [...]
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[...] A mídia é apenas um, entre vários quadros ou grupos de referência, aos quais um indivíduo recorre como argumento para formular suas opiniões. Nesse sentido, competem com os veículos de comunicação como quadros ou grupos de referência fatores subjetivos/psicológicos (história familiar, trajetória pessoal, predisposição intelectual), o contexto social 45 (renda, sexo, idade, grau de instrução, etnia, religião) e o ambiente informacional (associação comunitária, trabalho, igreja). “Os vários tipos de receptor situam-se numa complexa rede de referências em que a comunicação interpessoal e a midiática se completam e modificam”, afirmou a cientista social Alessandra Aldé, em seu livro A construção da política: democracia, cidadania e meios de comunicação de massa. Evidentemente, o peso de cada quadro de referência tende a variar de acordo com a realidade individual. Seguindo essa linha de raciocínio, no original estudo Muito Além do Jardim Botânico, Carlos 50 Eduardo Lins da Silva constatou como telespectadores do Jornal Nacional acionam seus mecanismos de defesa, individuais ou coletivos, para filtrar as informações veiculadas, traduzindo-as segundo seus próprios valores. “A síntese e as conclusões que um telespectador vai realizar depois de assistir a um telejornal não podem ser antecipadas por ninguém; nem por quem produziu o telejornal, nem por quem assistiu ao mesmo tempo que aquele telespectador”, inferiu Carlos Eduardo. Adaptado de: http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/amidia-realmente-tem-o-poder-de-manipular-as-pessoas/. (Publicado em 14/04/2015, na edição 846. Acesso em 13/07/2016.)
Marque a alternativa em que o verbo destacado está classificado corretamente quanto à transitividade. VTD − verbo transitivo direto VTI – verbo transitivo indireto VI – verbo intransitivo a) [...] devemos duvidar (ou ao menos manter certa ressalva) de preposições imediatistas e aparentemente fáceis. – VTD (linhas 23-25) b) Na maioria das vezes, o discurso midiático perde seu significado original na controversa relação emissor/receptor. – VTI (linhas 30-32) c) A mídia é apenas um, entre vários quadros ou grupos de referência, aos quais um indivíduo recorre como argumento para formular suas opiniões. – VTI (linhas 42-43) d) Nesse sentido, competem com os veículos de comunicação como quadros ou grupos de referência fatores subjetivos/psicológicos [...] – VTD (linhas 43-44) e) Evidentemente, o peso de cada quadro de referência tende a variar de acordo com a realidade individual. – VI (linhas 48-49)
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6. Univag-MT 2021 Leia o poema de Rubem Braga para responder à questão. E quando nós saímos era a Lua, Era o vento caído e o mar sereno Azul e cinza azul anoitecendo A tarde ruiva das amendoeiras. E respiramos, livres das ardências Do sol, que nos levara à sombra cauta Tangidos pelo canto das cigarras Dentro e fora de nós exasperadas.
Andamos em silêncio pela praia. Nos corpos leves e levados ia O sentimento do prazer cumprido. Se mágoa me ficou na despedida, Não fez mal que ficasse, nem doesse − Era bem doce, perto das antigas. (Livro de versos, 1998.)
O verbo sublinhado indica um fato pontual, ocorrido no passado, em: a) “Nos corpos leves e levados ia” (3a estrofe). d) “E quando nós saímos era a Lua” (1a estrofe). a b) “Azul e cinza azul anoitecendo” (1 estrofe). e) “Era bem doce, perto das antigas” (4a estrofe). a c) “Não fez mal que ficasse, nem doesse” (4 estrofe).
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7. UFMS 2018 Leia o poema de Ferreira Gullar e responda à questão.
Morte de Clarice Lispector enquanto te enterravam no cemitério judeu do Caju (e o clarão de teu olhar soterrado resistindo ainda) o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo as pedras e as nuvens e as árvores no vento mostravam alegremente que não dependem de nós.
Qual é a transitividade das formas verbais “mostravam” e “dependem”, respectivamente, presentes nos dois últimos versos do poema? a) Verbo transitivo direto e verbo transitivo indireto. d) Verbo transitivo indireto e verbo transitivo direto e b) Verbo transitivo direto e verbo intransitivo. indireto. c) Verbo intransitivo e verbo transitivo indireto. e) Verbo intransitivo e verbo transitivo direto.
FRENTE 1
(GULLAR, Ferreira. Melhores poemas de Ferreira Gullar. 7 ed. Seleção de Alfredo Bosi. São Paulo: Global, 2004. p. 153).
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8. IFPE 2020 Observe o segundo quadrinho.
BECK, Alexandre. Disponível em: . Acesso em: 27 out. 2019.
Oração 1 – Porque não cuida da sua vida?... Guri! Oração 2 – Estou cuidando! Sabendo que o verbo “cuidar”, no sentido em que aparece no texto, é transitivo indireto, é CORRETO afirmar que, na oração 2, o verbo utilizado a) também é transitivo indireto, levando em conta que uma parte da Oração 2 está oculta. b) é intransitivo, ou seja, não necessita de complemento verbal. c) é transitivo direto, já que não exige preposição. d) é, ao mesmo tempo, transitivo direto e indireto, pois aceita qualquer tipo de complemento verbal. e) pode variar a transitividade dependendo da oração apresentada no 3o quadrinho.
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9. Uece 2017
Grito Quadro que fundou o expressionismo nasceu de um ataque de pânico. Edvard Munch nasceu em 1863, mesmo ano em que O piquenique no bosque, de Édouard Manet, era exposto no Salão dos Rejeitados, chamando a atenção para um movimento que nem nome tinha ainda. Era o impressionismo, superando séculos de pintura acadêmica. Os impressionistas deixaram o realismo para a fotografia e se focaram no que ela não podia 5 mostrar: as sensações, a parte subjetiva do que se vê. Crescendo durante essa revolução, Munch – que, aliás, também seria fotógrafo – achava a linguagem dos impressionistas superficial e científica, discreta demais para expressar o que sentia. E ele sentia: Munch tinha uma história familiar trágica: perdeu a mãe e uma irmã na infância, teve outra irmã que passou a vida em asilos psiquiátricos. Tornou-se artista sob forte oposição do pai, que morreria quando Munch tinha 25 anos e o deixaria na pobreza. O artista sempre viveu na boemia, 10 entre bebedeiras, brigas e romances passageiros, tornando-se amigo do filósofo niilista Hans Jæger, que acreditava que o suicídio era a forma máxima da libertação. Fruto de suas obsessões, O Grito não foi seu primeiro quadro, mas o que o tornaria célebre. A inspiração veio do que parece ter sido um ataque de pânico, que ele escreveu em seu diário, pouco mais de um ano antes do quadro: “Estava andando por um caminho com dois amigos – o sol estava se pondo – quando, de repente, o sol tornou-se vermelho como o sangue. Eu 15 parei, sentindo-me exausto, e me encostei na cerca – havia sangue e línguas de fogo sobre o fiorde negro e a cidade. Meus amigos continuaram andando, e eu fiquei lá, tremendo de ansiedade – e senti um grito infinito atravessando a natureza”. Ali nasceria um novo movimento artístico. O Grito seria a pedra fundadora do expressionismo, a principal vanguarda alemã dos anos 1910 aos 1930. (Aventuras na História)
O verbo “nascer” em “Ali nasceria um novo movimento artístico” (linha 17) significa a) começar a crescer, a brotar. b) tomar forma, instituir-se. c) gerar-se, ter surgimento, passar a existir. d) aparecer, sair.
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10. IFTO 2020 Marque a sequência correta quanto à classificação dos verbos destacados na frase abaixo. Perceber que há um sentido na vida é oito vezes mais capaz de trazer satisfação do que ganhar um bom salário. (KING e NAPA, 1998, pág. 199)
a) regular, anômalo, defectivo b) anômalo, regular, irregular c) regular, irregular, anômalo
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Capítulo 14
d) defectivo, anômalo, regular e) defectivo, irregular, anômalo
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11. Unesp 2021 Para responder à questão, leia a crônica “A obra-prima”, de Lima Barreto, publicada na revista Careta em 25.09.1915. Marco Aurélio de Jesus, dono de um grande talento e senhor de um sólido saber, resolveu certa vez escrever uma obra sobre filologia. Seria, certo, a obra-prima ansiosamente esperada e que daria ao espírito inculto dos brasileiros as noções exatas da língua portuguesa. Trabalhou durante três anos, com esforço e sabiamente. Tinha preparado o seu livro que viria trazer à confusão, à dificuldade de hoje, o saber de amanhã. Era uma obra-prima pelas generalizações e pelos exemplos. A quem dedicá-la? Como dedicá-la? E o prefácio? E Marco Aurélio resolve meditar. Ao fim de igual tempo havia resolvido o difícil problema. A obra seria, segundo o velho hábito, precedida de “duas palavras ao leitor” e levaria, como demonstração de sua submissão intelectual, uma dedicatória. Mas “duas palavras”, quando seriam centenas as que escreveria? Não. E Marco Aurélio contou as “duas palavras” uma a uma. Eram duzentas e uma e, em um lance único, genial, destacou em relevo, ao alto da página “duzentas e uma palavras ao leitor”. E a dedicatória? A dedicatória, como todas as dedicatórias, seria a “pálida homenagem” de seu talento ao espírito amigo que lhe ensinara a pensar… Mas “pálida homenagem”… Professor, autor de um livro de filologia, cair na vulgaridade da expressão comum: “pálida homenagem”? Não. E pensou. E de sua grave meditação, de seu profundo pensamento, saiu a frase límpida, a grande frase que definia a sua ideia da expressão e, num gesto, sulcou o alto da página de oferta com a frase sublime: “lívida homenagem do autor”… Está aí como um grande gramático faz uma obra-prima. Leiam-na e verão como a coisa é bela.
Dificilmente algo que não demandou suor e empenho gerará prazer igual à conquista de algo que nos deixou diversas noites sem dormir. Portanto, busque ver nas barreiras impostas pela vida algo que lhe fortalecerá e transformará a realização de seus sonhos em algo ainda mais especial. Olhar para trás e enxergar uma trajetória aberta em meio às dificuldades faz da sua conquista algo admirável e prazeroso. Os medíocres, aqueles que fazem apenas o que é comum e corriqueiro, têm imensa dificuldade em enxergar que por trás de toda dificuldade há uma oportunidade única. Portanto, encare as barreiras da vida com bom ânimo e determinação. São elas que fazem com que objetivos maiores sejam alcançados apenas por aqueles que têm disposição e energia para enfrentar o caminho das pedras. São elas que fazem aflorar os verdadeiros campeões. Tenha confiança e siga em frente. Faça valer a sua determinação, acima de todos os medos e dúvidas que tentam assombrá-lo. Roberto Shinyashiki
Nesse texto, Roberto Shinyashiki empregou as formas verbais “busque”, “encare”, “Tenha” e “Faça” com o intuito de: a) enfatizar os aspectos emocionais da linguagem. b) transmitir a mensagem de modo objetivo sem admitir mais de uma interpretação. c) manifestar sua preocupação com o leitor no que se refere ao conteúdo motivacional. d) atrair a atenção do leitor e influenciá-lo a receber a mensagem.
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13. Enem 2018
(Sátiras e outras subversões, 2016.)
O cronista narra uma série de fatos ocorridos no passado. Um fato anterior a esse tempo passado está indicado pela forma verbal sublinhada em a) “Eram duzentas e uma e, em um lance único, genial, destacou em relevo, ao alto da página ‘duzentas e uma palavras ao leitor’.” (6o parágrafo) b) “A obra seria, segundo o velho hábito, precedida de ‘duas palavras ao leitor’ e levaria, como demonstração de sua submissão intelectual, uma dedicatória.” (5o parágrafo) c) “A dedicatória, como todas as dedicatórias, seria a ‘pálida homenagem’ de seu talento ao espírito amigo que lhe ensinara a pensar...” (7o parágrafo) d) “E Marco Aurélio resolve meditar.” (4o parágrafo) e) “Leiam-na e verão como a coisa é bela.” (9o parágrafo)
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vencer vários tipos de obstáculos que a vida nos impõe. Barreiras como falta de dinheiro, falta de tempo, excesso de estresse, entre outras dificuldades que põem à prova a nossa força de vontade e nos fazem dar ainda mais valor às nossas conquistas.
Disponível em: www.sul21.com.br. Acesso em: 1 dez. 2017 (adaptado).
FRENTE 1
12. Facape-PE 2023 Para realizar nossas metas precisamos
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Nesse texto, busca-se convencer o leitor a mudar seu comportamento por meio da associação de verbos no modo imperativo à a) indicação de diversos canais de atendimento. b) divulgação do Centro de Defesa da Mulher. c) informação sobre a duração da campanha. d) apresentação dos diversos apoiadores. e) utilização da imagem das três mulheres.
Fitou tranquilo o que tinha sido sua casa e era um amontoado de caliça e tijolo, a ser removido. Em breve restaria o lote, à espera de outra casa maior, sem sinal dele e dos seus, mas destinada a concentrar outras vivências. Uma ordem, um estatuto pairava sobre os destroços, e tudo era como devia ser, sem ilusão de permanência. Fonte: ANDRADE, Carlos Drummond de. Cadeira de balanço. 12. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1979.
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14. EsPCEx-SP 2022
Assiste à demolição — Morou mais de vinte anos nesta casa? Então vai sentir “uma coisa” quando ela for demolida. Começou a demolição. Passando pela rua, ele viu a casa já sem telhado, e operários, na poeira, removendo caibros. Aquele telhado que lhe dera tanto trabalho por causa das goteiras, tapadas aqui, reaparecendo ali. Seu quarto de dormir estava exposto ao céu, no calor da manhã. Ao fundo, no terraço, tinham desaparecido as colunas da pérgula, e a cobertura de ramos de buganvília – dois troncos subindo do pátio lá embaixo e enchendo de florinhas vermelhas o chão de ladrilho, onde gatos da vizinhança amavam fazer sesta e surpreender tico-ticos. Passou nos dias seguintes e viu o progressivo desfazer-se das paredes, que escancarava a casa de frente e de flancos jogando-a por assim dizer na rua. Os marcos das portas apareciam emoldurando o vazio. O azul e as nuvens circulavam pelos cômodos, em composição surrealista. E o pequeno balcão da fachada, cercado de ar, parecia um mirante espacial, baixado ao nível dos míopes. A demolição prosseguiu à noite, espontaneamente. Um lanço de parede desabou sozinho, para fora do tapume, quando já cessara na rua o movimento dos lotações. Caiu discreto, sem ferir ninguém, apenas avariando – desculpem – a rede telefônica. A casa encolhera-se, em processo involutivo. Já agora de um só pavimento, sem teto, aspirava mesmo à desintegração. Chegou a vez da pequena sala de estar, da sala de jantar com seu lambri envernizado a preto, que ele passara meses raspando a poder de gilete, para recuperar a cor da madeira. E a vez do escritório, parte pensante e sentinte de seu mecanismo individual, do eu mais íntimo e simultaneamente mais público, eu de gavetas sigilosas, manuseadas por um profissional da escrita. De todo o tempo que vivera na casa, fora ali que passara o maior número de horas, sentado, meio corcunda, desligado de acontecimentos, ouvindo, sem escutar, rumores que chegavam de outro mundo – cantoria de bêbados, motor de avião, chorinho de bebê, galo na madrugada. E não sentiu dor vendo esfarinharem-se esses compartimentos de sua história pessoal. Nem sequer a melancolia do desvanecimento das coisas físicas. Elas tinham durado, cumprido a tarefa. Chega o instante em que compreendemos a demolição como um resgate de formas cansadas, sentença de liberdade. Talvez sejamos levados a essa compreensão pelo trabalho similar, mais surdo, que se vai desenvolvendo em nós. E não é preciso imaginar a alegria de formas novas, mais claras, a surgirem constantemente de formas caducas, para aceitar de coração sereno o fim das coisas que se ligaram à nossa vida.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
Vocabulário caibro s.m. elemento estrutural de um telhado, geralmente peças de madeira que se dispõem da cumeeira ao frechal, a intervalos regulares e paralelas umas às outras, em que se cruzam e assentam as ripas, frequentemente mais finas e compridas, e sobre as quais se apoiam e se encaixam as telhas. pérgula s.f. espécie de galeria coberta de barrotes espacejados assentados em pilares, geralmente guarnecida de trepadeiras. buganvília s.f. designação comum às plantas do gênero bougainvillea, trepadeira, muito cultivadas como ornamentais. de flanco s.m. pela lateral. marco s.m. parte fixa que guarnece o vão de portas e janelas, e onde as folhas destas se encaixam, prendendo-se por meio de dobradiças. tapume s.m. cerca ou vala guarnecida de sebe que defende uma área; anteparo, geralmente de madeira, com que se veda a entrada numa área, numa construção. lambri s.m. revestimento interno de parede, usado com fim decorativo ou para proteger contra frio, umidade ou barulho; feito de madeira, mármore, estuque, numa só peça ou composto por painéis, que vão até certa altura ou do chão ao teto (mais usado no plural). caliça s.f. conjunto de resíduos de uma obra de alvenaria demolida ou em desmoronamento, formado por pó ou fragmentos dos materiais diversos do reboco (cal, argamassa ressequida) e de pedras, tijolos desfeitos. lote s.m. porção de terra autônoma que resulta de loteamento ou desmembramento; terreno de pequenas dimensões, urbano ou rural, que se destina a construções ou à pequena agricultura Fonte: HOUAISS, A. e Villar, M. de S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Elaborado no Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro. Objetiva, 2009.
Marque a alternativa em que a forma verbal substitui corretamente a locução verbal sublinhada na seguinte oração: “Ao fundo, no terreno, tinham desaparecido as colunas da pérgula…”. a) havia desaparecido b) havia desaparecidas c) haviam desaparecidas d) haviam desaparecido e) haviam desaparecidos
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15. ITA-SP 2018 a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer a barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra [cabeça aparecer os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que [agora é pra valer
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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(ANTUNES, A. Envelhecer. Álbum Ao vivo lá em casa. 2010.)
Rita Pavone: cantora italiana de grande sucesso na década de 1960.
O emprego recorrente do verbo querer, no texto, revela a) inconformismo diante do processo de envelhecimento. b) medo de se tornar inútil quando a velhice chegar. c) anseio por uma vida plena de coisas boas. d) crença na ideia de que querer é poder. e) boa receptividade para a chegada da velhice.
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16. UPE 2017
Capa da Revista Time, edição de 20/05/13. Disponível em: http//time. com/247/millennials-the-me-me-me-generation. Acesso em: 03/06/17.
Geração “me me me” Eles são narcisistas e possuem uma autoconfiança invejável. Os que pertencem às gerações anteriores costumam dizer que são preguiçosos, mimados e até mesmo egoístas. Eles não largam o celular e costumam expor suas vidas, opiniões e sentimentos nas redes sociais. Estão conectados 24 horas por dia, 7 dias por semana. Eles, definitivamente, assustam as gerações que os antecedem; fazem parte de uma geração incompreendida. Mas afinal, quem são eles? Estamos falando daqueles que nasceram entre 1980 e 2000 e fazem parte da geração Y, ou da “Millennial Generation”. Uma geração polêmica, que se tornou foco de grandes estudos e pesquisas ao redor do mundo. Uma pesquisa do National Institutes of Health apontou que a presença do narcisismo entre jovens da geração Y é três vezes maior, se comparada com a da geração que hoje tem 65 anos ou mais. 58% dos respondentes foram classificados com nível “alto” de narcisismo. Veja, abaixo, os resultados de algumas perguntas que compuseram o questionário: – 40% dos jovens entrevistados afirmaram que esperam ser promovidos no trabalho, independente de seu desempenho; – 60% deles acreditam possuir opiniões corretas e estão certos de sua posição. São extremamente autoconfiantes; – o percentual de jovens entre 18 e 29 que vive com os pais é superior, se comparado a outras gerações. Eles saem mais tarde de casa; – em 1982, 80% dos jovens com menos de 23 anos estavam interessados em assumir cargos profissionais de grande responsabilidade. Em pesquisa realizada em 2002, esse percentual caiu para 60%. Devido à globalização, à internet e, principalmente, às redes sociais, os jovens pertencentes à geração Y acabaram assumindo um perfil único, que independe de seu local de origem. Pelo egocentrismo que marca essa geração, eles também foram classificados como “Me, Me, Me Generation”, expressão que dá a ideia perfeita da supervalorização do ego. Esse grau extremo de autoconfiança torna-se um desafio para pais e educadores. Ao incentivar a autoestima do jovem, é importante que não se estimule, por acidente, o narcisismo. Há diferentes maneiras de trabalhar a autoconfiança. O jovem deve entender que não é detentor de toda a verdade; também precisa ser questionado, e não apenas elogiado. É preciso impor limites. O professor americano David McCullough Jr. ficou famoso pelo discurso que preparou à sua turma de alunos do ensino médio. Durante a cerimônia de formatura, ele fez questão de ressaltar aos jovens ali presentes que eles não eram especiais, e ainda destacou que crianças mimadas podem resultar em adultos fracassados. O discurso foi filmado e, ao ir para o Youtube, teve mais de 2 milhões de views. O discurso de McCullough virou fonte de inspiração para pais e educadores, e o professor – que do dia para a noite ganhou imensa popularidade – afirma que não menosprezava seus jovens alunos, mas julgava necessário alertá-los. “Em 26 anos ensinando adolescentes, pude
FRENTE 1
os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer eu quero é viver pra ver qual é e dizer venha pra o que vai acontecer eu quero que o tapete voe / no meio da sala de estar eu quero que a panela de pressão pressione e que a pia comece a pingar eu quero que a sirene soe e me faça levantar do sofá eu quero pôr Rita Pavone no ringtone do meu celular eu quero estar no meio do ciclone pra poder aproveitar e quando eu esquecer meu próprio nome que me chamem de velho gagá pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não [para de crescer não sei por que essa gente vira a cara pro presente e [esquece de aprender que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr.
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ver como eles crescem cercados por adultos que os tratam como preciosidades”. Dizer aos jovens que eles não são tão especiais quanto acreditam ser não deve ser visto como uma forma de menosprezo ou desestímulo à autoestima e autoconfiança, mas, sim, como uma atitude fundamental, que visa despertar o questionamento e a percepção do jovem, levando-o para além de seu universo particular (e sempre tão protegido). O mundo desafia e, por isso, é tão importante manter os pés no chão e evitar construções irrealistas do nosso próprio “eu”. Publicado em: 07/08/2013, por Carolina Prestes Yirula. Disponível em: https://cadernodia.wordpress.com/2013/08/07/geracao-me-me-me. Acesso em: 03/06/2017. Adaptado.
No que se refere ao emprego de algumas formas verbais, assinale a alternativa CORRETA. a) No trecho “Os que pertencem às gerações anteriores costumam dizer que são preguiçosos, mimados e até mesmo egoístas.” (1o parágrafo), a forma verbal destacada indica alta frequência da ação expressa no verbo “dizer”. b) No trecho “58% dos respondentes foram classificados com nível “alto” de narcisismo.” (4o parágrafo), o emprego da locução destacada indica que a ação de “classificar” ainda está em curso, no momento presente. c) No trecho “os jovens pertencentes à geração Y acabaram assumindo um perfil único” (5o parágrafo), a forma verbal destacada indica a efemeridade da ação expressa em “assumir”. d) Com a forma verbal destacada no trecho: “O jovem deve entender que não é detentor de toda a verdade” (6o parágrafo), a autora pretendeu expressar que a ação de “entender” é uma probabilidade. e) Ao empregar a forma verbal destacada no trecho “e ainda destacou que crianças mimadas podem resultar em adultos fracassados.” (7o parágrafo), a autora pretendeu expressar obrigatoriedade da ação de “resultar”.
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17. Uece 2016
Duelo antes da noite No caminho a menina pegou uma pedra e atirou-a longe, o mais que pôde. O menino puxava a sua mão e reclamava da vagareza da menina. Deviam chegar até a baixa noite a Encantado, e o menino sabia que ele era responsável pela menina e deveria manter uma disciplina. Que garota chata, ele pensou. Se eu fosse Deus, não teria criado as garotas, seria tudo homem igual a Deus. A menina sentia-se puxada, reclamada, e por isso emitia uns sons de ódio: graças a Deus que eu não preciso dormir no mesmo quarto que você, graças a Deus que eu não vou morar nunca mais com você. Vamos e não resmunga, exclamou o menino. E o sol já não estava sumindo? Isso nenhum dos dois perguntava porque estavam absortos na raiva de cada um. A estrada era de terra e por ela poucos passavam. Nem o menino nem a menina notavam que
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
o sol começava a se pôr e que os verdes dos matos se enchiam cada vez mais de sombras. Quando chegassem a Encantado o menino poria ela no Opala do prefeito e ela nunca mais apareceria. Ele não gosta de mim, pensou a menina cheia de gana. Ele deve estar pensando: o mundo deveria ser feito só de homens, as meninas são umas chatas. O menino cuspiu na areia seca. A menina pisou sobre a saliva dele e fez assim com o pé para apagar o cuspe. Até que ficou evidente a noite. E o menino disse a gente não vai parar até chegar em Encantado, agora eu proíbo que você olhe pros lados, que se atrase. A menina não queria chorar e prendia-se por dentro porque deixar arrebentar uma lágrima numa hora dessas é mostrar muita fraqueza, é mostrar-se muito menina. E na curva da estrada começaram a aparecer muitos caminhões apinhados de soldados e a menina não se conteve de curiosidade. Para onde vão esses soldados? — ela balbuciou. O menino respondeu ríspido. Agora é hora apenas de caminhar, de não fazer perguntas, caminha! A menina pensou eu vou parar, fingir que torci o pé, eu vou parar. E parou. O menino sacudiu-a pelos ombros até deixá-la numa vertigem escura. Depois que a sua visão voltou a adquirir o lugar de tudo, ela explodiu chamando-o de covarde. Os soldados continuavam a passar em caminhões paquidérmicos. E ela não chorava, apenas um único soluço seco. O menino gritou então que ela era uma chata, que ele a deixaria sozinha na estrada que estava de saco cheio de cuidar de um traste igual a ela, que se ela não soubesse o que significa traste, que pode ter certeza que é um negócio muito ruim. A menina fez uma careta e tremeu de fúria. Você é o culpado de tudo isso, a menina gritou. Você é o único culpado de tudo isso. Os soldados continuavam a passar. Começou a cair o frio e a menina tiritou balançando os cabelos molhados, mas o menino dizia se você parar eu te deixo na beira da estrada, no meio do caminho, você não é nada minha, não é minha irmã, não é minha vizinha, não é nada. E Encantado era ainda a alguns lerdos quilômetros. A menina sentiu que seria bom se o encantado chegasse logo para se ver livre do menino. Entraria no Opala e não olharia uma única vez pra trás para se despedir daquele chato. Encantado apareceu e tudo foi como o combinado. Doze e meia da noite e o Opala esperava a menina parado na frente da igreja. Os dois se aproximaram do Opala tão devagarinho que nem pareciam crianças. O motorista bigodudo abriu a porta traseira e falou: pode entrar, senhorita. Senhorita... o menino repetia para ele mesmo. A menina se sentou no banco traseiro. Quando o carro começou a andar, ela falou bem baixinho: eu acho que vou virar a cabeça e olhar pra ele com uma cara de nojo, vou sim, vou olhar. E olhou. Mas o menino sorria. E a menina não resistiu e sorriu também. E os dois sentiram o mesmo nó no peito.
Leia com atenção o trecho transcrito a seguir: No caminho a menina pegou uma pedra e atirou-a longe, o mais que pôde. O menino puxava a sua mão e reclamava da vagareza da menina. Deviam chegar até a baixa noite a Encantado, e o menino sabia que ele era responsável pela menina e deveria manter uma disciplina. Que garota chata, ele pensou. (linhas 1-6)
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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Atente ao que se diz sobre os verbos desse excerto. I. O pretérito imperfeito (do indicativo), empregado no texto, em vez de reportar-se ao passado, parece neutralizar o valor desse passado, dando a impressão de que as ações se realizam ou pelo menos se estendem ao momento da fala. II. Os verbos no pretérito perfeito do indicativo indicam que a ação ou as ações que estão sendo narradas aconteceram antes do momento em que fala o enunciador (narrador). Não é por acaso que os contos tradicionais são narrados nesse tempo verbal. III. O verbo “dever”, que exprime obrigação, usado como auxiliar em uma locução verbal, tem o papel de modalizar o enunciado em que aparece (isto é, mostrar a relação do falante com o conteúdo daquilo que expressa). No enunciado em análise, o verbo “dever” aparece duas vezes como auxiliar nas seguintes locuções verbais: “deviam chegar” e “deveria manter”. A primeira, em virtude de “dever” estar no presente do indicativo, causa impressão de que o enunciador assume como certo o que diz o enunciado (sem dúvida eles devem “chegar até a baixa noite a Encantado”). Já a segunda, em virtude de o verbo “dever” vir no futuro do pretérito, produz a impressão de que o enunciador assume com reservas o conteúdo do seu enunciado. Está correto o que se diz em a) I, II e III. b) I e II apenas. c) I e III apenas. d) II e III apenas.
Não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar E sim sobre cada momento, sorriso a se compartilhar Também não é sobre correr contra o tempo pra ter [sempre mais Porque quando menos se espera, a vida já ficou pra trás Segura teu filho no colo Sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui Que a vida é trem-bala, parceiro E a gente é só passageiro prestes a partir Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá Segura teu filho no colo Sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui Que a vida é trem-bala, parceiro E a gente é só passageiro prestes a partir Disponível em: . Acesso em: 8 out. 2018.
No fragmento “É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz”, de acordo com a desinência verbal, podemos afirmar que os verbos cantar, poder e escutar estão: a) Na forma nominal do verbo no gerúndio. b) Na forma nominal do verbo no particípio. c) Na forma nominal do verbo no modo imperativo afirmativo. d) Na forma nominal do verbo no modo imperativo negativo. e) Na forma nominal do verbo no infinitivo.
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18. IFTO 2019 Leia o texto musical “Trem-bala”, de Ana Vilela, e responda à questão.
Trem-bala Ana Vilela
Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós É saber se sentir infinito Num universo tão vasto e bonito, é saber sonhar Então fazer valer a pena Cada verso daquele poema sobre acreditar Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu É sobre ser abrigo e também ter morada em outros [corações E assim ter amigos contigo em todas as situações A gente não pode ter tudo Qual seria a graça do mundo se fosse assim? Por isso eu prefiro sorrisos E os presentes que a vida trouxe pra perto de mim
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20. Fuvest-SP 2021
Romance LIII ou Das Palavras Aéreas Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! Ai, palavras, ai, palavras, sois de vento, ides no vento, 5 no vento que não retorna, e, em tão rápida existência, tudo se forma e transforma!
FRENTE 1
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19. Ufam 2018 Assinale a alternativa em que a forma verbal grifada NÃO se encontra corretamente conjugada: a) A humanidade pode se dar por feliz, porque, mesmo após duas sangrentas guerras, reouve o seu cabedal cultural e científico. b) As primitivas tribos humanas poderiam viver em harmonia; no entanto, se desavieram até a extinção de “muitas delas. c) As técnicas agrícolas e pecuárias proveem as necessidades humanas na atualidade; o problema da fome se encontra, portanto, em outra esfera. d) Em torno de 1850, Karl Marx interviu decisivamente na economia, predizendo a ocorrência de um conflito entre proletariado e capitalistas. e) Quando eu vir as coisas melhorarem na política, anunciarei a todos a grande e surpreendente novidade.
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Sois de vento, ides no vento, e quedais, com sorte nova! [...]
pequeno para ser homem, forte para ser criança. Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade.
10 Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! Perdão podíeis ter sido! — sois madeira que se corta, — sois vinte degraus de escada, 15 — sois um pedaço de corda... — sois povo pelas janelas, cortejo, bandeiras, tropa...
Amo e canto com ternura 30 todo o errado da minha terra. Becos da minha terra, discriminados e humildes, lembrando passadas eras...
Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! 20 Éreis um sopro na aragem... — sois um homem que se enforca! Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência.
Ao substituir a pessoa verbal utilizada para se referir ao substantivo “palavras” pela 3a pessoa do plural, os verbos dos versos “sois de vento, ides no vento,” (v. 4) / “Perdão podíeis ter sido!” (v. 12)! / “Éreis um sopro na aragem...” (v. 20) seriam conjugados conforme apresentado na alternativa: a) são, vão, podiam, eram. b) seriam, iriam, podiam, serão. c) eram, foram, poderiam, seriam. d) são, vão, poderiam, eram. e) eram, iriam, podiam, seriam.
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21. IME-RJ 2019
Becos de Goiás Beco da minha terra... Amo tua paisagem triste, ausente e suja. Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa. Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. 5 E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia, e semeia polmes dourados no teu lixo pobre, calçando de ouro a sandália velha, jogada no teu monturo. Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, 10 descendo de quintais escusos sem pressa, e se sumindo depressa na brecha de um velho cano. Amo a avenca delicada que renasce na frincha de teus muros empenados, 15 e a plantinha desvalida, de caule mole que se defende, viceja e floresce no agasalho de tua sombra úmida e calada. Amo esses burros-de-lenha que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros, 20 secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados. Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra, no range-range das cangalhas. E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja. Sem infância, sem idade. 25 Franzino, maltrapilho,
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
Beco do Cisco. 35 Beco do Cotovelo. Beco do Antônio Gomes. Beco das Taquaras. Beco do Seminário. Bequinho da Escola. 40 Beco do Ouro Fino. Beco da Cachoeira Grande. Beco da Calabrote. Beco do Mingu. Beco da Vila Rica... 45 Conto a estória dos becos, dos becos da minha terra, suspeitos... mal afamados onde família de conceito não passava. “Lugar de gentinha” – diziam, virando a cara. 50 De gente do pote d’água. De gente de pé no chão. Becos de mulher perdida. Becos de mulheres da vida. Renegadas, confinadas 55 na sombra triste do beco. Quarto de porta e janela. Prostituta anemiada, solitária, hética, engalicada, tossindo, escarrando sangue 60 na umidade suja do beco. Becos mal-assombrados. Becos de assombração... Altas horas, mortas horas... Capitão-mor – alma penada, 65 terror dos soldados, castigado nas armas. Capitão-mor, alma penada, num cavalo ferrado, chispando fogo, descendo e subindo o beco, 70 comandando o quadrado – feixe de varas... Arrastando espada, tinindo esporas... Mulher-dama. Mulheres da vida, perdidas, começavam em boas casas, depois, 75 baixavam pra o beco. Queriam alegria. Faziam bailaricos. – Baile Sifilítico – era ele assim chamado. O delegado-chefe de Polícia – brabeza – dava em cima... 80 Mandava sem dó, na peia.
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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No dia seguinte, coitadas, cabeça raspada a navalha, obrigadas a capinar o Largo do Chafariz, na frente da Cadeia.
Sobre as formas verbais destacadas no trecho, é correto afirmar que evidenciam acontecimentos a) acabados em relação a um tempo impreciso. b) controversos em relação a um tempo decorrido. c) pontuais em relação a um tempo determinado. d) hipotéticos em relação a um tempo longínquo.
85 Becos da minha terra... Becos de assombração. Românticos, pecaminosos... Têm poesia e têm drama. O drama da mulher da vida, antiga, 90 humilhada, malsinada. Meretriz venérea, desprezada, mesentérica, exangue. Cabeça raspada a navalha, castigada a palmatória, 95 capinando o largo, chorando. Golfando sangue.
Leia o trecho a seguir para responder às questões 23 e 24. 002447_por_f1_c14_t0004
Levantei-me com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as minhas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado. [Machado de Assis, Diálogos e Reflexões de um Relojoeiro.]
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(ÚLTIMO ATO)
23. Famema-SP 2022 Se colocarmos a forma verbal Levantei-me no plural, mantendo-se o mesmo tempo verbal e a mesma pessoa, a forma adequada será a) Levantamos-nos. b) Levantar-nos-emos. c) Levantamo-nos. d) Levantemos-nos. e) Levantemo-nos.
Um irmão vicentino comparece. Traz uma entrada grátis do São Pedro de Alcântara. 100 Uma passagem de terceira no grande coletivo de São Vicente. Uma estação permanente de repouso - no aprazível São Miguel. Cai o pano.
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CORALINA, Cora. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. 21 ed. São Paulo: Global Editora, 2006.
“E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja” (verso 23) O modo em que se encontra o verbo ser, na forma verbal acima destacada, em contraste com o modo de todas as outras formas verbais do poema, evoca a) um indício de certeza, característico do modo indicativo das formas verbais em português, pois é certo que a vida do menino é amarga. b) algo irreal, hipotético, expresso pelo modo subjuntivo, que aponta, no entanto, para um desejo, uma possibilidade, no caso, de que o menino seja resgatado daquele cotidiano que lhe rouba a infância. c) um anúncio, um sinal pertinente ao modo indicativo, de que o menino será salvo de sua realidade tão dura. d) a certeza, expressa pelo modo verbal, de que a existência do menino é atravessada pelo trabalho infantil. e) o tom imperativo da voz poética que está presente não apenas nesse verso, mas ao longo de todo o poema.
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22. UFU-MG 2022 [...] Fazia anos que ele partira para outro país e, de repente, pondo fim a seu exílio, regressara. Regressara e, inesperadamente, estava diante dela. A noite, até então comum, começava a se alterar – porque só de ver aquela mulher que, tempos antes, movera a sua usina de desejos, a noite já ganhava outros contornos, mesmo se ela se afastasse dali e partisse da festa, sem descobrir que estivera a um passo de seu antigo amor. CARRASCOZA, João Anzanello. Festa e lua. In: ___. Uns e outros. Curitiba: Cia. Bras. de Educação e Sistemas de Ensino, 2021. (Adaptado).
24. Famema-SP 2022 Assinale a opção que indica a modificação da oração reduzida de gerúndio acompanhando as ideias pregadas por Cristo para uma oração desenvolvida, de forma adequada ao texto. a) conforme acompanhava as ideias pregadas por Cristo. b) em acompanhamento das ideias pregadas por Cristo. c) já que acompanhava as ideias pregadas por Cristo. d) embora acompanhasse as ideias pregadas por Cristo. e) quando acompanho as ideias pregadas por Cristo. 002447_por_f1_c14_q0033objetiva
25. IFSul-RS 2019
Para mandar no grupo da família: um guia de como checar se uma notícia é falsa Juliana Gragnani
Você abre seu celular e recebe uma notícia encaminhada por um amigo ou parente. Ela confirma completamente suas convicções ou então causa muita surpresa ou repulsa? Segundo especialistas, este apelo às emoções mais imediatas é uma das características principais do conteúdo falso. Dá um pouco de trabalho checar a veracidade de um conteúdo, mas vale a pena incorporar alguns desses passos a seu dia a dia para que você não se transforme, inadvertidamente, em um vetor de notícias falsas. Quando receber uma notícia, tome algumas precauções e reflita: 1. Pare e pense. Não acredite na notícia ou compartilhe o texto de imediato.
FRENTE 1
a
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2. Ela lhe causou uma reação emocional muito grande? Desconfie. Notícias inventadas são feitas para causar, em alguns casos, grande surpresa ou repulsa. 3. A notícia simplesmente confirma alguma convicção de quem recebeu a mensagem? Também é uma técnica da notícia inventada. Não quer dizer que seja verdadeira. Desenvolva o hábito de desconfiar e pesquisar. 4. A notícia está pedindo para você acreditar nela ou, por outro lado, ela está mostrando por que acreditar? Quando a notícia é verdadeira, é mais provável que ela cite fontes, dê links ou cite documentos oficiais e seja transparente quanto a seu processo de apuração. 5. Produzir uma reportagem assim que eventos acontecem toma tempo e exige profissionais qualificados. Desconfie de notícias bombásticas no calor do momento. Adaptado de https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45043716, acesso em 02/10/2018
Os verbos podem ser classificados quanto à atitude do falante em relação à ação que enunciam. No caso do fragmento: “1) Pare e pense. Não acredite na notícia ou compartilhe o texto de imediato.”, o modo verbal está corretamente indicado em: a) Imperativo, pois expressa certeza do falante em relação ao que será feito. b) Subjuntivo, pois expressa desejo do falante em relação ao que deve ser feito. c) Subjuntivo, pois expressa possibilidade de que a ação irá ocorrer. d) Imperativo, pois expressa conselho ou pedido do falante em relação ao que deve ser feito.
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26. IFTO 2019
Disponível em: . Acesso em: 2 out. 2018.
Do ponto de vista morfológico, os verbos utilizados na propaganda estão: a) No modo subjuntivo, indicando uma possibilidade de uso dos produtos anunciados, sugerindo-os, assim, para um determinado público-alvo. b) No modo indicativo, apresentando a certeza quanto à qualidade dos produtos anunciados, induzindo, assim, a venda a seu público-alvo. c) No pretérito mais-que-perfeito, pois apresentam duas ideias ocorridas no passado, de forma simultânea. d) No presente do indicativo, mostrando que as ações transmitidas ocorrem no mesmo momento em que o texto é enunciado. e) No modo imperativo, o que se relaciona ao objetivo principal da propaganda: vender os produtos da marca “O Boticário”.
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27. Ufam/PSC 2022 Leia as frases a seguir, atentando para a conjugação do verbo destacado em negrito: I. II. III. IV. V.
Você quer mesmo que nós damos a notícia à esposa do falecido? Ele manteu os seus propósitos mesmo diante das adversidades. Espero que, mesmo com o acidente, não bloqueem as estradas. Peço outra vez: averiguem como vai estar o tempo hoje à tarde. O professor interveio na briga dos alunos e levou todos para a diretoria.
Assinale a alternativa que registra os verbos CORRETAMENTE conjugados: a) Somente nas frases IV e V. b) Somente nas frases II e III. c) Somente nas frases I, II e V. d) Somente nas frases II, IV e V. e) Somente nas frases I, III e IV.
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Capítulo 14
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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28. Ufam 2019 Leia a frase a seguir: “Nosso amigo Tenório não só criou a maior editora da cidade, como ainda trouxe, para nela trabalhar, revisores competentes de outros locais.” Transpondo os verbos em destaque para o futuro do pretérito, eles assumem, respectivamente, as seguintes formas: a) criava – trazia d) criara – trouxera b) criará – trará e) criará – trouxera c) criaria – traria
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29. Ufam 2022 Leia a frase a seguir: Quando você _______ que a resolução do problema parece difícil, não perca a calma nem se ________ com mais nada; só se ________ a tranquilidade é que achará a saída. Assinale a alternativa que preenche CORRETAMENTE as lacunas: a) ver – entreta – mantiver d) ver – entreta – manter b) ver – entretenha – manter e) vir – entretenha – mantiver c) vir – entretenha – manter
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30. Fuvest-SP 2018 Examine a propaganda.
a) Considerando o contexto da propaganda, existe alguma relação de sentido entre a imagem estilizada dos dedos e as palavras “digital” e “diferença”? Explique. b) Sem alterar o modo verbal, reescreva o trecho “Venha para a biometria. Cadastre suas digitais.”, passando os verbos para a primeira pessoa do plural e fazendo as modificações necessárias.
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31. IME-RJ 2018 Eu quero uma licença de dormir, perdão pra descansar horas a fio, sem ao menos sonhar a leve palha de um pequeno sonho.
FRENTE 1
Exausto
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Quero o que antes da vida foi o sono profundo das espécies, a graça de um estado. Semente. Muito mais que raízes. PRADO, Adelia. Exausto. Disponível em . Acesso em 31/07/17.
A respeito da forma verbal quero (versos 1 e 5), podemos afirmar que a) expressa a busca por um relacionamento do homem com o seu interior. b) revela a alegria do ser humano em ser um explorador de novas terras, novos ambientes. c) comprova um ciclo incessante de buscas por objetivos vazios por parte do ser humano, os quais só trazem cansaço e angústia. d) salienta o insaciável e sempre destrutivo relacionamento do homem com a natureza e os recursos que ela pode trazer à vida humana na Terra. e) reporta a atenção do leitor aos ciclos repetitivos do homem em busca do objetivo de ser feliz sem depender de ninguém, somente da natureza que o cerca.
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32. Uniceub-DF 2018 [...] agora, deitado sobre a grama macia do jardim rico, vestido com boa roupa, penteado e com perfume, um livro de figura ao lado, o Sem-Pernas pensava no Gringo quase morrendo, enquanto ele comia bem e vestia bem. Não só o Gringo estivera quase morrendo. Durante aqueles oito dias, os Capitães da Areia continuaram malvestidos, mal alimentados, dormindo sob a chuva no trapiche ou embaixo das pontes. Enquanto isso, o Sem-Pernas dormia em boa cama, comia boa comida, tinha até uma senhora [D. Ester] que o beijava e o chamava de filho. Se sentiu como um traidor do grupo.
[...] E se para alguém o Sem-Pernas abria exceção no seu ódio, que abrangia o mundo todo, era para as crianças que formavam os Capitães da Areia. Estes eram seus companheiros, eram iguais a ele, eram as vítimas de todos os demais, pensava o Sem-Pernas. E agora sentia que os estava abandonando, que estava passando para o outro lado. Com este pensamento se sobressaltou, sentou-se. Não, ele não os trairia. Antes de tudo estava a lei do grupo, a lei dos Capitães da Areia. Os que a traíam eram expulsos e nada de bom os esperava no mundo. E nunca nenhum a havia traído do modo como o Sem-Pernas a ia trair. Para virar menino mimado, para virar uma daquelas crianças que eram eterno motivo de galhofa para eles. Não, não os trairia. (Família. Capitães da Areia. Jorge Amado, 1937)
Leia os trechos seguintes: I. “Enquanto isso, o Sem-Pernas dormia em boa cama” II. “Se sentiu como um traidor do grupo” III. “Não só o Gringo estivera quase morrendo” Com relação aos verbos destacados, é correto afirmar que: a) o momento em que Sem-Pernas se sentiu como um traidor (ii) antecede o momento da ação de dormir (i); b) a expressão Enquanto isso (i) sinaliza o tempo simultâneo entre as ações de dormir (i) e sentir (ii); c) a ação estivera quase morrendo (iii) conclui-se em momento anterior ao da ação do verbo sentir (ii); d) a ação do verbo dormir (i) conclui-se em momento anterior ao da ação de estar quase morrendo (iii); e) a ação de sentir (ii) conclui-se simultaneamente ao final da ação de estar quase morrendo (iii).
Texto complementar
Sextar: novo verbo defectivo unipessoal
Quando se abre o Instagram, na sexta-feira, é quase impossível não se deparar com algum post que diz: ― Sextou! Tal “verbo” está se incorporando ao cotidiano, de tal modo, que já é comum aceitar-lhe o uso. Mudanças na Língua, provenientes da pressão da linguagem popular, são bem-vindas, desde que não perniciosas, artificiais e não queiram modificar o alicerce do idioma, como é o caso dessa invenção de todes. Não vejo ninguém do povo falando todes; apenas os pseudointelectuais “ativistas” “de esquerda” e outras denominações que a cada dia aparecem. De modo que parece que veio para ficar o verbo unipessoal sextar, na forma sextou, cujo uso está se ampliando para segundou, quintou, etc. Observem, porém, leitores, que o “verbo” sextar só aparece na terceira pessoa (no caso, do singular), o que nos leva a classificá-lo como defectivo unipessoal. O que que são verbos defectivos unipessoais? São um tipo de verbo defectivo que só se conjuga na terceira pessoa do singular. Defectivos são verbos que têm algum defeito. Podem ser impessoais (sem sujeito) e pessoais (têm sujeito, mas só se conjugam na terceira pessoa ou não são conjugados em algumas pessoas). Quando o verbo só admite a terceira pessoa do singular, chamamos unipessoal; é o caso de germinar, ranger e agora… sextar!. ATENÇÃO! Os verbos defectivos impessoais e unipessoais deixam de ser defectivos quando empregados em sentido figurado: Choveu bastante em João Pessoa, nesses últimos dias (sentido próprio).
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Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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Choveram reclamações no balcão daquela companhia de viagens (sentido figurado). Leito(a)r querido(a): Não vi ninguém, até agora, dizer domingou. Mas por que não fazê-lo, se existe sextou? Domingou, pessoal; vamos assistir àquele jogo e torcer bastante pelo nosso time. TRINDADE, João. Sextar: novo verbo defectivo unipessoal. Portal Correio, 17 jul. 2022. Disponível em: https://portalcorreio.com.br/colunas/sextarnovo-verbo-defectivo-unipessoal/. Acesso em: 28 out. 2023.
Veja os principais assuntos e conceitos trabalhados neste capítulo acessando a seção Resumindo no livro digital, na Plataforma Poliedro.
Quer saber mais? Filme Corra, Lola, corra. Direção: Tom Tykwer. 1999. Na trama, vemos as ações que acontecem na correria de uma mulher que precisa salvar seu namorado, prestes a ser executado. Para isso, ela tem somente 20 minutos. O filme mostra três finais possíveis para história. Livro A vida modo de usar, de George Perec. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. O livro trata de histórias inter-relacionadas de habitantes de um mesmo prédio, em Paris, e as ações das personagens geram conexões entre elas.
Site LX Conjugator. Disponível em: https://portulanclarin.net/ workbench/lx-conjugator/. Acesso em: 28 out. 2023. O site é um identificador de flexão verbal, no qual é possível conhecer a variação de um verbo em modo, tempo, número e pessoa. O material é organizado por pesquisadores da Universidade de Lisboa.
Exercícios complementares 002447_por_f1_c14_q0041discursiva
1. Unicamp-SP 2020 (Adapt.) Texto I Em Bacurau, vilarejo fictício no meio do nada que recebe o nome de um pássaro “brabo” de hábitos noturnos, o sertão é também o centro do país. Bacurau cheira a morte. A primeira sequência do longa é a passagem de um caminhão-pipa que atropela caixões pelo caminho. No povoado isolado, mas hiperconectado à internet, os moradores, com uma grande variedade de gêneros, raças e sexualidades, vivem sem água e escondem-se quando o prefeito em campanha pela reeleição chega para distribuir mantimentos vencidos, e despejar livros velhos em frente à escola local. Aí já começa a resistência: em meio à penúria, os moradores organizam-se e ajudam-se entre si. Quando o vilarejo literalmente desaparece dos mapas digitais e a comunidade perde a conexão com a internet, a presença de forasteiros coincide com o misterioso aparecimento de cadáveres crivados à bala e Bacurau vive uma carnificina. (Adaptado de Joana Oliveira, Em ‘Bacurau’, é lutar ou morrer no sertão que espelha o Brasil. El País. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/20/ cultura/1566328403_365611.html. Acessado em 20/10/2019.)
Texto II Bacuralizar verbo transitivo direto 1. autogovernar-se em comunidade, fazer a própria gestão dos recursos e serviços que deveriam ser oferecidos pelo estado, sem a ajuda de empresas ou de parcerias público-privadas. 2. entricheirar-se em suas comunidades como forma de defesa à máquina de matar do estado.
a) Explique por que o verbo “bacuralizar” é um neologismo e qual é o processo de formação dessa palavra. Por que podemos identificar que se trata de um verbo? b) Considere as informações sobre o enredo do filme Bacurau presentes no texto I e sobre o papel do Estado na vida da comunidade no texto II. A partir dessas informações, crie um exemplo do uso de “bacuralizar” para cada acepção da palavra registrada no texto II.
FRENTE 1
(Adaptado do Instagram de Lia de Itamaracá. Disponível em https://www.insta7zu.com/tag/LiaDeltamaraca. Acessado em 20/10/2019.)
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2. Unicamp-SP 2024
“Nevou” no Rio Em pleno verão, o fenômeno que vem chamando atenção nas ruas do Rio é conhecido como “nevada carioca”, ou apenas “nevou”. Trata-se da mania de descolorir, platinando os cabelos até os fios ficarem completamente brancos, que tomou conta das cabeças dos jovens de Norte a Sul e virou a febre do momento. A onda começou às vésperas do Natal, ganhou força no réveillon e entrou em janeiro lotando os salões. Nascida nas comunidades e nos subúrbios, a tendência ultrapassou fronteiras geográficas e sociais da cidade, principalmente depois de ganhar as redes e de ter conquistado artistas e atletas. Cabeleireiros e donos de salão apostam que o modismo resiste com força até os dias de folia. (Adaptado de: https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2023/01/nevou-norio-mania-de-descolorir-o-cabelo-ate-ficar-quase-branco-vira-modaentre-os-cariocas.ghtml. Acesso em 22/06/2023.)
No texto, o verbo nevar apresenta sentido a) literal e é sinônimo de descolorir. b) figurado e quer dizer embranquecer. c) metafórico e é antônimo de escurecer. d) metonímico e significa cabelos brancos
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3. UPE 2019
Importância da vacinação O ditado popular “melhor prevenir do que remediar” se aplica perfeitamente à vacinação. Muitas doenças comuns no Brasil e no mundo deixaram de ser um problema de saúde pública por causa da vacinação massiva da população. Poliomielite, sarampo, rubéola, tétano e coqueluche são só alguns exemplos de doenças comuns no passado e que as novas gerações só ouvem falar em histórias. O resultado da vacinação não se resume a evitar doença. Vacinas salvam vidas. Mas como a vacina ajuda o nosso sistema imunológico? Quando uma pessoa é infectada pela primeira vez por um antígeno (substância estranha ao organismo), como o vírus do sarampo, o sistema imunológico produz anticorpos (proteínas que atuam como defensoras no organismo) para combater aquele invasor. Mas essa produção não é feita na velocidade suficiente para prevenir a doença, uma vez que o sistema imunológico não conhece aquele invasor. Por isso, a pessoa fica doente, podendo chegar à morte. Mas se, anos depois, aquele organismo invadir o corpo novamente, o sistema imunológico vai produzir anticorpos em uma velocidade suficiente para evitar que a pessoa fique doente uma segunda vez. Essa proteção é chamada de imunidade. O que a vacina faz é gerar essa imunidade. Com os mesmos antígenos que causam a doença, mas enfraquecidos ou mortos, a vacina ensina e estimula o sistema imunológico a produzir os anticorpos que levam à imunidade. Portanto, a vacina faz as pessoas desenvolverem imunidade sem ficar doente. Doenças controladas podem voltar Muitas doenças infecciosas estão ficando raras. Pessoas nascidas a partir de 1990 podem nunca ter tido contato com pessoas com sarampo ou rubéola e, definitivamente,
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Capítulo 14
com poliomielite. Isso porque as constantes ações de vacinação foram capazes de controlar e eliminar essas doenças do Brasil. Então, não preciso vacinar meu filho contra essas doenças? Precisa sim. Essas doenças ainda fazem vítimas em outros lugares do mundo. Com a globalização, a pessoa pode passar por vários continentes em uma única semana. Se não estiver vacinada, ela pode trazer a doença para o Brasil e transmitir para alguém que não esteja imunizado. Pessoas não vacinadas, portanto, podem ser a porta de entrada de doenças que já foram eliminadas no Brasil. Disponível em: http://portalms.saude.gov.br/acoes-e-programas/ vacinacao/importancia-da-vacinacao. Acesso em: 18/07/2018. Adaptado.
No texto, podemos verificar o uso de diferentes tempos e modos verbais. Analisando os efeitos de sentido das formas verbais empregadas, é CORRETO afirmar que: a) no trecho: “Muitas doenças comuns no Brasil e no mundo deixaram de ser um problema de saúde pública por causa da vacinação massiva da população”, o pretérito perfeito e o infinitivo são empregados para indicar que uma ação ocorrida no passado ainda continua no presente. b) identificamos o emprego de uma forma verbal na voz ativa no trecho: “Quando uma pessoa é infectada pela primeira vez por um antígeno [...]”, para expressar uma ação que se passa no tempo presente. c) no trecho: “Mas se, anos depois, aquele organismo invadir o corpo novamente [...]”, o autor opta pelo emprego do modo indicativo para garantir a veracidade de sua afirmação. d) no trecho: “o sistema imunológico vai produzir anticorpos em uma velocidade suficiente [...]”, o autor opta por empregar o verbo “ir” no presente, acompanhado de forma verbal no infinitivo, para indicar uma ação futura. e) com o emprego do verbo “estar” acompanhado de uma forma no gerúndio, no trecho: “Muitas doenças infecciosas estão ficando raras.”, o autor pretendeu indicar uma ação pontual, em um momento bem definido do tempo.
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4. Unifesp 2020 Leia a crônica “Inconfiáveis cupins”, de Moacyr Scliar, para responder à questão. Havia um homem que odiava Van Gogh. Pintor desconhecido, pobre, atribuía todas suas frustrações ao artista holandês. Enquanto existirem no mundo aqueles horríveis girassóis, aquelas estrelas tumultuadas, aqueles ciprestes deformados, dizia, não poderei jamais dar vazão ao meu instinto criador. Decidiu mover uma guerra implacável, sem quartel, às telas de Van Gogh, onde quer que estivessem. Começaria pelas mais próximas, as do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Seu plano era de uma simplicidade diabólica. Não faria como outros destruidores de telas que entram num museu armados de facas e atiram-se às obras, tentando destruí-las; tais insanos não apenas não conseguem seu intento, como
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(O imaginário cotidiano, 2002.)
Enquanto existirem no mundo aqueles horríveis girassóis, aquelas estrelas tumultuadas, aqueles ciprestes deformados, dizia, não poderei jamais dar vazão ao meu instinto criador. (1o parágrafo)
Ao se transpor o trecho para o discurso indireto, os termos sublinhados assumem a seguinte redação: a) existirem, pode, meu. b) existissem, poderia, seu. c) existiam, puderem, meu. d) existem, poderei, dele. e) tenham existido, terá podido, seu.
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5. Unifesp 2019 Leia o trecho inicial do conto “A doida”, de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão. A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se. Era só aquele chalezinho, à esquerda, entre o barranco e um chão abandonado; à direita, o muro de um grande quintal. E na rua, tornada maior pelo silêncio, o burro que pastava. Rua cheia de capim, pedras soltas, num declive áspero. Onde estava o fiscal, que não mandava capiná-la? Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores. Dos doidos devemos ter piedade, porque eles não gozam dos benefícios com que nós, os sãos, fomos aquinhoados. Não explicavam bem quais fossem esses benefícios, ou explicavam demais, e restava a impressão de que eram todos privilégios de gente adulta, como fazer visitas, receber cartas, entrar para irmandades. E isso não comovia ninguém. A loucura parecia antes erro do que miséria. E os três sentiam-se inclinados a lapidar a doida, isolada e agreste no seu jardim.
Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo. Não aparecia de frente e de corpo inteiro, como as outras pessoas, conversando na calma. Só o busto, recortado numa das janelas da frente, as mãos magras, ameaçando. Os cabelos, brancos e desgrenhados. E a boca inflamada, soltando xingamentos, pragas, numa voz rouca. Eram palavras da Bíblia misturadas a termos populares, dos quais alguns pareciam escabrosos, e todos fortíssimos na sua cólera. Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de sessenta anos, e loucura e idade, juntas, lhe lavraram o corpo). Corria, com variantes, a história de que fora noiva de um fazendeiro, e o casamento uma festa estrondosa; mas na própria noite de núpcias o homem a repudiara, Deus sabe por que razão. O marido ergueu-se terrível e empurrou-a, no calor do bate-boca; ela rolou escada abaixo, foi quebrando ossos, arrebentando-se. Os dois nunca mais se veriam. Já outros contavam que o pai, não o marido, a expulsara, e esclareciam que certa manhã o velho sentira um amargo diferente no café, ele que tinha dinheiro grosso e estava custando a morrer – mas nos racontos antigos abusava-se de veneno. De qualquer modo, as pessoas grandes não contavam a história direito, e os meninos deformavam o conto. Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé do caminho do córrego, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e eclipsava-se. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, provisões e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável. Às vezes uma preta velha arriscava-se a entrar, com seu cachimbo e sua paciência educada no cativeiro, e lá ficava dois ou três meses, cozinhando. Por fim a doida enxotava-a. E, afinal, empregada nenhuma queria servi-la. Ir viver com a doida, pedir a bênção à doida, jantar em casa da doida, passaram a ser, na cidade, expressões de castigo e símbolos de irrisão. Vinte anos de uma tal existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças. E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra. A princípio, como justa penalidade. Depois, por prazer. Finalmente, e já havia muito tempo, por hábito. Como a doida respondesse sempre furiosa, criara-se na mente infantil a ideia de um equilíbrio por compensação, que afogava o remorso. Em vão os pais censuravam tal procedimento. Quando meninos, os pais daqueles três tinham feito o mesmo com relação à mesma doida, ou a outras. Pessoas sensíveis lamentavam o fato, sugeriam que se desse um jeito para internar a doida. Mas como? O hospício era longe, os parentes não se interessavam. E daí – explicava-se ao forasteiro que porventura estranhasse a situação – toda cidade tem seus doidos; quase que toda família os tem. Quando se tornam ferozes, são trancados no sótão; fora disto, circulam pacificamente pelas ruas, se querem fazê-lo, ou não, se preferem ficar em casa. E doido é quem Deus quis que ficasse doido...
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acabam na cadeia. Não, usaria um método científico, recorrendo a aliados absolutamente insuspeitados: os cupins. Deu-lhe muito trabalho, aquilo. Em primeiro lugar, era necessário treinar os cupins para que atacassem as telas de Van Gogh. Para isso, recorreu a uma técnica pavloviana. Reproduções das telas do artista, em tamanho natural, eram recobertas com uma solução açucarada. Dessa forma, os insetos aprenderam a diferenciar tais obras de outras. Mediante cruzamentos sucessivos, obteve um tipo de cupim que só queria comer Van Gogh. Para ele era repulsivo, mas para os insetos era agradável, e isso era o que importava. Conseguiu introduzir os cupins no museu e ficou à espera do que aconteceria. Sua decepção, contudo, foi enorme. Em vez de atacar as obras de arte, os cupins preferiram as vigas de sustentação do prédio, feitas de madeira absolutamente vulgar. E por isso foram detectados. O homem ficou furioso. Nem nos cupins se pode confiar, foi a sua desconsolada conclusão. É verdade que alguns insetos foram encontrados próximos a telas de Van Gogh. Mas isso não lhe serviu de consolo. Suspeitava que os sádicos cupins estivessem querendo apenas debochar dele. Cupins e Van Gogh, era tudo a mesma coisa.
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Respeitemos sua vontade. Não há remédio para loucura; nunca nenhum doido se curou, que a cidade soubesse; e a cidade sabe bastante, ao passo que livros mentem. (Contos de aprendiz, 2012.)
lapidar: apedrejar. raconto: relato, narrativa. irrisão: zombaria.
Em “Não aparecia de frente e de corpo inteiro, como as outras pessoas, conversando na calma” (3o parágrafo), o termo sublinhado é um verbo a) de ligação. b) transitivo direto e indireto. c) transitivo direto. d) intransitivo. e) transitivo indireto.
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6. Enem 2020
10 DECRETO N. 28.314, DE 28 DE SETEMBRO DE 2007 Demite o Gerúndio do Distrito Federal e dá outras providências. O GOVERNADOR DO DISTRITO FEDERAL, no uso das atribuições que lhe confere o artigo 100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA: Art. 1o Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal. Art. 2o Fica proibido, a partir desta data, o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA. Art. 3o Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. Art. 4o Revogam-se as disposições em contrário. Brasília, 28 de setembro de 2007. 119o da República e 48o de Brasília Disponível em: www.dodf.gov.br. Acesso em: 11 dez. 2017.
Esse decreto pauta-se na ideia de que o uso do gerúndio, como “desculpa de ineficiência”, indica a) conclusão de uma ação. b) realização de um evento. c) repetição de uma prática. d) continuidade de um processo. e) transferência de responsabilidade.
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7. FMABC-SP 2022 Leia a crônica “Enquanto os mineiros jogavam”, de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão. Domingo, à tarde, na forma do antigo costume, eu ia ver os bichos do Parque Municipal (cansado de lidar com gente nos outros dias da semana), quando avistei grande multidão parada na avenida Afonso Pena. Meu primeiro pensamento foi continuar no bonde; o segundo foi descer e perguntar as causas da aglomeração. Desci, e soube que toda aquela gente estava acompanhando, pelo telefone, o jogo dos mineiros na capital do país. Onze mineiros batiam bola no Rio de Janeiro; dois mil mineiros escutavam, em Belo Horizonte, o eco longínquo dessa bola e experimentavam uma patriótica emoção. Quando chegou a notícia da vitória dos nossos patrícios, depois
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
de encerrado o expediente, isto é, depois de terminado o segundo tempo, vi, claramente visto, chapéus de palha que subiam para o ar e não voltavam, adjetivos que se chocavam no espaço com explosões inglesas de entusiasmo, botões que se desprendiam dos paletós, lenços que palpitavam como asas, enquanto gargantas enrouqueciam e outras perdiam o dom humano da palavra. Vi tudo isso e tive, não sei se inveja, se admiração ou se espanto pelos valentes chutadores de Minas, que surraram por 4 a 3 os bravos futebolistas fluminenses. Não posso atinar bem como uma bola, jogada à distância, alcance tanta repercussão no centro de Minas. Que um indivíduo se eletrize diante da bola e do jogador, quando este joga bem, é coisa de fácil compreensão. Mas contemplar, pelo fio, a parábola que a esfera de couro traça no ar, o golpe do center-half investindo contra o zagueiro, a pegada soberba deste, e extasiar-se diante desses feitos, eis o que excede de muito a minha imaginação. Para mim, o melhor jogador do mundo, chutando fora do meu campo de visão, deixa-me frio e silencioso. Os meus patrícios, porém, rasgaram-se anteontem de gozo, imaginando os tiros de Nariz, e sentiram na espinha o frio clássico da emoção, quando o telefone anunciou que Carlos Brant, machucando-se no joelho, deixara o combate. Alguns pensaram em comprar iodo para o herói e outros gritavam para Carazzo que não chutasse fora. A centenas de quilômetros, eles assistiam ao jogo sem pagar entrada. E havia quem reclamasse contra o juiz, acusando-o de venal. Um sujeito puxou-me pelo paletó, indignado, e declarou-me: “O senhor está vendo que pouca-vergonha. Aquela penalidade de Evaristo não foi marcada.” Eu olhei para os lados, à procura de Evaristo e da penalidade; vi apenas a multidão de cabeças e de entusiasmos; e fugi. (Carlos Drummond de Andrade. Quando é dia de futebol, 2014.)
O narrador relata uma série de eventos ocorridos no passado. Um evento anterior a esse tempo passado está indicado pela forma verbal sublinhada em: a) “Onze mineiros batiam bola no Rio de Janeiro; dois mil mineiros escutavam, em Belo Horizonte, o eco longínquo dessa bola e experimentavam uma patriótica emoção.” (1o parágrafo) b) “Os meus patrícios, porém, rasgaram-se anteon tem de gozo, imaginando os tiros de Nariz, e sentiram na espinha o frio clássico da emoção, quando o telefone anunciou que Carlos Brant, machucando-se no joelho, deixara o combate.” (5o parágrafo) c) “Vi tudo isso e tive, não sei se inveja, se admiração ou se espanto pelos valentes chutadores de Minas, que surraram por 4 a 3 os bravos futebolistas fluminenses.” (2o parágrafo) d) “A centenas de quilômetros, eles assistiam ao jogo sem pagar entrada. E havia quem reclamasse contra o juiz, acusando-o de venal.” (5o parágrafo) e) “Não posso atinar bem como uma bola, jogada à distância, alcance tanta repercussão no centro de Minas. Que um indivíduo se eletrize diante da bola e do jogador, quando este joga bem, é coisa de fácil compreensão.” (3o parágrafo)
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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convés do navio o rebanho de soldados ansiosos.
A forma verbal “engarrafam” se encontra no tempo: a) presente do subjuntivo b) imperfeito do indicativo c) pretérito perfeito do indicativo d) presente do indicativo e) imperativo afirmativo
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9. Unama-PA 2015 Texto 1 [Nos poemas de Max Martins] A cada passo, giram-se os significados e despoja-se o signo dos sentidos habituais, automatizados, para que germinem outros campos semânticos. (TUPIASSÚ, Amarílis. “Max Martins”. Revista ASAS DA PALAVRA. UNAMA, 2000)
Texto 2 Rola o poema e o mundo E eu mudo. (Max Martins, “Poema”, p. 363)
Texto 3 A faca corta o pão separando o tempo em nós. (Max Martins. “Elegia em junho”, p. 365)
A faca corta o pão / separando o tempo em nós.
Nos versos acima, a palavra separando é uma forma nominal de gerúndio empregada por Max Martins para a) captar a ação dinâmica e a progressividade do discurso poético. b) expressar uma ação concluída, terminada no poema. c) revelar uma interrupção de movimento na ação verbal do poema. d) causar esvaziamento de sentido no discurso poético. Para responder às questões 10 e 11, leia a crônica “Almas penadas”, de Olavo Bilac, publicada originalmente em 1902. 002447_por_f1_c14_t0005
Outro fantasma?... é verdade: outro fantasma. Já tardava. O Rio de Janeiro não pode passar muito tempo sem o seu lobisomem. Parece que tudo aqui concorre para nos impelir ao amor do sobrenatural [...]. Agora, já se não adormecem as crianças com histórias de fadas e de almas do outro mundo. Mas, ainda há menos de cinquenta anos, este era um povo de beatos [...]. [...] Os tempos melhoraram, mas guardam ainda um pouco dessa primitiva credulidade. Inventar um fantasma é ainda um magnífico recurso para quem quer levar a bom termo qualquer grossa patifaria. As almas simples vão propagando o terror, e, sob a capa e a salvaguarda desse temor, os patifes vão rejubilando. O novo espectro que nos aparece é o de Catumbi. Começou a surgir vagamente, sem espalhafato, pelo pacato bairro – como um fantasma de grande e louvável modéstia. E tão esbatido1 passava o seu vulto na treva, tão sutilmente deslizava ao longo das casas adormecidas – que as primeiras pessoas que o viram não puderam em
consciência dizer se era duende macho ou duende fêmea. [...] O fantasma não falava – naturalmente por saber de longa data que pela boca é que morrem os peixes e os fantasmas... Também, ninguém lhe falava — não por experiência, mas por medo. Porque, enfim, pode um homem ter nascido num século de luzes e de descrenças, e ter mamado o leite do liberalismo nos estafados seios da Revolução Francesa, e não acreditar nem em Deus nem no Diabo – e, apesar disso, sentir a voz presa na garganta, quando encontra na rua, a desoras2, uma avantesma3 ... Assim, um profundo mistério cercava a existência do lobisomem de Catumbi – quando começaram de aparecer vestígios assinalados de sua passagem, não já pelas ruas, mas pelo interior das casas. Não vades agora crer que se tenham sumido, por exemplo, as hóstias consagradas da igreja de Catumbi, ou que os empregados do cemitério de S. Francisco de Paula tenham achado alguma sepultura vazia, ou que algum circunspecto pai de família, certa manhã, ao despertar, tenha dado pela falta... da própria alma. Nada disso. Os fenômenos eram outros. Desta casa sumiram-se as arandelas, daquela outra as galinhas, daquela outra as joias... E a polícia, finalmente, adquiriu a convicção de que o lobisomem, para perpétua e suprema vergonha de toda a sua classe, andava acumulando novos pecados sobre os pecados antigos, e dando-se à prática de excessos menos merecedores de exorcismos que de cadeia. Dizem as folhas4 que a polícia, competentemente munida de bentinhos5 e de revólveres, de amuletos e de sabres, assaltou anteontem o reduto do fantasma. Um jornal, dando conta da diligência, disse que o delegado achou dentro da casa sinistra – um velho pardieiro6 que fica no topo de uma ladeira íngreme – alguns objetos singulares que pareciam instrumentos “pertencentes a gatunos”. E acrescentou: “alguns morcegos esvoaçavam espavoridos, tentando apagar as velas acesas que os sitiantes7 empunhavam”. Esta nota de morcegos deve ser um chique romântico do noticiarista. No fundo da alma de todo o repórter há sempre um poeta... Vamos lá! nestes tempos, que correm, já nem há morcegos. Esses feios quirópteros, esses medonhos ratos alados, companheiros clássicos do terror noturno, já não aparecem pelo bairro civilizado de Catumbi. Os animais, que esvoaçavam espavoridos, eram sem dúvida os frangões roubados aos quintais das casas... Ai dos fantasmas! e mal dos lobisomens! o seu tempo passou. (Olavo Bilac. Melhores crônicas, 2005.)
1
esbatido: de tom pálido. a desoras: muito tarde. 3 avantesma: alma do outro mundo, fantasma, espectro. 4 folha: periódico diário, jornal. 5 bentinho: objeto de devoção contendo orações escritas. 6 pardieiro: prédio velho ou arruinado. 7 sitiante: policial. 2
FRENTE 1
8. Urca-CE 2018 Com o toque da corneta, engarrafam no
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10. Unesp 2022 Constitui exemplo de interação do cronista com o leitor o trecho a) “o lobisomem, para perpétua e suprema vergonha de toda a sua classe, andava acumulando novos pecados sobre os pecados antigos” (3o parágrafo). b) “As almas simples vão propagando o terror, e, sob a capa e a salvaguarda desse temor, os patifes vão rejubilando” (1o parágrafo). c) “Não vades agora crer que se tenham sumido, por exemplo, as hóstias consagradas da igreja de Catumbi” (3o parágrafo). d) “as primeiras pessoas que o viram não puderam em consciência dizer se era duende macho ou duende fêmea” (2o parágrafo). e) “O fantasma não falava — naturalmente por saber de longa data que pela boca é que morrem os peixes e os fantasmas” (2o parágrafo).
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11. Unesp 2022 Em “Vamos lá! nestes tempos, que correm, já nem há morcegos” (5o parágrafo), o termo sublinhado está empregado na mesma acepção do termo sublinhado em a) “ela correu um risco desnecessário”. b) “a notícia corria por toda a cidade”. c) “a manhã corria especialmente tranquila”. d) “segundo corria, ela seria facilmente eleita”. e) “um arrepio correu-lhe pela espinha”. Leia o trecho do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, para responder à próxima questão. 002447_por_f1_c14_t0006
Era assim concebida a petição: “Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se veem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo além, que dentro do nosso país os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se diariamente surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma – usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro. O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua ideia, pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua criação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer como complemento e consequência a sua emancipação idiomática. Demais, Senhores Congressistas, o tupi-guarani, língua originalíssima, aglutinante, é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos, evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais oriundas de uma difícil adaptação de uma língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal –
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Capítulo 14
controvérsias que tanto empecem o progresso da nossa cultura literária, científica e filosófica. Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida, e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade P. e E. deferimento.” (Triste fim de Policarpo Quaresma, 1991. Adaptado.)
empecer: prejudicar. P. e E.: pede e espera. 002447_por_f1_c14_q0052objetiva 002447_por_f1_c14_t0006
12. Uefs-BA 2017 controvérsias que tanto empecem o progresso da nossa cultura literária, científica e filosófica.
(4o parágrafo) No contexto em que está inserido, o termo destacado é um verbo a) transitivo direto. b) transitivo direto e indireto. c) intransitivo. d) de ligação. e) transitivo indireto.
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13. IFTO 2017 Assinale a alternativa cuja predicação dos verbos destacados está classificada de modo correto, respectivamente. I. A criança tossiu a noite inteira. II. Os funcionários permanecem satisfeitos com seus salários. III. O hóspede quebrou a maçaneta da porta do quarto. a) Intransitivo – verbo de ligação – transitivo indireto. b) Intransitivo – verbo de ligação – transitivo direto. c) Transitivo direto – verbo de ligação – transitivo indireto. d) Verbo de ligação – transitivo direto – intransitivo. e) Intransitivo – transitivo direto – transitivo indireto.
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14. Unifesp 2021 Leia o conto de Carlos Drummond de Andrade para responder à questão.
O entendimento dos contos — Agora você vai me contar uma história de amor — disse o rapaz à moça. — Quero ouvir uma história de amor em que entrem caravelas, pedras preciosas e satélites artificiais. — Pois não — respondeu a moça, que acabara de concluir o mestrado de contador de histórias, e estava com a imaginação na ponta da língua. — Era uma vez um país onde só havia água, eram águas e mais águas, e o governo como tudo mais se fazia em embarcações atracadas ou em movimento, conforme o tempo. Osmundo mantinha uma grande indústria de barcos, mas não era feliz, porque Sertória, objeto dos seus sonhos, se recusava a casar com ele. Osmundo ofereceu-lhe um belo navio embandeirado, que ela recusou. Só aceitaria uma frota de dez caravelas, para si e para seus familiares. Ora, ninguém sabia fazer caravelas, era um tipo de embarcação há muito fora de uso. Osmundo apresentou um mau produto, que Sertória não aceitou, enumerando os defeitos, a começar pelas velas latinas, que de latinas não tinham um centavo. Osmundo, desesperado, pensou
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(Contos plausíveis, 2012.)
— Agora você vai me contar uma história de amor — disse o rapaz à moça. — Quero ouvir uma história de amor em que entrem caravelas, pedras preciosas e satélites artificiais. (1o parágrafo)
Ao se transpor esse trecho para o discurso indireto, os termos sublinhados assumem, respectivamente, as seguintes formas: a) “quis” e “entravam”. b) “queria” e “entravam”. c) “quis” e “entrassem”. d) “queria” e “entrassem”. e) “quisera” e “entraram”.
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15. Enem 2014 E se a água potável acabar? O que aconteceria se a água potável do mundo acabasse? As teorias mais pessimistas dizem que a água potável deve acabar logo, em 2050. Nesse ano, ninguém mais tomará banho todo dia. Chuveiro com água só duas vezes por semana. Se alguém exceder 55 litros de consumo (metade do que a ONU recomenda), seu abastecimento será interrompido. Nos mercados, não haveria carne, pois, se não há água para você, imagine para o gado. Gastam-se 43 mil litros de água para produzir 1 kg de carne. Mas, não é só ela que faltará. A Região Centro-Oeste do Brasil, maior produtor de grãos da América Latina em 2012, não conseguiria manter a produção. Afinal, no país, a agricultura e a agropecuária são, hoje, as maiores consumidoras de água, com mais de 70% do uso. Faltariam arroz, feijão, soja, milho e outros grãos. Disponível em: http://super.abril.com.br. Acesso em: 30 jul. 2012
A língua portuguesa dispõe de vários recursos para indicar a atitude do falante em relação ao conteúdo de seu enunciado. No início do texto, o verbo “dever” contribui para expressar a) uma constatação sobre como as pessoas administram os recursos hídricos. b) a habilidade das comunidades em lidar com problemas ambientais contemporâneos. c) a capacidade humana de substituir recursos naturais renováveis. d) uma previsão trágica a respeito das fontes de água potável. e) uma situação ficcional com base na realidade ambiental brasileira.
16. PUC-Campinas 2021
A posição do artista A sociedade atribui um papel específico ao criador de arte e define sua posição na escala social, envolvendo não apenas o artista individualmente, mas também a formação de grupos de artistas. Daí sermos levados a considerar sucessivamente primeiro o aparecimento do artista na sociedade com posição e papel configurados, para em seguida relevar as condições em que se diferenciam os grupos de artistas. Houve um tempo em que se exagerou muito o aspecto coletivo da criação, concebendo-se o povo, no conjunto, como criador de arte. Por exemplo: os poemas atribuídos a Homero haviam sido, na verdade, criação do gênio coletivo da Grécia. Hoje, está superada essa noção de cunho altamente romântico, e sabemos que a obra exige necessariamente a atuação decisiva do artista criador. O que chamamos arte coletiva é a arte criada pelo indivíduo a tal ponto identificado às aspirações e valores do seu tempo que a história social parece dissolver o indivíduo, perdendo-se assim a identidade do criador. Os elementos individuais adquirem significado social na medida em que as pessoas correspondem a necessidades coletivas; e estas, agindo, permitem por sua vez que os indivíduos possam exprimir-se, encontrando repercussão no grupo. As relações entre o artista e o grupo se pautam por esta circunstância e podem ser esquematizadas do seguinte modo: em primeiro lugar, há a necessidade de um agente individual que torne a si a tarefa de criar e apresentar a obra; em segundo legar ele é ou não reconhecido como criador ou intérprete pela sociedade, e o destino da obra está ligado a essa circunstância; em terceiro lugar, ele utiliza a obra, assim mercada pela sociedade, como veículo das suas aspirações individuais mais profundas. (Adaptado de: CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2.ed., p. 29-30, 1967)
Está correto o emprego de todas as formas verbais na seguinte frase: a) Se não reaver seu antigo prestígio social, esse escritor sentir-se-á frustrado. b) Caso a escritora não se indisposse com seu público, seus livros continuariam vendendo. c) Se ele não atentar para seu público e não desdizer suas injúrias, será punido. d) A menos que ele obtenhe novo sucesso, logo o público se esquecerá de sua obra. e) Se ele não se detiver e não puser reparo em seus defeitos, não obterá sucesso.
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17. IFPE 2020
Lixo: um grave problema no mundo moderno (1) Até meados do século XIX, o lixo gerado – restos de comida, excrementos de animais e outros materiais orgânicos – reintegrava-se aos ciclos naturais e servia como adubo para a agricultura. Mas, com a industrialização e a concentração da população nas grandes cidades, o lixo foi se tornando um problema. (2) A sociedade moderna rompeu os ciclos da natureza: por um lado, extraímos mais e mais matérias-primas,
FRENTE 1
em afogar-se, o que fez sem êxito, pois desceu no fundo das águas e lá encontrou um cofre cheio de esmeraldas, topázios, rubis, diamantes e o mais que você imagina. Voltou à tona para oferecê-lo à rígida Sertória, que virou o rosto. Nada a fazer, pensou Osmundo; vou transformar-me em satélite artificial. Mas os satélites artificiais ainda não tinham sido inventados. Continuou humilde satélite de Sertória, que ultimamente passeava de uma lancha para outra, levando-o preso a um cordão de seda, com a inscrição “Amor imortal”. Acabou. — Mas que significa isso? — perguntou o moço, insatisfeito. — Não entendi nada. — Nem eu — respondeu a moça —, mas os contos devem ser contados, e não entendidos; exatamente como a vida.
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por outro, fazemos crescer montanhas de lixo. E, como todo esse rejeito não retorna ao ciclo natural, transformando-se em novas matérias-primas, pode tornar-se uma perigosa fonte de contaminação para o meio ambiente ou de doenças. (3) Recentemente, começamos a perceber que, assim como não podemos deixar o lixo acumular dentro de nossas casas, é preciso conter a geração de resíduos e dar um tratamento adequado ao lixo no nosso planeta. Para isso, será preciso conter o consumo desenfreado, que gera cada vez mais lixo, e investir em tecnologias que permitam diminuir a geração de resíduos, além da reutilização e da reciclagem dos materiais em desuso. (4) Precisamos, ainda, reformular nossa concepção a respeito do lixo. Não podemos mais encarar todo lixo como “resto inútil”, mas, sim, como algo que pode ser transformado em nova matéria-prima para retornar ao ciclo produtivo. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Lixo um grave problema no mundo moderno. Disponível em: . Acesso em: 27 out. 2019 (adaptado).
No texto, observa-se a relação da sociedade com o lixo ao longo do tempo. Para marcar essa história, o tempo verbal vai mudando conforme o assunto avança até os dias atuais. Indique a alternativa que analisa CORRETAMENTE o uso dos tempos verbais do modo indicativo destacados em cada trecho. a) No trecho “o lixo gerado [...] servia como adubo para a agricultura” (1o parágrafo), o verbo, no pretérito mais-que-perfeito, diz respeito a um passado anterior à época da industrialização. b) Em “será preciso conter o consumo desenfreado” (3o parágrafo), o futuro do presente é utilizado para indicar um comportamento que ainda deve se realizar. c) Na oração “esse rejeito não retorna ao ciclo natural” (2o parágrafo), o trecho utiliza o pretérito imperfeito para assinalar ação frequente no passado, com relação ao lixo. d) Em “A sociedade moderna rompeu os ciclos da natureza” (2o parágrafo), o verbo no presente refere-se a uma atitude que vivenciamos diariamente. e) Na frase “Não podemos mais encarar todo lixo como ‘resto inútil’” (4o parágrafo), o pretérito perfeito aponta para uma ação que já ficou no passado.
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18. AFA-SP
Gates e Jobs Quando as órbitas se cruzam Em astronomia, quando as órbitas de duas estrelas se entrecruzam por causa da interação gravitacional, tem-se um sistema binário. Historicamente, ocorrem situações análogas quando uma era é moldada pela relação e riva5 lidade de dois grandes astros orbitando: Albert Einstein e Niels Bohr na física no século XX, por exemplo, ou Thomas Jefferson e Alexander Hamilton na condução inicial do governo americano. Nos primeiros trinta anos da era do computador pessoal, a partir do final dos anos 1970, 10 o sistema estelar binário definidor foi composto por dois
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
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indivíduos de grande energia, que largaram os estudos na universidade, ambos nascidos em 1955. Bill Gates e Steve Jobs, apesar das ambições no ponto de convergência da tecnologia e dos negócios, tinham origens bastante diferentes e personalidades radicalmente distintas. À diferença de Jobs, Gates entendia de programação e tinha uma mente mais prática, mais disciplinada e com grande capacidade de raciocínio analítico. Jobs era mais intuitivo, romântico, e dotado de mais instinto para tornar a tecnologia usável, o design agradável e as interfaces amigáveis. Com sua mania de perfeição, era extremamente exigente, além de administrar com carisma e intensidade indiscriminada. Gates era mais metódico; as reuniões para exame dos produtos tinham horário rígido, e ele chegava ao cerne das questões com uma habilidade ímpar. Jobs encarava as pessoas com uma intensidade cáustica e ardente; Gates às vezes não conseguia fazer contato visual, mas era essencialmente bondoso. “Cada qual se achava mais inteligente do que o outro, mas Steve em geral tratava Bill como alguém levemente inferior, sobretudo em questões de gosto e estilo”, diz Andy Hertzfeld. “Bill menosprezava Steve porque ele não sabia de fato programar.” Desde o começo da relação, Gates ficou fascinado por Jobs e com uma ligeira inveja de seu efeito hipnótico sobre as pessoas. Mas também o considerava “essencialmente esquisito” e “estranhamente falho como ser humano”, e se sentia desconcertado com a grosseria de Jobs e sua tendência a funcionar “ora no modo de dizer que você era um merda, ora no de tentar seduzi-lo”. Jobs, por sua vez, via em Gates uma estreiteza enervante. Suas diferenças de temperamento e personalidade iriam levá-los para lados opostos da linha fundamental de divisão na era digital. Jobs era um perfeccionista que adorava estar no controle e se comprazia com sua índole intransigente de artista; ele e a Apple se tornaram exemplos de uma estratégia digital que integrava solidamente o hardware, o software e o conteúdo numa unidade indissociável. Gates era um analista inteligente, calculista e pragmático dos negócios e da tecnologia; dispunha-se a licenciar o software e o sistema operacional da Microsoft para um grande número de fabricantes. Depois de trinta anos, Gates desenvolveu um respeito relutante por Jobs. “De fato, ele nunca entendeu muito de tecnologia, mas tinha um instinto espantoso para saber o que funciona”, disse. Mas Jobs nunca retribuiu valorizando devidamente os pontos fortes de Gates. “Basicamente Bill é pouco imaginativo e nunca inventou nada, e é por isso que acho que ele se sente mais à vontade agora na filantropia do que na tecnologia”, disse Jobs, com pouca justiça. “Ele só pilhava despudoradamente as ideias dos outros.” (ISAACSON, Walter. Steve Jobs: a biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 189-191. Adaptado).
Em relação ao texto, assinale a alternativa correta. a) O uso do presente do indicativo no subtítulo do texto se justifica por ser um presente histórico que exprime um fato passado como se fosse atual. b) Há no texto a predominância do pretérito imperfeito do indicativo para destacar a duração do fato passado expresso.
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c) O futuro do pretérito, na linha 44, expressa incerteza a respeito de um fato já ocorrido por meio de um tempo composto. d) A reescrita “Suas diferenças de temperamento e personalidade levá-los-iam para lados opostos” (l. 43-44) atende à norma-padrão da língua.
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19. IFTO 2017 Assinale a alternativa em que a forma verbal substitui corretamente o “gerundismo” cometido pelo personagem do segundo quadrinho na tirinha a seguir:
Disponível em: tocadocuty.wordpress.com. Acesso em: 31 out. 2016.
a) Lê, aprendes, superas-me. b) Leio, aprendo, supero-me. c) Lia, aprendia, superava-me.
d) Leria, aprenderia, superaria-me. e) Lerei, aprenderei, superarei-me.
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20. Ufam 2017 Assinale a alternativa em que a correspondência entre o imperativo afirmativo e o imperativo negativo está INCORRETA: a) Pula a cerca para encurtar caminho até a entrada da fazenda. − Não pule a cerca para encurtar caminho até a entrada da fazenda. b) Usai sempre um agasalho durante a noite, pois faz frio. − Não useis agasalhos durante a noite, pois não faz frio. c) Não vou demorar. Espera-me para o jantar. – Vou demorar. Não me esperes para o jantar. d) Crê no sobrenatural, pois ele existe. − Não creias no sobrenatural, pois ele não existe. e) Louve os políticos, mas somente os que forem confiáveis. − Não louve os políticos, porque eles não são confiáveis. 002447_por_f1_c14_q0061discursiva
21. Fuvest-SP 2017 Leia este texto, publicado em 1905. Por toda parte, a verbiagem, oca, inútil e vã, a retórica [...] pomposa, a erudição míope, o aparato de sabedoria resumem toda a elaboração intelectual. [...] Aceitam-se e proclamam-se os mais altos representantes da intelectualidade: os retóricos inveterados, cuja palavra abundante e preciosa impõe-se como sinal de gênio, embora não se encontrem nos seus longos discursos e muitos volumes nem uma ideia original, nem uma só observação própria. E disto ninguém se escandaliza; o escândalo viria se houvera originalidade. Manoel Bomfim, A América Latina: males de origem. Adaptado.
verbiagem: falatório longo mas com pouco sentido ou utilidade; verborragia.
a) O sentido que se atribui, no texto, à palavra “retórica” é o de “arte da eloquência, arte de bem argumentar; arte da palavra” (Houaiss)? Justifique. b) Mantendo-se o sentido que eles têm no contexto, que outra forma os verbos “se encontrem” e “houvera” poderiam assumir?
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22. Ufam 2017 Assinale a alternativa em que há verbo conjugado de modo INCORRETO: a) Se não reouvermos os passaportes roubados, não poderemos viajar. b) Quando o vir, entregue-lhe estas revistas, por favor. c) Se a crise atual se manter, o governo não terá sustentabilidade política. d) Se a vires no aeroporto, dize-lhe que desejo boa viagem. e) É um político que, sem se posicionar, apenas remedeia os problemas sociais. 002447_por_f1_c14_q0063objetiva
O caboclo mal-encarado que encontrei um dia em casa do Mendonça também se acabou em desgraça. Uma limpeza. Essa gente quase nunca morre direito. Uns são levados pela cobra, outros pela cachaça, outros matam-se. Na pedreira perdi um. A alavanca soltou-se da pedra, bateu-lhe no peito, e foi a conta. Deixou viúva e órfãos miúdos. Sumiram-se: um dos meninos caiu no fogo, as lombrigas comeram o segundo, o último teve angina e a mulher enforcou-se. Para diminuir a mortalidade e aumentar a produção, proibi a aguardente. Concluiu-se a construção da casa nova. Julgo que não preciso descrevê-la. As partes principais apareceram ou aparecerão; o resto é dispensável e apenas pode interessar aos arquitetos, homens que provavelmente não lerão isto. Ficou tudo
FRENTE 1
23. Unesp 2019 Leia o trecho do romance S. Bernardo, de Graciliano Ramos, para responder à questão.
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confortável e bonito. Naturalmente deixei de dormir em rede. Comprei móveis e diversos objetos que entrei a utilizar com receio, outros que ainda hoje não utilizo, porque não sei para que servem. Aqui existe um salto de cinco anos, e em cinco anos o mundo dá um bando de voltas. Ninguém imaginará que, topando os obstáculos mencionados, eu haja procedido invariavelmente com segurança e percorrido, sem me deter, caminhos certos. Não senhor, não procedi nem percorri. Tive abatimentos, desejo de recuar; contornei dificuldades: muitas curvas. Acham que andei mal? A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que deram lucro. E como sempre tive a intenção de possuir as terras de S. Bernardo, considerei legítimas as ações que me levaram a obtê-las. Alcancei mais do que esperava, mercê de Deus. Vieram-me as rugas, já se vê, mas o crédito, que a princípio se esquivava, agarrou-se comigo, as taxas desceram. E os negócios desdobraram-se automaticamente. Automaticamente. Difícil? Nada! Se eles entram nos trilhos, rodam que é uma beleza. Se não entram, cruzem os braços. Mas se virem que estão de sorte, metam o pau: as tolices que praticarem viram sabedoria. Tenho visto criaturas que trabalham demais e não progridem. Conheço indivíduos preguiçosos que têm faro: quando a ocasião chega, desenroscam-se, abrem a boca – e engolem tudo. Eu não sou preguiçoso. Fui feliz nas primeiras tentativas e obriguei a fortuna a ser-me favorável nas seguintes. Depois da morte do Mendonça, derrubei a cerca, naturalmente, e levei-a para além do ponto em que estava no tempo de Salustiano Padilha. Houve reclamações. — Minhas senhoras, seu Mendonça pintou o diabo enquanto viveu. Mas agora é isto. E quem não gostar, paciência, vá à justiça. Como a justiça era cara, não foram à justiça. E eu, o caminho aplainado, invadi a terra do Fidélis, paralítico de um braço, e a dos Gama, que pandegavam no Recife, estudando Direito. Respeitei o engenho do Dr. Magalhães, juiz. Violências miúdas passaram despercebidas. As questões mais sérias foram ganhas no foro, graças às chicanas de João Nogueira. Efetuei transações arriscadas, endividei-me, importei maquinismos e não prestei atenção aos que me censuravam por querer abarcar o mundo com as pernas. Iniciei a pomicultura e a avicultura. Para levar os meus produtos ao mercado, comecei uma estrada de rodagem. Azevedo Gondim compôs sobre ela dois artigos, chamou-me patriota, citou Ford e Delmiro Gouveia. Costa Brito também publicou uma nota na Gazeta, elogiando-me e elogiando o chefe político local. Em consequência mordeu-me cem mil-réis. (S. Bernardo, 1996.).
Verifica-se o emprego de verbo no modo imperativo no seguinte trecho: a) “Se eles entram nos trilhos, rodam que é uma beleza. Se não entram, cruzem os braços.” (7o parágrafo) b) “Minhas senhoras, seu Mendonça pintou o diabo enquanto viveu. Mas agora é isto.” (10o parágrafo) c) “Para diminuir a mortalidade e aumentar a produção, proibi a aguardente.” (3o parágrafo)
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
d) “Aqui existe um salto de cinco anos, e em cinco anos o mundo dá um bando de voltas.” (5o parágrafo) e) “Não senhor, não procedi nem percorri. Tive abatimentos, desejo de recuar; contornei dificuldades: muitas curvas.” (6o parágrafo)
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24. Unesp 2014
Água-Mãe Jogava com toda a alma, não podia compreender como um jogador se encostava, não se entusiasmava com a bola nos pés. Atirava-se, não temia a violência e com a sua agilidade espantosa, fugia das entradas, dos pontapés. Quando aquele back, num jogo de subúrbio, atirou-se contra ele, recuou para derrubá-lo, e com tamanha sorte que o bruto se estendeu no chão, como um fardo. E foi assim crescendo a sua fama. Aos poucos se foi adaptando ao novo Joca que se formara nos campos do Rio. Dormia no clube, mas a sua vida era cada vez mais agitada. Onde quer que estivesse, era reconhecido e aplaudido. Os garçons não queriam cobrar as despesas que ele fazia e até mesmo nos ônibus, quando ia descer, o motorista lhe dizia sempre: — Joca, você aqui não paga. Quando entrava no cinema era reconhecido. Vinham logo meninos para perto dele. Sabia que agradava muito. No clube tinha amigos. Havia porém o antigo centerforward que se sentiu roubado com a sua chegada. Não tinha razão. Ele fora chamado. Não se oferecera. E o homem se enfureceu com Joca. Era um jogador de fama, que fora grande nos campos da Europa e por isso pouco ligava aos que não tinham o seu cartaz. A entrada de Joca, o sucesso rápido, a maravilha de agilidade e de oportunismo, que caracterizava o jogo do novato, irritava-o até ao ódio. No dia em que tivera que ceder a posição, a um menino do Cabo Frio, fora para ele como se tivesse perdido as duas pernas. Viram-no chorando, e por isso concentrou em Joca toda a sua raiva. No entanto, Joca sempre o procurava. Tinha sido a sua admiração, o seu herói. Água-Mãe, de José Lins do Rego (1901-1957).
No primeiro parágrafo, predominam verbos empregados no a) pretérito perfeito do modo indicativo. b) pretérito imperfeito do modo indicativo. c) presente do modo indicativo. d) presente do modo subjuntivo. e) pretérito mais-que-perfeito do modo indicativo.
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25. PUC-Campinas 2021
Linguagens Você pode achar que estou sendo implicante, metido a policiar a linguagem alheia. Brasileiro é assim mesmo, adora enfeitar a conversa para impressionar os outros. Sei disso. Eu próprio já andei escrevendo sobre o que chamei de ruibarbosismo: o uso de palavreado rebarbativo como forma de, numa discussão, reduzir ao silêncio o interlocutor ignaro. Uma espécie de gás paralisante verbal. Mais de uma vez vi gente de queixo caído ante as extravagâncias vocabulares que o Antônio Houaiss (esse mesmo, o do dicionário) aspergia na mais prosaica mesa de boteco. Minha prima Solange é chegada nessas construções verbais entrecortadas por hifens, como “oferecer-lhe-ia”.
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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(WERNECK, Humberto. Esse inferno vai acabar. Porto Alegre: Arquipélago, 2011, p. 30)
É adequada a articulação entre os tempos verbais e há pleno atendimento das normas de concordância na seguinte frase: a) A cada vez que se apresentassem àquele escritor os mais extravagantes recursos de retórica, ele não hesitaria em se valer deles para ostentar seu desempenho linguístico. b) No caso de se buscarem economizar ornamentos retóricos, teriam cumprido a boa parte dos escritores desfazer-se de seus rebuscamentos estilísticos. c) Uma vez que o cronista empregou em seus textos expressões como “de queixo caído” e “mesa de boteco”, parecem haver nele claras preferências pela simplicidade. d) A cada vez que usasse uma mesóclise, a prima Solange parecerá manifestar uma predileção por formas verbais em que reponta tendências exibicionistas. e) Com a expressão gás paralisante verbal o cronista faria uma alusão ao efeito que terá provocado em alguém as formas mais rebuscados de construções linguísticas.
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26. Uefs-BA 2017 Leia o texto de Jandira Masur para responder à questão. Tudo que exige a separação em duas categorias envolve o problema do limite, do divisor de águas. Muitas vezes isso é resolvido através de convenções arbitrariamente estabelecidas. É o caso do limite de 18 anos, que separa o menor do maior de idade. É claro que todo divisor estabelecido através de convenções implica situações bizarras: com um dia a menos de 18 anos não posso assistir a um filme que 24 horas depois já me será permitido. Outros tipos de situações não necessitam de divisores arbitrários, como é o caso da gravidez. Não se fica um pouco grávida: ou se está ou não se está. Ninguém se pergunta: estarei ficando grávida? No alcoolismo o limite entre o ser e o não ser alcoó latra não pode ser arbitrariamente definido como no caso da maioridade. Ele, o limite, também não é claro e óbvio como ocorre no caso da gravidez. Logo, a pergunta que as pessoas se fazem, sobre se elas ou outros estão bebendo demais e, portanto, se tornando alcoólatras, é pertinente e não tem uma resposta fácil. A situação é semelhante ao que ocorre quando se observa uma gradação de cores que varia do rosa ao vermelho. Quando, exatamente em que ponto é que o rosa se transforma em vermelho? Distinguir entre o rosa inicial e o vermelho final não nos causa problemas. O difícil é distinguir o momento em que o rosa não é mais rosa. Este é o problema que ocorre quando pensamos se alguém bebe normalmente ou é alcoólatra. Claro que os polos não nos confundem. É fácil dizer que uma pessoa que bebe
muito, que perdeu o emprego em função de não poder trabalhar adequadamente por estar sempre embriagado, que tem problemas sérios de relacionamento com seus amigos e/ou familiares que se ressentem da forma pela qual esta pessoa vem bebendo, e que apresenta doenças devidas ao álcool, é um alcoólatra. O problema reside exatamente em definir aqueles que não mostram esses sinais óbvios, ou seja, os que estão em um ponto intermediário entre o rosa e o vermelho. (O que é alcoolismo, 1991. Adaptado.)
Ninguém se pergunta: estarei ficando grávida? (2o parágrafo).
A forma verbal destacada, caracterizada pela terminação “–ndo”, indica uma ação a) prestes a acontecer, mas ainda não realizada. b) totalmente realizada, finalizada. c) que pode ou não ter sido realizada. d) não terminada, em andamento. e) pontual, sem extensão no tempo.
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27. IFTO 2020
Vatapá (Dorival Caymmi) Quem quiser vatapá, ô Que procure fazer Primeiro o fubá Depois o dendê Procure uma nêga baiana, ô Que saiba mexer Que saiba mexer Que saiba mexer Bota castanha de caju Um bocadinho mais Pimenta malagueta Um bocadinho mais Amendoim, camarão, rala um coco Na hora de machucar Sal com gengibre e cebola, iaiá Na hora de temperar Não pare de mexer, ô Que é pra não embolar Panela no fogo Não deixe queimar Com qualquer dez mil-réis e uma nêga ô Se faz um vatapá Se faz um vatapá Que bom vatapá Com adaptações. Disponível em: https://www.letras.mus.br/ dorivalcaymmi/924247/. Acesso em: 2/10/2019.
Com relação ao emprego do imperativo nos versos, marque a opção correta. a) O sujeito verbal (3a pessoa) mantém-se o mesmo; portanto, o emprego das formas verbais está correto. b) A oposição imperativo afirmativo e imperativo negativo justifica a mudança do verbo bota / não pare de mexer / não deixe queimar. c) A forma verbal “não pare de mexer” (imperativo negativo) opõe-se à forma verbal “bota”, que se encontra no presente do indicativo.
FRENTE 1
Ela se casou com um cidadão americano. Até onde vão meus conhecimentos linguísticos, o idioma inglês não admite mesóclise. Será que foi por isso que o casamento da Solange não deu certo? ruibarbosismo: referência a Rui Barbosa, escritor de estilo bastante rebuscado.
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d) A diferença de formas (procure / bota) ocorre em virtude do deslocamento da 3a para a 2a pessoa do sujeito verbal. e) A diferença de formas (bota / não pare de mexer / não deixe queimar) não é registrada nas gramáticas normativas, logo há inadequação na flexão dos verbos.
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28. FEI-SP 2019 Carlos Drummond de Andrade tem uma vasta produção poética, reconhecida em todo o mundo, e com marcas recorrentes. A sua permanente reflexão sobre a realidade, sobre a relação entre o “eu” e o “mundo”, sobre a função do artista na sociedade é uma dessas marcas, que pode ser lida na poesia abaixo:
Mãos dadas Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista [da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os [homens presentes, a vida presente. (ANDRADE, C. D. de. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988, p.68)
Considerando o contexto em que o verbo “afastemos” (sexto verso) se apresenta, depreende-se: a) a aceitação de que as pessoas não se aproximarão. b) o reconhecimento de que as pessoas não vivem em harmonia. c) o desejo de que as pessoas se mantenham unidas. d) o desejo inconsciente de que as pessoas se afastem. e) a certeza de que as pessoas não se afastarão.
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29. Enem 2019 Toca a sirene na fábrica, e o apito como um chicote bate na manhã nascente e bate na tua cama no sono da madrugada. Ternuras da áspera lona pelo corpo adolescente. É o trabalho que te chama. Às pressas tomas o banho, tomas teu café com pão, tomas teu lugar no bote no cais do Capibaribe. Deixas chorando na esteira teu filho de mãe solteira. Levas ao lado a marmita, contendo a mesma ração do meio de todo o dia, a carne-seca e o feijão.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
De tudo quanto ele pede dás só bom-dia ao patrão, e recomeças a luta na engrenagem da fiação. MOTA, M. Canto ao meio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.
Nesse texto, a mobilização do uso padrão das formas verbais e pronominais a) ajuda a localizar o enredo num ambiente estático. b) auxilia na caracterização física do personagem principal. c) acrescenta informações modificadoras às ações dos personagens. d) alterna os tempos da narrativa, fazendo progredir as ideias do texto. e) está a serviço do projeto poético, auxiliando na distinção dos referentes.
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30. IFPE 2019
Por que todo mundo não fala a mesma língua? (1) Porque as línguas foram surgindo nas várias regiões do mundo de forma independente. Algumas têm a mesma origem, como o hindu, o sueco, o inglês e o português. Elas vieram de uma grande língua comum, chamada proto-indo-europeu, que há milhares de anos era falada na Ásia. (2) Esse idioma deu origem a quase todas as línguas ocidentais e algumas orientais. “Supõe-se que o indo-europeu tenha sido uma língua só, que foi se diferenciando com o tempo”, explica o professor de linguística Paulo Chagas de Souza, da Universidade de São Paulo. (3) É que as línguas são vivas – elas se transformam com o uso. Mesmo as que vieram de uma raiz comum foram sendo modificadas pouco a pouco pela prática de cada grupo falante, que seleciona os termos adequados ao seu ambiente e à sua cultura. Os esquimós, por exemplo, criaram palavras capazes de descrever 40 tons de branco. Esses termos não fazem o menor sentido para um povo que mora no deserto, concorda? (4) O Império Romano teve uma forte função na difusão e na construção de muitas das línguas que são faladas hoje. Naquela época, na região de Roma, falava-se o latim, uma língua derivada do proto-indo-europeu que floresceu na região do Lácio. (5) À medida que o império avançava, conquistando novos territórios, esse idioma foi sendo imposto aos povos dominados, mas não sem sofrer influência das línguas locais, com mudanças de pronúncia e enxertos de palavras. (6) Com o enfraquecimento do domínio dos césares, essas diferenças foram se intensificando e construindo dialetos, que se transformaram em idiomas próprios. Foi assim que surgiu o português, o italiano e o francês, por exemplo. (7) Hoje, são faladas 7 099 línguas ao redor do mundo, segundo o compêndio Ethnologue, um livro que cataloga os idiomas do nosso planeta desde 1950. Mas a gente não ouve a maioria delas: mais de 90% dessas línguas estão na boca de apenas 6% dos habitantes da Terra. O restante da população mundial usa menos de 400 idiomas. OLIVEIRA, Fábio. Por que todo mundo não fala a mesma língua? Disponível em: http://super.abril.com.br/sociedade/por-que-todo-mundonão-fala-a-mesma-lingua/amp/. Acesso em: 04 maio 2019.
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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As afirmativas a seguir apresentam reflexões sobre a sintaxe de concordância da língua portuguesa. Analise-as e marque a única que faz uma avaliação CORRETA sobre a sintaxe de concordância do texto. a) Em “Mas a gente não ouve a maioria delas” (7o parágrafo), o verbo foi registrado no singular para concordar com a expressão “a gente”, continuaria, portanto, conjugado na terceira pessoa do singular se o sujeito da frase fosse o pronome “nós”. b) Em “Naquela época, na região de Roma, falava-se o latim” (4o parágrafo), o sujeito do verbo “falar” é indeterminado e o “-se” é índice de indeterminação, por isso o verbo foi corretamente conjugado na terceira pessoa do singular. c) Em “esse idioma foi sendo imposto aos povos dominados” (5o parágrafo), a locução verbal também poderia estar no plural para concordar com o referente “povos dominados”. d) Em “Foi assim que surgiu o português, o italiano e o francês, por exemplo” (6o parágrafo), houve um deslize na concordância, pois o sujeito da oração é composto (“o português, o italiano e o francês”), e o verbo, deveria, portanto, estar no plural para estabelecer concordância. e) Em “há milhares de anos era falada na Ásia” (1o parágrafo), o verbo grifado está conjugado de forma adequada, pois o verbo “haver” indicando tempo passado é impessoal, não devendo ser pluralizado, portanto.
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31. IFTO 2020 Com relação ao emprego do verbo “imobilizar” no anúncio abaixo, é correto afirmar que:
a) O autor do anúncio optou pelo emprego de “imobilizar” em vez de “mobilizar” (que seria o esperado pelo leitor) de forma intencional, tornando, assim, seu texto mais expressivo e adequado aos objetivos comunicacionais. b) O autor do anúncio utilizou o prefixo -i de forma inadequada, pois, nesse contexto, o verbo adequado seria “mobilizar”, que significa “incitar à participação”. c) Ao acrescentar o prefixo -i ao vocábulo “mobilizar”, o autor utilizou um neologismo; essa inovação, contudo, foi necessária para tornar o texto mais expressivo e atingir os objetivos comunicacionais do anúncio. d) Houve um erro de digitação, pois, nesse contexto, não cabe o verbo “imobilizar”. e) O verbo adequado, nesse contexto, seria “mobilizar”, uma vez que o evento esportivo mobilizou mais de quarenta mil pessoas a irem ao Estádio Atlético Paranaense para assistirem às lutas.
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32. Uefs-BA 2017
A Christo S. N. Crucificado estando o poeta a última hora de sua vida Meu Deus que estais pendente em um madeiro, Em cuja lei protesto de viver Em cuja santa lei hei de morrer Animoso, constante, firme e inteiro. Neste lance, por ser o derradeiro, Pois vejo a minha vida anoitecer, É, meu Jesus, a hora de se ver A brandura de um Pai, manso Cordeiro. Mui grande é vosso amor e meu delito, Porém pode ter fim todo pecar, E não o vosso amor, que é infinito. Esta razão me obriga a confiar, Que por mais que pequei, neste conflito Espero em vosso amor de me salvar. MATOS, Gregório. In: AMADO, James (Org.) Obras Completas de Gregório de Matos. Salvador: Ed. Janaína, 1968. V. I, p. 47.
Disponível em: Revista Veja. ed. 2479, ano 49, n. 21, jan. 2016.
A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a a) I e II. c) IV e V. e) II, III e IV. b) II e IV. d) I, III e IV.
FRENTE 1
• Ingressos esgotados no 1o dia oficial de vendas. • Recorde histórico de público no Brasil: 45 207 pessoas no Estádio Atlético Paranaense. • Recorde global de público na pesagem: 15 000 pessoas. • 42 milhões de pessoas impactadas nas redes sociais em 1 semana. • Transmissão para 141 países.
Sobre aspectos de morfossintaxe presentes no texto, é correto afirmar: I. A forma verbal de segunda pessoa “estais”, no verso 1, é compatível com o uso do pronome “vosso” nos versos 9, 11 e 14. II. “viver” (v. 2), “morrer” (v. 3), “anoitecer” (v. 6) e “ver” (v. 7) estão usados no texto como intransitivos. III. “hei de” (v. 3) é uma expressão verbal que enfatiza promessa, obrigação ou desejo no futuro. IV. Na sentença “Mui grande é vosso amor e meu delito” (v. 9), aplica-se uma norma de concordância verbal aceitável. V. As expressões “Meu Deus” (v. 1), “meu Jesus” (v. 7) e “manso Cordeiro” (v. 8) são apostos.
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1. Unesp 2016 Para responder à questão, leia o excerto do “Sermão da primeira dominga do Advento”, de Antônio Vieira (1608-1697), pregado na Capela Real em Lisboa no ano de 1650. Sabei cristãos, sabei príncipes, sabei ministros, que se vos há de pedir estreita conta do que fizestes; mas muito mais estreita do que deixastes de fazer. Pelo que fizeram, se hão de condenar muitos, pelo que não fizeram, todos. [...] Desçamos a exemplos mais públicos. Por uma omissão perde-se uma maré, por uma maré perde-se uma viagem, por uma viagem perde-se uma armada, por uma armada perde-se um Estado: dai conta a Deus de uma Índia, dai conta a Deus de um Brasil, por uma omissão. Por uma omissão perde-se um aviso, por um aviso perde-se uma ocasião, por uma ocasião perde-se um negócio, por um negócio perde-se um reino: dai conta a Deus de tantas casas, dai conta a Deus de tantas vidas, dai conta a Deus de tantas fazendas, dai conta a Deus de tantas honras, por uma omissão. Oh que arriscada salvação! [...] Oh que arriscado ofício é o dos príncipes e o dos ministros! Está o príncipe, está o ministro divertido, sem fazer má obra, sem dizer má palavra, sem ter mau nem bom pensamento: e talvez naquela mesma hora, por culpa de uma omissão, está cometendo maiores danos, maiores estragos, maiores destruições, que todos os malfeitores do mundo em muitos anos. O salteador na charneca com um tiro mata um homem; o príncipe e o ministro com uma omissão matam de um golpe uma monarquia. A omissão é o pecado que com mais facilidade se comete e com mais dificuldade se conhece; e o que facilmente se comete e dificultosamente se conhece, raramente se emenda. A omissão é um pecado que se faz não fazendo. [...] Mas por que se perdem tantos? Os menos maus perdem-se pelo que fazem, que estes são os menos maus; os piores perdem-se pelo que deixam de fazer, que estes são os piores: por omissões, por negligências, por descuidos, por desatenções, por divertimentos, por vagares, por dilações, por eternidades. Eis aqui um pecado de que não fazem escrúpulo os ministros, e um pecado por que se perdem muitos. Mas percam-se eles embora, já que assim o querem: o mal é que se perdem a si e perdem a todos; mas de todos hão de dar conta a Deus. Uma das cousas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os ministros, é dos pecados do tempo. Porque fizeram o mês que vem o que se havia de fazer o passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque fizeram depois o que se havia de fazer agora; porque fizeram logo o que se havia de fazer já. Tão delicadas como isto hão de ser as consciências dos que governam, em matérias de momentos. O ministro que não faz grande escrúpulo de momentos não anda em bom estado: a fazenda pode-se restituir; a fama, ainda que mal, também se restitui; o tempo não tem restituição alguma. (Essencial, 2013. Adaptado.)
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 14
Tendo em vista o gênero literário em que se enquadra o texto e os recursos expressivos nele presentes, o verbo que melhor expressa sua finalidade é a) reverenciar. d) alegrar. b) persuadir. e) ludibriar. c) celebrar.
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2. Enem 2020 (Adapt.)
Disponível em: www.hospitalalbertorassi.org.br. Acesso em: 13 dez. 2017 (adaptado).
a) Considerando-se os elementos constitutivos do texto, esse anúncio visa resolver qual problema? Quais elementos linguísticos ajudam a identificar a proposta do texto? b) Dentre os modos verbais apresentados, destacamos como característica do anúncio o modo imperativo. Retire do texto dois verbos conjugados no imperativo afirmativo e dois no imperativo negativo.
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3. Enem 2015 Em junho de 1913, embarquei para a Europa a fim de me tratar num sanatório suíço. Escolhi o de Clavadel, perto de Davos-Platz, porque a respeito dele me falara João Luso, que ali passara um inverno com a senhora. Mais tarde vim a saber que antes de existir no lugar um sanatório, lá estivera por algum tempo Antõnio Nobre. “Ao cair das folhas”, um de seus mais belos sonetos, talvez o meu predileto, está datado de “Clavadel, outubro, 1895”. Fiquei na Suíça até outubro de 1914. BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985.
No relato de memórias do autor, entre os recursos usados para organizar a sequência dos eventos narrados, destaca-se a a) construção de frases curtas a fim de conferir dinamicidade ao texto. b) presença de advérbios de lugar para indicar a progressão dos fatos. c) alternância de tempos do pretérito para ordenar os acontecimentos. d) inclusão de enunciados com comentários e avaliações pessoais. e) alusão a pessoas marcantes na trajetória de vida do escritor.
Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
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Acervo da Casa Mário de Andrade, São Paulo
Na foto, estão os principais nomes do Modernismo brasileiro, reunidos em um almoço para homenagear Paulo Prado (em pé, ao centro da foto, de bigode escuro), em 1924. Entre eles, vemos Mário de Andrade (à esquerda das cadeiras, de pé, terno escuro e óculos), Oswald de Andrade (sentado no chão) e Manuel Bandeira (à esquerda, de pé, óculos e gravata borboleta).
FRENTE 2
10 CAPÍTULO
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Heróis do Modernismo no Brasil Em fevereiro de 1922, o Teatro Municipal de São Paulo foi palco da irreverência de autores do cenário cultural brasileiro na Semana de Arte Moderna, evento que representou a ousadia de romper com os padrões estéticos vigentes. Nos anos que se seguiram, após o evento da Semana de 22, três autores se destacaram no cenário literário, tornando-se os mais importantes nomes da geração heroica do Modernismo: Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira.
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Mário de Andrade (1893-1945) Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro
Sob esse ponto de vista – de tempo e de espaço – o adjetivo “arlequinal”, quando se refere à natureza de Pauliceia desvairada, possui um certo sentido futurista [...]. Assim, o traje de losangos aglutina a variedade da vida metropolitana no século XX, bem captada na simultaneidade e bem transmitida ao nível da técnica, através [...] do uso dos pares de substantivos para qualificar (solução genialmente explorada na “Ode ao burguês”). E haveria traços do futurismo na teoria do verso harmônico, do verso melódico e da polifonia poética [...]. [...] em Pauliceia desvairada, inspirando o desenho de Guilherme de Almeida na escolha de losangos multicores (brancos, verdes, azuis, vermelhos, amarelos), dispostos verticalmente, preenchendo toda a superfície da capa [...] o livro exibe-se como se fosse a própria cidade, trazendo no centro do frontispício, em destaque de cartaz branco, emoldurado por traços negros, sua identificação, também em preto. LOPEZ, Telê Porto Ancona. Arlequim e a modernidade. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/69575/72159. Acesso em: 4 dez. 2023.
Saiba mais In: Pierre Carlet de Chamblain de Marivaux. Théâtre complet. Paris: Laplace, Sanchez et cie, 1878
Arlequim é um personagem cômico de origem italiana, cujas características são a ingenuidade, a malandragem e a preguiça. Na Commedia dell’Arte ele integra o triângulo amoroso composto também pelo Pierrô e pela Colombina. A alegria e a audácia do personagem, e a fragmentação de sua roupa feita de retalhos de sacos de farinha, simbolizam o contraste que inspirou o autor modernista Mário de Andrade. No Brasil, o arlequim ficou famoso no Carnaval, pelo sucesso da canção de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, “Pierrô Apaixonado”, de 1935.
Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo e expressou seu afeto pela cidade em inúmeros poemas, sendo a obra Pauliceia desvairada a sua máxima declaração de amor. Publicado em 1922, ano da Semana de Arte Moderna, o livro composto de 23 poemas apresentou a cidade como protagonista, personificada em versos livres e provocadores. São Paulo! comoção de minha vida... Os meus amores são flores feitas [de original!... Arlequinal!... Trajes de losangos... [Cinza e ouro... Luz e bruma... Forno e inverno [morno... Elegâncias sutis sem escândalos, [sem ciúmes... Perfumes de Paris... Arys! Bofetadas líricas no Trianon... [Algodoal!...
Reprodução
Inspiração
Capa do livro Pauliceia desvairada.
São Paulo! comoção de minha vida... Galicismo a berrar nos desertos da América. ANDRADE, Mário de. Pauliceia desvairada. Disponível em: https:// digital.bbm.usp.br/view/?45000019565&bbm/7651#page/46/mode/2up. Acesso em: 4 dez. 2023.
No poema “Inspiração”, a urbe inquieta simboliza o crescimento acelerado das metrópoles, o que é perceptível nas imagens sobrepostas e no uso das reticências para expressar a interrupção de ideias que não se finalizam. O dinamismo paulistano comove o eu lírico, como uma musa inspiradora. A aglomeração e os contrastes ilustram a cidade que é “Luz e bruma... Forno e inverno morno”, onde os habitantes e a temperatura são singulares. O arlequim, signo presente na obra como um todo, inclusive na imagem da capa da primeira edição, simboliza a ousadia e a contradição do personagem da Commedia dell’Arte italiana.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 10
A irreverência dos poetas da geração heroica do Modernismo está marcada em diversos poemas, em consonância com o tom combativo e crítico. O poema “Ode ao burguês” (a seguir) é um elogio inverso às elites retrógradas da capital paulista. O título remete às obras de origem grega, associadas à exaltação de campeões na guerra e aos jogos olímpicos. No poema, a imagem do burguês foi ironizada por sua relação com o passado e sua resistência à modernização, tanto na estética cultural como na sociedade. O eu lírico com sua acidez e ironia insulta os “barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!”. O efeito sonoro do termo “ode” ao ser lido em voz alta ganha novo significado, pois transforma-se em “ódio ao burguês”.
Ode ao burguês Eu insulto o burguês! O burguês-níquel, O burguês-burguês! A digestão bem feita de São Paulo! O homem-curva! o homem-nádegas! [...] Eu insulto as aristocracias cautelosas! Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros! Que vivem dentro de muros sem pulos; [...]
Heróis do Modernismo no Brasil
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Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio! Morte ao burguês de giolhos. Cheirando religião e que não crê em Deus! Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico! Ódio fundamento, sem perdão! Fora! Fu! Fora o bom burguês!... ANDRADE, Mário de. Pauliceia desvairada. Disponível em: https:// digital.bbm.usp.br/view/?45000019565&bbm/7651#page/70/mode/2up. Acesso em: 4 dez. 2023.
ode: de remota origem grega, inicialmente consistia num poema destinado ao canto. Sinônimo, pois, de canção, reduzia-se a um cantar monódico, interpretado pelo próprio autor, ao som da lira, ou de semelhante instrumento de corda, chamado barbitos, pectis ou magadis. [...] O amor e o vinho ou os prazeres são os temas mais frequentes. [...] Com o desenvolvimento do lirismo coral, a ode ganha maior desembaraço e apodera-se de temas novos, relacionados com a vida heroica [...]. MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. 12. ed. rev., ampl. e atual. São Paulo: Cultrix, 2013. p. 336.
Para o leitor de hoje, a leitura da Pauliceia desvairada é uma experiência ainda capaz de provocar muito estranhamento, mas por motivos obviamente diversos daqueles que comoveram os contemporâneos. [...] Outras conversões, se podemos falar assim, ocorreriam nos anos subsequentes. O livro escandalizava os farautos e fascinava os espíritos mais livres e criativos. De certo modo, como um evangelho estético, ele trazia a boa nova das mudanças imediatas e necessárias – e o contato de suas palavras catalisava as vontades transformadoras, precipitando aquilo que a própria épica preparava.
[...] Um pouco de teoria? Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada. Entroncamento é sueto para os condenados da prisão alexandrina. Há porém raro exemplo dele neste livro. Uso de cachimbo... A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer impecilho a perturba e mesmo emudece. Arte, que, somada a Lirismo, dá Poesia, não consiste em prejudicar a doida carreira do estado lírico para avisá-lo das pedras e cercas de arame do caminho. Deixe que tropece, caia e se fira. Arte é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas, de sentimentalidades românticas, de pormenores inúteis ou inexpressivos. [...] ANDRADE, Mário de. Pauliceia desvairada. São Paulo: Casa Mayença, 1922. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/ view/?45000019565&bbm/7651#page/8/mode/2up. Acesso em: 4 dez. 2023.
O combate às “sentimentalidades românticas” e o préstimo ao lirismo “nascido no subconsciente” fundamentaram a proposta de Pauliceia desvairada, obra que se tornou um símbolo do projeto modernista. “Ode ao burguês” foi um dos poemas lidos sob vaias na Semana de Arte Moderna, como endossam alguns historiadores dos acontecimentos do evento. Mário foi um dos palestrantes, tendo realizado no segundo dia da semana, 15 de fevereiro, a conferência em defesa da modernidade intitulada A Escrava que Não é Isaura, texto posteriormente publicado como ensaio. A conferência apresentou um dos aspectos principais da obra do autor, a pesquisa acerca da cultura popular brasileira. O interesse pelo folclore do país levou-o a empreender a Missão de Pesquisas Folclóricas, ocupando o cargo de diretor do Departamento de Cultura de São Paulo.
Macunaíma: a ressignificação do herói nacional Reprodução
Eu insulto o burguês-funesto! O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições! Fora os que algarismam os amanhãs! [...]
BOSI, Alfredo (org.). Leitura de poesia. São Paulo: Ática, 2007. p. 53.
Leitor: Está fundado o Desvairismo. Este prefácio, apesar de interessante, inútil. Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões. Para quem me aceita são inúteis ambos. Os curiosos terão prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para quem me rejeita trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou. Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste Prefácio Interessantíssimo.
FRENTE 2
O poema “Ode ao burguês”, de Pauliceia desvairada, foi um apelo às novas possibilidades estéticas da modernidade. O famoso “Prefácio Interessantíssimo” da obra apresentou a corrente do “Desvairismo”, ou seja, a arte do contraponto, que evidencia o conflito entre o velho e o novo, em uma dimensão crítica acerca dos desdobramentos vanguardistas. No prefácio, o autor discutiu os rumos da arte no Brasil.
Capa da obra Macunaíma, de Mário de Andrade.
O título do romance de Mário de Andrade, publicado em 1928, Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, apresenta dois termos – herói e caráter – que nos remetem à imagem do herói construída ao longo da história literária
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rapsódia: designava, na Grécia antiga, a recitação de fragmentos de poemas épicos, notadamente homéricos, pelos rapsodos, poetas ou declamadores ambulantes, que iam de cidade a cidade [...]. nos domínios literários, a compilação, numa mesma obra, de temas ou assuntos heterogêneos e de vária origem. MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. 12. ed. rev., ampl. e atual. São Paulo: Cultrix, 2013. p. 389.
As cenas são alegóricas, pois simbolizam as etnias formadoras do Brasil, como a branca, a negra e a nativa, composta pelos indígenas. O protagonista Macunaíma revela fraquezas, como inveja e preguiça, marcadas pela frase célebre da obra: “Ai! Que preguiça!...”. Diferentemente dos heróis idealizados do Romantismo, como o guerreiro Peri – personagem da obra O Guarani, de José de Alencar –, o herói sem nenhum caráter não concentra os valores nobres e heroicos. Ele é um malandro alegórico que se distancia dos princípios morais. No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: – Ai! que preguiça!...e não dizia mais nada. [...] ANDRADE, Mário de. Macunaíma. Disponível em: https://www. castroweb.com.br/castrodigital/Arquivos2020/CastroDigital_livro_ Macunaima_Mario_de_Andrade.pdf. Acesso em: 4 dez. 2023.
As técnicas inovadoras e a aproximação das características das vanguardas europeias são evidências da modernidade da obra que apresenta nuance surrealista. A montagem é uma sobreposição de imagens e espaços apresentados de forma simultânea, que visam representar a pluralidade identitária e territorial do país. O tempo da narrativa não é linear e essa descontinuidade imprime à obra desordem, confusão e ambiguidade. A valorização da linguagem oral é um dos princípios modernistas de destaque no texto de Mário de Andrade, como outro importante elemento que busca construir a identidade nacional. O espírito nacionalista presente em Macunaíma é representativo do senso crítico dos autores do Modernismo, que rompeu com a idealização romântica do Brasil.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 10
Oswald de Andrade (1890-1954) Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro
nos romances brasileiros. No século XIX, a prosa romântica apresentava o arquétipo cavalheiresco de coragem, bravura e lealdade que compunham o caráter do herói. No entanto, na obra-prima de Mário de Andrade, o caráter não é um traço definitivo do protagonista, uma vez que Macunaíma é um símbolo representativo da identidade brasileira em formação. A narrativa, com características míticas, é considerada uma rapsódia, apresentando enredo baseado em lendas e mitos do folclore nacional, resultado da ampla pesquisa do autor em sua missão pelo Brasil. O distanciamento das convenções e da verossimilhança do romance tradicional pode tornar confuso o entendimento da história do herói, que foge de Manaus para a Argentina em poucas linhas e torna-se loiro ao se banhar em uma poça que clareia a pele.
José Oswald de Sousa Andrade é um dos nomes de grande importância no cenário literário brasileiro, tendo sido o agitador da Semana de Arte Moderna e reconhecido pelo seu humor irreverente, pela sua capacidade de transgressão e pela postura polêmica e ousada que contribuíram com as conquistas do Modernismo. Depois de uma viagem realizada à Europa, Oswald de Andrade retornou ao Brasil com ideias fermentadas pelas vanguardas artísticas decisivas nos desdobramentos que mobilizaram a realização da Semana de 22. A atuação do autor foi enfática em determinados momentos, como na defesa de Anita Malfatti (1889-1964), em artigo escrito no Jornal do Comércio, com o intuito de se opor às críticas de Monteiro Lobato à pintora. Além de livros de poesia, romances, peças teatrais e ensaios, Oswald publicou dois importantes manifestos em anos posteriores à semana, o Manifesto Pau-Brasil e o Manifesto Antropofágico, os quais nortearam algumas das noções estéticas do movimento. 002447_por_f2_c10_t0003
Pobre alimária O cavalo e a carroça Estavam atravancados no trilho E como o motorneiro se impacientasse Porque levava os advogados para o escritório Desatravancaram o veículo E o animal disparou Mas o lesto carroceiro Trepou na boleia E castigou o fugitivo atrelado Com um grandioso chicote ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. ©Oswald de Andrade
Foram abordados nos textos do autor a busca pela identidade nacional, o resgate de elementos culturais da pluralidade brasileira e o processo de modernização visto no país, especialmente na cidade de São Paulo. Em seu poema “Pobre alimária”, notamos o registro de uma cena urbana marcada pela tensão entre o velho e o novo, em que a carroça e o cavalo representam o mundo rural, convivendo com elementos da vida urbana e moderna. Essas ambiguidades foram tratadas de forma irreverente e irônica por Oswald de Andrade, que se apresentava como um autor ousado e de pensamento liberal.
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estrutura rejeitada pelo eu lírico, cuja postura radical inverte as relações de poder.
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As inovações estilísticas da prosa modernista
Capa da obra Pau Brasil, de Oswald de Andrade, com ilustração feita por Tarsila do Amaral.
Capa do livro Memórias Sentimentais de João Miramar, 1924, de Oswald de Andrade. Coleção Guita e José Mindlin (São Paulo, SP).
Em sua obra Memórias sentimentais de João Miramar, publicada em 1924, as inovações estilísticas buscaram romper com os limites entre prosa e poesia. As imagens fragmentadas e sintéticas dispostas capítulo a capítulo aludem a cenas cinematográficas. 60. Namoro Vinham motivos como gafanhotos para eu e Célia comermos amoras em moitas de bocas. Requeijões fartavam mesas de sequilhos. Destinos calmos como vacas quietavam nos campos de sol parado. A vida ia lenta como poentes e queimadas. Um matinal arranjo desenvolto de ligas morenava coxas e cachos. 62. Comprometimento O Forde levou-nos para igreja e notário entre matos derrubados e a vasta promessa das primeiras culturas. Jogaram-nos flores como bênçãos e sinos tilintintaram. A lua substituiu o sol na guarita do mundo mas o dia continuou tendo havido entre nós apenas uma separação precavida de bens. 75. Natal Minha sogra ficou avó. ANDRADE, Owald de. Obras completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. v. 2. p. 39-48. Disponível em: https://monoskop.org/ images/6/62/Oswald-de-andrade-Obras_Completas-vol2.pdf. Acesso em: 6 dez. 2023.
Nos capítulos transcritos, percebemos como o narrador-personagem, João Miramar, dá saltos na narrativa em episódios que parecem quadros cinematográficos. A narrativa contém 163 capítulos curtos, numerados e intitulados, os quais variam entre diversos gêneros, como carta, relato, poema, entre outros que abarcavam a infância do personagem, viagem à Europa, casamento, divórcio e outras memórias acionadas de forma fragmentada.
FRENTE 2
A velocidade e o dinamismo do século XX, vistos na arte vanguardista como um reconhecimento do progresso, foram adotados nos textos de Oswald de Andrade por influência do Futurismo. Porém, foram feitas algumas ressalvas quanto ao radicalismo do movimento, liderado por Filippo Marinetti, visto que os modernistas brasileiros abraçaram a ideia futurista como oposição ao passadismo contra o qual lutavam. A ordem direta das orações e a ruptura com a pontuação evitam as pausas na leitura e compõem um ritmo que alude à fala, aspiração dos modernistas que buscavam aproximar a poesia da linguagem coloquial, além de evidenciar as variedades linguísticas. Oswald de Andrade defendia a reinvenção da cultura mediante à máxima “ver com os olhos livres”. Tratava-se de uma proposta primitivista, em que a colonização do Brasil pudesse ser revisitada com o intuito de se reverter o modo de encarar o processo cultural de violência imposto no país e ainda presente nos textos literários. Em alguns dos seus poemas-piada, como “Erro de português”, “brasil” e “Vício na fala”, podemos verificar o tom cômico e analítico acerca da formação cultural brasileira. Em “A História do Brasil”, por exemplo, Oswald de Andrade cria intertextualidade com a Carta, de Pero Vaz de Caminha, por meio da paródia ao inverter o significado do texto original. O trecho retomado de Carta, “E houvemos vista de terra”, reporta à invasão das terras no processo de expansão territorial ocorrido nos séculos XV e XVI. A interpretação de Oswald desmascarou a malícia do europeu, abordando o olhar do outro sobre o corpo nu das indígenas. A plurissignificação do texto do poeta é marcada pela ironia, elemento primordial para a inversão de significado sobre a problemática da colonização. Oswald também faz uso da paródia no poema “senhor feudal”. No texto, há um embate entre o antigo e o novo, apresentado ao leitor de forma sintética, buscando dessacralizar os elementos cristalizados da poesia, como métrica e rima. O uso da paródia foi a ruptura com os discursos institucionalizados, pela referência às relações de vassalagem,
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Historic Collection/Alamy/Fotoarena
Manuel Bandeira (1886-1968)
Folhapress/Folhapress
O Rei da Vela: o teatro crítico às elites brasileiras
A peça teatral O Rei da Vela, escrita em 1933, é considerada a primeira obra modernista do gênero dramático no Brasil e foi encenada apenas em 1967, pelo Teatro Oficina, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa (1937-2023). Trata-se de uma peça de teor crítico sobre a decadência dos latifundiários no contexto da crise da Bolsa de Valores em 1929, em que foram evidenciadas as fragilidades das relações familiares e da propriedade. Oswald não inseriu na peça elementos de inovação formal; no entanto, a montagem de cenário e os figurinos chocaram o público em sua primeira encenação, trinta anos após ter sido escrita. O personagem central, Abelardo I, surge em cena com chicote e revólver à cintura, enquanto os clientes se encontram em uma jaula. A crítica direcionada à sociedade brasileira e às suas estruturas falhas rompeu com o idealismo romântico das peças elaboradas até então. Abelardo I, agiota e proprietário de uma fábrica de velas, casa-se com a filha de uma família da aristocracia decadente do interior de São Paulo, Heloísa de Lesbos, e enriquece emprestando dinheiro a fazendeiros decadentes. A metáfora está na vela como símbolo de morte e da exploração e violência praticada contra a população, que não tinha dinheiro nem mesmo para pagar a conta de luz.
Reprodução
O Rei da Vela, 1967.
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu e passou parte de sua infância no Recife, tendo se mudado com a família para o Rio de Janeiro e, mais tarde, para São Paulo, onde se matriculou na Escola Politécnica. Bandeira tinha uma afeição muito significativa pela sua infância e pelos acontecimentos ocorridos em Recife, que foram marcados na sua produção poética e afirmados em seu livro Itinerário de Pasárgada, de 1954, em que retorna ao passado em busca do tempo perdido. O poeta iniciou a vida literária arcando com as custas da primeira obra, A Cinza das Horas, publicada em 1917 no Jornal do Comércio e que apresentou aspecto melancólico e reflexivo, além de preocupação com a forma poética muitas vezes marcada pela métrica e pelas rimas que dão um tom musical ao livro. A melancolia foi recorrente em poemas de Bandeira, associada à tuberculose, doença que acompanhou a vida do poeta. A angústia pela morte iminente, a qual, no entanto, chegou apenas aos 82 anos, está impressa em temas como a efemeridade da vida, a felicidade da infância distante e a solidão.
Atenção No Modernismo, o Movimento Antropófago, criado por Oswald de Andrade, propunha a “deglutição” da cultura estrangeira para integrá-la à nacional. Na peça O rei da vela, Oswald causou estranhamento, intensificado com a montagem realizada pelo Teatro Oficina de São Paulo. O resultado teve grandes proporções, o que acabou influenciando, por exemplo, o cantor Caetano Veloso, que inspirado pelas apresentações compôs uma canção incluída na peça. Posteriormente, o artista utilizou um cenário da peça, o picadeiro de um circo, como capa do seu álbum Estrangeiro. O desdobramento do movimento antropofágico teve relativa importância na criação do Tropicalismo, movimento cultural de destaque na música da década de 1960.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 10
Capa da obra Alumbramentos.
Bandeira teve suas obras ilustradas por diversos artistas motivados a dar forma a seus principais temas, como Marcel Gromaire e Fayga Ostrower. Em 1960, a editora baiana Dinamene publicou em edição de luxo uma coletânea de poemas de amor sob o título Alumbramentos. O tema amoroso presente em “Toante”, “Teresa” e “Namorados” direcionam-se de forma admirada à figura feminina; a morte também é um dos temas recorrentes na poética de Bandeira.
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A poética da ausência Ao adoecer do pulmão com dezoito anos de idade, Manuel Bandeira abandonou os estudos e iniciou uma jornada em busca da melhoria da saúde. Em 1913, embarcou para a Suíça com o intuito de se tratar no Sanatório de Clavadel e precisou retornar ao Brasil durante a Primeira Guerra Mundial. Desde então, enfrentou uma série de perdas em sua família, as mortes da mãe, da irmã, do pai e do irmão, ficando sem a família próxima aos 36 anos de idade. A ausência, tão marcada em sua obra, foi um infortúnio que o acompanhou ao longo da vida. A infância, tempo marcado por felicidade, e o passado em Recife na companhia de Rosa, a babá negra que lhe contava histórias, estão em diversos poemas de Bandeira, como “Porquinho-da-Índia”, em que há a imagem da primeira desilusão amorosa; “Evocação do Recife”, onde o menino praticava travessuras, quebrando vidraças e brincando de chicote-queimado e “Vou-me embora pra Pasárgada”, poema simbólico, em que o espaço idealizado de uma cidade antiga da Pérsia se torna o paraíso perdido, o refúgio de suas mais profundas tristezas.
Saiba mais
Leonid Andronov/Shutterstock.com
ivanadb/iStockphoto.com
Pasárgada foi o espaço fictício de fuga de Manuel Bandeira, registrado no poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, verso que se tornou conhecido pelo público. O poeta afirmou em seu livro Itinerário de Pasárgada que tomou conhecimento da pequena cidade, localizada na região montanhosa da Pérsia, durante as aulas de grego, quando ainda era muito jovem. Nesse momento, o espaço ganhou forma na imaginação do menino, sendo marcada em seus poemas apenas décadas mais tarde. A imagem do passado apresenta ao leitor de Bandeira uma questão relevante para compreender sua poesia, a experiência com o tempo. Para o poeta, o tempo é mais uma concepção ritualística do que histórica, uma vez que foi através do passado infantil que a experiência lírica foi acessada. A melancolia de um tempo que não volta é ativada pela ausência em favor de um eterno retorno.
Placa indicativa de Pasárgada, Irã.
Imagem de Pasárgada, Irã.
Ler a poesia de Manuel Bandeira impõe ao leitor encarar o tema da morte presente em “Inscrição”, “A Dama Branca”, “Noite Morta”, “Profundamente”, “Momento num Café”, “A Morte Absoluta”, “Consoada”, entre outros poemas que discorrem liricamente sobre a finitude, o que nos permite afirmar uma ligação entre os elementos poéticos e a própria vida do autor. Em “Pneumotórax”, há uma gradação, em que o eu lírico é atendido em exame médico, após descrever os sintomas comuns da tuberculose: dispneia, febre e hemoptise. O diagnóstico irônico flerta com a morte, dada a impossibilidade de cura. A morte, portanto, é aguardada e personificada no campo da poesia em uma vida que poderia ter sido vivida, mas “ficou na sala de espera”.
FRENTE 2
Manuel Bandeira foi um poeta capaz de perceber o sublime e o divino por meio do cotidiano e da simplicidade. Embora tenha sido discípulo da poesia parnasiana, rompeu com as convenções da forma, sintetizando o espírito revolucionário modernista no livro Libertinagem, publicado em 1930. Os versos livres e o coloquialismo foram usados para tratar temas triviais, como notamos em “Não sei dançar”, em que o eu lírico toma a alegria pelos olhos ao observar as pessoas que se divertem no salão no baile de Carnaval. O “Poema tirado de uma notícia de jornal”, em que a enumeração das ações de um personagem que bebe, canta e dança e comete suicídio, remete ao texto jornalístico de linguagem referencial. O sublime oculto na obra de Bandeira requer um leitor atencioso para perceber as sutilezas textuais, em que o complexo se encontra contido no simples. O quadro de uma maçã observado sobre a mesa de um quarto de hotel revela o sublime ato cíclico da vida que “prodigiosa” se reproduz “infinitamente”, palpitando em pequenas sementes ocultas na fruta. Essa “coisa viva e pulsante” se revela por trás do quadro, enquanto a ambivalência vida-morte
Reprodução
A poesia da simplicidade e do sublime
Capa do livro Libertinagem, de Manuel Bandeira.
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reside na seleção vocabular, “murcho” e “placentário”, “vermelho” erotizado e “divino” mítico. A grandeza da vida se oculta na maçã, que se oferta à morte em um quarto simples de hotel. Estruturalmente, o termo “vida” se encontra no centro do poema, como um coração que pulsa, mas ninguém vê. A iluminação da existência simples e sem espanto é o “alumbramento” ao qual Bandeira se referiu ao afirmar em seus relatos sobre uma emoção intensa e espiritual vinda de forma momentânea, como se fosse um ato de iluminação. Na minha experiência pessoal fui verificando que o meu esforço consciente só resultava em insatisfação, ao passo que o que me saía do subconsciente, numa espécie de transe ou alumbramento, tinha ao menos a virtude de me deixar aliviado de minhas angústias. Longe de me sentir humilhado, rejubilava como se de repente me tivessem posto em estado de graça. BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. In: Seleta de prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
Essa experiência de transcendência que alimentou a poética de Bandeira associou-se a uma fixação de momentos de vida experimentados e que apresentaram distanciamento temporal do ato vivido. Não só a infância, mas o amor surgia como uma possibilidade de alumbramento. A ausência daquilo sobre o que se fala, como cenas do passado, possibilitou a reconstrução das cenas de figuras humanas perdidas no tempo. A realidade não captou o sentido desses elementos, mas a realidade poética foi capaz de traduzir e alcançar o inapreensível. No poema “Teresa”, a figura feminina é vista de forma fragmentada, em momentos distintos da vida do eu lírico, e deflagra a transcendência, já que a morte física é superada pela imagem poética que eleva a mulher ao campo das ideias.
Estabelecendo relações
Relações intertextuais entre a Carta de Pero Vaz de Caminha e algumas poesias de poetas modernistas Em [...] Oswald de Andrade, é possível encontrar um diálogo entre sua poesia e o relato de viagem de Caminha. [...] Se na Carta, predominava o aspecto informativo, na retomada poética que Oswald faz dela, surgem novos sentidos, ressaltando a mulher como objeto de desejo, fato que está implícito no relato de Caminha e explícito no poema “As meninas da gare”. Geralmente, nos grandes centros, próximos às estações, nas grandes cidades, nas primeiras décadas do século XX, era bastante comum a existência de prostíbulos, nos quais as mulheres ofereciam seus favores sexuais em troca de dinheiro. Nesse sentido, o poeta modernista revela o processo de coisificação que já aparecia veladamente no texto de Caminha, que enxergava somente as vantagens, as riquezas, que poderiam ser obtidas nas terras descobertas. Oswald oferece uma visão crítica das relações entre colonizador e colonizado, ressaltando aspectos negativos, que se mantinham camuflados no olhar do cronista, que parece deslumbrado com tudo o que vê, mas que o tempo todo busca sinais da existência de ouro e metais preciosos, não esquecendo jamais de exaltar a docilidade dos indígenas, presas fáceis de serem dominadas e subjugadas, como de fato aconteceu no período colonial. LIMA, André Luis Batista de. Relações intertextuais entre a Carta de Pero Vaz de Caminha e algumas poesias de poetas modernistas. Revista Ícone, v. 18, n. 2, 2018. p. 169-171. Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/icone/article/view/6967. Acesso em: 4 dez. 2023.
Revisando 001598_por_f2_c10_q0001discursiva
1. Considere seus conhecimentos sobre a poética de Manuel Bandeira e o texto de Yudith Rosembaum para responder à questão. [...] a infância aparece na fala mesma da criança, fazendo soar pela voz lírica um eu infantil. Evoca-se a infância sem explicação direta da falta através de um tom nostálgico, mas o ausente acaba por reviver na brincadeira de uma trova, de uma cantiga, de uma música, que recriam a atmosfera encantatória, infantil. Muitas vezes, a memória da infância aparece pela recriação humorística de cenas especiais, completamente despojadas de adornos encobridores da emoção principal. É o caso de “Porquinho da Índia” (Libertinagem). Em ambos, a criança é recuperada pela graça e inocência da linguagem. ROSENBAUM, Yudith. Manuel Bandeira: Uma poesia da Ausência. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002. p. 53.
A presença constante da infância nos poemas de Manuel Bandeira apresenta uma atmosfera romântica de saudosismo. Explique a razão dessa recorrência.
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2. Unesp 2019 Leia o poema “Pobre alimária”, de Oswald de Andrade, publicado originalmente em 1925. O cavalo e a carroça Estavam atravancados no trilho E como o motorneiro se impacientasse Porque levava os advogados para os escritórios Desatravancaram o veículo
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 10
E o animal disparou Mas o lesto carroceiro Trepou na boleia E castigou o fugitivo atrelado Com um grandioso chicote
(Pau-Brasil, 1990.)
Heróis do Modernismo no Brasil
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3. Retome o texto “Pobre alimária” e explique qual é o efeito de sentido provocado pelo título desse poema de Oswald de Andrade. Leia o poema a seguir de Mário de Andrade para responder às questões 4 e 5.
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Mas a taba cresceu... Tigueras agressivas, Para trás! Agora o asfalto anda em Tabatinguera. Mal se esgueira um pajé entre locomotivas E o forde assusta os manes lentos do Anhanguera. [...] Segue pra forca da Tabatinguera. Lento O cortejo acompanha a rubra cadeirinha Pro Ipiranga. Será que em tão pequeno assento A marquesa botou sua imperial bundinha!...
de Jesus pra indiada brasileira. Quando o herói saiu do banho estava branco louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas. Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão do Sumé. Porém a água já estava muito suja da negrura do herói e por mais que Jiguê esfregasse feito maluco atirando água pra todos os lados só conseguiu ficar da cor do bronze novo. Macunaíma teve dó e consolou: — Olhe, mano Jiguê, branco você ficou não, porém pretume foi-se e antes fanhoso que sem nariz. ANDRADE, Mário de. Macunaíma. Disponível em: https://www. castroweb.com.br/castrodigital/Arquivos2020/CastroDigital_livro_ Macunaima_Mario_de_Andrade.pdf. Acesso em: 5 dez. 2023.
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6. De acordo com o trecho, explique por que a obra de Mário de Andrade é considerada uma rapsódia.
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7. De acordo com o aspecto cultural discutido na questão anterior, explique por que o protagonista da obra Macunaíma é chamado de “herói sem nenhum caráter”. Associe a resposta à proposta modernista.
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8. Observe a capa do livro Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade, e leia a canção de Noel Rosa, composta em 1935. Reprodução
Considerando o momento de sua produção, o poema a) celebra a persistência das tradições rurais brasileiras, que inviabilizaram o avanço do processo de industrialização de São Paulo. b) valoriza a variedade e a eficácia dos meios de transporte, que contribuíam para impulsionar a economia brasileira. c) critica a recorrência das práticas de exploração e maus-tratos aos animais nos principais centros urbanos brasileiros. d) registra uma rápida cena urbana, que expõe tensões e ambiguidades no processo de modernização da cidade de São Paulo. e) exemplifica o choque social constante entre as elites enriquecidas e a população pobre da cidade de São Paulo.
ANDRADE, Mário de. Tabatinguera. In: Poesias completas. v. 1. São Paulo: Martins Fontes, 1979.
tigueras: área plantada onde já se fez a colheita. manes: alma dos mortos, restos mortais. 001598_por_f2_c10_q0004discursiva 001598_por_f2_c10_t0002
4. A partir da leitura do poema, explique como o avanço da expansão urbana de São Paulo se relaciona com o espaço indígena.
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5. Indique um verso do poema de Mário de Andrade que apresente a irreverência e a crítica típicas da postura modernista. Leia o trecho de Macunaíma, de Mário de Andrade, para responder às questões 6 e 7.
Capa do livro Pauliceia desvairada.
Pierrot apaixonado Um pierrô apaixonado Que vivia só cantando Por causa de uma colombina Acabou chorando, acabou chorando
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A colombina entrou num butiquim Bebeu, bebeu, saiu assim, assim Dizendo: pierrô cacete Vai tomar sorvete com o arlequim
FRENTE 2
Uma feita a Sol cobrira os três manos duma escaminha de suor e Macunaíma se lembrou de tomar banho. Porém no rio era impossível por causa das piranhas tão vorazes que de quando em quando na luta pra pegar um naco de irmã espedaçada, pulavam aos cachos pra fora d’água metro e mais. Então Macunaíma enxergou numa lapa bem no meio do rio uma cova cheia d’água. E a cova era que-nem a marca dum pé-gigante. Abicaram. O herói depois de muitos gritos por causa do frio da água entrou na cova e se lavou inteirinho. Mas a água era encantada porque aquele buraco na lapa era marca do pezão do Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho
Um grande amor tem sempre um triste fim Com o pierrô aconteceu assim Levando esse grande chute Foi tomar vermute com amendoim Canção de Noel Rosa. Disponível em: https://www.letras.mus.br/ noel-rosa-musicas/125758/. Acesso em: 5 dez. 2023.
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Pesquise sobre a representação simbólica dos personagens na Commedia dell’Arte e explique a oposição estabelecida entre Arlequim e Pierrot diante da recusa de Colombina vista na canção.
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9. Pesquise os poemas que homenageiam a cidade de São Paulo presentes no livro Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade. Em grupo com seus colegas, selecionem dois poemas para serem reescritos a partir da relação afetiva que vocês têm com a sua cidade. Façam um painel ou um varal para expor os poemas.
Exercícios propostos 001598_por_f2_c10_q0011objetiva
até hoje do movimento que chamam de “modernismo”. Foi ela que nos permitiu a intuição de que carecemos, sob pena de morte, de procurar uma arte de expressão nacional.
1. Unicamp-SP 2021 Texto 1
antipoema
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O lado oposto e outros lados, 1926.
é preciso rasurar o cânone distorcer as regras as rimas as métricas
II. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.
o padrão a norma que prende a língua
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil, 1936.
Os dois excertos do historiador e crítico literário Sérgio Buarque de Holanda salientam que a cultura brasileira somente completará a sua formação quando
os milionários que se beneficiam do nosso silêncio do medo de se dizer poeta, só assim será livre a palavra. (Ma Njanu é idealizadora do “Clube de Leitoras” na periferia de Fortaleza e da “Pretarau, Sarau das Pretas”, coletivo de artistas negras. Disponível em: http://recantodasletras.com.br/poesias/6903974. Acessado em 20/05/2020.)
Texto 2 O povo não é estúpido quando diz “vou na escola”, “me deixe”, “carneirada”, “mapear”, “farra”, “vagão”, “futebol”. É antes inteligentíssimo nessa aparente ignorância porque, sofrendo as influências da terra, do clima, das ligações e contatos com outras raças, das necessidades do momento e de adaptação, e da pronúncia, do caráter, da psicologia racial, modifica aos poucos uma língua que já não lhe serve de expressão porque não expressa ou sofre essas influências e a transformará afinal numa outra língua que se adapta a essas influências.
Apesar de passados quase 100 anos, a carta de Mário de Andrade ecoa no poema de Ma Njanu. Ambos os textos manifestam a) a ignorância ratificada do povo em sua luta para se expressar. b) a necessidade de diversificar a língua segundo outros costumes. c) a inteligência do povo e dos poetas livres de influências. d) a ingenuidade em se crer na possibilidade de escapar às regras.
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2. Fuvest-SP 2023 I. É indispensável romper com todas as diplomacias nocivas, mandar pro diabo qualquer forma de hipocrisia, suprimir as políticas literárias e conquistar uma profunda sinceridade pra com os outros e pra consigo mesmo. A convicção dessa urgência foi pra mim a melhor conquista LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 10
souber reproduzir fielmente os modelos externos. importar uma estética à altura da sua genialidade. abolir a necessidade de figurar o caráter nacional. deixar a posição de colônia e se tornar metrópole. firmar, na arte e na vida social, a sua autenticidade.
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(Carta de Mário a Drummond, 18 de fevereiro de 1925, em Lélia Coelho Frota, Carlos e Mário: correspondência completa entre Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2002, p. 101.)
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a) b) c) d) e)
3. Unisc-RS 2017 Leia atentamente o trecho de Macunaíma, de Mário de Andrade. No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: — Ai! que preguiça!... e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaimuns diz-que habitando a água-doce por lá. No mucambo si alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha. Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém respeitava os velhos e frequentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo. (ANDRADE, Mario de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987. p. 9)
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4. Leia o texto a seguir. Uma análise pouco mais atenta do livro mostra que ele foi construído a partir da combinação de uma infinidade de textos preexistentes, elaborados pela tradição oral ou escrita, popular ou erudita, europeia ou brasileira. A originalidade estrutural de Macunaíma deriva, deste modo, do livro não se basear na mímesis, isto é, na dependência constante que a arte estabelece entre o mundo objetivo e a ficção; mas em ligar-se quase sempre a outros mundos imaginários, a sistemas fechados de sinais, já regidos por significação autônoma. Este processo, parasitário na aparência, é no entanto curiosamente inventivo; pois, em vez de recortar com neutralidade nos entrechos originais as partes de que necessita para reagrupá-las, intactas, numa ordem nova, atua quase sempre sobre cada fragmento, alterando-o em profundidade. SOUZA, Gilda de Mello e. O tupi e o alaúde. São Paulo: Editora 34, 2003. p. 10.
Macunaíma, obra de Mário de Andrade referenciada no trecho, é classificada como uma rapsódia. Pesquise o significado desse termo e associe-o à explicação de Gilda de Mello e Souza.
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5. O trecho a seguir foi extraído do “Prefácio interessantíssimo”, de Pauliceia desvairada (1922), escrito por Mário de Andrade: Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. D’aí a razão deste “Prefácio interessantíssimo”. ANDRADE, Mário de. Pauliceia desvairada. São Paulo: Projeto Livro Verde, 2016.
O livro do escritor paulista é um marco na vida do autor e no Modernismo brasileiro. O prefácio citado anteriormente é uma espécie de conjunto de bases estéticas que proclamam o rompimento com as estruturas do passado. A característica que está presente em Pauliceia desvairada é a) a experiência externa de confusão e desordem que não altera a percepção subjetiva do sujeito. b) a constante definição de uma identidade nacional aos moldes do padrão artístico europeu.
c) a crítica social às novas classes de trabalhadores que se formavam em São Paulo. d) o tumulto da cidade que se mistura com os anseios de um sujeito lírico agitado e integrado ao meio. e) a organização e a consolidação de ideias inovadoras que surgiram na primeira fase modernista.
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6. Enem
O canto do guerreiro Aqui na floresta Dos ventos batida, Façanhas de bravos Não geram escravos, Que estimem a vida Sem guerra e lidar. — Ouvi-me, Guerreiros, — Ouvi meu cantar.
Valente na guerra, Quem há, como eu sou? Quem vibra o tacape Com mais valentia? Quem golpes daria Fatais, como eu dou? — Guerreiros, ouvi-me; — Quem há, como eu sou? Gonçalves Dias.
Macunaíma (Epílogo) Acabou-se a história e morreu a vitória. Não havia mais ninguém lá. Dera tangolomângolo na tribo Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia mais ninguém lá. Aqueles lugares, aqueles campos, furos puxadouros arrastadouros meios-barrancos, aqueles matos misteriosos, tudo era solidão do deserto... Um silêncio imenso dormia à beira do rio Uraricoera. Nenhum conhecido sobre a terra não sabia nem falar da tribo nem contar aqueles casos tão pançudos. Quem podia saber do Herói? Mário de Andrade.
A leitura comparativa dos dois textos indica que a) ambos têm como tema a figura do indígena brasileiro apresentada de forma realista e heroica, como símbolo máximo do nacionalismo romântico. b) a abordagem da temática adotada no texto escrito em versos é discriminatória em relação aos povos indígenas do Brasil. c) as perguntas “– Quem há, como eu sou?” (1o texto) e “Quem podia saber do Herói?” (2o texto) expressam diferentes visões da realidade indígena brasileira. d) o texto romântico, assim como o modernista, aborda o extermínio dos povos indígenas como resultado do processo de colonização no Brasil. e) os versos em primeira pessoa revelam que os indígenas podiam expressar-se poeticamente, mas foram silenciados pela colonização, como demons tra a presença do narrador, no segundo texto.
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7. Ufam 2022 Maria Augusta Fonseca, professora da USP, em artigo sobre o Modernismo, diz: “Gilda de Mello e Souza, autora de uma análise interpretativa de Macunaíma, afirma que a obra é sumo da incompletude de nossa formação. A história vazada numa ‘fala impura’, permeada de ambiguidades, misto de arcaico e moderno, resume na demanda da pedra mágica a metáfora da busca de uma identidade perdida.
FRENTE 2
A partir da interpretação do trecho anterior, assinale a alternativa correta. a) Macunaíma é um típico herói idealizado do Romantismo. b) Observa-se, no trecho, que o comportamento da personagem está em sintonia com o ambiente em que vive, sendo, por esse motivo, um romance típico do Naturalismo. c) O trecho apresenta a inovação em termos de linguagem que caracteriza as obras literárias da primeira geração do Modernismo. d) O texto apresenta as características que marcam o regionalismo crítico da prosa da segunda geração do Modernismo. e) O aprofundamento psicológico da personagem permite afirmar que se trata de um romance da terceira geração do Modernismo brasileiro.
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Esperança vã de reconquista, dado o impasse criado pelo herói ao rejeitar sua própria cultura” (FONSECA, 2022, p. 547 a 579). Sobre a fala da pesquisadora acerca do livro Macunaíma, afirma-se: I. A busca pela muiraquitã representaria a tentativa do herói de reencontrar uma identidade que não existe, uma vez que, ao sair do Amazonas, deixar a consciência na ilha de Marapatá, embranquecer-se na água da pegada do santo, tentar viver como um paulistano, Macunaíma teria abdicado da sua cultura e de sua identidade. II. Quando a estudiosa menciona ‘fala impura’, ‘misto de arcaico e moderno’ está se referindo à linguagem da obra, considerando principalmente a Carta pras Icamiabas. III. A ‘incompletude de nossa formação’, pela perspectiva da pesquisadora, no livro de Mário de Andrade, pode ser contestada, afinal, no livro, o herói tem seu “pretume” lavado pela água do ‘pezão do Sumé’, marcando em si a formação e a identidade nacional: como indígena da tribo dos Tapanhumas, negro, sai do banho ‘branco louro e de olhos azuizinhos’, sintetizando a formação do povo brasileiro.
particularmente às propostas do Manifesto Pau-Brasil, de Oswald de Andrade. Constrói imagens incompatíveis com os ideais de progresso e civilização, trazidos pelas vanguardas europeias, inspiradoras do Modernismo brasileiro. Reforça os elementos naturais da paisagem, remetendo à “cor local”, tal como o nacionalismo presente em José de Alencar e Gonçalves Dias. Descreve a exuberância da natureza tropical, apropriando-se de maneira paródica dos discursos dos primeiros cronistas, que alardeavam as belezas naturais das terras recém-descobertas. A sequência correta de preenchimento é a) F – V – F – F. b) V – F – F – V. c) V – F – V – V. d) F – F – V – F. e) V – V – F – V.
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10. Mackenzie-SP 2018
3 de Maio Oswald de Andrade
Aprendi com meu filho de dez anos Que a poesia é descoberta Das coisas que eu nunca vi
Assinale a alternativa CORRETA: a) Somente a afirmativa I é verdadeira. b) Somente a afirmativa II é verdadeira. c) Somente a afirmativa III é verdadeira. d) Somente as afirmativas I e III são verdadeiras. e) Todas as afirmativas são verdadeiras.
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8. Leia o trecho a seguir e responda: Como podemos entender a expressão “arlequinal”, de Mário de Andrade? São Paulo! comoção de minha vida... Os meus amores são flores feitas de original... Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro... Luz e bruma... Forno e inverno morno... Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes... Perfumes de Paris... Arys! Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!... ANDRADE, Mário de. “Inspiração“. In: Poesias completas. São Paulo: Edusp, 1987. p. 83. 001598_por_f2_c10_q0020objetiva
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9. UFRGS 2020 Considere o poema abaixo, de Oswald de Andrade, do livro Pau-Brasil, de 1925.
Riquezas Naturais Muitos metaes pepinos romans e figos De muitas castas Cidras limões e laranjas Uma infinidade Muitas cannas daçucre Infinito algodam Também há muito paobrasil Nestas capitanias
Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre o poema. Insere-se no contexto do primitivismo das vanguardas do Modernismo brasileiro, remetendo
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 10
Assinale a alternativa correta sobre a vida e a obra do poeta Oswald de Andrade (1890-1954). a) Dedicou-se exclusivamente à feitura de poemas líricos ao longo de sua extensa obra literária. b) A paródia é um recurso usado em sua poesia, como atesta o poema “Canto do regresso à pátria”. c) Aderiu tardiamente ao movimento modernista por ter se assumido como seguidor das ressalvas ao modernismo formuladas por Monteiro Lobato. d) Escreveu os seguintes romances de realismo social engajado: O Quinze e Vidas secas. e) Demonstrou em sua poesia um desinteresse pela nossa cultura e pelo português brasileiro, preferindo emular fielmente as vanguardas francesas.
11. PUC-Campinas 2017 Para responder à questão, considere o texto a seguir. Os modernistas de São Paulo, em especial Menotti del Picchia e Oswald de Andrade, usavam habitualmente o termo “futurismo”, mas o faziam em sentido elástico, para designar as propostas mais ou menos renovadoras que se opunham às receitas “passadistas” e “acadêmicas”. A polarização futurismo 3 passadismo servia como tática retórica eficaz – mas também simplificadora. Esse aspecto do discurso modernista, que se apresentava como ruptura com o “velho”, acabava por atirar na lata do lixo do “passadismo” manifestações variadas, às quais, diga-se, não raro os próprios “novos” estavam atados. GONÇALVES, Marcos. Augusto. 1922 – A semana que não terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 20.
O modernista Oswald de Andrade chegou a dizer que somos todos futuristas porque somamos um povo de
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mil origens, arribado em mil barcos, com desastres e ânsias, aludindo assim a) aos gêneros literários que deveriam ser frequentados. b) à diversidade da nossa composição histórica, étnica e cultural. c) às diversas facções em que se dividiam os modernistas. d) à força da aristocracia na condução de nossas manifestações artísticas. e) às formas de atuação a que estavam presos os artistas conservadores.
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12. Enem
Um dos principais traços da poesia modernista é a tentativa de unir arte e vida, incorporando o cotidiano à esfera da arte, deslocando a arte de seu lugar “sagrado” (intocável) e miscigenando temas considerados “elevados” e “abstratos” à concretude da vida comum. Explique de que modo isso ocorre no texto.
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14. UFU-MG Em vários capítulos de Memórias sentimentais de João Miramar, Oswald de Andrade apresenta a paisagem urbana e caótica, bem como a diversidade da população. Higienópolis fervilhou iluminações passos no jardim idas à rua de crianças com jogos. O irmão de José Chelinini interveio esgalgo almofadinha impávido com sobriquete de Periquito e furtados cigarros. Back batuta de campeonatos sapecava shoots no muro longe do quintal, tratando de canjas a mim e ao conde, interventores estabanados. Os pais vieram si sinhore lembrando nos olhos praias satisfeitas de golfos humildes de Itália. E gaffes jantaram vinhos finos. ANDRADE, Oswald de. Memórias sentimentais de João Miramar.
esgalgo: magro. sobriquete: apelido.
a) Com base no comentário anterior, redija um texto explicando o espaço urbano em que se desenrola este fragmento da narrativa. b) Identifique, nos estrangeirismos presentes no texto, três influências culturais que se mesclaram à cultura brasileira no início do século XX.
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O poema de Oswald de Andrade remonta à ideia de que a brasilidade está relacionada ao futebol. Quanto à questão da identidade nacional, as anotações em torno dos versos constituem a) direcionamentos possíveis para uma leitura crítica de dados histórico-culturais. b) forma clássica da construção poética brasileira. c) rejeição à ideia do Brasil como o país do futebol. d) intervenções de um leitor estrangeiro no exercício de leitura poética. e) lembretes de palavras tipicamente brasileiras substitutivas das originais.
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13. UFJF-MG 2022
Balada do Esplanada (trecho) Oswald de Andrade
Há poesia Na dor Na flor No beija-flor No elevador (Fonte: ANDRADE, Oswald de. Obras completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.)
O movimento deflagrado em 1922 estava se reconfigurando. (MARQUES, Ivan. “Trem da modernidade”. Revista de História da Biblioteca Nacional, fev. 2012. Adapt.)
Entre as características da “reconfiguração” do Modernismo, citada no texto, podemos incluir a) a politização do movimento, o resgate de princípios estéticos do parnasianismo e o indigenismo. b) a retomada da tradição simbolista, a defesa da internacionalização da arte brasileira e a valorização das tradições orais. c) a incorporação da estética surrealista, o apoio ao movimento tenentista e a defesa do verso livre. d) a defesa do socialismo, a crítica ao barroco brasileiro e a revalorização do mundo rural. e) a maior nacionalização do movimento, o declínio da influência futurista e o aumento da preocupação primitivista.
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FRENTE 2
MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA. Oswald de Andrade: o culpado de tudo. 27 set. 2011 a 29 jan. 2012. São Paulo: Prol Gráfica, 2012.
15. Unesp 2015 Em 1924, uma caravana formada por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, entre outros, percorreu as cidades históricas mineiras e acabou entrando para os anais do Modernismo.
16. UFRGS 2015 No primeiro bloco, estão listados os títulos de algumas obras do Modernismo brasileiro; no segundo bloco, nomes de autores modernistas. Associe adequadamente os dois blocos.
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1. 2. 3. 4. 5.
Memórias sentimentais de João Miramar Macunaíma Cobra Norato Juca Mulato O ritmo dissoluto
18. Unifesp 2020 Leia o trecho do poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira.
Raul Bopp Manuel Bandeira Oswald de Andrade Mário de Andrade A sequência correta de preenchimento, de cima para baixo, é a) 4 – 3 – 1 – 2 d) 3 – 2 – 4 – 1 b) 5 – 4 – 2 – 1 e) 3 – 5 – 1 – 2 c) 1 – 5 – 2 – 4
O sapo-tanoeiro [...] Diz: — “Meu cancioneiro É bem martelado.
Vai por cinquenta anos Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A formas a forma.
Vede como primo Em comer os hiatos! Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos.
Clame a saparia Em críticas céticas: Não há mais poesia Mas há artes poéticas...”
O meu verso é bom Frumento sem joio. Faço rimas com Consoantes de apoio. (Estrela da vida inteira, 1993.)
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17. Enem 2020 Vou-me embora p’ra Pasárgada foi o poe ma de mais longa gestação em toda a minha obra. Vi pela primeira vez esse nome Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. [...] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas” ou “tesouro dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias, como o de L’invitation au Voyage, de Baudelaire. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que eu não tinha feito em minha vida por motivo da doença, saltou-me de súbito do subconsciente este grito estapafúrdio: “Vou-me embora p’ra Pasárgada!” Senti na redondilha a primeira célula de um poema, e tentei realizá-lo, mas fracassei. Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio, me ocorreu o mesmo desabafo de evasão da “vida besta”. Desta vez o poema saiu sem esforço como se já estivesse pronto dentro de mim. Gosto desse poema porque vejo nele, em escorço, toda a minha vida; [...] Não sou arquiteto, como meu pai desejava, não fiz nenhuma casa, mas reconstruí e “não de uma forma imperfeita neste mundo de aparências’, uma cidade ilustre, que hoje não é mais a Pasárgada de Ciro, e sim a “minha” Pasárgada.
No trecho, o “sapo-tanoeiro” representa uma sátira aos a) modernistas. d) parnasianos. b) românticos. e) árcades. c) naturalistas.
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19. Uncisal 2014
Poema só para Jaime Ovalle Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada) Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei [pensando... — Humildemente pensando na vida e nas mulheres que [amei BANDEIRA, Manuel. Bandeira de bolso: uma antologia poética. Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 113.
A partir da leitura do poema, pode-se inferir que a) é um texto característico do Modernismo, pelo uso do verso livre e pela incorporação de aspectos do cotidiano na poesia, tais como os eventos banais narrados pelo poema em questão. b) pertence à fase final da poesia de Manuel Bandeira, quando o poeta, desiludido com as propostas do Modernismo, retorna ao uso das formas poéticas fixas. c) é representativo do Modernismo, fato que se comprova pela liberdade que toma o poeta ao incluir o nome de um amigo seu no título do poema. d) é um típico poema da geração de 45, da qual Manuel Bandeira foi o principal representante. e) é representativo da poesia simbolista, estética que esteve presente em Cinza das Horas, primeiro livro de poemas de Manuel Bandeira.
BANDEIRA. M. Itinerário da Pasárgada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL. 1984.
Os processos de interação comunicativa preveem a presença ativa de múltiplos elementos da comunicação, entre os quais se destacam as funções da linguagem. Nesse fragmento, a função da linguagem predominante é a) emotiva, porque o poeta expõe os sentimentos de angústia que o levaram à criação poética. b) referencial, porque o texto informa sobre a origem do nome empregado em um famoso poema de Bandeira. c) metalinguística, porque o poeta tece comentários sobre a gênese e o processo de escrita de um de seus poemas. d) poética, porque o texto aborda os elementos estéticos de um dos poemas mais conhecidos de Bandeira. e) apelativa, porque o poeta tenta convencer os leitores sobre sua dificuldade de compor um poema.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 10
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20. PUC-Campinas 2018 Sou bem-nascido. Menino, Fui, como os demais, feliz. Depois veio o mau destino E fez de mim o que quis.
Heróis do Modernismo no Brasil
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21. UFBA
Belo belo Belo belo minha bela Tenho tudo que não quero Não tenho nada que quero Não quero óculos nem tosse Nem obrigação de voto Quero quero Quero a solidão dos píncaros A água da fonte escondida A rosa que floresceu Sobre a escarpa inacessível A luz da primeira estrela Piscando no lusco-fusco Quero quero Quero dar a volta ao mundo Só num navio de vela Quero rever Pernambuco Quero ver Bagdá e Cusco Quero quero Quero o moreno de Estela Quero a brancura de Elisa Quero a saliva de Bela Quero as sardas de Adalgisa Quero quero tanta coisa Belo belo Mas basta de lero-lero Vida noves fora zero. BANDEIRA, Manuel. In: MORICONI, Ítalo (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 93-4.
Responda às questões a seguir com base na leitura do poema de Manuel Bandeira. a) O último verso apresenta um sentido metafórico para a conta matemática. Explique de que modo essa linguagem produz sentido no poema. b) Justifique a presença do verso livre no poema e na estética a que pertence a obra poética de Bandeira.
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22. UPF-RS 2017 Sobre o livro Libertinagem, de Manuel Bandeira, publicado em 1930, apenas é incorreto afirmar que: a) Apresenta uma poesia concebida de modo lúcido e calculado, que não abre espaço a manifestações do subconsciente.
b) Confirma seu autor como um dos melhores poetas do verso livre em português. c) Realiza uma feliz incorporação de motivos e termos prosaicos à poesia brasileira. d) Evoca, em vários momentos, o tema da morte, que atravessa a obra do autor. e) Sustenta, no poema-manifesto “Poética”, a defesa da plena liberdade de criação estética.
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23. EBMSP-BA 2018
Consoada Quando a Indesejada das gentes chegar (Não sei se dura ou caroável), Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: — Alô, iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer. (A noite com os seus sortilégios.) Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar. BANDEIRA, Manuel. Consoada. Antologia Poética. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 133.
Sobre esses versos de Manuel Bandeira, está correto o que se afirma em a) Mostram uma dissociação entre a realidade concreta e a presumível. b) Sintetizam o mascaramento da angústia como solução diante do inevitável. c) Revelam a instabilidade do sujeito poético diante da transitoriedade da vida. d) Tematizam, metafórica e eufemisticamente, a morte, que é aceita, embora não desejável. e) Refletem a desilusão diante de um viver sem sentido, devido ao mal sem cura que o acometeu.
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24. UPF-RS 2019 Sobre Libertinagem, de Manuel Bandeira, apenas é incorreto afirmar que a) nos poemas aí reunidos, transparece a decisão do autor de romper com o formalismo parnasiano e simbolista, que influenciava sua produção poética anterior. b) o temor da morte iminente que assombra o sujeito lírico é uma das temáticas em evidência no livro, ganhando destaque, por exemplo, no poema intitulado “Pensão familiar”. c) o poema intitulado “Poética” traz uma síntese das ideias do autor sobre como deveria ser a poesia, e manifesta sua recusa ao lirismo que não seja libertação. d) “Poema tirado de uma notícia de jornal”, como sugere o próprio título, apresenta recursos próprios à poesia lírica, assemelhando-se em alguns aspectos a uma notícia de jornal. e) o livro, publicado na primeira metade do século XX, representa um marco da poesia modernista do Brasil.
FRENTE 2
Esses versos de Manuel Bandeira atestam a) sua adesão ao que havia de mais radical na poética dos modernistas de 1922. b) a poesia que compôs ainda nos moldes de uma linguagem mais tradicional. c) seu ingresso na corrente modernista conhecida como Verde-Amarelismo. d) a influência que recebeu da poesia condoreira romântica. e) sua empatia para com os ideais da Geração de 1945.
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Texto complementar
Renato Borghi estreia nas lives com adaptação de clássico O Rei da Vela
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Veja os principais assuntos e conceitos trabalhados neste capítulo acessando a seção Resumindo no livro digital, na Plataforma Poliedro.
Quer saber mais? Livro – A semana que não terminou, de Marcos Augusto Gonçalves. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Nesse livro, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves mescla reportagem e relato histórico com o intuito de retomar os principais eventos associados à Semana de Arte Moderna, desmistificando alguns dos mitos criados ao longo da História.
Vídeo Canal Café Filosófico CPFL. Macunaíma e o enigma do herói às avessas. YouTube, 8 maio 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=l_hWIfYna7k . Acesso em: 5 dez. 2023. Nesse vídeo, o crítico José Miguel Wisnik aborda a obra Macunaíma, de Mário de Andrade, discutindo o sentido do termo “caráter” adotado para designar o herói às avessas.
Exercícios complementares 002447_por_f2_c10_q0004objetiva
1. UFRGS 2022 Assinale a alternativa correta em relação à Semana de Arte Moderna, de 1922. a) É considerada o marco inicial do modernismo brasileiro, cujas propostas estéticas são imediatamente incorporadas pelos movimentos locais de renovação, em outros estados do Brasil. b) Coincide com o Centenário da Independência do Brasil, materializando o compromisso do modernismo com o passado, em busca da afirmação dos heróis colonizadores. c) Tem como marco inaugural a obra Macunaíma, de Mário de Andrade, cujo personagem configura o caráter nacional brasileiro, resultante da miscigenação étnica entre negros e brancos. d) Desdobra-se no Manifesto Antropófago, no qual Oswald de Andrade propõe a retomada do elemento indígena, reprimido pela civilização, como matriz de pensamento e experimentação estética. e) É marcada pela recusa da influência das vanguardas europeias, como o Futurismo, o Dadaísmo, o Cubismo, entre outras, uma vez que os artistas e intelectuais modernistas estavam engajados na criação de uma arte autenticamente nacional.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 10
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2. Enem 2020 Assim, está nascendo dentro da língua portuguesa, e provavelmente dentro de todas as demais línguas, uma nova linguagem, a linguagem radiofônica. Como a dos engenheiros, como a dos gatunos, como a dos amantes, como a usada pela mãe com o filho que ainda não fala, essa linguagem radiofônica tem suas características próprias determinadas por exigências ecológicas e técnicas. ANDRADE, M. apud PINTO, E. P. O português do Brasil. São Paulo: Edusp, 1981.
Mário de Andrade, ao se referir ao impacto que o rádio teria nas pessoas e principalmente sobre a linguagem, possibilita uma reflexão acerca a) das relações sociais específicas da sociedade da época. b) da relação entre o meio e o contexto social de enunciação. c) do nascimento das línguas a partir de exigências sociais específicas. d) das demais línguas do mundo, por possuírem características em comum. e) da especificidade da linguagem radiofônica, em detrimento de outras linguagens.
Heróis do Modernismo no Brasil
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tristeza brasileira, de Paulo Prado (escritor a quem Mário de Andrade dedicou Macunaíma), é hoje um livro quase esquecido. Quando saiu, porém, alcançou êxito excepcional: quatro edições entre 1928 e 1931. O momento era propício para tentar explicações do Brasil, país que se via a si mesmo como um ponto de interrogação. Terra tropical e mestiça condenada ao atraso ou promessa de um eldorado sul-americano? BOSI, Alfredo. Céu, Inferno. São Paulo: Ática, 1988. p. 137
A razão pela qual o escritor Mário de Andrade dedicou a Paulo Prado seu romance Macunaíma é sugerida no próprio texto, uma vez que nesse romance o autor pretende a) romper com as amarras desse gênero da ficção, apostando em uma narração caótica e puramente experimental. b) historiar a saga da família Prado, identificando-a com a história dos chamados barões do café da Pauliceia. c) criar um protagonista cuja história espelhe e transfigure a diversidade e a busca de identidade cultural do povo brasileiro. d) denunciar o nacionalismo das tendências artísticas que retratam o Brasil como se fosse o centro do universo. e) lamentar o atraso de nosso país, enquanto sugere que nosso futuro está na modernização e na tecnologia.
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4. UPE 2017 Texto 1
Retrato de Novembro I Os trabalhadores protestam na rua, Excelência. Não me incomodam! Como?! Não vou sair para essas bandas! Querem avistar-se com Vossa Excelência. Não os conheço! Já estão a fazer barulho. Manda-os embora! Não abalam. Manda-os calar! Não nos escutam, Excelência. Bom, somos um país livre! Mas a gritaria vai-nos incomodar. Fecha as portas e as janelas! Mesmo assim os ouviremos. Tapa os ouvidos! Também não resulta, Excelência. Então, ignora-os! Como?! Finge que não existem! Vai ser difícil, Excelência. Mas não impossível!
II E os massacres no Alentejo, Excelência? Oh nada de extraordinário a assinalar Senão os coveiros já teriam reclamado Horas suplementares! (Mário de Andrade)
Texto 2 Alerta Lá vem o lança-chamas Pega a garrafa de gasolina Atira Eles querem matar todo amor Corromper o polo Estancar a sede que eu tenho doutro ser Vem de flanco, de lado Por cima, por trás Atira Atira Resiste Defende De pé De pé De pé O futuro será de toda a humanidade (Oswald de Andrade) Acerca dos Textos 1 e 2, bem como dos seus autores e do contexto histórico e literário em que estão inscritos, analise as seguintes proposições.
I.
O Texto 1 é um poema em que o autor se revela comprometido com as causas sociais de seu tempo, e em que um eu lírico questionador faz vir à tona imagens da indiferença de quem está no poder, subjugando o oprimido.
II. Mário de Andrade foi o autor de Macunaíma, cujo protagonista é um “herói sem nenhum caráter”, uma espécie de mito grego, nascido na selva amazônica que vai até São Paulo, em busca de um valioso talismã. Sobre o nascimento desse mito, confira o seguinte trecho: “No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite”. III. O Texto 2 é um poema, cujo eu lírico é um revolucionário, em luta por sua liberdade. A sua causa, isto é, o seu ideal, é a humanidade. IV. Para Oswald de Andrade, no seu Manifesto da Poe sia Pau-brasil, “a poesia existe nos fatos”. Isso faz entender que ele conseguiu reunir, na sua poesia e na sua prosa, elementos para um olhar crítico sobre a realidade brasileira. Estão CORRETAS: a) I e II, apenas. b) I, III e IV, apenas. c) II e III, apenas.
d) II e IV, apenas. e) I, II, III e IV
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5. Enem 2016
FRENTE 2
3. PUC-Campinas 2016 Retrato do Brasil: ensaio sobre a
Descobrimento Abancado à escrivaninha em São Paulo Na minha casa da rua Lopes Chaves De sopetão senti um friúme por dentro.
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Fiquei trêmulo, muito comovido Com o livro palerma olhando pra mim. Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! Muito [longe de mim, Na escuridão ativa da noite que caiu, Um homem pálido, magro de cabelos escorrendo nos olhos Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, Faz pouco se deitou, está dormindo. Esse homem é brasileiro que nem eu... ANDRADE, M. Poesias completas. São Paulo: Edusp, 1987.
O poema “Descobrimento”, de Mário de Andrade, marca a postura nacionalista manifestada pelos escritores modernistas. Recuperando o fato histórico do “descobrimento”, a construção poética problematiza a representação nacional a fim de a) resgatar o passado indígena brasileiro. b) criticar a colonização portuguesa no Brasil. c) defender a diversidade social e cultural brasileira. d) promover a integração das diferentes regiões do país. e) valorizar a região Norte, pouco conhecida pelos brasileiros.
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6. Enem 2015
O peru de Natal O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres. ANDRADE, M. In: MORICONI, I. Os cem melhores contos brasileiros do século. São Paulo: Objetiva, 2000 (fragmento).
No fragmento do conto de Mário de Andrade, o tom confessional do narrador em primeira pessoa revela uma concepção das relações humanas marcada por a) distanciamento de estados de espírito acentuado pelo papel das gerações. b) relevância dos festejos religiosos em família na sociedade moderna c) preocupação econômica em uma sociedade urbana em crise. d) consumo de bens materiais por parte de jovens, adultos e idosos. e) pesar e reação de luto diante da morte de um familiar querido.
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7. Enem 2015
Vei, a Sol Ora o pássaro careceu de fazer necessidade, fez e o herói ficou escorrendo sujeira de urubu. Já era de madrugadinha e o tempo estava inteiramente frio.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 10
Macunaíma acordou tremendo, todo lambuzado. Assim mesmo examinou bem a pedra mirim da ilhota para vê si não havia alguma cova com dinheiro enterrado. Não havia não. Nem a correntinha encantada de prata que indica pro escolhido, tesouro de holandês. Havia só as formigas jaquitaguas ruivinhas. Então passou Caiuanogue, a estrela da manhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto viver pediu pra ela que o carregasse pro céu. Caiuanogue foi se chegando porém o herói fedia muito. — Vá tomar banho! — ela fez. E foi-se embora. Assim nasceu a expressão “Vá tomar banho” que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus. ANDRADE, M. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008.
O fragmento de texto faz parte do capítulo VII, intitulado “Vei, a Sol”, do livro Macunaíma, de Mário de Andrade, pertencente à primeira fase do Modernismo brasileiro. Considerando a linguagem empregada pelo narrador, é possível identificar a) resquícios do discurso naturalista usado pelos escritores do século XIX. b) ausência de linearidade no tratamento do tempo, recurso comum ao texto narrativo da primeira fase modernista. c) referência à fauna como meio de denunciar o primitivismo e o atraso de algumas regiões do país. d) descrição preconceituosa dos tipos populares brasileiros, representados por Macunaíma e Caiuanogue. e) uso da linguagem coloquial e de temáticas do lendário brasileiro como meio de valorização da cultura popular nacional. Leia o poema a seguir para responder às questões 8 e 9. 002447_por_f2_c10_t0001
O trovador
Mário de Andrade
Sentimentos em mim do asperamente dos homens das primeiras eras… As primaveras de sarcasmo intermitentemente no meu coração arlequinal… Intermitentemente… Outras vezes é um doente, um frio na minha alma doente como um longo som redondo… Cantabona! Cantabona! Dlorom… Sou um tupi tangendo um alaúde! (Fonte: ANDRADE, Mário. Poesias Completas. Belo Horizonte: Villa Rica, 1993)
trovador: Na lírica medieval europeia, era o artista de origem nobre que, geralmente acompanhado de instrumentos musicais (como o alaúde), compunha e entoava cantigas (poesias cantadas). alaúde: Instrumento de cordas de origem árabe que se tornou popular na Europa a partir do século XVI.
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9. Enem Cara ao Modernismo, a questão da identidade nacional é recorrente na prosa e na poesia de Mário de Andrade. Em O trovador, esse aspecto é a) abordado subliminarmente, por meio de expressões como “coração arlequinal”, que, evocando o carnaval, remete à brasilidade. b) verificado já no título, que remete aos repentistas nordestinos, estudados por Mário de Andrade em suas viagens e pesquisas folclóricas. c) lamentado pelo eu lírico, tanto no uso de expressões como “Sentimentos em mim do asperamente” (v. 1), “frio” (v. 6), “alma doente” (v. 7), como pelo som triste do alaúde “Dlorom” (v. 9). d) problematizado na oposição tupi (selvagem) 3 alaúde (civilizado), apontando a síntese nacional que seria proposta no Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade. e) exaltado pelo eu lírico, que evoca os “sentimentos dos homens das primeiras eras” para mostrar o orgulho brasileiro por suas raízes indígenas.
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10. UFJF-MG 2017 5. Perigo das Armas Entrei para a escola mista de D. Matilde. Ela me deu um livro com cem figuras para contar a mamãe a história do Rei Carlos Magno. Roldão num combate espetou com um pau a gengiva aflita do Maneco que era filho da venda da esquina e mamãe botou no fogo a minha Durindana. 6. Maria da Glória Preta pequenina do peso das cadeias. Cabelos brancos e um guarda-chuva. O mecanismo das pernas sob a saia centenária desenrolava-se da casa lenta à escola pela manhã branca e de tarde azul. Ia na frente bamboleando maleta pelas portas lampiões eu menino.
7. Felicidade Napoleão que era um grande guerreiro que Maria da Glória conheceu em Pernambuco disse que o dia mais feliz da vida dele foi o dia em que eu fiz a minha primeira comunhão. 8. Fraque do ateu Saí de D. Matilde porque marmanjo não podia continuar na classe com meninas. Matricularam-me na escola modelo das tiras de quadros nas paredes alvas escadarias e um cheiro de limpeza. Professora magrinha e recreio alegre começou a aula da tarde um bigode de arame espetado no grande professor Seu Carvalho. No silêncio tique taque da sala de jantar informei mamãe que não havia Deus porque Deus era a natureza. Nunca mais vi o Seu Carvalho que foi para o Inferno. ANDRADE, Oswald de. Memórias sentimentais de João Miramar. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Explique de que maneira o trecho do romance Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, caracteriza uma escrita de vanguarda modernista.
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11. Imed-RS 2016 Leia o texto a seguir, de Oswald de Andrade:
Pronominais Dê-me um cigarro Diz a gramática Do professor e do aluno E do mulato sabido Mas o bom negro e o bom branco Da Nação Brasileira Dizem todos os dias Deixa disso camarada Me dá um cigarro.
Analise as assertivas a seguir a partir do texto: I. O poema “Pronominais” foi escrito em um período em que a Literatura brasileira discutia aspectos da língua como elemento caracterizador da identidade nacional. II. O poema expõe a ironia de Oswald de Andrade às disparidades sociais e demonstra sua preocupação social com os marginalizados. III. Assim como Oswald de Andrade, Mário de Andrade apresentou em suas produções a sua preocupação com uma língua escrita mais próxima da fala, uma das principais características da primeira fase modernista. Qual(is) está(ão) correta(s)? d) Apenas II e III. a) Apenas I. b) Apenas II. e) I, II e III. c) Apenas I e III.
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FRENTE 2
8. UFJF-MG 2022 Ao contrário do Indianismo Romântico, típico do século XIX, cujo projeto era pensar a identidade brasileira a partir de uma suposta pureza da “cultura indígena” (o que, muitas vezes, resultou, contraditoriamente, na imagem de um índio idealizado e desenhado com traços e valores europeus: “o Índio cheio de bons sentimentos portugueses”, como diria Oswald de Andrade no “Manifesto Antropófago”), o modernismo brasileiro dos anos de 1920 buscou compreender a nacionalidade brasileira como algo impuro, inconcluso, miscigenado. Uma nacionalidade construída na dinâmica de uma diversidade cultural processada por encontros e conflitos entre povos ameríndios, africanos e europeus. Após a leitura do poema “O Trovador”, escrito por Mário de Andrade e publicado em 1921 no livro Pauliceia Desvairada, e tendo em vista as considerações acima, exemplifique de que modo a visão modernista de Brasil está presente no poema “O Trovador”.
12. PUC-Campinas 2016 Se a Grande Guerra representa ruptura na história das relações culturais entre a Europa e a América Latina, bem mais do que rompê-las brutalmente ela as reconfigura e leva a afirmações
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identitárias complexas [...]. As referências europeias subsistem [...] mas são agora apenas parte de um todo identitário que bebe em fontes variadas para definir os caracteres da nacionalidade. Deste ponto de vista, a metáfora proposta por Oswald de Andrade em seu Manifesto antropófago, de 1928, é a mais eficaz [...]. “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.”
Qual(is) está(ão) correta(s)? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas I e II.
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14. Imed-RS 2015 Leia a epigrama a seguir:
Combinação de cores Verdamarelo Dá azul? Não. Dá azar.
COMPAGNON, Olivier. O adeus à Europa: A América Latina e a Grande Guerra. Argentina e Brasil, 1914-1939. Carlos Nougué (tradutor). Rio de Janeiro: Rocco, 2014. p. 303-304.
A lei do antropófago a que se refere Oswald de Andrade em seu Manifesto tem como centro a a) rejeição feroz (“exprobração”) do imperialismo cultural imposto pelas nações mais desenvolvidas. b) assimilação crítica (“deglutição”) dos valores de culturas estrangeiras que interessem à nacional. c) aceitação integral (“reprodução”) dos valores tribais em que viviam os silvícolas nas terras virgens. d) revisão radical (“expiação”) dos valores já radicados em nossas regiões economicamente frágeis. e) acomodação simplória (“ingestão”) das artes primitivas cultuadas em outros países.
13. UFRGS 2015 Leia a seguir o fragmento, retirado do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, e o poema de Oswald de Andrade.
Vício na fala Para dizerem milho dizem mio Para dizerem melhor dizem mió Para pior pió Para dizer telha dizem teia Para telhado dizem teiado E vão fazendo telhados
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15. Insper-SP 2014 O texto a seguir corresponde ao capítulo 92, chamado “Estelário”, das Memórias sentimentais de João Miramar, obra representativa da primeira fase da literatura modernista brasileira.
Considere as seguintes afirmações sobre os dois textos: I. Os modernistas foram pioneiros na forma de representar a linguagem popular, através da valorização do povo como elemento constitutivo da nação brasileira. II. O narrador no romance e o sujeito lírico no poema são letrados, mas registram a linguagem popular ao reproduzirem a fala do povo. III. O romance de Lima Barreto evidencia a importância do folclore brasileiro para a constituição da cultura nacional.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 10
(Jacó Pum-pum)
“Combinação de Cores” é um exemplo do tom bem-humorado, crítico e sarcástico presente na Revista de Antropofagia, publicada em São Paulo, em 1928 e 1929. Os pseudônimos de seus colaboradores, como Jacó Pum-Pum, Piripipi, Pão de ló, Seminarista Voador, também sinalizam a proposta ousada e irreverente de seus idealizadores. Em relação à revista e ao contexto de sua publicação, considere as assertivas a seguir, assinalando V, se verdadeiras, ou F, se falsas. Integrada ao movimento modernista, as fases da revista apresentadas como “dentições” são exemplos da irreverência do grupo, o qual intencionava lançar as bases de um movimento revolucionário literário, social, político e religioso. Com a revista Klaxon, tal periódico foi um dos principais veículos de divulgação das ideias dos primeiros modernistas de São Paulo. O número de estreia da revista foi inaugurado pelo “Manifesto antropófago”, escrito por Oswald de Andrade. A ordem correta de preenchimento das lacunas, de cima para baixo, é: d) F – F – V. a) V – V – V. e) F – F – F. b) V – F – V. c) F – V – V.
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— Não me conhece mais? Sou o general, o Coronel Albernaz. — Ah! É só coroné!... Há quanto tempo! Como está nhã Maricota? — Vai bem. Minha velha, nós queríamos que você nos ensinasse umas cantigas. — Quem sou eu, ioiô! — Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe o “Bumba-Meu-Boi”? — Quá, ioiô, já mi esqueceu. — E o “Boi Espácio”? — Cousa veia, do tempo do cativeiro — pra que sô coroné qué sabê disso?
d) Apenas II e III. e) I, II e III.
Coração esperançava o esperançoso Começo claro da noite cidadina Retalhos grandes de nuvens E duas estrelas vivas Trem rolava com minha estrela Bordando a vida fabricadora Do Brás à Luz Rolah estrelava o Hotel Suíço Oswald de Andrade.
No texto, encontram-se vários traços de inovação estética, entre os quais NÃO ESTÁ a) o emprego constante de regionalismos. b) a influência das vanguardas europeias. c) a abolição da pontuação convencional. d) a valorização dos neologismos. e) o fim das fronteiras entre prosa e poesia.
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Os Sapos Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra. 5 Em ronco que aterra, Berra o sapo-boi: — “Meu pai foi à guerra!” — “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!” O sapo-tanoeiro, 10 Parnasiano aguado, Diz: — “Meu cancioneiro É bem martelado. Vede como primo Em comer os hiatos! 15 Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos. O meu verso é bom Frumento sem joio. Faço rimas com 20 Consoantes de apoio. Vai por cinquenta anos Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A fôrmas a forma. 25 Clame a saparia Em críticas céticas: Não há mais poesia, Mas há artes poéticas…” Urra o sapo-boi: 30 — “Meu pai foi rei” — “Foi!” — “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!” Brada em um assomo O sapo-tanoeiro: — “A grande arte é como 35 Lavor de joalheiro. Ou bem de estatuário. Tudo quanto é belo, Tudo quanto é vário, Canta no martelo.” 40 Outros, sapos-pipas (Um mal em si cabe), Falam pelas tripas: — “Sei!” — “Não sabe!” — “Sabe!” Longe dessa grita, 45 Lá onde mais densa A noite infinita Verte a sombra imensa; Lá, fugido ao mundo, Sem glória, sem fé, 50 No perau profundo E solitário, é
Que soluças tu, Transido de frio, Sapo-cururu 55 Da beira do rio... BANDEIRA, Manuel. Melhores poemas: Manuel Bandeira. Seleção de Francisco de Assis Barbosa. 17. ed. São Paulo: Global, 2015, p. 32-33. 002447_por_f2_c10_q0006objetiva 002447_por_f2_c10_t0002
16. Uece 2022 Os sapos, no poema, simbolizam os poetas parnasianos e os modernistas. O sapo que representa o poeta modernista é o a) sapo-tanoeiro, porque acredita que o poema, assim como uma joia, deve ser lapidado. b) sapo-boi, porque acredita que o poema anuncia um narrador e delega a ele a palavra. c) sapo-pipa, porque acredita que só ele sabe escrever poemas a partir de formas fixas. d) sapo-cururu, porque acredita que para os poemas não há necessidade de formas prontas.
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17. UFMS 2021 A partir da leitura do fragmento a seguir e do poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira, assinale a alternativa correta. “E no interior de um período em que se comemorava o primeiro centenário da independência, em meio a uma imensa modificação que o País vivia nos campos social, político e econômico, como a formação de novos partidos políticos, a participação feminina, o fim da Primeira Guerra Mundial e princípios da industrialização, que se forja a oportunidade de fundar uma nova estética e daí o advento da Semana de Arte Moderna, em 1922. Resumidamente, são características da Semana: renovação nos princípios estéticos e liberdade temática e formal para enfrentar o conservadorismo, o tradicionalismo e o excessivo rigor estético, notadamente o ideário parnasiano. Se, por um lado, os integrantes da Semana propunham a libertação dos valores estéticos e culturais recebidos desde o período colonialista de origem portuguesa, por outro firmaram-se nas proposições das chamadas Vanguardas Europeias, como cubismo, futurismo, dadaísmo, expressionismo e surrealismo. Na literatura, tornaram-se marcas principais: a ruptura sintática, a linguagem informal, o regionalismo, os versos livres e sem métrica (sem medida fixa), os versos brancos (sem rimas) e o uso intensivo do sarcasmo e da ironia.” a) O poema transcrito tornou-se uma espécie de mote ou síntese do modernismo, porque em seus versos estão presentes várias características do que a Semana tentou sintetizar: sarcasmo e crítica irônica ao passado estético representado pelo parnasianismo. b) O poema ficou confuso, porque, embora rimados e divididos em quadras, os versos são curtos, em redondilha menor, inadequados para o fim a que se propunha. c) Na terceira estrofe, o poeta faz um autoelogio e ainda menciona o movimento parnasiano, ao qual orgulhosamente pertence, e que se constituiu fonte de inspiração aos jovens poetas que criariam a Semana de Arte Moderna.
FRENTE 2
Leia o poema a seguir para responder às questões de 16 a 18.
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Explicou: “Não nasci presidente. Nasci com a minha consciência. Quero ficar em paz com a minha consciência”. Agora vai viajar. Vai viajar longamente no exterior. Está em paz com a sua consciência. Ouviram bem? ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
d) Nas três últimas estrofes, em que se dá o arremate da composição, reforça-se o tom de manifesto parnasiano ao caracterizar o isolamento do sapo que vive na sombra imensa da noite, distante do mundo. e) E um poema, segundo a proposta modernista, com o qual se pretendia homenagear a poética parnasiana, ressaltando as características marcantes do movimento, como o humor popular e o uso de palavras de uso popular e de pouco prestígio poético, como o substantivo “sapo”.
Com base no poema, afirmam-se: I. Os versos abordam uma temática prosaica, de aparente simplicidade, muito presente na totalidade da obra de Manuel Bandeira. II. Certa melancolia, associada ao sentimento de conformismo diante da realidade, é perceptível ao longo do poema. III. O poema apresenta um traço narrativo, trazendo, inclusive, uma fala registrada em discurso direto. IV. As marcas de oralidade e a presença de adjetivos evidenciam o lirismo exacerbado que caracteriza o sentimento de mundo do poeta. A(s) afirmativa(s) correta(s) é/são a) I, apenas. d) II e III, apenas. b) II, apenas. e) I, II e III. c) I e III, apenas.
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18. UFSC 2019 Com base na leitura integral da obra Melhores poemas: Manuel Bandeira e do poema “OS SAPOS”, no contexto sócio-histórico e literário e, ainda, de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que: 01 embora inicialmente tenha escrito poemas ligados à poesia simbolista e à parnasiana, Manuel Bandeira é considerado um dos autores mais importantes do modernismo brasileiro. 02 em “OS SAPOS”, evidencia-se o caráter lúdico e descontraído que marcaria a poesia de Manuel Bandeira até o final da vida, quando supera os temas clássicos da juventude, como o amor, a morte e uma visão melancólica da existência. 04 no poema, vários sapos debatem de modo inflamado, até que um sapo-tanoeiro ofende a figura de um “parnasiano aguado” e prescreve ao fim de cada estrofe como deveria ser o novo cancioneiro nacional. 08 no verso “Em comer os hiatos!”, a palavra grifada apresenta um hiato. 16 embora o sapo-tanoeiro recomende que nunca se rimem termos cognatos (versos 15 e 16), o eu-poético desrespeita essa orientação ao rimar “deslumbra” e “penumbra” na primeira estrofe do poema. 32 a obra de Manuel Bandeira evoca o cotidiano das metrópoles, a fala simples do povo e as misturas de variedades linguísticas, ao abordar temas como o amor irrealizável, o jogo erótico, a nostalgia da infância, a ausência e a morte. Soma: 001598_por_f2_c10_q0057objetiva
19. PUC-RS 2014 Leia o poema “Elegia de agosto”, de Manuel Bandeira. A nação elegeu-o seu Presidente Certo de que jamais ele a decepcionaria. De fato, Durante seis meses, O eleito governou com honestidade, Com desvelo, Com bravura. Mas um dia, De repente, Lhe deu a louca E ele renunciou
Leia o poema de Manuel Bandeira (1886-1968) para responder às questões 20 e 21.
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Poema tirado de uma notícia de jornal João Gostoso era carregador de feira livre e morava no [morro da Babilônia num barracão sem número. Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro Bebeu Cantou Dançou Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu [afogado. (Libertinagem & Estrela da manhã, 1993.) 001598_por_f2_c10_q0058discursiva 001598_por_f2_c10_t0006
20. Unesp 2019 a) Cite uma característica distintiva da poesia lírica que não se encontra nesse poema. b) Cite três elementos que evidenciam o caráter narrativo desse poema. 001598_por_f2_c10_q0059discursiva 001598_por_f2_c10_t0006
21. Unesp 2019 Cite duas características, uma de natureza temática e outra de natureza formal, que afastam esse poema da tradição parnasiano-simbolista.
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22. Enem 2014
Renunciou sem ouvir ninguém. Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos. Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
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Capítulo 10
Camelôs Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão: O que vende balõezinhos de cor O macaquinho que trepa no coqueiro O cachorrinho que bate com o rabo Os homenzinhos que jogam boxe A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma. Alegria das calçadas Uns falam pelos cotovelos:
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Outros, coitados, têm a língua atada. Todos porém sabem mexer nos cordéis como o tino [ingênuo de demiurgos de inutilidades. E ensinam no tumulto das ruas os mitos heroicos da [meninice... E dão aos homens que passam preocupados ou tristes [uma lição de infância. BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.
Uma das diretrizes do Modernismo foi a percepção de elementos do cotidiano como matéria de inspiração poética. O poema de Manuel Bandeira exemplifica essa tendência e alcança expressividade porque a) realiza um inventário dos elementos lúdicos tradicionais da criança brasileira. b) promove uma reflexão sobre a realidade de pobreza dos centros urbanos. c) traduz em linguagem lírica o mosaico de elementos de significação corriqueira. d) introduz a interlocução como mecanismo de construção de uma poética nova. e) constata a condição melancólica dos homens distantes da simplicidade infantil.
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23. UEM-PR 2016 Assinale o que for correto sobre o poema abaixo e sobre o seu autor, Manuel Bandeira.
Noite Morta Noite morta. Junto ao poste de iluminação Os sapos engolem mosquitos. Ninguém passa na estrada. Nem um bêbado. No entanto há seguramente por ela uma procissão de [sombras. Sombras de todos os que passaram. Os que ainda vivem e os que já morreram. O córrego chora. A voz da noite... (Não desta noite, mas de outra maior.) Petrópolis, 1921. (BANDEIRA, Manuel. Melhores poemas. 16. ed. São Paulo: Global, 2013, p. 79)
01 Embora a noite esteja iluminada pelo poste de luz, o silêncio e as sombras criam um ambiente gótico e triste. Os bêbados e os sapos são os únicos seres alegres em um espaço desolado. 02 “O córrego chora” é uma expressão que se configura como uma personificação. A ideia criada pelo texto consiste em atribuir ao córrego um atributo humano, o choro. O eu do poema associa o barulho emitido pelo correr das águas a um lamento dentro da noite. 04 O verso final refere-se a uma noite especial – que pode ser a véspera do Natal ou do Ano Novo – na
qual impera o mundo espiritual, de onde vêm as sombras dos mortos para trilhar o caminho dos vivos. 08 O poema é composto de versos com métrica regular. Com exceção das rimas emparelhadas (“passaram” e “morreram”), o texto apresenta rimas interpoladas. A regularidade métrica e o equilíbrio formal mostram que, apesar da tristeza, a camada racional se sobressai à emocional. 16 A morte é tema fortemente marcado na obra do poeta. No poema, ela se faz presente nos versos “Os que ainda vivem e os que já morreram / [...] (Não desta noite, mas de outra maior.)” Soma:
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24. ESPM-RJ 2016
Poética Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente [protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor. Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário [o cunho vernáculo de um vocábulo Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora [de si mesmo De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de cossenos secretário do amante [exemplar com cem modelos de cartas e as [diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc. Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbados O lirismo difícil e pungente dos bêbados O lirismo dos clowns de Shakespeare — Não quero mais saber do lirismo que não é libertação. BANDEIRA, Manuel. In: Libertinagem.
Sobre o poema, verdadeiro manifesto dos ideais revolucionários do Modernismo de 22, só NÃO é possível afirmar que: a) repudia os modelos de correção técnica dos parnasianos: obrigatoriedade do verso “fita métrica”, da rima e da pontuação perfeitas. b) critica a contenção lírica, a postura protocolar e burocrática na poesia. c) condena o preciosismo vocabular e, indiretamente, o sentido frio da palavra em estado de dicionário. d) rejeita os moldes sentimentais “fabricados” pela perspectiva, já tão desgastada, do Romantismo. e) censura, já perceptível desde o início pelo título, as teorias de versificação em vigor.
FRENTE 2
— “O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai [buscar um pedaço de banana para eu acender [o charuto. Naturalmente o menino pensará: [Papai está malu...”
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BNCC em foco EM13LGG302 e EM13LGG303 001598_por_f2_c10_q0065discursiva 001598_por_f2_c10_t0007
1. Em carta a Menotti del Picchia, Mário de Andrade afirma:
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Centenário é importante para revisar mito da Semana de Arte Moderna
Estamos célebres! Enfim! Nossos livros serão lidíssimos! Insultadíssimos, celebérrimos. Teremos nossos nomes eternizados nos jornais e na História da Arte Brasileira.
Especialistas dizem que a ideia de marco foi uma construção histórica Apontada como marco zero do modernismo no Brasil, a Semana de Arte Moderna comemora seu centenário este mês. Celebrada atualmente em exposições, livros, seminários, eventos e reportagens, a efeméride é também uma oportunidade para se rediscutir a importância histórica do evento – realizado no Theatro Municipal de São Paulo, entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, por artistas e intelectuais da elite paulistana que defendiam estar rompendo com o conservadorismo das artes no Brasil. “Nesse momento, em que a gente está, em 2022, o que está sendo mais bacana de olhar para a semana de 22 é justamente questionar o seu mito”, afirma Heloisa Espada, curadora do Instituto Moreira Salles. [...] A ideia de que a semana foi um marco do modernismo brasileiro, na realidade, foi uma construção histórica, que só veio a surgir décadas depois, defendem historiadores e especialistas. “Acho que o que marca essa comemoração de 100 anos é entender como a Semana de Arte Moderna se tornou um marco. Isso é uma construção histórica. Mas eles fizeram de tudo para que realmente ela fosse polêmica e para se alinhar à ideia de vanguarda que estava sendo discutida e da qual eles tinham notícias que vinham de outros países, principalmente do Hemisfério Norte”, disse Heloisa. [...] O modernismo brasileiro também viveu suas ambiguidades e controvérsias. A começar pelo fato de que o movimento, cuja efervescência ocorreu nas cidades, foi bancado pela elite cafeeira, que vivia no interior, em fazendas. “É a riqueza do campo que paga essa ideia da arte moderna”, explicou Heloisa. A especialista questiona o motivo de nomes como o do escritor e político Plínio Salgado, que fez parte da semana, terem sido “apagados” pela história. “Temos ali a participação do Menotti del Picchia [escritor] e do Plínio Salgado, figuras que depois se tornaram controversas politicamente, ligadas ao movimento do verde-amarelismo [que se opunha ao movimento pau-brasil de Oswald de Andrade e pregava um ufanismo exacerbado]. Depois o Plínio Salgado é expoente do Integralismo [que tinha grande afinidade com o fascismo italiano]”, disse Heloisa. Nessa análise política, também é importante entender como o movimento modernista foi utilizado pelo Estado Novo, de Getúlio Vargas. “O Gustavo Capanema [ministro forte do governo Getúlio Vargas] era o homem, digamos, por detrás dessa estratégia de assumir o modernismo como uma política cultural estatal”, disse Bagolin, explicando que a busca por uma arte brasileira, com identidade nacional, “serviu como uma luva para o projeto do Estado Novo”.
PADOVAN, Thiago. Centenário: conheça os artistas e o que queriam os modernistas de 1922. Agência Brasil, 16 fev. 2022. Disponível em: https:// agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2022-02/centenario-conheca-osartistas-e-o-que-queriam-os-modernistas-de-22. Acesso em: 5 dez. 2023.
Considere o texto de apoio e construa um parágrafo argumentativo explicitando por que o valor simbólico da frase de Mário de Andrade é uma construção histórica. EM13LGG203 e EM13LGG303 001598_por_f2_c10_q0066discursiva 001598_por_f2_c10_t0007
2. Releia os dois últimos parágrafos do texto e aponte uma razão para que a estratégia adotada pelo ministro Gustavo Capanema em assumir “o modernismo como uma política cultural estatal” não fosse mantida pela história. EM13LP50 001598_por_f2_c10_q0067discursiva
CRUZ, Elaine Patrícia. Centenário é importante para revisar mito da Semana de Arte Moderna. Agência Brasil, 14 fev. 2022. Disponível em: https:// agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2022-02/centenario-e-importantepara-revisar-mito-da-semana-de-arte-moderna. Acesso em: 5 dez. 2023.
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Capítulo 10
3. Leia o texto a seguir e depois o poema de Mário de Andrade para responder à questão. Para marcar o Dia Internacional da Conscientização sobre o Ruído, celebrado dia 26 de abril, o Monumento às Bandeiras, um dos símbolos da cidade de São Paulo, feito pelo artista Victor Brecheret, recebeu fones de ouvidos para chamar a atenção da população sobre os perigos da poluição sonora. POLUIÇÃO sonora: nem as estátuas aguentam mais tanto barulho. Sputnik Brasil, 27 abr. 2017. Disponível em: https://www.proacustica. org.br/noticias/clipping/poluicao-sonora-nem-as-estatuas-aguentammais-tanto-barulho/. Acesso em: 5 dez. 2023. Cedida pela Divulgação ProAcústica Associação Brasileira para a Qualidade Acústica/Fotógrafo: João José Carniel
Leia o texto sobre o centenário da Semana de Arte Moderna para responder às questões 1 e 2.
Ação INAD 2017 – Dia Internacional da Conscientização Sobre o Ruído.
Inspiração São Paulo! comoção de minha vida... Os meus amores são flores feitas de original!... Arlequinal!... Trajes de losangos... Cinza e ouro... Luz e bruma... Forno e inverno morno... Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes... Perfumes de Paris... Arys! Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!... São Paulo! comoção de minha vida... Galicismo a berrar nos desertos da América. ANDRADE, Mário de. Pauliceia desvairada. Disponível em: https:// digital.bbm.usp.br/view/?45000019565&bbm/7651#page/46/mode/2up. Acesso em: 5 dez. 2023.
Compare a campanha da ProAcústica (Associação Brasileira para Qualidade Acústica) sobre um dos problemas enfrentados na cidade de São Paulo com a relação emotiva do eu lírico no poema de Mário de Andrade. Explicite a nova dinâmica da cidade no século XXI.
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Acervo do Museu Lasar Segall-Ibram/Ministério do Turismo
Pogrom, de Lasar Segall,1937. Óleo com areia sobre tela, 184 cm x 150 cm. Museu Lagar Segall, São Paulo. O termo “pogrom” tem sua origem na Rússia czarista e se associa às pilhagens e assassinatos praticados contra determinadas comunidades minoritárias. No contexto da Segunda Guerra, o vocábulo foi utilizado para se referir a movimentos populares cometidos contra comunidades étnicas ou religiosas, como os corpos de crianças judias ilustrados por Lasar Segall.
FRENTE 2
11 CAPÍTULO
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O Modernismo no Brasil: a poesia mística e social A produção estética da segunda fase do Modernismo se situa entre as duas grandes guerras e em um contexto de revolução e crise política no Brasil. Essa realidade crítica carecia de postura engajada diante dos problemas vivenciados, o que levou os autores a se distanciar do tom combativo ao passado e da irreverência dos poemas-piada da geração heroica. Uma vez que as inovações artísticas e as experimentações formais propostas pela Semana de 22 alcançaram seu objetivo, os autores da nova fase modernista puderam abraçar as questões sociais de seu tempo e buscar um tom mais místico e espiritual nas suas criações literárias.
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Em 2017, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul utilizou o poema “José” – um dos mais conhecidos de Carlos Drummond de Andrade, extraído de seu livro homônimo publicado em 1942 – para elaborar uma questão sobre um tema comum nos poemas de autores da segunda geração modernista: o desamparo existencial. Observe.
Exercício
resolvido
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1. UFRGS 2017 Leia o poema José, de Carlos Drummond de Andrade. E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, Você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou
e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? [...][...] Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse, a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse.... Mas você não morre, você é duro, José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde?
teogonia: narrativa do nascimento dos deuses, genea logia, nas religiões politeístas.
Assinale a alternativa correta sobre o poema. a) O diálogo com José, interlocutor, pode ser lido como uma forma de o sujeito lírico refletir sobre o desamparo existencial. b) O poema em versos curtos apresenta o caminho para superação dos impasses de José. c) As repetições indicam a monotonia da existência do trabalhador comum, José, em crise com sua condição operária. d) O sujeito lírico, na ausência de respostas, não consegue decifrar para onde José marcha, embora este saiba seu caminho. e) A expressão “e agora, José?” põe em relevo a indignação do sujeito lírico com seu interlocutor, incapaz de se definir. Resolução: Alternativa: A
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No poema, o sujeito lírico dirige-se a seu interlocutor de modo inquiridor, interrogando-lhe de forma incisiva. Porém, as perguntas que são feitas incidem sobre um saber ignorado. Como a própria universidade comenta, trata-se de um poema que “traz uma possibilidade para que se interprete José como duplo do eu lírico, que dialoga consigo mesmo. Como nome próprio, porém muito comum, apresenta a visão da época, 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, um mundo em decomposição”. A angústia e o vazio da situação de perda diante da luz apagada aludem aos tempos sombrios, em que “o povo sumiu” e “a noite esfriou”. José alegoriza a condição do homem perdido e incerto do futuro de si próprio e da humanidade. As atrocidades vistas no contexto de guerra desencadeiam, no texto poético, cenas de brutalidade e desolamento do eu lírico que comovem o leitor. A obra Pogrom, apresentada na abertura deste capítulo, faz parte da série de quadros “Visões de Guerra”, de Lasar Segall, escultor e gravurista judeu, fixado no Brasil na década de 1930. Esse trabalho traz pinturas que evidenciam o horror em tons de marrom e ocre, reforçando o estilo do artista. Apesar de haver referência bélica nas gravuras, a violência brutal é comovente nas imagens de corpos empilhados, cenas de tortura e dor, como vemos em Pogrom, que remete ao Holocausto. A seguir, vamos estudar de forma mais aprofundada os poemas de Carlos Drummond de Andrade, um dos autores de maior importância no cenário da poesia brasileira. Neste momento, é relevante que notemos como os escritores da poesia de 1930 buscavam revelar as questões sociais e existenciais desse tempo, marcado por tantas revoluções, guerras, crises políticas e autoritarismo.
O mundo em crise no século XX A invasão da Polônia, em 1939, pelo exército da Alemanha nazista de Adolf Hitler, foi o estopim para a Segunda Guerra Mundial, que teve diversos eventos trágicos, como o ataque militar do Serviço Aéreo Imperial da Marinha Japonesa contra a base naval dos Estados Unidos em Pearl Harbor, território do Havaí, em 1941, e o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki pelos Estados Unidos, em agosto de 1945. As bombas usadas contra as duas cidades japonesas marcaram o único momento histórico em que se atentou contra civis com armas nucleares. Everett Collection/Shutterstock.com
Modernismo no Brasil: geração de 1930 (poesia)
Nuvem de fumaça gerada pela bomba de plutônio lançada sobre Nagasaki (Japão), em 9 de agosto de 1945.
Capítulo 11
O Modernismo no Brasil: a poesia mística e social
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As atrocidades praticadas nos anos de guerra deixaram como herança o peso da barbárie humana, da sede por poder e do preconceito desmedido, um legado com o qual os diversos nomes do mundo da arte tentaram lidar esteticamente. O poeta brasileiro Vinicius de Moraes protestou contra o cenário de guerra e destruição por meio do poema de vertente social “A rosa de Hiroshima”, de 1946. Nele, o eu lírico interpela o leitor a pensar sobre as consequências drásticas dos efeitos da radioatividade nas vítimas da bomba atômica. A imagem da rosa vista como um objeto singelo é descontruída pela rosa que desabrochou com a explosão, provocando devastação em Hiroshima e Nagasaki. A ausência de perfume da rosa destrutiva simboliza a ausência de vida que a bomba causa às meninas “cegas inexatas” e sobre as mulheres “rotas e alteradas” que não poderão dar vida a outra geração, já que o mal da rosa é hereditário. Essa imagem de uma rosa associada ao que é imperfeito, feio e incômodo surge em um poema de Carlos Drummond de Andrade chamado “A flor e a náusea”, publicado em seu livro A rosa do povo, em 1945. Diferentemente da rosa de Vinicius de Moraes, nesse livro o poeta mineiro faz alusão a um contexto histórico mais amplo e alude ao momento de tensão nazifascista, da marcha pelo capital, da crise política da Era Vargas, entre outros temas que alimentaram a fase social de Drummond. A flor de Drummond corresponde a uma nova ordem social, que necessitava ser estabelecida em um contexto conturbado pela Revolução de 1930, movimento conhecido por dar fim à República Velha, liderado por políticos e militares que se opunham às oligarquias cafeeiras, alcançando o intento de colocar Getúlio Vargas no poder. A Constituição de 1934 legitimou o poder do novo presidente e, em 1937, com o Congresso Nacional fechado, foi decretado o Estado Novo, dando início a um período sombrio de ditadura.
de censurar peças de teatro, filmes e produções de arte com o objetivo de evitar informações que pudessem ser prejudiciais à imagem do Brasil.
Saiba mais A Hora do Brasil: o “fala sozinho” O programa de rádio mais antigo do Brasil, Programa Nacional, foi criado em 22 de julho de 1935 como parte da política de controle da informação transmitida pela imprensa. Posteriormente, em 1939, durante a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, o programa ganhou novo nome, A Hora do Brasil, sendo obrigatória sua transmissão pelas emissoras de rádio do país no horário das 19h às 20h. O programa, que ficou conhecido como “fala sozinho”, levou ao ar ao longo desses anos informações oficiais sobre os poderes Executivo, Judiciário e Legislativo. A partir de 1962, o programa passou a ser chamado de A Voz do Brasil, podendo ser veiculado, ainda hoje, no intervalo entre 19h e 22h.
Carlos Drummond de Andrade incorporou à sua poesia temas sociais que expressavam seu engajamento diante do momento histórico do país, tendo se aproximado do comunismo em 1945. A convite de Luís Carlos Prestes, militar e político líder da Coluna Prestes, o poeta tornou-se coeditor da Tribuna Popular, jornal do Partido Comunista. No entanto, ao discordar das ideias do partido, desligou-se das atividades que lhe foram atribuídas. Na sua fase social, Drummond publicou importantes poemas como “Nova canção do exílio”, que traça intertextualidade com o poema romântico de Gonçalves Dias, “Canção do exílio”, mas com uma nova perspectiva sobre a terra. A fim de estreitar relação com o poema original, Drummond preservou muito de sua forma, mas utilizou-se dela para assumir um posicionamento diferente. O momento de ditadura faz com que o eu lírico sinta-se exiliado dentro do próprio país, diferentemente do autor do século XIX, que canta a pátria de modo saudoso, quando se encontrava distante. O diálogo estabelecido por Drummond é explícito, como evidencia Roberto de Oliveira de Brandão em sua análise: Considerando em suas grandes unidades espaciais, observa-se que a Nova Canção se mantém fiel à tradição reproduzindo o mesmo número de estrofes (5), o mesmo número de versos em cada estrofe (5 nas três primeiras e 6 nas duas últimas), o mesmo posicionamento dos versos recorrentes, o mesmo vocábulo ou formas sinônimas transformadas dispostas em versos equivalentes da estrutura global do poema.
Nesse período, a censura a produções artísticas era garantida pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão criado em 1939 que perseguiu artistas considerados subversivos. As funções principais do DIP eram coordenar a propaganda veiculada dentro e fora do país, organizar os serviços ligados a turismo e à cultura, além
A forma fiel ao poema original promove uma equivalência estrutural que, no entanto, ganha distanciamento quando o leitor atento percebe que o sabiá, símbolo da natureza exótica romântica, já não é cunhado com letra inicial maiúscula. Ademais, o pássaro está distante, como se a própria terra idealizada não fosse mais uma possibilidade nem mesmo no campo poético. Os elementos naturais
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Getúlio Vargas em passagem por Itararé, SP, em 1930. Acervo Jandira Jansson.
BRANDÃO, Roberto de Oliveira. Entre o mítico e o profano. Língua e Literatura, São Paulo, n. 6, p. 235-243, 1977. p. 236. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/linguaeliteratura/article/ view/115821/113335. Acesso em: 16 nov. 2023.
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estão no passado “onde tudo é belo/ e fantástico”; a realidade dura dos anos de ditadura impede que a poesia seja leve, rítmica, com versos em redondilha e rimados, pois o canto da “Nova canção do exílio” é outro. A segunda geração do Modernismo não se propõe a retomar o passado histórico e cultural, percorrendo os mesmos caminhos da geração heroica que liderou a Semana de 22. Poetas como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Vinicius de Moraes e Jorge de Lima voltam seus olhos aos aspectos sociais, econômicos e políticos do país com outra postura. A “Canção do exílio” de Murilo Mendes, ao contrário da canção de Gonçalves Dias, denuncia a invasão cultural estrangeira no Brasil e o valor dos produtos, como as frutas comercializadas a preços altos dentro do país. A postura dos poetas da poesia de 1930 em alguns momentos apresenta uma tendência ao misticismo. A forte religiosidade de Jorge de Lima levou-o a publicar poemas cujo lema era a restauração da poesia em Cristo. Em parceria com Murilo Mendes, publica Tempo e eternidade, em 1935, obra com 45 poemas de cada um dos dois poetas, nos quais o aspecto neobarroco se destaca por fundir no texto o terreno e o transcendente. Cecília Meireles, considerada neossimbolista, apresenta em seus textos o efêmero e o eterno, além dos temas da ausência e da morte, sua companheira ao longo da vida. A perda dos pais, a infância solitária e o suicídio do marido foram fantasmas que acompanharam a poesia da autora no decorrer de sua produção artística.
Acervo do Fundo Correio da Manhã/Arquivo Nacional, Rio de Janeiro
Carlos Drummond de Andrade: o poeta de muitas faces
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[...] É sabido que a complexidade reflexiva da obra de Drummond não a impede de ser pródiga em versos que se tornaram parte do linguajar comum. Drummond é um dos maiores hitmakers frásicos da poesia brasileira: “vai, Carlos! Ser gauche na vida”; “mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo”; “João amava Teresa que amava Raimundo que amava...”; “como ficou chato ser moderno./Agora serei eterno”; “e agora José?”. Nenhum exemplo se compara ao rastilho mirabolante desatado pelo famigerado poema “No meio do caminho”, publicado no seu livro de estreia em 1930. [...] Como pôde um poemeto obsessivo, anguloso e circular, falando aparentemente de quase nada, tendo como elemento concreto não mais que a dureza mineral da pedra, haver demonstrado essa potência de “bomba atômica”, no dizer de Mário Quintana? [...] WISNIK, José Miguel. Maquinação do mundo: Drummond e a mineração. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 20.
hitmaker: termo originado da junção das palavras da língua inglesa hit (sucesso) e maker (produtor); aquele que faz músicas de sucesso.
O poema “No meio do caminho” causou um verdadeiro escândalo à época de sua publicação, especialmente entre os antimodernistas, que o consideravam estúpido. O pro saísmo e a liberdade formal adotados, no entanto, convivem com o diálogo e com a tradição literária anunciados no verso repetido diversas vezes. Drummond remete ao primeiro verso da obra A divina comédia, de Dante Alighieri, “Nel mezzo del cammin di nostra vita” (“No meio do caminho de nossa vida”), e com humor reflexivo rompe com a convenção literária em versos livres e linguagem coloquial. O tom irreverente e crítico e a tônica existencial presentes no poema se mantêm ao longo da produção do poeta, a qual se estendeu até a década de 1980 e apresentou singularidades que dividiram a obra de Drummond em fases: gauche, social e filosófica. Essa visão da poética drummondiana induziu o crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna a classificar o drama existencial em três momentos inseparáveis, que abrangem os grandes temas do autor. Eu maior que o Mundo Eu menor que o Mundo Eu igual ao Mundo Observa-se aí a fidelidade à oposição básica: Eu versus o Mundo, que é a síntese de um vasto sistema de oposições da obra: claro-escuro, província-metrópole, essência-aparência, tudo-nada, esquerda-direita, instante-eternidade, construção-destruição, vida-morte.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poeta mineiro, nasceu em Itabira (MG), estreando como autor em 1930 com seu livro Alguma poesia. Entre os 49 poemas que se aproximam da primeira geração modernista, em
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termos de estrutura sintética e tom irônico, está o polêmico “No meio do caminho”, publicado no terceiro número da Revista de Antropofagia de Oswald de Andrade.
Capítulo 11
SANT'ANNA, Affonso Romano de. Drummond, o gauche no tempo. Rio de Janeiro: Record, 1992. Disponível em: https://pt.scribd.com/ document/470570821/Drummond-o-gauche-no-tempo-Affonso-Romanode-Sant-anna-Ed-Record-pdf. Acesso em: 12 dez. 2023.
A relação do indivíduo com o mundo ganha variadas dimensões nas obras essenciais escritas nas três fases de Carlos Drummond de Andrade.
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Donatas Dabravolskas/Shutterstock.com
o milagre, a redenção) parecem eventualmente nulos como fontes do poema, que daqui a pouco encontrará justificativa, para o poeta, não como referência a um objeto, mas como expressão que se torna ela própria uma espécie de objeto. CANDIDO, Antonio. Inquietudes na poesia de Drummond. In: CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. 4. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul/São Paulo: Duas Cidades, 2004. p. 88.
Eu maior que o mundo: a fase gauche A primeira fase da poética de Drummond é chamada de gauche, termo de origem francesa cujo significado refere-se a indivíduo canhestro, inseguro, desajustado ao mundo. Os poemas dessa fase são prosaicos, sintéticos, apresentam versos livres e brancos, similares aos produzidos pelos autores da primeira geração modernista, sendo as características temáticas de destaque o isolamento e o individualismo. O livro inaugural do jovem autor com apenas 28 anos, Alguma poesia, foi publicado em 1930 e apresenta poemas que se tornaram clássicos da literatura brasileira, como “Poema de sete faces”, “Infância”, “O sobrevivente”, “Quadrilha”, entre outros que já anunciavam a reflexão crítica sobre assuntos cotidianos. A memória, o sensualismo, o amor e a família surgem nessa obra sob o viés da ironia moderna, bem como o pensar sobre a própria poesia e condição poé tica, como notamos nos poemas metalinguísticos comuns ao longo da produção do poeta. A poesia parece (para usar uma definição sua dessa fase) “acontecer” sob o estímulo do assunto, de tal maneira que lhe é coextensiva; faz-se pelo simples registro da emoção ou da percepção [...]. CANDIDO, Antonio. Inquietudes na poesia de Drummond. In: CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. 4. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul/São Paulo: Duas Cidades, 2004. p. 87.
A metalinguagem nesses primeiros poemas evidencia a relação de poesia e inspiração ou sentimento poético, o que ganha outra dimensão no livro publicado posteriormente, Brejo das almas (1934), já que o eu lírico questiona a autenticidade da poesia, como afirma o crítico literário Antonio Candido sobre o poema “Segredo”: [...] como se o poeta descobrisse que os temas não importam em si mesmos, destacados da palavra que os traz ao mundo do poema. E que, portanto, não se trata apenas de encontrar a notação adequada, mas de saber se ela se justifica por um outro sentido, que a contém e ocasiona uma expressão válida por si. O tema da inquietação transporta-se para o domínio estético, e os assuntos mais consagrados (o amor, a polis,
Eu menor que o mundo: a resistência nos versos drummondianos (poesia social) A fase social da obra de Carlos Drummond de Andrade está intimamente ligada à percepção do autor sobre o contexto histórico-social e ao seu engajamento diante dos problemas do país e do mundo. Trata-se do momento classificado pelo crítico Affonso Romano de Sant’Anna em que o poeta apresenta um “eu menor que o mundo”, ou seja, carrega o peso dos problemas nas costas. Nessa produção, poemas importantes ganham destaque, como “Sentimento do mundo”, “Mãos dadas”, “Mundo grande”, “O medo”, entre outros presentes nos livros Sentimento do mundo (1940) e A rosa do povo (1945). O livro A rosa do povo constitui uma das obras mais emblemáticas dessa fase. No âmbito mundial, destacam-se a Segunda Guerra e a ascensão do fascismo; no âmbito nacional, a ditadura do Estado Novo surge como fator incômodo. Juntos, todos esses elementos movimentam a poesia para uma poética da resistência, sendo a rosa o símbolo alegórico da transformação necessária ao coletivo, isto é, ao povo. A crítica ao mundo burguês e a valorização e proteção da propriedade que anula a vida humana no universo capitalista são retratadas no poema narrativo “Morte do leiteiro”, que tem como eu lírico o proprietário de uma residência. O poema evidencia um mundo em que a ordem da mercadoria tem mais valor que o indivíduo que a entrega. Nesse sentido, noite é sinônimo de medo e insegurança. Para romper com esse cenário, a resistência surge na forma de aurora, de um novo dia que rompe com a escuridão. O sangue do leiteiro se enlaça ao leite derramado, compondo uma imagem tal como a aurora que surge no horizonte.
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Estátua de Carlos Drummond de Andrade em Copacabana, Rio de Janeiro.
Nessa nova perspectiva sobre o fazer poético visto em “Segredo”, percebemos que a inquietação de Drummond reside em um paradoxo: a luta vã diante da poesia e a necessidade de vencer a batalha poética. Nos livros posteriores, como A rosa do povo (1945), obra pertencente à fase social, esse incômodo se mantém. Em “Procura da poesia”, o eu lírico afirma que os acontecimentos da vida são insuficientes para que o poema se constitua. No que tange à forma, a poesia de Drummond na fase gauche apresenta uma estrutura em favor do ritmo da vida. A arquitetura textual com liberdade de métrica e rima, na verdade, trabalha a cargo do conteúdo, do elemento textual interno. No poema “Cidadezinha qualquer”, presente em Alguma poesia, a tranquilidade e a harmonia da pequena cidade do interior mineiro é ironizada pela repetição monótona da vida interiorana, uma vez que tudo acontece devagar; a lentidão está no homem, no cachorro, no burro. A vida “besta” e entediante é marcada pela pausa das reticências que corroboram a temática do poema.
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A imagem ambivalente assinalada por noite e dia, como símbolos de medo e resistência, respectivamente, figura em determinados poemas da fase social de Drummond. Em “A noite dissolve os homens”, poema do livro Sentimento do mundo (1940), a noite separa os homens, impedindo-os que se apoiem. O eu lírico não enxerga seus companheiros, chamados por ele de irmãos, pois o medo deitou sobre as casas e as ruas.
Eu igual ao mundo: o pessimismo e a poética do impasse (poesia filosófica) A fase filosófica de Drummond é conhecida pela introspecção e pelo signo ou “fase do não”, em que a obscuridade de sua poesia se associa a uma postura de inação diante do mundo circundante. O refúgio e isolamento do eu lírico, no entanto, não significam alienação da realidade, mas um imobilismo. Diferentemente da busca pela explicação de uma pedra que impede o caminhante em “No meio do caminho”, o eu lírico dessa fase reflexiva nega qualquer explicação e aceita a penumbra que recobre sua poesia. O livro com essa característica mais outonal da fase filosófica é Claro enigma, publicado em 1951, período tenso marcado pela Guerra Fria, contexto crítico do pós-guerra entre as potências mundiais Estados Unidos e União Soviética, além de seus respectivos aliados dos blocos Ocidental e Oriental. Claro enigma apresenta o verso do poeta Paul Valéry na epígrafe, “Les événements m’ennuient”, cuja tradução – “Os acontecimentos me entediam” – expressa o estado de tédio, pessimismo e desilusão social. Porém, a crítica afiada ao processo criativo de Drummond ressalta que é necessária atenção ao ler os poemas desse livro, os quais tendem à preocupação quase parnasiana com a forma, porque a lírica do poeta sempre é ensimesmada, o que indica que a desordem e o inconformismo com o mundo encontram-se atrás da ordem clássica da poesia marcada pela métrica e rima perfeitas. Esse Modernismo classicizante retorna à tradição literária, recupera a mitologia, o vocabulário erudito, como uma saída para a impossibilidade de dizer. A palavra parece estar muda nessa fase, enquanto há um impasse já anunciado no título, cuja figura de linguagem conhecida como oxímoro define a tônica da obra. O poema de abertura do livro, “Dissolução”, evidencia a postura passiva do eu lírico que se vê diante da escuridão e cruza os braços, fundindo-se à noite. A imagem da rosa revolucionária perde sua força na sexta estrofe, pois é uma rosa “pobre”. A atmosfera dos poemas de Claro enigma mostra um posicionamento poético que dispensa salvar o mundo pela palavra. Apesar disso, há o incômodo do eu lírico que, na busca por fazer um poema mais duro, rígido e calcado nas marcas clássicas, ainda se encontra inquieto, pois o corpo do texto não lhe parece suficiente. Em “Oficina Irritada”, porém, Drummond radicaliza sua atitude, movida agora por um desejo perverso de causar dor, traduzido em imagens aflitivas (como a do tendão de Vênus sob o pedicuro); no choque das imagens sublimes e grotescas; na musicalidade “dura” (motivada pelo baque seco das consoantes plosivas) e no efeito sombrio dos versos (dada a incidência da sinistra vogal “u”) [...]. É só no momento em que o leitor toma a consciência dessa intenção deliberadamente perversa, que
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nasce a possibilidade de aceder ao significado maior dos versos, do enigma se revelar em toda sua claridade. [...] CAMILO, Vagner. Drummond: Da Rosa do Povo à Rosa das Trevas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 200.
O poema que encerra o livro, “A máquina do mundo”, retoma duas obras da tradição clássica literária: A divina comédia, de Dante Alighieri, e Os lusíadas, de Luís Vaz de Camões. A estrutura organizada em tercetos alude à terza rima do poeta italiano e ao fato de Dante se encontrar perdido em meio a uma floresta escura, como se nota nos primeiros versos da sua epopeia. O eu lírico drummondiano, ao contrário, encontra-se em uma estrada mineira pedregosa e conhecida, mas não anseia pela claridade do caminho, pois está sem esperança de compreender qualquer enigma. Quanto ao poema camoniano, Drummond retoma a métrica dos versos decassílabos e o episódio também chamado de “A máquina do mundo”, no qual Vasco da Gama tem diante de si reveladas as verdades pela miniatura do universo aberta pelas mãos da ninfa Tétis. No começo, a figura regente era a da máquina do mundo que “se entreabriu”; no final, é o ato de retração do eu, oposto ao mundo, que “baixa os olhos”, como se os fechasse para não poder ver. [...] BOSI, Alfredo. Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. 34. ed. São Paulo: Duas Cidades, 2003. p. 99.
terza rima: [...] a sua invenção, na estrutura que passou a ostentar, deve-se a Dante: toda a Divina Comédia (séc. XIV) compõe-se de tercetos, por meio dos quais o poeta desejaria simbolizar a Santíssima Trindade, os Três Reinos (Inferno, Purgatório e Paraíso) e tudo o mais que se relaciona com o sentido cabalístico do número 3. [...] MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 12. ed. rev. e atual. São Paulo: Cultrix, 2013. p. 459.
Atenção Apesar da divisão em três fases proposta pelo crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna, há críticos que preferem analisar a obra de Drummond sob quatro divisões: fase gauche, fase social, fase do “não” e fase da memória. Embora as polaridades entre os temas sociais e individuais oscilem na produção do poeta ao longo de sua vida, há na fase gauche uma tendência a inquietações humanas próprias do indivíduo sob uma atmosfera irônica, com linguagem sintética e bem-humorada, sendo Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934) as duas obras publicadas nesse momento. A fase social se debruça sobre os problemas do mundo, especialmente os de conotação política e social, e marca um período em que se destaca a veia socialista do poeta. Os principais livros publicados nessa fase são Sentimento do mundo (1940), José (1942) e A rosa do povo (1945). A produção conhecida como fase do “não” é característica do pessimismo, da melancolia e impassibilidade diante do mundo. Claro enigma (1951) é o livro de destaque dessa fase, mas o poeta também escreveu Fazendeiro do ar (1953) e A vida passada a limpo (1959). Já a última fase retoma memórias da infância e do período passado na cidade de Itabira, em Minas Gerais. São obras publicadas nesse período Boitempo (1968) e As impurezas do branco (1973).
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A literatura brasileira se tornou mais rica em 1922, pois surgia nesse ano a poesia de Cecília Meireles [...]. Além de Viagem, Cecília Meireles publicou Baladas para El-Rei, Vaga Música, Mar Absoluto, Retrato Natural, Romanceiro da Inconfidência, Amor em Leonoreta, Doze Noturnos da Holanda, O Aeronauta, Pequeno Oratório de Santa Clara, Canções, Romance de Santa Cecília, Ou Isto ou Aquilo e outros. Devido aos temas profundamente introspectivos, tratados na sua poética, Cecília Meireles chegou a ser considerada uma autora mais ibérica que brasileira, isto para os que desconheciam a sua luta política enquanto cidadã. Porém, quando publicou o Romanceiro da Inconfidência, fruto de onze anos de pesquisas históricas, a crítica deu-se por satisfeita com um exemplo de técnica e nacionalidade numa poética de conteúdo social. Assim temos a Cecília dos sons, das cores, dos tons, dos amores e das letras que se unem e se fundem em poemas de rara expressividade. PORTÁCIO, Denilson Albano. Romanceiro da Inconfidência, um misto de poder, liberdade e opressão. Revista de Letras, v. 18, n. 2, p. 74-83, jul./dez. 1996. p. 74. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/bitstream/ riufc/16750/1/1996_art_daportacio.pdf. Acesso em: 16 nov. 2023.
Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro. Perdeu os pais muito cedo e foi criada pela avó. Frequentou a Escola Normal e formou-se em 1917. Atuou como professora do ciclo básico, mas também se dedicou à literatura e ao jornalismo. Seu papel na educação brasileira foi bastante importante e, apesar de menos conhecida, sua carreira em diversos cargos relacionados à área educacional é bastante expressiva. Ao lado de vários intelectuais, a autora assinou, em 1932, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. O documento defendia a necessidade de mudanças educacionais no Brasil, propondo ações que seriam positivas para a sociedade como um todo.
No âmbito literário, Cecília Meireles destacou-se na poesia, mas também escreveu ensaios e algumas peças de teatro. Em sua obra poética, é possível perceber influências das poesias medieval, romântica, parnasiana e simbolista – sendo o Simbolismo mais evidente nas primeiras antologias, que posteriormente ela renegou. A autora representa a vertente espiritualista da segunda geração do Modernismo brasileiro, tendo sido uma poeta de tom bastante intimista e religioso, com uma escrita que se aproxima da abstração musical e contém fluidez onírica. Alguns dos temas mais recorrentes em seus poemas são: o amor, o tempo, a morte e a eternidade. Já nos primeiros escritos, há poemas com temas históricos, lendários e mitológicos, mas sua obra mais reconhecida é, sem dúvidas, Romanceiro da Inconfidência.
Saiba mais Escola Normal ou Curso Normal é uma instituição educacional cujo principal objetivo é formar professores de Ensino Fundamental, ou seja, um curso de Magistério. Atualmente, é requisitado um curso superior em Pedagogia ou Letras.
Romanceiro da Inconfidência A obra Romanceiro da Inconfidência é um livro de poemas que narra a história da Inconfidência Mineira, um movimento promovido por colonos brasileiros que desejavam se libertar do domínio português. O espaço em que esse enredo se desenvolve é Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto.
Atenção Romanceiro é o nome dado ao conjunto de breves poemas de tom popular sobre determinado tema. O gênero originou-se na Idade Média e tem ligações com a tradição ibérica. Luis War/Shutterstock.com
Acervo do Fundo Correio da Manhã/Arquivo Nacional, Rio de Janeiro
Cecília Meireles (1901-1964)
SILVA, Giselle Lourenço de Sousa. O pensamento educacional de Cecília Meireles. 2017. 125 f. Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia, 2017. Disponível em: http://tede2.pucgoias. edu.br:8080/bitstream/tede/3833/2/GISELLE%20LOUREN%c3%87O%20 DE%20SOUSA%20SILVA.pdf. Acesso em: 16 nov. 2023.
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[...] O movimento escolanovista propunha a implantação de um plano geral de educação organizado pelo Estado e defendia a existência de uma escola única, pública, laica, obrigatória e gratuita. Apesar de encontrar apoio em diferentes setores da sociedade, a proposição do Movimento não ocorreu de forma tranquila, esbarrando na oposição da Igreja Católica, que, até então, concorria com o Estado na função de educar a população e controlava parcela expressiva das escolas da rede privada. [...]
Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Ouro Preto, Minas Gerais.
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Atenção Entre as principais características do Arcadismo estão: o bucolismo, a idealização da natureza e o interesse por problemas sociais. Esse era o movimento estético vigente quando a Inconfidência Mineira aconteceu.
A obra se organiza em cinco partes, nas quais se sucedem romances, cenários e falas. Os romances formam o núcleo narrativo e são entremeados por falas – intervenções da voz narrativa que se dirige às personagens ou ajudam na interpretação da leitura – e cenários – que situam o leitor no tempo e espaço e indicam mudanças de tom. Em o Romanceiro da Inconfidência, observa-se um trabalho exemplar do fazer poético de Cecília Meireles. Um longo poema que narra um importante fato histórico do Brasil Colônia, a Inconfidência Mineira. Este poema de estrutura dramática evidencia a figura do personagem como condutor da narrativa e utiliza recursos cênicos para narrar as ações desses personagens, os quais na sua grande maioria são reais, aparecendo ainda personagens fictícios que auxiliam no enriquecimento da trama. O personagem narrador utiliza variados recursos de linguagem para contar a travessia de liberdade do Alferes Tiradentes. Ilustra a narrativa com o poder do ouro, o som das igrejas do século XVIII, as cores que compuseram a trajetória da liberdade e as palavras, as ideias, que resumiram o significado da Inconfidência Mineira.
Museu Júlio de Castilhos, Porto Alegre
Prisão de Tiradentes, de Antônio Parreiras, 1914. Óleo sobre tela, 282 cm 3 180 cm. Museu Antônio Parreiras, Niterói, Brasil.
Estabelecendo relações Os poetas Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa são reconhecidos não apenas por se destacarem no Arcadismo brasileiro, mas também pela participação direta que tiveram em um importante momento histórico do Brasil: a Inconfidência Mineira. O movimento teve origem na capitania de Minas Gerais e foi influenciado pelos ideais de liberdade do Iluminismo. Os inconfidentes se revoltaram contra a Coroa portuguesa, que, criando uma série de leis, impedia o desenvolvimento econômico da colônia. Com a crescente cobrança de taxas e impostos, cresceu também a insatisfação da população, levando grupos de diferentes classes sociais a se unir para reivindicar mudanças. Os poetas árcades e Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, eram os principais representantes do movimento e pretendiam libertar o Brasil da Coroa portuguesa, estabelecendo uma República Independente. Os inconfidentes foram traídos por Joaquim Silvério dos Reis, que devia uma grande soma para a Coroa e, em troca de informações, teve sua dívida perdoada.
Jorge de Lima, Murilo Mendes e Vinicius de Moraes Vida e obra de Jorge de Lima (1895-1953) Acervo do Fundo Correio da Manhã/Arquivo Nacional, Rio de Janeiro
O livro nasceu depois de uma visita que Cecília Meireles fez à cidade de Ouro Preto (MG). A autora foi enviada para acompanhar, como jornalista, as festividades da Semana Santa na cidade e acabou sendo influenciada pelo forte apelo histórico do lugar. Seu interesse também está relacionado ao desejo dos modernistas de recuperar o passado nacional. Com dedicação, Cecília Meireles faz uma extensa pesquisa sobre o Brasil do século XVIII e costura dados, personagens e documentos históricos em suas composições poéticas. Pensando nos aspectos estruturais, destaca-se o uso da redondilha maior – verso de sete sílabas –, um esquema livre de rimas e a combinação dos gêneros épico, dramático e lírico. Cecília também estudou as formas poéticas medievais e os poetas do Arcadismo, principalmente Tomás Antônio Gonzaga. Como resultado, podemos perceber o entrelaçamento de três tempos na obra: a época de Cecília (década de 1920), a época da Inconfidência Mineira (século XVIII) e a época medieval.
PORTÁCIO, Denilson Albano. Romanceiro da Inconfidência, um misto de poder, liberdade e opressão. Revista de Letras, v. 18, n. 2, p. 74-83, jul./dez. 1996. p. 83. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/bitstream/ riufc/16750/1/1996_art_daportacio.pdf. Acesso em: 16 nov. 2023.
Ao longo da obra, ficam evidentes os tons espiritualista, característico do Modernismo, evocativo e questionador. Há, ainda, tintas de uma dualidade ou ambiguidade que permeia as ações do ser humano. Os personagens são apresentados de maneira detalhada, estratégia que os humaniza e comove o leitor. Entre as principais figuras históricas inseridas no enredo estão: Chica da Silva, D. Maria I, Joaquim José da Silva Xavier, Cláudio Manoel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga.
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Capítulo 11
Jorge de Lima nasceu em Alagoas. Foi pintor, ilustrador, escultor, romancista, professor, mas se destacou como poeta.
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Essa negra Fulô Ora, se deu que chegou (isso já faz muito tempo) no banguê dum meu avô uma negra bonitinha chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô! Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) — Vai forrar a minha cama, pentear os meus cabelos, vem ajudar a tirar a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô!
Essa negrinha Fulô ficou logo pra mucama, para vigiar a Sinhá pra engomar pro Sinhô! Essa negra Fulô! Essa negra Fulô Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) vem me ajudar, ó Fulô, vem abanar o meu corpo que eu estou suada, Fulô! vem coçar minha coceira, vem me catar cafuné, vem balançar minha rede, vem me contar uma história, que eu estou com sono, Fulô!
Essa negra Fulô!
“Era um dia uma princesa que vivia num castelo que possuía um vestido com os peixinhos do mar. Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto o Rei-Sinhô me mandou que vos contasse mais cinco.”
Essa negra Fulô! Essa negra Fulô!
Ó Fulô? Ó Fulô? Vai botar para dormir esses meninos, Fulô! “Minha mãe me penteou minha madrasta me enterrou pelos figos da figueira que o Sabiá beliscou.”
Essa negra Fulô! Essa negra Fulô!
Fulô? Ó Fulô? (Era a fala da Sinhá chamando a negra Fulô.) Cadê meu frasco de cheiro que teu Sinhô me mandou? — Ah! foi você que roubou! Ah! foi você que roubou! O Sinhô foi ver a negra levar couro do feitor. A negra tirou a roupa. O Sinhô disse: Fulô! (A vista se escureceu que nem a negra Fulô.)
Essa negra Fulô! Essa negra Fulô
Ó Fulô? Ó Fulô? Cadê meu lenço de rendas cadê meu cinto, meu broche, cadê meu terço de ouro que teu Sinhô me mandou? Ah! foi você que roubou. Ah! foi você que roubou.
Essa negra Fulô! Essa negra Fulô
O Sinhô foi açoitar sozinho a negra Fulô. A negra tirou a saia e tirou o cabeção, de dentro dele pulou nuinha a negra Fulô.
Essa negra Fulô! Essa negra Fulô!
Ó Fulô? Ó Fulô? Cadê, cadê teu Sinhô que nosso Senhor me mandou? Ah! foi você que roubou, foi você, negra Fulô?
Essa negra Fulô!
LIMA, Jorge de. Essa negra Fulô. In: LIMA, Jorge de. Poemas negros. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
“Essa negra Fulô” é um poema narrativo e descritivo, no qual o eu lírico recupera uma lembrança da infância e a apresenta sem um viés crítico, o que mostra o distanciamento entre ele e as pessoas envolvidas na rememoração. As falas da Sinhá e as atitudes do feitor e do Sinhô evidenciam a opressão a que o povo negro escravizado era submetido. Chama a atenção a maneira como a mulher negra é apresentada; figura frequente na poesia dessa fase de Lima, a negra Fulô parece ser reduzida a um corpo sensual, que é usado para que ela consiga se livrar de punições. A crítica literária mostra-se dividida em relação à denominada fase negra do poeta, pois o corpo da mulher negra é o que mais se destaca em Poemas negros (1947). A terceira fase de Jorge de Lima é conhecida como místico-religiosa e coincide com sua conversão ao catolicismo. O ponto alto desse período foi a publicação, em parceria com Murilo Mendes, da coletânea Tempo e eternidade, em 1935. Ainda nessa fase, publicou A túnica inconsútil (1938) e Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943). São características dessas obras a simbologia hermética, as alegorias, o ritmo, o equilíbrio métrico e a atemporalidade. Tematicamente, é possível notar a presença de figuras religiosas, mescladas ao lirismo e à sensualidade. Sua última fase foi a épica, período em que publicou A invenção de Orfeu (1952). A obra é organizada em dez cantos e é considerada o ponto alto e a síntese da carreira literária de Jorge de Lima, por reunir características das fases negra e místico-religiosa. Aclamada pela crítica de sua época, A invenção de Orfeu é uma produção complexa e enigmática, que apresenta diversas referências simbólicas, literárias e mitológicas.
Vida e obra de Murilo Mendes (1901-1975)
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Folhapress/Folhapress
Cursou Medicina e exerceu sua profissão até se lançar na vida política, sem nunca perder o contato com os escritores de sua época, entre eles José Lins do Rego, Gilberto Freyre e Murilo Mendes. Suas primeiras produções poéticas têm forte influência parnasiana e simbolista. A segunda fase de sua obra teve início quando o poeta aderiu ao Modernismo e ficou conhecida como fase negra ou regional, cujo poema mais conhecido é “Essa negra Fulô”. Inspirado pela onda de brasilidade que envolvia os modernistas, Lima adotou os versos brancos e livres, agregou o espaço nordestino às suas composições, enfatizando as paisagens, o folclore e os personagens. Também apresentou suas memórias de infância e adolescência, descrevendo a convivência com a população negra.
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Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
Autorretrato, de Ismael Nery, 1930. Óleo sobre papel, 62 cm 3 47,5 cm. Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.
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Capítulo 11
Vida e obra de Vinicius de Moraes (1913-1980) Album/Easypix Brasil
Nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, no ano de 1901, Murilo Mendes foi poeta e prosador. Era filho de um funcionário público e de uma dona de casa que morreu quando Murilo Mendes tinha apenas um ano de vida. Foi criado pela madrasta, a quem considerava uma segunda mãe. Aos16 anos, recusava-se a levar os estudos a sério, apesar dos esforços da família. Alguns anos depois, em 1920, acabou se mudando para o Rio de Janeiro com o irmão. Seus primeiros textos foram publicados em revistas modernistas, como a Revista de Antropofagia e Verde. Em 1930, com apoio do pai, publicou sua primeira coletânea de poemas, pela qual recebeu o Prêmio Graça Aranha. Casou-se em 1940 com a poeta Maria da Saudade Cortesão e partiu para a Europa em uma missão cultural que durou de 1952 a 1956. Em 1957, fixou residência na Itália, onde assumiu a cadeira de professor de Cultura Brasileira na Universidade de Roma. Sua residência na cidade acabou se tornando um ponto de encontro para artistas e intelectuais. Suas primeiras produções poéticas evidenciam a influência dos principais temas e procedimentos do Modernismo brasileiro. Sua obra dialoga com a poesia de Mário de Andrade e Oswald de Andrade e podemos observar características como o nacionalismo, o folclore, o coloquialismo, o humor, o poema-piada e a paródia. Após sua conversão ao catolicismo, é possível notar uma vertente religiosa e espiritualista que passa a acompanhar sua obra até o fim, com um tom esperançoso, mas que também revela uma dupla concepção da poesia: como salvação e, paradoxalmente, como martírio, à medida que testemunha o sofrimento do mundo. Umas das características mais marcantes de sua obra é a dualidade, como podemos observar no poema “Jogo”, por exemplo. O Surrealismo foi outra influência marcante na obra de Mendes. Desse movimento, o poeta utiliza principalmente a técnica da montagem, que ele adota para conciliar elementos contraditórios, como o onírico e o mundano, o imaginário e o cotidiano. Tal influência se deu pela amizade entre o poeta e o pintor surrealista Ismael Nery (1900-1934), a quem Murilo Mendes e Jorge de Lima dedicaram a obra Tempo e eternidade.
Vinicius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro em 1913. Poeta, compositor, cronista e crítico de cinema, também atuou como diplomata. Fazia parte de uma família de intelectuais com formação católica, motivo pelo qual frequentou o colégio jesuíta e participou do coro nas missas de domingo. Na faculdade de Direito também se relacionava com um grupo de amigos católicos, e sua crença marcou seus primeiros poemas, publicados em O caminho para a distância (1933) e em Forma e exegese (1935). Estudou língua e literatura inglesa na Universidade de Oxford, Inglaterra, mas retornou ao Brasil no início da Segunda Guerra Mundial. Passou a colaborar com revistas e jornais como crítico de cinema. Serviu como diplomata em diversos países, até que, em 1968, por se opor à ditadura, foi exonerado de seu cargo. Vinicius ficou muito conhecido por sua participação na criação da bossa nova, período em que cultivou uma vida de boemia e passou a dedicar-se a turnês musicais acompanhando, principalmente, o músico Toquinho. O amor é, sem dúvidas, a grande marca do poeta e compositor. A obra de Vinicius de Moraes é um longo aprendizado do amor. Em seus primeiros livros, a temática amorosa viu-se embraçada pela religiosidade do jovem atormentado por sentimentos e desejos que traziam consigo a nódoa do pecado. Otávio de Faria referiu-se a esse momento da poesia de Vinicius como o de uma luta entre a pureza impossível e a impureza inaceitável. Foi aos poucos que o poeta conquistou maturidade e desenvoltura nos planos afetivo e estético. Nos versos do primeiro Vinicius, o amor é exaltado com vocabulário nobre e imagens nebulosas; surge distante das experiências mais chãs e da linguagem do dia a dia, ou, ao contrário, mostra-se decaído por sua pureza aviltada. Adiante, o poeta mais bem formado consolidaria uma escrita em que o amor baixa à esfera comum das vivências cotidianas, da
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expressão coloquial, numa manobra em direção à expressão mais direta, mais simples; a trama afetiva, por sua vez, adensa-se, marcada agora por erotismo e força intuitiva, leveza e naturalidade, ânimo humorístico e potência subversiva. Como exemplos, cabe lembrar dos sonetos, como os célebres “Soneto de fidelidade”, “Soneto do maior amor” e “Soneto de separação”. Modelados pela temática amorosa, despertam nossa emoção e, ao mesmo tempo, fascinam pelo acabamento formal. O resultado é uma rara capacidade de criar vínculos permanentes com o leitor, perseverando numa espécie de memória coletiva. [...] FERRAZ, Eucanaã. Apresentação. In: MORAES, Vinicius de. Todo amor. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 9.
chã: comum, fácil.
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Joao Paulo V Tinoco/Shutterstock.com
A bossa nova foi um movimento musical cujo principal objetivo era a renovação do samba. O movimento teve origem na zona sul do Rio de Janeiro na década de 1950. A canção “Chega de saudade” é considerada o marco inicial do movimento e é uma colaboração entre o músico Tom Jobim e o poeta Vinicius de Moraes.
experimentações formais. O soneto, porém, é a forma mais cultuada por Vinicius de Moraes. O poeta, no entanto, propõe-se a criar sonetos com uma linguagem mais coloquial, o que ajuda a dar ares de modernidade à sua produção. Cada um dos poetas da década de 1930 apresenta em seus trabalhos influências de diferentes movimentos estéticos. Essas produções se encontraram no Modernismo a partir de um traço em comum: a liberdade criativa. A segunda geração da poesia modernista, no entanto, não se propunha a romper com os ideais da primeira, como afirma Alfredo Bosi: [...] se desviarmos o foco da atenção da ruptura para as permanências, constataremos o quanto ficou da linguagem reelaborada no decênio de 20. A dívida maior, e era de esperar que fosse, a da poesia. Mário, Oswald e Bandeira tinham desmembrado de vez os metros parnasianos e mostrado com exemplos vigorosos a função do coloquial, do irônico, do prosaico na tessitura do verso. Um Drummond, um Murilo, um Jorge de Lima, embora cada vez mais empenhados em superar a dispersão e a gratuidade lúdica daqueles, foram os legítimos continuadores do seu roteiro de liberação estética. E, mesmo a lírica essencial, antipitoresca e antiprosaica, de Cecília Meireles [...], Vinicius de Marais [...], próxima do neossimbolismo europeu, só foi possível porque tinha havido uma abertura a todas as experiências modernas no Brasil pós-22. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970. p. 431.
As vanguardas valorizavam a experimentação e, desse modo, cabe dizer que as referências a outros autores, à tradição literária ou às correntes vanguardistas são incorporadas nesses poemas como meio de expressar algo novo.
Estátua de Tom Jobim, um dos mais importantes nomes da bossa nova e da música brasileira, na praia de Ipanema, Rio de Janeiro.
A obra de Vinicius de Moraes é, geralmente, dividida em duas fases: na primeira, observamos fortes tendências místicas e transcendentais, além do conflito entre a formação católica e os prazeres mundanos. Já na segunda fase, iniciada com a coletânea Novos poemas (1938), o poeta faz um movimento de afastamento do transcendentalismo, imprimindo um tom mais sensual aos seus poemas. Além disso, a preocupação com os problemas sociais também ganha espaço. As mudanças não são apenas temáticas, mas estruturais. Na primeira fase, temos um poeta mais prolixo e seus versos são mais longos; na segunda fase, por sua vez, a linguagem é mais econômica e concisa, dando espaço a
O escritor, jornalista e tradutor Mario Quintana (1906-1994) é considerado um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Sua síntese poética permite categorizar sua produção estética como modernista. Nascido em Alegrete no Rio Grande do Sul, Mario contribuiu com periódicos como O Estado do Rio Grande do Sul, a Revista Globo e o Correio do Povo e publicou seu primeiro livro, Cataventos, em 1940, a partir do qual passou a ser agraciado pelo público leitor seduzido pela musicalidade e beleza de sua poesia. Essa relação de proximidade levou a produção poética de Mario Quintana a ser reproduzida em inúmeras antologias escolares. Atualmente, é comum o autor surgir em questões de vestibulares no país, especialmente por seus poemas em prosa que apresentam grande densidade, apesar da síntese. A brincadeira com as palavras e os jogos linguísticos são característicos da poesia de seus livros Canções (1946) e Caderno H (1973), além de outras marcas modernistas, como os versos brancos e livres e a abordagem a temas associados ao tempo, à infância e a cenas cotidianas. O poeta morou por muitos anos no Hotel Majestic, transformado na Casa de Cultura Mario Quintana. Como nunca se casou, a poesia tornou-se a grande companheira de sua vida.
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Revisando 001598_por_f2_c11_q0001objetiva
1. Observe a tela Pogrom, pintada por Lasar Segall em 1937.
Cidadezinha qualquer
Acervo do Museu Lasar Segall-Ibram/Ministério do Turismo
Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar. Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Devagar... as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus.
a) é herdeiro da vertente social do Modernismo de 30. b) ironiza a idealização da vida rural, tão cantada pelos românticos do século XIX. c) substitui a idealização romântica da vida rural por uma visão mais crítica. d) se vale de vocabulário e sintaxe simples, de acordo com a proposta do Modernismo. e) mostra na primeira estrofe um quadro romântico da natureza, que é desfeito nas estrofes seguintes.
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Lasar Segall, Pogrom, 1937. Óleo com areia sobre tela, 184 cm 3 150 cm. Museu Lagar Segall, São Paulo.
Analise as afirmações sobre as fases da produção poética de Carlos Drummond de Andrade e a relação de intertextualidade com a tela de Segall. I. A fase gauche dialoga com a obra de Lasar Segall, pois a relação do poeta com o mundo é de indiferença, como se nota em seus poemas prosaicos sobre a guerra e a violência. II. Pogrom, de Segall, associa-se à fase social de Drummond, devido à sua inclinação aos problemas de cunho sociopolítico, presentes em obras como Sentimento do mundo e A rosa do povo. III. Pode-se afirmar que a fase metafísica drummondiana é uma paráfrase da obra de Segall, uma vez que Drummond tinha interesse pelo tema da morte e ressureição. IV. A fase da memória, escrita entre as décadas de 1970 e 1980, conversa com a obra de Segall, pois o poeta escrevia crônicas de guerra e novelas de conteúdo histórico. É correto apenas o que se afirma em: a) I. b) II. c) III. d) IV. e) III e IV.
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2. ITA-SP O poema a seguir é um dos mais conhecidos de Carlos Drummond de Andrade. É INCORRETO dizer que o poema
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Capítulo 11
3. Segundo o Dicionário de Termos Literários do escritor e professor português Carlos Ceia, romanceiro é a “designação atribuída ao gênero literário de tradição oral constituído pelo conjunto de breves poemas tradicionais ou romances cuja origem remonta à Baixa Idade Média. Tal designação surge já em 1579 com a coleção de Lucas Rodrigues – Romancero Historiado –, sendo consolidada em 1600 com o Romancero General”. A partir do conceito de romanceiro dado pelo professor e considerando a estrutura do livro Romanceiro da Inconfidência, por que podemos afirmar que a obra de Cecília Meireles apresenta as características desse gênero?
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4. Leia o texto a seguir. Romanceiro da Inconfidência (1953), de Cecília Meireles (1901-1964), livro de poemas que efetua um mergulho lírico na história da Conjuração Mineira (1789), é das obras poéticas de maior fôlego na literatura brasileira. Resultado de dez anos de pesquisa sobre o século XVIII no Brasil, o livro registra com exatidão dados e documentos históricos [...]. A denúncia de injustiça estende-se a todos os setores da sociedade, que tem sua formação também retratada no livro. Emprega-se em múltiplos contextos a referência ao ouro que permite o enriquecimento da região. No Romance I, ele é objeto de busca de “homens alucinados”; no IV, matéria-prima de um punhal usado por um pai para assassinar a filha (nesse caso, recriação de fato verídico). Entre outros aproveitamentos, destaca-se o do metal como símbolo da ganância permanente (“Que a sede de ouro é sem cura, / e, por ela subjugados, / os homens matam-se e morrem, / ficam mortos, mas não fartos”, Romance I), que tem como
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consequência a desigualdade e a exploração brutal do trabalho escravo (“Morre-se de febre e fome / sobre a riqueza da terra”, Romance II). [...] ROMANCEIRO da Inconfidência. In: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2022. Disponível em: http://enciclopedia. itaucultural.org.br/obra6408/romanceiro-da-inconfidencia. Acesso em: 15 jan. 2024. Verbete da Enciclopédia.
Considerando o período que Cecília Meireles se propõe a retratar, justifique por que o ouro é representado de tal forma no Romanceiro da Inconfidência. Pesquise o poema “O pastor pianista”, de Murilo Mendes, e leia a crítica de Antonio Candido sobre ele para responder às questões 5 e 6. 001598_por_f2_c11_t0002
Analisar este poema [O pastor pianista] é essencialmente tentar a caracterização da sua linguagem, a partir do problema das tensões, muito vivo aqui a começar pela ambiguidade do título, que pode significar “pastor que toca piano”, ou “pastor que apascenta pianos”. 001598_por_f2_c11_q0007discursiva 001598_por_f2_c11_t0002
CANDIDO, Antonio. Na sala de aula: caderno de análise literária. 8. ed. São Paulo: Ática, 2009. p. 82.
5. Uma das características da obra de Murilo Mendes são os dualismos. Analise essa característica a partir da afirmação de Antonio Candido.
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6. A imagem descrita no poema faz referência a uma vanguarda europeia. Qual seria essa vanguarda e qual o seu efeito de sentido no poema?
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7. Releia o poema “Essa negra Fulô”, de Jorge de Lima reproduzido anteriormente, e explique a repetição da expressão que dá título ao poema.
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8. O verso inicial do poema, “uma negra bonitinha”, se contrapõe à dinâmica apresentada por Jorge de Lima. Explique a razão dessa ocorrência.
Exercícios propostos 001598_por_f2_c11_q0016objetiva
1. EsPCEx-SP Sobre a poesia da Segunda Geração modernista, é correto afirmar que a) apresenta fortes características regionalistas, assim como a prosa do período. b) valoriza as formas fixas, como o soneto, em detrimento à liberdade de expressão. c) preocupa-se fundamentalmente com o sentido da existência humana. d) apresenta forte tendência nacionalista e de crítica à realidade social brasileira. e) é essencialmente experimentalista e inovadora quanto a temas e formas de expressão. Na questão a seguir, marque V para verdadeiro e F para falso.
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2. UFPE A Semana de Arte Moderna deu início a uma revolução nas artes no Brasil, incluindo a literatura. A partir de então, adotamos os preceitos de vanguarda através de várias correntes que modificaram definitivamente a linguagem literária no nosso país. Considerando esse contexto histórico, analise os itens abaixo. 0-0 No Modernismo, várias vanguardas se constituíram com ousadias formais e temáticas. Na ficção literária, essas tendências exerceram influência, por exemplo, por meio da liberdade de expressão, da incorporação do cotidiano, da linguagem coloquial, da ambiguidade, da paródia, das inovações técnicas, como a escrita automática e o fluxo da consciência. 1-1 Na primeira fase do modernismo brasileiro, Mário de Andrade foi muito versátil, interessando-se por tudo que dissesse respeito ao Brasil. Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter, apela para o suporte mitológico da lenda indígena, transfigurada pelo escritor. No entanto, falha no propósito de identificar o herói com o povo brasileiro. 2-2 Tendo pertencido à geração de 30, Carlos Drummond de Andrade é considerado nosso poeta maior. De linguagem seca e simples, no início chocou o público leitor com seu poema inusitado e sem sentimentalismo, No Meio do Caminho, onde o anedótico mascara uma reflexão existencial. 3-3 O romance regionalista de 30 foi muito influenciado pelo Manifesto Regionalista de Gilberto Freire, lançado em 1926, e tinha como principal característica expressar os valores regionais numa linguagem fora dos padrões, no que dava continuidade à vertente aberta por Oswald de Andrade em sua obra romanesca. 4-4 João Guimarães Rosa e Clarice Lispector foram duas grandes figuras da terceira fase do modernismo brasileiro. A primeira fazia, em sua prosa, uma espécie de “recriação linguística”, para expressar sua leitura mística do sertão. A segunda, por sua vez, introduziu nas letras brasileiras uma prosa de sondagem interior, valendo-se, para tanto, do fluxo da consciência e de metáforas insólitas.
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3. UPF-RS 2016 Primeiro grande poeta a se afirmar após as estreias modernistas, Carlos Drummond de Andrade publica, na década de 1930, os livros Alguma poesia e Brejo das almas, marcados pelo individualismo e pelo humor do poeta gauche. Entretanto, desde Sentimento do mundo, publicado no início da década de 1940, nota-se a emergência de um(a) __________ na produção do poeta mineiro, e o livro A rosa do povo, de 1945, assinala, justamente, o momento culminante e derradeiro da __________ de Drummond, composta sob os anos trágicos e sombrios da Segunda Guerra Mundial. Assinale a alternativa cujas informações preenchem corretamente as lacunas do enunciado. a) sentimento ufanista / poesia nacionalista. b) senso participante / poesia política. c) pendor filosofante / poesia metafísica. d) sentimento nostálgico / poesia memorialística. e) concepção formalista / poesia experimental. Leia o poema a seguir para responder às questões 4 e 5. 002447_por_f2_c11_t0001
Poema de sete faces Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é o meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. ANDRADE, C. D. de. Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 19-20. 01) 002447_por_f2_c11_q0001objetiva 002447_por_f2_c11_t0001
4. UEM-PR 2023 Sobre o poema e sobre o seu autor Carlos Drummond de Andrade, assinale o que for correto.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 11
01 O poema não traz convergências semânticas em relação ao número de estrofes e ao seu título. Como se trata de um texto inspirado no ideário do spleen, cultivado na segunda geração romântica, as estrofes são escritas em diferentes situações e depois agrupadas em um só poema sem o compromisso de vinculação dos significados de cada estrofe. 02 A exploração dos diferentes sentidos das palavras na expressão poética pode ocorrer por meio do uso de figuras de linguagem. No poema aparece a prosopopeia no verso “As casas espiam os homens”. No verso “O bonde passa cheio de pernas”, encontra-se metonímia. 04 Na última estrofe, o eu lírico, comovido com sua perda amorosa, preocupa-se com o abuso da bebida alcoólica e aconselha o leitor a evitar o seu consumo, mesmo correndo o risco de contrariá-lo: “Eu não devia te dizer”. 08 O título do poema, bem como o número de estrofes, por refletirem o sincretismo religioso brasileiro, estão relacionados aos sete pecados capitais: soberba, inveja, luxúria, preguiça, ira, avareza e gula. 16 A segunda e a terceira estrofes representam dois espaços diferentes: os dois primeiros versos da segunda estrofe focalizam casas que espiam homens; a terceira estrofe focaliza o bonde, dentro do qual se constata variedade racial. Soma: 002447_por_f2_c11_q0002objetiva 002447_por_f2_c11_t0001
5. UFJF-MG 2022 Sobre a expressão “desses que”, presente na segunda linha, é CORRETO afirmar que: a) Sugere que o “anjo torto” é um ser único e incomparável. b) Indica que o anjo é uma versão espiritual da vida humana. c) Indica que o “anjo torto” se assemelha a outros anjos que “vivem na sombra”. d) Sugere que o “anjo torto” deseja endireitar a vida de “Carlos”. e) Indica que o anjo é um ser especial na vida de “Carlos”. 002447_por_f2_c11_q0003objetiva
6. UCS-RS 2022 Stop. A vida parou ou foi o automóvel? Fonte: ANDRADE, C. D. Alguma Poesia. Belo Horizonte: Edições Pindorama, 1930.
Esse poema pode ser interpretado como uma crítica à vida moderna e acelerada que tem entre suas consequências os congestionamentos e outros transtornos causados pela falta de mobilidade urbana, afinal, passar alguns minutos ou horas “parado” no trânsito faz parte da rotina de quem vive ou trabalha nas grandes cidades. Sobre Carlos Drummond de Andrade, é correto afirmar que a) apresenta preocupação com o rigor formal, a precisão vocabular, o verso curto e os paralelismos
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c)
d)
e)
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7. EsPCEx-SP 2019 Leia as afirmações abaixo sobre Carlos Drummond de Andrade: I. Preferiu não participar da Semana de Arte Moderna, mas enviou seu famoso poema “Os Sapos”, que, lido por Ronald de Carvalho, tumultuou o Tea tro Municipal. II. Sua fase “gauche” caracterizou-se pelo pessimismo, pelo individualismo, pelo isolamento e pela reflexão existencial. A obra mais importante foi o “Poema de Sete Faces”. III. Na fase social, o eu lírico manifesta interesse pelo seu tempo e pelos problemas cotidianos, buscando a solidariedade diante das frustrações e das esperanças humanas. IV. A última fase foi marcada pela poesia intimista, de orientação simbolista, prezando o espiritualismo e orientalismo e a musicalidade, traços que podem ser notados no poema “O motivo da Rosa”. Estão corretas as afirmações: a) I, II e III b) II, III e IV c) II e III d) II e IV e) III e IV Texto para as questões 8 e 9. 001598_por_f2_c11_t0005
Os ombros suportam o mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, preferiram (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação. ANDRADE, Carlos Drummond. Obras completas. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967. P. 110-111. 001598_por_f2_c11_q0023objetiva 001598_por_f2_c11_t0005
8. FMP-RJ 2018 No poema, depois de refletir sobre o tempo presente, o eu lírico constata que é preciso a) suportar com resignação as dificuldades da vida, sem enganar a si mesmo. b) procurar conviver com os amigos, porque eles são importantes na nossa vida. c) enfrentar com coragem o isolamento, já que ele impede a realização pessoal. d) esperar com paciência a velhice para usufruir as experiências acumuladas. e) lutar contra as dificuldades do dia a dia para poder viver com tranquilidade. 001598_por_f2_c11_q0024objetiva 001598_por_f2_c11_t0005
9. FMP-RJ 2018 Entre as características da obra de Carlos Drummond de Andrade, a que está presente nesse poema é a a) valorização do cotidiano e das raízes culturais brasileiras. b) nostalgia da vida provinciana relacionada à terra natal. c) denúncia constante da monotonia observada no dia a dia. d) esperança na sobrevivência do sentimento amoroso. e) manifestação de cansaço diante dos problemas da vida. 001598_por_f2_c11_q0026objetiva
10. IFPE 2017 Texto 1
Certas palavras Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer. Estritamente reservadas para companheiros de confiança, devem ser sacralmente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança. Entretanto são palavras simples: definem partes do corpo, movimentos, atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos.
FRENTE 2
b)
sintáticos, explorando temas como a fugacidade do tempo e a efemeridade das coisas. faz parte da terceira geração modernista, denominada geração de 45, sendo duramente criticado pela falta de engajamento social e por retroceder em relação às conquistas de 1922. tem a obra poética dividida em quatro fases, sendo que a gauche é caracterizada pelo pessimismo, individualismo, isolamento, reflexão existencial, ironia e metalinguagem. combina, influenciado por filosofias orientais, espiritualidade com um modo sutil de perceber o universo, o que explica a utilização de versos curtos, leves, suaves e imagéticos. concilia o profano e o sagrado ao produzir uma poesia mística, mas, ao mesmo tempo, erótica, tendo a mulher como uma de suas principais fontes de inspiração.
E tudo é proibido. Então, falamos. ANDRADE, Carlos Drummond de. Certas palavras. In: A palavra Mágica POESIA. 10a ed. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 32.
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Texto 2
Diálogo final — É tudo que tem a me dizer? – perguntou ele. — É – respondeu ela. — Você disse tão pouco. — Disse o que tinha para dizer. — Sempre se pode dizer mais alguma coisa. — Que coisa? — Sei lá. Alguma coisa. — Você queria que eu repetisse? — Não. Queria outra coisa. — Que coisa é outra coisa? — Não sei. Você que devia saber. [...] ANDRADE, Carlos Drummond de. Diálogo Final (trecho). In: Histórias para o Rei - CONTO. 4a ed. Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 42-43.
Os textos 1 e 2 foram escritos por Carlos Drummond de Andrade, grande nome do Modernismo brasileiro. Sobre os autores e características das três fases do movimento modernista do Brasil, assinale a alternativa CORRETA. a) Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes e Cecília Meireles são os principais autores da segunda fase do Modernismo brasileiro e representam, através de textos exclusivamente poéticos, temas urbanos, intimistas e regionalistas. b) Assim como Drummond, fizeram parte da segunda geração modernista os escritores Clarice Lispector e Guimarães Rosa, os quais possuíam características bastante semelhantes, devido à tendência lírica da geração de 30. c) João Cabral de Melo Neto, grande poeta da terceira fase do Modernismo brasileiro, ficou conhecido como “poeta engenheiro” e, assim como Drummond, tinha a inspiração como principal aliada na elaboração de seus poemas. d) Enquanto a primeira geração modernista foi caracterizada pela polêmica, pela originalidade e pelo deboche, a segunda mostrou-se mais amadurecida, lançou nomes como Carlos Drummond de Andrade e consolidou os ideais difundidos na fase anterior. e) Além de Drummond, os escritores Oswald e Mário de Andrade também abrilhantaram a segunda geração do Modernismo. Conhecidos como “Os Andrades”, os autores introduziram em suas obras uma linguagem mais livre, semelhante à linguagem coloquial.
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11. Fuvest-SP 2020
Cantiga de enganar
LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 11
Talvez nem seja talvez. O mundo não vale a pena, mas a pena não existe. Meu bem, façamos de conta. De sofrer e de olvidar, de lembrar e de fruir, de escolher nossas lembranças e revertê‐las, acaso se lembrem demais em nós. Façamos, meu bem, de conta – mas a conta não existe – que é tudo como se fosse, ou que, se fora, não era. [...] Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma.
Em Claro Enigma, a ideia de engano surge sob a perspectiva do sujeito maduro, já afastado das ilusões, como se lê no verso-síntese “Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.” (“Legado”). O excerto de “Cantiga de enganar” apresenta a relação do eu com o mundo mediada a) pela música, que ressoa em canções líricas. b) pela cor, brilhante na claridade solar. c) pela afirmação de valores sólidos. d) pela memória, que corre fluida no tempo. e) pelo despropósito de um faz-de-conta. Texto para as questões de 12 a 15. 001598_por_f2_c11_t0006
O elefante Fabrico um elefante de meus poucos recursos. Um tanto de madeira tirado a velhos móveis 5 talvez lhe dê apoio. E o encho de algodão, de paina, de doçura. A cola vai fixar suas orelhas pensas. 10 A tromba se enovela, é a parte mais feliz de sua arquitetura. Mas há também as presas, dessa matéria pura 15 que não sei figurar. Tão alva essa riqueza a espojar-se nos circos sem perda ou corrupção. E há por fim os olhos, 20 onde se deposita
[...] O mundo não tem sentido. O mundo e suas canções de timbre mais comovido estão calados, e a fala que de uma para outra sala ouvimos em certo instante
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é silêncio que faz eco e que volta a ser silêncio no negrume circundante. Silêncio: que quer dizer? Que diz a boca do mundo? Meu bem, o mundo é fechado, se não for antes vazio. O mundo é talvez: e é só.
a parte do elefante mais fluida e permanente, alheia a toda fraude. Eis o meu pobre elefante 25 pronto para sair à procura de amigos num mundo enfastiado que já não crê em bichos e duvida das coisas. 30 Ei-lo, massa imponente e frágil, que se abana e move lentamente a pele costurada onde há flores de pano 35 e nuvens, alusões a um mundo mais poético onde o amor reagrupa as formas naturais. Vai o meu elefante 40 pela rua povoada,
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45 É todo graça, embora as pernas não ajudem e seu ventre balofo se arrisque a desabar ao mais leve empurrão. 50 Mostra com elegância sua mínima vida, e não há cidade alma que se disponha a recolher em si 55 desse corpo sensível a fugitiva imagem, o passo desastrado mas faminto e tocante. Mas faminto de seres 60 e situações patéticas, de encontros ao luar no mais profundo oceano, sob a raiz das árvores ou no seio das conchas, 65 de luzes que não cegam e brilham através dos troncos mais espessos. Esse passo que vai sem esmagar as plantas 70 no campo de batalha,
à procura de sítios, segredos, episódios não contados em livro, de que apenas o vento, 75 as folhas, a formiga reconhecem o talhe, mas que os homens ignoram, pois só ousam mostrar-se sob a paz das cortinas 80 à pálpebra cerrada. E já tarde da noite volta meu elefante, mas volta fatigado, as patas vacilantes 85 se desmancham no pó. Ele não encontrou o de que carecia, o de que carecemos, eu e meu elefante, 90 em que amo disfarçar-me. Exausto de pesquisa, caiu-lhe o vasto engenho como simples papel. A cola se dissolve 95 e todo o seu conteúdo de perdão, de carícia, de pluma, de algodão, jorra sobre o tapete, qual mito desmontado. 100 Amanhã recomeço.
ANDRADE, Carlos Drummond de. O Elefante. 9a ed. São Paulo: Editora Record, 1983.
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12. IME-RJ 2019 O poema O elefante: a) anuncia, por meio da alegoria do animal, que o tamanho dos problemas dos adultos é inversamente proporcional ao tamanho do elefante, sendo, ao mesmo tempo, um poema direcionado às crianças. b) estabelece uma relação criador/criatura e, metaforicamente, é possível falar de um paralelo entre arte/artista: o conteúdo produzido pelo artista é causa e consequência, ao mesmo tempo, do trabalho do poeta com as palavras. c) desconecta o elefante (criação) de seu criador, retirando deste toda a sua capacidade criativa. d) mostra a criatura, o elefante, como algo definido e único: criá-lo é tão trabalhoso que não há possibilidade de criar outros elefantes. e) revela, metaforicamente, um descuido com o fazer poético ao descrever a deselegância do elefante mal construído, que segue pelas ruas de modo desequilibrado. 001598_por_f2_c11_q0032objetiva 001598_por_f2_c11_t0006
13. IME-RJ 2019 Considere os versos 68 a 80 do texto, transcritos a seguir: Esse passo que vai sem esmagar as plantas no campo de batalha, à procura de sítios,
segredos, episódios não contados em livro, de que apenas o vento, as folhas, a formiga reconhecem o talhe, mas que os homens ignoram, pois só ousam mostrar-se sob a paz das cortinas à pálpebra cerrada.
Acerca de “vento”, “folhas” e “formiga”, pode-se afirmar que a) significam a procura do poeta por novos “sítios”, ou seja, novo público, futuros leitores do poema. b) são comparados ao “livro” que o poeta pretende escrever sob a paz das cortinas. c) não constituem elementos naturais capazes de compreender e espelhar a natureza do “elefante”. d) estão presentes no poema com o objetivo de exaltar o comportamento humano que só se mostra “sob a paz das cortinas / à pálpebra cerrada”. e) eles não ignoram o que o homem ignora.
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14. IME-RJ 2019 No texto, considerando o elefante fabricado artesanalmente como uma alegoria para falar da arte, mandar o elefante à rua aponta para um desejo de: a) divulgação daquilo que até então era privado e íntimo. b) invisibilidade da coisa criada. c) anonimato e silenciamento, já que há nas ruas um burburinho incessante que acaba por silenciar tudo o que nela transita. d) fuga às responsabilidades do artista, pois o poeta sucumbe diante de sua inspiração. e) banalização dos sentimentos que inspiraram o poeta a construir seu elefante. 001598_por_f2_c11_q0034objetiva 001598_por_f2_c11_t0006
15. IME-RJ 2019 Considere os versos 19 a 23 do texto, transcritos abaixo: E há por fim os olhos, onde se deposita a parte do elefante mais fluida e permanente, alheia a toda fraude.
Abaixo, você encontrará alguns ditados populares elencados. Qual destes ditados mais se aproxima da ideia veiculada no verso 23, “alheia a toda fraude”? a) “Fazer o bem sem olhar a quem.” b) “O pior cego é aquele que não quer ver.” c) “Perto dos olhos, longe do coração.” d) “Em terra de cego, quem tem um olho é rei.” e) “Os olhos são a janela da alma.”
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16. Uerj
O sobrevivente Impossível compor um poema a essa altura da evolução [da humanidade. Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de [verdadeira poesia. O último trovador morreu em 1914. Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
FRENTE 2
mas não o querem ver nem mesmo para rir da cauda que ameaça deixá-lo ir sozinho.
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Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades [mais simples. Se quer fumar um charuto aperte um botão. Paletós abotoam-se por eletricidade. Amor se faz pelo sem-fio. Não precisa estômago para digestão. Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto. Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. Os percevejos heroicos renascem. Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado. E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo [dilúvio. (Desconfio que escrevi um poema.) Carlos Drummond de Andrade. Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985. Texto I
Os dois primeiros versos enfatizam uma ideia que será desconstruída pela leitura integral do poema, caracterizando uma ironia, expressa também no título. Transcreva o verso do texto que, em comparação com os dois primeiros, revela essa ironia. Em seguida, estabeleça a relação entre o verso transcrito e o título.
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17. Fuvest-SP 2021
Remissão Tua memória, pasto de poesia, tua poesia, pasto dos vulgares, vão se engastando numa coisa fria a que tu chamas: vida, e seus pesares. Mas, pesares de quê? perguntaria, se esse travo de angústia nos cantares, se o que dorme na base da elegia vai correndo e secando pelos ares, e nada resta, mesmo, do que escreves e te forçou ao exílio das palavras, senão contentamento de escrever, enquanto o tempo, e suas formas breves ou longas, que sutil interpretavas, se evapora no fundo do teu ser? Carlos Drummond de Andrade, Claro enigma.
Claro enigma apresenta, por meio do lirismo reflexivo, o posicionamento do escritor perante a sua condição no mundo. Considerando-o como representativo desse seu aspecto, o poema “Remissão” a) traduz a melancolia e o recolhimento do eu lírico em face da sensação de incomunicabilidade com uma realidade indiferente à sua poesia. b) revela uma perspectiva inconformada, mesclando-a, livre da indulgência dos anos anteriores, a um novo formalismo estético.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 11
c) propõe, como reação do poeta à vulgaridade do mundo, uma poética capaz de interferir na realidade pelo viés nostálgico. d) reflete a visão idealizada do trabalho do poeta e a consciência da perenidade da poesia, resistente à passagem do tempo. e) realiza a transição do lirismo social para o lirismo metafísico, caracterizado pela adesão ao conforto espiritual e ao escapismo imaginativo.
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18. UFPR 2017 “E não gostavas de festa... / Ó velho, que festa grande / hoje te faria a gente”. Esses são os versos de abertura do poema “A Mesa”, parte integrante do livro Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade. Neles podem ser identificados alguns elementos do poema, entre os quais o destinatário, um patriarca, a quem o eu lírico se dirige ao longo de centenas de versos. A respeito de “A Mesa” e de sua integração com outros poemas do mesmo livro, assinale a alternativa correta. a) Numa festa de aniversário, o eu lírico reapresenta ao velho pai as pessoas da família. Tristes e nostálgicas, elas vão se dando conta de que o pai não as reconhece. É o que se observa nos versos: “Aqui sentou-se o mais velho” e “Mais adiante vês aquele / que de ti herdou a dura / vontade, o duro estoicismo”. b) Na festa preparada para o pai, o eu lírico observa a conversa barulhenta em torno da comida e, inutilmente, tenta calar seus parentes, que trazem à mesa assuntos triviais, perturbando a solenidade do reencontro. É o que se observa na repetição do verso “(não convém lembrar agora)”. c) Por meio dos versos “Como pode nossa festa / ser de um só que não de dois? / Os dois ora estais reunidos / numa aliança bem maior / que o simples elo da terra”, o eu lírico se dirige à mãe, convidando-a para se sentar à cabeceira da mesa, provocando uma discussão entre o pai autoritário e a mãe submissa. d) Na memória do eu lírico, o pai se refere aos filhos cinquentões como se eles fossem meninos. Embora sugira discordar do pai, o eu lírico reconhece as contradições da condição de filho adulto nos versos “e o desejo muito simples / de pedir à mãe que cosa, / mais do que nossa camisa, nossa alma frouxa, rasgada”. e) O soneto “Encontro” faz referência a um pai, mas, como o pai está morto (“Está morto, que importa? / Inda madruga / e seu rosto, nem triste nem risonho, / é o rosto antigo, o mesmo. E não enxuga / suor algum, na calma de meu sonho”), o filho só o encontra em sonho e na imaginação, diferentemente de “A mesa”.
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19. UEM-PR 2023 Sobre o poema a seguir, de Carlos Drummond de Andrade, e sobre sua poesia, de modo geral, assinale o que for correto.
Consolo na praia Vamos, não chores... A infância está perdida.
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O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis casa, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas, e o humour? A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros. Tudo somado devias precipitar-te – de vez – nas águas. Estás nu na areia, no vento... Dorme, meu filho. ANDRADE, C. D. de. Antologia poética. São Paulo: Companhia das letras, 2012. p. 34.
01 Para Drummond, o universo cotidiano adverso constitui-se fonte de inspiração para expor conflitos e instrumento de resgate para levar o ser humano a compreender e a aceitar as frustrações da vida diária. A vivência de experiências individuais torna-se tema e assunto que focaliza problemas existenciais. 02 Para reforçar o sofrimento, a desilusão e a melancolia que marcam o poema, o autor desconsidera o ideário do Modernismo e faz uso de forma fixa, de versos em redondilhas, de rimas sistemáticas. Além disso, no fim do poema, há dois conselhos na tentativa de resolução dos conflitos: “precipitar-te – de vez – nas águas.” e “Dorme, meu filho.” 04 Marcada por agudas crises nos campos político, econômico e social, parte da poesia de Drummond focaliza o mundo e o ser humano em crise. No poe ma, há um traço irônico na pergunta contida no verso: “Mas, e o humour?”. 08 As frustrações, o tédio e a angústia sugeridas pelo poema são elementos mediadores entre a interioridade do sujeito e a realidade externa. Depois dos eventos tristes, sobram a vida que “não se perdeu”, o “coração”, “um cão”, talvez “o humour”, e a praia (as “águas”, a “areia”, o “vento”), onde é possível encontrar algum consolo. 16 Na última estrofe, o eu lírico demonstra individua lismo, orgulho e alienação ao indicar soluções que possibilitem a fuga dos problemas existenciais. O recurso mais utilizado para alcançar esse objetivo é a utilização da metapoesia, sugerida pela expressão “Tudo somado”. Soma:
20. Fuvest-SP 2023 Leia os versos e responda à questão: Ambição gera injustiça. Injustiça, covardia. Dos heróis martirizados nunca se esquece a agonia. Por horror ao sofrimento, ao valor se renuncia. E, à sombra de exemplos graves, nascem gerações opressas. Quem se mata em sonho, esforço, mistérios, vigílias, pressas? Quem confia nos amigos? Quem acredita em promessas? Que tempos medonhos chegam, depois de tão dura prova? Quem vai saber, no futuro, o que se aprova ou reprova? De que alma é que vai ser feita essa humanidade nova? Cecília Meireles – trecho final do “Romance LIX ou Da Reflexão dos Justos”, de Romanceiro da Inconfidência.
a) Como se articula a sequência ambição, injustiça e covardia – formada no poema – com o episódio fatal de Tiradentes? b) A voz lírica interroga quais serão as consequên cias dos acontecimentos bárbaros da história sobre as novas gerações. Por que essa é uma reflexão dos justos? Leia o poema a seguir para responder às questões 21 e 22. 001598_por_f2_c11_t0011
Retrato Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje, Assim calmo, assim triste, assim magro, Nem estes olhos tão vazios Nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, Tão paradas e frias e mortas; Eu não tinha este coração Que nem se mostra Eu não dei por esta mudança, Tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida a minha face?
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21. Uece 2021 Os versos acima são de autoria da escritora carioca Cecília Meireles (1901-1964). O poema traça uma espécie de autorretrato, enfocando principalmente a questão da a) transitoriedade da vida. b) alegria de viver. c) partilha de pequenos momentos. d) felicidade de envelhecer.
FRENTE 2
A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu.
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22. EPCAr-MG 2017 (Adapt.) Sobre os versos do poema “Retrato”, é correto afirmar que a) o poema traz referência à perda de todos os sentidos humanos, ocasionada pelo envelhecimento. b) a visão do eu lírico oscila entre o pessimismo e o otimismo ante a efemeridade do tempo. c) o tom melancólico se desfaz no décimo verso, quando o eu lírico constata a inevitabilidade da transformação física. d) o eu lírico sente-se perplexo diante da consciência tardia das mudanças trazidas pela passagem do tempo.
25. UFRGS 2019 Leia trechos dos poemas “Fanatismo”, de Florbela Espanca, e “Imagem”, de Cecília Meireles.
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23. ITA-SP Cecília Meireles, poeta da segunda fase do Modernismo Brasileiro, faz parte da chamada “Poesia de 30”. Sobre esta autora e seu estilo, é CORRETO afirmar que ela a) seguiu rigidamente o Modernismo Brasileiro, produzindo uma poesia de consciência histórica. b) não seguiu rigidamente o Modernismo Brasileiro, produzindo uma obra de traços parnasianos. c) seguiu rigidamente o Modernismo Brasileiro, produzindo uma poesia panfletária e musical. d) não seguiu rigidamente nenhuma corrente do Modernismo Brasileiro, produzindo uma poesia lírica, mística e musical. 001598_por_f2_c11_q0038objetiva
24. ITA-SP 2019 Leia o poema de autoria de Cecília Meireles.
“Epigrama n. 04” O choro vem perto dos olhos para que a dor transborde e caia. O choro vem quase chorando como a onda que toca a praia. Descem dos céus ordens augustas e o mar chama a onda para o centro. O choro foge sem vestígios, mas levando náufragos dentro. (MEIRELES, Cecília, Viagem/Vaga música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p.43)
O texto I. aproxima metaforicamente um fenômeno humano e um fenômeno natural a partir da identificação de, pelo menos, um traço comum a ambos: água em movimento. II. sugere que, enquanto o movimento do choro é ligado à variação das emoções, o movimento da onda deve-se a forças naturais, responsáveis pela circularidade marítima. III. ameniza o dramatismo do choro humano, pois, quando acomete o sujeito, ele passa naturalmente, como a onda que volta ao mar. IV. leva-nos a perceber que o choro contido tem um impacto emocional que o torna desolador. Estão corretas: a) I e II apenas; b) I, II e IV apenas; c) I, III e IV apenas; d) II e III apenas; e) todas.
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Capítulo 11
Fanatismo [...] “Tudo no mundo é frágil, tudo passa...” Quando me dizem isto, toda a graça Duma boca divina fala em mim! E, olhos postos em ti, digo de rastros: “Ah! Podem voar mundos, morrer astros, Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...”
Imagem Tão brando é o movimento das estrelas, da lua, das nuvens e do vento, que se desenha a tua face no firmamento. Desenha-se tão pura como nunca a tiveste, nem nenhuma criatura. Pois é sombra celeste da terrena aventura. [...]
Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre os poemas. Ambos os sujeitos líricos comparam o ser amado à perfeição divina. Ambos os sujeitos líricos veem o amor de modo idealizado. Ambos os sujeitos líricos falam diretamente ao ser amado. Ambos os poemas citam diretamente a voz da opinião pública. A sequência correta de preenchimento, de cima para baixo, é a) V – V – V – F. d) F – V – F – V. b) V – V – F – V. e) V – F – V – F. c) F – F – V – V.
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26. Enem Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência a vossa! Todo o sentido da vida principia a vossa porta: o mel do amor cristaliza seu perfume em vossa rosa; sois o sonho e sois a audácia, calúnia, fúria, derrota... A liberdade das almas, ai! Com letras se elabora... E dos venenos humanos sois a mais fina retorta: frágil, frágil, como o vidro e mais que o aço poderosa! Reis, impérios, povos, tempos, pelo vosso impulso rodam... MEIRELES, Cecília. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985 (fragmento).
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27. Unisc-RS 2017 Leia atentamente o trecho do poema Cantiguinha, de Cecília Meireles, e analise as afirmativas a seguir. [...] Veio vindo a ventania, – te juro – as águas mudam seu brilho, quando o tempo anda inseguro. Quando as águas escurecem, – te juro – todos os barcos se perdem, entre o passado e o futuro. São dois rios os meus olhos, – te juro – noite e dia correm, correm, mas não acho o que procuro. (MEIRELES, Cecília. Obra poética. 2. ed. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967. p. 120.)
I.
A exaltação da natureza, observada nos versos de Cecília Meireles, permite afirmar que sua obra pertence à primeira geração do Romantismo brasileiro. II. Nos versos de Cecília Meireles, percebem-se o tom intimista e a reflexão sobre a condição humana, que se dá a partir da analogia entre o rio e as lágrimas do eu lírico. III. A singeleza da linguagem, verificada nos versos, configura uma das principais características da obra de Cecília Meireles. Assinale a alternativa correta. a) Somente as afirmativas I e II estão corretas. b) Somente as afirmativas II e III estão corretas. c) Somente as afirmativas I e III estão corretas. d) Nenhuma afirmativa está correta. e) Todas as afirmativas estão corretas.
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28. Enem PPL 2016
Maria Diamba Para não apanhar mais falou que sabia fazer bolos:
virou cozinha. Foi outras coisas para que tinha jeito. Não falou mais: Viram que sabia fazer tudo, até molecas para a Casa-Grande. Depois falou só, só diante da ventania que ainda vem do Sudão; falou que queria fugir dos senhores e das judiarias deste mundo para o sumidouro. LIMA, J. Poemas negros. Rio de Janeiro: Record, 2007.
O poema de Jorge de Lima sintetiza o percurso de vida de Maria Diamba e sua reação ao sistema opressivo da escravidão. A resistência dessa figura feminina é assinalada no texto pela relação que se faz entre a) o uso da fala e o desejo de decidir o próprio destino. b) a exploração sexual e a geração de novas escravas. c) a prática na cozinha e a intenção de ascender socialmente. d) o prazer de sentir os ventos e a esperança de voltar à África. e) o medo da morte e a vontade de fugir da violência dos brancos.
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29. Unioeste-PR 2020 Leia atentamente o excerto do soneto “O acendedor de lampiões”, de Jorge de Lima, e assinale a opção CORRETA. Triste ironia atroz que o senso humano irrita: – ele que doira a noite e ilumina a cidade, talvez não tenha luz na choupana em que habita. Tanta gente também nos outros insinua crenças, religiões, amor, felicidade, como este acendedor de lampiões da rua!
a) Trata-se de um soneto decassílabo, com rimas externas, denotando, pelo cuidado com a forma e temática, pertencer ao movimento parnasiano. b) O poema retrata a amargura da profissão de acendedor de lampiões em uma sociedade que não valoriza o trabalho, tampouco o trabalhador braçal. c) O soneto retrata a miséria nos subúrbios dos grandes centros brasileiros, onde a situação é tão precária que não há luz elétrica para os moradores. d) A temática proposta no poema faz alusão à hipocrisia humana, principalmente no que diz respeito à crença, religião, amor, felicidade. e) Acender lampiões se traduz como um ato de coragem, de bravura, pois o acendedor de lampiões não se cansa de executar seu trabalho.
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30. UFU-MG 2015
Noite de São João
Jorge de Lima
FRENTE 2
O fragmento destacado foi transcrito do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Centralizada no episódio histórico da Inconfidência Mineira, a obra, no entanto, elabora uma reflexão mais ampla sobre a seguinte relação entre o homem e a linguagem: a) A força e a resistência humanas superam os danos provocados pelo poder corrosivo das palavras. b) As relações humanas, em suas múltiplas esferas, têm seu equilíbrio vinculado ao significado das palavras. c) O significado dos nomes não expressa de forma justa e completa a grandeza da luta do homem pela vida. d) Renovando o significado das palavras, o tempo permite às gerações perpetuar seus valores e suas crenças. e) Como produto da criatividade humana, a linguagem tem seu alcance limitado pelas intenções e pelos gestos.
Vamos ver quem é que sabe soltar fogos de S. João? Foguetes, bombas, chuvinhas, chios, chuveiros, chiando,
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chiando, chovendo chuvas de fogo! chá – Bum! LIMA, Jorge de. Obra completa. Rio de Janeiro: José Aguilar,1958, p. 58.
a) Quais são as três figuras de efeito sonoro que predominam nesta estrofe? b) Explique cada uma delas, citando exemplos retirados destes versos de Jorge de Lima.
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31. UFJF-MG 2023
Reflexão n. 1 Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio Nem ama duas vezes a mesma mulher. Deus de onde tudo deriva É a circulação e o movimento infinito. Ainda não estamos habituados com o mundo Nascer é muito comprido. Fonte: MENDES, Murilo. Antologia Poética. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p.64.
Sobre o poema de Murilo Mendes (que dialoga com uma frase do filósofo grego Heráclito: “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”), há um contraste entre palavras que manifestam negação/ausência e versos que expressam afirmação/presença. Em relação a tal contraste, é CORRETO afirmar: a) Segundo o poema, o mundo nunca é o mesmo, o que sustenta a afirmação: “nascer é muito comprido”. b) O poema propaga uma ideia imutável de vida espiritual em contraposição à fluidez cotidiana. c) O poema defende uma crença em verdades absolutas em detrimento das mutações mundanas. d) O poema convida o leitor a se adaptar ao mundo tal como ele é, ao invés de transformá-lo. e) O poema manifesta uma contraposição entre o ato de nascer e o ato de amar uma mulher. Texto para as questões 32 e 33. 001598_por_f2_c11_t0007
Solidariedade Sou ligado pela herança do espírito e do sangue Ao mártir, ao assassino, ao anarquista, Sou ligado Aos casais na terra e no ar, Ao vendeiro da esquina, Ao padre, ao mendigo, à mulher da vida, Ao mecânico, ao poeta, ao soldado, Ao santo e ao demônio, Construídos à minha imagem e semelhança. MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Org. Luciana Stegagno Picchio. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 205-206. 001598_por_f2_c11_q0046objetiva 001598_por_f2_c11_t0007
32. PUC-Rio 2021 Em relação aos aspectos formais característicos do texto, pode-se afirmar que a) a estrutura é de um soneto. b) os versos são dodecassílabos. c) as rimas são ricas. d) os versos são livres e brancos.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 11
33. PUC-Rio 2021 O poema de Murilo Mendes apresenta um tom a) generoso e inclusivo. b) heroico e épico. c) utópico e ufanista. d) pessimista e cético. Texto para as questões 34 e 35. 001598_por_f2_c11_t0008
O pastor pianista Soltaram os pianos na planície deserta Onde as sombras dos pássaros vêm beber. Eu sou o pastor pianista, Vejo ao longe com alegria meus pianos Recortarem os vultos monumentais Contra a lua. Fragmento do poema do poeta mineiro Murilo Mendes (1901-1975).
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34. Mackenzie-SP 2018 Observe as afirmações. I. O tema da música, frequente na poesia de Murilo Mendes, é trabalhado nos versos acima sob influência do surrealismo. II. Os versos revelam ecos da poesia cerebral e racionalista do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. III. Pode-se afirmar que a poesia de Murilo Mendes é multifacetada, pois em diferentes poemas há tanto uma perspectiva de denúncia social como também diálogos com o experimentalismo da poesia concreta. Assinale a alternativa correta. a) Estão corretas as afirmações I e II. b) Estão corretas as afirmações I e III. c) Estão corretas as afirmações II e III. d) Todas as afirmações estão corretas. e) Nenhuma das afirmações está correta. 001598_por_f2_c11_q0051objetiva 001598_por_f2_c11_t0008
35. Mackenzie-SP 2018 Seria possível compararmos o fragmento do poema “O pastor pianista” com: a) a poesia parnasiana de Olavo Bilac e de Alberto Oliveira, pela presença da temática da arte pela arte. b) os cenários sertanejos e a representação do conflito entre indivíduo e natureza, como presentes em Vidas secas, de Graciliano Ramos. c) o indianismo e as metáforas de mestiçagem, co mo encontrados no romance Iracema, de José de Alencar. d) o poema-piada e a desconstrução com efeito de humor da temática do amor, característicos da obra de Oswald de Andrade. e) o jogo poético entre os planos físico e onírico, como recorrente na obra de Jorge de Lima. Leia o poema e responda às questões 36 e 37. 001598_por_f2_c11_t0009
Modinha do empregado de banco Eu sou triste como um prático de farmácia sou quase tão triste como um homem que usa costeletas Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher mas só ouço o tectec das máquinas de escrever. Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda. Quantas meninas pela vida afora
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Também se o Diretor tivesse a minha imaginação o Banco já não existiria mais e eu estaria noutro lugar.
(Murilo Mendes)
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36. ESPM-SP 2013 Assinale a afirmação incorreta sobre o poema. O “eu” poético: a) estabelece um denominador comum (tristeza) entre o funcionário de banco, o prático da farmácia e o homem de costeletas. b) opõe o mundo interior com desejo de afetividade (“carinhos de mulher”) ao mundo exterior com rotina do trabalho (“tectec das máquinas”). c) alude ao trabalho burocrático e repetitivo, reforçado pela onomatopeia “tectec”. d) associa o espaço externo a aspectos prazerosos da vida e o espaço interno ao aspecto fútil de sua atividade. e) atribui a existência do Banco, instituição capitalista, à criatividade do Diretor do Banco. 001598_por_f2_c11_q0055objetiva 001598_por_f2_c11_t0009
37. ESPM-SP 2013 Ainda sobre o poema de Murilo Mendes, assinale a incorreta. O “eu” poético: a) questiona o acúmulo de dinheiro na sociedade capitalista: objeto que existe como um meio, não um fim. b) lastima o fato de os fregueses do Banco estarem preocupados em multiplicar a fortuna, não usufruir a vida. c) considera os contos chocando e o alinhamento da fortuna alheia os responsáveis pela sua dúvida existencial. d) põe sua roda da imaginação para funcionar quando se refere aos carinhos de mulher, à chuva e às meninas. e) deixa subentendida uma oposição entre o ter capitalista e o querer poético. Para as questões 38 e 39, utilize os textos a seguir. 001598_por_f2_c11_t0004
O autor: Marcus Vinícius de Melo Moraes (1913-1980) formou-se em Direito e ingressou, em 1946, na carreira diplomática. Como poeta, atingiu seu ponto mais alto por meio de um lirismo amoroso de tom erótico em que a mulher torna-se o tema principal. Glorificando o amor físico, sem qualquer traço de moralismo, Vinícius de Moraes, exibe sempre, através de seus versos, forte paixão e amor pela vida – panteísmo erótico. Além de poeta, foi cronista e autor de textos teatrais. Grande parte de sua fama decorre especialmente da projeção adquirida com a Bossa-Nova e a MPB. Convém assinalar que ele nunca se definia como músico, não separando o letrista (e eventualmente cantor) do poeta propriamente dito. Era só o poeta, ou o “poetinha”, como era tratado com carinho.
Texto I – Soneto da Fidelidade De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face de maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quer vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento. E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.
Texto II – Soneto do maior amor Maior amor nem mais estranho existe Que o meu, que não sossega a coisa amada E quando a sente alegre, fica triste E se a vê triste, dá risada. E que só fica em paz se lhe resiste O amado coração, e que se agrada Mais da eterna aventura em que persiste Que de uma vida mal-aventurada. Louco amor meu, que quando toca, fere E quando fere vibra, mas prefere Ferir a fenecer – e vive a esmo Fiel à sua lei de cada instante Desassombrado, doido, delirante Numa paixão de tudo e de si mesmo. Fonte: Vinícius de Moraes/ seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico e exercícios por Carlos Filipe Moisés. S. Paulo: Abril Educação, 1980. - Literatura Comentada. Página 34.
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38. Unifenas-MG 2019 I. Ambos os textos apresentam uma estrutura formal, além da clareza e da concisão da linguagem que, assim, recuperam características clássicas. II. Ambos os textos filiam-se à tradição maneirista de Camões, sobretudo pelo emprego expressivo de oposições. III. Usando rima e métrica tradicional, o autor destes sonetos vai ao encontro de um propósito dos modernistas brasileiros do primeiro momento, que têm com meta a valorização de autores clássicos. a) I, II e III – corretos. b) I e II – corretos; III – incorreto. c) I – correto; II – incorreto; III – correto. d) I – incorreto; II – correto; III – incorreto. e) I e II – incorretos; III – correto. 001598_por_f2_c11_q0019objetiva 001598_por_f2_c11_t0004
39. Unifenas-MG 2019 I. Para ser intenso, o amor tem que ser finito, pois, dessa maneira, não corre o risco de se extinguir na apatia e no marasmo. É o que afirma a voz poé tica do texto I.
FRENTE 2
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros. Se eu tivesse estes contos punha a andar a roda da imaginação nos caminhos do mundo. E os fregueses do Banco que não fazem nada com estes contos! Chocam outros contos pra não fazerem nada com eles
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II. No texto II, fica claro que, para se manter vivo, o amor não pode se concretizar; por isso, a voz poética resiste a ele. III. “Mas que seja infinito enquanto dure” (texto I) e “fiel à sua lei de cada instante” (texto II) são versos que contrapõem concepções totalmente opostas sobre o amor. a) I, II e III – corretos. b) I e II – corretos; III – incorreto. c) I – correto; II – incorreto; III – correto. d) I – incorreto; II – correto; III – incorreto. e) I e II – incorretos; III – correto.
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40. ESPM-SP 2019
A um passarinho Para que vieste Na minha janela Meter o nariz? Se foi por um verso Não sou mais poeta Ando tão feliz!
Se é para uma prosa Não sou Anchieta Nem venho de Assis. Deixa-te de histórias Some-te daqui! (Vinicius de Moraes)
c) O texto poético diz que a produção literária é consequência da tristeza; a imagem deixa claro que só se faz poesia com a distração. d) O poema de Vinicius e a imagem apresentam a ideia de que a poesia é algo fugidio, volúvel, consequência também de um estado de espírito. e) A noção de que poesia e prosa são gêneros distintos fica evidente no texto poético; já a imagem não discrimina qualquer tipo de leitura literária.
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41. Fuvest-SP
Receita de mulher As muito feias que me perdoem Mas beleza é fundamental. É preciso Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de [haute couture* Em tudo isso (ou então Que a mulher se socialize elegantemente em azul, [como na República Popular Chinesa). Não há meio-termo possível. É preciso Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas [pousada e que um rosto Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no [terceiro minuto da aurora. Vinicius de Moraes.
*haute couture: alta-costura.
Disponível em: http://humbertodealmeida.com.br/ uma-borboleta-e-a-poesia-em-movimento/
A partir da leitura do poema e da observação da imagem, assinale a afirmação correta. a) Tanto no texto poético quanto na imagem fica evidente que a fonte de inspiração para a prática literária são os elementos da natureza. b) Enquanto a imagem mostra a alienação de vários leitores, o poema de Vinicius de Moraes sugere o engajamento do escritor com personagens históricas.
No conhecido poema “Receita de mulher”, de que se reproduziu aqui um excerto, o tratamento dado ao tema da beleza feminina manifesta a a) oscilação do poeta entre a angústia do pecador (tendo em vista sua educação jesuítica) e o impudor do libertino. b) conjugação, na sensibilidade do poeta, de interesse sexual e encantamento estético, expresso de modo provocador e bem-humorado. c) idealização da mulher a que chega o poeta quando, na velhice, arrefeceu-lhe o desejo sexual. d) crítica ao caráter frívolo que, por associar-se ao consumo, o amor assume na contemporaneidade. e) síntese, pela via do erotismo, das tendências europeizantes e nacionalistas do autor.
Texto complementar
Quatro décadas sem Vinicius de Moraes, o “Poetinha”
“Pela maneira aberta como sempre recebeu jovens para dar conselhos ou parceiros para colocar letra e música, ele foi um poeta amplo, cuja extensa obra musical inspirou e cercou de amor, em algum momento, a mais brasileiros do que qualquer coisa”, como está escrito na contracapa do álbum Testamento Vol. 2, lançado logo após a morte de Vinicius de Moraes, em 9 de julho de 1980. O autor é o musicólogo e jornalista brasileiro Zuza Homem de Mello [...]. Amplamente reconhecido pelo trabalho realizado na música popular brasileira, Vinicius foi antes de tudo um exímio poeta. “No poema você tem uma liberdade de rimas e de métrica que não tem na letra de música, porque ela está submissa a uma melodia”, afirma Zuza. Segundo ele, fazer poesia e fazer música são coisas muito diferentes, especialmente na visão dos poetas que até menosprezaram Vinicius por escolher esse caminho, julgando a composição musical como inferior à poesia. “Ele já é um poeta consagrado quando começa a fazer letras de música nos anos 1950, e na época isso foi considerado um retrocesso.” Na opinião do musicólogo, letras de música são até mais trabalhosas de serem feitas, pela necessidade de acompanhar uma melodia preestabelecida. “Mas a adaptação de Vinicius, do poema para a música, foi extremamente rápida. Ele já começa fazendo
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Capítulo 11
O Modernismo no Brasil: a poesia mística e social
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letras sensacionais”, conta Zuza, lembrando o ano de 1956. Nessa época, Vinicius escreve a peça Orfeu da Conceição, na qual também é responsável pelas letras da trilha sonora, enquanto Antônio Carlos Jobim se encarrega das melodias. “Essa foi a primeira experiência daquilo que seria, em algum tempo, a chamada obra da dupla Tom e Vinicius.” A importância da parceria na canção brasileira se deu em grande parte pela experiência de Vinicius como poeta. A sofisticação de suas letras o colocava em uma posição de destaque na época, segundo Zuza. “Isso se deu instantaneamente. Na primeira parceria dos dois, eles já se colocam em um patamar de reconhecimento que a maioria dos compositores leva anos para atingir”, afirma o musicólogo. Daí nasce Se Todos Fossem Iguais a Você, a música mais famosa da peça que inaugura o trabalho conjunto de Tom e Vinicius. “Depois os dois fizeram a segunda fornada, que resultou nas canções que compõem um LP fundamental da história da canção brasileira, chamado Canção do Amor Demais”, diz Zuza. O disco, interpretado por Elizeth Cardoso, é composto de músicas como Chega de Saudade e Eu Não Existo Sem Você. “Aí também foi a primeira vez que apareceu o violão de João Gilberto, o que deu um peso importantíssimo para o LP”, acrescenta o musicólogo. Ainda nesse disco, é possível ver canções feitas apenas por Vinicius, que também era instrumentista, e outras apenas por Tom, que também era letrista. Segundo Zuza, isso mostra como a dinâmica deles funcionava, já que ambos entendiam um pouco do ramo um do outro. [...] Para o professor Ivan Vilela, que leciona Música Popular Brasileira na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a grande marca de Vinicius de Moraes foi sua transformação de uma arte mais clássica para uma mais popular. “Ele fazia parte do corpo diplomático, então teve muito contato com pessoas desse mundo erudito. Quando ele vai para a música, é através da parceria dele com Jobim que encontra um tom mais coloquial”, diz Ivan. Segundo o professor, de certa forma, a música popular e a forma em que ela é narrada acabaram modificando a forma literária de Vinicius. Ainda de acordo com Ivan, a carreira extremamente multifacetada — diplomata, poeta, cantor, compositor, roteirista — fez com que Vinicius deixasse também um extenso legado em todas essas áreas. “Mas acho que o maior deles é essa humildade de alguém que carrega uma bagagem de saber erudito se encantar e mergulhar nesse mundo do saber popular, conseguindo criar algo a partir desse encontro.” LÓPEZ, Maria Laura. Quatro décadas sem Vinicius de Moraes, o “Poetinha”. Jornal da USP, 8 jun. 2020. Disponível em: https://jornal.usp.br/cultura/ quatro-decadas-sem-vinicius-de-moraes-o-poetinha/. Acesso em: 16 nov. 2023.
Veja os principais assuntos e conceitos trabalhados neste capítulo acessando a seção Resumindo no livro digital, na Plataforma Poliedro.
Quer saber mais? Site Acervo Digital Vinicius de Moraes. Disponível em: http:// acervo.viniciusdemoraes.com.br. Acesso em: 16 nov. 2023. Neste site, é possível acessar o acervo digital completo do poeta Vinicius de Moraes, além de ouvir podcasts, assistir a um minidocumentário e ver os manuscritos de diversas composições e poemas. Vídeos Canal imoreirasalles. Vida e verso de Carlos Drummond de Andrade – filme na íntegra. YouTube, 31 out. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v= TgSoN0Y5IUA. Acesso em: 16 nov. 2023. Nesse vídeo, do Canal Instituto Moreira Salles, o diretor Eucanaã Ferraz reúne quatro escritores contemporâneos, Joca Reiners Terron, Antonio Cicero, Alberto Martins e
Afonso Henriques Neto para criarem um retrato do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Canal USP. [Livros da Fuvest] Romanceiro da Inconfidência (Cecília Meireles). Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=mActI9X0Yeg. Acesso em: 16 nov. 2023. Nesse vídeo, a professora Norma Goldstein fala sobre a coletânea de poemas Romanceiro da Inconfidência, de Cecilia Meireles. Leio, logo escrevo. Romanceiro da Inconfidência – Cecília Meireles – Resumo + Análise. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=xg4beRd5jTw. Acesso em: 16 nov. 2023. Cecília Meireles é uma autora do Modernismo brasileiro, mas também adotou uma escrita que destoava dos ideais modernistas. Isso ocorre no livro Romanceiro da Inconfidência, que narra o Brasil do final do século XVIII.
Para responder às questões de 1 a 3, leia o poema “O sobrevivente”, extraído do livro Alguma poesia (1930), de Carlos Drummond de Andrade. 001598_por_f2_c11_t0010
O sobrevivente
FRENTE 2
Exercícios complementares
Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade. Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia. O último trovador morreu em 1914. Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
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Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessi[dades mais simples. Se quer fumar um charuto aperte um botão. Paletós abotoam-se por eletricidade. Amor se faz pelo sem-fio. Não precisa estômago para digestão. Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto. Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. Os percevejos heroicos renascem. Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado. E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo [dilúvio. (Desconfio que escrevi um poema.) (Poesia 1930-1962, 2012.) 001598_por_f2_c11_q0068discursiva 001598_por_f2_c11_t0010
1. Unesp 2020 a) Que relação pode ser estabelecida entre os dois primeiros versos e o último verso do poema? b) Reescreva, na voz passiva, o trecho sublinhado no último verso do poema “(Desconfio que escrevi um poema.)”. 001598_por_f2_c11_q0069discursiva 001598_por_f2_c11_t0010
2. Unesp 2020 a) Qual a opinião do eu lírico sobre a “evolução da humanidade”? Justifique sua resposta com base no texto. b) É possível que o eu lírico, no verso “O último trovador morreu em 1914.”, tenha feito alusão a um importante evento histórico. De que evento se trata e qual é sua relação com o tema geral do poema? 001598_por_f2_c11_q0070discursiva 001598_por_f2_c11_t0010
3. Unesp 2020 a) Explicite a antítese contida em “Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.” (2a estrofe). b) Identifique o pressuposto contido no trecho “E se os olhos reaprendessem a chorar” (4a estrofe), relacionando-o com o tema geral do poema. 001598_por_f2_c11_q0071objetiva
4. UPF-RS 2021 Leia “Poema que aconteceu” e “Coração numeroso”, poemas que integram a obra Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade.
Poema que aconteceu Nenhum desejo neste domingo nenhum problema nesta vida o mundo parou de repente os homens ficaram calados domingo sem fim nem começo. A mão que escreve este poema não sabe que está escrevendo mas é possível que se soubesse nem ligasse.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 11
Coração numeroso Foi no Rio. Eu passava na Avenida quase meia-noite. Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis. Havia a promessa do mar e bondes tilintavam, abafando o calor que soprava no vento e o vento vinha de Minas. Meus paralíticos sonhos desgosto de viver (a vida para mim é vontade de morrer) faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente na Galeria Cruzeiro quente quente e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento [mineiro, nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso. Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas autos abertos correndo caminho do mar voluptuosidade errante do calor mil presentes da vida aos homens indiferentes, que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram. O mar batia em meu peito, já não sabia no cais. A rua acabou, quede árvores? A cidade sou eu a cidade sou eu sou eu a cidade meu amor.
Em relação aos dois poemas, é correto afirmar que: a) “Poema que aconteceu” expressa a dedicação do poeta à criação poética. b) O vocabulário de “Poema que aconteceu” é típico da retórica romântica. c) A linguagem formal e o discurso indireto estão presentes em “Coração numeroso”. d) Ao adotar o ideal da impessoalidade, os poemas transparecem tendências do Parnasianismo. e) No poema “Coração numeroso”, o eu lírico se apresenta amargurado e melancólico.
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5. UFRGS 2017 Leia o poema José, de Carlos Drummond de Andrade. E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, Você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José?
cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José?
Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar,
Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse, a valsa vienense, se você dormisse,
[...]
O Modernismo no Brasil: a poesia mística e social
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se você cansasse, se você morresse.... Mas você não morre, você é duro, José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato,
sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde?
Assinale a alternativa correta sobre o poema. a) O diálogo com José, interlocutor, pode ser lido como uma forma de o sujeito-lírico refletir sobre o desamparo existencial. b) O poema em versos curtos apresenta o caminho para superação dos impasses de José. c) As repetições indicam a monotonia da existência do trabalhador comum, José, em crise com sua condição operária. d) O sujeito-lírico, na ausência de respostas, não consegue decifrar para onde José marcha, embora este saiba seu caminho. e) A expressão “e agora, José?” põe em relevo a indignação do sujeito-lírico com seu interlocutor, incapaz de se definir.
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6. ESPM-SP 2016
b) o homem moderno travar, desde o início da vida (“manhã”), uma luta contra a existência, luta essa completamente frustrada. c) o “eu” lírico questionar a força da poesia, ou do discurso, e mesmo assim não abdicar de enfrentar, com esse instrumento de luta, as adversidades. d) a palavra ser um instrumento ineficaz de luta, aspecto que conduz o “eu” lírico coletivo a um pessimismo quase destrutivo. e) haver uma desarmonia social a qual não pode ser solucionada apenas com o uso de discursos ou ideologias vãs.
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7. UEM-PR 2020 Sobre o poema de Drummond, inicialmente publicado em O sentimento do mundo (1940), assinale o que for correto. Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da [janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens [presentes, a vida presente.
O Lutador Lutar com palavras é a luta mais vã Entanto lutamos mal rompe a manhã [...] Lutar com palavras parece sem fruto. Não têm carne e sangue… Entretanto, luto. Palavra, palavra (digo exasperado), se me desafias, aceito o combate.
(Carlos Drummond de Andrade)
Tema frequente na poética de Drummond, os versos sugerem o fato de: a) os homens insistirem, ao longo da história, numa discussão político-ideológica, sabendo tratar-se de um embate inútil.
01 O eu poético propõe a união entre os homens. Apesar de a Segunda Guerra Mundial continuar seus lastros de morte, o poeta não tece desesperanças, mostrando-se engajado e pronto a se juntar a seus semelhantes: “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. Sua matéria é o hoje e, ao contrário do artista idealizador, procura vivenciar seu tempo: “O presente é tão grande, não nos afastemos”. 02 Neste verso: “Entre eles, considero a enorme realidade”, o eu lírico mostra como os homens perderam a motivação na vida, estão cabisbaixos e “taciturnos”, como ainda comprova o verso: “Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças”. Assim, desiludidos, os homens caminham para o tempo futuro e olham-no como um espaço de fuga onde poderão andar de mãos dadas, como sugere o título do poema. 04 Na segunda estrofe, o eu lírico rechaça qualquer tipo de poesia que fale do tempo vindouro. O advérbio de negação que antecede cada um dos verbos no futuro: “serei”, “direi”, “distribuirei”, “fugirei” aponta para o compromisso com o tempo presente, evitando qualquer tipo de alienação que possa ligar o eu lírico a outra realidade temporal que não seja
FRENTE 2
ANDRADE, C. D. “Mãos dadas”. In: Antologia poética – Carlos Drummond de Andrade, 2015.
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o de sua vivência atual. Nesse sentido, o eu lírico assume o compromisso de estar atento a tudo que ocorre à sua volta e à vida presente. 08 O primeiro verso (“Não serei o poeta de um mundo caduco.”) representa, no contexto estético de produção do poema, uma crítica aos poetas parnasianos, que cantavam musas e temas clássicos, distantes da realidade econômica e social de seu tempo. O sintagma “mundo caduco”, portanto, refere-se ao passado e, também, ao conteúdo e à forma utilizados pelos poetas que se recusavam a vivenciar o olhar contemporâneo. 16 Há uma clara recusa de Drummond em cantar os temas cotidianos. Na época da publicação de “Mãos dadas”, o poeta ainda se mostrava resistente à proposta poética do Modernismo, adotando o rigor métrico. Soma: 001598_por_f2_c11_q0075objetiva
8. UnB-DF
Morte do Leiteiro Carlos Drummond de Andrade
Há pouco leite no país, é preciso entregá-lo cedo. Há muita sede no país, é preciso entregá-lo cedo. Há no país uma legenda, que ladrão se mata com tiro. Então o moço que é leiteiro de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom para gente ruim. Sua lata, suas garrafas e seus sapatos de borracha vão dizendo aos homens no sono que alguém acordou cedinho e veio do último subúrbio trazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vaca para todos criarem força na luta brava da cidade. Meu leiteiro tão sutil de passo maneiro e leve, antes desliza que marcha. É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado, vaso de flor no caminho, cão latindo por princípio, ou um gato quizilento. E há sempre um senhor que acorda, resmunga e torna a dormir.
LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 11
Da garrafa estilhaçada, no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite, sangue... não sei. Por entre objetos confusos, mal redimidos da noite, duas cores se procuram, suavemente se tocam, amorosamente se enlaçam, formando um terceiro tom a que chamamos aurora.
Com relação ao poema Morte do Leiteiro, de Carlos Drummond de Andrade, julgue os itens a seguir. Nesse poema, foram utilizados recursos literários característicos do primeiro momento modernista, tais como o humor e a paródia. Nos seis versos iniciais do poema, a impessoalidade poética é reforçada pelo emprego de orações sem sujeito ou com sujeito indeterminado. Tal impessoalidade contrasta com a aproximação entre narrador e personagem, marcada, textualmente, pelo emprego do pronome “Meu” no verso “Meu leiteiro tão sutil” (v.20). O autor emprega recursos linguísticos para expressar, de forma impessoal, a voz da ideologia que fundamenta a atitude do senhor que atira no leiteiro sem refletir sobre o real perigo de tal ato. O leiteiro é um personagem caracterizado no poema sobretudo em sua dimensão psicológica, o que aproxima a estrutura do poema à de um texto jornalístico. O narrador enuncia os fatos de forma a aderir ao ponto de vista do senhor que mata o leiteiro por acidente, como se verifica na forma sutil com que avalia como imprudente a ação do personagem que entrega leite em domicílio. Pela maneira como são apresentados sentimentos em um modelo poético sucinto e inspirado na tradição clássica, o poema pode ser considerado um diálogo de Carlos Drummond de Andrade com a poesia do grupo de poetas brasileiros que ficou conhecido como Geração de 45. A imagem final do poema extrai sua eficácia estética do atrito entre a beleza de uma imagem comumente associada à esperança (aurora) e a condição trágica da inusitada mistura de cores que resulta do assassinato do leiteiro (leite e sangue).
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Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro), não quis saber de mais nada. O revólver da gaveta saltou para sua mão. Ladrão? se pega com tiro. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro.
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Se era noivo, se era virgem, se era alegre, se era bom, não sei, é tarde para saber.
9. Fuvest-SP 2018
Os bens e o sangue VIII [...] Ó filho pobre, e descorçoado*, e finito ó inapto para as cavalhadas e os trabalhos brutais com a faca, o formão, o couro... Ó tal como quiséramos O Modernismo no Brasil: a poesia mística e social
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Ó desejado, ó poeta de uma poesia que se furta e se expande à maneira de um lago de pez** e resíduos letais... És nosso fim natural e somos teu adubo, tua explicação e tua mais singela virtude... Pois carecia que um de nós nos recusasse para melhor servir-nos. Face a face te contemplamos, e é teu esse primeiro e úmido beijo em nossa boca de barro e de sarro. Carlos Drummond de Andrade, Claro enigma.
*descorçoado: assim como “desacorçoado”, é uma variante de uso popular da palavra “desacoroçoado”, que significa “desanimado”. **pez: piche.
Considere as seguintes afirmações: I. Os familiares, que falam no poema, ironizam a condição frágil do poeta. II. O passado é uma maldição da qual o poeta, como revela o título do poema, não consegue se desvencilhar. III. O trecho “o fim de tudo que foi grande” remete à ruína das oligarquias, das quais Drummond é tributário. IV. A imagem de uma “poesia que se furta e se expande/à maneira de um lago de pez e resíduos letais...” sintetiza o pessimismo dos poemas de Claro enigma. Estão corretas: a) I e II, apenas. d) I, III e IV, apenas. b) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. c) II e IV, apenas.
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10. Fuvest-SP 2018
A máquina do mundo E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia.* [...]
Carlos Drummond de Andrade, Claro enigma.
*carpir-se: lamentar-se.
a) O ponto de vista do eu lírico em relação à “máquina do mundo” ilustra as principais características de Claro enigma? Justifique. b) Transcreva o verso que sintetiza o evento sublime de que trata o texto.
11. Unicamp-SP 2016
Morro da Babilônia À noite, do morro descem vozes que criam o terror (terror urbano, cinquenta por cento de cinema, e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua geral). Quando houve revolução, os soldados espalharam no morro, o quartel pegou fogo, eles não voltaram. Alguns, chumbados, morreram. O morro ficou mais encantado. Mas as vozes do morro não são propriamente lúgubres. Há mesmo um cavaquinho bem afinado que domina os ruídos da pedra e da folhagem e desce até nós, modesto e recreativo, como uma gentileza do morro. (Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.19.)
No poema “Morro da Babilônia”, de Carlos Drummond de Andrade, a) a menção à cidade do Rio de Janeiro é feita de modo indireto, metonimicamente, pela referência ao Morro da Babilônia. b) o sentimento do mundo é representado pela percepção particular sobre a cidade do Rio de Janeiro, aludida pela metáfora do Morro da Babilônia. c) o tratamento dado ao Morro da Babilônia assemelha-se ao que é dado a uma pessoa, o que caracteriza a figura de estilo denominada paronomásia. d) a referência ao Morro da Babilônia produz, no percurso figurativo do poema, um oxímoro: a relação entre terror e gentileza no espaço urbano.
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12. Fuvest-SP 2022
Sweet Home Quebra-luz, aconchego. Teu abraço morno me envolvendo. A fumaça de meu cachimbo subindo. Como estou bem nessa poltrona de humorista inglês. O jornal conta histórias, mentiras... Ora afinal a vida é um bruto romance e nós vivemos folhetins sem o saber. Mas surge o imenso chá com torradas, chá de minha burguesia contente. Ó gozo de minha poltrona! Ó doçura de folhetim! Ó bocejo de felicidade! Carlos Drummond de Andrade. Alguma poesia.
a) Por que a expressão em inglês sweet home suscita, no título do poema, um teor de ironia? b) Na circunstância do poema, os termos “bruto romance” e “folhetins”, como formas literárias, representam diferentes visões de mundo, estabelecendo entre si um contraste simbólico. Comente.
FRENTE 2
para tristeza nossa e consumação das eras, para o fim de tudo que foi grande!
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13. UFBA I.
5
Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e [comunicação. A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e [sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, 10 é doce herança itabirana. De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval; esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil; este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas; 15 este orgulho, esta cabeça baixa... Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói! ANDRADE, Carlos Drummond de. Confidência do Itabirano. In: MORICONI, Italo (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 97-98.
II. Meu caminho pelo mundo Eu mesmo traço A Bahia já me deu Régua e compasso 5 Quem sabe de mim sou eu Aquele abraço! Pra você que me esqueceu Ruuummm! Aquele abraço! 10 Alô Rio de Janeiro Aquele abraço! Todo o povo brasileiro Aquele abraço!
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14. Fuvest-SP 2021 Leia o poema e o excerto da crônica para responder à questão.
IV. Hotel Toffolo E vieram dizer-nos que não havia jantar. Como se não houvesse outras fomes e outros alimentos. Como se a cidade não nos servisse o seu pão de nuvens.
LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 11
[...] A população de Ouro Preto nutre convicções e paixões, como qualquer outra, mas cultiva-as in petto [no íntimo], com impecável benignidade de espírito, sem o menor azedume ou nojo pela paixão ou opinião contrária. Essas preferências diversas confraternizam, não raro, junto à mesa no Hotel Toffolo, e chega-se à conclusão de que política não vale positivamente uma boa cerveja. Carlos Drummond de Andrade. “Contemplação de Ouro Preto”, de Passeios na Ilha.
a) Que relação de sentido liga a imagem “pão de nuvens” (v. 4-5) ao verso “tudo, no coração, é ceia” (v. 10)? Justifique. b) As atitudes dos dois grupos à mesa do Hotel Toffolo, no poema e na crônica, são equivalentes? Explique.
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15. UEM-PR 2015 Assinale o que for correto sobre o poema abaixo e sobre seu autor, Carlos Drummond de Andrade.
No meio do caminho No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p.237)
Leia o poema de Carlos Drummond de Andrade e o fragmento da canção “Aquele abraço”, de Gilberto Gil, e teça um comentário sobre a presença da terra natal na configuração da vida de cada sujeito lírico.
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Carlos Drummond de Andrade. “Estampas de Vila Rica”, de Claro Enigma.
Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra.
GIL, Gilberto. Aquele abraço. Disponível em: http://letras.terra.com.br/ gilberto-gil/16138/7. Acesso em: 23 ago. 2011. Fragmento.
5
Não, hoteleiro, nosso repasto é interior, e só pretendemos a mesa. Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras. Tudo se come, tudo se comunica, 10 tudo, no coração, é ceia.
01 O poema marca um momento de mudança radical na obra de Drummond (representando sua adesão ao grupo de Poesia Pau-Brasil, de Murilo Mendes) após suas obras iniciais parnasianas. 02 Embora tenha sido amplamente aceito por alguns grupos modernistas, “No meio do caminho” encontrou resistência por parte de Oswald de Andrade, que o considerou uma reflexão alienante de cunho antinacionalista. 04 Drummond, em suas obras iniciais, ganhou a alcunha de “imaginação de pedra”, devido à insistente reprodução de paisagens típicas de Minas Gerais em seus poemas, como se nota no elemento recorrente do texto reproduzido. 08 Ainda que o poema “No meio do caminho” traga marcas das novas propostas poéticas da primeira geração modernista, Drummond, cronológica e esteticamente, faz parte da segunda geração do modernismo brasileiro.
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16 Apesar de uma aparente simplificação monotemática, o poema traz um dos temas caros a Drummond, o tempo, que é trabalhado com profundidade lírica. Soma:
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16. EsPCEx-SP 2023
Encomenda Desejo uma fotografia como esta — o senhor vê? — como esta: em que para sempre me ria como um vestido de eterna festa. Como tenho a testa sombria, derrame luz na minha testa. Deixe esta ruga, que me empresta um certo ar de sabedoria. Não meta fundos de floresta nem de arbitrária fantasia... Não... Neste espaço que ainda resta, ponha uma cadeira vazia.
Fonte: Cecília Meireles (In: Vaga Música, 1942).
Quanto aos aspectos da linguagem poética presentes no poema “Encomenda”, de Cecília Meireles: I. A composição do poema é feita em forma de soneto. II. Na segunda estrofe, o eu poético lança mão da antítese na percepção que tem de si mesmo. III. Na construção dos versos, optou-se pela composição em redondilhas maiores. IV. Como recurso para conferir musicalidade aos versos, há o emprego de rima alternada e de rima interpolada. V. Tendo em vista se tratar de um poema do Modernismo brasileiro, optou-se pela construção em versos brancos.
Com os anos, Marília, o gosto falta, E se entorpece o corpo já cansado; Triste, o velho cordeiro está deitado, E o leve filho sempre alegre salta. A mesma formosura É dote que só goza a mocidade: Rugam-se as faces, o cabelo alveja, Mal chega a longa idade.
Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias; E pode enfim mudar-se a nossa estrela. Ah! Não, minha Marília, Aproveite-se o tempo, antes que faça O estrago de roubar ao corpo as forças, E ao semblante a graça. GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu. In: PROENÇA FILHO. A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1996. p. 597-598.
Texto:
Romance LXXIII ou da inconformada Marília
e) IV e V
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17. Uefs-BA 2017 Leia atentamente os dois textos e compare-os para responder à questão. O texto de Gonzaga foi publicado pela primeira vez em 1792, em Portugal. Cerca de um século e meio depois, Cecília Meireles (em 1953) publica, no Brasil, a primeira edição do Romanceiro da Inconfidência. Texto:
LIRA XIV
Ornemos nossas testas com as flores, E façamos de feno um brando leito; Prendamo-nos, Marília, em laço estreito, Gozemos do prazer de sãos Amores. Sobre as nossas cabeças, Sem que o possam deter, o tempo corre; E para nós o tempo, que se passa, Também, Marília, morre.
Minha bela Marília, tudo passa; A sorte deste mundo é mal segura; Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça. Estão os mesmos deuses Sujeitos ao poder do ímpio Fado: Apolo já fugiu do Céu brilhante, Já foi Pastor de gado. [...]
Pungia a Marília, a bela, negro sonho atormentado: voava seu corpo longe, longe por alheio prado. Procurava o amor perdido, a antiga fala do amado. Mas o oráculo dos sonhos dizia a seu corpo alado: “Ah, volta, volta, Marília, tira-te desse cuidado, que teu pastor não se lembra de nenhum tempo passado...” E ela, dormindo, gemia: “Só se estivesse alienado!” Entre lágrimas se erguia seu claro rosto acordado. Volvia os olhos em roda, e logo, de cada lado, piedosas vozes discretas davam-lhe o mesmo recado:
FRENTE 2
Estão corretas apenas as afirmativas a) I e IV c) III e IV b) I e II d) II, III e V
Ah! Enquanto os Destinos impiedosos Não voltam contra nós a face irada, Façamos, sim, façamos, doce amada, Os nossos breves dias mais ditosos. Um coração que frouxo, A grata posse de seu bem difere, A si, Marília, a si próprio rouba, E a si próprio fere.
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Numa das naves que afundaram é que certamente tu vinhas.
“Não chores tanto, Marília, por esse amor acabado: que esperavas que fizesse o teu pastor desgraçado, tão distante, tão sozinho Em tão lamentoso estado?” A bela, porém gemia: “Só se estivesse alienado!”
Eu te esperei todos os séculos sem desespero e sem desgosto, e morri de infinitas mortes guardando sempre o mesmo rosto. Quando as ondas te carregaram meus olhos, entre águas e areias, cegaram como os das estátuas, a tudo quanto existe alheias.
E a névoa da tarde vinha com seu véu tão delicado envolver a torre, o monte, o chafariz, o telhado... Mas os versos! Mas as juras! Mas o vestido bordado! Bem que o coração dizia — coração desventurado – “Talvez se tenha esquecido...” “Talvez se tenha casado...” Seu lábio porém gemia: “Só se tivesse alienado!”
Minhas mãos pararam sobre o ar e endureceram junto ao vento, e perderam a cor que tinham e a lembrança do movimento. E o sorriso que eu te levava desprendeu-se e caiu de mim: e só talvez ele ainda viva dentro destas águas sem fim.
MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. In: _____. Obra poética. Rio de Janeiro, José Aguilar, 1958. p. 849-850.
Sobre os dois poemas, é correto afirmar: I. No primeiro poema, encarnando ainda as características do momento literário anterior, Gonzaga exalta a beleza do amor impossível, convocando a mulher amada a corresponder à pureza desse amor idealizado e platônico. II. Fiel aos ditames de seu momento literário, o autor do primeiro poema, frente à passagem inexorável do tempo, convoca a amada a vivenciar a felicidade de um amor bucólico, simples, cheio de pureza como a vida pastoril no campo. III. No segundo poema, Cecília Meireles resgata a história de amor tematizada no primeiro texto, criando espaço para a voz desesperada de Marília, que, apesar das evidências, ainda acredita na veracidade e permanência do amor de Dirceu. IV. Um dos enlaces entre os dois poemas é o fato de que, no primeiro há o temor de Dirceu sobre a ação deletéria do tempo sobre o amor, o que se confirma no segundo, em que Marília chora e se desespera frente ao silêncio de Dirceu. V. Cecília Meireles, no segundo poema, quebra não só os padrões literários observados no primeiro texto, dando espaço para uma estética mais ligada ao modernismo, como também nega a veracidade do idílio amoroso de Gonzaga. A alternativa em que todas as afirmativas indicadas estão corretas é a d) I, III e IV. a) I e II. e) II, III e IV. b) II e V. c) IV e V.
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18. Enem PPL 2019
Canção No desequilíbrio dos mares, as proas giram sozinhas…
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Capítulo 11
MEIRELES, C. In: SECCHIN, A. C. (Org.). Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
Na composição do poema, o tom elegíaco e solene manifesta uma concepção de lirismo fundada na a) contradição entre a vontade da espera pelo ser amado e o desejo de fuga. b) expressão do desencanto diante da impossibilidade da realização amorosa. c) associação de imagens díspares indicativas de esperança no amor futuro. d) recusa à aceitação da impermanência do sentimento pela pessoa amada. e) consciência da inutilidade do amor em relação à inevitabilidade da morte.
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19. UFPR 2013 Leia atentamente este trecho do Romanceiro de Inconfidência:
Romance LIV ou DO ENXOVAL INTERROMPIDO Aqui esteve o noivo, de agulha e dedal, bordando o vestido do seu enxoval. Em maio, era em Maio, num Maio fatal; feneciam rosas pelo seu quintal. Por estrada e monte, neblina total. No perfil da lua, um nimbo mortal. (Mas quem lê na névoa o amargo sinal?) A noite da Vila é densa e glacial. O sono, embuçado em cada beiral. Quem não dorme, sonha com seu enxoval.
A agulha, de prata, e de ouro, o dedal. Em haste de cera, ergue o castiçal para a turva noite lírio de cristal. “Sabeis, ó pastora, daquele zagal* que andava num prado sobrenatural? Teria inimigo? Teria rival?” O sono conversa em cada poial**. “Sabeis, ó pastora, quem seja o chacal que os passos arrasta de longe arraial?
O Modernismo no Brasil: a poesia mística e social
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(MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. São Paulo: Edusp/Imesp, 2004. p. 149.
*zagal: pastor. **poial: assento de pedra na entrada de uma casa.
O Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, vincula-se a uma tradição literária que prevê a mescla de gêneros. No livro, a recriação de fatos históricos, as falas de personagens espalhadas por toda a peça e a linguagem repleta de recursos expressivos poéticos resultam em uma obra singular. Com base nisso, considere as seguintes afirmativas: 1. A primeira estrofe apresenta a personagem central e sua ação anterior a uma reviravolta. 2. A segunda estrofe possui imagens líricas que podem ser associadas à poética do personagem retratado, como o carpe diem presente no verso “feneciam rosas”. 3. A contraposição entre dormir e sonhar, na terceira estrofe, é desenvolvida no diálogo entre a pastora e o sono, transcrito entre aspas. 4. O diálogo final atenua gradativamente a aflição inicial ao apresentar um conjunto de interrogações estruturadas em linguagem figurada. Assinale a alternativa correta. a) Somente a afirmativa 2 é verdadeira. b) Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras. c) Somente as afirmativas 1, 2 e 3 são verdadeiras. d) Somente as afirmativas 1, 2 e 4 são verdadeiras. e) Somente as afirmativas 3 e 4 são verdadeiras.
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20. Enem 2015
Cântico VI Tu tens um medo de Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas Até não teres medo de morrer. E então serás eterno. MEIRELES, C. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1963 (fragmento).
A poesia de Cecília Meireles revela concepções sobre o homem em seu aspecto existencial. Em Cântico VI,
o eu lírico exorta seu interlocutor a perceber, como inerente à condição humana, a) a sublimação espiritual graças ao poder de se emocionar. b) o desalento irremediável em face do cotidiano repetitivo. c) o questionamento cético sobre o rumo das atitudes humanas. d) a vontade inconsciente de perpetuar-se em estado adolescente. e) um receio ancestral de confrontar a imprevisibilidade das coisas. O poema abaixo é de Cecília Meireles: 001598_por_f2_c11_t0012
Epigrama 8 Encostei-me em ti, sabendo bem que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem, depus minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil, fiquei sem poder chorar, quando caí.
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21. ITA-SP 2014 É CORRETO afirmar que o texto a) contém uma expressão exagerada de dor e tristeza, decorrente do fim de um envolvimento amoroso. b) fala sobre o rompimento de duas pessoas, que, por já ser previsto, não causou dor no sujeito lírico. c) registra o término de um envolvimento afetivo superficial, pois os amantes não se entregaram totalmente. d) contém ambiguidade, pois, apesar de o sujeito lírico dizer que não chorou, o poema exprime tristeza. e) garante que a forma mais aconselhável de lidar com as desilusões é estarmos de antemão preparados para ela. 001598_por_f2_c11_q0087objetiva 001598_por_f2_c11_t0012
22. Unifesp Leia os versos de Cecília Meireles, extraídos do poema Epigrama no 8. O eu lírico reconhece que a pessoa em quem depôs sua vida representava a) uma relação incerta, por isso os desenganos vividos seriam inevitáveis. b) um sentimento intenso, por isso tinha certeza de que não sofreria. c) um caso de amor passageiro, por isso se sentia enganado. d) uma angústia inevitável, por isso seria melhor aquele amor. e) uma opção equivocada, por isso sempre teve medo de amar.
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23. Unicamp-SP 2018 Na “Nota preliminar” escrita para a primeira edição do livro Poemas negros, de Jorge de Lima, o antropólogo Gilberto Freyre afirma que, graças à “interpretação de culturas, entre nós tão livre”, e graças ao “cruzamento de raças”, “o Brasil vai-se adoçando numa das comunidades mais genuinamente democráticas e cristãs do nosso tempo”. Com base no poema “Democracia”, responda às questões que se seguem.
FRENTE 2
Eu vi sua língua é um negro punhal. Que mortes fareja o imundo animal?”
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DEMOCRACIA Punhos de rede embalaram o meu canto para adoçar o meu país, ó Whitman. Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados, catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes, carumã me alimentou quando eu era criança, Mãe-negra me contou histórias de bicho, moleque me ensinou safadezas, massoca, tapioca, pipoca, tudo comi, bebi cachaça com caju para limpar-me, tive maleita, catapora e ínguas, bicho-de-pé, saudade, poesia; fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá, dizendo coisas, brincando com as crioulas, vendo espíritos, abusões, mães-d’água, conversando com os malucos, conversando sozinho, emprenhando tudo que encontrava, abraçando as cobras pelos matos, me misturando, me sumindo, me acabando, para salvar a minha alma benzida e meu corpo pintado de urucu, tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas, de nomes de amor em todas as línguas de branco, de [mouro ou de pagão. (Jorge de Lima, Poesias completas. v. I. Rio de Janeiro/Brasília: J. Aguilar/INL, 1974, p.160,164-165.)
a) A ideia de “adoçamento” social está presente tanto no poema de Jorge de Lima quanto no texto de Gilberto Freyre. Aponte dois episódios da formação do poeta, referidos no poema, que exemplificam essa interpretação. Justifique sua escolha. b) Considerando elementos da composição do poema, explique de que maneira a ideia de “democracia”, presente no título, manifesta-se no texto.
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24. PUC-GO 2015
Naquele momento de angústia, o homem não sabia se era o mau ou o bom ladrão. E quando a mais amarga das estrelas o oprimia demais, eis que a sua boca ia dizendo: eu sou anjo. E os pés do homem: nós somos asas. E as mãos: nós somos asas. E a testa do homem: eu sou a lei. E os braços: nós somos cetros. E o peito: eu sou o escudo. E as pernas: nós somos as colunas. E a palavra do homem: eu sou o Verbo. E o espírito do homem: eu sou o Verbo. E o cérebro: eu sou o guia. E o estômago: eu sou o alimento. E se repetiram depois as acusações milenárias. E todas as alianças se desfizeram de súbito. E todas as maldições ressoaram tremendas. E as espadas de fogo interceptaram o caminho da árvore [da vida. Capítulo 11
(LIMA, Jorge de. Melhores poemas. São Paulo: Global, 2006. p. 94.)
No texto, as vozes a que o título se refere manifestam-se (assinale a alternativa correta): a) nas partes que compõem todo o ser do homem no momento de angústia. b) na dúvida do homem, dividido entre o bem e o mal. c) nas indicações intertextuais bíblicas em vários trechos ao longo do texto. d) na amargura da estrela que oprimia o homem em seu aspecto espiritual.
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25. Unicamp-SP 2018 Leia a seguir duas passagens do poema “Olá! Negro”, de Jorge de Lima. “A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro! E és tu que a alegras ainda com os teus jazzes. Com os teus songs, com os teus lundus!” [...] “Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com [teus jazzes. Olá, Negro! O dia está nascendo! O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?” (Jorge de Lima. Poesias completas. v. I, Rio de Janeiro / Brasília: J. Aguilar / INL, 1974, p. 180-1.)
Considerando o livro Poemas negros como um todo e a poética de Jorge de Lima, é correto afirmar que o último verso citado a) manifesta o desprezo do negro pela situação decadente da cultura do branco. b) realiza a aproximação entre a alegria do negro e uma ideia de futuro. c) remete à vingança do negro contra a violência a que foi submetido pelo branco. d) funciona como um lamento, já que o nascer do dia não traz justiça social.
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As vozes do homem
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E as mãos abarcaram o pescoço do homem: nós te abarcaremos. [...]
26. Unicamp-SP 2017 O Sinhô foi açoitar sozinho a negra Fulô. A negra tirou a saia e tirou o cabeção, de dentro dêle pulou nuinha a negra Fulô. Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! Cadê, cadê teu Sinhô que Nosso Senhor me mandou? Ah! Foi você que roubou, foi você, negra Fulô? Essa negra Fulô! (Jorge de Lima. Poesias Completas. v. 1. Rio de Janeiro/Brasília: J. Aguilar e INL, 1974. p. 121.)
A Sinhá mandou arrebentar-lhe os dentes: Fute, Cafute, Pé-de-pato, Não-sei-que-diga, avança na branca e me vinga.
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(Idem, p. 164.)
Essas duas cenas de ciúmes concluem dois textos diferentes de Jorge de Lima. A primeira pertence ao conhecido poema modernista “Essa negra Fulô”; a segunda, ao poema “História”, de Poemas negros (1947). Em relação a “Essa negra Fulô”, o poema “História”, especificamente, representa a) a reiteração da denúncia das relações de poder, muito arraigadas no sistema escravocrata, que colocam no mesmo plano violências raciais e sexuais. b) a passagem de uma caracterização da mulher negra como sedutora para uma postura solidária em relação à escrava, que explicita as estratégias compensatórias de que se vale para sobreviver. c) a permanência de uma visão pitoresca sobre a situação da mulher negra nos engenhos de açúcar, que oculta os mecanismos de poder que garantiam sua exploração. d) a superação da visão idílica da vida na senzala, graças a uma postura realista e social, que revela a violência das relações entre senhores e escravos.
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27. Ifal 2016
Oração — “Ave Maria cheia de graça...” A tarde era tão bela, a vida era tão pura, as mãos de minha mãe eram tão doces, havia lá, no azul, um crepúsculo de ouro... lá longe... — “Cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita! Bendita!” Os outros meninos, minha irmã, meus irmãos menores [meus brinquedos, a casaria branca de minha terra, a burrinha do vigário pastando junto à capela... lá longe... Ave cheia de graça — “bendita sois entre as mulheres, bendito é o fruto do [vosso ventre...” E as mãos do sono sobre meus olhos, e as mãos de minha mãe sobre o meu sonho, e as estampas de meu catecismo para o meu sonho de ave! E isso tudo tão longe... tão longe... LIMA, Jorge de. Poemas. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2004. p. 39.
Sobre o poema de Jorge de Lima, marque a alternativa que contém uma declaração errada. a) Percorre esse texto um sentimento saudosista, responsável por criar uma cena lírica de encontro de tempos: o presente e o passado se entrelaçam. b) Pode-se afirmar que, no poema, dá-se um intercâmbio de valores em que a mãe está para a “cheia de graça” como o eu lírico está para o “bendito fruto”.
c) É possível entender que, na recordação que o eu lírico faz do passado, a experiência religiosa e a vivência da infância estão intimamente vinculadas. d) A distância a que se refere o eu lírico ao longo do texto deve-se tão só ao afastamento físico dos elementos evocados. e) As pessoas, os lugares e os objetos, evocados no texto de forma metonímica e por meio de sobreposições de planos, enfatizam esteticamente o esforço de recordar empreendido pelo eu lírico.
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28. IFPE
Mulher proletária Mulher proletária – única fábrica que o operário tem, (fabrica filhos) tu na tua superprodução de máquina humana forneces anjos para o Senhor Jesus, forneces braços para o senhor burguês. Mulher proletária, o operário, teu proprietário há de ver, há de ver: a tua produção, a tua superprodução, ao contrário das máquinas burguesas salvar o teu proprietário. In: Poesia completa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. v.1.
Jorge de Lima é um poeta representativo da segunda geração modernista. Analise as proposições a seguir acerca dos recursos expressivos que constroem a imagem da “mulher proletária”. I. As metáforas “fábrica” e “máquina humana” são, de certo modo, desveladas pela construção parentética “fabrica filhos”. II. Os dois últimos versos na primeira estrofe constituem eufemismos das ideias de mortalidade e de trabalho infantil. III. O trocadilho entre “prole” e “proletária” assinala a função social da mulher no contexto do poema. IV. A gradação na segunda estrofe aponta para a submissão da mulher e para a salvação do homem operário. V. Os últimos versos do poema sugerem que o trabalho da mulher pode levar sua família à ascensão social. Estão corretas, apenas: a) I, II e V c) I, II e III e) I e IV b) II, III e IV d) II e V
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29. Enem 2017
O farrista Quando o almirante Cabral Pôs as patas no Brasil O anjo da guarda dos índios Estava passeando em Paris. Quando ele voltou de viagem O holandês já está aqui. O anjo respira alegre: “Não faz mal, isto é boa gente,
FRENTE 2
Exu escangalha ela, amofina ela, amuxila ela que eu não tenho defesa de homem, sou só uma mulher perdida neste mundão. Neste mundão. Louvado seja Oxalá. Para sempre seja louvado.
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Vou arejar outra vez.” O anjo transpôs a barra, Diz adeus a Pernambuco, Faz barulho, vuco-vuco,
Tal e qual o zepelim Mas deu um vento no anjo, Ele perdeu a memória... E não voltou nunca mais. MENDES, M. História do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.
A obra de Murilo Mendes situa-se na fase inicial do Modernismo, cujas propostas estéticas transparecem, no poema, por um eu lírico que a) configura um ideal de nacionalidade pela integração regional. b) remonta ao colonialismo assente sob um viés iconoclasta. c) repercute as manifestações do sincretismo religioso. d) descreve a gênese da formação do povo brasileiro. e) promove inovações no repertório linguístico. Leia o poema de Murilo Mendes (1901-1975) para responder às questões 30 e 31. 001598_por_f2_c11_t0013
O pastor pianista Soltaram os pianos na planície deserta Onde as sombras dos pássaros vêm beber. Eu sou o pastor pianista, Vejo ao longe com alegria meus pianos Recortarem os vultos monumentais Contra a lua. Acompanhado pelas rosas migradoras Apascento1 os pianos: gritam E transmitem o antigo clamor do homem
Que reclamando a contemplação, Sonha e provoca a harmonia, Trabalha mesmo à força, E pelo vento nas folhagens, Pelos planetas, pelo andar das mulheres, Pelo amor e seus contrastes, Comunica-se com os deuses.
(As metamorfoses, 2015.)
1
apascentar: vigiar no pasto; pastorear.
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30. Unesp 2018 a) Explique por que se pode afirmar que o verso inicial desse poema opera uma perturbação ou quebra do discurso lógico. b) Sem prejuízo para o sentido dos versos, que expressões poderiam substituir os termos “onde” (2o verso da 1a estrofe) e “pelo” (4o verso da 3a estrofe), respectivamente? 001598_por_f2_c11_q0090discursiva 001598_por_f2_c11_t0013
31. Unesp 2018 a) O crítico literário Antonio Candido caracteriza esse poema como uma “pastoral fantástica”. Tal caracterização alude a qual escola literária? Justifique sua resposta. b) Identifique duas características que permitem vincular esse poema ao movimento modernista. 001598_por_f2_c11_q0063objetiva
32. Unesp 2019 Entre 11 de fevereiro e 03 de junho de 2018, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) abrigou a primeira exposição nos Estados Unidos dedicada à pintora brasileira Tarsila do Amaral. Leia a apresentação de uma das pinturas expostas para responder à questão. The painting Sleep (1928) is a dreamlike representation of tropical landscape, with this major motif of her repetitive figure that disappears in the background. This painting is an example of Tarsila’s venture into surrealism. Elements such as repetition, random association, and dreamlike figures are typical of surrealism that we can see as main elements of this composition. She was never a truly surrealist painter, but she was totally aware of surrealism’s legacy. (www.moma.org. Adaptado.)
A apresentação sublinha a influência de uma determinada vanguarda europeia sobre a pintura de Tarsila do Amaral. A influência dessa vanguarda europeia também se encontra nos seguintes versos do poeta modernista Murilo Mendes: a) No fim de um ano seu Naum progrediu, já sabe que tem Rui Barbosa, Mangue, Lampião. Joga no bicho todo dia, está ajuntando pro carnaval, depois do almoço anda às turras com a mulher. As filhas dele instalaram-se na vida nacional. Sabem dançar o maxixe conversam com os sargentos em bom brasileiro. (“Família russa no Brasil”)
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Capítulo 11
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(“Modinha do empregado de banco”)
c) Ele acredita que o chão é duro Que todos os homens estão presos Que há limites para a poesia Que não há sorrisos nas crianças Nem amor nas mulheres Que só de pão vive o homem Que não há um outro mundo.
b) O componente religioso e o tom confessional são característicos de seus poemas. c) A estrutura rimada das estrofes é uma característica básica de todos os seus poemas. d) A temática de cunho social pauta-se na esperança de eliminação das diferenças sociais. e) A ironia de seus textos apoia-se na cuidadosa escolha de palavras de cunho erudito.
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34. Uece 2018
Velhice
5
(“O utopista”)
d) A costureira, moça, alta, bonita, ancas largas, os seios estourando debaixo do vestido, (os olhos profundos faziam a sombra na cara), [morreu. Desde então o viúvo passa os dias no quarto [olhando pro manequim.
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(“Afinidades”)
e) O cavalo mecânico arrebata o manequim pensativo que invade a sombra das casas no espaço elástico. Ao sinal do sonho a vida move direitinho as estátuas que retomam seu lugar na série do planeta. Os homens largam a ação na paisagem elementar e invocam os pesadelos de mármore na beira do [infinito. (“O mundo inimigo”) 001598_por_f2_c11_q0096objetiva
33. FMP-RJ 2016
Somos todos poetas Assisto em mim a um desdobrar de planos. as mãos veem, os olhos ouvem, o cérebro se move, A luz desce das origens através dos tempos E caminha desde já Na frente dos meus sucessores. Companheiro, Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma. Sou todos e sou um, Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia [do cego, Pelos gritos isolados que não entraram no coro. Sou responsável pelas auroras que não se levantam E pela angústia que cresce dia a dia. MENDES, M. A poesia em pânico. Rio de Janeiro: Cooperativa Cultural Guanabara, 1938
O texto exemplifica a seguinte afirmativa a respeito da obra de Murilo Mendes: a) O estranhamento provocado por metáforas inusitadas instaura uma simbologia especial.
20
Vinícius de Moraes
Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente Olhando as coisas através de uma filosofia sensata E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade [não permite. Nesse dia Deus talvez tenha entrado definitivamente em [meu espírito Ou talvez tenha saído definitivamente dele. Então todos os meus atos serão encaminhados no sentido [do túmulo E todas as ideias autobiográficas da mocidade terão [desaparecido: Ficará talvez somente a ideia do testamento bem escrito. Serei um velho, não terei mocidade, nem sexo, nem vida Só terei uma experiência extraordinária. Fecharei minha alma a todos e a tudo Passará por mim muito longe o ruído da vida e do mundo Só o ruído do coração doente me avisará de uns restos [de vida em mim. Nem o cigarro da mocidade restará... Será um cigarro forte que satisfará os pulmões viciados E que dará a tudo um ar saturado de velhice. Não escreverei mais a lápis E só usarei pergaminhos compridos. Terei um casaco de alpaca que me fechará os olhos...
25 Serei um corpo sem mocidade, inútil, vazio Cheio de irritação para com a vida Cheio de irritação para comigo mesmo. O eterno velho que nada é, nada vale, nada vive O velho cujo único valor é ser o cadáver de uma [mocidade criadora. MORAES, Vinícius. Velhice. Disponível em: http://www.viniciusdemoraes. com.br/pt-br/poesia/poesias-avulsas/velhice. Acesso: 23/9/17.
Os versos “Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente/ Olhando as coisas através de uma filosofia sensata/ E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite” (linhas 1 a 4) podem ser traduzidos pelo seguinte ditado popular: a) A velhice é a segunda meninice. b) Quanto mais idade, mais maturidade. c) A velhice é um tirano que castiga os prazeres com pena de morte. d) A juventude leviana faz velhice desolada.
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FRENTE 2
b) Eu sou triste como um prático de farmácia, sou quase tão triste como um homem que usa [costeletas. Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de [mulher mas só ouço o tectec das máquinas de escrever. Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda. Quantas meninas pela vida afora! E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
35. Enem 2015
Carta ao Tom 74 Rua Nascimento Silva, cento e sete Você ensinando pra Elizete
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As canções de canção do amor demais Lembra que tempo feliz Ah, que saudade, Ipanema era só felicidade Era como se o amor doesse em paz Nossa famosa garota nem sabia A que ponto a cidade turvaria Esse Rio de amor que se perdeu Mesmo a tristeza da gente era mais bela E além disso se via da janela Um cantinho de céu e o Redentor É, meu amigo, só resta uma certeza, É preciso acabar com essa tristeza É preciso inventar de novo o amor
II. O Texto I propõe ao interlocutor assistir ao espetáculo, já que o fenômeno só acontecerá novamente daqui a 70 anos. III. O Texto II apresenta a comparação entre a beleza da mulher e aparição da lua. IV. O Texto II complementa a ideia apresentada pelo Texto I. É correto o que está contido em d) I e III, apenas. a) I e IV, apenas. e) I, II, III e IV. b) II e IV, apenas. c) III, apenas.
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MORAES, V.; TOQUINHO. Bossa Nova, sua história, sua gente. São Paulo: Universal; Philips,1975 (fragmento).
O trecho da canção de Toquinho e Vinicius de Moraes apresenta marcas do gênero textual carta, possibilitando que o eu poético e o interlocutor a) compartilhem uma visão realista sobre o amor em sintonia com o meio urbano. b) troquem notícias em tom nostálgico sobre as mudanças ocorridas na cidade. c) façam confidências, uma vez que não se encontram mais no Rio de Janeiro. d) tratem pragmaticamente sobre os destinos do amor e da vida citadina. e) aceitem as transformações ocorridas em pontos turísticos específicos.
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36. IFSP 2017 Leia os textos I e II para responder à questão. Texto I Um fenômeno natural vai iluminar ainda mais o céu e deixar os apreciadores da Lua encantados. É que, na véspera do dia 14 de novembro, será possível observar a maior Superlua já vista em 70 anos – quando a Lua Cheia coincide com o ponto mais próximo da Terra. Para se ter uma ideia, o satélite não chegava tão perto de nós desde 1948, e não voltará a fazê-lo até 2034. Guia da Semana São Paulo – 9 nov. de 2016. Adaptado.
Texto II São demais os perigos desta vida Para quem tem paixão, principalmente Quando uma lua surge de repente E se deixa no céu, como esquecida. E se ao luar que atua desvairado Vem se unir uma música qualquer Aí então é preciso ter cuidado Porque deve andar perto uma mulher. Deve andar perto uma mulher que é feita De música, luar e sentimento E que a vida não quer, de tão perfeita. Uma mulher que é como a própria Lua: Tão linda que só espalha sofrimento Tão cheia de pudor que vive nua. Vinicius de Moraes
Os Textos I e II apresentam o mesmo tema em comum, porém com intencionalidades distintas, portanto pode-se inferir que I. O Texto I apresenta informações técnicas e alguns dados concretos e científicos.
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Capítulo 11
37. Uefs-BA 2016 Adiante, segue um fragmento do poema “O operário em construção”, de Vinicius de Moraes. Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão. Como um pássaro sem asas Ele subia com as casas 5 Que lhe brotavam da mão. Mas tudo desconhecia De sua grande missão: Não sabia, por exemplo, Que a casa de um homem é um templo 10 Um templo sem religião Como tampouco sabia Que a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade Era a sua escravidão. 15 De fato como podia Um operário em construção Compreender por que um tijolo Valia mais do que um pão? Tijolos ele empilhava 20 Com pá, cimento e esquadria Quanto ao pão, ele o comia Mas fosse comer tijolo! E assim o operário ia Com suor e com cimento 25 Erguendo uma casa aqui Adiante um apartamento Além uma igreja, à frente Um quartel e uma prisão: Prisão de que sofreria 30 Não fosse eventualmente Um operário em construção. Mas ele desconhecia Esse fato extraordinário: Que o operário faz a coisa 35 E a coisa faz o operário. De forma que, certo dia, À mesa, ao cortar o pão, O operário foi tomado De uma súbita emoção 40 Ao constatar assombrado Que tudo naquela mesa – Garrafa, prato, facão, Era ele quem fazia Ele, um humilde operário, Um operário em construção. 45 [...] MORAES, Vinicius. O operário em construção. Rio de Janeiro, 1959. Disponível em: www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesiaavulsas/ o-operario-em-construcao. Acesso em: 18 jan. 2016. Adaptado.
O Modernismo no Brasil: a poesia mística e social
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38. FGV-RJ 2016 Agora me digam: como é que, com tio-avô modinheiro parente de Castro Alves, com quem notivagava na Bahia; pai curtidor de um sarau musical, tocando violão ele próprio e depositário de canções que nunca mais ouvi cantadas, como “O leve batel”, linda, lancinante, lúdica e que mais palavras haja em “l’s” líquidos e palatais, com versos atribuídos a Bilac; avó materna e mãe pianistas, dedilhando aquelas valsas antigas que doem como uma crise de angina no peito; dois tios seresteiros, como Henriquinho e tio Carlinhos, irmão de minha mãe, de dois metros de altura e um digitalismo espantosos, uma espécie de Canhoto (que também o era) da Gávea; como é que, com toda essa progênie, poderia eu deixar de ser também um compositor popular… Vinicius de Moraes. Samba falado: (crônicas musicais). Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008. Adaptado.
Ao exaltar a canção “O leve batel”, Vinicius de Moraes emprega adjetivos que exemplificam um tipo de recurso expressivo de natureza sonora que ocorre, de modo mais expressivo, nestes versos também de sua autoria: a) De repente do riso fez-se o pranto / Silencioso e branco como a bruma. b) De nada vale ao homem a pura compreensão de todas as coisas. c) A minha pátria não é florão, nem ostenta / Lábaro não; a minha pátria é desolação. d) Na melancolia de teus olhos / Eu sinto a noite se inclinar. e) Quero ir-me embora pra estrela / Que vi luzindo no céu.
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39. Unioeste-PR 2021 Com base na leitura de “Poema de Natal”, de Vinícius de Moraes, assinale a alternativa INCORRETA.
a) Pode-se considerar o “Poema de Natal” como pertencente a uma vertente mais reflexiva de Vinícius de Moraes, dedicado à frágil e fugaz condição humana. b) Estabelece-se um paradoxo entre o termo “Natal”, presente no título, que significa nascimento, e o tema desenvolvido no poema, em que o eu lírico reflete acerca da morte. c) Os últimos versos do poema: “da morte, apenas/ Nascemos, imensamente.”, demonstram esperança diante de um aspecto sombrio desenvolvido no poema, que é o fim da vida e a dor da partida de um ente querido. d) Em seu “Poema de Natal”, Moraes revela um eu lírico atento e preocupado com o campo emocional e as dificuldades que os seres humanos sofrem ao longo da vida, como as questões relacionadas ao nascimento e à morte, expondo, desse modo, uma atenta e sensível preocupação com a condição humana. e) O “Poema de Natal” é exemplo de obra produzida graças a sua conversão ao cristianismo, tratando, dessa forma, da perspectiva cristã frente à vida e ao mundo.
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40. IFPE 2014 Amigo Di Cavalcanti A hora é grave e inconstante. Tudo aquilo que prezamos O povo, a arte, a cultura Vemos sendo desfigurado Pelos homens do passado Que por terror ao futuro Optaram pela tortura. Poeta Di Cavalcanti Nossas coisas bem-amadas Neste mesmo exato instante Estão sendo desfiguradas. Hay que luchar, Cavalcanti
Como diria Neruda. Por isso, pinta, pintor Pinta, pinta, pinta, pinta Pinta o ódio e pinta o amor Com o sangue de tua tinta Pinta as mulheres de cor Na sua desgraça distinta Pinta o fruto e pinta a flor Pinta tudo que não minta Pinta o riso e pinta a dor Pinta sem abstracionismo Pinta a Vida, pintador No teu mágico realismo! Vinicius de Moraes
MORAES, V. Amigo Di Cavalcanti. Disponível em: www.viniciusdemoraes.com.br. Acesso em: 23 set. 2013.
Levando em consideração questões relativas ao texto, analise as afirmativas que seguem. I. O poema transcrito, tendo em vista as características apresentadas, como a sobriedade na linguagem, comparando-se com a ousadia da fase anterior, é um exemplar da poesia produzida no Segundo Momento Modernista. Neste, entre outros objetivos, buscou-se entender a relação homem 3 universo. II. Quanto ao emprego da vírgula, sobretudo em relação ao vocativo, percebe-se que ora o poe ta segue a regra gramatical, ora a infringe. Possivelmente, a omissão desse sinal, na primeira estrofe, deva-se à retratação da intimidade com Cavalcanti; a presença, na segunda, indica certa formalidade com o pintor.
FRENTE 2
Sobre o fragmento do poema de Vinícius de Moraes, é incorreto afirmar que o operário, a quem o eu poético se refere, a) é visto, inicialmente, como um indivíduo subjugado e sem liberdade, ao ser comparado a um “pássaro sem asas” (v. 3). b) não consegue fazer de seu trabalho um meio de libertação e acaba, contraditoriamente, na condição de oprimido, denunciada por meio do paradoxo presente nos versos “a casa que ele fazia/Sendo a sua liberdade/Era a sua escravidão.” (v. 12-14). c) tem consciência crítica de sua mais-valia, luta por seus direitos e busca reverter a situação ao questionar “como podia/Um operário em construção/ Compreender por que um tijolo/Valia mais do que um pão?” (v. 15-18). d) dá-se conta, em uma súbita constatação, de que tudo à sua volta é fruto de seu trabalho, “– Garrafa, prato, facão/ Era ele quem fazia” (v. 42-43). e) constrói sua consciência ao longo do texto, criando uma dicotomia entre a construção de habitações e objetos e a construção de seu próprio olhar crítico, na condição de um “humilde operário” (v. 44) explorado pelo sistema econômico.
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III. O estrangeirismo, na segunda estrofe, é empregado por se tratar de uma citação direta de Neruda. O emprego dessa variedade linguística revela que Vinicius de Moraes fugiu à principal proposta de sua Geração Modernista: adotar uma postura de valorização do perfil nacional. IV. O poema apresenta estrutura paralelística, evidenciada, principalmente, pela repetição do vocábulo ‘pinta’. Essa estratégia, junto ao emprego de figuras como aliteração e assonância, contribui para a obtenção da musicalidade, recurso característico do texto poético. V. As palavras ‘pintor’ e ‘pintador’ têm sentidos iguais, assim como, no texto, ‘Vida’ apresenta a mesma relevância semântica que ‘fruto’, ‘flor’, ‘riso’ e ‘dor’. Portanto, não há como justificar o emprego da inicial maiúscula apenas para o vocábulo ‘Vida’, tampouco o ponto de exclamação fechando o poema. Estão corretas, apenas: a) I e II b) I e IV c) I, II e IV d) II, III e V e) III e V
Amarra-te aos pés das garças e solta-as para que te levem E quando a decomposição dos campos de guerra te ferir [as narinas, lança-te sobre a cidade mortuária Cava a terra por entre as tumefações e se encontrares um [velho canhão soterrado, volta E vem atirar sobre as borboletas cintilando cores que [comem as fezes verdes das estradas. [...] Suga aos cínicos o cinismo, aos covardes o medo, aos [avaros o ouro E para que apodreçam como porcos, injeta-os de pureza!
41. Unicamp-SP O excerto a seguir foi extraído do poema Balada feroz, de Vinícius de Moraes.
(Vinícius de Moraes. Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 51-3.)
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[...] Lança o teu poema inocente sobre o rio venéreo [engolindo as cidades Sobre os casebres onde os escorpiões se matam à visão [dos amores miseráveis Deita a tua alma sobre a podridão das latrinas e das fossas Por onde passou a miséria da condição dos escravos e [dos gênios. [...]
E com todo esse pus, faz um poema puro E deixa-o ir, armado cavaleiro, pela vida E ri e canta dos que pasmados o abrigarem E dos que por medo dele te derem em troca a mulher e [o pão. Canta! Canta, porque cantar é a missão do poeta E dança, porque dançar é o destino da pureza Faz para os cemitérios e para os lares o teu grande gesto [obsceno Carne morta ou carne viva — toma! Agora falo eu que [sou um!
a) Como é próprio do modernismo poético, os versos citados contrariam a linguagem mais depurada e as imagens mais elevadas da lírica tradicional. Como podemos definir as imagens predominantes em Balada feroz? A que se referem tais imagens? b) Qual é o papel da poesia e do poeta diante da realidade representada?
BNCC em foco EM13LP38 001598_por_f2_c11_q0101discursiva
1. Leia o texto a seguir. Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989 [...] Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. (Redação dada pela Lei no 9.459, de 15/05/97) ) Pena: reclusão de um a três anos e multa. (Redação dada pela Lei no 9.459, de 15/05/97) § 1o Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. (Redação dada pela Lei no 9.459, de 15/05/97) § 2o Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza: (Redação dada pela Lei no 9.459, de 15/05/97) Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa. (Incluído pela Lei no 9.459, de 15/05/97) § 3o No caso do parágrafo anterior, o juiz poderá determinar, ouvido o Ministério Público ou a pedido deste, ainda antes do inquérito policial, sob pena de desobediência: (Redação dada pela Lei no 9.459, de 15/05/97)
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Capítulo 11
O Modernismo no Brasil: a poesia mística e social
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I – o recolhimento imediato ou a busca e apreensão dos exemplares do material respectivo; (Incluído pela Lei no 9.459, de 15/05/97) II – a cessação das respectivas transmissões radiofônicas, televisivas, eletrônicas ou da publicação por qualquer meio; (Redação dada pela Lei no 12.735, de 2012) [...] BRASIL. Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716compilado.htm. Acesso em: 9 jan. 2024.
Escreva um pequeno texto, em que você possa refletir sobre a responsabilidade dos escritores da literatura de 1930 e dos meios de comunicação do século XXI mediante o tema da democracia. Procure discutir a problemática da liberdade de expressão. EM13LP04 001598_por_f2_c11_q0102discursiva
Tira de Custódio
2. Leia a tirinha e o trecho do poema de Carlos Drummond de Andrade.
Leia o “Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade, e explique a diferença entre o anjo do poema e o da tirinha. EM13LP03 001598_por_f2_c11_q0103objetiva
Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora
3. Considere a obra de Pedro Américo (1893), denominada Tiradentes esquartejado, e compare-a com a proposta da obra Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Indique a alternativa correta.
a) Tanto a obra plástica quanto o livro revelam a verdade sobre o contexto da mineração do ouro, enaltecendo seus mártires reais. b) A obra de Pedro Américo visa à construção da imagem de um mártir da pátria, padrão adotado por Cecília Meireles a partir da visão unilateral da sua narrativa. c) Ambas as obras evidenciam o pano de fundo do século XVIII, momento marcado pela religiosidade e retomado de maneira gloriosa por seus autores católicos. d) A Proclamação da República, tema da obra de Cecília Meireles e Pedro Américo, é romantizada pelos dois autores que tinham o objetivo de ressignificar o passado. e) Enquanto Pedro Américo visa criar um mártir, Cecília dá voz ao passado mediante o recurso da polifonia, em que várias perspectivas são evidenciadas, ou seja, várias vozes.
FRENTE 2
Tiradentes esquartejado, de Pedro Américo, 1893. Óleo sobre tela, 270 cm 3 165 cm. Mariano Procópio Museu, Juiz de Fora, Minas Gerais.
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Direito de reprodução gentilmente cedido por João Candido Portinari
Retirantes, de Candido Portinari, 1944-1945. Óleo sobre tela, 190 cm 3 180 cm. Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo.
FRENTE 2
12 CAPÍTULO
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945 A segunda geração do Modernismo é conhecida como a fase da construção e compreende o período de 1930 a 1945. Depois da comoção causada pelos primeiros modernistas, uma nova geração de escritores passou a usufruir da liberdade conquistada no início dos anos 1920. Esses escritores engajaram-se nos problemas sociais e políticos do país, além de aprofundar a análise psicológica em suas obras. As conturbadas décadas de 1930 e 1940 vão culminar no mundo pós-guerra, que também foi um período de grande inventividade na literatura brasileira, tendo como principal característica a solidão do indivíduo moderno.
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[...] O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova. Se nos largassem, vagaríamos tristes, inofensivos e desocupados, farrapos vivos, velhos prematuros; desejaríamos enlouquecer, recolher-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas ideias, repetidas, vexavam-me; tanto me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido. [...] RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Record, 2020. p. 152.
© The George and Helen Segal Foundation, Segal, George/ AUTVIS, Brasil, 2023. Foto: Stu Jones/Shutterstock.com
No início da década de 1930, a grande crise econômica de 1929 gerou o declínio econômico de diversos países, a começar pelos Estados Unidos. Após a Primeira Guerra Mundial, as potências europeias, como Inglaterra e Alemanha, estavam em um momento de recuperação, o que proporcionou aos Estados Unidos uma oportunidade para expansão e consolidação econômicas. No entanto, o aumento desenfreado de crédito, emitido pela Reserva Federal estadunidense, gerou uma bolha inflacionária que estourou em 1929. Como consequência da Crise de 1929, os Estados Unidos vivenciaram uma grande onda de desemprego, além da falência de inúmeras empresas e da pobreza. Os países que estavam atrelados ao sistema de crédito estadunidense também sofreram com a crise financeira. No Brasil, por exemplo, com o intuito de valorizar o preço do café, 65 milhões de sacas foram queimadas entre os anos de 1931 e 1938.
Estátuas de bronze representando homens na fila do pão. Cena comum nos Estados Unidos durante a Grande Depressão.
Saiba mais O Tratado de Versalhes foi um acordo de paz assinado entre Alemanha e Império Britânico, França, Itália, Japão, Estados Unidos e outros países aliados para pôr fim à Primeira Guerra Mundial. Nele foram impostas sanções à Alemanha, que incluíam a perda de parte de seu território e do controle de todas as colônias, dos oceanos e sobre o continente africano, além de restrição ao tamanho do exército e o pagamento de uma indenização pelos prejuízos causados durante a guerra.
O rastro de destruição da guerra ficou registrado em fotografias. Muitos países mal tinham se recuperado dos estragos da Primeira Guerra Mundial quando a Segunda Grande Guerra começou. Na imagem, dois homens sentados nos escombros após a Batalha de Berlim, em 1945.
O Brasil não era um país industrializado e foi menos atingido pela crise de 1929. Porém, também viveu um momento conturbado, pois perdeu seu principal comprador de café, os Estados Unidos. O cenário que se desenhou mundo afora foi favorável a governos mais rígidos; assim, em 1930 teve início uma revolução em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, cujo líder foi Getúlio Vargas. O recém-eleito presidente Júlio Prestes foi impedido de tomar posse da cadeira presidencial, marcando o término da Primeira República. Getúlio Vargas assumiu e governou o Brasil por 15 anos, período conhecido como Era Vargas.
FRENTE 2
Décadas conturbadas
Esse período atribulado se deu entre dois grandes conflitos mundiais. No fim da Primeira Guerra Mundial, com a assinatura do Tratado de Versalhes em 1919, a Alemanha e os países vencidos sofreram duras imposições e sentiram-se prejudicados. Havia, então, uma constante ameaça à paz selada por meio de diversos acordos entre os países-membros da Liga das Nações. Nessa conjuntura sociopolítica de grande instabilidade e desconfiança, regimes ditatoriais ascenderam, culminando na Segunda Guerra Mundial (1939). Deu-se, assim, um tempo de extrema intolerância, perseguição, repressão e autoritarismo no mundo.
Everett Collection/Shutterstock.com
Modernismo no Brasil: geração de 1930 (prosa)
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Claro Jansson/Wikimedia Commons
Atenção O regionalismo nordestino é um dos pontos de destaque do Modernismo de 1930. Os autores abordaram os problemas decorrentes do declínio econômico da região, desencadeado pela transferência do polo cultural e econômico para a região Sudeste. A miséria, a aridez, as relações de poder e o descaso dos políticos com o Nordeste foram apresentados criticamente por meio da Literatura.
Eder Chiodetto/Folhapress
Rachel de Queiroz (1910-2003)
Comitiva de Getúlio Vargas (ao centro) fotografada por Claro Jansson durante sua passagem por Itararé (São Paulo) a caminho do Rio de Janeiro após a Revolução de 1930.
Nesse período, muitos se tornaram presos políticos, principalmente intelectuais e militantes, acusados de comunismo pela polícia de Getúlio Vargas. Entre os autores que estiveram presos estão Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos, cujo testemunho desse período está registrado na obra Memórias do cárcere (fragmento apresentado no início deste capítulo). Com esse panorama histórico, percebemos que a segunda fase do Modernismo teve início em um momento de crise mundial. Na literatura, os autores buscavam apresentar as inquietações desses novos tempos. Nessa fase de construção, eles puderam aprofundar temas importantes com base nas conquistas da fase anterior. [...] O Modernismo e, num plano histórico mais geral, os abalos que sofreu a vida brasileira em torno de 1930 (a crise cafeeira, a Revolução, o acelerado declínio do Nordeste, as fendas nas estruturas locais) condicionaram novos estilos ficcionais marcados pela rudeza, pela captação direta dos fatos, enfim por uma retomada do naturalismo, bastante funcional no plano da narração-documento que então prevaleceria. [...] BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006. p. 389.
Conforme explicou Alfredo Bosi, a prosa desse período está mais ligada aos fatos, o que levou a uma retomada parcial do Realismo/Naturalismo. Pode ser chamada de neorrealista, ou seja, um novo tipo de realismo já desvencilhado da inflexibilidade do cientificismo e do racionalismo. Os escritores dos anos 1930 tinham uma abordagem mais crítica das relações sociais; além disso, há a expressão emocional das personagens, antes suprimida pelo determinismo, e um aprofundamento da análise psicológica. Na prosa, temos, basicamente, três vertentes: prosa regionalista, prosa intimista e prosa urbana. O novo romance regionalista teve início em 1928, com a publicação de A bagaceira, de José Américo de Almeida.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 12
Rachel de Queiroz nasceu no Ceará. Foi romancista, contista, cronista e dramaturga. Pelo lado materno, tem laços hereditários com o escritor José de Alencar (sua bisavó materna era prima de Alencar). Sua família é da cidade de Quixadá, mas Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza. Em 1917, sua família se mudou para o Rio de Janeiro fugindo da seca, mas acabou retornando anos depois. A escritora começou a colaborar com o jornal O Ceará muito cedo, aos 17 anos. Aos 20 anos, escreveu seu primeiro romance O quinze, que logo despertou o interesse e os elogios da crítica, pois foi um divisor de águas no romance regionalista. Desde o período do Romantismo foram produzidas obras de cunho regionalista, como é o caso de algumas de José de Alencar e Bernardo Guimarães, por exemplo. Criar um panorama do Brasil por meio da literatura era um projeto do escritor romântico Alencar. No regionalismo da segunda fase do Modernismo, o enfoque mudou, pois os autores tiveram necessidade de retratar esses espaços e seus problemas na busca por soluções. Essa mudança de postura está relacionada diretamente com as experiências pessoais dos autores e com a realidade e as tensões que tomaram conta do Brasil na década de 1930, como vimos anteriormente. [...] Diferentemente da ingenuidade e da idealização românticas, e do determinismo redutor e preconceituoso naturalista, esse novo tipo de romance não trata o sertanejo de modo pitoresco nem como objeto de análise científica, mas sim a partir de uma perspectiva próxima de sua realidade e favorável à sua causa.
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
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ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. Rachel de Queiroz. São Paulo: Itaú Cultural, 2022. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1140/rachel-de-queiroz. Acesso em: 7 nov. 2023.
Atenção As obras de Rachel de Queiroz relatam as lutas do povo nordestino pela sobrevivência, como é o caso da obra O quinze, que narra a grande seca ocorrida em 1915 no Nordeste brasileiro. Sua experiência pessoal se relacionou com os temas abordados em suas obras. Rachel de Queiroz utilizou uma linguagem simples e coloquial, além de construir metáforas que criaram relação de comparação com elementos do universo sertanejo.
O quinze, como vimos no texto, conta a história do vaqueiro Chico Bento e sua família, composta de esposa, cunhada e filhos. Por causa da grande seca de 1915, Chico Bento é demitido e obrigado a cruzar o sertão para chegar ao Recife. Esse percurso é permeado de fome, sede, miséria, medo e morte. Além do conflito principal, em segundo plano, temos a história de Dona Inácia e sua neta Conceição a madrinha de um dos filhos de Chico Bento. Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas. — Mãezinha, cadê a janta? — Cala a boca, menino! Já vem! — Vem lá o quê!... Angustiado, Chico Bento apalpava os bolsos... nem um triste vintém azinhavrado... Lembrou-se da rede nova, grande e de listas que comprara em Quixadá por conta do vale de Vicente. Tinha sido para a viagem. Mas antes dormir no chão do que ver os meninos chorando, com a barriga roncando de fome. Estavam já na estrada do Castro. E se arrancharam debaixo dum velho pau-branco seco, nu e retorcido, a bem dizer ao
tempo, porque aqueles cepos apontados para o céu não tinham nada de abrigo. O vaqueiro saiu com a rede, resoluto: — Vou ali naquela bodega, ver se dou um jeito... Voltou mais tarde, sem a rede, trazendo uma rapadura e um litro de farinha: — Tá aqui. O homem disse que a rede estava velha, só deu isso, e ainda por cima se fazendo de compadecido... Faminta, a meninada avançou; e até Mocinha, sempre mais ou menos calada e indiferente, estendeu a mão com avidez. Contudo, que representava aquilo para tanta gente? Horas depois, os meninos gemiam: — Mãe, tô com fome de novo... [...] QUEIROZ, Rachel de. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.
vintém azinhavrado: moeda de cobre ou latão corroída. arranchar-se: abrigar-se. cepo: toco de árvore.
Nesse trecho do romance, podemos observar que a narração é objetiva, relatando a cena de maneira simples, sem o uso de artifícios para sensibilizar o leitor da gravidade da situação em que Chico Bento e sua família se encontram. A fome das personagens é algo grave, dramático, que por si só deve comover quem lê a obra. O objetivo e o foco do romance estão em relatar também as relações criadas pela desgraça, as vidas que se cruzam por causa da miséria gerada pela seca e mantida pelo descaso. É importante observar que os diálogos são valorizados no romance, ou seja, as personagens falam por si mesmas. A interferência do narrador é mínima. Além disso, devemos observar a pluralidade de planos narrativos, tendo como principais o campo e o sertão, ligados pelo deslocamento das personagens. Por fim, há a valorização das cenas que remetem à linguagem cinematográfica que os modernistas de 1922 consolidaram na literatura brasileira. Seu segundo romance, João Miguel (1932), também tem como espaço o estado do Ceará e apresentou a preocupação social da autora, que retomou temas como a seca, a desigualdade e a indiferença dos governantes. O estilo de Rachel de Queiroz se consolidou com simplicidade e vigor, seus diálogos foram escritos com naturalidade, e a dramaticidade de sua obra surgiu da forma realista como os fatos foram narrados. A preocupação social da autora ultrapassava o fazer literário, por isso se envolveu politicamente com o Partido Comunista, mas acabou rompendo com ele em 1933. Foi presa por suas convicções políticas e pelas ideias trotskistas que defendia. O romance Caminho das pedras foi escrito nesse período e tem um viés político bastante definido. Em 1939, publicou As três Marias, romance psicológico com indícios autobiográficos que discorre sobre a adolescência feminina por meio da história de três meninas internas em um colégio religioso. Publicou, ainda, Dora, Doralina (1975), O galo de ouro (1985), além de peças teatrais, crônicas e obras infantojuvenis. Em 1977, Rachel de Queiroz se tornou a primeira mulher eleita imortal da Academia Brasileira de Letras.
FRENTE 2
Esse é o caso de O Quinze (1930), primeiro romance, escrito quando ainda é uma jovem de 20 anos, sobre a forte seca que se abate no Nordeste brasileiro, no ano de 1915. Trata-se de uma narrativa em terceira pessoa, repleta de descrições bem vívidas, basicamente composta de dois planos, que, como nota o crítico português Casais Monteiro, se cruzam próximo do término: o primeiro é de um grupo de pequenos proprietários (a professora Conceição e a sua avó dona Inácia, assim como Vicente e sua mãe, dona Idalina); o segundo, uma família de retirantes, liderada pelo sertanejo Chico Bento, que, após passar por diversas agruras em sua viagem para a capital, resolve migrar para São Paulo. A linguagem [...] é simples e crua: traços de oralidade salpicam na medida certa o português culto no qual se tece a prosa, ao mesmo tempo que são construídas metáforas e comparações com base em elementos pertencentes ao campo semântico do universo sertanejo (os “cotos de galhos como membros amputados” ou o comboio que, na curva, “era como uma cobra que fugisse sobre o borralho ainda quente de uma coivara”). As cenas, na maior parte das vezes curtas, sucedem-se como pequenas crônicas, algumas das quais até podem ser lidas de maneira independente [...].
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Arquivo Nacional do Brasil, Rio de Janeiro
Seu último romance foi publicado em 1992, Memorial de Maria Moura, e narra a história de uma mulher que, vestida de homem, tenta se vingar dos homens que assassinaram sua família.
Rachel de Queiroz foi a primeira mulher a ser aceita na Academia Brasileira de Letras. Na foto, a cerimônia de posse ocorrida em 1977.
Photo © Effigie /Bridgeman Images/Fotoarena
Jorge Amado (1912-2001)
Jorge Amado nasceu em uma fazenda de cacau em Itabuna, na Bahia. Por causa de um surto de varíola que assolou a fazenda, a família se mudou para Ilhéus quando o escritor estava prestes a completar 2 anos, tendo passado lá sua infância. Anos mais tarde, mudaram-se novamente; dessa vez para Salvador, onde um professor do colégio jesuíta percebeu o talento literário de Amado. Seu primeiro conto foi publicado no jornal da escola, que ele mesmo fundou em 1925. Em 1927, iniciou uma colaboração mais recorrente com jornais e revistas da região. A primeira obra que publicou foi Lenita (1929), uma novela escrita com Edison Carneiro e Dias Costas. O primeiro romance foi publicado em 1931, O país do carnaval, no mesmo ano em que Jorge Amado ingressou no curso de Direito, já no Rio de Janeiro.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 12
Cacau (1933) foi seu primeiro romance regionalista e narra a realidade da população interiorana da Bahia, especificamente os que trabalhavam cultivando cacau, mas a obra foi censurada e recolhida. As obras publicadas nos anos seguintes têm temática urbana e se aproximam do realismo socialista, são elas: Suor (1934), Jubiabá (1935), Mar morto (1936) e Capitães da areia (1937). Entre 1936 e 1937, Jorge Amado foi preso por motivos políticos, o que acarretou a censura e o recolhimento de suas obras. Em 1941, com o objetivo de escapar da perseguição da ditadura da Era Vargas, exilou-se na Argentina. Regressou ao Brasil em 1944, elegendo-se deputado federal, mas seu mandato foi cassado em 1948. Nesse mesmo ano, ele partiu para uma viagem por diversos países da Europa, voltando ao Brasil em 1956. Gabriela, cravo e canela foi lançado dois anos após seu retorno. Jorge Amado é um escritor muito popular no Brasil e no mundo. Sua obra combinou as questões regionais com uma forma romanesca convencional, apesar de transformada pelo Modernismo. Amado nem sempre contou com a simpatia dos críticos literários; a maior parte deles concorda que as primeiras produções do escritor baiano são as mais valiosas literariamente. As principais características de suas obras são o realismo social, os conflitos políticos, o folclore e as crenças populares. O período de maior crítica é o que abrange os romances lançados entre o fim da década de 1950 e o início da década de 1960. [...] Em 1956, retorna ao Brasil e publica seu romance mais popular, Gabriela, Cravo e Canela (1958). Com ele inicia uma nova fase romanesca, em que, segundo Álvaro Cardoso Gomes (1944), “abandona a ficção engajada e adentra cidades baianas, carregadas de lirismo, que mostram casos pitorescos e característicos. Verifica-se também substancial mudança na linguagem, que descobre suas raízes populares, recebendo influências da literatura de cordel e tornando-se mais viva e sensual”. [...] A crônica social da vida baiana narrada nessa fase inclui títulos como Dona Flor e seus Dois Maridos (1967), Teresa Batista Cansada de Guerra (1973) e Tieta do Agreste (1977), livros que são bem recebidos pelos leitores e adaptados para o teatro, cinema e televisão, embora sejam pouco apreciados pela crítica literária, que aponta a superficialidade nessas fábulas populares. Alfredo Bosi afirma que, na nova fase, Jorge Amado oferece ao leitor “glutão”, “pieguice e volúpia em vez de paixão, estereótipos em vez de trato orgânico dos conflitos sociais, pitoresco em vez de captação estética do meio, tipos ‘folclóricos’ em vez de pessoas, descuido formal a pretexto de oralidade”. [...] ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. Jorge Amado. São Paulo: Itaú Cultural, 2022. Disponível em: http://enciclopedia. itaucultural.org.br/pessoa4164/jorge-amado. Acesso em: 7 nov. 2023.
Antonio Candido, apesar de reconhecer problemas flagrantes na literatura de Jorge Amado, tem opinião menos severa que a de Alfredo Bosi, apontando “uma identificação afetiva com o povo, [...] numa prosa generosa, comunicativa, que fez de Jorge Amado o romancista mais popular do Brasil” (Iniciação à literatura brasileira. São Paulo: Humanitas, 1999. p. 86).
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
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AMADO, Jorge. Capitães da areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 29.
Joa Souza/Shutterstock.com
Atenção Para os críticos, a obra de Jorge Amado pode ser dividida em duas fases, sendo a primeira considerada a mais valiosa literariamente. Desse período, destacam-se Cacau, Mar morto, Capitães da areia, Jubiabá e Terras do sem-fim (1943), que possuem vertentes política e social bem marcadas.
Erico Verissimo (1905-1975)
Segundo Alfredo Bosi, apenas Erico Verissimo divide com Jorge Amado o apreço e a boa recepção por parte do público leitor. Mas, assim como ocorreu com o romancista baiano, a crítica literária vê sua obra com certas reservas. Nascido em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, Erico Verissimo interessou-se cedo pela literatura. Sua família era rica, mas acabou falindo no começo do século XX, por isso, após os anos de estudo em Porto Alegre, Verissimo retornou à sua cidade natal para trabalhar. Seu primeiro texto publicado em revista foi o conto “Ladrão de gado”, em 1928. Alguns anos depois, ele conseguiu um emprego como secretário na revista O globo e mudou-se para Porto Alegre, onde passou a viver com a esposa. Em 1932, publicou seu primeiro livro de contos, Fantoches, e passou a atuar também como tradutor de diversas obras inglesas, francesas e espanholas. Essa experiência influenciou sua técnica de escrita. Sua obra se situa na sociedade porto-alegrense. Clarissa (1933) foi o primeiro romance publicado e se conecta sutilmente com as demais obras, que inclui Música ao longe (1935), Um lugar ao sol (1936), Saga (1933), Olhai os lírios do campo (1938) – grande sucesso de público – e O resto
FRENTE 2
[...] É aqui também que mora o chefe dos Capitães da Areia: Pedro Bala. Desde cedo foi chamado assim, desde seus cinco anos. Hoje tem quinze anos. Há dez que vagabundeia nas ruas da Bahia. Nunca soube de sua mãe, seu pai morrera de um balaço. Ele ficou sozinho e empregou anos em conhecer a cidade. Hoje sabe de todas as suas ruas e de todos os seus becos. Não há venda, quitanda, botequim que ele não conheça. Quando se incorporou aos Capitães da Areia (o cais recém-construído atraiu para as suas areias todas as crianças abandonadas da cidade) o chefe era Raimundo, o Caboclo, mulato avermelhado forte. Não durou muito na chefia o caboclo Raimundo. Pedro Bala era muito mais ativo, sabia planejar os trabalhos, sabia tratar com os outros, trazia nos olhos e na voz a autoridade de chefe. Um dia brigaram. A desgraça de Raimundo foi puxar uma navalha e cortar o rosto de Pedro, um talho que ficou para o resto da vida. Os outros se meteram e como Pedro estava desarmado deram razão a ele e ficaram esperando a revanche, que não tardou. Uma noite, quando Raimundo quis surrar Barandão, Pedro tomou as dores do negrinho e rolaram na luta mais sensacional que as areias do cais jamais assistiram. Raimundo era mais alto e mais velho. Porém, Pedro Bala, o cabelo loiro voando, a cicatriz vermelha no rosto, era de uma agilidade espantosa e desde esse dia Raimundo deixou não só a chefia dos Capitães da Areia, como o próprio areal. Engajou tempos depois num navio. Todos reconheceram os direitos de Pedro Bala à chefia, e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche. [...]
Estátua em homenagem a Jorge Amado e sua esposa, Zélia Gatai, em Salvador, Bahia.
Acervo do Fundo Correio da Manhã/ Arquivo Nacional, Rio de Janeiro
Jorge Amado segue como um dos escritores mais reconhecidos do Brasil, e sua obra foi popularizada também por meio de adaptações televisivas e cinematográficas, independentemente da crítica. Obras como Gabriela, cravo e canela, Tieta do Agreste e Dona Flor e seus dois maridos já fazem parte do imaginário do brasileiro. Temos de pontuar que o mundo pitoresco e colorido apresentado por Amado ajudou a criar uma imagem equivocada do Brasil mundo afora. Suas histórias giravam em torno do Carnaval, da beleza feminina, das religiões africanas, mas também da violência e da desigualdade. O olhar estrangeiro sobre essas obras levou a uma generalização que tornou válida a representação estereotipada do nosso país. Entre as obras de Amado, destacamos Capitães da areia, que narra a história de um grupo de crianças abandonadas que vive nas proximidades do cais de Salvador. Todos moram em um depósito abandonado e sobrevivem praticando pequenos furtos. Pedro Bala é a personagem principal, um adolescente de 15 anos que, ao longo da narrativa, se dá conta da situação de opressão e abandono em que vivem, pois estão sempre fugindo da polícia e brigando com outros grupos de meninos em situação de abandono. Os principais temas abordados no romance são as desigualdades sociais, a marginalidade, o crime e o abandono de crianças.
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[...] Dividida em três partes fundamentais, por sua vez desmembradas em capítulos de acordo com a personagem central, a obra apresenta nítida coloração épica, sobretudo no primeiro volume [...], referente a Ana Terra. Pondo em relevo um tipo humano de grande riqueza interior, sem embargo de seu humilde status, a ação transcorre no imperfeito do indicativo. Com isso, o novelista afastava para longe o tempo da fabulação e concomitantemente atribuía ao transcorrer da história um halo de eterno retorno, vizinho da lenda, dos contos de fada ou das narrativas bíblicas. [...]
Apesar de ser didaticamente classificada e estudada sob o rótulo do regionalismo, a obra de Verissimo apresentou pouca diferença em relação a obras escritas com base na observação da sociedade. Assim como aconteceu com o regionalismo, o romance histórico já havia sido explorado no Romantismo brasileiro. O ciclo histórico de Verissimo pode ser mais facilmente relacionado ao regionalismo, mas no sentido de valorizar a história e a identidade gaúcha.
José Lins do Rego (1901-1957) Folhapress/Folhapress
é silêncio (1943). Esses títulos compõem o primeiro ciclo de obras de Erico Verissimo, considerado urbano. O ciclo histórico em que recuperou a vida e a história gaúcha trouxe reconhecimento ao autor. A trilogia O tempo e o vento foi escrita e publicada em um espaço de 13 anos e tem como mote principal entender a formação do estado do Rio Grande do Sul e apresentar a identidade do povo gaúcho. É considerada a obra-prima do autor pelos críticos e foi adaptada para a televisão.
MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix, 2005. p. 510.
Como vimos no comentário do crítico literário Massaud Moisés, a trilogia O tempo e o vento é composta dos livros: • O continente: narra o nascimento do estado do Rio Grande do Sul por meio da história das famílias Terra, Carré, Cambará e Amaral.
•
O retrato: narra o retorno de Rodrigo Terra Cambará à sua terra natal, depois de ter estudado Medicina em Porto Alegre. O pano de fundo desse volume é a decadência social da cidade de Santa Fé, causada por interesses políticos.
•
O arquipélago: narra o retorno de Rodrigo Terra Cambará a Santa Fé, após um longo período no Rio de Janeiro, agora tendo como aliado Getúlio Vargas, o que leva a família Cambará ao reconhecimento nacional. Todavia, com o fim da ditadura, Rodrigo se vê politicamente derrotado e adoece.
Toda gente tinha achado estranha a maneira como o cap. Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chinelas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda de Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido: — Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! [...] VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento, parte 1: O continente. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p. 176.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 12
José Lins do Rego nasceu na cidade de Pilar, na Paraíba, especificamente no Engenho Corredor, propriedade de seu avô materno. No ano em que nasceu, sua mãe morreu, e ele passou a ser criado pelos avós maternos, já que seu pai foi viver em outro engenho e pouco visitava o menino. Em 1919, entrou para a Faculdade de Direito do Recife e, no ano de sua formatura, 1923, conheceu o sociólogo e escritor Gilberto Freyre, que o incentivou a desenvolver uma literatura relacionada à cultura local. Em 1926, mudou-se para Maceió, onde conheceu e passou a se relacionar com os modernistas Jorge de Lima, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz, tendo fortalecidos os estímulos a produzir obras com causas regionalistas. Seu primeiro romance, Menino de engenho (1932), inaugurou o chamado ciclo da cana-de-açúcar do autor, do qual fazem parte as obras Doidinho (1933), Banguê (1934), O moleque Ricardo (1935), Usina (1936) e Fogo Morto (1943). Essas narrativas têm em comum o retrato do mundo e dos modos de vida das personagens dos engenhos de cana-de-açúcar no Nordeste, bem como tratam da decadência desse sistema econômico e do autoritarismo dos patrões. Em Menino de Engenho – obra com traços autobiográficos –, José Lins do Rego iniciou o ciclo contando a infância do menino Carlos de Mello, que, assim como o autor, nasceu em um engenho. Aos 4 anos, Carlinhos, que narra a história já adulto, fica órfão quando o pai assassina sua mãe e é levado para viver com os avós no Engenho Santa Rosa. O leitor acompanha sua trajetória de vida, os estudos, o contato com o campo e a substituição dos engenhos de cana por usinas que produzem açúcar em escala industrial. A decadência dos engenhos é retratada por meio do declínio do engenho vizinho ao Santa Rosa.
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
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A ruína do engenho é refletida no declínio físico e mental do proprietário do Santa Fé. O narrador relata a tristeza de ver um engenho em declínio, já que sua própria realidade é contrária: o engenho Santa Rosa ainda caminha bem, e a rotina do lugar encanta o garoto. Em Fogo morto, há o fechamento do ciclo da cana-de-açúcar. Esse romance encerra a saga dos engenhos e se desenrola em um momento em que a decadência da sociedade canavieira já está estabelecida. A obra se estrutura em três partes: • “O mestre José Amaro”: a primeira parte se concentra na figura de José Amaro, um velho fabricante de selas de cavalo que mora com a família nas terras do engenho Santa Fé. O dono do engenho, Lula de Holanda, quer que a família do seleiro vá embora de suas terras, o que gera conflitos entre as personagens. Além disso, são narradas as frustrações de José Amaro com sua profissão e com os problemas familiares.
•
“O engenho de seu Lula”: a segunda parte do romance narra, principalmente, a história do engenho Santa Fé, que viveu momentos de grande prestígio e prosperidade com o primeiro dono, mas acabou declinando nas mãos do herdeiro: Luís César de Holanda Chacon, o seu Lula.
•
“O capitão Vitorino”: a última parte do romance discorre sobre Vitorino, o compadre de José Amaro. Ele é um homem pouco respeitado até por sua esposa e seu compadre, mas representa a figura do herói sonhador, sempre em busca de justiça. A situação dele muda depois que enfrenta um poderoso tenente da região e um famoso cangaceiro. A partir daí, todos passam a considerá-lo um homem de respeito e valente.
Essas personagens representam uma ordem social prestes a desaparecer, e a narrativa aborda aspectos importantes desse processo histórico que gerou não só mudanças econômicas, mas também sociais e culturais.
REGO, José Luís do. Fogo morto. São Paulo: Global, 2021. p. 40
Tamarineira: hospital psiquiátrico localizado no Recife.
É importante notar no trecho anterior o uso do discurso indireto livre. Esse recurso permite que o leitor tenha acesso aos pensamentos das personagens por meio da voz do narrador. Destaca-se na obra o uso de expressões regionais como “engenho de fogo morto”, para se referir aos engenhos que já não produziam mais açúcar, como vimos no fragmento de Menino de engenho.
FRENTE 2
REGO, José Luís do. Menino de engenho. São Paulo: Global, 2020. p. 121.
[...] E não falou mais. Foi para a sua rede, enjeitou a janta, e na escuridão do quarto as coisas começaram a rodar na cabeça. Não haveria um direito para ele? A terra era do senhor de engenho, e ele que se danasse, que fosse com os seus cacos para o inferno. Um ódio de morte tomou-o de repente. Não sentira aquilo no momento em que o coronel lhe falara. Era um maluco, não tinha raiva dele. Mas na escuridão, na rede que rangia nos armadores de corda, tinha raiva, tinha uma vontade de destruição, de matar, de acabar com o outro. As gargalhadas de Marta enchiam a casa. Teria uma filha na Tamarineira. O infeliz daquele negro Floripes pagaria. E sem querer, levantou-se da rede. Abriu a janela do quarto e o céu estrelado pinicava na escuridão da noite. Andou para a porta e pensou em sair um pouco. Lobisomem. Os meninos correram de sua figura, ouviu gente batendo porta por sua causa. Foi até a pitombeira e sentou-se em cima da raiz. O que havia nele para espantar os meninos, para meter medo aos velhos? Todo o ódio ao negro Floripes sumiu-se. Uma onda de frio passou-lhe pelo corpo. O que tinha nele para fazer medo, para fazer correr gente? Lembrou-se da noite da morte da velha Lucinda. Ligou tudo. Correram dele. Lobisomem. Em menino falavam dos que saíam de noite para beber sangue, matar inocentes, correr como bicho danado. E sem saber explicar, o mestre José Amaro examinou-se com pavor. O que havia no seu corpo, nos seus gestos, na sua vida? A filha endoidecera. Mas isto nada tinha que ver com a invenção do povo. Ele não saía de casa, nunca fizera mal a ninguém. E por que seria o monstro que alarmava o povo? [...]
Henry Koster. A sugar mill, 1816. In: Travels in Brazil. Londres: Longman, Hurst, Rees, Orme, and Brown, 1817.
O Santa Fé ficava encravado no engenho do meu avô. As terras do Santa Rosa andavam léguas e léguas de norte a sul. O velho José Paulino tinha este gosto: o de perder a vista nos seus domínios. Gostava de descansar os olhos em horizontes que fossem seus. Tudo o que tinha era para comprar terras e mais terras. Herdara o Santa Rosa pequeno, e fizera dele um reino, rompendo os seus limites pela compra de propriedades anexas. [...] O Santa Fé, porém, resistira a essa sua fome de latifúndios. [...] Não se sentiam, porém, rivais o Santa Fé e o Santa Rosa. Era como se fossem dois irmãos muito amigos, que tivessem recebido de Deus uma proteção de mais ou uma proteção de menos. Coitado do Santa Fé! Já o conheci de fogo morto. E nada é mais triste do que um engenho de fogo morto. Uma desolação de fim de vida, de ruína, que dá à paisagem rural uma melancolia de cemitério abandonado. [...] Ao lado da prosperidade e da riqueza do meu avô, eu vira ruir, até no prestígio de sua autoridade, aquele simpático velhinho que era o coronel Lula de Holanda, com o seu Santa Fé caindo aos pedaços. Todo barbado, como aqueles velhos dos álbuns de retratos antigos, sempre que saía de casa era de cabriolé e de casimira preta. [...]
A Sugar Mill, de Henry Koster, 1816. Travels in Brazil (London, 1816).
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Acervo do Fundo Correio da Manhã/Arquivo Nacional, Rio de Janeiro
Graciliano Ramos (1892-1953)
embora pouco afeito ao pitoresco e ao descritivo, e antes de mais nada preocupado em ser, por intermédio da sua obra, como artista e como homem, termina por nos conduzir discretamente a esferas bastante várias de humanidade, sem se afastar demasiado de certos temas e modos de escrever. [...] CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006. p. 17.
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[...] Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. [...] O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo? Sol, chuva, noites de insônia, cálculos, combinações, violências, perigos — e nem sequer me resta a ilusão de ter realizado obra proveitosa. [...]
Suas obras abordaram tanto aqueles que abandonaram o sertão em busca de uma vida diferente, longe da miséria, quanto aqueles que permaneceram lá, lutando com a aridez do espaço. Mas, antes de explorar alguns de seus romances, vamos conhecer melhor o autor. Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas. O primeiro de 16 filhos que seus pais tiveram. Dois anos depois de seu nascimento, a família se mudou para uma fazenda no sertão de Pernambuco, onde o escritor testemunhou a miséria, a passagem de grupos de imigrantes fugindo da seca e da fome e a paisagem composta de animais e vegetação mortos. Aos 13 anos, partiu para Maceió com o intuito de estudar. No ano seguinte, colaborou com o jornal carioca O malho, publicando alguns sonetos. Três anos depois, começou a colaborar regularmente com o Jornal de Alagoas. Em 1914, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como revisor em vários jornais. Seu retorno para Alagoas aconteceu às pressas, depois que três irmãos e um sobrinho morreram em decorrência da peste bubônica.
RAMOS. Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1995. p. 184-185.
As obras de 1930, em especial as do ciclo regionalista, revelaram muitos talentos, como vimos anteriormente. Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Erico Verissimo e José Lins do Rego destacaram-se com obras que ainda hoje são relevantes na história da Literatura brasileira. O nome de maior expressão desse período, porém, é Graciliano Ramos, autor de uma linguagem direta, estilo seco, conciso e econômico nos adjetivos, como vimos no trecho reproduzido. Graciliano Ramos soube como equilibrar a profunda investigação dos problemas sociais e a análise psicológica de suas personagens, criando uma prosa que combinou com maestria o regionalismo com o intimismo. Sobre a obra de Ramos, o crítico literário Antonio Candido afirmou: Para ler Graciliano Ramos, talvez convenha ao leitor aparelhar-se do espírito de jornada, dispondo-se a uma experiência que se desdobra em etapas e, principiada na narração de costumes, termina pela confissão das mais vívidas emoções pessoais. Com isto, percorre o sertão, a mata, a fazenda, a vila, a cidade, a casa, a prisão, vendo fazendeiros e vaqueiros, empregados e funcionários, políticos e vagabundos, pelos quais passa o romancista, progredindo no sentido de integrar o que observa ao seu modo peculiar de julgar e de sentir. De tal forma que,
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 12
Estátua em homenagem a Graciliano Ramos, Maceió, Alagoas.
Continuou sua carreira jornalística, mas também enveredou na política e, em 1927, foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios, exercendo um mandato reconhecido pela correção política, pela inteligência e pela honestidade. Seus relatórios ao governador do estado chamaram a atenção de um editor que o procurou para saber se não teria interesse em escrever literatura. Nesse momento, Graciliano Ramos já estava compondo seu primeiro romance, Caetés, publicado por Augusto Frederico Schimidt em 1933. Esse foi apenas o início de uma importante carreira literária.
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
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FENSKE, Elfi Kürten. Graciliano Ramos: memória e a geografia do drama humano. Templo Cultural Delfos, 2016. Disponível em: http://www.elfikurten.com.br/2013/07/graciliano-ramos.html. Acesso em: 7 nov. 2023.
Antonio Candido e Alfredo Bosi opinaram que esse primeiro romance serviu de exercício literário a Graciliano Ramos, que começou a sedimentar a forma e a linguagem que marcaram sua prosa. Caetés se destacou pela escrita cuidadosa, e podemos observar, segundo Antonio Candido, “as melhores receitas da ficção realista tradicional, quer na estrutura literária, quer na concepção da vida”. O autor fez amizade com escritores do regionalismo brasileiro, como José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Jorge Amado. Nesse período, escreveu São Bernardo (1934) e Angústia (1936). Também foi acusado de subversão, perseguido e preso. Cumpriu sua pena no Rio de Janeiro, onde foi submetido a violência física e moral, experiência relatada na obra póstuma Memórias do cárcere (1953).
Saiba mais Memórias do cárcere é uma obra de valor histórico, pois relata um período crítico da história do Brasil. A leitura dessa obra é um convite à reflexão acerca de justiça e crítica social, além do autoritarismo e do cerceamento da liberdade, já que Graciliano Ramos foi preso sem motivo aparente.
Depois de solto, Ramos foi viver em um quarto de pensão no Rio de Janeiro, com seus filhos e sua segunda esposa – a primeira esposa morreu no parto do quarto filho. O escritor, que já havia sido prefeito de Palmeiras dos Índios, colaborado com diversos jornais e publicado três romances, teve sua vida desfeita por uma prisão arbitrária. Seus planos de escrever um novo romance foram adiados pela falta de dinheiro. Vidas secas (1938) foi publicado somente em 1938, depois que o autor escreveu alguns contos que reuniu para formar essa que é, possivelmente, sua obra mais conhecida. A seguir, vamos analisar três grandes obras de Graciliano Ramos mais detalhadamente.
Atenção A obra de Graciliano Ramos é marcada por um estilo seco, conciso e econômico nos adjetivos. O autor priorizou a objetividade e a clareza em sua narrativa. Seu engajamento é observado na crítica e na denúncia de todo tipo de injustiça e opressão econômica, social e política. A análise psicológica que fez de suas personagens não se limitou ao regional e estimulou uma reflexão acerca dos caminhos da sociedade moderna e das relações por ela engendrada que criam desigualdade social.
São Bernardo [...] Amanheci um dia pensando em casar. Foi uma ideia que me veio sem que nenhum rabo de saia a provocasse. Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar. [...] Não me sentia, pois, inclinado para nenhuma: o que sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de S. Bernardo. [...] RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009. p. 57.
O segundo romance de Graciliano Ramos, São Bernardo, foi publicado em 1934. A obra é narrada em primeira pessoa e apresenta as memórias do narrador-protagonista Paulo Honório, proprietário da fazenda São Bernardo, localizada no município de Viçosa, Alagoas. Já nas primeiras linhas do romance, Paulo Honório expõe seu desejo de escrever um livro e os arranjos que fez com alguns colaboradores que acabaram não dando certo. Sem desistir de seu plano, Paulo Honório se dedica a escrever sozinho e passa a contar sua vida. Ele narra sua infância, conta que não conheceu seus pais e que viveu sozinho e na miséria. Por meio de muito trabalho e alguns negócios desonestos, Paulo Honório consegue se apropriar da fazenda São Bernardo. Nesse lugar, onde o trabalho dele foi muitas vezes explorado e ele oprimido, passa a ser o novo explorador e opressor. O motivo que o leva a buscar o casamento é somente gerar um herdeiro para a fazenda que ele conquistou. Madalena, uma professora de hábitos urbanos, conhece Paulo Honório quando ele a convida para lecionar em São Bernardo. Em seguida, propõe o casamento, o que acaba gerando uma mudança na fazenda onde ele atua com impiedade e rigidez. Madalena e sua tia, d. Glória, entram em contato com as pessoas que vivem e trabalham na fazenda, tomando ciência da situação miserável em que vivem, e tentam imprimir uma organização mais humanizada no lugar. Todavia, a violência que norteia as relações de Paulo Honório acaba por confrontar o jeito de ser da esposa, que, mesmo lhe dando um herdeiro, passa a ser controlada por ele por causa do ciúme que sente dela e das relações que ela constrói em São Bernardo. Paulo Honório demonstra uma crescente paranoia, humilhando a esposa, atormentando-a com acusações de adultério, rejeitando o filho, sentindo-se ameaçado e julgando que está perdendo seu poder como latifundiário. Seu comportamento acaba levando a esposa ao suicídio e, em seguida, à sua própria decadência social e política. Ele
FRENTE 2
[...] Ramos estreia na literatura com Caetés, romance concebido ainda dentro dos padrões da ficção realista do século XIX, revelando a influência do escritor português Eça de Queirós na descrição das cenas e na caracterização dos personagens. O enredo gira em torno do envolvimento amoroso de João Valério, guarda-livros com pretensões literárias, e Luísa, esposa do patrão. Em paralelo a essa história, desenvolve-se outra. Ramos emprega a estratégia do romance dentro do romance, pois João Valério ocupa-se de escrever um romance histórico sobre o martírio do bispo Sardinha, devorado pelos índios caetés. Ambas as histórias, a dada altura, acabam por se imbricar, na medida em que o protagonista reconhece trazer em si um eu primário adormecido e reprimido, metaforicamente equiparado a um caeté recôndito: “Que sou eu”, diz ele, “senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora?”. E, de fato, um traço marcante da ficção do escritor alagoano é essa investigação progressiva do eu subjacente à imagem social. [...]
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acaba sozinho e abandonado por seus amigos e aliados, e passa a refletir sobre suas atitudes e os enganos que cometeu, enquanto escreve suas memórias. [...] As janelas estão fechadas. Meia-noite. Nenhum rumor na casa deserta. Levanto-me, procuro uma vela, que a luz vai apagar-se. Não tenho sono. Deitar-me, rolar no colchão até a madrugada, é uma tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo isto. Amanhã não terei com que me entreter. Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-a. Sinto um arrepio. A lembrança de Madalena persegue-me. Diligencio afastá-la e caminho em redor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me firo com a unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue. De longe em longe sento-me fatigado e escrevo uma linha. Digo em voz baixa: — Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente. A agitação diminui. — Estraguei a minha vida estupidamente. Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige. [...] RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1995. p. 188.
É importante destacar que a personagem Paulo Honório é um homem criado dentro de um sistema capitalista e de competição. Ele é movido pela ambição e pela ideia de que a posse material é o que pode garantir uma posição na sociedade, o que reflete em suas relações a violência e o autoritarismo. Graciliano Ramos traçou o perfil de um homem rude, egoísta e ambicioso que, envolvido no jogo de poder, não é capaz de abrir espaço para relações humanas de amizade e amor. A consequência disso é a solidão.
Angústia Publicado em 1936, Angústia é o terceiro romance de Graciliano Ramos e conquistou o público e a crítica. A narrativa em primeira pessoa conta a história de Luís da Silva, um funcionário público, tímido e solitário que vive em uma casa velha em um bairro pobre. Depois de passar meses doente e convalescendo na cama, decide escrever suas memórias. Seu relato surge de lembranças confusas e cheias de angústia. Ele compartilha com o leitor momentos de sua infância vivida na fazenda do avô. Após a morte dele, o menino se muda com o pai para uma vila nas proximidades da fazenda e passa a frequentar a escola. Acaba perdendo também o pai, mas, com a ajuda de algumas pessoas, ingressa no Exército, termina seus estudos e começa a colaborar com alguns jornais em traduções e revisões. Passa por momentos de privação, vivendo nas ruas e pedindo esmolas, porém acaba conseguindo uma posição como funcionário público. A vida de Luís da Silva se passa tranquilamente, até que conhece Marina, uma moça pobre que logo se torna sua amiga. Pouco tempo depois, ele a pede em casamento e, percebendo que a moça não se contentaria com um
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casamento pobre, passa a se envolver em dívidas para satisfazer os desejos da noiva. Enquanto Luís da Silva contraía dívidas, Marina aproveitava a companhia de Julião Tavares, de quem acaba engravidando. Ao descobrir o que ocorreu, Luís da Silva decide se vingar de Julião Tavares e, em uma briga, mata seu rival. Volta para casa após o ocorrido, bebe até adormecer e entra em uma espécie de coma. [...] Tudo nesse romance sufocante lembra o adjetivo “degradado” que se opõe ao universo do herói problemático. A existência de Luís da Silva arrasta-se na recusa e na análise impotente da miséria moral do seu mundo e, não tendo outra saída, resolve-se pelo crime e pela autodestruição. O livro avança com a rapidez do objeto que cai: sempre mais velozmente e pesadamente rumo à morte e ao nada. [...] BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006. p. 403.
Com base no comentário de Alfredo Bosi, podemos concluir que Ramos criou uma narrativa vertiginosa que mergulha o leitor no monólogo interior da personagem, atormentada por um sentimento de autonegação e nojo em relação ao mundo em que vive, mas também de si mesmo. O fervilhar de seus pensamentos acaba sendo um contraponto à vida monótona e inerte que leva como funcionário público. O fracasso da personagem não é apenas social e econômico, mas também afetivo e relacional. Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios. [...] Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que emagreceram. As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das palmas cicatrizaram. Impossível trabalhar. Dão-me um ofício, um relatório, para datilografar, na repartição. Até dez linhas vou bem. Daí em diante a cara balofa de Julião Tavares aparece em cima do original, e os meus dedos encontram no teclado uma resistência mole de carne gorda. [...] Em duas horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisas absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. [...] RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2020. p. 8.
Vidas secas Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. Arrastaram-se para lá, devagar, sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás. [...] RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2020. p. 8
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[...] Originado de um (ou alguns) conto(s), o romance preserva, em sua estruturação, as marcas de origem: são 13 capítulos marcados por certa autonomia, “verdadeiros casulos de vida isolada”. Como quadros justapostos, os capítulos tendem a focalizar os personagens separadamente [...]. Essa tomada parcial de cada personagem acentua a condição de vida isolada, encasulada no seu próprio cismar. Não há interação entre eles, visto que lhes falta o essencial: a palavra. Fabiano, sua mulher e filhos são seres espoliados não só de casa e comida, mas também de linguagem, pois, fiéis ao clima da seca, fazem uso de uma fala truncada e de alguns sons guturais. Para suprir essa fala minguada, a impossibilidade de comunicação e expressão, Ramos recorre a um narrador extremamente onisciente, que sabe e diz tudo o que se passa dentro e fora da cabeça dos personagens, inclusive da cachorrinha Baleia [...]. FENSKE, Elfi Kürten. Graciliano Ramos: memória e a geografia do drama humano. Templo Cultural Delfos, 2016. Disponível em: http://www. elfikurten.com.br/2013/07/graciliano-ramos.html. Acesso em: 7 nov. 2023.
Como lemos no fragmento, a estrutura do romance demandou o uso de um narrador na terceira pessoa, o único na obra de Graciliano Ramos. Outra estratégia narrativa essencial na composição é a onisciência seletiva múltipla. [...] O que predomina no caso da onisciência múltipla, como no caso da onisciência seletiva que vem logo a seguir, é o discurso indireto livre, enquanto na onisciência neutra o predomínio é do estilo indireto. Os canais de informação e os ângulos de visão podem ser vários, neste caso. Um bom exemplo é Vidas secas, de Graciliano Ramos, que começa com Fabiano e sua família (mulher, dois filhos e uma cachorra), fugindo da seca do Nordeste, em busca de uma terra menos inóspita. Depois de uma longa caminhada, sob o sol escaldante, encontram uma fazenda para trabalhar, e, a partir daí, o romance passa a enfocar sucessivamente cada personagem, dedicando-lhes alternadamente os capítulos em que nos são transmitidos seus pensamentos e sentimentos. Sonhos, frustrações, medos e lembranças aparecerem de forma um tanto fragmentária, através do indireto livre. LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 2007. p. 47-48. (Série Princípios).
É importante notar que a obra vai além de apresentar ou denunciar a seca no Nordeste; ela discorre sobre a secura da vida dos sertanejos, marcada pela profunda opressão das relações de poder. Graciliano Ramos apresentou um romance sobre sujeitos complexos que foram usados como peças de um sistema econômico e social
pautado na humilhação, na exploração e na enganação de seres humanos. As personagens têm dificuldade de se expressar, de conversar e, consequentemente, de se relacionar e compreender o mundo à sua volta, o que as deixa vulneráveis à exploração dos patrões. Em certos momentos, aproximam-se da animalização, e a comparação entre as personagens e animais pode ser observada na narrativa. Na contramão, temos a cachorra Baleia, que, ao contrário dos filhos de Fabiano e sinhá Vitória, é identificada por um nome e humanizada pelo narrador, que apresenta as ações e os sonhos da cachorra como se fossem de uma pessoa. A capacidade de sonhar é o que humaniza essas personagens, suas aspirações remetem aos direitos básicos de qualquer cidadão: comida, trabalho, moradia, educação. A família de Fabiano pode ser entendida como representação dos diversos grupos de retirantes nordestinos que compartilham uma história semelhante.
Atenção A temática social ganhou relevo nas conturbadas décadas de 1930 e 1940. As obras regionalistas da segunda fase modernista destacam-se por abordar, principalmente, os problemas sociais do Nordeste do Brasil com enfoque na condição humana, aprofundando a análise psicológica das personagens.
Geração de 1945 — Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo, desânimos, esforços. Dela me prezo, sem vangloriar-me. Surpreendo-me, porém, um tanto à-parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha ideia do que seja na verdade — um espelho? Demais, decerto, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da óptica. Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo. [...] ROSA, João Guimarães. O espelho. In: Primeiras estórias. São Paulo: Global, 2019. p. 94.
Um pouco de história O ano de 1945 é lembrado por marcar o fim da Segunda Guerra Mundial. Aqui no Brasil esse ano marcou o fim do primeiro governo Vargas. No mundo, iniciou-se um período de Guerra Fria e, no Brasil, um período democrático de grande desenvolvimento, tendo como ponto alto o governo de Juscelino Kubitschek. Em 1960, Jânio Quadros sucedeu a Kubitschek, mas permaneceu no cargo por apenas dois anos, assumindo o posto o vice João Goulart. Em 1964, Goulart acabou desagradando a direita política com suas ideias sobre reforma agrária e urbana, direito ao voto para população analfabeta e mudanças fiscais. Em março daquele mesmo ano, aconteceu o golpe que deu início aos 20 anos de ditadura militar.
FRENTE 2
Vidas secas, publicado em 1938, é considerado a obra-prima do regionalismo nordestino. O romance narra a história de uma família que foge da seca do sertão. O núcleo familiar é formado pelo pai, Fabiano; pela mãe, sinhá Vitória; dois meninos, denominados apenas como menino mais velho e menino mais novo; e a cachorra Baleia. Em suas andanças pelo sertão, a família chega a uma fazenda abandonada, mas, com a chegada das chuvas, o dono da propriedade retorna, e Fabiano é submetido às ordens dele, sendo contratado como vaqueiro. Durante o tempo em que vivem na fazenda, são explorados nos serviços que prestam, testemunham a violência do patrão e sofrem humilhações cotidianas, até que a seca retorna, e a família volta a perambular pelo Sertão nordestino.
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Comemoração pelo fim da Segunda Guerra Mundial em Paris, França.
Saiba mais Guerra Fria foi um período de tensão política entre a antiga União Soviética e os Estados Unidos, que teve início pouco tempo após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e continuou até o fim da União Soviética, em 1991.
Contexto literário Depois de 1945, a literatura brasileira passou a enveredar diferentes caminhos. Não é possível delinear um projeto comum que una os diferentes escritores que atua ram e ainda atuam no cenário literário brasileiro. Apesar de, didaticamente, o período pós-1945 ser classificado como neomodernismo, não existe uma escola literária. Cada autor segue por um caminho singular, o que, inclusive, pode ser entendido como reflexo da solidão do homem moderno, que se tornou cada vez mais encerrado em seu mundo. O estilo individual tem se sobressaído ao estilo de época, ou seja, é difícil definir características ou tendências gerais desse período. Todavia, podemos observar índices marcantes de análise psicológica, tensão social e regionalismo tanto no conto quanto na prosa da segunda metade do século XX. É importante frisar que tais categorias têm função didática e não devem ser encaradas com rigidez, antes é preciso se debruçar na peculiaridade de cada autor. A análise psicológica e a tensão social podem ser observadas na obra de autores como Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Hilda Hilst, Osman Lins, Raduan Nassar e Clarice Lispector. Já o regionalismo, que, como vimos, desde o Romantismo inspirou autores brasileiros, atravessou todo o século XX, por meio da obra de autores como João Ubaldo Ribeiro e Guimarães Rosa, e, com este último, a prosa regionalista ganhou um novo patamar de originalidade.
Guimarães Rosa (1908-1967) Nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, Guimarães Rosa demonstrou cedo sua inclinação para os estudos. Ainda na infância, lia em francês, era frequentador assíduo da biblioteca, demonstrava interesse também por insetos e História Natural e tinha facilidade em aprender. Autodidata, estudava os mais variados assuntos.
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Capítulo 12
Cursou Medicina e trabalhou como médico em algumas cidades do interior de Minas Gerais, também foi médico voluntário durante a Revolução de 1932. Prestou concurso para seguir carreira diplomática e, em 1938, foi nomeado cônsul em Hamburgo, Alemanha. Em 1942, em razão do rompimento de relações diplomáticas do Brasil com a Alemanha, Guimarães Rosa e outros funcionários da embaixada foram feitos reféns. Foi necessário negociar a libertação de diplomatas alemães detidos no Brasil em troca da soltura dos brasileiros.
Estabelecendo relações A segunda esposa de Guimarães Rosa, que ele conheceu na embaixada, teve papel importante durante a Segunda Guerra Mundial. Contrariando o posicionamento do governo de Getúlio Vargas, que naquele momento apoiava Adolph Hitler, Aracy Moebius de Carvalho ajudou muitos judeus a escapar do cerco nazista. Em 1937, o governo brasileiro emitiu a Circular Secreta 1127, documento que restringia a entrada de judeus no país, o que tornou a atitude de Aracy muito perigosa, passível de condenação por traição. Nessa época, Guimarães Rosa foi transferido para a embaixada de Hamburgo, onde sua esposa trabalhava, e há indícios de que a auxiliou na missão de ajudar judeus a entrar no Brasil.
Em 1937, ganhou dois concursos literários, o primeiro com um volume de poesia intitulado Magma, publicado postumamente, em 1997; e o segundo com Sagarana, uma coletânea com nove narrativas que publicou em 1946. Nessa obra, encontramos textos importantes do autor, como “A hora e a vez de Augusto Matraga” e “O burrinho Pedrês”. Já em 1956, publicou Corpo de baile, um livro de novelas que, posteriormente, foi dividido em três volumes: Manuelzão e Miguilin; No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do sertão. Nessa obra, encontramos as novelas “Campo geral”, “A estória de Lélio e Lina” e “Buriti”. O único romance de Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas, foi publicado em 1956 e se tornou uma das obras mais importantes da literatura brasileira pela originalidade de sua linguagem. O autor publicou ainda Primeiras estórias (1962), Tutameia (1967) e Estas estórias (1969). Em 1963, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, mas adiou a posse por quatro anos, por causa de um pressentimento de que
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seguir são do conto “A terceira margem do rio”, do livro Primeiras estórias. Observe no destaque do primeiro trecho um exemplo de gradação e, no destaque do segundo, um exemplo de reiteração.
morreria tão logo assumisse a cadeira. A posse só aconteceu em novembro de 1967 e, por coincidência ou destino, Guimarães Rosa morreu três dias depois.
O destaque de Guimarães Rosa na geração de 1945 e na literatura brasileira se deve à forma singular e inventiva com que trabalhava a linguagem. Seu modo de escrever e criar palavras transformou e renovou o uso da língua. O autor era poliglota, aprendeu sozinho alemão e russo e falava francês desde a infância, o que nos permite imaginar a profundidade de sua elaboração linguística e sua habilidade com as palavras e a linguagem. Para exprimir seu pensamento, Guimarães Rosa teve de forjar uma língua que é só dele. O leitor que aborda pela primeira vez um de seus livros, sobretudo a partir de Corpo de baile, fica desconcertado com a obscuridade dessa língua. Mas ao mesmo tempo é subjugado, e enfeitiçado por essa maneira inteiramente nova de dizer as coisas, E pouco a pouco tudo começa a adquirir um sentido, um sentido múltiplo, ambíguo, numa palavra, poético. Tal língua é o português brasileiro, em que encontramos o falar regional de Minas Gerais, o português clássico, alusões às múltiplas línguas estrangeiras que o autor conhecia e lembranças das suas imensas leituras. Seu vocabulário é inteiramente renovado pela prática sistemática do neologismo. Todos os recursos da fonética são explorados. [...] Mas está claro que essa renovação linguística [...] prende-se diretamente à dominante “poética” da obra [...]. TEYSSIER, Paul. Dicionário de literatura brasileira. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 59-60.
Como lemos no fragmento de Paul Teyssier, a inventividade da linguagem de Guimarães Rosa surgiu da mistura de vários componentes. A seguir, destacamos alguns deles.
•
Falar regional: sua vivência como médico de cidades mineiras interioranas e sua experiência como vaqueiro – em uma viagem de nove dias pelo sertão conduzindo uma boiada – aproximaram o autor do falar característico dos sertanejos, servindo de base para sua linguagem. Podemos observar também a inserção de ditos e expressões populares em toda a sua obra. Observe essa característica no trecho a seguir.
[...] Cheguei na sala, e dei com outros três homens. Disseram de si que tropeiros eram, e estavam assim vestidos e parecidos. Mas o Malinácio começou a glosar e reproduzir minha conversa tida com ele – disso desgostei, segredos frescos contados não são para todos. E o arrieiro dono da tropa – que era o de cara redonda e pra clara – me fez muita interrogação. Não estive em boas cócoras. Construí de desconfiar. Não do fato d’ele tal encarecer – pois todo tropeiro sempre muito pergunta; mas do jeito como os outros dois ajudavam aquele a me ver, de tudo perseverado tomando conta. Ele queria saber para onde eu mesmo me ia além. [...] ROSA. João Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo: Nova Aguilar, 1994. p. 187-188.
•
Uso de recursos poéticos: sabemos que a poesia não se restringe ao poema; assim, mesmo escrevendo em prosa, Guimarães Rosa lançou mão de recursos como a aliteração, a gradação, a reiteração, o ritmo e a rima, comuns na produção de poemas. Os fragmentos a
[...] Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. [...] ROSA, João Guimarães. A terceira margem do rio. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. p. 66.
[...] Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água, que não para, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio. ROSA, João Guimarães. A terceira margem do rio. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. p. 70.
•
Neologismos: outra forte característica do autor é a “invenção” de palavras, ou seja, o neologismo. Na obra de Guimarães Rosa esse processo acontece por meio de composição, derivação, adaptação de termos estrangeiros e pela atribuição de novos sentidos por meio do contexto. Nos fragmentos a seguir, observe exemplos de neologismo por composição, por derivação e por atribuição de novo sentido (o verbo ganha novo sentido).
[...] Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. [...] ROSA, João Guimarães. Famigerado. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. p. 51.
[...] Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: — “Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição…” — e eles prestes se partiram. [...] ROSA, João Guimarães. Famigerado. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. p. 53.
[...] Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu. Um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. [...] ROSA, João Guimarães. A terceira margem do rio. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. p. 66.
•
Aforismos: um aforismo é uma frase que expressa conceitos, definições ou um princípio moral. O aforismo soa como uma máxima, uma verdade incontornável.
FRENTE 2
A inventividade da linguagem
Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo. ROSA, João Guimarães. O espelho. In: Primeiras estórias. São Paulo: Global, 2019. p. 94.
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[...] a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. [...] ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. p. 184.
Esperar é reconhecer-se incompleto. ROSA, João Guimarães. Desenredo. In: Tutameia. São Paulo: Global, 2021. p. 48.
Essas são algumas das estratégias inventivas recorrentes na linguagem da obra de Guimarães Rosa. O autor também se destacou por transformar o conceito de regionalismo, já que o foco de sua obra era se aprofundar nos aspectos mais comuns à experiência humana. [...] O sertanejo não é simplesmente o ser humano rústico que povoa essa grande região do Brasil. Seu conceito é ampliado: ele é o próprio ser humano, que convive com problemas de ordem universal e eterna. Problemas que qualquer homem, em qualquer região, enfrentaria. É o eterno conflito entre o ser humano e o destino que o espera, a luta sem tréguas entre o bem e o mal dentro de cada um, Deus e o diabo, a morte que nos despedaça, e o amor que nos reconstrói, num clima muitas vezes mítico, mágico e obscuro, porém muitas vezes contrastando com a rusticidade da realidade. [...] GUIMARÃES Rosa. Panorama da literatura brasileira, [s.d.]. Disponível em: http://www.nilc.icmc.usp.br/nilc/literatura/guimar.esrosa.htm. Acesso em: 7 nov. 2023.
Guimarães Rosa escreveu muitos contos e novelas e apenas um romance. Apesar de sua obra estar enraizada na região do sertão de Minas Gerais e nas pessoas que ali vivem – sertanejos, crianças, vaqueiros, matutos etc. –, Rosa priorizou em seus livros questões universais que dizem respeito a todo ser humano, de qualquer região. É isso que torna sua obra universal e bem-aceita não somente no Brasil, mas no mundo.
Atenção A inventividade da linguagem em Guimarães Rosa é uma forte característica. Podemos observar que, por meio do uso da fala regional, de recursos poéticos, de neologismos e de aforismos, ele dá origem a uma linguagem singular e poética.
Grande sertão: veredas — a construção de si por meio da linguagem Reprodução
A luta entre o bem e o mal é constante na obra de Guimarães Rosa, o que fica ainda mais evidente em Grande sertão: veredas, romance publicado em 1956 e uma das narrativas mais importantes da literatura brasileira. A originalidade da obra, que é ao mesmo tempo um diálogo e um monólogo da vida do ex-jagunço Riobaldo relatado a um doutor que usa óculos, apresenta dimensão grandiosa, seja do ponto de vista da extensão, seja do trabalho com a linguagem. O aspecto inovador, no entanto, vai muito além do experimentalismo, já que o protagonista apresenta discussões filosóficas que permeiam as relações humanas, tais como a origem do homem, a experiência da descoberta do amor, a existência de Deus e do diabo, a dualidade presente em diversos aspectos da existência etc. Além disso, o protagonista configura-se como uma espécie de armadilha articulada por Guimarães Rosa, uma vez que esse jagunço letrado é quase impenetrável para os homens ditos sábios. O autor estabelece um jogo no qual, diante do leitor sabido, descortina-se um jagunço letrado, professor de meninos no sertão, que faz um pacto com o diabo. Nesse jogo, os papéis são invertidos, sendo o leitor homem letrado obrigado a mergulhar no sertão de Riobaldo em busca de melhor compreender a sua travessia. [...] O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso... Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 21. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. p. 21.
A confusão da narrativa de Riobaldo, ao longo de Grande sertão: veredas, ganha corpo com a colaboração do compadre Quelemém. A história toma forma mediante o plano psicológico sempre pelo caminho da duplicidade, uma vez que o sertão é árido e seco, mas suas veredas – pequenos rios profundos – guardam o mistério que os olhos não conseguem ver. Essa duplicidade está na estrutura de monólogo que se baseia em um diálogo, na figura do doutor que ouve o sertanejo, na própria busca de Riobaldo de entender sua história e construí-la à medida que a vai narrando. Logo, ele resgata a palavra, dando nome ao que viveu, corroborando os fatos de que o ser humano existe porque existe a linguagem e de que essa existência – estar vivo – é um risco constante.
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Capítulo 12
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
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O senhor não acha? Me declare, franco, peço. Ah, lhe agradeço. Se vê que o senhor sabe muito, em ideia firme, além de ter carta de doutor. Lhe agradeço, por tanto. Sua companhia me dá altos prazeres. Em termos, gostava que morasse aqui, ou perto, era uma ajuda. Aqui não se tem convívio que instruir. Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso... ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 21. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. p. 33.
Esse aspecto metalinguístico do romance de Guimarães Rosa é uma evidência de que a própria linguagem é um sertão a ser atravessado, por isso mesmo é que o sertão rosiano está para além do aspecto geográfico ou físico, “o sertão é do tamanho do mundo”, é a própria vida com todos os seus descuidos prosseguidos. O título de forma dupla apresenta o elemento externo – sertão – e o interno – veredas –, o que induz o leitor a compreender esse aspecto universalista em Rosa, chamado pelo crítico literário Antonio Candido de “transregionalismo” ou “surregionalismo”. O pitoresco da linguagem, o arcaísmo, o tema caipira, o tema regional, o tema jagunço, o tema caboclo, isso já era uma coisa muito sovada, muito gasta. Praticamente considerava-se que a literatura brasileira já tinha saído disso. E no momento em que a crítica pensava mais ou menos isso surge um homem que, fechado hermeticamente dentro do universo do sertão, com uma exuberância verbal extraordinária, com aquilo que era considerado ruim da tradição brasileira que é a exuberância da linguagem, com aquilo que era considerado ruim que era o regionalismo com aquilo que era considerado perigoso que era o pitoresco, parte de tudo isso e consegue fazer uma coisa inteiramente nova, consegue fazer uma ficção de tipo realmente universal, com todos os grandes problemas do homem. [...] Ele faz um tipo de livro que supera o regionalismo através do regionalismo. Esse, do ponto de vista da composição literária, a meu ver, é um paradoxo supremo. Tanto assim que me senti obrigado a criar uma nova categoria que é o transregionalismo ou surregionalismo. CALLADO, Antonio et al. Depoimentos sobre João Guimarães Rosa e sua obra. [S.l: s.n.], 2011. p. 27.
A relação do narrador-personagem com o leitor é de significativa proximidade, uma vez que não se sabe quem é o interlocutor com quem Riobaldo conversa. Nesse sentido, notamos que a perspectiva do narrador, ou seja, o foco narrativo, toma toda a liberdade de contar sua história de dentro dela, o que valida a grandeza do texto literário atrelado ao modo que se narra em sobreposição ao fato narrado. Riobaldo rememora seu passado, abordando seu primeiro contato com o menino corajoso chamado Reinaldo, filho de Joca Ramiro, chefe de um grupo de jagunços. O período de lembranças retoma os estudos, o tempo como professor de Zé Rebelo e seu ingresso na jagunçagem, sendo batizado de Tatarana e, posteriormente, ao fazer um pacto com o diabo, de Urutu-Branco. Na sua reaproximação de Reinaldo, alguns segredos são revelados, como o verdadeiro nome do amigo, Diadorim, por quem Riobaldo passa a nutrir grande amor. No entanto, o período experenciado entre duas guerras no sertão escondem outros segredos que, tal como as veredas, apresentam profundidade e complexidade. A relação de Riobaldo e Reinaldo-Diadorim se inicia quando se conhecem às margens do rio São Francisco, o que se torna, no romance, o eixo gravitacional, direcionando Riobaldo para todas as belezas secretas do sertão, bem como sua violência – em uma ambivalência constante e bem marcada na narrativa. Nesse sentido, Diadorim é a mola propulsora do narrador para dois polos opostos, e Riobaldo torna-se chefe do grupo de jagunços, como resultado do pacto feito com o diabo, e vive a experiência da beleza mediante o amor por Diadorim. Diadorim, paradoxalmente, é o nada e o tudo na travessia do jagunço entre “nonada” e o infinito. Seu nome se inicia com dia, termo originado do grego que remete a “através”, ou seja, associa-se à travessia. As mesmas letras também iniciam o nome do Diabo, com quem Riobaldo estabelece um acordo, ainda que não se confirme a sua existência. Riobaldo mergulha na sublimação pela paixão, que ganha forma ambígua à medida que narra a sua história. — Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.
A narrativa disposta entre um travessão – que introduz a palavra “nonada”, ou seja, nada – e o símbolo do infinito disposto na última página é um convite ao leitor para transpor o próprio sertão, aquele que vive dentro da gente. Atravessar o sertão dessa grandiosa obra requer coragem para enfrentar a aridez e as veredas que existem no âmago humano. Ao trabalhar com destreza a fala particular do sertanejo para explorar dilemas universais, Rosa construiu um romance definido pelo crítico Alfredo Bosi como uma “obra espantosa”, tamanha sua potência no que tange à linguagem e ao sentir. Bosi, sobre essa narrativa, ainda pontua: É verdade que a interpretação da obra fundamental de Rosa está ainda em aberto. Riobaldo, o protagonista de Grande Sertão, é um homem que busca, no vaivém das suas memórias e reflexões, negar a existência real do demônio (“o que-não-há”) com quem fez pacto quando se propôs vencer o jagunço Hermógenes. E parece concluir que o Mal é atributo do ser, um acidente que vicia o coração dos homens, uma fatalidade que se deve enfrentar com paciência e vida justa.
FRENTE 2
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 7.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2021. p. 461.
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Revisando Leia o trecho a seguir para responder às questões de 1 a 3.
terra gaúcha, à sua religião e a seus costumes, de provérbios, lendas e relatos históricos [...].
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[...] E depois de arriar as trouxas e aliviar a burra, reparou nos vizinhos. A rês estava quase esfolada. A cabeça inchada não tinha chifres. Só dois ocos podres, malcheirosos, donde escorria uma água purulenta. Encostando-se ao tronco, Chico Bento se dirigiu aos esfoladores: — De que morreu essa novilha, se não é da minha conta? Um dos homens levantou-se, com a faca escorrendo sangue, as mãos tintas de vermelho, um fartum sangrento envolvendo-o todo: — De mal dos chifres. Nós já achamos ela doente. E vamos aproveitar, mode não dar para os urubus. Chico Bento cuspiu longe, enojado: — E vosmecês têm coragem de comer isso? Me ripuna só de olhar... O outro explicou calmamente: — Faz dois dias que a gente não bota um de-comer de panela na boca... Chico Bento alargou os braços, num gesto de fraternidade: — Por isso não! Aí nas cargas eu tenho um resto de criação salgada que dá para nós. Rebolem essa porqueira pros urubus, que já é deles! Eu vou lá deixar um cristão comer bicho podre de mal, tendo um bocado no meu surrão! Realmente a vaca já fedia, por causa da doença. [...] QUEIROZ, Rachel de. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012. p. 35.
1. O romance O quinze, de Rachel de Queiroz, faz parte da segunda fase do Modernismo brasileiro. Quais características desse período podemos observar no trecho? Justifique sua resposta.
001598_por_f2_c12_q0002discursiva 001598_por_f2_c12_t0001002447_por_f2_c12_t0001
2. Como é possível relacionar o texto com a obra Retirantes, de Candido Portinari, que abre este capítulo?
001598_por_f2_c12_q0003objetiva 001598_por_f2_c12_t0001
3. Considerando o fragmento lido, assinale V (verdadeiro) ou F (falso) para as afirmativas a seguir. A narrativa é ligada às propostas de denúncia social dos regionalistas da prosa de 1930. Apesar de ter sido publicada na década de 1930, o romance está mais fortemente ligado à estética pré-modernista. O romance tem um discurso moralizante e destaca o sofrimento da família de Chico Bento, segundo valores cristãos. Destaca-se na narrativa o drama da seca, a miséria e a degradação humana. Leia os trechos a seguir e responda às questões 4 e 5. 001598_por_f2_c12_t0002
Texto I O continente, é a obra-prima do autor. Ele o constrói como “um mosaico de citações” (Julia Kristeva) feito de fragmentos narrativos, de textos relativos às tradições da Capítulo 12
Texto II
“Uma geração vai, e outra geração vem; porém a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos.” ECLESIASTES I, 4-6
[...] Os anos chegavam e se iam. Mas o trabalho fazia Ana esquecer o tempo. No inverno tudo ficava pior: a água gelava nas gamelas que passavam a noite ao relento; pela manhã o chão frequentemente estava branco de geada e houve um agosto em que, quando foi lavar roupa na sanga, Ana teve primeiro de quebrar com uma pedra a superfície gelada da água. Em certas ocasiões surpreendia-se a esperar que alguma coisa acontecesse e ficava meio aérea, quase feliz, para depois, num desalento, compreender subitamente que para ela a vida estava terminada, pois um dia era a repetição do dia anterior – o dia de amanhã seria igual ao de hoje, assim por muitas semanas, meses e anos até a hora da morte. [...] VERISSIMO, Erico. O continente. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p. 84. 001598_por_f2_c12_q0004discursiva 001598_por_f2_c12_t0002
4. A que propriedade do texto literário o primeiro fragmento se refere?
001598_por_f2_c12_q0005discursiva 001598_por_f2_c12_t0002
5. Explique o uso da epígrafe e sua relação com a narrativa.
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TEYSSIER, Paul. Erico Verissimo. In: TEYSSIER, Paul. Dicionário de literatura brasileira. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 139.
001598_por_f2_c12_q0006discursiva
6. Considere o fragmento a seguir a respeito da obra de José Lins do Rego. O autor e a personagem se confundem, e ambos evoluirão juntos, da infância à idade adulta, na série de romances que constituem o que foi chamado de “ciclo da cana-de-açúcar”. Esse ciclo compreende além de Menino de engenho, Doidinho (1932), Banguê (1934), O moleque Ricardo (1934), Usina (1936), e a obra síntese Fogo morto (1943). TEYSSIER, Paul. José Lins do Rego. In: TEYSSIER, Paul. Dicionário de literatura brasileira. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 72.
Qual é o tema que José Lins do Rego aborda nas obras que compõem o “ciclo da cana-de-açúcar”?
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7. Com base em seus conhecimentos sobre a obra de José Lins do Rego, é possível afirmar que ele se detém apenas no âmbito regionalista? Leia o trecho a seguir para responder às questões 8 e 9.
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A vida na fazenda se tornara difícil. Sinha Vitória benzia-se tremendo, manejava o rosário, mexia os beiços rezando rezas desesperadas. Encolhido no banco do copiar, Fabiano espiava a catinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros, torrados. No céu azul as
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últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre. Mas quando a fazenda se despovoou, viu que tudo estava perdido, combinou a viagem com a mulher, matou o bezerro morrinhento que possuíam, salgou a carne, largou-se com a família, sem se despedir do amo. Não poderia nunca liquidar aquela dívida exagerada. Só lhe restava jogar-se ao mundo, como negro fugido. Saíram de madrugada. Sinha Vitória meteu o braço pelo buraco da parede e fechou a porta da frente com a taramela. [...] RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2020.
copiar: varanda. garrancho: ramo de árvore retorcido. arribação: deslocamento de aves. morrinhento: fraco. taramela: trava de madeira ou metal.
8. Por que a família se viu obrigada a fugir da fazenda?
001598_por_f2_c12_q0009discursiva 001598_por_f2_c12_t0003
9. No trecho, o narrador compara Fabiano a um escravizado. Explique o que se entende por escravidão nesse contexto.
001598_por_f2_c12_q0010discursiva
10. Leia a seguir um trecho do conto “Famigerado”. Depois, comente o processo de formação de palavras que atribui uma qualidade singular à linguagem de Guimarães Rosa. [...] Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá: — “Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?” [...] ROSA, João Guimarães. Famigerado. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 34.
Exercícios propostos 001598_por_f2_c12_q0025objetiva
O decênio de 1930 teve como característica própria um grande surto do romance, tão brilhante quanto o que se verificou entre 1880 e 1910, e que apenas em pequena parte dependeu da estética modernista. (Antonio Candido e J. Aderaldo Castello. Presença da Literatura Brasileira: Modernismo. São Paulo / Rio de Janeiro: Difel, 1979.)
(Seca: Bahia tem pelo menos 140 cidades em situação de emergência. 28 de Agosto de 2014. Disponível em: http://visaonacional.com.br)
O comentário do especialista associado à imagem apresenta e representa características importantes da prosa modernista da geração de 1930. Em relação à produção literária identificada, assinale a alternativa correta. a) A preocupação com a documentação da realidade presente no Pré-Modernismo é retomada. b) Utiliza-se uma linguagem rebuscada objetivando demonstrar a importância do tema abordado. c) O regionalismo é explorado de forma preconceituosa, demonstrando com exagero a situação difícil das regiões retratadas. d) O desejo por um país melhor, isento de desigualdades sociais, faz com que os romancistas de 1930 descrevam cenários e personagens idealizados.
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2. EsPCEx-SP 2015 Assinale a alternativa que contém uma das características da segunda fase modernista brasileira.
a) Os efeitos da crise econômica mundial e os choques ideológicos que levaram a posições mais definidas formavam um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social. b) Na poesia, ganha corpo uma geração de poetas que se opõem às conquistas e inovações dos primeiros modernistas de 1922. Uma nova proposta é defendida inicialmente pela revista Orfeu. c) O período de 1930 a 1945 é o mais radical do movimento modernista, pela necessidade de ruptura com toda arte passadista. d) As revistas e manifestos marcam o segundo momento modernista, com a divulgação do movimento pelos vários estados brasileiros. e) Ao mesmo tempo em que se procura o moderno, o original e o polêmico, o nacionalismo se manifesta em suas múltiplas facetas: uma volta às origens, a pesquisa de fontes quinhentistas, a procura de uma “língua brasileira”.
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3. Ufam 2023 Sobre O quinze, é CORRETO afirmar que: a) ilustra o retorno ao romance de estrutura neonaturalista do século XX, afastando-se das conquistas da fase heroica do Modernismo. b) Raquel de Queiroz não atinge o mesmo nível estético de outros autores do mesmo período por preocupar-se com questões de temática social. c) os aspectos regionais da obra, somados a aspectos de seu enredo, equiparam O quinze a obras românticas. d) a preocupação com elementos estéticos é colocada em segundo plano quando se trata de obras de cunho social. e) o romance é de 1915, mas – por questões estéticas – o enquadram na geração de 1930, do Modernismo.
FRENTE 2
1. Uern 2015 Considere o texto e a imagem a seguir.
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4. UPE 2022
em seu processo de empoderamento, traço característico da obra de Jorge Amado, autor da geração de 1945 do Modernismo brasileiro. d) O Texto 2 apresenta uma comparação entre a personagem Tereza Batista e o povo brasileiro, o qual, embora sofrido, não se deixa derrotar, em virtude da capacidade de resiliência. e) Tereza Batista e Gabriela são personagens que representam, na obra de Jorge Amado, a emancipação das mulheres brasileiras na luta por igualdade e pelo empoderamento feminino, conforme demonstram os Textos 1 e 2.
Texto 1 — Na casa de Dona Arminda, curvada pela costura, ainda roxa dos golpes, Gabriela pensa. […] Tão bom seu Nacib! Bateu nela, estava com raiva. A culpa era dela, por que aceitara casar? […]. Medo talvez de perdê-lo, de um dia ele casar com outra, mandá-la embora. Foi por isso certamente. Fez mal, não devia aceitar. Antes fora a pura alegria. AMADO, Jorge. Gabriela, cravo e canela. Excerto. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/sala_professor/pdfs/CL_ AliteraturadeJorgeAmado_representacoesdofeminino.pdf. Acesso em: 05 jun. 2021.
Texto 2
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— Com quem se parece Tereza Batista, tão castigada pela vida, tão cansada de apanhar e de sofrer e, ainda assim, de pé […] Tereza Batista se parece com o povo e com mais ninguém. Com o povo brasileiro, tão sofrido, nunca derrotado. Quando o pensam morto, ele se levanta do caixão. AMADO, Jorge. Tereza Batista cansada de guerra. Excerto. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/sala_professor/pdfs/CL_ AliteraturadeJorgeAmado_representacoesdofeminino.pdf. Acesso em: 05 jun. 2021.
5. UFSC 2019
Destino
5
Texto 3
10
15
20
25 Disponível em: https://twitter.com/HumorPoliticobr/ status/1026921387787800576/photo/1. Acesso em: 05 jun. 2021.
Com base na leitura dos Textos 1, 2 e 3, e considerando as características da obra de Jorge Amado, assinale a alternativa CORRETA. a) Em suas obras, Jorge Amado imprimiu a representação do perfil multicultural do povo brasileiro ao representar tipos marginalizados na sociedade, por meio de linguagem rebuscada e da tipificação social, traços característicos da primeira fase do Modernismo brasileiro. b) A sensualidade dos perfis femininos aparece em diversas obras de Jorge Amado na caracterização de personagens, como Gabriela, Tieta e Tereza Batista. O Texto 1 mostra a sensualidade, a alegria e o lirismo na construção da imagem feminista de Gabriela. c) O Texto 3 apresenta conexão intertextual direta com os Textos 1 e 2 na representação feminina
228 LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 12
Ocuparam a mesa do canto, o Gato puxou o baralho. Mas nem Pedro Bala, nem João Grande, nem Professor, tampouco Boa-Vida se interessaram. Esperavam o Querido-de-Deus na Porta do Mar. As mesas estavam cheias. Muito tempo a Porta do Mar andara sem fregueses. A varíola não deixava. Agora que ela tinha ido embora, os homens comentavam as mortes. Alguém falou no lazareto. “É uma desgraça ser pobre”, disse um marítimo. Numa mesa pediram cachaça. Houve um movimento de copos no balcão. Um velho então disse: — Ninguém pode mudar o destino. É coisa feita lá em cima – apontava o céu. Mas João de Adão falou na outra mesa: — Um dia a gente muda o destino dos pobres... Pedro Bala levantou a cabeça, Professor ouviu sorridente. Mas João Grande e Boa-Vida pareciam apoiar as palavras do velho, que repetiu: — Ninguém pode mudar, não. Está escrito lá em cima. — Um dia a gente muda... – disse Pedro Bala, e todos olharam para o menino. — Que é que tu sabe, frangote? – perguntou o velho. É filho do Loiro, fala a voz do pai – respondeu João de Adão olhando com respeito. — O pai morreu pra mudar o destino da gente. Olhou para todos. O velho calou e também olhava com respeito. A confiança foi de novo 19 chegando para todos. Lá fora um violão começou a tocar. AMADO, Jorge. Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 159.
Com base na leitura do texto e da obra Capitães da Areia, publicada originalmente em 1937, no contexto sócio-histórico e literário e, ainda, de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que: 01 os termos “menino” (linha 20), “tu” (linha 21), “frangote” (linha 21) e “filho do Loiro” (linha 22) têm como referente Pedro Bala. 02 o emprego do termo “frangote” (linha 21) pode ser tomado como exemplo de personificação por adjetivação. 04 no texto, a palavra “destino” (linha 11 e linha 14) é tratada pelas personagens de modo distinto, até antagônico, revelando a visão delas sobre a vida, compreendida de modo fatalista ou como resultado da ação humana.
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08 a obra Capitães da Areia foi perseguida após sua publicação devido à perspectiva comunista, dada a atuação política do escritor Jorge Amado. 16 os verbos “ocuparam” (linha 01), “interessaram” (linha 03), “esperavam” (linha 03) e “pediram” (linha 09) têm como sujeito parte do grupo denominado Capitães da Areia. 32 os termos “alguém” (linha 07) e “ninguém” (linha 11) marcam de forma indefinida a presença de um enunciador externo e interno à troca de turnos de fala, respectivamente. Soma: 001598_por_f2_c12_q0014objetiva
6. UFSC 2019 Texto 1
(Reportagem publicada no Jornal da Tarde, na página de “Fatos Policiais”, com um clichê da casa do comendador e um deste no momento em que era condecorado.) AMADO, Jorge. Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 12.
Relacionando os Textos 1 e 2, a obra Capitães da Areia, o contexto sócio-histórico e literário do romance e, ainda, de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que: 01 nos Textos 1 e 2, as crianças demonstram facilidade para estabelecer relações entre si, mesmo percebendo a existência de diferenças étnicas, raciais e socioeconômicas. 02 a ironia presente na charge consiste no fato de o adulto e a criança compartilharem a mesma visão de mundo. 04 os Textos 1 e 2 pertencem ao mesmo gênero textual, mas se diferenciam pela temática. 08 no Texto 2, o que é denominado no jornal como “outro delicado problema” (linha 11) são os filmes que influenciam os meninos com ideias erradas. 16 o Texto 2 é característico da esfera jornalista e integra, junto com outros textos, a parte inicial do romance para problematizar a vida dos meninos de rua. Soma: 001598_por_f2_c12_q0015objetiva
7. Uern 2014 Leia o trecho de “Fogo morto”, de José Lins do Rego, escritor regionalista que retratou a decadência dos engenhos de cana nordestinos, no início do século XX.
Texto 2
CARTAS À REDAÇÃO A OPINIÃO DA INOCÊNCIA A nossa reportagem ouviu também o pequeno Raul, que, como dissemos, tem onze anos e já é dos ginasianos mais aplicados do Colégio Antônio Vieira. Raul mostrava uma grande coragem, e nos disse acerca da sua conversa 5 com o terrível chefe dos Capitães da Areia. — Ele disse que eu era um tolo e não sabia o que era brincar. Eu respondi que tinha uma bicicleta e muito brinquedo. Ele riu e disse que tinha a rua e o cais. Fiquei gostando dele, parece um desses meninos de cinema que 10 fogem de casa para passar aventuras. Ficamos então a pensar neste outro delicado problema para a infância que é o cinema, que tanta ideia errada infunde às crianças acerca da vida. Outro problema que está merecendo a atenção do dr. juiz de menores. A ele 15 volveremos.
(José Lins do Rego. Fogo morto. 23. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982.)
Assinale a alternativa que contempla o(s) motivo(s) pelo(s) qual(is) o engenho de Santa Fé se encontra em processo de decadência. a) Má administração e abolição da escravatura. b) Diminuição de mercado para consumo da produção. c) Condições climáticas desfavoráveis à continuidade do trabalho. d) Descomprometimento dos empregados com o trabalho a ser feito.
FRENTE 2
Disponível em: https://www.topimagens.com.br/outros/15801-na-minhaescola.html. Acesso em: 30 mar. 2019
E o Santa Fé foi ficando assim o engenho sinistro da várzea. Deodato dava mais em negro que o Major Ursulino. Era tudo por ordem do Capitão Lula de Holanda. Como podia um homem com aquele trato, com aquelas maneiras, permitir tudo aquilo? [...] O Santa Fé tirara aquela safra com certa dificuldade. Faltavam bestas para a almanjarra. Mesmo assim o açúcar dera o necessário para que ele não bulisse no ouro do Capitão Tomás. Todo aquele ouro seria para a educação do Neném. Chegou a abolição e os negros do Santa Fé se foram para os outros engenhos. Ficara somente com Seu Lula o boleeiro Macário, que tinha paixão pelo ofício. Até as negras da cozinha ganharam o mundo. E o Santa Fé ficou com os partidos do mato, com o negro Deodato sem gosto para o eito, para a moagem que se aproximava.
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8. UFSC [...]. Depois Volta Seca chegou com um jornal que
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trazia notícias de Lampião. Professor leu a notícia para Volta Seca e ficou vendo as outras coisas que o jornal trazia. Então chamou: — Sem-Pernas! Sem-Pernas! [...] E leu uma notícia no jornal: Ontem desapareceu da casa número... da rua..., Graça, um filho dos donos da casa, chamado Augusto. Deve ter se perdido na cidade que pouco conhecia. É coxo de uma perna, tem treze anos de idade, é muito tímido, veste roupa de casimira cinza. A polícia o procura para o entregar aos seus pais aflitos, mas até agora não o encontrou. A família gratificará bem quem der notícias do pequeno Augusto e o conduzir a sua casa. O Sem-Pernas ficou calado. Mordia o lábio. Professor disse: — Ainda não descobriram o furto... Sem-Pernas fez que sim com a cabeça. Quando descobrissem o furto não o procurariam mais como a um filho desaparecido. Barandão fez uma cara de riso e gritou: — Tua família tá te procurando, Sem-Pernas. Tua mamãe tá te procurando pra dar de mamar a tu... Mas não disse mais nada, porque o Sem-Pernas já estava em cima dele e levantava o punhal. E esfaquearia sem dúvida o negrinho se João Grande e Volta Seca não o tirassem de cima dele. Barandão saiu amedrontado. O Sem-Pernas foi indo para o seu canto, um olhar de ódio para todos. Pedro Bala foi atrás dele, botou a mão em seu ombro: — São capazes de não descobrir nunca o roubo, Sem-Pernas. Nunca saber de você... Não se importe, não. — Quando doutor Raul chegar vão saber... E rebentou em soluços, que deixaram os Capitães da Areia estupefatos. AMADO, Jorge. Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 133-4.
Com base no texto, na leitura do romance Capitães da Areia e no contexto do Modernismo brasileiro, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S). 01 Capitães da Areia inclui-se entre as obras do chamado Regionalismo de 30, cujas temáticas compreendem, entre outros aspectos, a denúncia das mazelas sociais do Brasil. 02 Augusto – apelidado pelos capitães da areia de Sem-Pernas, devido a uma deficiência física – abandona a casa dos pais após ter furtado objetos de valor e se une aos capitães da areia; a vergonha, mais que o temor do castigo, impede-o de voltar para casa. 04 A agressão de Sem-Pernas a Barandão representa um ponto de virada na história porque, a partir de então, Sem-Pernas, que sempre fora calmo e reservado, passa a agredir os colegas, até que Pedro Bala o expulsa do grupo e ele comete suicídio. 08 Na composição das personagens que habitam o trapiche, Jorge Amado adota um procedimento semelhante: nenhum dos meninos é mau por natureza, porém eles cometem más ações por força das circunstâncias sociais.
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Capítulo 12
16 No período “A família gratificará bem quem der notícias do pequeno Augusto e o conduzir a sua casa” (linhas 15-16), a expressão “a sua casa” poderia ser escrita como “à sua casa”, sem que isso implicasse desrespeito à norma-padrão. Soma: 002447_por_f2_c12_q0003objetiva
9. Unioeste-PR 2020 No que tange o romance Fogo morto, de José Lins do Rego, é CORRETO afirmar que: a) a obra fora escrita para denunciar o cangaço e o cangaceiro, representados na personagem Antônio Silvino, que espalhava terror e morte pelo Nordeste brasileiro, mormente na década de 30. b) trata-se de um romance panfletário, de tom político, pois nota-se a denúncia dos problemas sociais: a miséria, a fome, a seca que assolam o sertão nordestino da época. c) o título “fogo morto” aponta para a decadência em sentido amplo, tanto do engenho que cede lugar à usina quanto da expressão de um Nordeste decadente. d) a obra Fogo morto pertence ao ciclo do cangaço, juntamente a outros dois romances do autor: Pedra bonita e Cangaceiros, haja vista a decadência do engenho. e) Coronel Lula, Capitão Vitorino e Capitão Antônio Silvino são representantes do Exército nacional, que tiveram ascensão no Nordeste brasileiro na década de 40. 001598_por_f2_c12_q0018objetiva
10. Unioeste-PR 2017 Qual alternativa NÃO procede a respeito de Terras do sem fim, de Jorge Amado? a) Na posse pelas terras para o plantio do cacau, o código que regula as relações de mandonismo dos coronéis é a lei do gatilho. b) A narrativa da história das três irmãs prostitutas – Maria, Lúcia, Violeta – é intercalada à da morte e translado do pai defunto. c) Ao descobrir a paixão da esposa Ester pelo advogado Virgílio, o Coronel Horácio assassina os dois amantes numa “pensão de luxo”, em Ilhéus. d) Depois de ouvir a leitura da Bíblia, feita por Don’Ana, Sinhô Badaró ordena a invasão das matas de Sequeiro Grande, porque essa era a “vontade de Deus”. e) O romance inicia com uma viagem de navio em cujos espaços delineiam-se os grupos que darão suporte à narrativa, marcada por “terras, dinheiro, cacau e morte”. 001598_por_f2_c12_q0019objetiva
11. UFRGS 2017 Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre o capítulo A Teiniaguá. Aguinaldo Silva vem do Norte e chega a Santa Fé depois de muitas andanças pelo Brasil, emprestando dinheiro a juro alto. Luzia, neta adotiva de Aguinaldo Silva, vem da Corte para Santa Fé e torna-se a “senhora do Sobrado”. Luzia escolhe Bolívar Cambará para casar, apaixonada por seu jeito sofisticado e urbano.
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
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A sequência correta de preenchimento é a) F – V – V – F. b) V – F – F – V. c) V – V – V – F. d) F – F – F – V. e) V – V – F – V.
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12. Leia o texto seguinte. [...] O que eu precisava era ler um romance fantástico, um romance besta, em que os homens e as mulheres fossem criações absurdas, não andassem magoando‐se, traindo‐se. Histórias fáceis, sem almas complicadas. Infelizmente essas leituras já não me comovem. [...] RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2013. p. 90.
O tipo de romance a que o narrador se refere é bastante distinto da composição de Angústia, pois este livro a) representa as tensões da Prosa de 1930 voltadas às questões da seca. b) compõe uma atmosfera irreverente e humorada ao eliminar a figura do herói. c) rejeita a idealização amorosa, ao reduzir os eventos ao plano do riso. d) impõe-se complexa, ao simular a idealização do amor e da fantasia. e) foge do modelo romântico composto pelas relações amorosas.
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13. UTFPR 2023 Sobre a obra São Bernardo, de Graciliano Ramos, assinale o que for correto. Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste. E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever. Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas – e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel. Emoções indefiníveis me agitam – inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração. RAMOS, G. São Bernardo. 46. ed. Rio de Janeiro: Record, 1986, p. 101.
I.
A atribuição da culpa pelo matrimônio fracassado de Paulo Honório é de fundo determinista: a luta contra as dificuldades do sertão nordestino resultou na figura de difícil trato do personagem. II. A linguagem comedida em São Bernardo, com sentenças breves e concisas, não descarta o fato de o romance explorar a dimensão psicológica, principalmente a de Paulo Honório, o que não é muito comum nas obras regionalistas da geração de 1930.
III. São Bernardo, ao priorizar a denúncia social, apresenta personagens sem densidade psicológica. Paulo Honório, dessa forma, é um personagem-tipo que representa o grande produtor rural nordestino da primeira metade do século XX. IV. No trecho “para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever”, o uso da metalinguagem indica um personagem-narrador preocupado em realizar o balanço de seu casamento, ao escrever um romance sobre Madalena, sua falecida esposa. Em relação ao romance São Bernardo, estão corretas somente as afirmações: a) I e II b) I e III c) III e IV d) I, II, III e IV e) I, II e III
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14. Enem 2018 E fui mostrar ao ilustre hóspede [o governador do Estado] a serraria, o descaroçador e o estábulo. Expliquei em resumo a prensa, o dínamo, as serras e o banheiro carrapaticida. De repente supus que a escola poderia trazer a benevolência do governador para certos favores que eu tencionava solicitar. — Pois sim senhor. Quando V. Exª. vier aqui outra vez, encontrará essa gente aprendendo cartilha. RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1991.
O fragmento do romance de Graciliano Ramos dialoga com o contexto da Primeira República no Brasil, ao focalizar o(a) a) derrocada de práticas clientelistas. b) declínio do antigo atraso socioeconômico. c) liberalismo desapartado de favores do Estado. d) fortalecimento de políticas públicas educacionais. e) aliança entre a elite agrária e os dirigentes políticos.
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15. Mackenzie-SP 2018
Carta do escritor Graciliano Ramos ao pintor Cândido Portinari Rio – 18 – Fevereiro – 1946 Caríssimo Portinari: A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem fora da arte e são cultivadas pelos que nos censuram. O que às vezes pergunto a mim mesmo, com angústia, Portinari, é isto: se elas desaparecessem, poderíamos continuar a trabalhar? Desejamos realmente que elas desapareçam ou seremos também uns exploradores, tão perversos como os outros, quando expomos desgraças? Dos quadros que você mostrou quando almocei no Cosme Velho pela última vez, o que mais me comoveu foi aquela mãe com a criança morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria seria possível fazer-se aquilo? Numa vida tranquila
FRENTE 2
Dr. Carl Winter frequenta o Sobrado e nutre grande admiração por Luzia, a quem compara com Melpômene, musa da tragédia.
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e feliz que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que faríamos cromos, anjinhos cor-de-rosa, e isto me horroriza. Felizmente a dor existirá sempre, a nossa velha amiga, nada a suprimirá. E seríamos ingratos se desejássemos a supressão dela, não lhe parece? Veja como os nossos ricaços em geral são burros. Julgo naturalmente que seria bom enforcá-los, mas se isto nos trouxesse tranquilidade e felicidade, eu ficaria bem desgostoso, porque não nascemos para tal sensaboria. O meu desejo é que, eliminados os ricos de qualquer modo e os sofrimentos causados por eles, venham novos sofrimentos, pois sem isto não temos arte. E adeus, meu grande Portinari. Muitos abraços para você e para Maria. Graciliano sensaboria: contratempo, monotonia.
Depreende-se corretamente do texto que o escritor Graciliano Ramos: a) compreende a miséria humana e os sofrimentos como motivadores da produção artística, que não pode ser apenas ornamental. b) entende que a função da pintura é oferecer as soluções práticas para o erradicamento da miséria humana. c) se refere a pinturas que ele mesmo produziu sobre as diferenças sociais que afetam o povo brasileiro. d) se dirige ao pintor Portinari com o claro objetivo de propor a formação de uma política que exclua os ricos da sociedade. e) escreve ao pintor Portinari para tentar amenizar o remorso que sente por explorar a miséria humana.
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16. UFRGS 2022 Sobre São Bernardo, de Graciliano Ramos, assinale a alternativa correta. a) Paulo Honório é o narrador que repassa sua trajetória desde a infância pobre até tornar-se proprietário de uma fazenda moderna e unir-se à Madalena, em um casamento cheio de tensões que acaba de forma trágica. b) Madalena é uma herdeira ambiciosa, que, auxiliada pelos esforços de uma tia incansável, forma-se professora e dedica-se ao magistério e a disputas políticas no interior de Alagoas. c) Luís Padilha é o filho do antigo proprietário da fazenda São Bernardo que dissipa sua fortuna instigado por Paulo Honório, a quem procura enganar oferecendo-lhe um cargo político em Maceió. d) Dona Glória, tia de Madalena, dedica-se a tarefas mal pagas e economiza muito para sobreviver, mas vai se tornar uma aliada importante de Luís Padilha na tentativa de extrair dinheiro de Paulo Honório. e) Casimiro Lopes é o jagunço subordinado a Paulo Honório e trata de garantir a simpatia de seu chefe mediante serviços prestados a Madalena e Dona Glória, além de dedicar-se com carinho e desvelo ao filho do casal.
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 12
17. FPP-PR 2016 Considerando-se o gênero de São Bernardo, de Graciliano Ramos, podemos afirmar que a) a obra relaciona-se ao Romantismo por retratar problemas sociais e denunciar a opressão e a tirania do homem no nordeste brasileiro. b) a obra constitui romance de Realismo crítico, de confissão, com tensão psicológica e preocupações sociais. c) o romance narra, em fluxo de consciência, o drama psicológico de Madalena, cuja voz narra as dificuldades de Paulo Honório de aceitar o mundo, os outros e a si mesmo. d) constitui romance Regionalista Modernista, vinculado ao projeto de construção da identidade nacional, aliando as formas dos gêneros dramático e lírico. e) a obra inaugura o romance Naturalista, além de questionar as fronteiras entre o real e o imaginário, pela visão de Madalena, vítima da tirania do marido. Leia os textos a seguir para responder às questões 18 e 19. 001598_por_f2_c12_t0004
Os textos literários são obras de discurso, a que falta a imediata referencialidade da linguagem corrente; poéticos, abolem, “destroem” o mundo circundante, cotidiano, graças à função irrealizante da imaginação que os constrói. E prendem‐nos na teia de sua linguagem, a que devemo poder de apelo estético que nos enleia; seduz‐nos o mundo outro, irreal, neles configurado [...]. No entanto, da adesão a esse “mundo de papel”, quando retornamos ao real, nossa experiência, ampliada e renovada pela experiência da obra, à luz do que nos revelou, possibilita redescobri‐ -lo, sentindo‐o e pensando‐o de maneira diferente e nova. A ilusão, a mentira, o fingimento da ficção, aclara o real ao desligar‐se dele, transfigurando‐o; e aclara‐o já pelo insight que em nós provocou. Benedito Nunes, “Ética e leitura”, de Crivo de Papel.
O que eu precisava era ler um romance fantástico, um romance besta, em que os homens e as mulheres fossem criações absurdas, não andassem magoando‐se, traindo-se. Histórias fáceis, sem almas complicadas. Infelizmente essas leituras já não me comovem. Graciliano Ramos, Angústia.
Romance desagradável, abafado, ambiente sujo, povoado de ratos, cheio de podridões, de lixo. Nenhuma concessão ao gosto do público. Solilóquio doido, enervante. Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere, em nota a respeito de seu livro Angústia. 001598_por_f2_c12_q0030objetiva 001598_por_f2_c12_t0004
18. Fuvest-SP 2020 Para Graciliano Ramos, Angústia não faz concessão ao gosto do público na medida em que compõe uma atmosfera a) dramática, ao representar as tensões de seu tempo. b) grotesca, ao eliminar a expressão individual. c) satírica, ao reduzir os eventos ao plano do riso. d) ingênua, ao simular o equilíbrio entre sujeito e mundo. e) alegórica, ao exaltar as imagens de sujeira.
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Leia o trecho do romance S. Bernardo, de Graciliano Ramos, para responder às questões 20 e 21. 001598_por_f2_c12_t0005
O caboclo mal-encarado que encontrei um dia em casa do Mendonça também se acabou em desgraça. Uma limpeza. Essa gente quase nunca morre direito. Uns são levados pela cobra, outros pela cachaça, outros matam-se. Na pedreira perdi um. A alavanca soltou-se da pedra, bateu-lhe no peito, e foi a conta. Deixou viúva e órfãos miúdos. Sumiram-se: um dos meninos caiu no fogo, as lombrigas comeram o segundo, o último teve angina e a mulher enforcou-se. Para diminuir a mortalidade e aumentar a produção, proibi a aguardente. Concluiu-se a construção da casa nova. Julgo que não preciso descrevê-la. As partes principais apareceram ou aparecerão; o resto é dispensável e apenas pode interessar aos arquitetos, homens que provavelmente não lerão isto. Ficou tudo confortável e bonito. Naturalmente deixei de dormir em rede. Comprei móveis e diversos objetos que entrei a utilizar com receio, outros que ainda hoje não utilizo, porque não sei para que servem. Aqui existe um salto de cinco anos, e em cinco anos o mundo dá um bando de voltas. Ninguém imaginará que, topando os obstáculos mencionados, eu haja procedido invariavelmente com segurança e percorrido, sem me deter, caminhos certos. Não senhor, não procedi nem percorri. Tive abatimentos, desejo de recuar; contornei dificuldades: muitas curvas. Acham que andei mal? A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que deram lucro. E como sempre tive a intenção de possuir as terras de S. Bernardo, considerei legítimas as ações que me levaram a obtê-las. Alcancei mais do que esperava, mercê de Deus. Vieram-me as rugas, já se vê, mas o crédito, que a princípio se esquivava, agarrou-se comigo, as taxas desceram. E os negócios desdobraram-se automaticamente. Automaticamente. Difícil? Nada! Se eles entram nos trilhos, rodam que é uma beleza. Se não entram, cruzem os braços. Mas se virem que estão de sorte, metam o pau: as tolices que praticarem viram sabedoria. Tenho visto criaturas que trabalham demais e não progridem. Conheço indivíduos preguiçosos que têm faro: quando a ocasião chega, desenroscam-se, abrem a boca – e engolem tudo. Eu não sou preguiçoso. Fui feliz nas primeiras tentativas e obriguei a fortuna a ser-me favorável nas seguintes. Depois da morte do Mendonça, derrubei a cerca, naturalmente, e levei-a para além do ponto em que estava no tempo de Salustiano Padilha. Houve reclamações.
— Minhas senhoras, seu Mendonça pintou o diabo enquanto viveu. Mas agora é isto. E quem não gostar, paciência, vá à justiça. Como a justiça era cara, não foram à justiça. E eu, o caminho aplainado, invadi a terra do Fidélis, paralítico de um braço, e a dos Gama, que pandegavam no Recife, estudando Direito. Respeitei o engenho do Dr. Magalhães, juiz. Violências miúdas passaram despercebidas. As questões mais sérias foram ganhas no foro, graças às chicanas de João Nogueira. Efetuei transações arriscadas, endividei-me, importei maquinismos e não prestei atenção aos que me censuravam por querer abarcar o mundo com as pernas. Iniciei a pomicultura e a avicultura. Para levar os meus produtos ao mercado, comecei uma estrada de rodagem. Azevedo Gondim compôs sobre ela dois artigos, chamou-me patriota, citou Ford e Delmiro Gouveia. Costa Brito também publicou uma nota na Gazeta, elogiando-me e elogiando o chefe político local. Em consequência mordeu-me cem mil-réis. (S. Bernardo, 1996.) 001598_por_f2_c12_q0032objetiva 001598_por_f2_c12_t0005
20. Unesp 2019 No trecho, o narrador revela-se uma pessoa a) empreendedora e solidária. b) invejosa e hesitante. c) obstinada e compassiva. d) egoísta e violenta. e) preguiçosa e traiçoeira. 001598_por_f2_c12_q0033objetiva 001598_por_f2_c12_t0005
21. Unesp 2019 Tenho visto criaturas que trabalham demais e não progridem. (7o parágrafo) Considerada no atual contexto histórico, essa fala do narrador pode ser vista como uma crítica à ideia de a) trabalho. d) preguiça. b) meritocracia. e) pobreza. c) burocracia.
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22. UFRGS 2020 Considere as afirmações abaixo, sobre o romance São Bernardo, de Graciliano Ramos. I. A obra está integrada à Geração de 30, momento do Modernismo brasileiro voltado sobretudo para a representação das contradições entre o processo de modernização e o atraso das estruturas patriarcais da sociedade brasileira. II. As tensões psicológicas do narrador e personagem Paulo Honório conferem uma carga intimista que enfraquece as pressões da natureza e do meio social sobre as ações do romance. III. As tensões psicológicas e a problematização do processo de escrita caracterizam a obra, que, assim, ultrapassa os limites do regionalismo, afeito ao descritivismo da paisagem local. Quais estão corretas? a) Apenas I. d) Apenas I e II. b) Apenas II. e) I, II e III. c) Apenas III. 001598_por_f2_c12_q0035discursiva
FRENTE 2
19. Fuvest-SP 2020 Se o discurso literário “aclara o real ao desligar-se dele, transfigurando-o”, pode-se dizer que Luís da Silva, o narrador-protagonista de Angústia, já não se comove com a leitura de “histórias fáceis, sem almas complicadas” porque a) rejeita, como jornalista, a escrita de ficção. b) prefere alienar-se com narrativas épicas. c) é indiferente às histórias de fundo sentimental. d) está engajado na militância política. e) se afunda na negatividade própria do fracassado.
23. O fragmento a seguir foi retirado do romance Capitães da areia, de Jorge Amado. Ele apresenta um Brasil que o autor ajudou a consolidar no imaginário coletivo? Explique sua resposta.
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[...] A cidade está alegre, cheia de sol. “Os dias da Bahia parecem dias de festa”, pensa Pedro Bala, que se sente invadido também pela alegria. Assovia com força, bate risonhamente no ombro de Professor. E os dois riem, e logo a risada se transforma em gargalhada. No entanto, não têm mais que uns poucos níqueis no bolso, vão vestidos de farrapos, não sabem o que comerão. Mas estão cheios da beleza do dia e da liberdade de andar pelas ruas da cidade. E vão rindo sem ter do quê, Pedro Bala com o braço passado no ombro de Professor. De onde estão podem ver o Mercado e o cais dos saveiros e mesmo o velho trapiche onde dormem. [...] AMADO, Jorge. Capitães da areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 145.
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24. ESPM-SP 2017 A respeito da obra São Bernardo, de Graciliano Ramos, o crítico literário e professor João Luiz Lafetá afirma: Todo valor se transforma – ilusoriamente – em valor de troca. E toda relação humana se transforma – destruidoramente – numa relação entre coisas, entre possuído e possuidor. Tal é a relação estabelecida entre Paulo Honório e o mundo. Seu desenvolvido sentimento de propriedade leva-o a considerar todos que o cercam como coisas que se manipulam à vontade e se possui.
O trecho de São Bernardo que melhor exemplifica a análise do crítico literário é: a) “Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.” b) “Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.” c) “Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domésticos, como o Padilha, bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, bois mansos.” d) “E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte! A desconfiança é também uma consequência da profissão.” e) “A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.”
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25. UFRGS 2023 O excerto abaixo é retirado de São Bernardo, de Graciliano Ramos. Considere-o, no contexto do enredo do romance. Entrei apressado, atravessei o corredor do lado direito e no meu quarto dei com algumas pessoas soltando exclamações. Arredei-as e estaquei: Madalena estava estirada na cama, branca, de olhos vidrados, espuma nos cantos da boca. Aproximei-me, tomei-lhe as mãos, duras e frias, toquei-lhe o coração, parado. Parado. No soalho havia manchas de líquido e cacos de vidro. D. Glória, caída no tapete, soluçava, estrebuchando. A ama, com a criança nos braços, choramingava. Maria das Dores gemia. Comecei a friccionar as mãos de Madalena, tentando reanimá-la. E balbuciava: — A Deus nada é impossível. Era uma frase ouvida no campo, dias antes, e que me voltava, oferecendo-me esperança absurda. Pus um espelho diante da boca de Madalena, levantei-lhe as pálpebras. E repetia
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LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 12
maquinalmente: — A Deus nada é impossível. — Que desastre, senhor Paulo Honório, que irreparável desastre! murmurou seu Ribeiro perto de mim.
Assinale a alternativa correta sobre o excerto. a) As diferenças ideológicas entre Paulo Honório e Madalena são os catalisadores responsáveis pelo suicídio da esposa. b) O trecho é um dos pontos altos da narrativa em que Paulo Honório descobre o plano de Madalena para lhe retirar a posse das terras. c) As causas obscuras da morte de Madalena serão esclarecidas no último capítulo, quando Paulo Honório descobre que Dona Glória envenenou a sobrinha. d) Madalena, com o auxílio de Salustiano Padilha, seu amante, forja a própria morte para se ver livre dos desmandos de Paulo Honório e do filho pequeno a quem rejeita. e) Ribeiro, fiel escudeiro de Paulo Honório, é o responsável por descobrir e por revelar todo o ambicioso plano de Madalena.
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26. UPF-RS 2017 No conto ______________, de João Guimarães Rosa, o narrador conta a história de seu __________, que vive refugiado em uma canoa, no meio do rio, ao longo de muitos anos, sem falar com ninguém. No universo mitopoético do autor, a figura desse homem exilado em meio ao rio se erige como imagem do(a) __________ no fluir eterno das águas. Assinale a alternativa cujas informações preenchem corretamente as lacunas do enunciado. a) “Partida do audaz navegante” / tio / isolamento. b) “As margens da alegria” / pai / abandono. c) “A terceira margem do rio” / tio / abandono. d) “Partida do audaz navegante” / pai / permanência. e) “A terceira margem do rio” / pai / permanência.
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27. Enem 2021
A volta do marido pródigo — Bom dia, seu Marrinha! Como passou de ontem? — Bem. Já sabe, não é? Só ganha meio dia. [...] Lá além, Generoso cotuca Tercino: — [...] Vai em festa, dorme que-horas, e, quando chega, ainda é todo enfeitado e salamistrão!... — Que é que hei de fazer, seu Marrinha... Amanheci com uma nevralgia... Fiquei com cisma de apanhar friagem... — Hum... — Mas o senhor vai ver como eu toco o meu serviço e ainda faço este povo trabalhar... [...] Pintão suou para desprender um pedrouço, e teve de pular para trás, para que a laje lhe não esmagasse um pé. Pragueja: — Quem não tem brio engorda! — É... Esse sujeito só é isso, e mais isso... — opina Sidu. — Também, tudo p’ra ele sai bom, e no fim dá certo... — diz Correia, suspirando e retomando o enxadão. — “P’ra uns, as vacas morrem... p’ra outros até boi pega a parir...”.
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ROSA, J. G. Sagarana. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.
Esse texto tem importância singular como patrimônio linguístico para a preservação da cultura nacional devido a) à menção a enfermidades que indicam falta de cuidado pessoal. b) à referência a profissões já extintas que caracterizam a vida no campo. c) aos nomes de personagens que acentuam aspectos de sua personalidade. d) ao emprego de ditados populares que resgatam memórias e saberes coletivos. e) às descrições de costumes regionais que desmistificam crenças e superstições.
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28. PUC-SP 2017
De Caetano a Guimarães Rosa, veja as referências de Cármen Lúcia em seu discurso de posse Por Luma Poletti | 13/09/2016 10:00
Ao longo de seu discurso de posse, a ministra Cármen Lúcia, que assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal nesta segunda-feira (12), citou trechos de canções de Caetano Veloso, Titãs, além de versos de Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e fez menção a Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas, clássico de Guimarães Rosa e uma das mais importantes obras-primas da literatura brasileira. A escolha das referências musicais da ministra dá pistas sobre sua visão acerca do atual momento sociopolítico. Citando o cantor e compositor Caetano Veloso, presente na sessão – que interpretou em voz e violão o hino nacional –, Cármen Lúcia concordou que “alguma coisa está fora da ordem”. “Caetanos e não caetanos deste Brasil tão plural concluem em uníssono: alguma coisa está fora de ordem, fora da nova ordem mundial”, disse a ministra. “O que nos cumpre, a nós servidores públicos em especial, é questionar e achar resposta: de qual ordem está tudo fora...”, acrescentou. O cantor já se posicionou contra o governo do presidente Michel Temer, nos bastidores da cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2016. A nova presidente do STF também citou a música “Comida”, da banda Titãs. “Cumpre-nos dedicar-nos de forma intransigente e integral a dar cobro ao que nos é determinado pela Constituição da República e que de nós é esperado pelo cidadão brasileiro, o qual quer saúde, educação, trabalho, sossego para andar em paz por ruas, estradas do país e trilhas livres para poder sonhar além do mais. Que, como na fala do poeta da música popular brasileira, ninguém quer só comida, quer também diversão e arte”. Um dos compositores da canção citada é Arnaldo Antunes, que também se posicionou contra o impeachment de Dilma Rousseff nas redes sociais.
Versos Cármen Lúcia também citou versos da escritora Cecília Meireles, ao dizer que “liberdade é um sonho que o mundo inteiro alimenta” – da obra Romanceiro da inconfidência, lançada em 1953. “Se, no verso de Cecília Meireles, a liberdade é um sonho, que o mundo inteiro alimenta, parece-me ser a Justiça um sentimento, que a humanidade inteira acalenta”, discursou a ministra. Mais adiante em seu discurso, Cármen Lúcia fez menção a uma personagem do livro Grande Sertão: Veredas, do escritor mineiro (tal como a ministra) Guimarães Rosa. “Riobaldo afirmava que ‘natureza da gente não cabe em nenhuma certeza’. Mas parece-me que a natureza da gente não se aguenta em tantas incertezas. Especialmente quando o incerto é a Justiça que se pede e que se espera do Estado”, disse a nova presidente do STF. Em seguida, outro escritor mineiro foi lembrado por Cármen Lúcia. “Em tempos cujo nome é tumulto escrito em pedra, como diria Drummond, os desafios são maiores. Ser difícil não significa ser impossível. De resto, não acho que para o ser humano exista, na vida, o impossível”, disse a ministra, em referência ao poema “Nosso tempo”, do escritor mineiro. A sucessora de Ricardo Lewandowski concluiu o discurso citando um terceiro escritor mineiro: Paulo Mendes Campos. “O Judiciário brasileiro sabe dos seus compromissos e de suas responsabilidades. Em tempo de dores multiplicadas, há que se multiplicarem também as esperanças, à maneira da lição de Paulo Mendes Campos”, disse Cármen Lúcia, em referência ao “Poema didático”, de Paulo Mendes Campos. Disponível em: . Acesso em: 26 set. 2016. (Adaptado.)
Riobaldo afirmava que “natureza da gente não cabe em nenhuma certeza”. Mas parece-me que a natureza da gente não se aguenta em tantas incertezas. Especialmente quando o incerto é a Justiça que se pede e que se espera do Estado.
Nesse trecho do terceiro parágrafo da parte Versos, Luma Poletti emprega as aspas simples dentro das aspas duplas para a) identificar com as simples o texto de Guimarães Rosa e as duplas a fala de Riobaldo. b) evidenciar com as simples o discurso de Cármen Lúcia e com as duplas o pensamento de Riobaldo. c) assinalar com as simples o dizer de Riobaldo e com as duplas o discurso da ministra. d) indicar com as simples a natureza da gente e com as duplas o discurso de Cármen Lúcia.
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29. Unesp 2021 Para responder à questão, leia o trecho do romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei do comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta empoçada, ninguém me caça. Da vida
FRENTE 2
Seu Marra já concordou: — Está bem, seu Laio, por hoje, como foi por doença, eu aponto o dia todo. Que é a última vez!... E agora, deixa de conversa fiada e vai pegando a ferramenta!
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pouco me resta – só o deo-gratias; e o troco. Bobeia. Na feira de São João Branco, um homem andava falando: — “A pátria não pode nada com a velhice...” Discordo. A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas – ele dizia: aqueles todos anéis davam até choque elétrico... Não. Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de todos os animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucuia, em São Romão, aonde aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. [...] Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe. (Grande sertão: veredas, 2015.)
No texto, o narrador a) sugere que a narração de eventos significativos não permite uma visão abrangente da vida. b) admite que sua narrativa sinuosa visa confundir e enganar o seu interlocutor. c) sugere que a narração de eventos significativos não cabe em uma narrativa linear. d) alega que sua narrativa linear busca conferir coerência e sentido a uma vida de desacertos. e) alega que uma narrativa sinuosa conduz a uma compreensão limitada da existência.
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30. Enem 2018
A imagem integra uma adaptação em quadrinhos da obra Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Na representação gráfica, a inter-relação de diferentes linguagens caracteriza-se por a) romper com a linearidade das ações da narrativa literária. b) ilustrar de modo fidedigno passagens representativas da história. c) articular a tensão do romance à desproporcionalidade das formas. d) potencializar a dramaticidade do episódio com recursos das artes visuais. e) desconstruir a diagramação do texto literário pelo desequilíbrio da composição.
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31. Enem 2014 O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
No romance Grande sertão: veredas, o protagonista Riobaldo narra sua trajetória de jagunço. A leitura do trecho permite identificar que o desabafo de Riobaldo se aproxima de um(a) a) diário, por trazer lembranças pessoais. b) fábula, por apresentar uma lição de moral. c) notícia, por informar sobre um acontecimento. d) aforismo, por expor uma máxima em poucas palavras. e) crônica, por tratar de fatos do cotidiano.
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32. Enem 2014 Pecados, vagância de pecados. Mas, a gen-
te estava com Deus? Jagunço podia? Jagunço – criatura paga para crimes, impondo o sofrer no quieto arruado dos outros, matando e roupilhando. Que podia? Esmo disso, disso, queri, por pura toleima; que sensata resposta podia me assentar o Jõe, broreiro peludo do Riachão do Jequitinhonha? Que podia? A gente, nós, assim jagunços, se estava em permissão de fé para esperar de Deus perdão de proteção? Perguntei, quente. — “Uai? Nós vive... — foi o respondido que ele me deu. ROSA, G. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001 (fragmento).
Guimarães Rosa destaca-se pela inovação da linguagem com marcas dos falares populares e regionais. Constrói seu vocabulário a partir de arcaísmos e da intervenção nos campos sintático-semânticos. Em Grande sertão: veredas, seu livro mais marcante, faz o enredo girar em torno de Riobaldo, que tece a história de sua vida e sua interlocução com o mundo-sertão. No fragmento em referência, o narrador faz uso da linguagem para revelar a) inquietação por desconhecer se os jagunços podem ou não ser protegidos por Deus. b) uma insatisfação profunda com relação à sua condição de jagunço e homem pecador. c) confiança na resposta de seu amigo Jõe, que parecia ser homem estudado e entendido. d) muitas dúvidas sobre a vida após a morte, a vida espiritual e sobre a fé que pode ter o jagunço. e) arrependimento pelos pecados cometidos na vida errante de jagunço e medo da perdição eterna.
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Capítulo 12
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
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Texto complementar
As anotações de viagem de Guimarães Rosa pelo sertão de Minas Gerais A Boiada O diário de viagem registra o tempo de permanência de Rosa no Sertão de Minas, no período de 10 a 28 de maio de 1952. A primeira parte refere-se à viagem do Rio de Janeiro até a fazenda da Sirga, próxima a Andrequicé, Minas Gerais. A segunda registra a travessia da boiada da Sirga até a fazenda São Francisco. Durante esta trajetória de 10 dias e um percurso de 40 léguas (240 km), Rosa acompanha a comitiva formada por um grupo de vaqueiros (18 nos dois primeiros dias, reduzindo depois para 8), montado na mula Balalaika se intitulando vaqueiro-amador. Durante esse período no Sertão de Minas (19 dias ao todo) anota numa caderneta as suas observações e conversas e comentários dos vaqueiros. [...] Guimarães Rosa fez suas anotações numa cadernetinha de bolso pendurada ao pescoço por um barbante, tendo na ponta um lápis. O barbante todo ensebado ainda se encontra na caderneta 6, único exemplar da Boiada que faz parte da série Estudo para Obra do Arquivo Guimarães Rosa. A cadernetinha, leve e fácil de carregar, possibilitava ao escritor escrever mesmo em situações adversas. Ela é do tipo “De Luxe” marca registrada, tamanho 15, pautada, capa dura de papelão cinza e espiral verde, possui 30 páginas numeradas contendo apenas os dois últimos dias da viagem. O autor escreveu a lápis desde a primeira folha, anotando a data sempre à esquerda na margem superior. No princípio a caligrafia está bem legível e caprichada, mas gradativamente a letra vai se alterando. Muitas notas foram, sem dúvida, registradas sobre o lombo da mula Balalaika, o que pode ser comprovado pelo traçado sacolejante da escrita. [...] A cultura popular está bem presente através dos causos, quadrinhas, versos e desafios marcando (ou pontuando) o som da viola e das danças, expressões da região, conversas dos vaqueiros e o conhecimento popular a respeito dos bichos e das plantas, aprendidos informalmente através das relações sociais de trabalho e de lazer. Guimarães Rosa faz questão de escrever o sertão do vaqueiro MEYER, Mônica. As anotações de viagem de Guimarães Rosa pelo sertão de Minas Gerais. Graphos, João Pessoa, 2006. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/graphos/article/view/9561/5208. Acesso em: 7 nov. 2023.
Veja os principais assuntos e conceitos trabalhados neste capítulo acessando a seção Resumindo no livro digital, na Plataforma Poliedro.
Quer saber mais? Site Fundação Casa de Jorge Amado. Disponível em: https:// www.jorgeamado.org.br/. Acesso em: 7 nov. 2023. A Fundação Casa de Jorge Amado foi criada com o objetivo de preservar e estudar os acervos bibliográficos e artísticos do escritor Jorge Amado. No site, você pode obter mais informações sobre a vida e a obra do autor.
Memorial de Maria Moura. Direção: Denise Saraceni. 1994. A minissérie é a adaptação do romance homônimo de Rachel de Queiroz. O tempo e o vento. Direção: Jayme Monjardim. 2013. O filme é a adaptação do romance homônimo de Erico Verissimo.
FRENTE 2
Filmes Passaporte para liberdade. Direção: Jayme Monjardim e Seani Soares. 2021. A série, disponível em plataforma de streaming, conta a história de Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa, esposa do escritor, que ajudou a salvar a vida de inúmeros judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
Fogo morto. Direção: Walter Lima Junior. 1976. O filme é a adaptação do romance homônimo de José Lins do Rego.
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Exercícios complementares 001598_por_f2_c12_q0024objetiva
1. A prosa de 1930 tem entre seus representantes autores como Rachel de Queiroz, Erico Verissimo, Jorge Amado e José Lins do Rego. Sobre a prosa desse período, é incorreto afirmar: a) O contexto pedia uma literatura mais ligada aos fatos. b) Retoma o realismo/naturalismo, mas sem a inflexibilidade cientificista do século XIX. c) Analisa de forma determinista a sociedade para elaborar uma representação mais fiel do conturbado período histórico. d) Tem o aprofundamento psicológico das personagens, evidenciando o fator emocional nas obras. e) Nesse período desenvolveram-se três tipos de ficção: prosa urbana, prosa regionalista e prosa intimista.
tendência reconhecida e aceita da arte moderna, principalmente da pintura? Não haverá muito de deformação na obra de grandes pintores como Portinari, Di Cavalcante e Segall – todos eles inconformados com a sociedade em que vivem? (Adaptado de Erico Verissimo, Prefácio, em Caminhos Cruzados. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 20-21.)
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2. UFRGS 2023 Leia o segmento abaixo, retirado do capítulo “Ana Terra”, de O continente, da trilogia O tempo e o vento, de Erico Verissimo. E agora, ali a olhar-se no poço, Ana Terra pensava nas palavras do guerrilheiro: “... precisaremos de moças bonitas e trabalhadeiras”. Bonitas e trabalhadeiras. Bonitas, bonitas, bonitas... Ergueu-se, caminhou para o lugar onde estava o cesto, tirou as roupas para fora, ajoelhou-se, apanhou o sabão preto e começou a lavá-las. Enquanto fazia isso cantava. Eram cantigas que aprendera ainda em Sorocaba. Só cantava quando estava sozinha. Às vezes, perto da mãe, podia cantarolar. Mas na presença do pai e dos irmãos tinha vergonha. Não se lembrava de jamais ter ouvido o pai cantar ou mesmo assobiar. Maneco Terra era um homem que falava pouco e trabalhava demais. Severo e sério, exigia dos outros muito respeito e obediência, e não admitia que ninguém em casa discutisse com ele. “Terra tem só uma palavra”, costumava dizer. E era verdade. Quando ele dava a sua palavra, cumpria, custasse o que custasse.
Considere as afirmações abaixo, sobre o segmento. I.
O romance mostra as condições precárias de vida em um rancho isolado no interior do Rio Grande do Sul. II. Maneco Terra representa o pai provedor, que confunde solidez moral com rigidez afetiva. III. A água do poço funciona como um espelho, que reforça o lado feminino e sensível de Ana. Quais estão corretas? a) Apenas I. b) Apenas III. c) Apenas I e II. d) Apenas II e III. e) I, II e III.
4. UFRGS 2020 (Adapt.) Da sua janela, ponto culminan-
3. Unicamp-SP 2020 Que dizer das personagens? Creio que têm a força e ao mesmo tempo a fraqueza da caricatura. Mas, pensando melhor, não poderemos também alegar em defesa do romancista que a caricatura é uma Capítulo 12
A ideia de deformação aplica-se ao quadro de Tarsila e ao romance Caminhos cruzados, de Erico Verissimo, porque tal procedimento artístico acentua a) a crítica do modernismo à violência da escravidão e às desigualdades sociais, presentes no quadro e nas personagens do romance, respectivamente. b) o imaginário da burguesia nacional, pois tanto as protagonistas do romance quanto a imagem da mulher negra retratam os traços característicos das reformas sociais do Estado Novo. c) os princípios estéticos do movimento modernista, pois as duas expressões artísticas apresentam-se como reflexo dos valores da elite cafeeira paulista. d) a moral implícita da modernidade, pois o narrador do livro e a representação do corpo negro criticam o comportamento social das personagens femininas no século XX.
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Tarsila do Amaral, A negra, 1923. Coleção Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, São Paulo.
te da Travessa das Acácias, o Prof. Clarimundo viaja o olhar pela paisagem. No pátio de D. Veva um cachorro magro fuça na lata do lixo. Mais no fundo, um pomar com bergamoteiras e laranjeiras pontilhadas de frutos
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
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Adaptado de: VERISSIMO. Erico. Caminhos Cruzados. 26. ed. Porto Alegre/Rio de Janeiro: Editora Globo, 1982. p. 57-58.
Considere as seguintes afirmações a respeito do texto. I.
Clarimundo é um professor envolvido com o mundo interior das ideias e teorias, mas também é observador do mundo real.
II. Clarimundo narra a sua experiência de viver em Porto Alegre, escrever livros e dar aulas. III. O caráter descritivo, marcado por verbos no pretérito imperfeito e no presente, predomina no texto. Quais estão corretas? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas III. d) Apenas I e III. e) I, II e III.
As questões 5 e 6 referem-se ao romance O continente, de Erico Verissimo.
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5. UFRGS 2019 Assinale a alternativa correta sobre o capítulo A fonte. a) O contexto histórico é a fundação dos primeiros povoados no Rio Grande do Sul. b) A forma pacífica de colonização do Rio Grande do Sul é apresentada. c) A família Terra instala-se nas missões jesuíticas, onde Ana conhece Pedro. d) Pedro Missioneiro tem visões e premonições, que lhe dão dimensão mítica na narrativa. e) Pedro é morto pelos irmãos de Ana, por roubar o punhal de prata da família. 001598_por_f2_c12_q0050objetiva
6. UFRGS 2019 Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre o capítulo Ismália Caré. O contexto histórico é o surgimento da oposição republicana e abolicionista. O ano é 1884, e Santa Fé é elevada à categoria de cidade. Licurgo Cambará casa-se com a prima Alice Terra, filha de Florêncio. Licurgo, por respeito e fidelidade à Alice, termina seu relacionamento com Ismália Caré. A sequência correta de preenchimento de cima para baixo, é a) V – V – F – F. b) F – V – F – V. c) V – V – V – F. d) F – F – V – V. e) V – F – V – V.
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7. Unicamp-SP 2017 São Francisco botava o dedo nas feridas dos leprosos. Mas é que ele era um santo, fazia milagres, e ela é simplesmente Doralice Leitão Leiria, um ser humano como qualquer outro. (Erico Verissimo. Caminhos cruzados. São Paulo: Companhia de Bolso, 2016. p. 77.
— Queres seguir a política? Então? Procura imitar Bismarck! Haverá padrão melhor? (Idem, p. 290.)
Os fragmentos apresentados captam um dos traços principais de Caminhos cruzados no que diz respeito à identidade narrativa das personagens. Considerando o conjunto do romance, tal traço consiste em uma a) percepção de que a necessidade de status na vida social e a produção de desejos políticos e religiosos nascem da cópia de um modelo consagrado. b) afirmação, por meio do narrador, da necessidade de protagonistas bem construídos para o êxito da narrativa ficcional. c) recusa dos modelos bem-sucedidos na vida social, pois eles constrangem a imaginação artística e moral dos romancistas. d) representação literária da condição humana, que não necessita de figuras imaginárias para atribuir sentido à vida religiosa e política.
FRENTE 2
dum amarelo de gemada. Quintais e telhados, fachadas cinzentas com a boca aberta das janelas. Na frente da sapataria do Fiorello, dois homens conversam em voz alta. A fileira das acácias se estende rua afora. As sombras são dum violeta profundo. O céu está levemente enfumaçado e a luz do sol é de um amarelo oleoso e fluido. Vem de outras ruas a trovoada dos bondes atenua da pela distância. Grasnar de buzinas. Num trecho do Guaíba que se avista longe, entre duas paredes caiadas, passa um veleiro. Para Clarimundo tudo é novidade. Esta hora é uma espécie de parêntese que ele abre em sua vida interior, para contemplar o mundo chamado real. E ele verifica, com divertida surpresa, que continuam a existir os cães e as latas de lixo, apesar de Einstein. O sol brilha e os veleiros passam sobre as águas, não obstante Aristóteles. Seus olhos contemplam a paisagem com a alegria meio inibida duma criança que, vendo-se de repente solta num bazar de brinquedos maravilhosos, não quer no primeiro momento acreditar no testemunho de seus próprios olhos. Clarimundo debruça-se à janela... Então tudo isto existia antes, enquanto ele passava as horas às voltas com números e teorias e cogitações, tudo isto tinha realidade? (Este pensamento é de todas as tardes à mesma hora: mas a surpresa é sempre nova.) E depois, quando ele voltar para os livros, para as aulas, para dentro de si mesmo, a vida ali fora continuará assim, sem o menor hiato, sem o menor colapso? Um galo canta num quintal. Roupas brancas se balouçam ao vento, pendentes de cordas. Clarimundo ali está como um deus onipresente que tudo vê e ouve. A impressão que lhe causam aquelas cenas domésticas o levam a pensar no seu livro. A sua obra... Agora ele já não enxerga mais a paisagem. O mundo objetivo se esvaeceu misteriosamente. Os olhos do professor estão fitos na fachada amarela da casa fronteira, mas o que ele vê agora são as suas próprias teorias e ideias. Imagina o livro já impresso... Sorri, exterior e interiormente. O leitor (a palavra leitor corresponde, na mente de Clarimundo, à imagem dum homem debruçado sobre um livro aberto: e esse homem – extraordinário! – é sempre o sapateiro Fiorello) – o leitor vai se ver diante dum assunto inédito, diferente, original.
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8. PUC-Campinas 2017 Para responder à questão, considere o texto abaixo. Na América Latina do século XX, em incontáveis momentos, a criação artística articulou-se com utopias ou perspectivas de transformação social. Em diferentes contextos, artistas usaram sua produção para corroborar determinados projetos políticos ou consentiram que suas criações fossem apropriadas e sustentadas por movimentos políticos, dentro ou fora do Estado. (PRADO, Maria Ligia; PELLEGRINO, Gabriela. História da América Latina. São Paulo: Contexto, 2014. p. 187-188)
É exemplo de uma literatura engajada em projetos de transformação social uma parte expressiva da obra romanesca de Jorge Amado, na qual, por exemplo, ressalta, em tom de denúncia, a) o melancólico final dos velhos engenhos açucareiros da Paraíba, como narrado nostalgicamente em Fogo morto. b) a reação da sociedade conservadora à vida marginal dos meninos abandonados, exposta com crueza em Capitães da Areia. c) a brutalidade dos coronéis nordestinos do início do século, de hábitos ainda escravocratas, tal como se registra em São Bernardo. d) os hábitos autoritários da casta favorecida pela industrialização do cacau, apontados em Os velhos marinheiros. e) o papel político revolucionário assumido no sertão baiano pela protagonista de Gabriela, cravo e canela.
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9. UFPR 2017 A respeito dos romances Clara dos Anjos, de Lima Barreto, e Fogo Morto, de José Lins do Rego, assinale a alternativa correta. a) Clara dos Anjos é um romance memorialístico, no qual os acontecimentos rememorados permitem compreender a origem da família da protagonista; Fogo Morto é um romance intimista que dá a conhecer a vida de um núcleo familiar aristocrático ao longo da década de 1930. b) Os pontos de vista narrativos desses romances diferem um do outro, porque, em Clara dos Anjos, o narrador participa da trama como personagem, narrando acontecimentos de que participou, enquanto, em Fogo Morto, o narrador é onisciente, dedicando-se a investigar a alma das personagens. c) Nos dois romances, as mulheres pobres não recebem educação formal e são submetidas a uma rotina de violência familiar. Seu destino é o enlouquecimento, como acontece com Marta e Neném em Fogo Morto, ou a insubmissão, como acontece com Clara dos Anjos, que abandona a casa dos pais. d) Nos dois romances, a cultura popular aparece representada pela música, que agrada a diferentes personagens: em Clara dos Anjos, a modinha aproxima Cassi Jones da família de Clara; em
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Capítulo 12
Fogo Morto, as histórias cantadas por José Passarinho ecoam o sofrimento das personagens. e) Nos dois romances, observa-se a geografia suburbana, com favelas construídas em torno da linha férrea, com aglomerados humanos miscigenados e também com o subemprego das personagens, como o carteiro Joaquim dos Anjos e o seleiro José Amaro.
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10. UFRGS 2017 Leia os trechos abaixo, retirados respectivamente do segundo e do penúltimo capítulo de Vidas Secas, de Graciliano Ramos. — Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar sozinho. E, pensando bem, ele não era um homem; era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha olhos azuis e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença de brancos e julgava-se cabra. (Capítulo II). Cabra ordinário, mofino, encolhera-se e ensinara o caminho. Esfregou a testa suada e enrugada. Para que recordar a vergonha? Pobre dele. Estava tão decidido que ele viveria sempre assim? Cabra safado, mole. Se não fosse tão fraco, teria entrado no cangaço e feito misérias. Depois levaria um tiro de emboscada ou envelheceria na cadeia, cumprindo sentença, mas isto não era melhor que acabar-se numa beira de caminho, assando no calor, a mulher e os filhos acabando-se também. Devia ter furado o pescoço do amarelo com faca de ponta, devagar. Talvez estivesse preso e respeitado, um homem respeitado, um homem. Assim como estava, ninguém podia respeitá-lo. Não era homem, não era nada. Aguentava zinco no lombo e não se vingava. (Capítulo XII).
Assinale a alternativa correta sobre os trechos acima. a) No segundo trecho, Fabiano revela o projeto de virar cangaceiro para ser respeitado como um homem. b) No primeiro trecho, Fabiano revela vergonha de se afirmar como homem, por ser “apenas um cabra ocupado em guardar as coisas dos outros”. c) No primeiro e no segundo trechos, a sensação de não ser homem permanece, apesar de Fabiano ter furado o pescoço do soldado amarelo. d) Em ambos os trechos, Fabiano revive a vergonha de ter dito que era homem para o soldado amarelo. e) Na presença dos meninos, Fabiano luta para superar a vergonha de ser cabra e de se afirmar como homem.
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11. Fuvest-SP 2017 Leia o trecho de Vidas secas, de Graciliano Ramos, para, em seguida, responder ao que se pede. Aí Fabiano parou, sentou-se, lavou os pés duros, procurando retirar das gretas fundas o barro que lá havia. Sem se enxugar, tentou calçar-se – e foi uma dificuldade: os calcanhares das meias de algodão formaram bolos nos peitos dos pés e as botinas de vaqueta resistiram como virgens. Sinha Vitória levantou a saia, sentou-se no chão e limpou-se
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
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também. Os dois meninos entraram no riacho, esfregaram os pés, saíram, calçaram as chinelinhas e ficaram espiando os movimentos dos pais. Sinha Vitória aprontava-se e erguia-se, mas Fabiano soprava arreliado. Tinha vencido a obstinação de uma daquelas amaldiçoadas botinas; a outra emperrava, e ele, com os dedos nas alças, fazia esforços inúteis. Sinha Vitória dava palpites que irritavam o marido. Não havia meio de introduzir o diabo do calcanhar no tacão. A um arranco mais forte, a alça de trás rebentou-se, e o vaqueiro meteu as mãos pela borracha, energicamente. Nada conseguindo, levantou-se resolvido a entrar na rua assim mesmo, coxeando, uma perna mais comprida que a outra. Com raiva excessiva, a que se misturava alguma esperança, deu uma patada violenta no chão. A carne comprimiu-se, os ossos estalaram, a meia molhada rasgou-se e o pé amarrotado se encaixou entre as paredes de vaqueta. Fabiano soltou um suspiro largo de satisfação e dor.
hesitou, espiou as lojas, as toldas iluminadas, as moças bem-vestidas. Encolheu os ombros. Talvez aquilo tivesse sido feito por gente. Nova dificuldade chegou-lhe ao espírito, soprou-a no ouvido do irmão. Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questão intricada. Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. Não tinham sido feitas por gente. E os indivíduos que mexiam nelas cometiam imprudência. Vistas de longe, eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para não desencadear as forças estranhas que elas porventura encerrassem.
a) O trecho pertence à parte de Vidas secas intitulada “Festa”, na qual se narra a ida da família de sertanejos, acompanhada da cachorra Baleia, à cidade, onde deve participar de uma festividade pública. Considerada esta questão no contexto do livro, como se passa essa participação e o que ela mostra a respeito da socialização da família? b) O tratamento narrativo dado aos eventos apresentados no trecho confere a ele um tom que contrasta com o que é dominante, no conjunto de Vidas secas. Qual é esse tom? Explique sucintamente.
Sinha Vitória precisava falar. Se ficasse calada, seria como um pé de mandacaru, secando, morrendo. Queria enganar-se, gritar, dizer que era forte, e a quentura medonha, as árvores transformadas em garranchos, a imobilidade e o silêncio não valiam nada. Chegou-se a Fabiano, amparou-o e amparou-se, esqueceu os objetos próximos, os espinhos, as arribações, os urubus que farejavam carniça. Falou no passado, confundiu-se com o futuro. Não poderiam voltar a ser o que já tinham sido?
12. Unicamp-SP 2015 Leia os excertos a seguir. Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia. (Graciliano Ramos, Vidas secas. 118a ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 25.)
Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos. (Graciliano Ramos, Vidas secas. 118a ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 35.)
a) Nos excertos citados, a seca e a falta de educação formal afetam a existência das personagens. Levando em conta o caráter crítico e político do romance, relacione o problema da seca com a questão da escolarização no que diz respeito à personagem Fabiano. b) “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.” Descreva uma passagem do romance em que, por não saber ler e escrever, Fabiano é prejudicado e não consegue se defender.
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13. Unicamp-SP Ocupavam-se em descobrir uma enorme quantidade de objetos. Comunicaram baixinho um ao outro as surpresas que os enchiam. Impossível imaginar tantas maravilhas juntas. O menino mais novo teve uma dúvida e apresentou-a timidamente ao irmão. Seria que aquilo tinha sido feito por gente? O menino mais velho
(Idem, p. 120.)
a) O contraste entre as preciosidades dos altares da igreja e das prateleiras das lojas, no primeiro excerto, e as árvores transformadas em garranchos, no segundo, caracteriza o conflito que perpassa toda a narrativa de Vidas secas. Em que consiste este conflito? b) No primeiro excerto, encontra-se posta uma questão recorrente em Vidas secas: a relação entre linguagem e mundo. Explique em que consiste esta relação na passagem acima.
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14. PUC-Rio 2023
Fragmento de Vidas secas As manchas dos juazeiros tornaram a aparecer, Fabiano aligeirou o passo, esqueceu a fome, a canseira e os ferimentos. As alpercatas dele estavam gastas nos saltos, e a embira tinha-lhe aberto entre os dedos rachaduras muito dolorosas. Os calcanhares, duros como cascos, gretavam-se e sangravam. Num cotovelo do caminho avistou um canto de cerca, encheu-o a esperança de achar comida, sentiu desejo de cantar. A voz saiu-lhe rouca, medonha. Calou-se para não estragar força. Deixaram a margem do rio, acompanharam a cerca, subiram uma ladeira, chegaram aos juazeiros. Fazia tempo que não viam sombra. Sinha Vitória acomodou os filhos, que arriaram como trouxas, cobriu-os com molambos. O menino mais velho, passada a vertigem que o derrubara, encolhido sobre folhas secas, a cabeça encostada a uma raiz, adormecia, acordava. E quando abria os olhos, distinguia vagamente um monte próximo, algumas pedras, um carro de bois. A cachorra Baleia foi enroscar-se junto dele. Estavam no pátio de uma fazenda sem vida. O curral deserto, o chiqueiro das cabras arruinado e também deserto, a casa do
FRENTE 2
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(Graciliano Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 82.)
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vaqueiro fechada, tudo anunciava abandono. Certamente o gado se finara e os moradores tinham fugido. Fabiano procurou em vão perceber um toque de chocalho. Avizinhou-se da casa, bateu, tentou forçar a porta. Encontrando resistência, penetrou num cercadinho cheio de plantas mortas, rodeou a tapera, alcançou o terreiro do fundo, viu um barreiro vazio, um bosque de catingueiras murchas, um pé de turco e o prolongamento da cerca do curral. Trepou-se no mourão do canto, examinou a catinga, onde avultavam as ossadas e negrume dos urubus. Desceu, empurrou a porta da cozinha. Voltou desanimado, ficou um instante no copiar, fazendo tenção de hospedar ali a família. Mas chegando aos juazeiros, encontrou os meninos adormecidos e não quis acordá-los. Foi apanhar gravetos, trouxe do chiqueiro das cabras uma braçada de madeira meio roída pelo cupim, arrancou touceiras de macambira, arrumou tudo para a fogueira. [...] Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus pavores. O coração de Fabiano bateu junto do coração de Sinha Vitória, um abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam. Resistiram à fraqueza, afastaram-se envergonhados, sem ânimo de afrontar de novo a luz dura, receosos de perder a esperança que os alentava. RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio, São Paulo: Record, 1986, p.12-13.
a) Vidas secas é considerado um dos mais importantes romances da literatura brasileira. Publicado em 1938, no momento de valorização das narrativas regionalistas e realistas, o livro retrata, dentre outros temas, a vulnerabilidade das populações marginalizadas. A partir da leitura do fragmento do texto, comente a relação do humano com o meio ambiente presente na obra. b) Determine o foco narrativo utilizado por Graciliano Ramos em Vidas secas e justifique a sua resposta.
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15. Unicamp-SP Leia os seguintes trechos de O cortiço e Vidas secas: O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. [...]. Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulhavam os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. (Aluísio Azevedo, O cortiço. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 2005. p. 462.)
Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera. [...] — Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia
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Capítulo 12
em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: — Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha – e ali estava, forte, até gordo, fumando seu cigarro de palha. — Um bicho, Fabiano. [...] Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado. (Graciliano Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 18-19.)
a) Ambos os trechos são narrados em terceira pessoa. Apesar disso, há uma diferença de pontos de vista na aproximação das personagens com o mundo animal e vegetal. Que diferença é essa? b) Explique como essa diferença se associa à visão de mundo expressa em cada romance.
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16. Fuvest-SP O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender. Graciliano Ramos, Vidas secas.
Considere as seguintes afirmações sobre este trecho de Vidas secas, entendido no contexto da obra, e responda ao que se pede. a) No trecho, torna-se claro que a escassez vocabular do menino contribui de modo decisivo para ampliar as diferenças que distinguem homens de animais. Você concorda com essa afirmação? Justifique, com base no trecho, sua resposta. b) Nesse trecho, como em outros do mesmo livro, é por exprimir suas emoções e sentimentos pessoais a respeito da pobreza sertaneja que o narrador obtém o efeito de contagiar o leitor, fazendo com que ele também se emocione. Você concorda com a afirmação? Justifique sua resposta.
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17. Enem 2017 Tenho visto criaturas que trabalham demais e não progridem. Conheço indivíduos preguiçosos que têm faro: quando a ocasião chega, desenroscam-se, abrem a boca e engolem tudo. Eu não sou preguiçoso. Fui feliz nas primeiras tentativas e obriguei a fortuna a ser-me favorável nas seguintes. Depois da morte do Mendonça, derrubei a cerca, naturalmente, e levei-a para além do ponto em que estava no tempo de Salustiano Padilha. Houve reclamações. — Minhas senhoras, Seu Mendonça pintou o diabo enquanto viveu. Mas agora é isto. E quem não gostar, paciência, vá à justiça.
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RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1990.
O trecho, de São Bernardo, apresenta um relato de Paulo Honório, narrador-personagem, sobre a expansão de suas terras. De acordo com esse relato, o processo de prosperidade que o beneficiou evidencia que ele a) revela-se um empreendedor capitalista pragmático que busca o êxito em suas realizações a qualquer custo, ignorando princípios éticos e valores humanitários. b) procura adequar sua atividade produtiva e função de empresário às regras do Estado democrático de direito, ajustando o interesse pessoal ao bem da sociedade. c) relata aos seus interlocutores fatos que lhe ocorreram em um passado distante, e enumera ações que põem em evidência as suas muitas virtudes de homem do campo. d) demonstra ser um homem honrado, patriota e audacioso, atributos ressaltados pela realização de ações que se ajustam ao princípio de que os fins justificam os meios. e) amplia o seu patrimônio graças ao esforço pessoal, contando com a sorte e a capacidade de iniciativa, sendo um exemplo de empreendedor com responsabilidade social.
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18. UFRGS 2015 Leia as seguintes afirmações sobre a obra de Graciliano Ramos. I. No romance Angústia, Luís da Silva narra seu dilema de ou casar-se com a vizinha Marina ou mudar-se para o Rio de Janeiro para trabalhar como funcionário público. II. Em São Bernardo, Paulo Honório, narrador protagonista, recupera sua trajetória de sucesso econômico, mas de fracasso afetivo. III. No romance Vidas Secas, é narrada a dura trajetória de uma família de retirantes, que luta contra as condições adversas, tanto naturais como sociais.
Quais estão corretas? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas I e II. d) Apenas II e III. e) I, II e III.
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19. Fuvest-SP 2021 — Posso furar os olhos do povo? Esta frase besta foi repetida muitas vezes e, em falta de coisa melhor, aceitei-a. Sem dúvida. As mulheres hoje não vivem como antigamente, escondidas, evitando os homens. Tudo é descoberto, cara a cara. Uma pessoa topa outra. Se gostou, gostou; se não gostou, até logo. E eu de fato não tinha visto nado. As aparências mentem. A terra não é redonda? Esta prova da inocência de Marina me pareceu considerável. Tantos indivíduos condenados injustamente neste mundo ruim! O retirante que fora encontrado violando a filha de quatro anos – estava aí um exemplo. As vizinhas tinham visto o homem afastando as pernas da menina, todo o mundo pensava que ele era um monstro. Engano. Quem pode lá jurar que isto é assim ou assado? Procurei mesmo capacitar-me de que Julião Tavares não existia. Julião Tavares era uma sensação. Uma sensação desagradável, que eu pretendia afastar de minha casa quando me juntasse àquela sensação agradável que ali estava a choramingar. Graciliano Ramos, Angústia.
Em termos críticos, esse fragmento permite observar que, no plano maior do romance Angústia, o ponto de vista a) se acomoda nos limites da vulgaridade. b) tenta imitar a retórica dos dominantes. c) reproduz a lógica do determinismo social. d) atinge a neutralidade do espírito maduro. e) revira os lados contrários da opinião.
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20. Uerr 2023 [Quanto] à questão da incorporação dos pobres pelo romance de 30, é preciso acrescentar que uma abertura desse tipo coloca para o intelectual, oriundo geralmente das classes médias ou de algum tipo de elite decaída, o problema de lidar com um outro. Esse problema foi vivido em profundidade pelos autores daquela década e bem ou mal resolvido de várias maneiras diferentes. [...] Para Graciliano, como se vê, o roceiro pobre é um outro, enigmático, impermeável. Não há solução fácil para uma tentativa de incorporação dessa figura no campo da ficção. E lidando com o impasse, ao invés das fáceis soluções, que Graciliano vai criar Vidas Secas, elaborando uma linguagem, uma estrutura romanesca, uma constituição de narrador, um recorte de tempo, enfim, um verdadeiro gênero a se esgotar num único romance, em que narrador e criaturas se tocam, mas não se identificam. Em grande medida, o impasse acontece porque, para a intelectualidade brasileira daquele momento, o pobre, a despeito de aparecer idealizado em certos aspectos, ainda é visto como um ser humano meio de segunda categoria, simples demais, incapaz de ter pensamentos demasiadamente complexos – lembre-se que a crítica achou inverossímil que Paulo Honório fosse o narrador de S. Bernardo. O que Vidas Secas faz é, com
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Como a justiça era cara, não foram à justiça. E eu, o caminho aplainado, invadi a terra do Fidélis, paralítico de um braço, e a dos Gama, que pandegavam no Recife, estudando direito. Respeitei o engenho do Dr. Magalhães, juiz. Violências miúdas passaram despercebidas. As questões mais sérias foram ganhas no foro, graças às chicanas de João Nogueira. Efetuei transações arriscadas, endividei-me, importei maquinismos e não prestei atenção aos que me censuravam por querer abarcar o mundo com as pernas. Iniciei a pomicultura e a avicultura. Para levar os meus produtos ao mercado, comecei uma estrada de rodagem. Azevedo Gondim compôs sobre ela dois artigos, chamou-me patriota, citou Ford e Delmiro Gouveia. Costa Brito também publicou uma nota na Gazeta, elogiando-me e elogiando o chefe político local. Em consequência mordeu-me cem mil réis.
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um pretenso não envolvimento da voz que controla a narrativa, dar conta de uma riqueza humana de que essas pessoas seriam plenamente capazes. Luís Bueno. Guimarães, Clarice e antes. In: Teresa. Revista de Literatura Brasileira, São Paulo, n. 2, ed. 34, p. 255-256, 2001.
Analisando-se o caso específico do romance de 30 e os elementos gerais do Modernismo brasileiro quanto à questão da representação das classes populares pelos intelectuais, é possível afirmar, com base no texto precedente, que, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a) as estruturas narrativas seguem a linha do romance proletário de Jorge Amado, cuja perspectiva política engajada se reflete na composição do romance pela identificação imediata entre autor e povo. b) tal como na obra do modernista Oswald de Andrade, a adoção de uma linguagem simples, pulsante e semelhante à língua falada aproxima o narrador das classes populares. c) o autor se identifica com o personagem popular graças à reinvenção da língua do povo expressa em neologismos esteticamente refinados, a exemplo do que fez Guimarães Rosa. d) à semelhança de Os sertões, de Euclides da Cunha, a perspectiva do narrador é a do observador culto e distanciado da visão de mundo limitada atribuída ao sertanejo inculto. e) a distância entre autor e personagens populares é problematizada; assim, a perspectiva única do autor não prevalece e manifesta-se a riqueza humana real que constitui os personagens.
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21. Unicamp-SP O excerto abaixo, de Vidas Secas, trata da personagem sinha Vitória: Calçada naquilo, trôpega, mexia-se como um papagaio, era ridícula. Sinha Vitória ofendera-se gravemente com a comparação, e se não fosse o respeito que Fabiano lhe inspirava, teria despropositado. Efetivamente os sapatos apertavam-lhe os dedos, faziam-lhe calos. Equilibrava-se mal, tropeçava, manquejava, trepada nos saltos de meio palmo. Devia ser ridícula, mas a opinião de Fabiano entristecera-a muito. Desfeitas essas nuvens, curtidos os dissabores, a cama de novo lhe aparecera no horizonte acanhado. Agora pensava nela de mau humor. Julgava-a inatingível e misturava-a às obrigações da casa. [...] Um mormaço levantava se da terra queimada. Estremeceu lembrando-se da seca [...]. Diligenciou afastar a recordação, temendo que ela virasse realidade. [...] Agachou-se, atiçou o fogo, apanhou uma brasa com a colher, acendeu o cachimbo, pôs-se a chupar o canudo de taquari cheio de sarro. Jogou longe uma cusparada, que passou por cima da janela e foi cair no terreiro. Preparou-se para cuspir novamente. Por uma extravagante associação, relacionou esse ato com a lembrança da cama. Se o cuspo alcançasse o terreiro, a cama seria comprada antes do fim do ano. Encheu a boca de saliva, inclinou-se – e não conseguiu o que esperava. Fez várias tentativas, inutilmente. [...] Olhou de novo os pés espalmados. Efetivamente não se acostumava a calçar
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Capítulo 12
sapatos, mas o remoque de Fabiano molestara-a. Pés de papagaio. Isso mesmo, sem dúvida, matuto anda assim. Para que fazer vergonha à gente? Arreliava-se com a comparação. Pobre do papagaio. Viajara com ela, na gaiola que balançava em cima do baú de folha. Gaguejava: — “Meu louro.” Era o que sabia dizer. Fora isso, aboiava arremedando Fabiano e latia como Baleia. Coitado. Sinha Vitória nem queria lembrar-se daquilo. (Graciliano Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2007, p. 41-43.)
a) Por que a comparação feita por Fabiano incomoda tanto sinha Vitória? Que lembrança evoca? b) Tendo em vista a condição e a trajetória de sinha Vitória, justifique a ironia contida no nome da personagem. Que outra personagem referida no excerto também revela uma ironia no nome?
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22. Enem 2018 Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. RAMOS, G. Infância. Rio de Janeiro: Record, 1998.
Num texto narrativo, a sequência dos fatos contribui para a progressão temática. No fragmento, esse processo é indicado pela a) alternância das pessoas do discurso que determinam o foco narrativo. b) utilização de formas verbais que marcam tempos narrativos variados. c) indeterminação dos sujeitos de ações que caracterizam os eventos narrados. d) justaposição de frases que relacionam semanticamente os acontecimentos narrados. e) recorrência de expressões adverbiais que organizam temporalmente a narrativa.
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23. UPE [...] Uma tarde surpreendi no oitão da capela [...] Luís Padilha discursando para Marciano e Casimiro Lopes: — Um roubo. É o que tem sido demonstrado categoricamente pelos filósofos e vem nos livros. Vejam: mais de uma légua de terra, casas, mata, açude, gado, tudo de um homem. Não está certo. — O senhor tem razão, seu Padilha. Eu não entendo, sou bruto, mas perco o sono assuntando nisso. A gente se mata por causa dos outros. É ou não é Casimiro? Casimiro Lopes franziu as ventas, declarou que as coisas desde o começo do mundo tinham dono. — Qual dono! gritou Padilha. O que há é que morremos trabalhando para enriquecer os outros. [...] Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.
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(Graciliano Ramos. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1984, pp. 59, 60, 101, 187).
Considerando os fragmentos anteriores no contexto do romance, analise as afirmativas e conclua. O romance trata dos grandes latifundiários, ou seja, donos de grandes extensões de terras que se enriquecem apropriando-se do trabalho de pessoas pertencentes às camadas mais pobres da sociedade, sem lhes pagarem o que merecem. “vida agreste” e “alma agreste”, a que Paulo Honório se refere, significa que ele tinha esses atributos por residir no Nordeste do país. Paulo Honório conseguiu se apropriar da fazenda São Bernardo, da vida das pessoas que trabalhavam com ele, porém não conseguiu se apropriar da vida de Madalena, sua esposa. A narrativa traz uma das características predominantes na escritura de Graciliano Ramos, que é a elaboração através de períodos breves, obtendo o máximo de efeito com o mínimo de recursos. Paulo Honório, perseguido pelo remorso, utiliza-se da narrativa em terceira pessoa para contar a sua própria história e, com isso, afastar seus fantasmas.
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24. UFMG Leia estes trechos: Trecho 1 O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe tia barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito eterno, como se diz nas autopsias; o interno não aguenta tinta. MACHADO DE ASSIS, J. M. Dom Casmurro. São Paulo: Globo, 1997. p. 3.
Trecho 2 Desse antigo verão que me alterou a vida restam ligeiros traços apenas. E nem deles posso afirmar que efetivamente me recorde. O hábito me leva a criar um ambiente, imaginar fatos a que atribuo realidade. RAMOS, Graciliano. Infância. Rio de Janeiro: Record. 1984. p. 26.
A partir da leitura desses trechos, EXPLIQUE como, em cada uma das obras referidas, o narrador aborda as possibilidades de a escrita reconstituir o passado.
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25. Explique a estratégia usada por Graciliano Ramos para caracterizar sua personagem no trecho a seguir. [...] Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro
entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade, falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas. [...] RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 2013. p. 18. 001598_por_f2_c12_q0073objetiva
26. Angústia, de Graciliano Ramos, faz parte do ciclo de romances regionalistas da segunda geração dos modernistas brasileiros. A obra apresenta algumas características específicas que a classificam como: a) romance intimista. d) romance de folhetim. b) romance engajado. e) obra de tese. c) romance social. 001598_por_f2_c12_q0074objetiva
27. PUC-Campinas 2016 Por vezes, a literatura pode se pautar por diferentes tempos: há o tempo da história narrada, de sua sequência cronológica, e há o tempo da linguagem que processa essa história. A linguagem experimental do irlandês James Joyce reinterpreta, em pleno século XX, a história mítica de Ulisses. No Brasil, há uma ocorrência similar, se pensamos em Grande sertão: veredas, romance no qual Guimarães Rosa articula magistralmente dois planos temporais: a) a história do passado colonial e o registro das velhas crônicas medievais. b) o ritmo cantante da lírica e a urgente denúncia política. c) o universo arcaico do sertão e a expressão linguística ousada e inventiva. d) a corrosão nostálgica da memória e a busca de uma nova mitologia. e) o desapego às crenças do passado e a obsessão pelo experimentalismo estético. 001598_por_f2_c12_q0075objetiva
28. Unisc-RS 2016 Relacione os autores listados abaixo com as informações apresentadas a seguir. (1) Oswald de Andrade (2) João Guimarães Rosa (3) Clarice Lispector
(4) Graciliano Ramos (5) Jorge Amado
Escreveu o romance Grande sertão: veredas, relevante obra da terceira geração do Modernismo brasileiro. É de sua autoria o romance Memórias sentimentais de João Miramar. Vidas Secas é uma de suas obras mais conhecidas. Escreveu romances importantes da nossa literatura, tais como Capitães de areia e Gabriela, cravo e canela. A paixão segundo GH é um exemplo da sua prosa intimista e psicológica. A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é a) 3 – 4 – 2 – 1 – 5. d) 2 – 5 – 1 – 3 – 4. b) 2 – 1 – 4 – 5 – 3. e) 4 – 3 – 5 – 1 – 2. c) 5 – 3 – 4 – 1 – 2.
FRENTE 2
[...] Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo. Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.
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29. EsPCEx-SP 2015 Leia o trecho a seguir e responda. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. Os gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte.
O artigo de Euclides da Cunha, publicado em 1897, aborda o espaço do sertão de uma perspectiva diferente da abordada por Guimarães Rosa. Considerando o momento literário em que os autores produzem suas obras, explique as diferenças no significado do sertão.
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31. Fuvest-SP 2021 Leia o texto e responda à questão. Só a Rosa parecia capaz de compreender no meio do sentir, mas um sentimento sabido e um compreendido adivinhado. Porque o que Miguilim queria era assim como algum sinal do Dito morto ainda no Dito vivo, ou do Dito vivo mesmo no Dito morto. Só a Rosa foi quem uma vez disse que o Dito era uma alminha que via o Céu por detrás do morro, e que por isso estava marcado para não ficar muito tempo mais aqui. E disse que o Dito falava com cada pessoa como se ela fosse uma, diferente; mas que gostava de todas, como se todas fossem iguais. E disse que o Dito nunca tinha mudado, enquanto em vida, e por isso, se a gente tivesse um retratinho dele, podia se ver como os traços do retrato agora mudavam. Mas ela já tinha perguntado, ninguém não tinha um retratinho do Dito. E disse que o Dito parecia uma pessoinha velha, muito velha em nova.
Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas.
Quanto ao trecho, é correto afirmar que a) não há ponto de vista do narrador, que apenas relata as impressões alheias. b) apresenta alguns neologismos, como “toleima”, “almargem”, “opiniães” e “oestes”. c) não há abordagem universal, a passagem constitui apenas uma descrição do sertão. d) o trecho transpõe os limites do regional, alcançando a dimensão universal. e) transparece todo misticismo sertanejo, baseado apenas nos dois extremos: o bem e o mal.
João Guimarães Rosa. Campo Geral.
a) Sabendo que o quiasmo é uma figura de estilo formada por uma dupla antítese cujos termos se cruzam, identifique um exemplo de quiasmo no texto e explique a sua construção. b) Nas palavras do crítico Paulo Rónai, o escritor Guimarães Rosa sonda as suas personagens “num momento de crise, quando, acuadas pelo amor, pela doença ou pela morte, procuram desesperadamente tomar consciência de si mesmas e buscam o sentido de sua vida”. Como a ausência de Dito desperta a inquietação de Miguilim?
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30. Leia os trechos seguintes para responder à questão. Texto I E sobre as chapadas desertas e desoladas alevantam-se quase que exclusivamente os mandacarus (cereus) silentes e majestosos; árvores providenciais em cujos galhos e raízes armazenam-se os últimos recursos para a satisfação da sede e da fome ao viajante retardatário – cactáceas gigantes que, revestidas de grandes frutos de um vermelho rutilante e subdividindo-se com admirável simetria em galhos ascendentes, igualmente afastados, patenteiam a conformação típica e bizarra de grandes candelabros firmados sobre o solo…
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32. UnB-DF (Adapt.) No texto a seguir, de João Guimarães Rosa, a face, a imagem, está no âmbito da reflexão especular: real, virtual, simbólica.
O espelho
CUNHA, Euclides da. A nossa Vendéia. Euclidesite. Obras de Euclides da Cunha. Crônicas. Disponível em: https://euclidesite.com.br/obras-deeuclides/cronicas/a-nossa-vendeia/. Acesso em: 12 dez. 2023.
Texto II O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. [...] Em termos, gostava que morasse aqui, ou perto, era uma ajuda. Aqui não se tem convívio que instruir. Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso... ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 20. ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
246 LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 12
5
10
15
20
Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo. Surpreendo-me, porém, um tanto à parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha ideia do que seja, na verdade — um espelho? Decerto, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da ótica. Reporto-me ao transcendente, todavia... O espelho, são muitos, captando-lhe as feições; todos refletem-lhe o rosto, e o senhor crê-se com aspecto próprio e praticamente inalterado, do qual lhe dão imagem fiel. Mas — que espelho? Há-os bons e maus, os que favorecem e os que detraem; e os que são apenas honestos, pois não. E onde situar o nível e ponto dessa honestidade ou fidedignidade? Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível? O senhor dirá: as fotografias o comprovam. Respondo: que, além de prevalecerem para as lentes das máquinas objeções análogas, seus resultados
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
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apoiam antes que desmentem a minha tese, tanto revelam superporem-se aos dados iconográficos os índices do misterioso. Ainda que tirados de imediato, um após outro, os retratos sempre serão entre si muito diferentes. E as máscaras, moldadas nos rostos? Valem, grosso modo, para o falquejo das formas, não para o explodir da expressão, o dinamismo fisionômico. Não se esqueça, é de fenômenos sutis que estamos tratando. 25 Resta-lhe argumento: qualquer pessoa pode, a um tempo, ver o rosto de outra e sua reflexão no espelho. O experimento, por sinal ainda não realizado com rigor, careceria de valor científico, em vista das irredutíveis deformações, de ordem psicológica. Além de que a simultaneidade torna-se impossível, no fluir de valores instantâneos. Ah, o tempo é o mágico de todas as traições... E os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação de origem, defeitos com que cresceram e a que se afizeram, mais e mais. Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim. Ah, meu 30 amigo, a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica, mas algo ou alguém de tudo faz brecha para rir-se da gente... Vejo que começa a descontar um pouco de sua inicial desconfiança quanto ao meu são juízo. Fiquemos, porém, no terra a terra. Rimo-nos, nas barracas de diversões, daqueles caricatos espelhos, que nos reduzem a mostrengos, esticados ou globosos. Mas, se só usamos os planos, deve-se a que primeiro a humanidade mirou-se nas superfícies de água quieta, 35 lagoas, fontes, delas aprendendo a fazer tais utensílios de metal ou cristal. Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse... Sim, são para se ter medo, os espelhos... João Guimarães Rosa. O espelho. In: Primeiras estórias. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, v. 2, p. 437-55 (com adaptações).
Com referência ao texto O espelho, e a questões por ele suscitadas, julgue os itens a seguir. No fragmento de texto apresentado, extraído de um conto de Guimarães Rosa, o estilo de composição diverge esteticamente do verificado na obra-prima do autor, Grande Sertão: Veredas, caracterizada pelo regionalismo pitoresco e folclórico, avesso a reflexões filosóficas, transcendentes ou existenciais. Na estrutura “do qual lhe dão imagem fiel” (l. 12 e 13), a expressão “imagem fiel”, em termos semânticos, é a informação nova do período, tendo em vista que os elementos “do qual”, “lhe” e “dão” retomam, respectivamente, referência em constituintes sintáticos anteriores, a saber: “aspecto próprio e praticamente inalterado” (l. 11 e 12); “o senhor” (l. 11); e “todos” (l. 11), sujeito da oração. Levando em consideração o texto em seu nível semântico e, ainda, o que o narrador postula acerca da reflexão de imagens em espelho plano, os vocábulos “fotografias” (l. 18), “lentes” (l. 20), “olhos” (l. 28 e 29), bem como a expressão “superfícies de água quieta” (l. 34) e os correlatos, formariam um conjunto lexical e semântico cujo traço unificador evidenciaria, na ótica do narrador, uma simplificação da realidade operada pela visão e pelo cérebro. As estruturas “Não se esqueça, é de fenômenos sutis que estamos tratando” (l. 24) e Não se esqueça, estamos tratando de fenômenos sutis são análogas no que se refere aos constituintes sintáticos, mas se distinguem quanto a efeitos discursivos: a primeira, mas não a segunda, evidencia feitos obtidos pela focalização de complemento verbal.
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33. Fuvest-SP 2019 Leia os textos. — Eu acho que nós, bois, — Dançador diz, com baba — assim como os cachorros, as pedras, as árvores, somos pessoas soltas, com beiradas, começo e fim. O homem, não: o homem pode se ajuntar com as coisas, se encostar nelas, crescer, mudar de forma e de jeito… O homem tem partes mágicas… São as mãos… Eu sei… João Guimarães Rosa, “Conversa de bois”. Sagarana.
Um boi vê os homens
Carlos Drummond de Andrade, “Um boi vê os homens”. Claro enigma.
a) Em ambos os textos, o assombro de quem vê decorre das avaliações contrastantes sobre quem é visto. Justifique essa afirmação com base em cada um dos textos. b) O conto de Rosa e o poema de Drummond valem-se de uma mesma figura de linguagem. Explicite essa figura e justifique sua resposta.
FRENTE 2
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente falta-lhes não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno, como também parecem não enxergar o que é visível e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade. [...]
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BNCC em foco 001598_por_f2_c12_q0083discursiva
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1. Leia o trecho a seguir. [...] O padre José Pedro dizia que a culpa era da vida e tudo fazia para remediar a vida deles, pois sabia que era a única maneira de fazer com que eles tivessem uma existência limpa. Porém uma tarde em que estava o padre e estava o João de Adão, o doqueiro disse que a culpa era da sociedade mal organizada, era dos ricos... Que enquanto tudo não mudasse, os meninos não poderiam ser homens de bem. E disse que o padre José Pedro nunca poderia fazer nada por eles porque os ricos não deixariam. O padre José Pedro naquele dia tinha ficado muito triste, e quando Pirulito o foi consolar, explicando que ele não ligasse ao que João de Adão dizia, o padre respondeu balançando a cabeça magra. — Tem vezes que eu chego a pensar que ele tem razão, que isso tudo está errado. Mas Deus é bom e saberá dar o remédio... [...] AMADO, Jorge. Capitães da areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 118.
Jorge Amado foi um autor engajado e interessado em temas relacionados à miséria do povo brasileiro. Que crítica podemos observar no trecho lido?
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2. Leia o trecho a seguir. Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios. [...] Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que emagreceram. As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das palmas cicatrizaram. Impossível trabalhar. Dão-me um ofício, um relatório, para datilografar, na repartição. Até dez linhas vou bem. Daí em diante a cara balofa de Julião Tavares aparece em cima do original, e os meus dedos encontram no teclado uma resistência mole de carne gorda. [...] Em duas horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisas absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. [...] Enxoto as imagens lúgubres. Vão e voltam, sem vergonha, e com elas a lembrança de Julião Tavares. Intolerável. Esforço-me por desviar o pensamento dessas coisas. Não sou um rato, não quero ser um rato. Tento distrair-me olhando a rua. [...] RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2020. p. 8-11.
No trecho, o narrador Luís da Silva evidencia que sua relação com o passado se associa a: a) saudade. b) remorso. c) medo. d) tormento. e) dúvida.
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3. Sobre a Geração de 1945, ou seja, a prosa neomodernista, assinale V (verdadeiro) ou F (falso) nas afirmativas a seguir. Movimento de renovação cultural e artística que buscava definir uma identidade nacional e opunha-se ao modo de vida e aos ideais da elite brasileira. Fase heroica, caracterizada por intenso experimentalismo na forma e nos temas. Os escritores desse período tentaram incorporar os motes vanguardistas à literatura nacional. Período de continuação do neorrealismo, tanto na vertente urbana como na regionalista. Expansão do regionalismo e inovações temáticas e linguísticas, com destaque para Guimarães Rosa. Período em que surgiu o verde-amarelismo, manifestação contrária à estética pau-brasil. Defesa de uma arte genuinamente nacional, ufanista e valorização do elemento indígena.
248 LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo 12
Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
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Gabarito Frente 1 Capítulo 11 — Pontuação: emprego e efeitos de sentido Revisando
2. C
1. A
3. A
5. A
7. B
2. A
4. A
6. E
8. C
Exercícios propostos 1. a)
(o break dancing difundido, para além dos guetos, com o nome de cultura hip hop. O break dancing surge como uma dança de rua. O grafite nasce de assinaturas inscritas pelos jovens com sprays nos muros, trens e estações de metrô de Nova York. As linguagens do rap e do break dancing se tornaram os pilares da cultura hip hop.
Assim como num jogo de dominó, em que é preciso encaixar as peças de acordo com um padrão, a autora explica que a biografia era não apenas um texto sobre a vida de alguém, mas também uma homenagem, que deveria ser escrita por alguém igualmente importante. Assim, o jogo de dominó a que a autora se refere é esse jogo de encaixar alguém que pudesse enaltecer o biografado (quem produzia a biografia indicava a importância do biografado), o que também, por consequência, seria um elogio à instituição e ao país.
b) A locução “a princípio” é um adjunto adverbial de tempo, que, pelo fato de estar deslocado no período (no início da oração a que se refere), foi colocado entre vírgulas. Já a oração “quando um dos sócios falecia” é adverbial temporal e também foi colocada antes da oração principal no período do qual faz parte (e após o conectivo, “isto é”, que introduz uma explicação para o período anterior), por isso a colocação entre vírgulas. 2. B
6. B
10. B
3. D
7. A
11. D
4. D
8. E
12. C
5. A
9. C
13. D
14. A
16. B
21. Certo.
26. A
31. A
17. A
22. D
27. B
32. D
18. A
23. B
28. B
19. C
24. D
29. B
20. B
25. D
30. C
3. A
5. C
4. B
6. D
Revisando 1. A
5. D
2. D
6. Soma: 01 + 04 = 05
3. A
7. D
4. C
8. Soma: 02 + 04 + 08 = 14
Exercícios propostos 13. B
1. E
5. E
9. A
2. C
6. D
10. C
14. B
3. B
7. B
11. E
15. D
4. B
8. D
12. A
16. C
Exercícios complementares 1. Soma: 01 + 04 = 05
9. B 10. D
3. D
11. E
4. F; F; V; F; V
12. C
5. C
13. C
6. E
14. A
7. D
15. Soma: 01 + 02 + 16 = 19
8. D
16. D
BNCC em foco 1. Soma: 01 + 08 + 16 = 25 2. B
Exercícios complementares 1. C
Capítulo 12 — Regências verbal e nominal
2. B
15. O uso da vírgula é obrigatório, já que há vírgula depois do termo “passo a passo”, indicando que se trata de um adjunto adverbial deslocado.
2. A
3. C
7. B
8. Agora, vivendo sob a vigilância do Programa de Proteção a Testemunhas, leva uma vida tranquila ao lado de Debra (Vanessa Angel), sua esposa. Porém, liderada por Miles (Michael Beach), uma gangue de mafiosos, frios e armados até os dentes, está em sua perseguição, para recuperar o dinheiro roubado e se vingar de Bill. 9. C
15. E
21. C
27. D
10. D
16. B
22. B
28. C
3. Segundo a norma-padrão, o primeiro período do texto deve ser escrito da seguinte maneira: “O artista Juan Diego Miguel apresenta, no Museu Brasileiro de Escultura (MUBE), a exposição ‘Arte e Sensibilidade’, composta de suas obras, que acabam de chegar ao país”.
Capítulo 13 — Crase Revisando 1. B
5. Soma: 01 + 02 + 08 = 11
2. A
6. C
11. B
17. B
23. D
29. E
3. A
7. A
12. C
18. B
24. C
30. E
4. D
8. C
13. E
19. D
25. D
31. A
14. E
20. D
26. C
32. E
BNCC em foco 1. Texto original: O rap, palavra formada pelas iniciais de rhythm and poetry (ritmo e poesia), junto com as linguagens da dança
Exercícios propostos 1. D 2. E 3. A 4. Soma: 01 + 04 = 05
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5. D
9. C
13. D
17. A
9. A
15. E
21. B
27. A
6. A
10. C
14. E
18. A
10. D
16. A
22. A
28. C 29. E
7. C
11. B
15. B
11. C
17. A
23. C
8. E
12. E
16. D
12. D
18. E
24. C
13. E
19. D
25. D
14. D
20. A
26. E
Exercícios complementares 1. E
3. E
5. C
2. E
4. A
6. C
7. B
8. A crase antes de nome de lugar deve ser utilizada apenas para os casos em que o nome admitir o artigo “a” e desde que o termo regente exija complemento ligado pela preposição “a”. Portanto, há crase em “à França”, mas não há crase em “a Paris”.
30. a) Entre a imagem estilizada dos dedos e as palavras “digital” e “diferença” há uma relação de reiteração, que se dá pela disposição principal de quatro dedos caracterizados como pessoas com características diferentes. Além disso, “digital” alude à impressão digital relacionada à biometria, e “diferença”, à capacidade de verificação da identidade de uma pessoa. b) A reescrita fica: “Venhamos para a biometria. Cadastremos nossas digitais”.
9. A 10. A 11. A afirmativa é falsa, pois, quando o substantivo “casa” for empregado no sentido de “lar”, “residência”, não se usa a crase, mas, se vier especificado de algum modo, o emprego da crase é obrigatório. 12. A
14. D
13. A
15. D
31. A 32. C
Exercícios complementares 1. a) Essa palavra foi criada a partir do substantivo próprio “Bacurau”, mais a inserção do sufixo “-izar”. É justamente a inclusão desse sufixo que indica que a nova palavra é um verbo no infinitivo.
16. A
BNCC em foco 1. D 2. O anúncio está correto quanto à gramática, pois não se usa o acento grave antes de verbo. 3. C
Capítulo 14 — Verbo: propriedades gramaticais e semânticas
b) Há várias possibilidades de criação de frases, desde que seja no sentido trazido no texto II. Exemplos: “Diante do abandono de Bacurau pelas autoridades, os moradores se bacuralizam para sobreviver” (acepção 1); “Para escapar às ações do prefeito, a comunidade decide se bacuralizar” (acepção 2). 2. B
12. A
3. D
13. B
4. B
14. D
5. D
Revisando
15. D
6. D
1. a) A forma verbal “gostaria” está conjugada no futuro do pretérito do modo indicativo, cujo tempo verbal expressa possibilidade, hipótese ou desejo. A personagem da tirinha, ao fazer uso dessa forma verbal, expressa o desejo de que as pessoas a vejam de acordo com os padrões de beleza exigidos socialmente. Já a forma verbal “acho”, conjugada no presente do indicativo, indica uma ação frequente, o que remete à forma negativa que a personagem às vezes vê de si mesma e que corrobora com a forma que os outros também a veem, ou seja, com uma aparência desconectada dos padrões sociais de beleza feminina. b) A personagem da cartunista Laerte, ao concluir seu monólogo, cita o trecho de um poema de Mário Quintana, o poeta da simplicidade, apresentando uma visão lírica de si mesma e distanciando-se de toda a opressão relacionada à sua aparência, uma visão poética que lhe propicia liberdade. O pronome “eles”, presente no verso citado, interfere na ambiguidade em relação a que ou a quem a personagem se refere, se aos “padrões” de beleza, se aos próprios “pensamentos” ou aos “outros” (aqueles que a observam); de toda maneira, ela se apropria do verso de Quintana para se transformar em passarinho e seguir sua vida de forma leve e livre de qualquer julgamento. 2. E
5. E
3. C
6. B
4. E
7. C
17. B
8. D 9. A
18. D
10. C
19. E
11. B
20. A
21. a) Não. O sentido que se atribui no texto é o de um discurso longo, pomposo e sem ideias originais, opondo-se claramente àquele atribuído pelo dicionário Houaiss, uma vez que este classifica a palavra “retórica” positivamente, ao destacar sua eloquência e seu bom desenvolvimento argumentativo. b) Em “embora não se encontrem nos seus longos discursos e muitos volumes nem uma ideia original, nem uma só observação própria”, podemos fazer a conversão da forma verbal “se encontrem” para “sejam encontradas”. No segundo caso, a forma verbal “houvera” poderá ser substituída por “houvesse”. Então, teremos: “E disto ninguém se escandaliza; o escândalo viria se houvesse originalidade”. 22. C
25. A
28. C
31. A
23. A
26. D
29. E
32. D
24. B
27. D
30. E
BNCC em foco 1. B 2. a) O problema da destruição do meio ambiente. Trechos como “economize água”, “separe o lixo”, “mantenha torneira fechada”, entre outros, ajudam a construir a proposta de preservação ambiental do anúncio.
8. Soma: 02 + 04 = 06
Exercícios propostos 1. C
3. A
5. C
7. A
2. A
4. B
6. D
8. A
250 LÍNGUA PORTUGUESA
16. E
7. B
b) Imperativo afirmativo: “economize”, “separe”, “evite” e “mantenha”. Imperativo negativo: “não jogue” e “não deixe”. 3. C
Gabarito
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Frente 2 Capítulo 10 — Heróis do Modernismo no Brasil Revisando 1. As referências à infância têm tom nostálgico, pois, tal como as poesias do Romantismo, o apelo à saudade do passado pessoal é um recurso para romper com a dor do momento presente. Nesse sentido, os poemas do autor apresentam, como afirma Rosenbaum, “brincadeira de uma trova, de uma cantiga, de uma música, que recriam a atmosfera encantatória, infantil”. 2. D 3. Oswald de Andrade utiliza o termo “alimária” (quadrúpedes que servem como besta de carga) para aludir ao passado rural que atravanca a passagem do progresso na cidade de São Paulo. O adjetivo “pobre” indica o sentimento do eu lírico em relação ao animal que é chicoteado pelo “lesto carroceiro” por atrapalhar os “advogados para o escritório”. 4. O pajé se esgueira mal entre as locomotivas, o que evidencia que o espaço das terras indígenas foi tomado pelo processo de urbanização da cidade de São Paulo. 5. O verso “A marquesa botou sua imperial bundinha!...” é um exemplo do tom de deboche e irreverência dos modernistas ao processo de modernização e crescimento acelerado da cidade de São Paulo; a expressão “bundinha” remete ao modo pejorativo de se referir à marquesa. 6. A rapsódia é uma composição artística formada por vários elementos tradicionais e populares, e Macunaíma é um livro construído a partir da vasta pesquisa de Mário de Andrade sobre lendas, superstições, provérbios e anedotas do folclore brasileiro. 7. O Modernismo foi um movimento artístico interessado em resgatar a história e a cultura nacional, valorizando a pluralidade étnico-cultural. O livro Macunaíma procura evidenciar esse aspecto na imagem de um herói que representa a coletividade, a pluralidade, a multiplicidade brasileira. Essa imagem é alcançada com base na pesquisa da vasta cultura nacional. 8. Pierrot é um palhaço triste que vive um amor platônico por Colombina, para quem ele não se declarava. Sua representação com lágrima no rosto e uma flor na mão é a marca do sofrimento pelo amor não correspondido. Diferentemente, Arlequim é a alegria e a diversão, um palhaço esperto e preguiçoso, que costuma pregar peças nos outros. 9. Resposta pessoal.
Exercícios propostos 1. B 2. E
para a construção da imagem do Brasil: o colorido e a ausência de margens claras e definidas representam o espírito do país em construção. O Brasil possui diversidade étnico-racial, numerosas realidades e histórias distintas que o compõem; dessa forma, Mário de Andrade propõe a unidade a partir da heterogeneidade. 9. B
11. B
10. B
12. A
13. A imagem do “elevador” contrasta com elementos considerados tradicionalmente poéticos (ao mencionar a natureza, em “flor”, “beija-flor”) e sentimentos como a “dor”, no campo da subjetividade. Isso comprova como o cotidiano é incorporado à esfera da arte no Modernismo. O elevador, meio amplamente utilizado em prédios de centros urbanos, em “nada” dialoga com a beleza da natureza ou a subjetividade de um sentimento, estando no campo prático da vida cotidiana e, ainda assim, também pode conter poesia. 14. a) O espaço urbano em que se desenrola esse fragmento da narrativa é a cidade de São Paulo. O trecho referencia o bairro Higienópolis, onde ocorria uma explosão demográfica ocasionada pela chegada de imigrantes vindos da Europa. O desenvolvimento urbano era acelerado e desorganizado, o que é característico das megacidades. b) Pelos estrangeirismos presentes no texto, podem ser identificadas, ao menos, três referências culturais: a cultura inglesa em “back” e “shoots”; a cultura italiana em “si sinhore”; e a cultura francesa em “gaffes”. 15. E 17. C 19. B 16. E
b) A presença do verso livre na obra poética de Manuel Bandeira é justificada pelo movimento estético do qual ele fazia parte: a primeira geração modernista. Uma das características nas obras da primeira geração é a rejeição ao rigor formal característico de estéticas anteriores, como o Parnasianismo. Os modernistas acreditavam que a utilização de versos livres auxiliava no desencarceramento da poesia. 22. A
4. O termo “rapsódia” se relaciona à mistura de estilos, o que em Macunaíma se liga aos elementos lendários, além da composição baseada em textos da tradição literária ressignificados por Mário de Andrade. A adoção de mitos do folclore brasileiro marca a originalidade de que trata Gilda de Mello e Souza, pois o livro não se propõe à verossimilhança ou a mimésis, não ficando “na dependência constante que a arte estabelece entre o mundo objetivo e a ficção”.
23. D
6. C 7. A 8. Mário de Andrade trabalhou obstinadamente pela definição de uma identidade nacional para o Brasil. Arlequim – personagem da Commedia dell’arte que foi criado para entreter e divertir a plateia durante o intervalo dos espetáculos –, com sua imagem carnavalesca, roupa feita de retalhos coloridos e combinados em forma de losangos em uma única peça, foi a figura escolhida
20. B
21. a) Nos primeiros versos do poema, o eu lírico enumera seus desejos de vida, como ver as belezas das coisas simples, visitar lugares inacessíveis e cidades distantes, rever sua terra natal (Pernambuco), encontrar-se com várias mulheres que ele deseja etc. No último verso, no entanto, ele expõe a dureza da matemática da vida quando diz “Vida noves fora zero”. “Noves fora” ou a prova dos nove consiste em uma técnica matemática que é um teste de validade para as quatro operações matemáticas básicas, muito utilizado quando as calculadoras ainda não eram tão populares. O trecho “Vida noves fora zero” significa que, após a soma de tudo o que a vida lhe ofereceu, nada restou. Outra interpretação possível para este verso é a de que é necessário viver a vida real, sem mistificação.
3. C
5. D
18. D
24. B
Exercícios complementares 1. D
3. C
5. C
2. B
4. B
6. A
7. E
8. No verso “Sou um tupi tangendo um alaúde”, é possível perceber o ponto de vista do Modernismo, em que há a mistura de um elemento da cultura europeia (alaúde) ao da cultura brasileira (tupi). O trovador de Mário de Andrade não se enquadra nas características do trovador europeu medieval, mas se define por suas características indígenas: um tupi tangendo um alaúde. 9. D 10. O principal traço que distingue a obra Memórias sentimentais de João Miramar como vanguarda modernista é a escrita fragmentada, caracterizada pelo fato de os episódios estarem numerados e separados, o que não permite que a leitura seja feita de forma
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linear, que é um aspecto tradicional. Outros pontos marcantes são a utilização de linguagem coloquial, a falta de pontuação e construções que exploram a sintaxe. 11. C
16. D
12. B
17. A
13. D
18. Soma: 02 + 08 + 32 = 42
14. A
19. C
15. A. 20. a) Tradicionalmente, a poesia lírica distingue-se pela enunciação de um sujeito lírico, ou seja, pela expressividade poética de uma subjetividade, suas emoções, seus sentimentos. Já no poema de Manuel Bandeira, a objetividade predomina na enunciação poética em detrimento da subjetividade. b) Há uma série de elementos no poema que evidenciam seu caráter narrativo. A voz poética configura-se como um narrador-observador, ou seja, simula um foco narrativo em 3a pessoa, que conta sucintamente a trajetória da personagem João Gostoso. Para a organização temporal do enredo, os verbos estão conjugados ora no pretérito imperfeito, para evidenciar ações que se prolongam no passado (“era” e “morava”), ora no pretérito perfeito, para a enumeração de uma sequência de ações pontuais (“chegou”, “bebeu”, “cantou”, “dançou” etc.). Além disso, o enredo de João Gostoso culmina, enfim, no clímax (“se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado”). 21. Quanto à natureza temática, o poema de Manuel Bandeira transforma em matéria poética um evento colhido de “uma notícia de jornal”, distanciando-se do lema “arte pela arte” parnasiano ou do transcendentalismo simbolista. No que tange à natureza formal, o poema opta pelo verso livre, pela irregularidade métrica, pela inexistência de rimas e pelas formulações sintáticas simples e próximas da oralidade e da coloquialidade, opondo-se às estéticas parnasiana e simbolista, que prezavam por inversões sintáticas complexas, vocabulário erudito, rimas raras e formas tradicionais da poesia, como o soneto. 22. C
Capítulo 11 — O Modernismo no Brasil: a poesia mística e social Revisando 1. B 2. A 3. A estrutura da obra de Cecília Meireles é inspirada nas narrativas medievais de origem oral chamadas de romances. Cecília organiza seus 85 romances em cinco partes, sendo que cada um deles tem o ritmo marcado pelo verso redondilho, ou seja, cinco e sete sílabas métricas, o que dá fluidez à leitura. 4. O ouro foi um dos motivadores da Inconfidência Mineira e foi por dinheiro que os inconfidentes foram traídos, daí o ouro ser simbolizado no Romanceiro da Inconfidência como um objeto que desperta ganância, violência e morte. 5. Antonio Candido afirma que há dualismo no próprio título, uma vez que o pastor pianista pode tocar ou apascentar os pianos na planície. O pastor é um termo que se refere ao ambiente campestre, no entanto, pastor que apascenta pianos está fora da lógica e da realidade, por isso o termo “pianista” pode funcionar como adjunto adnominal que amplia a linguagem poética. 6. Trata-se do Surrealismo; seu efeito está na ampliação da linguagem, na figuração de pianos sendo apascentados por um pianista em plena planície, como se fosse a descrição de uma cena onírica. 7. A expressão “Essa negra Fulô” é a reprodução da fala da sinhá e representa as relações de poder do sistema escravocrata. A repetição do verso é uma reiteração da denúncia dessas relações no plano das violências raciais, entre outras presentes no poema.
23. Soma: 02 + 16 = 18 24. E
BNCC em foco 1. Como se afirma no texto de Elaine Patricia Cruz sobre a Semana de 22, os modernistas “fizeram de tudo para que realmente ela fosse polêmica e para se alinhar à ideia de vanguarda”, o que significa que o valor da semana foi construído ao longo dos anos que se seguiram. Alguns fatos, por exemplo, foram apagados da história do grande evento cultural ocorrido em fevereiro de 1922, como o patrocínio vindo da elite cafeeira, o que era controverso, uma vez que o conservadorismo era atacado pelos modernistas. O fato de a participação de Plínio Salgado na semana ter sido apagada da história, por seu alinhamento posterior às ideias do fascismo italiano, é outro indício de que os modernistas seriam “insultadíssimos” e “celebérrimos”, de acordo com a construção histórica que se faria com o tempo. 2. O Modernismo foi um movimento que visava romper com a cultura passadista e com os grilhões do passado nacional. Nesse sentido, a imagem do movimento sempre esteve associada à liberdade e à valorização da cultura brasileira. A ideia de associá-lo à política estatal do Estado Novo, período marcado pela ditadura e censura aos meios culturais, embora tenha sido um projeto do ministro de Getúlio Vargas, deveria ser dissociado do movimento para evitar uma imagem negativa e distante de seus propósitos. 3. O grupo ProAcústica utilizou um símbolo da cidade de São Paulo para chamar a atenção da população para um problema recorrente enfrentado pelos moradores: a poluição sonora. Pode-se
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comparar a campanha ao poema de Mário de Andrade, uma vez que o eu lírico, apesar de evidenciar seu sentimentalismo direcionado à cidade amada, alude às suas contradições, explicitadas no verso “Galicismo a berrar nos desertos da América”. A nova dinâmica do século XXI apresenta diversos problemas enfrentados pelas grandes metrópoles, como o excesso de barulho, comprovando que as dissonâncias não se alteraram, pois a cidade continua sendo uma composição de opostos.
8. A opressão, as humilhações e os castigos contra a escrava são o tom dado ao poema; por essa razão, a imagem de uma mulher bonita com atributos físicos e traços da beleza de sua raça destoam da violência a que é submetida a mulher.
Exercícios propostos 1. C 2. V; F; V; F; V 3. B 4. Soma: 02 + 16 = 18 5. C 6. A
9. E 10. D 11. E 12. B 13. E
7. C
14. A
8. A
15. E
16. O verso “(Desconfio que escrevi um poema.)” é irônico, pois contrasta com as ideias expostas nos versos iniciais, de que não seria possível fazer verdadeira poesia no contexto de opressão humana. Assim, ao declarar ao final que acredita ter conseguido realizar esse feito, o eu lírico se sobrepõe ao caos e às antíteses da modernidade, “sobrevivendo” a esse contexto de opressão. 17. A 18. D 19. Soma: 01 + 04 + 08 = 13
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20. a) A obra Romanceiro da Inconfidência é um livro de poemas que narra a história da Inconfidência Mineira, um movimento promovido por colonos brasileiros que desejavam se libertar do domínio português. O narrador conta a travessia de Tiradentes e o espaço é Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto. No trecho do poema, a sequência ambição, injustiça e covardia se articula como causa e consequência, na medida em que a ambição do ouro levou à condenação de Tiradentes. A injustiça, por sua vez, remente à covardia dessa condenação, que puniu o representante de menor prestígio social em detrimento da falta de punição às elites locais. b) Diante do cenário de injustiça retratado no poema, os questionamentos do eu lírico refletem uma preocupação sobre as próximas gerações. Trata-se de uma reflexão dos justos, pois, ao lutar por justiça e igualdade social, não condena os mais fracos, mas defende ideais libertários e éticos. O tom de preocupação questiona se ainda haverá valores éticos e morais nas próximas gerações. 21. A
24. B
27. B
22. D
25. A
28. A
23. D
26. B
29. D
b) Aliteração é a repetição de fonemas idênticos ou semelhantes no começo de várias palavras, presente em: “vamos ver” (aliteração do /v/); em “chuvinhas, chios, chuveiros, chiando, chiando, chovendo chuvas” (aliteração do /x/); “sabe […] são” (aliteração do /s/) e “fogos […] foguetes […] fogo” (aliteração do /f/). Assonância é a repetição de sons de vogais em uma frase, presente em “ver quem é que sabe” (assonância do /e/); “chuvinhas […] chuveiros […] chuvas” (assonância do /u/) e “fogos […] João […] foguetes […] bombas […] chios […] chuveiros […] chiando […] chovendo” (assonância do /o/). Onomatopeia consiste na formação de uma palavra a partir da reprodução de um som natural que possa ser associado a ela, utilizando os meios de que a língua dispõe, exemplo: “chá – Bum!”, que se refere ao som produzido pelos fogos de São João. 40. D 37. C 34. B 31. A 35. E
38. B
33. A
36. E
39. B
4. B 5. A 6. C 7. Soma: 01 + 04 + 08 = 13 8. F; V; V; F; F; F; V 9. E 10. a) Sim. Em Claro enigma, o poeta expressa a opressão e o esmagamento do ser face aos problemas sociais do fim da Segunda Guerra Mundial. Versos como “a estrada é pedregosa”, “o sino possui um som rouco”, “o som dos sapatos do poeta é seco”, “fecho da tarde”, “céu de chumbo”, “escuridão maior” expressam a negatividade e o pessimismo do eu poético até o momento em que a necessidade de abertura provoca a revelação. b) O verso é: “a máquina do mundo se entreabriu”. A ideia de Máquina do Mundo está associada ao sistema cósmico do mundo, ao modo como ele funciona e a tudo o que ele rege e congrega.
30. a) Aliteração, assonância e onomatopeia.
32. D
lamento pela desvalorização do ser humano perante um mundo dominado pelo capital, na ânsia de tecnologia e disputa de mercados.
41. B
Exercícios complementares 1. a) Enquanto nos dois primeiros versos o eu lírico exprime a impossibilidade de “compor um poema a essa altura da evolução da humanidade”, no último, ele hesita na desconfiança de que realmente o compôs. Trata-se de uma reflexão metalinguística de oposição sobre o fazer poético, que pode acontecer mesmo na ausência de qualquer circunstância que o tornasse compreensível ou natural. b) Na voz passiva, o trecho sublinhado em “Desconfio que escrevi um poema.” teria a seguinte redação: Um poema foi escrito por mim. 2. a) Por meio dos versos “os homens” que “não melhoraram / e matam-se como percevejos” e “Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado”, de “O sobrevivente”, o eu lírico exprime o seu pessimismo sobre a evolução da humanidade, em um universo marcado por privações, irracionalidade e automatismo, ausência de lirismo, excesso de tecnologia, assim como pela perda de sensibilidade nos gestos humanos. b) No verso “O último trovador morreu em 1914”, o eu lírico aludiu ao momento histórico da Primeira Guerra Mundial, responsável pelo tom pessimista que permeia todo o poema. 3. a) A antítese ocorre na incoerência da fabricação de máquinas muito complicadas para satisfazer necessidades simples. b) Ao estabelecer paralelo com o episódio bíblico do dilúvio (“E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio”), o eu lírico enfatiza o tamanho do desastre e o seu
11. A 12. a) A expressão em inglês quer indicar a indiferença e alienação da felicidade burguesa (essa “burguesia contente”) diante das adversas condições sociopolíticas brasileiras da época; isso porque a classe privilegiada levaria uma vida ensimesmada (“Ó gozo de minha poltrona!”). Por sua vez, também é uma classe colonizada, absorvendo os costumes e valores ingleses (“Como estou bem nessa poltrona de humorista inglês / A fumaça de meu cachimbo subindo / Ó doçura de folhetim!”). Tudo isso indica uma vida fútil e distante da realidade geral do povo brasileiro. b) No verso em questão (“Ora afinal a vida é um bruto romance”), faz-se alusão ao romance, em que há um conflito intrínseco entre o protagonista e a vida, o meio brutal que o envolve. “Bruto”, aqui, refere-se ao ambiente inóspito, violento e desagradável da realidade brasileira. Em ponto diametralmente oposto, os “folhetins” justamente indicam outra situação a partir de outro gênero narrativo. No verso “[...] nós vivemos folhetins sem o saber” conota-se uma vida burguesa cuja existência nada enfrenta de brutal ou desconfortável, sendo doce, tranquila e alienada, tal como se poderia ver nas histórias de folhetim (historinhas típicas dos jornais semanais do século XIX). Narrativas cheias de peripécias e tramas sentimentais, que tinham sempre um desfecho feliz. 13. No poema “Confidência do Itabirano”, o sujeito poético apresenta Itabira como um espaço real e experimentado; há também no poema a ideia de que o sujeito lírico permanece ligado à sua origem. No fragmento da canção de Gilberto Gil, há o mesmo sentimento de orgulho de sua origem, mas sem especificações. Há apenas a ideia de que o seu aprendizado para o mundo foi adquirido na sua terra natal. 14. a) A imagem “pão de nuvens” (v. 4-5) e o verso “tudo, no coração, é ceia” (v. 10) conjugam-se para construir o conceito de que a necessidade de alimento não está ligada indispensavelmente a uma necessidade fisiológica, mas sim a uma carência de ordem espiritual e afetiva. b) Sim. No texto, o autor afirma que a confraternização é amigável e respeitosa, mesmo que entre eles haja opiniões políticas divergentes, mas não impeditivas de usufruir do prazer do convívio, metaforizado na imagem da “boa cerveja”. 15. Soma: 08 + 16 = 24 16. A
18. B
20. A
17. E
19. C
21. D
22. A
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23. a) Os episódios que exemplificam a ideia de “adoçamento social” são “Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,/catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes” e “para salvar minha alma benzida/e meu corpo pintado de urucu”. Neles, nota-se que a miscigenação entre as três culturas é abordada como um processo natural, de forma democrática, como sugerido pelo próprio Gilberto Freyre ao conceituar democracia racial. b) A palavra “democracia” manifesta-se em situações cotidianas do eu lírico, marcado por traços da cultura negra, europeia e indígena, em trechos como “Mãe negra me contou histórias de bicho” (cultura negra), “meu corpo pintado de urucu” (cultura indígena) e “catecismo me ensinou a abraçar hóspedes” (cultura do colonizador português). O convívio “pacífico” entre essas culturas é evidenciado ainda nos versos finais do poema: “me misturando, me sumindo, me acabando,/ para salvar a minha alma benzida/e meu corpo pintado de urucu,/ tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas,/de nomes de amor em todas as línguas de branco,/de mouro ou de pagão”. 24. A
26. B
28. C
25. B
27. D
29. B
30. a) O verso “Soltaram os pianos na planície deserta” surpreende pela ocorrência de algo inesperado, insólito e fora da expectativa do leitor, que se depara com um cenário ilógico onde pianos são lançados a um prado deserto como se se tratasse de um rebanho de ovelhas. b) O termo “onde” poderia ser substituído por “em que” ou “na qual” e o termo “pelo”, por “através do” ou “por meio do” sem prejuízo para o sentido dos versos originais. 31. a) A expressão faz referência ao surrealismo. No poema, ocorre a troca de elementos naturais por imagens sem sentido, como pianos que estão em uma planície para serem “pastoreados”. b) Pode-se citar a retomada do bucolismo árcade ou neoclassicista; a ruptura com a lógica, que remete à teoria psicanalítica de Freud; e a utilização de versos sem rima e sem métrica. 38. A
32. E
35. B
33. A
36. D
39. E
34. B
37. C
40. C
41. a) As imagens são marcadas por uma dimensão escatológica (“latrinas”, “fossas”, “fezes”), referindo-se a um mundo em colapso, que marcha para seu próprio aniquilamento. A atmosfera presente no poema associa-se ao período que antecede a Segunda Guerra Mundial. b) Segundo os versos apresentados, o papel do poeta e da poesia seria o de transformar a matéria putrefata do mundo em um “poema puro”, ou seja, a matéria conflitiva do mundo deveria ser purificada pelo poeta, caberia à sensibilidade lírica sublimar o “pus” em poesia.
BNCC em foco 1. O contexto político da Poesia de 1930 era a tensão da ditadura do Estado Novo, período em que órgãos institucionalizados foram criados para censurar produções artísticas que fossem consideradas subversivas. Autores desse período eram alvo desses órgãos e viam na literatura a ferramenta para a defesa da democracia. Mesmo atualmente, a democracia é um regime ainda muito frágil, com pessoas ou grupos confundindo defesa de violência, práticas racistas e extremistas com liberdade de expressão. 2. No poema, o anjo surge em seu nascimento e anuncia que ele será gauche na vida. O anjo torto, que vive na sombra, representa o mau agouro àquele que terá de lidar com o peso da existência. Na tirinha, a paródia é construída a partir do termo “torto” e refere-se ao problema na coluna do anjo que carrega livros no sebo. 3. E
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Capítulo 12 — Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945 Revisando 1. Uma dessas características é a denúncia social, que evidenciava a decadência da região Nordeste após o deslocamento político e social para o sul. Além disso, as personagens apresentadas são de camadas mais populares e a linguagem valoriza as falas regionais do Brasil. 2. Rachel de Queiroz e Candido Portinari se posicionaram politicamente ao denunciar o problema da seca, além de incentivar a reflexão sobre os desdobramentos e as consequências na vida dos moradores dessas regiões que são obrigados a se deslocar continuamente para fugir da fome, da miséria e da morte. 3. V; F; F; V 4. O fragmento 1 evidencia o caráter intertextual da obra de Verissimo. Ele se refere à propriedade de retomar, dialogar, absorver e transformar outros escritos para compor um novo texto. 5. A epígrafe é um pequeno texto localizado no início de um livro ou de um capítulo e serve de tema, resumo ou aponta o sentido da obra. O uso do trecho bíblico serve para situar o leitor do mote da narrativa. O mote é evidenciado no texto que apresenta a passagem do tempo e a permanência das coisas. 6. O autor apresenta uma das faces do Nordeste, narrando o ápice, a decadência e o fim dos engenhos de açúcar devido à abolição da escravatura, ascensão das usinas e fracasso dos herdeiros dos grandes senhores de engenho. 7. Não, pois, apesar de o espaço ser predominantemente o Nordeste brasileiro, a ênfase na análise psicológica de seus personagens extrapola os limites do regionalismo, abordando temas importantes para toda sociedade moderna. 8. A família precisa se deslocar para fugir da fome e da seca iminentes. 9. Fabiano e sua esposa são pessoas simples e sem educação formal; por isso, os patrões se aproveitam dessa situação para ludibriar a família, envolvendo-os em dívidas injustas. Essa estratégia faz com que, em vez de receber por seu trabalho, o vaqueiro esteja sempre trabalhando para sanar sua suposta dívida. 10. Um dos recursos utilizados por Guimarães Rosa para singularizar sua linguagem é o neologismo. Podemos observar esse recurso na palavra “enigmava”, atribuindo sentido de “ação de quem cria enigmas”; na sequência de “fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhasgerado”, podemos considerar o processo de composição, já que o autor propõe diferentes formatos para a palavra “famigerado”.
Exercícios propostos 1. A
12. E
2. A
13. A
3. A
14. E
4. D
15. A
5. Soma: 01 + 04 + 08 = 13
16. A
6. Soma: 08 + 16 = 24
17. B
7. A
18. A
8. Soma: 01 + 08 + 16 = 25
19. E
9. C
20. D
10. C
21. B
11. E
22. E
23. O trecho combina imagens contraditórias do país, fala sobre a alegria da cidade, o sol, o cotidiano que parece uma festa infinita e a alegria do povo, mas faz o contraponto destacando que Pedro Bala e o professor não têm dinheiro algum e estão vestidos de farrapo, ou seja, vivem na pobreza. A liberdade de
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que gozam vem da situação em que vivem, ou seja, nas ruas da cidade. Essa é a síntese do imaginário coletivo sobre o Brasil, um país de carnaval e alegria, mas cheio de pobreza. 24. C
27. D
30. D
25. A
28. C
31. D
26. E
29. C
32. A
Exercícios complementares 1. C
4. D
7. A
2. E
5. D
8. B
3. A
6. C
9. D
10. B
11. a) No capítulo “Festa”, de Vidas secas, Fabiano e a família se encaminham para a cidade para participar dos festejos de Natal. No entanto, a festa, que deveria ser um momento de socialização, serve apenas para que as personagens se deparem com sua inaptidão social. b) O trecho apresenta descrições mais detalhadas do que no restante da obra. Isso se explica pela mudança de comportamento das personagens que, nesse momento, são menos “bichos” e mais “gente”, uma vez que adotam comportamentos mais “civilizados”, como a preocupação com a forma de se vestir, a higiene, os cuidados pessoais. 12. a) Em Vidas secas, Graciliano Ramos pretende mostrar que a secura climática é estendida aos mais diversos aspectos da vida do sertanejo nordestino: as relações humanas são secas, assim como as sociais, políticas e econômicas. Isso posto, percebe-se que a seca não é apenas um problema climático, ela impede que o indivíduo seja capacitado a alterar a própria vida, a ser protagonista do seu viver. b) No capítulo “Contas”, Fabiano presta contas ao dono da fazenda a respeito da venda dos animais que criava, mas o resultado não coincide com o calculado por Sinhá Vitória; sem conseguir argumentar ou se defender, o vaqueiro optou por culpar a esposa, situação preferível a perder a parca situação em que vivia. Fabiano resignou-se em aceitar os cálculos de seu patrão, permanecendo endividado. Trata-se de um momento de humilhação, em que o vaqueiro conclui que “quem é do chão não se trepa”. 13. a) Os trechos do enunciado apresentam, entre outros, o caleidoscópio de sentimentos e emoções de Fabiano e sua família enquanto observam as festividades de Natal na cidade. Nos excertos, está presente o conflito de quem vive em absoluta situação de precariedade e rudeza e estranha o mundo dos mais afortunados que têm acesso ao “luxo” e à abastança. b) No excerto, Sinha Vitória procura demarcar-se do meio que a cerca (“Se ficasse calada, seria como um pé de mandacaru, secando, morrendo”), mas a pobreza e a falta de instrução fazem com que a distância que a separa das outras pessoas aumente cada dia mais. 14. a) O fragmento reflete o sofrimento e a falta de perspectiva das personagens, que levam uma vida de opressão e miséria em meio a uma natureza marcada pela seca. b) O foco narrativo é a terceira pessoa. O narrador é onisciente, tendo conhecimento também dos pensamentos e sentimentos das personagens. 15. a) Aluísio Azevedo (naturalista) usa termos científicos para apresentar os personagens de O cortiço sob uma visão determinista, realçando com objetividade a influência do meio no comportamento do homem (“fermentação sanguínea”, ”na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir”). Graciliano Ramos (modernista) usa recursos como o discurso indireto livre para retratar o mundo psicológico de Fabiano, o que resulta em uma aproximação com o personagem por revelar suas inquietudes e seus conflitos.
b) Enquanto em O cortiço os personagens se revelam por ter um comportamento semelhante ao do animal nas suas atitudes primárias e instintivas, descritas em linguagem objetiva e distante, em Vidas secas, o autor demonstra consciência social ao responsabilizar as condições adversas que se abatem sobre eles, enfatizando, por meio da transcrição de monólogos, o aspecto da precariedade da comunicação verbal que os isola do mundo ao redor. 16. a) Em Vidas secas, o narrador designa os personagens de “viventes”, homens e animais em luta pela sobrevivência em uma terra árida que os iguala, por isso a linguagem quase não os diferencia. No trecho, assiste-se ao processo zoomórfico do menino que assim se assemelha ao papagaio com seu vocabulário reduzido, gesticulando e pronunciando exclamações para substituir as frases que não conseguia enunciar. Em uma inversão de papéis, Baleia é dotada de capacidade de entendimento, em um procedimento antropomórfico que permite o diálogo de um animal com um ser humano. b) Não, em Vidas secas, a linguagem é objetiva, clara e sintética, adequada ao ambiente árido em que se desenvolve a narrativa que reflete a realidade cruel dos retirantes nordestinos. A capacidade do narrador em expressar o problema da comunicação e a solidão advém, sobretudo, do uso do discurso indireto livre para transcrever pensamentos dos personagens, reveladores de emoções e sentimentos comuns a todo ser humano e com os quais o leitor se solidariza. 17. A 18. D 19. E 20. E 21. a) Sinhá Vitória sente-se incomodada com a comparação feita por Fabiano, por este ridicularizar o seu jeito desengonçado de caminhar quando usava sapatos. O fato de ser comparada a um papagaio fere sua vaidade feminina, mas incomoda-a também a lembrança do sacrifício do animal, a situação extrema a que se via obrigada para aliviar a fome da família. b) É irônico o fato de alguém tão sofredor e miserável ter o nome de Vitória. Como Baleia, cachorra magra que vive no Sertão, o nome da personagem apresenta características contrárias à realidade em que vivem. 22. B 23. V; F; V; V; F 24. Em Dom Casmurro, o narrador admite que as lembranças do passado podem não ser exatas ou fidedignas, pois o tempo do enunciador e os fatos enunciados não são os mesmos, assim como a percepção das sensações vivenciadas no passado que se altera com o passar da idade. Em Infância, o narrador adverte o leitor da sua incapacidade em relembrar fielmente o passado e confessa que usa a fantasia para recriar fatos que talvez não correspondam à realidade. 25. O autor vai construindo, por comparação, uma estratégia chamada de animalização, relacionando o personagem com os animais. Isso fica evidente quando, na descrição do livro, o personagem se confunde com o próprio cavalo, comunicando-se com ele por uma linguagem encantada, gutural e monossilábica. 26. A 28. B 27. C
29. D
30. A relação de Euclides da Cunha com o Sertão se dá por uma perspectiva científica e filosófica norteada pelos estudos deterministas e evolucionistas; por essa razão, o descritivismo acerca da hostilidade do meio da Caatinga é primoroso na obra. Guimarães Rosa é autor de uma geração que se depara com algumas rupturas com a tradição literária. Nesse sentido, a inventividade linguística é peça-chave na composição de suas narrativas, o que leva o leitor a olhar para o Sertão sem os estereótipos do meio, apesar de suas características serem bem marcadas pelas crenças, religiosidade, cantigas, casos etc.
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31. a) A expressão “do Dito morto ainda no Dito vivo, ou do Dito vivo mesmo no Dito morto” configura um quiasmo. O primeiro segmento sugere que Dito, ainda vivo, era portador de uma percepção acurada atribuída, por muitos, como uma marca de distinção divina que em breve o chamaria para si. O segundo, “do Dito vivo mesmo no Dito morto”, relaciona-se com as lembranças dos ditos e pensamentos que Miguilim ainda guarda como valiosos ensinamentos durante sua fase de transição de criança para adulto. b) A morte de Dito atinge Miguilim de forma intensa pela dor da ausência de quem era também amigo e confidente e sempre disposto a responder aos seus questionamentos de criança. Com a morte do irmão, Miguilim é obrigado a procurar respostas em diálogo consigo mesmo, o que contribui para seu amadurecimento e, consequente, emancipação. 32. F; V; V; V 33. a) Tanto o excerto de “Conversa de bois” como o de “Um boi vê os homens” transcrevem reflexões dos animais sobre a condição humana. No primeiro, o boi Dançador constata a supremacia do Homem sobre os irracionais pelo fato de ser provido de mãos. Já no segundo, as reflexões recaem sobre a natureza íntima do ser humano, desprovida de atributos essenciais que pudessem torná-lo mais sensível ao mundo que o rodeia. b) O conto de Rosa e o poema de Drummond valem-se da prosopopeia ou personificação, figura de linguagem pela qual o autor atribui características humanas a seres inanimados ou a animais.
BNCC em foco 1. A conversa entre o Padre José Pedro e João de Adão descrita pelo narrador evidencia uma crítica às relações de poder e o desejo de manutenção do status quo por parte da população rica. Também há uma crítica aos órgãos governamentais, que são responsáveis pela organização da sociedade. 2. D 3. F; F; V; F
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Língua Portuguesa – Frente 2 – Capítulo 10 Revisando
Reprodução
1. Observe a capa do livro Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade e leia a canção de Noel Rosa, composta em 1935, para responder à questão.
Pierrot apaixonado Um pierrô apaixonado Que vivia só cantando Por causa de uma colombina Acabou chorando, acabou chorando A colombina entrou num butiquim Bebeu, bebeu, saiu assim, assim Dizendo: pierrô cacete Vai tomar sorvete com o arlequim Um grande amor tem sempre um triste fim Com o pierrô aconteceu assim Levando esse grande chute Foi tomar vermute com amendoim Canção de Noel Rosa. Disponível em: https://www.letras.mus.br/ noel-rosa-musicas/125758/.
Explique como a imagem do Arlequim, cujas vestimentas ilustram a capa de Pauliceia Desvairada, se associa à cidade de São Paulo.
Capa do livro Pauliceia desvairada.
Exercícios propostos Um silêncio imenso dormia à beira do rio Uraricoera. Nenhum conhecido sobre a terra não sabia nem falar da tribo nem contar aqueles casos tão pançudos. Quem podia saber do Herói?
1. Enem
O canto do guerreiro Aqui na floresta Dos ventos batida, Façanhas de bravos Não geram escravos, Que estimem a vida Sem guerra e lidar. — Ouvi-me, Guerreiros, — Ouvi meu cantar.
Mário de Andrade.
Valente na guerra, Quem há, como eu sou? Quem vibra o tacape Com mais valentia? Quem golpes daria Fatais, como eu dou? — Guerreiros, ouvi-me; — Quem há, como eu sou? Gonçalves Dias.
Macunaíma (Epílogo) Acabou-se a história e morreu a vitória. Não havia mais ninguém lá. Dera tangolomângolo na tribo Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia mais ninguém lá. Aqueles lugares, aqueles campos, furos puxadouros arrastadouros meios-barrancos, aqueles matos misteriosos, tudo era solidão do deserto...
Considerando-se a linguagem desses dois textos, verifica-se que a) a função da linguagem centrada no receptor está ausente tanto no primeiro quanto no segundo texto. b) a linguagem utilizada no primeiro texto é coloquial; enquanto, no segundo, predomina a linguagem formal. c) há, em cada um dos textos, a utilização de pelo menos uma palavra de origem indígena. d) a função da linguagem, no primeiro texto, centra-se na forma de organização da linguagem; e, no segundo, no relato de informações reais. e) a função da linguagem centrada na primeira pessoa, predominante no segundo texto, está ausente no primeiro. 2. IFPE 2014
Entenda o movimento literário que deu origem a Macunaíma Macunaíma é uma obra que atravessa tempos e lugares, raças e linguagens, cruzando as fronteiras entre o culto e o popular. O livro faz uma síntese do povo brasileiro que se mantém atual mesmo 80 anos depois LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 2
1
de seu lançamento. De acordo com Noemi Jaffe, autora do título “Folha Explica – Macunaíma”, da Publifolha, o caráter atual da obra se mantém por tratar de temas que ainda fazem parte do Brasil. “O nosso país ainda apresenta os mesmos problemas retratados em Macunaíma: é economicamente dependente, desigual e apresenta dificuldades de reconhecimento da identidade.” A obra Macunaíma, de Mário de Andrade, foi escrita em 1927 e publicada em 1928. O livro pertence ao Modernismo, movimento literário que teve seu ápice em 1922, com a Semana de Arte Moderna, que teve Mário de Andrade como um de seus mentores. “Seis anos depois, em 1928, ano em que Macunaíma foi lançado, o Modernismo já era um movimento literário mais consolidado; com nome, número, identidade e ideologia”, afirma Noemi Jaffe. Em 1928, de acordo com Oscar Pilagallo, autor da série “Folha Explica – História” e outros livros da Publifolha, “o modernismo entrava em outra fase, marcado pelo Manifesto antropófago de Oswald de Andrade, publicado em maio daquele ano, e pelo lançamento de Macunaíma, de Mário de Andrade. Foram duas vertentes importantes, ambas marcadas pelo nacionalismo. O folclorismo de Mário e a irreverência de Oswald”. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Publicado em 2008. Acesso em: 25 ago. 2013.
Conforme retrata o texto, Macunaíma é uma obra de grande importância para a literatura nacional, não só por retratar questões relativas à identidade brasileira, como também por ser um marco no Modernismo. A respeito da primeira fase desse movimento estético no Brasil, é correto afirmar que: a) teve oficialmente seu início com a Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, a qual foi centrada na arte literária, em detrimento das outras artes. b) propôs uma nova concepção da linguagem artística, voltando-se para a linguagem verdadeiramente brasileira, embora não tenha retratado a oralidade. c) visando à focalização da linguagem e do perfil popular, os autores desse momento priorizaram o texto em prosa, a exemplo do que fez Mário de Andrade, em Macunaíma. d) o nacionalismo do Primeiro Momento Modernista se consagrou no trabalho com a linguagem, mas não quanto ao conteúdo. Por conta disso, a obra Macunaíma se constitui uma exceção. e) além da adoção de um perfil nacionalista, essa fase teve características como descontração, ironia, irreverência e subversão de regras gramaticais, o que ocorreu na poesia e na prosa. 3. Uesc-BA Texto 1 O artista brasileiro moderno tende a desconfiar do dado imediato, isto é, do lugar da natureza, da cultura, da história em que os outros querem situá-lo no
mundo. Entende-se: o dado, aquilo que é constituído pelo passado natural e cultural, é, no Brasil, tomado principalmente como o tempo do subdesenvolvimento, da dependência cultural, política e econômica, da escravatura. É da reação contra essa situação que surge a tendência construtiva de quase toda a nossa melhor arte. Nesse processo, não é o Brasil do passado que determina o Brasil moderno. Ao contrário: é o Brasil moderno que reinventa o Brasil do passado. [...] Para o artista brasileiro, pensar sobre o Brasil – pensar o Brasil – não pode deixar de ser reinventá-lo. E creio que grande parte dos artistas modernos, os vários modernismos desde 22, o concretismo, o neoconcretismo, a bossa nova, o tropicalismo e os artistas contemporâneos sempre se encontraram nessa mesma situação ante a tarefa da inventio Brasilis: da descoberta-invenção do Brasil. CICERO, Antonio. “O construtivismo brasileiro”. Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 nov. 2010. Ilustrada, p. E 12.
Texto 2 Tua orla Bahia No benefício destas águas profundas E o mato encrespado do Brasil Uma jangada leva os teus homens morenos De chapéu de palha Pelos campos de batalha Da renascença Este mesmo mar azul Feito para as descidas Dos hidroplanos de meu século Frequentado rendez-vous De Holandeses de Condes e de Padres Que Amaralina atualiza Poste das saudades transatlânticas Riscando o ocre fotográfico Entre Itapoã e o farol tropical A bandeira nacional agita-se sobre o Brasil A cidade alteia cúpulas Torres coqueiros Árvores transbordando em mangas-rosas Até os navios ancorados Forte de São Marcelo Panela de pedra da história colonial Cozinhando palmas E as tuas ruas entreposto do Mundo E os teus sertanejos asfaltados E o teu ano de igrejas diferentes Com um grande dia santo ANDRADE, Oswald de. “Versos baianos”. Cadernos de poesia do aluno Oswald: poesias reunidas. São Paulo: Círculo do Livro, s.d. p. 145-146.
Explique como se processa, no poema de Oswald de Andrade (modernista de 22), a reinvenção do Brasil comentada no texto 1. Documente sua resposta com versos do texto 2. LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 2
2
4. Unicamp-SP 2016
Rua da Liberdade – São Paulo-SP – 1937
a) Trata-se da ascensão de um moderno mundo urbano, onde coexistiam harmonicamente diferentes temporalidades, funções urbanas, sistemas técnicos e formas de trabalho, viabilizando-se, desse modo, a coesão entre o espaço da cidade e o tecido social. b) Trata-se de um espaço agrário e acomodado, num período em que a urbanização não tinha se estabelecido, mas que abrigava em seu interstício alguns vetores da modernização industrial. c) Trata-se de um espaço onde coexistiam distintas temporalidades: uma atrelada ao ritmo lento de um passado agrário e, outra, atrelada ao ritmo acelerado que caracteriza a modernidade urbana. d) Trata-se de uma paisagem urbana e uma divisão do trabalho típicas do período colonial, pois a metropolização é um processo desencadeado a partir da segunda metade do século XX. 5. UFRGS 2020 Um tema em Quarto de despejo é encontrado também no poema “O bicho”, de Manuel Bandeira, transcrito a seguir.
O bicho (Disponível em: www.ims.com.br/ims/artista/colecao/claude-levi-strauss/ obra/1995.)
Pobre alimária O cavalo e a carroça Estavam atravancados no trilho E como o motorneiro se impacientasse Porque levava os advogados para os escritórios Desatravancaram o veículo E o animal disparou Mas o lesto carroceiro Trepou na boleia E castigou o fugitivo atrelado Com um grandioso chicote (Oswald de Andrade. Pau-Brasil. São Paulo: Globo, 2003. p. 159.)
A imagem e o poema revelam a dinâmica do espaço na cidade de São Paulo na primeira metade do século XX. Qual alternativa a seguir formula corretamente essa dinâmica?
Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem.
Assinale a alternativa que identifica esse tema recorrente nas duas obras. a) A revolta e a indignação daqueles que sofrem a miséria e a marginalização social. b) O problema da fome, que avilta a dignidade humana. c) A aceitação da pobreza, que se tornou uma condição inerente às sociedades modernas. d) A esperança como forma de enfrentar o sofrimento da fome e de garantir a sobrevivência. e) O ato de escrever funciona como modo de driblar a fome.
LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 2
3
Exercícios complementares 1. Ulbra-RS A obra Macunaíma, de Mário de Andrade, é composta de lendas variadas, com um vasto repertório de mitos e fábulas, que se mesclam tanto pela realidade, como pelo fantástico. Macunaíma subverte a estrutura da narrativa, transgredindo os princípios de Aristóteles no que se refere às regras da verossimilhança. Sob essa perspectiva e sobre a obra referida, assinale a alternativa correta. a) Mário de Andrade procura, em Macunaíma, mostrar a colonização portuguesa e sua cultura diversa. b) A máxima “herói sem nenhum caráter”, atribuída à rapsódia de Mário de Andrade, significa que a personagem protagonista possui caráter destemido e empreendedor. c) Mário de Andrade apresenta um texto rico em linguagem formal mesclada ao coloquialismo, às gírias, provérbios populares e frases-feitas com a intenção de aproveitar e valorizar a variedade linguística brasileira. d) Macunaíma valoriza o espírito indígena assim como o comportamento colonialista dos portugueses. e) Macunaíma retrata a longa trajetória espacial do herói que começa na cidade e termina na selva.
5. PUC-Campinas 2017 Na América Latina do século XX,
2. Enem 2016 O bonde abre a viagem, No banco ninguém, Estou só, stou sem. Depois sobe um homem, No banco sentou,
4. ESPM-SP 2016 O ensaísta Roberto Schwarz alude ao fato de haver no país um descompasso ideológico, isto é, o desconcerto de uma sociedade escravista, mais as ideias importadas do liberalismo europeu. De onde a sensação de que, no Brasil, as ideias estão deslocadas em relação ao seu uso europeu: há um desacordo entre a situação local e o molde importado. As ‘nossas’ coisas, assim, não seriam nossas. Dos itens a seguir, o exemplo literário que reflete o espírito do tema anteriormente exposto é: a) “Alguém há de cuidar que é frase inchada/Daquela que lá se usa entre essa gente” (Cláudio Manuel da Costa) b) “Invejo o ourives quando escrevo;/Imito o amor/ Com que ele, em ouro, o alto-relevo/Faz de uma flor.” (Olavo Bilac) c) “Minha terra tem primores,/Que tais não encontro eu cá;/Em cismar – sozinho à noite –/Mais prazer encontro eu lá;” (Gonçalves Dias) d) “A praça! A praça é do povo/Como o céu é do condor,” (Castro Alves) e) “Tupi or not tupi, that is the question” (Oswald de Andrade)
Companheiro vou. O bonde está cheio, De novo porém Não sou mais ninguém.
ANDRADE, M. Poesias completas. Belo Horizonte: Vila Rica, 1993.
O desenvolvimento das grandes cidades e a consequente concentração populacional nos centros urbanos geraram mudanças importantes no comportamento dos indivíduos em sociedade. No poema de Mário de Andrade, publicado na década de 1940, a vida na metrópole aparece representada pela contraposição entre a) a solidão e a multidão. b) a carência e a satisfação. c) a mobilidade e a lentidão. d) a amizade e a indiferença. e) a mudança e a estagnação. 3. IFPE 2020 O Modernismo brasileiro costuma ser dividido em três fases: a Geração de 22, a de 30 e a de 45. Essas Gerações têm como um de seus representantes, respectivamente, a) Mário de Andrade, Aluísio de Azevedo e Euclides da Cunha. b) Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes. c) José de Alencar, Machado de Assis e João Cabral de Melo Neto. d) Oswald de Andrade, Cecília Meireles e Guimarães Rosa. e) Vinícius de Moraes, Ariano Suassuna e Olavo Bilac.
em incontáveis momentos, a criação artística articulou-se com utopias ou perspectivas de transformação social. Em diferentes contextos, artistas usaram sua produção para corroborar determinados projetos políticos ou consentiram que suas criações fossem apropriadas e sustentadas por movimentos políticos, dentro ou fora do Estado. PRADO, Maria Ligia; PELLEGRINO, Gabriela. História da América Latina. São Paulo: Contexto, 2014. p. 187-8.
O Modernismo de 22 compreendeu aspirações utópicas não apenas ligadas ao desempenho artístico, mas também a ideais que poderiam nortear o futuro do país. Parte dessas aspirações utópicas, vazadas em tom crítico e irônico, encontra-se a) no prefácio “Lede”, de Gonçalves de Magalhães. b) na “binomia” poética com que se definiu Álvares de Azevedo. c) no capítulo edificante e final de Os sertões, de Euclides da Cunha. d) na novela A hora e vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa. e) no polêmico “manifesto da poesia Pau-Brasil”, de Oswald de Andrade. 6. IFPE 2016
Cartas de meu avô Manuel Bandeira
A tarde cai, por demais Erma, úmida e silente… A chuva, em gotas glaciais, Chora monotonamente. LÍNGUA PORTUGUESA
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E enquanto anoitece, vou Lendo, sossegado e só, As cartas que meu avô Escrevia a minha avó.
Acalentei em meu delírio ardente Por essas doces noites de desvelo! Ser amado por ti, o teu alento A bafejar-me a abrasadora frente! Em teus olhos mirar meu pensamento, Sentir em mim tu’alma, ter só vida P’ra tão puro e celeste sentimento Ver nossas vidas quais dois mansos rios, Juntos, juntos perderem-se no oceano, Beijar teus lábios em delírio insano Nossas almas unidas, nosso alento, Confundido também, amante, amado Como um anjo feliz... que pensamento!?
Enternecido sorrio Do fervor desses carinhos: É que os conheci velhinhos, Quando o fogo era já frio. Cartas de antes do noivado… Cartas de amor que começa, Inquieto, maravilhado, E sem saber o que peça. Temendo a cada momento Ofendê-la, desgostá-la, Quer ler em seu pensamento E balbucia, não fala…
Disponível em: https://pensador.uol.com.br/frase/ NTU2MTQw/. Acesso em: 07 nov. 2016.
Texto 3
Livre
A mão pálida tremia Contando o seu grande bem. Mas, como o dele, batia Dela o coração também.
Cruz e Sousa
A partir da leitura do poema “Cartas de meu avô”, do poeta pernambucano Manuel Bandeira, um dos principais nomes do Modernismo brasileiro, podemos dizer que a) no último verso da primeira estrofe, há uma prosopopeia ou personificação. b) a expressão “erma, úmida e silente”, no segundo verso, está se referindo à chuva. c) a palavra “enternecido”, no início da terceira estrofe, tem como sinônimo “quente”. d) o sujeito de “balbucia”, último verso da penúltima estrofe, é a palavra “pensamento”. e) em “quando o fogo era já frio”, no final da terceira estrofe, ocorre uma antonomásia.
Livre! Ser livre da matéria escrava, arrancar os grilhões que nos flagelam e livre penetrar nos Dons que selam a alma e lhe emprestam toda a etérea lava. Livre da humana, da terrestre bava dos corações daninhos que regelam, quando os nossos sentidos se rebelam contra a Infâmia bifronte que deprava. Livre! bem livre para andar mais puro, mais junto à Natureza e mais seguro do seu Amor, de todas as justiças. Livre! para sentir a Natureza, para gozar, na universal Grandeza, Fecundas e arcangélicas preguiças. Disponível em: http:/www.poesiaspoemaseversos.com.br/ cruz-e-sousa-poemas/. Acesso em: 07 nov. 2016.
7. UCPel-RS 2017 Texto 1
O Último Poema Manuel Bandeira
Assim eu quereria o meu último poema. Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos [intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes [mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação. Disponível em: http://www.releituras.com/mbandeira_ultimo.asp. Acesso em: 07 nov. 2016.
Texto 2
Amar e ser amado Castro Alves
Amar e ser amado! Com que anelo Com quanto ardor este adorado sonho
Sobre o(s) texto(s) é correto afirmar que: a) O texto 3 demonstra a temática presente nas poesias românticas da segunda geração, ou seja, o desejo pela liberdade. b) O texto 2 é um soneto que representa o valor métrico atribuído ao parnasianismo. c) Os textos 1 e 3 demonstram a liberdade representada ora na escrita e ora no tema, algo representativo para o romantismo. d) O texto 2 demonstra a preocupação do eu-lírico com a questão da efemeridade da vida e a busca pelo prazer, algo representativo na primeira geração do romantismo. e) O texto 1 demonstra a liberdade de expressão e criação poética, sem preocupação com a linguagem, característica presente nas produções literárias do modernismo.
LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 2
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Língua Portuguesa – Frente 2 – Capítulo 11 Revisando Texto para as questões 1 e 2.
Revelação do subúrbio Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, contra [a vidraça do carro*, vendo o subúrbio passar. O subúrbio todo se condensa para ser visto depressa, com medo de não repararmos suficientemente em suas luzes que mal têm tempo de brilhar. A noite come o subúrbio e logo o devolve, ele reage, luta, se esforça, até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais e à noite só existe a tristeza do Brasil. Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo, 1940.
*carro: vagão ferroviário para passageiros.
1. Fuvest-SP 2014 Em consonância com uma das linhas temáticas principais de Sentimento do mundo, o vivo interesse que, no poema, o eu lírico manifesta pela paisagem contemplada prende-se, sobretudo, ao fato de o subúrbio ser
a) bucólico. b) popular. c) interiorano.
d) saudosista. e) familiar.
2. Fuvest-SP 2014 Segundo o crítico e historiador da literatura Antonio Candido de Mello e Souza, justamente na década que presumivelmente corresponde ao período de elaboração do livro a que pertence o poema, o modo de se conceber o Brasil havia sofrido “alteração marcada de perspectivas”. A leitura do poema de Drummond permite concluir corretamente que, nele, o Brasil não mais era visto como país a) agrícola (fornecedor de matéria-prima), mas como industrial (produtor de manufaturados). b) arcaico (retardatário social e economicamente) mas, sim, percebido como moderno (equiparado aos países mais avançados). c) provinciano (caipira, localista) mas, sim, cosmopolita (aberto aos intercâmbios globais). d) novo (em potência, por realizar-se), mas como subdesenvolvido (marcado por pobreza e atrofia). e) rural (sobretudo camponês), mas como suburbano (ainda desprovido de processos de urbanização).
Exercícios propostos 1. Insper-SP Utilize os textos a seguir para responder ao teste.
Poema de Sete Faces Quando nasci um anjo torto desses que vive na sombra disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida. As casas espiam os homens Que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul Não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: Pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode.
(www.custodio.net)
Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 2
6
Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. (Carlos Drummond de Andrade)
gauche: A palavra francesa (pronuncia-se “gôche”) era uma gíria usada por jovens da classe média urbana para rotular indivíduos tidos como arredios, esquisitos, inadaptados.
A respeito do jogo intertextual estabelecido entre a tirinha e o poema, considere estas afirmações: I. Os três primeiros quadrinhos ilustram o conteúdo expresso nos versos da segunda estrofe do poema de Drummond. II. Como a tirinha faz uma citação do poema, é possível caracterizá-la como pertencente ao mesmo gênero do texto de Drummond. III. O silêncio da personagem, presente no último quadrinho da tira, ilustra o conteúdo expresso na última estrofe do poema. Está(ão) correta(s): a) Apenas I. d) Apenas III. b) Apenas II. e) Apenas I e III. c) Apenas I e II. 2. Enem PPL Texto I
Poema de sete faces Mundo mundo vasto mundo, Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. ANDRADE, C. D. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2001 (fragmento).
Texto II
CDA (imitado) Ó vida, triste vida! Se eu me chamasse Aparecida dava na mesma. FONTELA, O. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify; Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.
Orides Fontela intitula seu poema CDA, sigla de Carlos Drummond de Andrade, e entre parênteses indica “imitado” porque, como nos versos de Drummond, a) apresenta o receio de colocar os dramas pessoais no mundo vasto. b) expõe o egocentrismo de sentir o coração maior que o mundo.
c) aponta a insuficiência da poesia para solucionar os problemas da vida. d) adota tom melancólico para evidenciar a desesperança com a vida. e) invoca a tristeza da vida para potencializar a ineficácia da rima. 3. UFSM-RS 2013 Observe as seguintes estrofes do poema “Coração numeroso”, de Carlos Drummond de Andrade: Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas autos abertos correndo caminho do mar voluptuosidade errante do calor mil presentes da vida aos homens indiferentes, que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram. O mar batia em meu peito, já não batia no cais. A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu a cidade sou eu sou eu a cidade meu amor.
Nos versos citados, a relação entre o eu lírico e o seu entorno é estreita – o que é confirmado pelas expressões sublinhadas. A partir de tais observações, pode-se afirmar que a aproximação estabelecida entre o sujeito e a cidade conota a) a comoção do sujeito poético, cuja sensibilidade é despertada pela vitalidade que movimenta a urbe. b) a desumanização do sujeito poético, cujo cotidiano frenético repete o ritmo do espaço urbano. c) a soberba do eu lírico, que se supõe tão grandioso e fascinante quanto a cidade. d) a degradação do sujeito lírico que, assim como a cidade, está “doente” por não receber a atenção das pessoas. e) a apatia do eu lírico que, assim como a cidade, segue o seu rumo, imune ao caos urbano. 4. Uece 2014
Portão O portão fica bocejando, aberto para os alunos retardatários. Não há pressa em viver nem nas ladeiras duras de subir, 5 quanto mais para estudar a insípida cartilha. Mas se o pai do menino é da oposição, à ilustríssima autoridade municipal, prima por sua vez da sacratíssima autoridade nacional, 10 ah, isso não: o vagabundo ficará mofando lá fora e leva no boletim uma galáxia de zeros. A gente aprende muito no portão fechado. ANDRADE, Carlos Drummond de. In: Carlos Drummond de Andrade: Poesia e Prosa. Editora Nova Aguilar: 1988. p. 506-507.
LÍNGUA PORTUGUESA
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Atente ao que é dito sobre o vocábulo “insípida” (linha 5). I. Foi empregado na acepção de sem graça, desinteressante, monótono. II. Foi empregado no seu sentido literal, não figurado. III. A mudança da posição desse adjetivo para depois do substantivo não alteraria o significado do substantivo. Está correto o que se afirma somente em a) I e II. b) III. c) I e III. d) II. 5. UFRGS 2016 Leia o poema de Cecília Meireles, abaixo, e o de Mario Quintana, na sequência.
Canção excêntrica Ando à procura de espaço Para o desenho da vida Em números me embaraço E perco sempre a medida. Se penso encontrar saída, Em vez de abrir um compasso, projeto-me num abraço e gero uma despedida. Se volto sobre o meu passo, É já distância perdida. Meu coração, coisa de aço, começa a achar um cansaço esta procura de espaço para o desenho da vida. Já por exausta e descrida não me animo a um breve traço: – saudosa do que não faço, – do que faço, arrependida.
Seiscentos e sessenta e seis A vida é uns deveres que nós trouxemos para [fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo... Quando se vê, já é 6a feira... Quando se vê, passaram 60 anos... Agora, é tarde demais para ser reprovado... E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade, Eu nem olhava o relógio Seguia sempre, sempre em frente... E iria jogando pelo caminho a casca dourada [e inútil das horas.
Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre os poemas. O poema de Cecília Meireles apresenta vocabulário ligado à geometria e regularidade estrutural e métrica, apontando para a necessidade de o sujeito lírico definir sua vida com exatidão. O poema de Mario Quintana busca a definição da vida, a partir da metáfora com o universo escolar e a passagem do tempo.
A sucessão “6 horas, 6a feira, 60 anos”, no poema de Quintana, indica a finitude: fim do dia útil, fim da semana útil, consequentemente, fim da vida útil. Os dois poemas, embora os sujeitos líricos sejam uma mulher e um homem, encerram com um tom melancólico, porque a realidade não corresponde às suas expectativas. a) b) c) d) e)
V – V – V – V. V – F – F – V. V – V – F – F. F – F – V – F. F – V – V – F.
6. Enem 2017
Da humana condição Custa o rico entrar no céu (Afirma o povo e não erra). Porém muito mais difícil É um pobre ficar na terra. QUINTANA, M. Melhores poemas. São Paulo: Global, 2003.
Mário Quintana ficou conhecido por seus “quintanares”, nome que o poeta Manuel Bandeira deu a esses quartetos com pequenas observações sobre a vida. Nessa perspectiva, os versos do poema Da humana condição ressaltam a) a desvalorização da cultura popular. b) a falta de sentido da existência humana. c) a irreverência diante das crenças do povo. d) uma visão irônica das diferenças de classe. e) um olhar objetivo sobre as diferenças sociais. 7. Leia o texto seguinte.
Borba Gato e as disputas pelas identidades e memórias do país Era sábado, dia 24 de julho de 2021, quando um grupo de jovens vestidos de preto chegou em um caminhão e começaram a jogar pneus, derramar líquido inflamável em uma estátua que fica no bairro de Santo Amaro, zona sul de São Paulo, e atearam fogo. Imediatamente, os meios de comunicação noticiaram que a estátua de Borba Gato havia sido incendiada. A autoria do ato foi reivindicada pelo grupo Revolução Periférica, que postou imagens da ação nas redes sociais. Nessas mesmas redes sociais emergiu um debate intenso sobre a legitimidade da ação. Alguns eram contra e outros a favor. Esse não é um fato isolado no Brasil, muito menos no mundo, sobretudo no que diz respeito a ligação destes monumentos com a escravidão moderna. No ano de 2015, na África do Sul, estudantes da Universidade da Cidade do Cabo removeram a estátua do imperialista britânico Cecil Rhodes. Segundo os estudantes, o monumento significava a presença do racismo imperando na instituição e no país. Em 2017, na cidade Charlottesville, Virginia, Estados Unidos, houve protestos e confrontos contra a retirada da estátua do general confederado Robert E. Lee. Ainda no Estados Unidos, durante as manifestações contra o assassinato de George Floyd, as ações a favor da retirada dos monumentos que tinham ligação com o passado escravista do país se intensificaram e reverberaram pelo mundo. LÍNGUA PORTUGUESA
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[...] Todos esses fatos têm algo em comum: a disputa em torno da memória, ou seja, como os fatos devem ser lembrados no presente que os rememora. Falar em memória é também falar em pertencimento e constituição de identidades. O sociológico e historiador Michael Pollak afirma que a memória, principalmente a memória coletiva, tem como função estabelecer espaços de pertencimento ao mesmo tempo que traça limites para esse pertencimento. RIBEIRO, Deivide Júlio. Borba Gato e as disputas pelas identidades e memórias do país. Disponível em: https://cjt.ufmg.br/2021/08/04/borbagato-e-as-disputas-pela-identidades-e-memorias-do-pais/. Acesso em: 19 jan. 2024.
A partir da leitura do texto, é possível afirmar que Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, também recorre à ressignificação da memória do país, pois a) recrimina o movimento da Conjuração Mineira do século XVIII. b) acusa poetas árcades de macularem a poesia com política. c) adota a perspectiva daqueles que foram considerados traidores. d) defende a posição da metrópole portuguesa diante da insurreição. e) condena os inconfidentes infiéis a partir de uma visão eurocêntrica.
Irene no Céu Irene preta Irene boa Irene sempre de bom humor. Imagino Irene entrando no céu: — Licença meu branco! E São Pedro bonachão: — Entra, Irene. Você não precisa pedir licença. (Manuel Bandeira)
Negra A negra para tudo a negra para todos a negra para capinar plantar regar colher carregar empilhar no paiol ensacar lavar passar remendar costurar cozinhar rachar lenha limpar a bunda dos nhozinhos trepar. A negra para tudo nada que não seja tudo tudo tudo até o minuto de (único trabalho para seu proveito exclusivo) morrer. (Carlos Drummond de Andrade)
Ora, se deu que chegou (isso já faz muito tempo)
Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) — Vai forrar a minha cama, pentear os meus cabelos, vem ajudar a tirar a minha roupa, Fulô! Essa negra Fulô! Essa negrinha Fulô ficou logo pra mucama, pra vigiar a Sinhá pra engomar pro Sinhô! Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) vem me ajudar, ó Fulô, vem abanar o meu corpo que eu estou suada, Fulô! vem coçar minha coceira, vem me catar cafuné, vem balançar minha rede, vem me contar uma história, que eu estou com sono, Fulô!
8. UPE 2015
Essa Negra Fulô
no bangüê dum meu avô uma negra bonitinha, chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô! “Era um dia uma princesa que vivia num castelo que possuía um vestido com os peixinhos do mar. Entrou na perna dum pato saiu na perna dum pinto o Rei-Sinhô me mandou que vos contasse mais cinco.” Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô? Ó Fulô? Vai botar para dormir esses meninos, Fulô! “Minha mãe me penteou minha madrasta me enterrou pelos figos da figueira que o Sabiá beliscou.” Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô? Ó Fulô? (Era a fala da Sinhá Chamando a negra Fulô.) Cadê meu frasco de cheiro Que teu Sinhô me mandou? LÍNGUA PORTUGUESA
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— Ah! Foi você que roubou! Ah! Foi você que roubou!
todos eles trabalhadores dos engenhos de açúcar de Minas Gerais, Alagoas e Pernambuco, estados onde respectivamente nasceram esses poetas. Os três poemas apresentam vocabulários diferenciados, mas, em todos, a imagem da negra tem o beneplácito dos autores. Bandeira enxerga Irene sem pecado, Jorge de Lima explora a sensualidade da Negra Fulô e Drummond critica o tratamento dado à escrava. Os três poemas são lírico-amorosos, defendem a postura da mulher. Além de serem estruturados em redondilhas maior e menor, apresentam rimas cruzadas e interpoladas. Trata-se, portanto, de textos em que a preocupação formal se revela mais importante que o conteúdo.
O Sinhô foi ver a negra levar couro do feitor. A negra tirou a roupa. O Sinhô disse: Fulô! (A vista se escureceu que nem a negra Fulô.) Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! Cadê meu lenço de rendas, Cadê meu cinto, meu broche, Cadê o meu terço de ouro que teu Sinhô me mandou?
Assinale a alternativa que contém a sequência CORRETA. a) V – V – F – F – F d) V – V – F – V – V b) F – F – F – F – V e) F – F – F – V – F c) V – F – V – F – V
Ah! foi você que roubou. Ah! foi você que roubou. Essa negra Fulô! Essa negra Fulô!
9. UPE 2015
O Sinhô foi açoitar sozinho a negra Fulô. A negra tirou a saia e tirou o cabeção, de dentro pulou nuinha a negra Fulô.
Texto 1
Mapa de anatomia: O Olho
Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! Cadê, cadê teu Sinhô que Nosso Senhor me mandou? Ah! Foi você que roubou, foi você, negra fulô? Essa negra Fulô! (Jorge de Lima)
Observe os três poemas que, apesar de autores diferentes, apresentam alguns pontos em comum. Sobre eles, coloque V nas afirmativas verdadeiras e F nas falsas. Em Essa Negra Fulô e em Negra, o eu poético revela ser herdeiro de preconceito, pois o termo negra é, no contexto dos dois poemas, uma palavra que demonstra uma condição de inferioridade reveladora de uma atitude racista, própria daqueles que admitem ter sido necessária a escravidão para o progresso. Manuel Bandeira, diferentemente de Jorge de Lima e Carlos Drummond de Andrade, critica, com veemência, em Irene no céu, o comportamento dos antigos senhores de escravos, quando demonstra a atenção e o carinho de São Pedro, permitindo que Irene entre no céu, ao dizer: “Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”. Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima e Manuel Bandeira criaram três poemas narrativos em que se relata a história de três escravos,
O Olho é uma espécie de globo, é um pequeno planeta com pinturas do lado de fora. Muitas pinturas: azuis, verdes, amarelas. É um globo brilhante: parece cristal, é como um aquário com plantas finamente desenhadas: algas, sargaços, miniaturas marinhas, areias, rochas, naufrágios e peixes de ouro. Mas por dentro há outras pinturas, que não se veem: umas são imagens do mundo, outras são inventadas. O Olho é um teatro por dentro. E às vezes, sejam atores, sejam cenas, e às vezes, sejam imagens, sejam ausências, formam, no Olho, lágrimas. (Cecília Meireles)
Texto 2
A um ausente Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência LÍNGUA PORTUGUESA
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de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora. Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si, o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mãos, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança. Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste. (Carlos Drummond de Andrade)
Texto 3
Ausência Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces. Porque nada te poderei dar senão a mágoa de Me veres eternamente exausto No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada. Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada. (Vinícius de Moraes)
Após a leitura dos poemas, analise as proposições a seguir. I. O Texto 1 é um poema, cujo eu lírico trata das ausências, recorrendo aos sentidos, e fala de seus sentimentos, valendo-se da forma e da cor que as imagens poéticas sugerem. II. Os três poemas falam de ausência ou de saudade na mesma proporção, como também de relações amorosas frustradas. III. No Texto 2, o eu lírico questiona a ausência de quem partiu, sem sequer anunciar sua partida. Percebe-se que a morte foi o motivo da ausência da amizade sugerida pelas imagens poéticas. IV. Vinicius de Moraes é dono de um lirismo de caráter confidencial, com uma visão familiar do mundo; é um poeta singular. No Texto 3, percebe-se um eu lírico carregado de sentimentos de afeto por uma amada, entre o universo espiritual e físico. Estão CORRETAS: a) I e II, apenas. b) I, II e III, apenas. c) I, III e IV, apenas.
d) III e IV, apenas. e) I, II, III e IV.
LÍNGUA PORTUGUESA
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Exercícios complementares 1. Imed-RS 2016 Leia os poemas a seguir, de Casimiro de Abreu e Carlos Drummond de Andrade, respectivamente:
Meus oito anos Oh! Que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida — Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais! […] Rezava às Ave-Marias, Achava o céu sempre lindo, Adormecia sorrindo E despertava a cantar! Que doce a vida não era Em vez das mágoas de agora.
Consolo na praia Vamos, não chores... A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis casa, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas, e o humour? A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros. Tudo somado, devias precipitar-te, de vez, nas águas. Estás nu na areia, no vento... Dorme, meu filho.
Analise as seguintes afirmações a partir dos poemas: I. Embora Casimiro de Abreu integre o período literário romântico, e Carlos Drummond de Andrade, o modernismo, ambos os poemas abordam a passagem do tempo e a ideia de perda de momentos da vida humana: infância e juventude. II. No primeiro poema, o eu lírico apresenta a infância com certo escapismo, fugindo, assim, do momento presente, o qual é resgatado no último verso. III. Identifica-se que, em ambos os poemas, o eu lírico mostra-se pesaroso e inconformado com a passagem do tempo e da vida. Quais estão corretas? a) Apenas I. b) Apenas III. c) Apenas I e II. d) Apenas II e III. e) I, II e III. 2. Unicamp-SP 2020 Leia os três excertos e responda à questão. Texto 1: Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso... (João Guimaraes Rosa, Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 26.)
Texto 2: Chego à sacada e vejo a minha serra, / a serra de meu pai e meu avô, / de todos os Andrades que passaram / e passarão, a serra que não passa. / [...] / Esta manhã acordo e / não a encontro. / [...] / foge minha serra, vai / deixando no meu corpo e na paisagem / mísero pó de ferro, e este não passa. (Carlos Drummond de Andrade, Boitempo II. Rio de Janeiro: Record, 1994, p. 72.)
Texto 3: Menor em quilômetros do que o desastre de Mariana, causado pela Samarco, controlada pela mesma Vale, o de Brumadinho é gigante em gravidade: as florestas e rios afetados eram muito mais ricos e importantes para o equilíbrio ambiental, salientam especialistas. (Fonte: https://oglobo.globo.com/brasil/dano-ambiental-em-brumadinhoameaca-centenas-de-especies-2324033. Acessado em 06/11/2019.)
A vida imita a arte. Quando Guimarães Rosa, que se criou nas terras do sertão do Paraopeba, e Drummond escreveram, provavelmente não imaginavam o que ocorreria em Brumadinho e Mariana. Percebe-se uma relação entre um processo de transformação e as expressões “mísero pó de ferro”, em Drummond, e “desfaz o barranco”, em Rosa. Identifique a atividade econômica e descreva o processo de transformação da matéria-prima implícitos nos textos desses autores. LÍNGUA PORTUGUESA
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3. Fuvest-SP 2013 Leia o seguinte poema.
Tristeza do Império Os conselheiros angustiados ante o colo ebúrneo das donzelas opulentas que ao piano abemolavam “bus-co a cam-pi-na se-re-na pa-ra-li-vre sus-pi-rar”, esqueciam a guerra do Paraguai, o enfado bolorento de São Cristóvão, a dor cada vez mais forte dos negros e sorvendo mecânicos uma pitada de rapé, sonhavam a futura libertação dos instintos e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus de [Copacabana, com rádio e telefone automático. Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
a) Compare sucintamente “os conselheiros” do Império, tal como os caracteriza o poema de Drummond, ao protagonista das Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. b) Ao conjugar de maneira intempestiva o passado imperial ao presente de seu próprio tempo, qual é a percepção da história do Brasil que o poeta revela ser a sua? Explique resumidamente. 4. Enem PPL 2017
O exercício da crônica Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. MORAES, V. Para viver um grande amor: crônicas e poemas. São Paulo: Cia. das Letras, 1991.
Nesse trecho, Vinicius de Moraes exercita a crônica para pensá-la como gênero e prática. Do ponto de vista dele, cabe ao cronista a) criar fatos com a imaginação. b) reproduzir as notícias dos jornais. c) escrever em linguagem coloquial. d) construir personagens verossímeis. e) ressignificar o cotidiano pela escrita. 5. PUC-Rio 2014
A felicidade Tristeza não tem fim Felicidade sim... A felicidade é como a pluma Que o vento vai levando pelo ar Voa tão leve Mas tem a vida breve Precisa que haja vento sem parar.
A felicidade do pobre parece A grande ilusão do carnaval A gente trabalha o ano inteiro Por um momento de sonho Pra fazer a fantasia De rei, ou de pirata, ou jardineira Pra tudo se acabar na quarta-feira Tristeza não tem fim Felicidade sim... A felicidade é como a gota De orvalho numa pétala de flor Brilha tranquila Depois de leve oscila E cai como uma lágrima de amor. A minha felicidade está sonhando Nos olhos da minha namorada É como esta noite Passando, passando Em busca da madrugada Falem baixo, por favor... Pra que ela acorde alegre com o dia Oferecendo beijos de amor. Tristeza não tem fim Felicidade sim... MORAES, Vinicius de; JOBIM, Tom. Vinicius de Moraes – Literatura comentada. São Paulo: Abril Educação, 1980. p. 71-2.
a) Em 2013, comemorou-se o centenário de nascimento de uma das mais importantes personagens da cultura brasileira, Vinicius de Moraes. Poeta, compositor, jornalista, diplomata, Vinicius soube como poucos sensibilizar os seus leitores com uma literatura densa, envolvente e sensível. Apesar de pertencer historicamente ao Modernismo, a poética de Vinicius está muito próxima à de outro estilo de época da nossa literatura. A partir da leitura da letra da canção “A felicidade”, parceria sua com o maestro Tom Jobim, aponte o estilo do qual ele se aproxima, fundamentando a sua resposta. b) Determine o gênero literário predominante no texto, justificando com dois aspectos que o caracterizam. 6. UPE 2014
A arquitetura da cana-de-açúcar Os alpendres das casas-grandes de par em par abertos, anchos, cordiais como a hora do almoço, apesar disso não são francos. O aberto alpendre acolhedor no casarão sem acolhimento tira a expressão amiga, amável do que é fora e não dentro: dos lençóis de cana, tendidos, postos ao sol até onde a vista, e que lhe dão o sorriso aberto que disfarça o que dentro é urtiga. (João Cabral de Melo Neto)
LÍNGUA PORTUGUESA
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O bicho Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. (Manuel Bandeira)
Cidadezinha qualquer Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor contar. Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Devagar... as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus! (Carlos Drummond de Andrade)
Em relação aos três poemas, assinale a alternativa CORRETA. a) Os poemas de Cabral, Bandeira e Drummond apresentam temas característicos de ambientes sociais diferentes. No primeiro poema, o eu lírico faz uma crítica ao ambiente rural, enquanto os outros dois refletem a realidade urbana própria da metrópole, na qual o homem e os animais são inconfundíveis. b) Só os poemas dos autores pernambucanos tratam de uma temática social, enquanto o poeta mineiro menciona Deus, revelando uma preocupação religiosa intensa, própria do imaginário da região onde nasceu. c) O primeiro e o terceiro poema revelam preocupação com o homem contemporâneo, quando este vive o tédio dos grandes centros urbanos. Também neles, o eu poético fala da efemeridade do tempo, tema próprio da poética de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. d) João Cabral, em Arquitetura da cana-de-açúcar, revela preocupação com o retirante nordestino, que busca na capital uma vida melhor. Tal fato se apresenta no primeiro texto, cuja temática é a mesma de Morte e vida severina, Auto de Natal pernambucano. e) Os três poemas apresentam comportamentos e situações inerentes à existência de seres humanos pertencentes a classes e ambientes sociais distintos: a casa grande e a hipocrisia de seus habitantes, a cidade grande e a vida animalesca de alguns que nela vivem e a cidade do interior com seus mexericos.
LÍNGUA PORTUGUESA
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Língua Portuguesa – Frente 2 – Capítulo 12 Exercícios propostos 1. Acafe-SC 2020 Leia o comentário a seguir sobre Capitães da Areia, de Jorge Amado. A segunda parte do romance se inicia com a apresentação de dois novos personagens: a menina Dora e seu irmão Zé Fuinha. A primeira ‘capitã da areia’ despertará o desejo sexual dos meninos, mas, defendida por ________ e _________, acabará sendo aceita pelo grupo. Aos poucos, se torna a ‘mãe’ dos capitães, tão necessitados de afeto e carinho.
A alternativa que preenche corretamente os espaços em branco é: a) Gato – Boa Vida b) Sem Pernas – Pedro Bala c) Volta Seca – Pirulito d) João Grande – Professor 2. Unesp 2020 A ideia de pátria se vinculava estreitamente à de natureza e em parte extraía dela a sua justificativa. Ambas conduziam a uma literatura que compensava o atraso material e a debilidade das instituições por meio da supervalorização dos aspectos regionais, fazendo do exotismo razão de otimismo social. A partir de 1930 houve uma mudança de orientação, sobretudo na ficção regionalista, percebendo-se o que havia de mascaramento no encanto pitoresco com que antes se abordava o homem rústico. Evidenciou-se a realidade dos solos pobres, das técnicas arcaicas, da miséria pasmosa das populações, da sua incultura paralisante. A visão que resulta dessa perspectiva é pessimista quanto ao presente e problemática quanto ao futuro. (Antonio Candido. A educação pela noite e outros ensaios, 1989. Adaptado.)
O excerto assinala uma reorientação nos rumos da literatura brasileira, na medida em que os escritores a) deparam-se com a instituição de uma regionalização oficial pelo IBGE. b) passam a mostrar os aspectos do Brasil como país subdesenvolvido. c) reconhecem o estabelecimento de alianças democráticas no Brasil. d) percebem a assimilação do american way of life pelo povo brasileiro. e) optam pelo emprego de uma visão eurocêntrica em sua produção literária. 3. Unioeste-PR 2018 Qual das afirmativas NÃO é procedente em relação ao romance Fogo morto, de José Lins do Rego? a) Ambientado na região açucareira do nordeste, na Várzea do Rio Paraíba, seu autor integra a geração regionalista dos anos 30. b) É dividido em quatro partes, centradas, respectivamente nos seguintes temas: Mestre Zé Amaro; Maria Bonita e os cangaceiros; O coronel e o lobisomem; A usina do seu Lula de Holanda.
c) Evidencia o tema da contestação armada à ordem vigente, representado pelo cangaço e o bando de Antônio Silvino. d) A educação para o casamento e a desintegração familiar caracterizaram a trágica condição das moças solteiras, a exemplo de Marta e Neném. e) Traça a história completa da ascensão à decadência de uma casa e sua família, cujo símbolo é o engenho Santa Fé e seus proprietários. 4. Uespi Graciliano Ramos foi um dos principais escritores da Geração de 30. Geração esta que, dentro dos princípios do regionalismo, pensou o Brasil (seus problemas sociais, políticos, religiosos, econômicos e culturais) a partir de cada uma das suas regiões. São Bernardo, romance publicado em 1934, tem como cenário a zona pastoril de Alagoas. Sobre esta obra de Graciliano, é correto afirmar o que segue. a) São Bernardo é narrado na terceira pessoa, o que permite um distanciamento entre o narrador e o objeto da narrativa. b) Paulo Honório, o personagem principal do romance, é filho de um rico proprietário rural, de quem ele herda a fortuna. c) A narrativa do romance é concisa, clara, dinâmica, sem se perder em episódios que sejam desnecessários para a compreensão da obra. d) Paulo Honório amarga “três anos, nove meses e quinze dias” na cadeia por matar a sua primeira namorada: Germana. e) As relações de Paulo Honório com os empregados da fazenda são harmoniosas e sem nenhum conflito. 5. Mackenzie-SP Texto I Vivia longe dos homens, só se dava bem com os animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. Graciliano Ramos, Vidas secas
No texto I, a descrição do personagem Fabiano aponta para as seguintes características, EXCETO: a) adaptação do personagem ao meio natural. b) identificação com o animal. c) caráter antissocial. d) comportamento primitivo e espontâneo. e) revolta devido a sua condição familiar. 6. Enem
Mudança Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas LÍNGUA PORTUGUESA
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manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. Arrastaram-se para lá, devagar, sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio. As manchas dos juazeiros tornaram a aparecer, Fabiano aligeirou o passo, esqueceu a fome, a canseira e os ferimentos. Deixaram a margem do rio, acompanharam a cerca, subiram uma ladeira, chegaram aos juazeiros. Fazia tempo que não viam sombra. RAMOS, G. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2008 (fragmento).
Valendo-se de uma narrativa que mantém o distanciamento na abordagem da realidade social em questão, o texto expõe a condição de extrema carência dos personagens acuados pela miséria. O recurso utilizado na construção dessa passagem, o qual comprova a postura distanciada do narrador, é a a) caracterização pitoresca da paisagem natural. b) descrição equilibrada entre os referentes físicos e psicológicos dos personagens. c) narração marcada pela sobriedade lexical e se quência temporal linear. d) caricatura dos personagens, compatível com o aspecto degradado que apresentam. e) metaforização do espaço sertanejo, alinhada com o projeto de crítica social. 7. EsPCEx-SP 2016 Leia o trecho do romance São Bernardo e dê o que se pede. [...] O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. [...] Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo? [...] Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige. [...] Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
[...]
Quanto ao trecho lido, é correto afirmar que a) há predomínio de uma visão ufanista do narrador. b) o intimismo dificulta uma visão crítica. c) a abordagem universal permite alcançar à dimensão regional. d) a incapacidade de modificar o modo de vida revela traços deterministas. e) o narrador externo explora conflitos internos do personagem. 8. UFBA Pôs-se a berrar, imitando as cabras, chamando o irmão e a cachorra. Não obtendo resultado, indignou-se. Ia mostrar aos dois uma proeza, voltariam para casa espantados. Aí o bode se avizinhou e meteu o focinho na água. O menino despenhou-se da ribanceira, escanchou-se no espinhaço dele. Mergulhou no pelame fofo, escorregou, tentou em vão segurar-se com os calcanhares, foi atirado para a frente, voltou, achou-se montado na garupa do animal, que saltava demais e provavelmente se distanciava do bebedouro. Inclinou-se para um lado, mas, fortemente sacudido, retomou a posição vertical, entrou a dançar desengonçado, as pernas abertas, os braços inúteis. Outra vez impelido para a frente, deu um salto mortal, passou por cima da cabeça do bode, aumentou o rasgão da camisa numa das pontas e estirou-se na areia. Ficou ali estatelado, quietinho, um zunzum nos ouvidos, percebendo vagamente que escapara sem honra da aventura. [...] Olhou com raiva o irmão e a cachorra. Deviam tê-lo prevenido. Não descobriu neles nenhum sinal de solidariedade: o irmão ria como um doido, Baleia, séria, desaprovava tudo aquilo. Achou-se abandonado e mesquinho, exposto a quedas, coices e marradas. [...] Lembrou-se de Fabiano e procurou esquecê-lo. Com certeza Fabiano e sinha Vitória iam castigá-lo por causa do acidente. [...] [...] Retirou-se. A humilhação atenuou-se pouco a pouco e morreu. Precisava entrar em casa, jantar, dormir. E precisava crescer, ficar tão grande como Fabiano, matar cabras a mão de pilão, trazer uma faca de ponta à cintura. Ia crescer, espichar-se numa cama de varas, fumar cigarros de palha, calçar sapatos de couro cru. Subiu a ladeira, chegou-se a casa devagar, entortando as pernas, banzeiro. Quando fosse homem, caminharia assim, pesado, cambaio, importante, as rosetas das esporas tilintando. Saltaria no lombo de um cavalo brabo e voaria na catinga como pé-de-vento, levantando poeira. Ao regressar, apear-se-ia num pulo e andaria no pátio assim torto, de perneiras, gibão, guarda-peito e chapéu de couro com barbicacho. O menino mais velho e Baleia ficariam admirados. RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 74. ed. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 1998. p. 51-53.
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Sobre o fragmento, contextualizado na obra, é verdadeiro o que se afirma em 01 A narrativa apresenta uma linguagem de carga semântica negativa, ligada à agressividade e à violência praticadas entre as personagens. 02 O projeto de autorrealização do menino ocorre no futuro, como compensação da frustração experimentada no presente. 04 O menino apresenta um padrão de conduta que se assemelha ao de sinha Vitória, no que se refere às suas atitudes e ações. 08 O menino da narrativa necessita de testemunhas, de público: ele quer comprovação de suas façanhas, de sua coragem. 16 O sentido inusitado da situação mostrada no fragmento ocorre porque o animal percebe o insucesso da ação praticada pelo menino, enquanto o irmão zomba dele. 32 O processo de aprendizagem da criança restringe-se à imitação de animais integrantes do cenário nordestino. Soma: 9. PUC-Campinas 2016 Leia atentamente o texto a seguir para responder à questão.
História da pintura, história do mundo O homem nunca se contentou em apenas ocupar os espaços do mundo; sentiu logo a necessidade de representá-los, reproduzi-los em imagens, formas, cores, desenhá-los e pintá-los na parede de uma caverna, nos muros, numa peça de pano, de papel, numa tela de monitor. Acompanhar a história da pintura é acompanhar um pouco a história da humanidade. É, ainda, descortinar o espaço íntimo, o espaço da imaginação, onde podemos criar as formas que mais nos interessam, nem sempre disponíveis no mundo natural. Um guia notável para aprender a ler o mundo por meio das formas com que os artistas o conceberam é o livro História da Pintura, de uma arguta irmã religiosa, da ordem de Notre Dame, chamada Wendy Beckett. Ensina-nos a ver em profundidade tudo o que os pintores criaram, e a reconhecer personagens, objetos, fatos e ideias do período que testemunharam. A autora começa pela Pré-História, pela caverna subterrânea de Altamira, em cujas paredes, entre 15000 e 12000 a.C., toscos pincéis de caniços ou cerdas e pó de ocre e carvão deixaram imagens de bisões e outros animais. E dá um salto para o antigo Egito, para artistas que já obedeciam à chamada “regra de proporção”, pela qual se garantia que as figuras retratadas − como caçadores de aves e mulheres lamentosas no funeral de um faraó − se enquadrassem numa perfeita escala de medidas. Já na Grécia, a pintura de vasos costuma ter uma função narrativa: em alguns notam-se cenas da Ilíada e da Odisseia. A maior preocupação dos artistas helenísticos era a fidelidade com que procuravam representar o mundo real, sobretudo em seus lances mais dramáticos, como os das batalhas. A arte cristã primitiva e medieval teve altos momentos, desde os consagrados à figuração religiosa nas paredes dos templos, como as imagens da Virgem e do Menino, até
as ilustrações de exemplares do Evangelho, as chamadas “iluminuras” artesanais. Na altura do século XII, o estilo gótico se impôs, tanto na arquitetura como na pintura. Nesta, o fascínio dos artistas estava em criar efeitos de perspectiva e a ilusão de espaços que parecem reais. Mas é na Renascença, sobretudo na italiana, que a pintura atinge certa emancipação artística, graças a obras de gênios como Leonardo, Michelangelo, Rafael. É o império da “perspectiva”, considerada por muitos artistas como mais importante do que a própria luz. Para além das representações de caráter religioso, as paisagens rurais e retratos de pessoas, sobretudo das diferentes aristocracias, apresentam-se num auge de realismo. Em passos assim instrutivos, o livro da irmã Wendy vai nos conduzindo por um roteiro histórico da arte da pintura e dos sucessivos feitos humanos. Desde um jogo de boliche numa estalagem até figuras femininas em atividades domésticas, de um ateliê de ourives até um campo de batalha, 1tudo vai se oferecendo a novas técnicas, como a da “câmara escura”, explorada pelo holandês Vermeer, pela qual se obtinha melhor controle da luminosidade adequada e do ângulo de visão. Entram em cena as novas criações da tecnologia humana: os navios a vapor, os trens, as máquinas e as indústrias podem estar no centro das telas, falando do progresso. Nem faltam, obviamente, os motivos violentos da história: a Revolução Francesa, a sanguinária invasão napoleônica da Espanha (num quadro inesquecível de Goya), escaramuças entre árabes. Em contraste, paisagens bucólicas e jardins harmoniosos desfilam ainda pelo desejo de realismo e fidedignidade na representação da natureza. 2 Mas sobrevém uma crise do 3realismo, da 4submissão da pintura às formas dadas do mundo natural. Artistas como Manet, Degas, Monet e Renoir aplicam-se a um novo modo de ver, pelo qual a imagem externa se submete à visão íntima do artista, que a tudo projeta agora de modo sugestivo, numa luz mais ou menos difusa, apanhando uma realidade moldada mais pela impressão da imaginação criativa do que pelas formas nítidas naturais. No Impressionismo, 5uma catedral pode ser pouco mais que 6uma grande massa luminosa, 7cujas formas arquitetônicas mais se 8adivinham do que se traçam. Associada à Belle Époque, a arte do final do século XIX e início do XX guardará ainda certa inocência da vida provinciana, no campo, ou na vida mundana dos cafés, na cidade. Desfazendo-se quase inteiramente dos traços dos impressionistas, artistas como Van Gogh e Cézanne, explorando novas liberdades, fazem a arte ganhar novas técnicas e aproximar-se da abstração. A dimensão psicológica do artista transparece em seus quadros: o quarto modestíssimo de Van Gogh sugere um cotidiano angustiado, seus campos de trigo parecem um dourado a saltar da tela. A Primeira Grande Guerra eliminará compreensões mais inocentes do mundo, e o século XX em marcha acentuará as cores dramáticas, convulsionadas, as formas quase irreconhecíveis de uma realidade fraturada. O cubismo, o expressionismo e o abstracionismo (Picasso, Kandinsky e outros) interferem radicalmente na visão “natural” do mundo. 9Por outro lado, 10menos libertário, 11doutrinas totalitaristas, como a stalinista e a nazifascista, pretenderão que os artistas se submetam às suas ideologias. Já Mondrian fará escola com a geometria das formas, Salvador Dalí expandirá o surrealismo dos LÍNGUA PORTUGUESA
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sonhos, e muitas tendências contemporâneas passam a sofrer certa orientação do mercado da arte, agora especulada como mercadoria. Em suma, a história da pintura nos 12ensina a entender o que podemos ver do mundo e de nós mesmos. As peças de um museu parecem estar ali 13paralisadas, 14mas basta um pouco da nossa atenção a cada uma delas para que a vida ali contida se manifeste. Com a arte da pintura aprenderam as artes e técnicas visuais do nosso tempo: a fotografia, o cinema, a televisão devem muito ao que o homem aprendeu pela força do olhar. Novos recursos ampliam ou restringem nosso campo de visão: atualmente muitos andam de cabeça baixa, apontando os olhos para a pequena tela de um celular. Ironicamente, alguém pode baixar nessa telinha “A criação do homem”, que Michelangelo produziu para eternizar a beleza do forro da Capela Sistina. BATISTA, Domenico, inédito.
A linguagem e o universo de Guimarães Rosa na obra-prima que é o romance Grande sertão: veredas estão em parte caracterizados no seguinte segmento do texto: a) apanhando uma realidade moldada mais pela impressão da imaginação criativa do que pelas formas nítidas naturais. b) o fascínio dos artistas [do estilo gótico] estava em criar efeitos de perspectiva e a ilusão de espaços que parecem reais. c) as paisagens rurais e retratos de pessoas, sobretudo das diferentes aristocracias, apresentam-se num auge de realismo. d) paisagens bucólicas e jardins harmoniosos desfilam ainda pelo desejo de realismo e fidedignidade na representação da natureza. e) acentuará as cores dramáticas, convulsionadas, as formas quase irreconhecíveis de uma realidade fraturada.
Exercícios complementares 1. ITA-SP 2017 O romance Fogo morto, de José Lins do Rego, apresenta um amplo painel social do interior paraibano no final do século XIX. Acerca das personagens, é correto dizer que a) os três principais senhores de engenho retratados são o Coronel Lula de Holanda, o Capitão José Paulino e o mestre José Amaro. b) o Coronel Lula de Holanda, explorando os escravos e tomando as terras de José Amaro, tornou-se o mais rico da Paraíba. c) o Capitão Vitorino é uma figura quixotesca, pois, mesmo ridicularizado pelo povo, luta contra os desmandos das autoridades. d) o líder cangaceiro Antônio Silvino consegue, no final, acabar com a injustiça praticada pelos senhores de engenho. e) o mestre José Amaro decide entrar para o bando de Antônio Silvino para se vingar do Coronel Lula de Holanda pelo que ele lhe fez. 2. UFBA O Mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado. Sinha Vitória falou assim, mas Fabiano resmungou, franziu a testa, achando a frase extravagante. Aves matarem bois e cabras, que lembrança! Olhou a mulher, desconfiado, julgou que ela estivesse tresvariando. [...] Fabiano estirou o beiço e enrugou mais a testa suada: impossível compreender a intenção da mulher. [...] — Chi! Que fim de mundo! Não permaneceria ali muito tempo. No silêncio comprido só se ouvia um rumor de asas.
Como era que sinha Vitória tinha dito? A frase dela tornou ao espírito de Fabiano e logo a significação apareceu. As arribações bebiam a água. Bem. O gado curtia sede e morria. Muito bem. As arribações matavam o gado. Estava certo. Matutando, a gente via que era assim, mas sinha Vitória largava tiradas embaraçosas. Agora Fabiano percebia o que ela queria dizer. Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de sinha Vitória. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha ideias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo. Nas situações difíceis encontrava saída. Então! Descobrir que as arribações matavam o gado! E matavam. Àquela hora o mulungu do bebedouro, sem folhas e sem flores, uma garrancharia pelada, enfeitava-se de penas. [...] Alargou o passo, desceu a ladeira, pisou a terra de aluvião, aproximou-se do bebedouro. Havia um bater doido de asas por cima da poça de água preta, a garrancheira do mulungu estava completamente invisível. Pestes. Quando elas desciam do sertão, acabava-se tudo. O gado ia finar-se, até os espinhos secariam. Suspirou. Que havia de fazer? Fugir de novo, aboletar-se noutro lugar, recomeçar a vida. [...] RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 74. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 1998. p. 108-110.
De acordo com esse trecho de Vidas secas, inserido na obra, é verdadeiro o que se afirma nas proposições 01 A personagem Fabiano aparece nessa narrativa — uma produção regionalista do Modernismo da década de 30 — como um representante do sertanejo, de consciência embotada e raciocínio lento. 02 O texto apresenta mais de um sujeito discursivo, pois a personagem sinha Vitória vai gradativamente ocupando todo o espaço no pensamento de Fabiano. LÍNGUA PORTUGUESA
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04 A personagem Fabiano, no seu circuito de fugas sem causas bem determinadas, torna-se cada vez mais fragilizada aos olhos da família. 08 O pensamento de sinha Vitória incita a curiosidade de Fabiano e ele percebe a realidade da seca transfigurada poeticamente. 16 Sinha Vitória, na narrativa, representa um elemento humano que possui um olhar capaz de compactar uma multiplicidade de imagens no sertão nordestino. 32 A narrativa deixa evidente um estilo pseudoacadêmico do narrador, que prevalecerá por toda a obra. Soma: As questões de números 3 e 4 tomam por base uma passagem do romance regionalista Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953).
Contas Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito. Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repente estourava: — Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa. Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia. Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros. Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria! O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que, o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra. (Graciliano Ramos. Vidas secas. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1974.)
3. Unesp Lendo atentamente o fragmento de Vidas secas, percebe-se que o foco principal é o das transações entre Fabiano e o proprietário da fazenda. Aponte a alternativa que não corresponde ao que é efetivamente exposto pelo texto. a) O proprietário era, na verdade, um benfeitor para Fabiano. b) Fabiano declarava-se “um bruto” ao proprietário. c) O proprietário levava sempre vantagem na partilha do gado. d) Fabiano sabia que era enganado nas contas, mas não conseguia provar. e) Fabiano aceitava a situação e se resignava, por medo de ficar sem trabalho. 4. Unesp Quem é do chão não se trepa. Fabiano emprega duas vezes este provérbio para retratar com certo determinismo sua situação, que ele considera impossível de ser mudada. Há outros que poderiam ser utilizados para retratar essa atitude de desânimo ante algo que parece irreversível. Na relação de provérbios abaixo, aponte aquele que não poderia substituir o empregado por Fabiano, em virtude de não corresponder àquilo que a personagem queria significar. a) Quem nasce na lama morre na bicharia. b) Quem semeia ventos colhe tempestades. c) Quem nasceu pra tostão não chega a milhão. d) Quem nasceu pra ser tatu morre cavando. e) Os paus, uns nasceram para santos, outros para tamancos. 5. Uerj De repente voltou-me a ideia de construir o livro. [...] Desde então procuro descascar fatos, aqui sentado à mesa da sala de jantar [...]. Às vezes, entro pela noite, passo tempo sem fim acor5 dando lembranças. Outras vezes não me ajeito com esta ocupação nova. Anteontem e ontem, por exemplo, foram dias perdidos. Tentei debalde canalizar para termo razoável esta 10 prosa que se derrama como a chuva da serra, e o que me apareceu foi um grande desgosto. Desgosto e a vaga compreensão de muitas coisas que sinto. Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. [...] Não tenho doença nenhuma. O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. 15 Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem LÍNGUA PORTUGUESA
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objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! [...] Coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante. Como lhes disse, fui guia de cego, vendedor de doce e trabalhador alugado. Estou convencido de que nenhum desses ofícios me daria os recursos intelectuais necessários para engendrar esta narrativa. Magra, de acordo, mas em momentos de otimismo suponho que há nela pedaços melhores que a literatura do Gondim. Sou, pois, superior a mestre Caetano e a outros semelhantes. Considerando, porém, que os enfeites do meu espírito se reduzem a farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece é bem mesquinha. [...] Quanto às vantagens restantes – casas, terras, móveis, semoventes, consideração de políticos, etc. – é preciso convir em que tudo está fora de mim. Julgo que me desnorteei numa errada.
jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta. Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu. Um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retomou a olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo – a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa. Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.
GRACILIANO RAMOS. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2004.
Analise as afirmativas a seguir: I. No fragmento do conto A terceira margem do rio, o leitor pode perceber que a linguagem utilizada pelo narrador tem especificidades que dão à narrativa um ritmo próprio e uma originalidade quando comparada a outros textos produzidos na mesma época, no Brasil. II. O narrador, um menino que presencia a partida do pai, também presencia a discordância da mãe em relação à atitude paterna. Em muitos momentos do conto, a linguagem do sertanejo, com seus trejeitos e modos, é enunciada pelo autor, confirmando seu estilo que merece sempre destaque. III. Os irmãos do narrador, mesmo diante da decisão do pai de ir embora, não esboçam qualquer reação. Eles sabem que o pai não voltará, mas não se importam. Essa declaração é confirmada pelo narrador do conto A terceira margem do rio, no momento em que ele diz: “Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu. Um adeus para a gente”. IV. O pai do narrador, embora diante das contrariedades da esposa: “Nossa mãe jurou muito contra a ideia”, não mudava de ideia: “Nosso pai nada não dizia”. Em razão da qualidade narrativa, da história, do enredo, da boa psicologia das personagens, o conto de Guimarães Rosa permite muitas interpretações, muitas impressões sobre a atitude do pai do narrador. V. A decisão do pai do narrador de sair de casa foi motivada pelo fato de não suportar mais a convivência com aquela família repleta de problemas, vivenciando muitos desafios a serem vencidos. Isso fica evidenciado na hora em que o narrador diz: “Ele só retomou a olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás.”
As palavras do narrador expõem a extensão de seu sofrimento na tomada de consciência que impulsiona a escrita de seu livro. Na tentativa de descrever a si mesmo e confessar suas culpas, o personagem-narrador muitas vezes parece dirigir-se ao leitor. Dos fragmentos transcritos abaixo, aquele que exemplifica esse diálogo sugerido com o leitor é: a) De repente voltou-me a ideia de construir o livro. (l. 1) b) Desgosto e a vaga compreensão de muitas coisas que sinto. (l. 11 e 12) c) Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo per feita saúde. (l. 13 e 14) d) Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. (l. 16 e 17) 6. UPE 2015
A terceira margem do rio Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente – minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa. Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns 20 ou 30 anos. Nossa mãe
ROSA, João Guimarães. “A terceira margem do rio”. In Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
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Estão CORRETAS a) I, II e III. b) I, II e IV. c) I, III e IV. d) II, III e IV. e) III, IV e V. 7. Unicamp-SP 2016 [...] E, páginas adiante, o padre se portou ainda mais excelentemente, porque era mesmo uma brava criatura. Tanto assim, que, na despedida, insistiu: — Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria... Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua. (João Guimarães Rosa, A hora e a vez de Augusto Matraga, em Sagarana. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001, p. 380.)
[...] Então, Augusto Matraga fechou um pouco os olhos, com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue, e de seu rosto subia um sério contentamento. Daí, mais, olhou, procurando João Lomba, e disse, agora sussurrando, sumido: — Põe a bênção na minha filha..., seja lá onde for que ela esteja... E, Dionóra... Fala com a Dionóra que está tudo em ordem! Depois morreu. (Idem, p. 413.)
a) O segundo excerto, de certo modo, confirma os ditos do padre apresentados no primeiro. Contudo, “a hora e a vez” do protagonista não são asseguradas, segundo a narrativa, pela reza e pelo trabalho. O que lhe garantiu ter “a sua hora e a sua vez”? b) “A hora e a vez” de Nhô Augusto relacionam-se aos encontros que ele tem com outro personagem, Joãozinho Bem-Bem, em dois momentos da narrativa. Em cada um desses momentos, Nhô Augusto precisa realizar uma escolha. Indique quais são essas escolhas que importam para o processo de transformação do personagem protagonista.
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Gabarito Exercícios complementares
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1. C
Capítulo 10 Revisando 1. O traje de losangos do personagem Arlequim da Commedia dell’arte, representativo de sua imagem contraditória e fragmentada, foi o que inspirou a capa da obra de Mário de Andrade. O livro é uma declaração de amor à cidade natal do poeta e, assim como o personagem irreverente, São Paulo resguarda uma variedade de pessoas, culturas, modos de vida e problemas típicos de uma metrópole.
Exercícios propostos 1. C 2. E 3. De acordo com Antonio Cicero, a arte do Modernismo brasileiro é caracterizada pela “reinvenção” do Brasil no passado, o que significa que os artistas modernos olharam para o passado do país a partir de uma outra perspectiva, valorizando o natural e primitivo em oposição à visão de que o passado do Brasil foi assinalado pela cultura da escravidão e pelo subdesenvolvimento. Oswald de Andrade, por meio de seu movimento Pau-Brasil, objetivou libertar a poesia das influências europeias e criar uma arte baseada no povo brasileiro e em suas características. Por meio da utilização de versos livres, de um “português” marcadamente brasileiro, da ausência de pontuação e do uso da linguagem coloquial e telegráfica, o poeta descrevia paisagens e cenas do dia a dia, como em “Uma jangada leva os teus homens morenos / De chapéu de palha”. Em nossa literatura, a transposição de técnicas de cinema foi inaugurada por Oswald de Andrade. No trecho “Dos hidroplanos de meu século / Frequentado rendez-vous / De Holandeses de Condes e de Padres / Que Amaralina atualiza / Poste das saudades transatlânticas / Riscando o ocre fotográfico”, “Torres coqueiros / Árvores transbordando em mangas-rosas / Até os navios ancorados”, é possível perceber a construção de cenas e a tentativa de descontinuidade com o objetivo de fazer parecer que as imagens ocorriam simultaneamente. A obra de Oswald de Andrade influenciou movimentos marcantes da cultura brasileira da década de 1960: o Concretismo e o Tropicalismo. 4. C 5. B
2. No texto de Guimarães Rosa, a imagem da cachoeira ilustra o conceito de que a realidade é composta da dualidade terra fixa e água, ou seja, uma não existe sem a outra. A frase “Viver é muito perigoso” surge como uma advertência de que, para sobreviver, é necessário manter o equilíbrio entre todas as formas de vida. No de Drummond, a referência a “mísero pó de ferro” alude não só à matéria-prima da indústria pesada da mineração, mas também àquela que, como membro do clã dos Andrades que viveu em Itabira, faz parte da maneira de ser do sujeito lírico e explica uma das características do seu estilo antissentimental. A linguagem coloquial plena de ironia seca, o sarcasmo e o humor desencantado com que sentimento e emoção são refreados seriam explicados pelo “mísero pó de ferro” que ficou impregnado em sua personalidade e influenciariam seu fazer poético. 3. a) Os “conselheiros” do Império, citados no poema de Drummond, são representantes de uma elite burguesa que se caracteriza pela insensibilidade social e alienação política, grupo em que está inserido também Brás Cubas, protagonista do romance de Machado de Assis. Entregues a futilidades e a prazeres imediatos, esquecem os verdadeiros dramas que os cercam, moldam sua vida de acordo com os interesses individuais de um mundo de aparências e experimentam o tédio e a angústia de quem não luta pela realização pessoal. b) Ao conjugar o passado imperial ao presente de seu próprio tempo, Drummond apresenta uma visão crítica e pessimista da História do Brasil, pois as atitudes da elite do sistema totalitarista de Getúlio imitam as da elite do século XIX no que diz respeito a frivolidade, alienação e provincianismo. 4. E 5. a)
O estilo do qual a poética de Vinicius de Moraes se aproxima é o Romantismo, pelas seguintes razões: ênfase no sentimentalismo; exagero na descrição das emoções; expressão do intimismo e da subjetividade; idealização do ser amado; valorização de aspectos da natureza.
b) O gênero literário predominante é o lírico. Há a centralidade do eu lírico na construção do poema, o predomínio do tom intimista, a criação de uma atmosfera e a fusão do sujeito com o objeto. 6. E
Exercícios complementares 1. C
3. D
5. E
2. A
4. E
6. A
Capítulo 12 Exercícios propostos 1. D
Capítulo 11
2. B 3. B
Revisando 1. B
7. E
4. C
2. D
5. E
Exercícios propostos
6. C
4. C
7. C
7. D
2. C
5. A
8. E
8. Soma: 02 + 08 + 16 = 26
3. A
6. D
9. C
9. A
1. A
LÍNGUA PORTUGUESA
GABARITO
22
Exercícios complementares 1. C 2. Soma: 01 + 02 + 08 + 16 = 27 3. A 4. B 5. C 6. B 7. a) Ao salvar inocentes da sanha vingativa de Joãozinho Bem-Bem, Nhô Augusto encontra também a redenção final, obtida com seu trabalho, sua reza e a fé de que teria sua hora e vez. Matraga dá a vida, como Cristo, pelos seus semelhantes. b) Nesse duelo fatal, os conceitos de bem e mal caem por terra, pois o "bom" Augusto Estêves e o "mau" Joãozinho Bem-Bem envolvem-se em uma ação que supera o maniqueísmo: o primeiro faz o bem à família cometendo assassinato, enquanto o segundo, ao assassinar o protagonista, dá-lhe sua redenção.
LÍNGUA PORTUGUESA
GABARITO
23
Resumindo
LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 2 1
Capítulo 11 − Pontuação: emprego e efeitos de sentido A pontuação em textos • A pontuação é um recurso gráfico próprio do texto escrito que auxilia o leitor a compreender aspectos do contexto de comunicação: pausa, hesitação, ironia, tomada de turno (em um diálogo) etc.
• Sintaticamente, a pontuação ajuda a organizar as ideias em núcleos informacionais, facilitando a compreensão textual.
• Os sinais de pontuação permitem: a) recuperar a intenção comunicativa do enunciador; b) definir a entonação mais adequada no momento da leitura; c) separar elementos intercalados em uma frase; d) organizar orações em períodos compostos.
Usos da vírgula I • A vírgula pode ser utilizada, no interior das orações, para: a) separar elementos de mesma função sintática, enumerados em uma sentença;
• Expressa o estado emocional de um interlocutor: tristeza, alegria, pena, surpresa etc.
• O uso da exclamação indica para o leitor/escritor a entonação adequada à expressão de sentimentos.
• Pode evidenciar uma surpresa (não explícita) quando utilizado de forma isolada em tirinhas e histórias em quadrinhos.
Ponto de interrogação
• Usado ao final de frases interrogativas. • Marca uma pergunta direta (espera-se obrigatoriamente uma resposta).
• Marca uma pergunta retórica (não se espera, de fato, uma resposta).
• Pode evidenciar uma dúvida (não explícita) quando utilizado de forma isolada em tirinhas e histórias em quadrinhos.
Dois-pontos
• Introduz, em textos literários, a fala de personagens. • Introduz palavras, expressões ou orações que evidenciam uma explicação ou enumeração.
b) isolar termos repetidos;
Travessão
c) demarcar um termo em frases com ordem indireta;
• Marca, em textos literários, o diálogo entre personagens. • Separa, em textos literários, a fala da personagem da fala do
e) isolar o vocativo; f) isolar o aposto; g) separar local em datas; separar números em endereços; h) separar termos ligados por conjunções coordenadas repetidas.
Usos da vírgula II • Em períodos compostos, a vírgula tem outras finalidades:
narrador.
• Destaca um esclarecimento no interior (travessão duplo) ou no final (travessão simples) de uma frase.
Aspas
• As aspas podem ter diferentes funções em um texto: a) demarcar diálogo ou fala; b) destacar um termo ou expressão;
a) separar orações coordenadas assindéticas (não ligadas por conjunções);
c) indicar citação;
b) separar orações coordenadas sindéticas que estabelecem relação de oposição, alternância, explicação ou conclusão;
e) sinalizar título de obra;
c) separar termos explicativos entre orações; d) separar orações coordenadas sindéticas unidas pela conjunção “e” (quando não tem valor aditivo, quando os sujeitos são diferentes e quando a conjunção se repete); e) separar orações subordinadas adverbiais quando vêm antes da oração principal ou quando estão intercaladas; f) separar orações subordinadas adjetivas explicativas; g) marcar supressão de uma ou mais palavras.
Outros sinais de pontuação
d) indicar ironia; f) demarcar gíria, neologismos, palavras estrangeiras ou desvios da norma-padrão da língua.
Ponto e vírgula
• Representa no texto um fechamento parcial de uma ideia. • Relaciona orações de mesma natureza, que tratam de um assunto em comum.
• Relaciona orações coordenadas adversativas, desde que a conjunção adversativa venha deslocada.
• Separa uma oração de outra, quando, nesta segunda, foi usada uma vírgula (que, em geral, marca a omissão de um termo).
Ponto-final
• Separa itens enumerados em um texto.
• Usado ao final de frases declarativas, evidenciando a afirma-
Reticências
ção ou a negação de uma ideia.
• Marca o fechamento de uma ideia, mostrando a completude de uma informação.
Ponto de exclamação
• Usado ao final de frases exclamativas.
• As reticências podem ser utilizadas para indicar: a) a continuidade de uma ideia;
FRENTE 1
d) isolar um adjunto adverbial anteposto ou intercalado;
b) o destaque de uma ideia; c) a hesitação comum na fala; d) a supressão de partes de um texto; LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 1
1
e) a necessidade de completar uma informação;
Pontuação expressiva
f) a interrupção de pensamento;
• Os sinais de pontuação podem ser utilizados em textos para
g) a continuidade da frase (de um quadro a outro em tirinhas, por exemplo).
Parênteses
• Os parênteses podem ser utilizados para:
criar suspense, indicar tensão, dúvidas, emoções etc.
• Em alguns enunciados, o uso ou não da vírgula pode levar à alteração de sentido.
• É preciso estar atento a problemas de compreensão relacionados a questões sintáticas: vocativo é separado da sentença por vírgula; o sujeito, não. Alguns textos podem “brincar” com isso para gerar efeito de humor.
a) acrescentar uma informação no texto, referente a algo mencionado anteriormente; b) evidenciar uma explicação de um termo antecedente;
• Sinais de pontuação triplicados (como três interrogações ou três exclamações) podem evidenciar mais que uma simples pergunta ou expressão de um sentimento: são sinais de algo mais enfático (revolta, indignação, surpresa etc.). É importante, no momento da leitura, perceber a entonação mais adequada para remeter ao sentido expresso pela pontuação.
c) separar o advérbio latino sic do restante da sentença; d) marcar um apagamento textual (supressão de informação), quando combinado com os três pontos.
Colchetes
• Os colchetes podem evidenciar alterações no texto original.
• Os sinais de pontuação que evidenciam a interação entre os sujeitos (marcam diálogos) são: ponto de interrogação, ponto de exclamação, reticências e dois-pontos (antes de fala).
Eles podem ser usados para: a) destacar um esclarecimento referente a uma palavra ou a um trecho citado; b) mostrar que uma informação foi inserida pelo autor do texto que está sendo lido e não pelo autor do trecho citado;
• Os sinais de pontuação que evidenciam a presença da ideia de outros (marcam o discurso alheio) são: aspas (de diálogo ou de ironia) e travessão (de fala).
• Os sinais de pontuação que evidenciam a presença de discursos intercalados (organizam o texto) são: parênteses, colchetes, travessão (duplo), vírgulas (separando explicações) e dois-pontos (destacando ideias).
c) introduzir no texto uma informação nova e demarcar a autoria; d) marcar um apagamento textual (supressão de informação), quando combinado com os três pontos; e) separar o advérbio latino sic do restante da sentença.
• Pagar, perdoar: são transitivos diretos quando o seu complemento se refere à coisa, e transitivos indiretos (preposição “a”) quando o complemento se refere à pessoa. Podem também ser transitivos diretos e indiretos.
Regência verbal É a relação de dependência entre o verbo e o seu complemento, que se estabelece por meio de preposição ou não. Alguns verbos que podem gerar dúvidas de regência verbal são:
• Abdicar: significando “rejeitar”, “desistir” rege, em geral, a preposição “de”.
• Pedir: pede-se a ou para alguém alguma coisa ou que faça alguma coisa.
• Preferir: é transitivo direto e indireto e rege a preposição “a”. • Visar: significando “objetivar”, “ter em vista” rege ou não a preposição “a”.
• Aspirar: significando “desejar”, “almejar” rege a preposição “a” ou “por”.
• Assistir: significando “presenciar”, “ver” rege a preposição “a” e só aceita pronome tônico como complemento; significando “caber”, “competir” rege a preposição “a” e admite pronome átono como complemento; significando “acompanhar”, “prestar assistência” usa-se ou não a preposição “a”.
• Chamar: significando “fazer”, “mandar ir ou vir” é transitivo direto; significando “bradar”, “clamar” rege a preposição “por”; significando “tomar para si”, “assumir” rege a preposição “a”.
Regência nominal É a relação de dependência entre um substantivo, adjetivo ou advérbio e os seu(s) complemento(s). Essa relação é sempre marcada por alguma preposição. Alguns casos que podem gerar dúvidas de regência nominal:
Substantivos e adjetivos
• regem a preposição “a”: adepto, indiferente, alheio, junto, refe-
• Chegar, dirigir-se, ir, retornar, voltar: regem a preposição “a” (com o sentido “ir e voltar” também se usa a preposição “para”).
• Implicar: significando “resultar”, “ser a causa de” não se usa
•
preposição; significando “envolver”, “comprometer” é transitivo direto e indireto e rege a preposição “em”; significando “antipatizar”, “mostrar-se impaciente” rege a preposição “com”.
•
• Morar, residir, situar-se, estabelecer-se: regem a preposição
•
“em”.
• Obedecer, desobedecer: regem a preposição “a”, tanto para coisa quanto para pessoa, e aceitam o pronome “lhe” como complemento para pessoa, e “a ele(s)/as” para coisa.
• •
rente, simpatia, favorável, tendência, imune, paralelo, relativo, acessível, adequado, desfavorável, equivalente, insensível, obediente. regem a preposição “de”: junto, próximo, imune, contente, capaz, incapaz, digno, indigno, passível, contemporâneo. regem a preposição “com”: junto, feliz, contente, amoroso, compatível, cruel, cuidadoso, descontente. regem a preposição “em”: feliz, entendido, indeciso, lento, morador, hábil. regem a preposição “para”: ansioso, inútil, bom. regem a preposição “por”: ansioso, aversão, feliz, simpatia, contente, responsável. LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 1
FRENTE 1
Capítulo 12 − Regências verbal e nominal
2
Advérbios Os advérbios terminados em -mente seguem a mesma regência dos adjetivos de que são originados. Exemplos:
• relativo a – relativamente a • semelhante a – semelhantemente a • favorável a – favoravelmente a
• análogo a – analogamente a
Os advérbios “perto” e “longe” são seguidos da preposição “de”.
Capítulo 13 − Crase A crase é a fusão de dois sons idênticos. Na escrita, é marcada com o acento grave (`). Observe:
a (preposição)
1
a (artigo)
ñ
à
1
aquele aquela aquilo (pronome demonstrativo)
ñ
àquele àquela àquilo
1
a qual (pronome relativo)
ñ
à qual
Ocorre crase Regras
Exemplos
Antes de palavras femininas, quando houver um vocábulo que exija a preposição “a”.
Raíssa foi à loja ontem.
Antes de números que indicam hora determinada.
Roseli chegou às três horas da manhã.
Antes de nome de lugar, desde que admita o uso do artigo feminino “a”.
Aline vai à Bahia/Aline volta da Bahia.
Na expressão “às vezes” com sentido “de vez em quando”.
Às vezes, Débora fica muito chateada.
Antes de palavras no plural especificadas por um artigo feminino.
Refiro-me às cortinas da vovó Cecília.
Antes dos pronomes de tratamento “senhora”, “senhorita”, “madame” e “dona”.
Peço perdão à senhorita Ivete.
Entre números, se antes do primeiro termo houver o artigo feminino “a”.
A prova de Arlete será da sala 7 à 10.
Em locução conjuntiva formada por palavra feminina.
Helena ficava mais cansada à medida que corria.
Em locução adverbial feminina de modo, tempo ou lugar.
Helena saiu à noite.
Em locução prepositiva formada por palavra feminina.
Renato ficou à beira da morte.
Em pratos culinários em que se subentende a expressão “à moda de”.
Hélio adora macarrão à bolonhesa.
Na locução “à moda de”, ainda que subentendida, inclusive antes de palavra masculina.
Lis usou um vestido à moda parisiense. Lis usou um vestido à parisiense. Lis usou um vestido à Victor Valentim.
Não ocorre crase
Antes de palavras masculinas. Quando a indicação de hora vier precedida das preposições “após”, “até”, “desde”, “entre” ou “para”.
Exemplos Denise foi a pé até o shopping. Adriano chegará entre as 12h e 13h.
Antes de nome de lugar que não admite o uso do artigo feminino “a”.
Carol vai a Salvador. Ela volta de Salvador.
Na expressão “as vezes” com sentido de “momentos”, “ocasiões”.
Fico triste todas as vezes que não te vejo.
Antes de palavras no plural que têm sentido genérico e que não são especificadas por um artigo feminino.
Refiro-me a cortinas de seda.
Em pratos culinários em que não se subentende a expressão “à moda de”.
Paulo não gosta de frango a passarinho.
Antes da maioria dos pronomes de tratamento.
Peço perdão a Vossa Excelência.
Entre números, se antes do primeiro número não houver o artigo feminino “a”.
A prova da OAB será de 4 a 7 de março.
Em expressões com palavras repetidas.
Fátima o viu face a face.
Antes de verbo.
Isabel sai a caminhar quando quer. LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 1
Regras
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Antes de palavras com sentido indefinido – artigos ou pronomes.
O carro de Marcos veio a toda velocidade.
Antes de pronomes pessoais.
Saulo disse a ela que era tudo mentira. Queria saber a quem ela puxou!
Antes de pronome interrogativo. a
a
Antes de pronome demonstrativo de 1 e 2 pessoas.
Leonardo está disposto a isto!
Entre dias da semana ou meses do ano.
As matrículas ocorrem de janeiro a março.
Uso facultativo Regras
Exemplos
Depois da locução prepositiva “até a”.
Moisés foi até à/até a escola.
Antes de pronomes possessivos femininos.
Bruno, fique atento à/a nossa palestra.
Antes de nomes próprios femininos de pessoa próxima.
Dei um presente à/a Camila.
Obs.: Para nomes de pessoas famosas com as quais não se tem intimidade, não se deve utilizar o acento grave.
A atriz se referia a Cláudia Raia.
Outras ocorrências Ocorre crase Antes da palavra “casa”, desde que ela seja modificada por um termo qualitativo (adjetivo ou locução adjetiva). Ex.: Fui à casa de Marina.
Não ocorre crase Se a palavra “casa” indicar “lar” ou não houver nenhum termo que a especifique, não haverá crase. Ex.: Voltar a casa é o melhor a fazer depois do trabalho.
Antes da palavra “terra”, se ela estiver acompanhada por um especifiQuando a palavra “terra” for empregada no sentido de “chão”, “terra cador (adjetivo ou pronome), ou se fizer referência ao nome do planeta. firme”. Nesses casos, nunca vem especificada. Ex.: O navegante retornou à terra natal./ O astronauta voltou à Terra. Ex.: Os navegantes retornaram a terra. Se a palavra “distância” for determinada numericamente. Ex.: Vi você à distância de 100 m.
Se a palavra “distância” não estiver especificada numericamente. Ex.: Vi você a distância.
Se a expressão “à vista” for empregada com o sentido de “no ato da compra”, “diante dos olhos”. Ex.: Vou comprar o imóvel à vista.
Se “a vista” for sinônimo de “visão”. Ex.: A vista já está cansada.
• O acento grave pode ser utilizado em locuções sem que o fenômeno da crase aconteça, ou seja, sem que ocorra a fusão da preposição e do artigo feminino. Por exemplo, na locução “à vista” pode ser utilizado o acento grave, apesar de este não demarcar necessariamente o fenômeno da crase; trata-se de uma convenção de acentuação, pois a norma-padrão afirma ser admissível o uso do acento grave em locuções adverbiais de modo formadas por um substantivo feminino.
Expressões com ambiguidade
• Em algumas locuções adverbiais, o acento grave pode ser utilizado para evitar a ambiguidade. Ex.: Ela cheira a flor de jasmim. (ela aspira o perfume da flor)/Ela cheira à flor de jasmim. (ela tem o perfume da flor).
Conceito e princípios gerais O verbo tem a morfologia mais rica entre as classes de palavras, desempenhando um papel fundamental na organização da sentença e do texto.
Estrutura e conjugação dos verbos O verbo é formado obrigatoriamente por um radical geralmente invariável, ao qual são acrescidos os sufixos modo-temporais e o os sufixos número-pessoais. Em língua portuguesa, há três tipos de conjugação verbal, que são definidas pela vogal temática de cada verbo:
• 1ª conjugação: vogal temática “a” (ex.: amar); • 2ª conjugação: vogal temática “e” (ex.: correr); e
• 3ª conjugação: vogal temática “i” (ex.: partir). Para cada conjugação, existe um modelo de flexão, isto é, um paradigma verbal que orienta a conjugação da maioria dos verbos. Quanto à regularidade desse paradigma, os verbos são classificados em:
• Regulares: são aqueles em que o radical permanece o mesmo em todas as formas verbais. Ex.: cantar.
• Irregulares: são os verbos cujos radicais se alteram ou cujas terminações não seguem o modelo da conjugação a que pertencem. Ex.: ouvir.
• Defectivos: são aqueles que não têm todas as conjugações. Ex.: abolir e reaver.
• Anômalos: suas conjugações incluem mais de um radical. Ex.: ser: (sede, era etc.) e ir (vou, fui, irei etc.).
• Abundantes: apresentam duas ou mais formas equivalentes. Ex.: aceitar (aceitado e aceito). LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 1
FRENTE 1
Capítulo 14 − Verbo I: propriedades gramaticais e semânticas
4
Classificação semântica e formas nominais do verbo Do ponto de vista das propriedades semânticas, existem: verbos significativos (por si só expressam um conteúdo semântico, uma noção, um significado) e verbos não significativos, ou de estado (expressam uma condição de algo ou alguém). No ordenamento sintático, os verbos significativos são classificados como:
• transitivos: necessitam de um complemento verbal direto ou indireto (com preposição). • intransitivos: apresentam sentido completo, não necessitando de complementos. • de ligação: estabelecem relação entre o sujeito e uma característica a ele atribuída. As formas nominais do verbo não sofrem influência direta do tempo e não têm sujeito, podendo funcionar como substantivo ou adjetivo. As formas nominais são: infinitivo (ex.: amar), gerúndio (ex.: amando) e particípio (ex.: amado).
Flexões verbais e perífrase verbal Os verbos podem variar em:
• • • • • •
modo: indicativo (sentido de certeza), subjuntivo (sentido de dúvida) e imperativo (sentido de ordem). tempo: presente, pretérito perfeito, imperfeito e mais-que-perfeito e futuro do presente e do pretérito. pessoa: primeira, segunda e terceira pessoa (singular e plural). número: singular e plural. voz: ativa, passiva e reflexiva.
aspecto: durativo, conclusivo, habitual e incoativo. A perífrase verbal é quando um verbo auxiliar e um verbo pleno se reúnem na mesma sentença. Ex.: Ele deve estudar esse ano.
Formação dos tempos e modos verbais Os modos verbais são as diferentes formas que o verbo assume para indicar a atitude (de certeza, de dúvida ou de ordem) do sujeito que fala em relação ao que ele enuncia. São eles:
• Indicativo (certeza). Ex.: Eu estudo todos os dias. • Subjuntivo (dúvida). Ex.: Talvez eu estude todos os dias. • Imperativo (ordem). Ex.: Estude todos os dias. Os tempos verbais são definidos pela relação entre o ponto de referência do locutor e a anterioridade, posterioridade ou simultaneidade do acontecimento verbal. O ponto de referência pode estar no presente, no passado ou futuro. Tempo
Emprego
Presente perfeito
INDICATIVO
Pretérito
Indica ação concluída no passado.
[eu] cantei
composto
Indica uma ação que se estende até o presente.
[eu] tenho cantado
Indica uma ação passada não concluída completamente.
[eu] cantava
simples composto
Indica uma ação passada anterior a outra ação passada.
[eu] cantara [eu] tinha cantado [eu] cantarei
composto
Indica uma ação futura anterior a outra futura.
[eu] terei cantado
simples
Indica uma ação posterior a outra passada.
[eu] cantaria
composto
Indica posterioridade de uma ação incerta em relação a um ato anterior.
[eu] teria cantado
Indica simultaneidade associada à noção de incerteza ou desejo.
que [eu] cante
perfeito
Indica anterioridade de uma ação incerta concluída antes de outra.
que [eu] tenha cantado
imperfeito
Indica anterioridade associada à noção de incerteza ou desejo.
se [eu] cantasse
mais-que-perfeito
Indica anterioridade remota, associada à noção de incerteza ou desejo.
se [eu] tivesse cantado
Indica posterioridade associada à noção de incerteza, possibilidade, em orações subordinadas.
quando [eu] cantar
do pretérito
Presente
SUBJUNTIVO
simples
simples
Futuro
Futuro
[eu] canto
Indica uma ação futura sem estabelecer relação com outro fato.
do presente
Pretérito
Indica uma ação simultânea ao momento da fala.
imperfeito mais-que-perfeito
Desinência
simples composto
quando [eu] tiver cantado
LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 1
FRENTE 1
Modo
5
IMPERATIVO
Afirmativo
Indica uma ordem.
Canta [tu]
Negativo
Indica uma ordem negativa.
Não cantes [tu]
Valores semânticos e correlação verbal Os verbos não só expressam um tempo verbal, mas também criam situações de comunicação: narração ou comentário.
• Narração: uso dos tempos verbais do pretérito. O narrador exige pouco do interlocutor, colocando-o em uma posição passiva. • Comentário: uso dos tempos verbais do presente e do futuro. O locutor se compromete mais com o que enuncia e exige participação ativa do interlocutor. A correlação verbal é a harmonia entre as formas verbais expressas em um período. A seguir, algumas correlações convencionadas:
• Presente do modo indicativo + pretérito perfeito composto do modo subjuntivo. Ex.: Creio que ele tenha estudado para a prova.
• Presente do modo indicativo + presente do modo subjuntivo. Ex.: Espero que você estude para a prova.
• Pretérito perfeito do indicativo + pretérito imperfeito do subjuntivo. Ex.: Pedi a ele que estudasse para a prova.
• Pretérito imperfeito do modo indicativo + pretérito mais-que-perfeito composto do modo subjuntivo. Ex.: Queria que ela tivesse estudado para a prova.
• Futuro do pretérito do modo indicativo + pretérito mais-que-perfeito composto do modo subjuntivo Ex.: Gostaria que ele tivesse estudado para a prova.
• Pretérito imperfeito do subjuntivo + futuro do pretérito do indicativo. Ex.: Se você estudasse para a prova, eu ficaria orgulhoso.
• Pretérito mais-que-perfeito composto do subjuntivo + futuro do pretérito composto do indicativo. Ex.: Se você tivesse estudado para a prova, eu teria visto.
• Futuro do subjuntivo + futuro do presente do modo indicativo. Ex.: Se você estudar para a prova eu ficarei contente.
• Futuro do subjuntivo + futuro do presente composto do indicativo. Ex.: Quando você vier em minha casa, já terei estudado.
• Futuro do subjuntivo + futuro do presente do modo indicativo.
FRENTE 1
Ex.: Quando você estudar para a prova, ficarei muito orgulhoso.
LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 1
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LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 2
Capítulo 10 − Heróis do Modernismo no Brasil • Mário de Andrade e Oswald de Andrade foram dois autores
Pauliceia Desvairada. O autor desenvolveu intensa pesquisa sobre a cultura e o folclore nacional, condensados em sua obra Macunaíma, publicada em 1928.
modernistas envolvidos com os preparativos da Semana de Arte Moderna. Manuel Bandeira não participou da ocasião diretamente, mas enviou seu poema “Os sapos”, declamado por Ronald de Carvalho na abertura do evento.
• Oswald de Andrade foi um dos autores mais irreverentes do
• Os três autores são considerados os heróis do Modernismo,
• Manuel Bandeira foi o poeta do cotidiano que revelou o su-
pois suas produções, embora apresentem singularidades, são a síntese da ruptura modernista.
• Mário de Andrade apresentou as intenções do movimento em seu “Prefácio Interessantíssimo”, publicado em 1922 no livro
Capítulo 11 − O Modernismo no Brasil: a poesia mística e social Carlos Drummond de Andrade • A poesia da segunda fase do Modernismo no Brasil, produzida a partir da década de 1930, encontra-se em um contexto conturbado entre as duas guerras mundiais e a tensão da ditadura do Estado Novo da Era Vargas.
• Os autores da Poesia de 1930, embalados pela liberdade formal característica da primeira fase modernista, procuram, agora, posicionar-se de maneira engajada diante das questões sociais de seu tempo.
• Além da denúncia social, outros aspectos presentes nas pro-
Modernismo, cuja obra se desdobrou em poemas, manifestos, romances, peças teatrais. O Manifesto Antropófago é a síntese da deglutição cultural modernista. blime por meio de sua poesia da simplicidade, mediante a emoção intensa do alumbramento. Sua obra mais representativa dos objetivos modernistas é Libertinagem, publicada em 1930.
• A segunda fase é conhecida como fase negra ou regional e é inspirada por uma onda de brasilidade.
• Nesse período, o autor adotou versos brancos e livres, conferindo por meio deles algumas particularidades da região Nordeste a seus poemas.
• Sua última fase é conhecida como épica. A obra de destaque desse período é A invenção de Orfeu.
• A obra de Jorge de Lima é complexa e enigmática, apresenta diversas referências simbólicas, literárias e mitológicas.
Murilo Mendes • Sua obra apresenta como características o nacionalismo, o folclore, o coloquialismo, o humor, o poema-piada e a paródia.
duções poéticas são: teor místico, caráter religioso e temas associados à efemeridade da vida e à morte.
• A produção poética de Murilo Mendes dialoga com a de Mário
• Carlos Drummond de Andrade, um dos poetas mais influentes
• Seus poemas têm influência do Surrealismo. • Após a conversão ao catolicismo, a produção do autor ganha
do século XX, tem sua obra dividida em três fases: gauche, social e filosófica.
• A primeira fase da poética drummondiana aproxima-se das características irreverentes da primeira geração modernista.
• A fase social está atrelada ao contexto político e social do Brasil e do mundo.
• A fase filosófica apresenta reflexão e um tom pessimista diante do fazer poético.
Cecília Meireles • Representante da vertente espiritualista do Modernismo. • Poemas de tom intimista e religioso, pautados por uma linguagem próxima à abstração musical e fluidez onírica.
• Em sua obra, são temas recorrentes: o amor, o tempo, a morte e a eternidade.
• Romanceiro da Inconfidência é considerado sua obra-prima. Ela se organiza em romance, cenários e falas e mostra influência do Arcadismo. Nos poemas, a autora reconta um episódio histórico brasileiro: a Inconfidência Mineira.
Jorge de Lima • A primeira fase da produção poética tem influências parnasianas e simbolistas.
de Andrade e Oswald de Andrade.
um tom mais religioso e espiritualista, permeado de esperança.
• Na obra de Murilo Mendes, a poesia apresenta uma ambiguidade marcada por salvação e martírio. Nesse sentido, a dualidade e a visão dicotômica do mundo são características de sua obra.
Vinicius de Moraes • Produção poética dividida em duas fases: a cristã e a materialista/cotidiana.
• Na primeira fase, fortes tendências místicas e transcendentais, além de certo tom religioso conferido pela formação católica do autor.
• Na segunda fase, de tom mais sensual e erótico, os poemas retratam um amor cotidiano.
• Assim como os outros poetas de sua geração, parte de sua produção evidencia uma preocupação com questões sociais.
• Vinicius ajudou a criar o movimento musical Bossa Nova. • Uma das formas de maior destaque de sua obra é o soneto camoniano, mas trabalhado pelo poeta com uma linguagem mais coloquial.
LÍNGUA PORTUGUESA
FRENTE 2
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Resumindo
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Capítulo 12 − Modernismo: do regionalismo de 1930 ao experimentalismo de 1945
José Lins do Rego • Suas obras têm traços autobiográficos, misturando memórias
Rachel de Queiroz • Autora importante para o romance regionalista, publicou
• Usava discurso indireto livre e linguagem poética.
O quinze aos 20 anos de idade. A obra narra a grande seca ocorrida em 1915 no Nordeste brasileiro.
• Usava linguagem objetiva, simples, sem artifícios para sensibilizar o leitor.
e registros em suas composições.
Graciliano Ramos • Teve equilíbrio entre a investigação dos problemas sociais e •
• Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.
Jorge Amado • Escritor popular entre leitores brasileiros e estrangeiros. • Suas primeiras obras têm cunho político e social mais marcado. • Ajudou a criar um imaginário coletivo do país. • Teve forte atuação política e inclinação comunista. • Erotismo e sensualidade são marcas de sua prosa. Erico Verissimo • Autor tão popular quanto Jorge Amado. • Suas primeiras obras são observações da sociedade urbana do Rio Grande do Sul.
• • • •
a análise psicológica de suas personagens. Suas obras abordaram aqueles que abandonaram o sertão em busca de uma vida diferente, bem como aqueles que permaneceram lutando com a aridez do espaço. Tinha um estilo seco, conciso e econômico nos adjetivos. O autor priorizou a objetividade e a clareza em sua narrativa. São Bernardo, romance narrado em primeira pessoa, apresenta as memórias do narrador-protagonista Paulo Honório. Angústia, romance em primeira pessoa, conta a história de Luís da Silva, um funcionário público tímido e solitário que vive em uma casa velha em um bairro pobre. Vidas secas, único romance em terceira pessoa, narra a história de uma família que foge da seca do Sertão nordestino.
Guimarães Rosa • Destacou-se pela forma singular e inventiva com que trabalhava a linguagem.
• A inventividade de sua linguagem surgiu da mistura de vários
nalista, pois apresenta a busca pela formação da identidade e do território gaúcho.
componentes, como o falar regional e o uso de recursos poéticos, neologismos e aforismos.
FRENTE 2
• A trilogia O tempo e o vento faz parte de sua produção regio-
LÍNGUA PORTUGUESA
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